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sexta-feira, 21 de junho de 2013

Turquia, Um País dividido

Liberais seculares e muçulmanos praticantes temem “islamização” da Turquia; enquanto os radicais acham que o governo faz pouco. 
 
Por Gianni Carta, de Istambul, publicado 21/06/2013

Terminados os violentos confrontos entre as forças policiais e manifestantes que durante três semanas pediam a demissão do premier Recep Tayyip Erdogan, reina uma atmosfera surrealista. De saída, o país está isolado. Diante da brutalidade das forças policiais contra os manifestantes, a chanceler alemã Angela Merkel encabeça o movimento para rejeitar a Turquia no seio da União Europeia (UE). Egemen Bagis, o ministro turco para a UE, rebateu: “A Turquia não precisa da UE, a UE precisa da Turquia. Se quiséssemos poderíamos dizer: some daqui, menino”.
Segundo o cientista político Tolga Demiryol, da Universidade Kemerburgaz de Istambul, a Turquia está parcialmente dividida entre muçulmanos laicos, ou moderados, e os favoráveis à islamização do país. “Os turcos seculares ainda são em sua maioria muçulmanos autoidentificados, embora haja uma crescente presença de ateus e agnósticos, para não mencionar os crentes não muçulmanos, que são seculares no dia a dia.” No entanto, “existem vários grupos de ativistas políticos formados por muçulmanos devotos e críticos em relação à política religiosa do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (o AKP de Erdogan, única legenda a governar o país), que procura promover a uniformidade em vez de diversidade na sociedade”. O AKP faz isso, acredita Demiryol, através de leis seculares adotadas desde a fundação do país, em 1923, por Mustafa Kemal Atatürk. Erdogan apela, porém, para uma retórica populista ao chamar os manifestantes de kemalistas, as velhas elites republicanas, representadas por ricos e generais, ou seja, seculares que nunca aceitaram o AKP.  Não é bem assim. Nas manifestações na Praça Taksim há desde estudantes até mulheres idosas com véus.
Os protestos começaram de forma pacífica no fim de maio. Ambientalistas opunham-se à construção de um centro comercial no Parque Gezi, uma das raras áreas verdes da cidade situada nas proximidades da Praça Taksim, no centro de Istambul. Na sexta-feira 31, as forças policiais fecharam as entradas do Parque Gezi e atacaram com truculência. “Foi por conta desse ato de brutalidade que muita gente aderiu à causa”, diz Ali, à mesa de um café. Ele e seis outros colegas, bastante afinados durante os protestos, têm entre 20 e 30 e poucos anos. Todos têm empregos bem remunerados, diplomas universitários e são articulados em inglês. “Mas as grandes demonstrações não aconteceram por conta de árvores que seriam ou serão derrubadas”, intervém Berrak, esguia professora de pilates. Simla concorda: “Sempre desconfiamos de que Erdogan tinha uma agenda islamita, mas agora está claro”.
Simla lista algumas das “reformas” realizadas por Erdogan: álcool não pode ser vendido entre as 10 da noite e as 6 da manhã, casais deveriam ter no mínimo três filhos, mas o ideal seriam cinco. Nesse contexto, a pílula do aborto foi banida. A mídia é controlada. Terminado este seu terceiro mandato, Erdogan não poderá mais ocupar o cargo, e por isso arti­cula uma reforma constitucional para transformar o regime parlamentar em presidencialista. Ele, é claro, seria o presidente, que por ora tem poderes limitados.
Todos os presentes no café concordaram, que nos primeiros mandatos, Erdogan fez um bom trabalho. Numerosos liberais laicos e muçulmanos moderados votaram no atual premier, há dez anos no poder, pelo fato de ser ele favorável ao mercado livre. A despeito da crise na Europa, a Turquia deverá crescer pouco mais de 4% neste ano. Liberais também apreciaram o fato de Erdogan querer integrar a Turquia na UE, e de ter reduzido o poder dos militares. Sim, esses eleitores sabiam que o carismático Erdogan foi preso em 1998 após ter lido um poema a incitar islâmicos radicais. Mas pensavam, na sua primeira vitória em 2002, que ele se tornara mais pragmático.
Não tem sido o caso no seu terceiro mandato. No entanto, Demiryol lembra que a Turquia nunca teve uma democracia “verdadeira”. Ela surgiu apenas em 1950, mas foi interrompida pelo menos três vezes por golpes militares. “Intervenções fardadas e seus subsequentes regimes atrofiaram o desenvolvimento da sociedade civil.” Ali, no café, concorda. “Mas tivemos liberdade anos a fio.” Berrak, a professora de pilates, indaga: “E quem é esse homem que nos trata como terroristas a fazer parte de uma conspiração internacional e que lança gás lacrimogêneo de helicópteros?” Berrak, diga-se, sofre de asma. Na noite de sábado 15 e na madrugada de domingo, apenas duas horas após o discurso de Erdogan, que parecia conciliatório, a polícia voltou a atacar na Praça Taksim e as ruas adjacentes. Turistas, crianças e manifestantes foram pegos de surpresa, inclusive em um hotel de luxo onde feridos recebiam tratamento médico. Asmática, Berrak teve um ataque de cinco minutos, mesmo com máscara. “Pensei que fosse morrer.”
Após esse evento, a polícia venceu, pois, como explica Ceni, “conseguiu dispersar o povo para as ruas nas proximidades da praça e assim os prenderam, enquanto outros fugiram”. Houve, é verdade, as greves nacionais de sindicalistas na segunda-feira 17. Um deles, cético diante do atual quadro, previu: “Acho que este vai ser o último protesto, precisamos nos reorganizar”. Simla observa: “Fizemos o que pudemos. Mas agora sabemos que temos poder. E poderemos voltar a agir”.
No distrito de Bagcilar, a apenas 10 quilômetros da Praça Taksim, estamos na chamada grande Istambul, cidade de 15 milhões de habitantes. Diante de bares, mulheres a trajar véus ou burcas sentam em cadeiras de plástico longe dos grupos de homens. Toma-se chá, cerveja não. “Acabaram os protestos, graças a Deus. Tayyip tem razão: não passam de um bando de terroristas a colaborar com a mídia internacional”, diz um comerciante. Há também intele­ctuais que pensam como o comerciante. O professor de Economia Mumin Erturk, da Universidade Arel de Istambul, opina: “Erdogan tinha de agir. Você não pode deixar essa gente quebrar tudo”. Argumento, sem convencer o interlo­cutor, que os protestos foram pacíficos. “Se Erdogan fizer algo de errado serei o primeiro a ir contra ele. Mas a economia vai de vento em popa.” O risco, digo, é um governo instável que poderia afugentar os investidores que financiam o déficit em conta corrente do país. Erturk: “Isso é tudo passageiro”. Para ele, as manifestações tiveram o apoio de estrangeiros. A razão? “A concorrência econômica com a Turquia. Estrangeiros não querem, entre outros, que tenhamos uma usina ­nuclear com os russos. Também não gostam da ideia de construirmos uma terceira ponte sobre o Bósforo, que seria fundamental para o comércio entre a Ásia e a Europa.”
Na Praça Taksim, deparo-me com um novo tipo de desafio ao governo. Seria aplaudido por Kafka. Trata-se de uma forma de resistência passiva, iniciada pelo coreógrafo Erdem Gunduz na segunda-feira 17, um dia após o ataque das forças policiais que evacuou os manifestantes da Praça Taksim. De pé, transeuntes são convidados a fixar seus olhares no Centro  Cultural Atatürk, que fica logo adiante. A encenação chama-se “homem de pé”.
Um senhor de cabelos brancos diz: “Não quero falar. Faço isso em homenagem ao homem de pé”.  Outro, este com um violão, olhar fixo na conspícua imagem de Atatürk, com um aceno aceita ser fotografado. Uma moça, a ler de pé, explica: “Estou lendo”. Um casal se dispõe a falar. Diz Menderes, diretor de uma loja, de 26 anos: “Estou aqui porque quero liberdade”. Sua companheira, Guliz, de 23 anos, trabalha em telemarketing. Ela observa: “Sou muçulmana praticante, mas Erdogan está islamizando este país”.
Indagados se eles não têm medo de ser presos por uma noite, visto que no fim do dia a polícia leva todas as “pessoas de pé” para passar uma noite na cadeia, os dois retrucam: “Não”. Guliz me pergunta: “E você não tem medo?” E acrescenta: “Sinto-me frustrada porque não estava em Istambul durante as manifestações e não pude fazer nada”. Menderes participou. Teve problemas de saúde, viu um amigo perder um olho atingido por uma bala de borracha. Istambul imita São Paulo ou vice-versa? Mendere e Guliz, como tantos outros, acreditam que têm de manifestar-se para evitar o futuro “autocrático” da Turquia.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Onze anos de mal-entendidos

17 junho 2013
Slate.fr Paris
 

Uma das prioridades do primeiro-ministro turco, quando chegou ao poder, há mais de dez anos, era a adesão do seu país à UE. Contudo, as divergências com a UE parecem tê-lo levado a mudar de opinião. E essa impressão é reforçada pela sua atitude perante a contestação das últimas semanas. 

 
Em 2002, Recep Tayyip Erdoğan fazia campanha para umas eleições das quais o seu partido sairia vencedor, alguns meses mais tarde. Então, Erdoğan falava de coisas concretas, da vida quotidiana, das liberdades de religião, cultural, linguística e de expressão… Nos seus comícios, respirava-se um clima popular, mais amigável e menos nacionalista do que nos encontros de alguns outros partidos.
A preparação para a integração na União Europeia era, dizia Erdoğan, uma etapa necessária e útil, o melhor meio para reformar o país… Aos seus interlocutores estrangeiros, Erdoğan explicava que o seu novo “Partido da Justiça e do Desenvolvimento” (AKP) se transformara, rompera com o seu passado islamita e antieuropeu.
Durante a noite de quinta-feira, dia 6, para sexta-feira, dia 7, onze anos mais tarde, o discurso é completamente diferente. As referências são otomanas, Recep Tayyip Erdoğan pede a Alá que torne “eterna” a “fraternidade”, a “união” e a “solidariedade” árabe e muçulmana e aposta no orgulho nacionalista turco dos seus apoiantes, dos seus “soldados” que, em número de alguns milhares, vieram ao seu encontro e afirmam estar dispostos a “esmagar” os “vândalos”.
O primeiro-ministro turco não diz uma única palavra sobre as reivindicações (contra os abusos autoritários do Governo, contra o capitalismo desenfreado, em favor da liberdade de expressão e de estilo de vida) das dezenas de milhares de jovens que estão na rua desde 31 de maio.

“Hipocrisia” e “duplicidade de critérios”

Também não diz uma única palavra sobre a Europa. A não ser as pronunciadas algumas horas mais tarde, no decorrer da conferência de imprensa conjunta com o comissário europeu Stefan Füle. Ao mesmo tempo que declara estar aberto às “exigências democráticas”, Recep Tayyip Erdoğan acusa a União Europeia de “hipocrisia” e de “duplicidade de critérios”. Queixa-se da falta de progressos das negociações de adesão, uma “situação tragicómica”, e recorda àqueles que criticam a forma como está a gerir a crise atual que, no que se refere a democracia, a Turquia não tem lições a receber de “certos países europeus”.
Recep Tayyip Erdoğan não está com meias palavras. As suas declarações são ofensivas e pouco diplomáticas. Os termos usados pelo primeiro-ministro turco são os mesmos que este usaria se tivesse abandonado todas as esperanças e todo o desejo de integração europeia do seu país.
Que aconteceu? O contraste entre o homem de 2002 e o de 2013 é flagrante. Será de espantar? Ou, pelo contrário, de fazer como os seus mais irredutíveis opositores e ver nesse contraste a prova da existência de uma “dupla agenda” de Recep Tayyip Erdoğan e do AKP? Os quais, uma vez libertos da tutela militar, graças ao apoio da UE, teriam ficado livres para pôr em marcha o projeto secreto de uma política neo-otomana, distante dos valores laicos, democráticos e ocidentais.
O Governo do AKP, que assumiu funções em 2002, levou a cabo e ampliou uma série de reformas democráticas de fundo, que tinham sido iniciadas pela coligação que anteriormente estivera no poder. Ao ponto de espantar os seus opositores mais irredutíveis.

Decapitar o inimigo

Bruxelas apreciou o facto: a Turquia obteve uma data – outubro de 2005 – para a abertura do processo das negociações de adesão à UE. O AKP apresenta-se como um partido “democrata muçulmano”, usando assim uma fórmula semelhante à da tradição democrata cristã, a mais europeia das correntes políticas dominantes. A adesão da Turquia à União Europeia é o oposto do confronto de civilizações, declara Recep Tayyip Erdoğan.
Extremamente minoritários, os meios liberais de esquerda, europeus convictos, tornaram-se, sem o saberem realmente, os seus embaixadores devotados juntos dos diplomatas e dos jornalistas ocidentais. Encontraram finalmente no AKP um partido que tinha a coragem e os meios para decapitar o inimigo comum, o Exército (autor de quatro golpes de Estado militares em cerca de trinta anos) e de o confinar aos quartéis.
No entanto, essas reformas iriam em breve ser interrompidas. Em 2004-2005. Muito antes de a batalha contra os militares estar ganha. Por duas razões. A primeira é pouco conhecida, mas é essencial para se compreender Recep Tayyip Erdoğan.
Em 2003, o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem (TEDH) confirmou a dissolução, pelo Tribunal Constitucional turco, do partido islâmico Refah, justificada por, no contexto turco, este constituir uma ameaça à democracia, enquanto a dissolução do partido comunista e de partidos autonomistas era considerada como sendo contrária ao direito europeu. Recep Tayyip Erdoğan não compreendeu essa diferença.

Violenta campanha difamatória

Pior ainda: em junho de 2004, ao emitir o acórdão definitivo sobre o caso Leila Sahin, o supremo tribunal de Estrasburgo confirmou a exclusão daquela jovem da universidade, por uso do véu islâmico. Um choque para Recep Tayyip Erdoğan, cujas filhas tiveram de ir estudar para os Estados Unidos, para poderem continuar a usar o véu. Mais uma vez, Erdoğan não compreendeu que aquilo que é autorizado na maior parte dos países europeus, ir para a universidade com o véu, fosse motivo de um acórdão contrário, no caso da Turquia.
E, quando fala de “duplicidade de critérios”, Erdoğan tem essencialmente em mente esses dois acórdãos. Estes fizeram vacilar a sua frágil convicção de que a União Europeia garantia a liberdade de religião.
A segunda razão é mais conhecida. Em 2005, os franceses tiveram de se pronunciar sobre o tratado que estabelecia uma Constituição europeia. A candidatura turca foi alvo de uma violenta campanha difamatória. A Turquia foi usada como um papão, instrumentalizado, para fins eleitorais, pelo Presidente Nicolas Sarkozy, que – juntamente com a Alemanha – propôs à Turquia uma “parceria privilegiada”, uma fórmula destituída de sentido para o único país que, havia tanto tempo (1995), tinha assinado um acordo de união aduaneira com a União Europeia.
Recep Tayyip Erdoğan queria restituir o orgulho e um destino nacional aos turcos que o tinham elegido, mas o que estava a acontecer representava o contrário disso. O facto marcou-o profundamente: sentiu-se humilhado. A espiral infernal tinha começado.

Situação quase esquizofrénica

Muitos responsáveis turcos deixaram de acreditar nessa União Europeia que os desprezava. A Turquia decidiu abrandar, depois parar ou mesmo inverter o movimento de reformas liberais e democráticas, necessário a uma integração demasiado hipotética. Recusou-se a aplicar as regras da união aduaneira a Chipre, país que já era membro da União Europeia e cujo norte continua a ocupar.
Desde outubro de 2005, foram abertos à negociação 13 dos 33 “capítulos” mas apenas um foi fechado. Desde junho de 2010, que nenhum outro “capítulo” foi aberto. Em julho de 2012, Ancara suspendeu todos os contactos com a União Europeia, durante os seis meses de presidência da União por Chipre, que Ancara continua a recusar-se a reconhecer.
Neste momento, Recep Tayyip Erdoğan encontra-se numa situação quase esquizofrénica relativamente à União Europeia. Por um lado, está a tomar consciência de que o sonho otomano seduz moderadamente os vizinhos árabes, e de que a influência da diplomacia turca na região se deve em boa parte à sólida integração ocidental do país. Por outro, tornou-se agora quase impossível reconhecer perante a opinião pública turca que, afinal, a integração europeia seria, pelo menos do ponto de vista económico e diplomático, a melhor coisa que poderia acontecer à Turquia.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Governo turco ameaça fazer avançar o exército para controlar manifestantes

17/06/2013

Cinco sindicatos marcaram para esta segunda-feira uma greve geral que o ministro do Interior classificou de "ilegal".
 
Manifestante enfrenta um canhão de água em Ancara ADEM ALTAN/AF


O vice-primeiro-ministro turco, Bulent Arinç, declarou esta segunda-feira de greve geral o seu apoio incondicional à actuação da polícia, que dispersou violentamente os manifestantes em Istambul e Ancara no fim-de-semana, e ameaçou com a possibilidade de fazer intervir o exército. "O que temos de fazer é travar um protesto que é ilegal. Se não for suficiente a polícia, o exército assumirá a situação", disse numa entrevista na televisão.
Esta segunda-feira decorre uma greve geral que o ministro do Interior da Turquia classificou como “ilegal”. O apelo à paralisação foi  lançado por cinco sindicatos e duas centrais sindicais, em apoio da contestação ao governo que dura já há 20 dias. Muammer Güler pediu aos funcionários públicos que não participem na greve. Se o fizerem, “sofrerão as consequências”, avisou.
“Há uma vontade de levar pessoas para a rua em acções ilegais, como manifestações e greves”, disse o ministro do Interior, numa conferência de imprensa em Ankara. “É impossível de compreender esta insistência”, afirmou Güler, citado pela AFP. O governante, nessa conferência de imprensa, garantiu também que não tinha chamado o exército a intervir para controlar os protestos, diz a agência francesa.
Os ministros repetem o tom do que o primeiro-ministro, Recep Tayyip Erdogan, já tinha afirmado na véspera, quando disse que estava a cumprir o seu “dever” ao “limpar” a Praça Taksim de Istambul dos manifestantes. “Eu avisei que se tinha tornado insuportável. Foi o meu dever de primeiro-ministro”, afirmou Erdogan.
Na greve geral participam duas grandes centrais sindicais (Confederação dos Sindicatos Progressistas, DISK e Confederação dos Sindicatos do Sector Público, KESK), bem como sindicatos dos médicos, dos dentistas e dos engenheiros e arquitectos, segundo a edição em inglês do jornal turco Hurriyet. No total, representarão cerca de 700 mil associados, diz a AFP, e além de pararem de trabalhar hoje, prevêem vir para a rua manifestar-se esta tarde – depois de os protestos terem sido reprimidos com especial ferocidade no domingo.
A polícia turca deteve perto de 600 pessoas em Istambul e Ancara nas manifestações anti-governamentais no domingo, afirmou a Ordem dos Advogados Turca – que fez um apelo ao secretário-geral do Conselho da Europa para verificar o excessivo uso da força contra os manifestantes. “Cerca de 460 manifestantes foram detidos pela polícia em Istambul”, disse fonte da Ordem à AFP, e em Ancara “entre 100 e 130 pessoas foram detidas”. A maioria serão libertadas, depois de interrogadas, mas há abundantes relatos de violência policial contra os manifestantes que são detidos.
Merkel critica
Perante este cenário de forte repressão das manifestações, a chanceler alemã Angela Merkel veio criticar de viva voz a violência policial usada para reprimir os protestos, afirmando que foi usada "mão demasiado pesada", depois de o seu ministro dos Negócios Estrangeiros ter já vindo a terreiro. "Há imagens assustadoras, em que se pode ver bem que a polícia reagiu de forma demasiado dura", afirmou Merkel, apelando ao respeito pela liberdade de expressão.
"O que se passa na Turquia não se corresponde, para mim, à nossa concepção de liberdade de manifestação e de expressão das opiniões", afirmou ainda a chanceler alemã, numa crítica clara ao Governo de Ankara, que está em negociações com a União Europeia com vista à adesão futura ao bloco europeu.
Soube-se entretanto que em Istambul foi agredido e preso um fotógrafo italiano, Daniele Stefanini, de 28 anos, nos confrontos no bairro de Bayrampasha. A ministra dos Negócios Estrangeiros italiana, Emma Bonino, está a acompanhar a situação.


sexta-feira, 14 de junho de 2013

Erdogan diz que paciência está no fim e promete tirar manifestantes de praça

Premiê chama ativistas de baderneiros e acusa oposição de tentar desestabilizar a Turquia

13 de junho de 2013

O primeiro-ministro da Turquia, Tayyip Erdogan, deu um ultimato nesta quinta-feira aos manifestantes que ocupam um parque no centro de Istambul, afirmando que a paciência acabou e pedindo que eles deixem o local.  
"Peço aos jovens do parque Gezi. Vocês apresentaram suas demandas. Abandonem este lugar", disse Erdogan em Ancara durante uma reunião com representantes do partido islamita moderado AKP. "Chegamos ao final de nossa paciência. Faço esta advertência uma última vez. Peço aos pais: se ocupem de seus filhos."
O despejo forçado de milhares de manifestantes no parque Gezi, situado no centro de Istambul, desencadeou há duas semanas uma onda de manifestações em todo o país contra o governo de Erdogan.
Pelo menos quatro pessoas morreram desde então, enquanto milhares ficaram feridas e centenas detidas pela polícia, incluindo usuários das redes sociais e advogados que defendem os manifestantes presos.
O premiê mais uma vez criticou a mídia estrangeira e o "lobby da taxa de juros", que segundo o governo é composto por uma quadrilha de economistas, investidores e jornalistas que querem desestabilizar o país ao estimular os distúrbios com o objetivo de manipular os mercados turcos em seu próprio beneficio.
Erdogan disse que 11 das 13 principais companhias turcas em termos de ganhos no ano passado foram empresas financeiras que, antes de seu partido chegar ao poder em 2002 "costumavam ganhar 7.500% em taxas de juros overnight. É por isso que estão desconfortáveis".
O premiê garante ter  oferecido aos manifestantes a realização de um referendo sobre seu planos de reformulação do parque, numa tentativa de interromper os protestos. Segundo ele, a oferta dividiu os representantes e que alguns continuam a acampar no parque.
Erdogan também criticou o Parlamento Europeu por sua moção para uma resolução que expressa a preocupação da organização sobre "o uso desproporcional e excessivo da força" pela polícia turca.
A Assembleia da UE disse que "lamenta as reações do governo turco e do primeiro-ministro Erdogan" e o acusa de intensificar a polarização da situação.  

EFE, REUTERS e AP

quarta-feira, 12 de junho de 2013

A Primavera do Direito à Cidade

10/06/2013


130610-Taksim2
Revolta dos jovens turcos foi resposta à privatização de Istambul. Levante revela emergência das lutas pelo Comum urbano e ambiental

Por Bernardo Gutierrez | Tradução: Bruna Bernacchio | Imagens: Jamie Bowlby-Whiting

Taksim é nosso, Istambul é nossa!”. Os gritos não pertencem a algum dos jovens que ocuparam o Parque Taksim Gezi, da capital turca, na virada do mês. Tampouco é um mote que esteja correndo o mundo no Twitter, sob a tag #OccupyGezi. “Taksim é nosso” está sendo pronunciado por um cidadão anônimo no vídeo Tkasim Square (Istambul Commons), durante uma manifestação celebrada no outono passado. “Taksim é nosso” – continua a voz no megafone – “não importa as opções políticas que tenham as pessoas”.
O vídeo foi produzido no âmbito do projeto Mapeando o Comum [Mapping the Commons], idealizado pelo estúdio sevilhano Hacktitetura e desenvolvido pelo ativista Pablo de Soto, em Atenas e Istambul. E contextualiza com perfeição a vertiginosa insurreição que está vivendo Istambul e toda a Turquia. O centro comercial planejado pelo governo de Recep Tayyip Erdogan, que incendiou #OccupyGezi, é apenas a ponta de um iceberg maior: um duro plano neoliberal para privatizar bens comuns (águas, bosques) e espaço público. Até que ponto o ataque ao comu, e concretamente a privatização dos espaços urbanos deflagraram a Primavera Turca?
O projeto Mapeando o Comum — definido por seus próprios autores como uma performance que pode tornar-se reflexão, uma obra de arte ou uma ação social — é um verdadeiro passeio pelas raízes de #OccupyGezi. A cartografia, realizada na plataforma Meipi, organiza o comu de Istambul em quatro categorias: bens naturais, cultura, espaço público e digital. Os vídeos publicados, todos com falas parcialmente em inglês, resumem os ataques que o o espaço público sofre na era Erdogan.
“Communication space”, por exemplo, revela, por meio dos protestos dos estudantes universitários, a luta pelo conhecimento e comunicação livres. Em “Water as a commons”, o assunto central é a privatização da gestão da água na região. “For-rest” denuncia que a terceira ponte sobre o estreito de Bósforo, que o governo de Erdogan planeja, implicaria na desaparecimento do bosque Belgrado, pulmão verde da cidade. A repressão no espaço público de manifestações sócio-culturais como festas nas ruas ou o fim da única praça de pedestres (Galata Square) de Istambul são tema os vídeos Cultural expressions in public space e o Galata Tower Square.
Até que ponto a privatização selvagem dos bens comuns naturais e urbanos de Istambul incendiou a revolta de #OccupyGezi? O ativista Pablo de Soto, em declarações ao jornal espanhol El Diario, sustenta que os fatos estão intrinsecamente relacionados: “O corte das árvores para construir um centro comercial para a elite e os turistas foi o pavio de incêndio, o catalizador final dos protestos por justiça social e econômica”.
A arquiteta turca Pelin Tan, em seu artigo Um relato de Gezi Park reforma a tese: “Para o governo turco, as novas políticas urbanas são a desculpa para atos de segragação, para incentivar estilos de vida neoliberais, o progressivo endividamento dos seus cidadãos, exploração, racismo, corrupção, e a instalação de um estado de exceção que viola os direitos humanos”. Por sua vez, a prestigiosa plataforma Architizer também situa os bens comuns urbanos como claro estopim da revolta.
#OccupyGezi é muito mais que um grito ecologista para salvar os árvores de Taksim. Mas não exclusivamente é apenas uma revolta antagonista contra a arrogância macropolítica do governo turco ou a suposta tentativa de islamização da Turquia que, segundo a imprensa ocidental, Erdogan conduz.

Em A Catedral e o Bazar, o hacker Eric S. Raymond contrapunha dois modelos na elaboração de software. A Catedral representa o modelo de desenvolvimento hermético e vertical do software proprietário. O bazar, com sua dinâmica horizontal e barulhenta, representaria a Linux e outros projetos de software livre, baseados no trabalho comunitário. Nenhum lugar como Istambul, com seu barulhento Gran Bazar, encarna melhor a metáfora urbana da tese de Raymond. De um lado, a catedral de receitas top down e privatizantes, do Governo de Erdogan. Do outro, o grande bazar humano de Istambul, seu espaço público, a tradição comunal das comunidades da cidade. #OccupyGezi e sua convivência humana resumem o choque de trens da história, entre dois modelos incompatíveis.
Derya Calik, estudante e ativista, descreve em uma entrevista a estratégia da catedral neoliberal contra os manifestantes de Taksim. “Na Turquia, não temos uma boa conexão 3G. Quando muito usada, a rede entra em colapso. Além disso, muitas pessoas foram informadas do uso de inibidores de sinal, por parte da polícia. Por isso, começamos a utilizar uma conexão VPN (Rede Virtual Privada). E, além disso, as lojas, restaurantes, hotéis e os residentes da zona cederam Wi-Fi aos manifestantes, abrindo as senhas de suas redes”. O bazar colaborativo de Istambul, no momento, driblou a aprisionadora catedral de Erdogan.
É possível fazer alguma comparação entre #OccupyGezzi e a acampada da Porta do Sol de Madri do 15M ou do Occupy Wall Street em Zuccotti? Pelin Tan, no texto já citado, destaca que “a ocupação de Gezi é um símbolo de estar juntos no comum (a arquiteta emprega a quase intraduzível palavra commoning), apesar de nossas diferenças”. Em #OccupyGezi, continua ela, envolveu-se “gente de diferentes classes, bairros e movimentos culturais — mais que organizações políticas e grupos de oposição”. Uma auto-organização transversal do bazar colaborativo, que a violência policial multiplicou até limites não esperados. Da praça ao mundo. Do hiperlocal à geopolítica.
Já o ativista Orsan Selap, habitual nas listas de correios de TakeTheSquare.net criadas no início do 15M espanhol, ressalta a El Diario a importância das redes na incipiente Primavera Turca: “O pensamento peer-to-peer (P2P) e em favor do comum nos dá uma alternativa clara ao capitalismo. Nesses momentos, nas redes sociais, as ruas e as lutas de Istambul estão convertendo-se em algo com muitos vínculos internacionais”.

(esquerda) Imagem do video Taksin Square, de Mapping the Commons; (direita) projeto do shopping em Taksim
(esquerda) Imagem do video Taksin Square, de Mapping the Commons; (direita) projeto do shopping em Taksim

De Taksim ao mundo. Do hiperlocal ao global. Do urbano à geopolítica. Em seu aclamado livro Cidades rebeldes, o sociólogo David Harvey afirma que a “revolução será urbana ou não será”. E adapta ao século XXI “o direito à cidade”, um velho grito dos anos sessenta, título de um mítico livro de Henry Lefebvre. O direito à cidade seria um “espaço social com interações e práticas onde a produção social tem lugar”.
A metrópole moderna tem um papel importante na produção do comum. Curiosamente, os movimentos sociais de Istambul estão remesclando o grito de Lefebvre-Harvey. No texto “O movimento pelo Direito à Cidade e o verão turco”, a jornalista independente Jay Cassano faz um detalhado repasse dos ataques neoliberais que Istambul está sofrendo nos últimos tempos, além do projeto de centro comercial para Gezi Taksim.
Jay cita em seu artigo a conversão do histórico cine Emek em shopping center. Menciona a terceira ponte sobre o Bósforo. E destaca o forte processo de segragação que Istambul está sofrendo, especialmente nos “bairros históricos de Sulukule, Tarlabasi, Tophane e Fener-Balat, onde vivem os imigrantes e a minoria curda”. Precisamente, Mapeando os Comuns dedica um vídeo ao distrito de Fenet-Balat-Ayvansaray, onde os vizinhos resistem ao plano urbanístico do Ajuntamento pela Associação Febayder.

O coletivo Reclaim Istambul, inspirado no coletivo britânico Reclaim the streets, que lutava pelo espaço público, faz uma verdadeira lista dos horrores urbanísticos planejados para a capital turca: “Centenas de edifícios gradeados, torres de escritórios, centros comerciais e projetos multiusos crescendo como flechas em toda a cidade”. Entre a penca de projetos de corte neoliberal, destacam Via Port Venezia (“redesenhamos Veneza e a trouxemos a Istambul”) ou Mall of Istambul (“aproveite de perto de um dos maiores shoppings da Turquia”). Em certo sentido, #OccupyGezi nasceu como grito coletivo para evitar que a milenária Istambul acabe se convertendo em Las Vegas ou Dubai.
O Reclaim Istambul é responsável por um dos documentários mais polêmicos dos últimos tempo, Ekümenópolis. Com um verdadeiro coquetel de imagens, entrevistas, músicas, gráficos e animações, Ekümenópolis desenha o selvagem ataque ao comum urbano e natural que sofre a cidade. A contundência de sua sinopse dá uma ideia da dureza de seu conteúdo: “Há alguns anos, Istambul tinha 3,5 milhões de habitantes. Hoje somos 15 milhões e em 15 anos seremos 23. Foram ultrapassados os limites ecológicos e de população. Perdeu-se a coesão social. Aqui surgiu uma imagem do urbanismo neoliberal: Ekümenópolis”.

Projeto 'Drone Shade', desenvolvido durante a Bienal de Desenho 'Adhocracy'
Projeto ‘Drone Shade’, desenvolvido durante a Bienal de Desenho ‘Adhocracy’

“É mais que uma revolução tecnológica: é uma revolução cultural. Os rígidos modelos verticais para intensificar os sistemas de produção de massa do século passado estão sendo substituídos por flexíveis redes peer-to-peer, que nos levam até uma nova estética de códigos”. A frase é do arquiteto Joseph Grima, diretor da última edição da Bienal de Desenho de Istambul, celebrada ao final de 2012. Adhocracy, o título da Bienal, não foi casual. A adocracia, outro termo recentemente ressuscitado, é um novo modelo de organização flexível, intuitiva, transversal. A adocracia é horizontal, rotativa. Por isso, Adhocracy foi muito mais que uma exposição. Foi um laboratório.
Uma de suas comissárias, Ethel Baraona (dPr-Barcelona), respondendo a um questionário sobre #OccupyGezi, destaca o vínculo da Bienal com o comum urbano: “Uma grande parte dos projetos estava relacionada com o ativismo urbano, com a intenção de chamar a atenção do espaço público como espaço de intercâmbio de conhecimentos e de ação”. A Bienal adocrata espalhou por Istambul o dinamismo de coletivos-projetos como Crafting Neigborhoods, Recetas Urbanas, Open Structures, Maker Faire Africa, Arduino ou Zuloark (representando o madrilenho El Campo de Cebada).
Especialmente metafórico foi o projeto Drone Shade, da artista James Bridle. Depois de polvilhar de sombras de “drones” (aviões não tripulados) a Faixa de Gaza ou Londres, James desenhou com linhas brancas, no coração urbano de Istambul, a suposta sombra dos drones que os Estados Unidos utilizam da Turquia. O espaço público como tabuleiro do mundo. Como metáfora geopolítica. A metralhadora top down e neoliberal de Erdogan, representada em uma forma de contornos brancos. A aliança militar estadounidense-turca, que persegue o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) no norte da Turquia e no norte do Irã, como uma verdade ao rés do chão. A cidade como campo de batalha.
Será #OccupyGezi é a primeira revolução incendiada pelo comum urbano? Talvez a primeira, mas não a última. O modelo da catedral neoliberal de Istambul replica-se em todo o mundo. As remoções e a especulação imobiliária no Rio de Janeiro pré-olímpico são um exemplo. O projeto EuroVegas de Madri, como destaca Pablo de Soto, “é um escândalo de privatização e exceção da legalidade com mesmo grau destrutivo do parque Gezi em Taksim”.
Chegou a era das Cidades Rebeldes de David Harvey? Veremos uma sequência de revoluções urbanas em um planeta que esgota seus recursos naturais a um ritmo assustador? Ainda que não haja respostas, existem intuições. O antropólogo e ativista do 15M Adolfo Estalella, em seu provocador texto El procomún no es un commons vaticina uma forte politização dos núcleos urbanos: “O pró-comum é a figura que permite politizar a cidade. Se há dez anos a globalização era o objetivo de ativismo, agora é a cidade. Por isso, o comum é, para o ativismo atual o que a globalização era para este há dez anos”.

Participação do Campo de Cebada (Madrid) na Bienal de Desenho 'Adhocracy'
Participação do Campo de Cebada (Madrid) na Bienal de Desenho ‘Adhocracy’


Fonte: http://outraspalavras.net/2013/06/10/a-primavera-do-direito-a-cidade/

Protestos na Turquia: Juntos pelo sistema?


Süddeutsche Zeitung Munique - 11 junho 2013
 
 
Osama Hajjaj/Caglecartoons
   
As manifestações contra o primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdoğan são comparáveis à revolta de Maio de 1968. Mas na altura os jovens nas ruas queriam derrubar o sistema. Hoje lutam para que o Estado-Providência sobreviva.
Há sempre algo inebriante no espetáculo da insurreição popular, quer aconteça em Istambul, Frankfurt, Atenas, Madrid ou Londres. No seu íntimo, cada um encoraja com paixão as lutas pela justiça, pois, do nosso ponto de vista de cidadãos abastados, julgamos que o mundo é injusto – mesmo se na Alemanha já ninguém sofre com a repressão ou a miséria. Cedemos rapidamente a uma visão romântica. Os manifestantes da Praça Taksim vestem t-shirts com imagens do herói da revolução cubana, Che Guevara, como relata o jornalista de uma rádio alemã – induzindo-nos, assim, numa pista errada.
Nos últimos anos o entusiasmo com a contestação transformou-se rapidamente em frustração. Os movimentos na Grécia, Espanha e Grã-Bretanha são um fiasco, à semelhança do movimento mundial dos Occupy. Falta-lhes grandeza revolucionária, brilho e força. Ao observador faltam-lhe pontos de referência. Até porque, mesmo no século XXI, a imagem romântica da revolução que prevalece ainda é a de 1968, o ano de referência.
É difícil escapar à imagem romântica de insurreição. Para alguns, 1968 não passa de um símbolo, que a perceção coletiva associa a todos os acontecimentos importantes desde 1954 a 1973, dos concertos de Bob Dylan às guerrilhas na América Latina, passando pelas barricadas parisienses e pelas festas nos blocos ocupados de apartamentos na Alemanha. A cultura pop está, até hoje, marcada por uma nostalgia desta época revolucionária, que a maioria dos adultos dos nossos dias não viveu, ou apenas experimentou pelo seu olhar de criança. Mas porque influenciaram o curso dos acontecimentos, as revoltas populares e os movimentos de defesa dos direitos civis da nossa época seguem, ainda hoje, o modelo em questão.

Defesa das conquistas do século XX

No entanto, é na estratégia que reside a diferença fundamental entre 1968 e 2013. Em 1968 o objetivo era romper com o passado e mudar o sistema. Em 2013 é preservar o passado e garantir que o estado das coisas mude o mínimo possível. Na Europa e nos Estados Unidos é uma luta pela defesa das conquistas do século XX. Em 1968 queríamos ser o mais diferentes possível dos nossos progenitores. Em 2013 queremos, a qualquer preço, viver tão bem como eles – mas se possível saindo de casa dos pais. Muitos jovens adultos já não têm acesso às carreiras estáveis da geração anterior. E quando acontece uma crise, a liberdade que uma vida profissional nómada oferece, transforma-se rapidamente em pobreza.
O fenómeno não é recente. A geração “X” já se queixava de não viver tão bem como os seus pais. Estávamos no início da década de 1990. Os estágios, o desenvolvimento liderado pela comunidade, o auto empreendedorismo, mas também a cultura das jovens empresas, em voga atualmente, são outros tantos sinais da rápida degradação das perspetivas burguesas. Entre eles, todas as coisas que os revoltosos de 1968 relacionavam com a vida pequeno-burguesa: a reforma, o acesso à propriedade, os seguros, o contrato de trabalho, os sindicatos, a família. Ainda assim, a burguesia e os trabalhadores lutaram durante um século para conquistar todas estas referências de segurança da pequena burguesia.

Revolta é uma luta pela sobrevivência 

Em Espanha e na Grécia já não é possível usufruir deste tipo de vida burguesa. Em Inglaterra e nos Estados Unidos está ameaçada. Já o contexto dos conflitos na Turquia é bem mais complexo do que o dos outros países do Mediterrâneo. Ao lado das t-shirts de Che flutuam bandeiras dos kémalistas conservadores e o estandarte do Islão. Ainda assim, o objetivo é a preservação dos direitos adquiridos e não o derrube do sistema.

A semelhança com a oposição ao projeto da gare ferroviária Estugarda 21 não é uma coincidência. A alteração estrutural não é tão dramática na Alemanha. Os custos da crise do euro são controláveis. Percebemos aqui, também, que este furor revolucionário é apenas a expressão do desespero, que a revolta não é para derrubar o sistema, mas uma luta pela sobrevivência. No entanto, a defesa nunca é tão poderosa como o ataque. Até porque lhe falta o triunfo da conquista.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Polícia turca expulsa manifestantes da Praça Taksim

Intervenção ocorreu depois de o primeiro-ministro ter aceitado 
receber manifestantes, na quarta-feira.


A polícia anti-motim retomou na manhã desta terça-feira o controlo da Praça Taksim, em Istambul, centro do movimento de protesto antigovernamental que agita a Turquia há 12 dias.
A polícia entrou às 7h30 da manhã. Agentes das forças especiais anti-motins, com carros anti-manifestação, os Toma, avançaram sobre a Praça Taksim, em Istambul, lançando bombas de gás lacrimogéneo e jactos de água sobre quem aparecia à frente.
“Vamos atacá-los pela rua Çorbachi”, grita um jovem com uma máscara de gás. “Vocês, por ali. Cercamo-los pelos dois lados”. Grupos de activistas lançam pedras e cocktails molotov de trás das barricadas erguidas com destroços. Correm pelas ruelas à volta da praça, tentam proteger-se das bombas de gás. Alguns aproximam-se demasiado dos carros da polícia, atiram pedras a uma distância de poucos metros.
“Que se passa contigo? Levem-na daqui! O spray! o spray! Levem-na”. A rapariga desmaiou, não suportou o gás tóxico nos pulmões, nos olhos. Alguns jovens estão a vomitar nas esquinas, antes de voltarem para a frente, para incendiar um balde de gasolina ou continuarem a disparar a fisga.
A polícia arranca com os Toma em todas as direcções, lança centenas de bombas de gás, aproxima-se das barricadas, consegue derrubar algumas. Grupos de agentes a pé entram pelas vielas. A luta é quase corpo-a-corpo.
Os canhões de água apontam em todas as direcções, atiram tudo pelo ar. Cocktails molotov atingem os carros da polícia, envolvendo-os em chamas.
Não conseguindo atacar os polícias directamente, alguns activistas correm pelas ruas com paus, machados e pedregulhos, partindo montras, destruindo entradas de hotéis. Um grupo quebra o vidro de um banco, e entra nas instalações, lançando fogo a mobília e papelada.
“Nós não queremos lutar. Somos manifestantes pacíficos”, diz um rapaz com os olhos inchados, desfigurado pelo efeito do gás. “A polícia atacou-nos antes de fazermos qualquer coisa. Só estamos a defender-nos”. Outro jovem, entre ataques de tosse, diz apenas: “Erdogan não é bom. Not good, not good”.
Está tudo alagado de água, o ar cheio de fumo, não se consegue respirar. Há corpos no chão, gente a ser levada em braços. Nalguns umbrais há piquetes com limões, sprays e outros produtos estranhos, em garrafas, para prestar assistência aos atingidos. Ouvem-se estrondos, disparos, gritos. Há um cheiro azedo e uma espécie de fuligem à nossa volta. O gás lacrimogénio chega em baforadas transparentes, quando menos se espera. O efeito é progressivo. Um ardor nos olhos, uma nuvem, cegueira, tosse, tontura, vontade de vomitar.

Polícia não entrou no parque
Os combates espalham-se por todas as ruas à volta de Taksim, mas no parque Gezi, onde se encontra a grande maioria das tendas e dos manifestantes, a polícia não entrou. As ordens que têm, disse um dos agentes a um manifestante que conseguiu aproximar-se, são para limpar a praça de todas as faixas e bandeiras. O parque Gezi não faz parte da operação.

“Às cinco da manhã começou tudo aos gritos no parque”, diz Ahsen, uma manifestante que dormiu lá. “‘A polícia vem aí! A polícia vem aí!’, alguém gritou. E foi o pânico. Toda a gente aos gritos, todos a fugir, mas sem saber para onde. Não sabíamos o que fazer. Não temos armas, nem sequer, na maioria, máscaras de gás”.
Alguns manifestantes tinham estado no hotel Mármara, em frente do parque, numa reunião. É neste hotel que decorre a maior parte dos encontros entre os vários grupos de ocupantes. E foi lá que viram polícias a tomar posições. Correram a avisar os companheiros.
“No parque, os manifestantes não saíram para combater a polícia”, diz Ahsen. “Somos pacíficos. Não sabemos lutar com a polícia. Só alguns provocadores foram para o combate. Há, no parque, muitos elementos de grupos extremistas, terroristas. Esses sabem como lutar”.
Ahsen conseguiu sair do parque por volta das 8 horas, já em pleno ataque policial. Ainda viu um grupo dos seus amigos tentar aproximar-se da polícia para dialogar, diz ela. “Queriam dizer que iriam falar com os provocadores, para demovê-los de lutar contra a polícia. Mas quando se aproximavam foram recebidos com uma bomba de gás e um canhão de água”.
Na praça sempre se soube que um ataque da polícia era possível. Mas não se esperava que fosse hoje, na véspera das conversações com o primeiro-ministro marcadas para amanhã. Uma delegação de representantes da manifestação vai encontrar-se com Erdogan, embora na praça ninguém saiba quem são. “Na segunda-feira passámos o dia a discutir isso. Sabemos que há um grupo, mas não sabemos quem vai”. O que se espera dessa reunião, acrescenta Ahsen, é que o primeiro-ministro não prometa nada a um grupo que não representa ninguém.


sexta-feira, 7 de junho de 2013

O parque que é pivô dos protestos na Turquia

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/06/130606_turquia_importancia_gezi_taksim_fn.shtml

quinta-feira, 6 de junho de 2013

O problema da democracia

6 junho 2013
Project Syndicate Praga 
Um manifestante segura um retrato do fundador da República da Turquia Mustafa Kemal Atatürk durante as manifestações em Istambul, a 6 de junho de 2013.
Um manifestante segura um retrato do fundador da República da Turquia Mustafa Kemal Atatürk durante as manifestações em Istambul, a 6 de junho de 2013.
AFP



Os manifestantes na Praça Taksim, em Istambul, contestam a componente islâmica da sociedade turca que subiu ao poder com o Governo de Erdogan, encarado como uma ameaça ao laicismo e aos direitos civis. Mas isso é o resultado natural do fim do autoritarismo kemalista, escreve o escritor holandês Ian Buruma.
Uma forma de analisar as manifestações antigovernamentais nas cidades turcas é vê-las como um protesto maciço contra o Islão político. O que começou como uma manifestação contra os planos apoiados pelo Estado para destruir um pequeno parque no centro de Istambul e dar lugar a um novo centro comercial de gosto duvidoso, evoluiu rapidamente para um conflito de valores. À superfície, a luta parece confrontar dois conceitos diferentes da Turquia moderna: seculares contra religiosos, democratas contra autoritários. Já foram feitas comparações com o movimento Occupy Wall Street. Até há quem fale em “primavera turca”.
Obviamente, muitos cidadãos turcos, especialmente nas grandes cidades, estão fartos do estilo crescentemente autoritário do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan, da sua mão de ferro sobre a Comunicação Social, das restrições ao consumo de álcool, do gosto pela construção de grandiosas mesquitas, das prisões de dissidentes políticos e, agora, da resposta violenta às manifestações. As pessoas temem que as leis seculares sejam substituídas pela lei da charia e que os frutos do Estado secular de Kemal Ataturk sejam destruídos pelo islamismo.
Há também a questão dos alevitas, uma minoria religiosa [a maior da Turquia] aparentada com o sufismo e o xiismo. Eles foram protegidos pelo Estado secular kemalista e nutrem uma profunda desconfiança em relação a Erdogan, que os irritou particularmente com a intenção de dar à nova ponte sobre o Bósforo o nome de um sultão do século XVI que massacrou os membros da sua fação religiosa.
Portanto, a religião parece ser o fulcro do problema turco. O Islão político é considerado inerentemente antidemocrático pelos seus opositores.

Religião, política e classes

Mas nada é assim tão simplista. O Estado secular kemalista não foi menos autoritário do que o regime populista islâmico de Erdogan; talvez fosse mesmo mais. E é também significativo que os primeiros protestos na Praça Taksim de Istambul não tivessem a ver com uma mesquita, mas com um centro comercial. O receio da instauração da lei da charia está ao mesmo nível da raiva contra a voracidade dos empresários do ramo imobiliário e construtores civis apoiados pelo Governo de Erdogan.
Há um forte pendor esquerdista nesta primavera turca. Assim, em vez de encarar os problemas do Islão político moderno, que são absolutamente a não menosprezar, seria mais proveitoso analisar os conflitos na Turquia de uma outra perspetiva, hoje claramente tida como fora de moda: a luta de classes. Os manifestantes, sejam eles liberais ou de esquerda, são sobretudo da elite urbana, ocidentalizada, sofisticada e secular. Erdogan, por seu lado, continua a ser muito popular na Turquia rural e do interior, entre as pessoas com níveis mais baixos de educação, mais pobres, mais conservadoras e mais religiosas.
Apesar das tendências pessoais autoritárias de Erdogan, que são óbvias, seria enganoso ver nos atuais protestos apenas um conflito entre democracia e autocracia. Afinal, o êxito do partido populista da Justiça e Desenvolvimento, de Erdogan, bem como a crescente presença de práticas e símbolos religiosos na vida pública são o resultado de mais democracia na Turquia. Costumes como o uso do véu pelas mulheres em locais públicos, banidos pelo Estado secular, foram recuperados porque os turcos dos meios rurais ganharam influência. Jovens religiosas tiveram acesso às universidades urbanas. Os votos conservadores dos turcos provincianos passaram a contar.
A aliança entre empresários e populistas religiosos é uma originalidade da Turquia. Muitos dos novos empreendedores, tal como as mulheres de véu, vêm de aldeias da Anatólia. Estes novos-ricos provincianos nutrem um grande ressentimento em relação à antiga elite de Istambul, tal como os empresários do Texas ou Kansas odeiam as elites liberais de Nova Iorque e Washington.

Mais democracia, menos tolerância

Mas constatar que a Turquia atual é mais democrática não quer dizer que seja mais liberal. Esse é também um dos problemas revelados pela primavera Árabe. Dar a todos voz no Governo é essencial para qualquer democracia. Mas essas vozes, especialmente em tempos revolucionários, raramente são liberais. O que vemos em países como o Egito, na Turquia e até mesmo na Síria, é aquilo que o grande filósofo liberal britânico Isaiah Berlin descreveu como a incompatibilidade de bens iguais. É um erro acreditar que as coisas boas andam sempre a par. Às vezes, entrechocam-se.
E é o que acontece nas penosas transições políticas do Médio Oriente. A democracia é positiva, tal como o são o liberalismo e a tolerância. O ideal, evidentemente, é coincidirem. Presentemente, na maior parte do Médio Oriente, isso não acontece. Mais democracia pode mesmo significar menos liberalismo e tolerância.
É fácil simpatizar com os rebeldes contra a ditadura de Bashar Al-Assad, na Síria, por exemplo. Mas as classes altas de Damasco, os homens e mulheres seculares que gostam de música e filmes ocidentais, alguns deles membros de minorias religiosas, cristãos e alauitas, vão passar mal quando Bashar desaparecer. O baathismo é opressivo e ditatorial, muitas vezes até brutal; mas protege minorias e as elites seculares.
Será isso razão para apoiar ditadores, apenas porque mantêm o islamismo sob controlo? De facto, não é. Até porque a violência do Islão político é, em larga medida, um produto desses regimes opressivos. Quanto mais tempo permanecerem no poder, mais violentas serão as rebeliões islamitas.
Também não é motivo para apoiar Erdogan e os seus construtores de centros comerciais contra os manifestantes, na Turquia. Os contestatários têm o direito de se opor à indiferença arrogante do Governo face à opinião pública e à sufocação oficial da imprensa. Mas ver o conflito como uma luta justa contra a afirmação religiosa seria igualmente um equívoco. A maior visibilidade do Islão é o resultado inevitável de mais democracia. Como impedir que isso mate o liberalismo é a questão mais importante no Médio Oriente. Erdogan não é um liberal. Mas a Turquia continua a ser uma democracia. Espera-se que os protestos contra o primeiro-ministro tornem o país mais liberal.


Fonte: http://www.presseurop.eu/pt/content/article/3850001-o-problema-da-democracia