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sábado, 21 de setembro de 2013

Franck Gaudichaud é professor universitário, colaborador do Le Monde Diplomatique e membro dos coletivos editoriais das revistas ContreTemps, Dissidences e do portal Rebelion.org. Há já vários anos que investiga sobre a história e atualidade do Chile e em particular do movimento operário durante a Unidade Popular.

Franck Gaudichaud: Dialética do poder popular chileno


Franck Gaudichaud é professor universitário, colaborador do Le Monde Diplomatique e membro dos coletivos editoriais das revistas ContreTemps, Dissidences e do portal Rebelion.org. Há já vários anos que investiga sobre a história e atualidade do Chile e em particular do movimento operário durante a Unidade Popular.


Há 40 anos do golpe de Estado de 11 de setembro de 1973, Franck Gaudichaud acaba de publicar na França dois livros importantes sobre o tema. O primeiro, Chili: mille jours qui ébranlèrent le monde, Le gouvernement Allende vu par em bas (1970-1973) – Chile, mil dias que estremeceram o mundo. O governo Allende por baixo (Presses Universitaires de Rennes, Rennes 2013), nascido de uma tese de doutorado realizada sob a direção de Michael Löwy, analisa a discordância de tempos entre as lutas sociais e o tempo institucional do Governo de Allende, assim como o nascimento dos “cordones industriales” e a dinâmica coletiva do projeto da “via chilena ao socialismo”. O segundo, Venceremos (Syllepse, Paris 2013), apresenta, em francês, vários documentos históricos do poder popular chileno dos anos 1970-1973.

Você acaba de publicar dois livros sobre a experiência chilena dos anos 1970 a 1973. Provavelmente foi a última grande experiência de uma tentativa de reforma radical do capitalismo, cujo terrível resultado conhecemos. Ao longo dessa experiência não apenas assistimos a uma política governamental, senão também a uma impressionante mobilização popular, você pode explicar em que consistiu essa experiência popular?

O interesse de revisar esse período por “baixo”, há 40 anos do golpe, está em ver de que forma – como em todas as grandes sequências de auges revolucionários - aparece um fenômeno de transbordamento dos grandes partidos, das centrais sindicais, das direções políticas. No marco específico do que a Unidade Popular (coalisão das principais forças da esquerda parlamentar) denominou «a via institucional ao socialismo», constatamos um fenômeno de transbordamento do marco legal e político-institucional. A aposta de Allende e da Unidade Popular (UP) que ganhou as eleições presidenciais de 1970 era precisamente a possibilidade – em plena Guerra Fria e no quintal dos EUA - de uma transição pacífica ou «legal» ao socialismo, desmarcando-se assim tanto da URSS como da via insurrecional-armada cubana. Uma transição socialista democrática planejada para que fosse gradual, por etapas, respeitando a Constituição de 1925 e o aparato estatal, ao que se supunha o bastante «flexível» para assumir e integrar reformas estruturais radicais. Entendia-se igualmente que as forças armadas eram legalistas, “constitucionalistas”, que respeitariam o sufrágio universal, o resultado eleitoral assim como as reformas do presidente Allende. Essas apostas estratégicas da «via chilena» foram denunciadas desde 1970 como «reformismo burguês» ou “programa democrático burguês” por um setor minoritário da esquerda, a esquerda revolucionária da época, em particular pelo Movimiento de Izquierda Revolucionaria (MIR), dirigido nesse momento por Miguel Enríquez.
Allende e a UP herdam e integram um marco institucional (enquanto a Unidade Popular era minoritária no Parlamento) que progressivamente ia ser ultrapassado pela dinâmica da luta de classes, por cidadãos e camponeses mobilizados, pelo movimento operário organizado, inclusive ainda que dito movimento permanecesse amplamente sob a influência dos dois grandes partidos da coalisão governamental, o Partido comunista (PCC) e o Partido Socialista (PSC). Há que completar esse panorama destacando que a Democracia Cristã de então gozava também de uma autêntica ancoragem sindical e popular e tentava opor-se ao papel central das esquerdas no movimento social. Pelo tanto existia uma dinâmica contraditória, dialética, entre o Governo e sua base social mobilizada, entre os grandes partidos da esquerda parlamentar e seus militantes; as direções políticas e sindicais a partir de 1972 foram ultrapassadas, pouco a pouco, pela dinâmica dos conflitos sociais e pelas formas de auto-organização – ainda embrionárias - nas populações pobres, nas empresas, no campo, experiências denominadas «poder popular».

O que faz com que em um dado momento os trabalhadores, a população em geral, se mobilizem e comecem a fazer as coisas por si mesmos? Como acontece tal fenômeno?

Há que lembrar que a chegada da Unidade Popular ao Governo não se fez no marco do que chamo “eleição fria”, mas que aquela vitória política-eleitoral foi o produto de um auge das mobilizações sociais desde meados dos anos 60. A própria eleição de Salvador Allende à presidência da República se fez no marco de grandes mobilizações coletivas. E a esquerda tentou mobilizar em torno de seu programa de campanha. Por exemplo, através dos Comitês da Unidade Popular (CUP), inicialmente pensados para converter-se em algo mais que comitês eleitorais. Criaram-se 14.000 comitês, mobilizando dezenas de milhares de militantes e simpatizantes. Assim, a chegada de Allende à presidência em 1970 não significa um declive das lutas, mas a ampliação e radicalização destas. Os trabalhadores utilizaram a eleição de Allende não esperando o que ia fazer e suas consignas, mas acelerando suas mobilizações, especialmente com greves, tomadas e ocupações de fábricas. Vemos por exemplo um crescimento exponencial do número de greves «ilegais», que se acelerou ainda mais entre 1971 e 1972, na medida que a burguesia e os grandes partidos de direita compreendiam que era no âmbito econômico, sobre o terreno da luta de classes, onde deviam combater o movimento popular que acompanhava - e pressionava - Allende. Podemos afirmar que frente a cada ofensiva dos setores dominantes, a resposta dos atores sociais subalternos organizados não foi unicamente defender o presidente Allende – ainda que sua figura tenha permanecido como legítima e sumamente popular para grandes maiorias operárias até o final -. Os trabalhadores, militantes e sindicalistas pensavam que tinham que proteger o Governo como conquista do povo, mas sobretudo que haviam que defender e aprofundar o processo de transformação revolucionária com as ferramentas das quais dispunham: ocupação de fábricas, manifestações na rua, autodefesa das populações, tentativas de controle operário e de abastecimento direto, etc.
Um dos grandes projetos econômico-social do Governo de Allende foi a constituição da “Área de Propriedade Social” (APS), formada pelas empresas nacionalizadas. Houve nacionalização – e depois do cálculo dos “benefícios excessivos” expropriações sem indenização - das imensas minas de cobre que estavam em mãos de grandes multinacionais e do imperialismo estadunidense; também se nacionalizaram grandes monopólios industriais e manufatureiros – mais de 70 -, o conjunto do crédito e sistema bancário… Mas, com tudo, muitos trabalhadores não estavam incluídos nessa «Área Social» que também previa um sistema de cogestão e participação direta dos assalariados. Então esses trabalhadores disseram: «nós também queremos integrar o setor nacionalizado, temos o direito de participar, conseguir melhores salários, não depender do patrão e de seus abusos, etc.». E portanto, com base nas primeiras medidas tomadas pelo Governo, um setor radicalizado exige mais e começa a ultrapassar o marco restrito, legal, das reformas progressistas propostas pela Unidade Popular, a ocupar suas empresas para impor a nacionalização, a invadir as ruas e ministérios reclamando mais ao “seu” Governo e progressivamente a sentir-se governo e dono de seu destino.

Então se pode dizer que o fenômeno do «poder popular» começou no setor que não havia se nacionalizado?

Na verdade, se tratava de uma dinâmica desigual e combinada. Os grandes bastiões operários integrados no setor nacionalizado (por exemplo, as empresas manufatureiras, têxtil, siderúrgica, de conservas, etc.) pouco a pouco começaram a questionar certas limitações e dificuldades do sistema de cogestão proposto pelo Governo e a principal central sindical, a Central Unitaria de Trabajadores, CUT: para resumir, o Estado nomeava um administrador e este estava encarregado de pôr em marcha a empresa e facilitar a criação de um sistema de cogestão com os representantes dos trabalhadores e dos «comitês de produção». Em algumas dessas empresas, onde havia uma forte presença da ala esquerda da Unidade Popular, em particular do PS, ou do MIR, os sindicalistas começaram a questionar e a aprofundar o sistema de participação. Ao mesmo tempo, nas empresas que não haviam sido nacionalizadas, as demandas de integração no APS eram cada vez mais fortes. Faziam-se pressionando o Governo – manifestações, barricadas nas grandes artérias periféricas de Santiago - ou mais seguidamente ocupando fábricas e denunciando os abusos da patronal. Essas «tomas» se organizavam também cada vez mais em reação defensiva frente aos ataques da burguesia e da extrema direita. O salto qualitativo foi em outubro de 1972. No magnífico documentário La batalla de Chile, Patricio Guzmán intitulou esse momento como «a insurreição da burguesia»: naquele então, o principal sindicato empresarial (SOFOFA) se lança em uma linha de massas, organizando um lock out patronal em escala massiva, o bloqueio do país graças à greve de corporações de caminhoneiros (financiados diretamente pela CIA) e apoiado por profissionais liberais, taxistas, médicos, engenheiros, etc. Nesse contexto, as limitações e as debilidades da “via legal” de Allende eram cada dia mais evidentes para muitos militantes; o Governo, em minoria no Parlamento e frente a uma Democracia Cristã cada vez mais hostil, parecia paralisado – então começou a apelar aos militares para manter «a ordem» e tentar estabilizar a situação de conflito que o país vivia. A resposta dos trabalhadores foi ocupar mais empresas – em algumas os trabalhadores iniciaram formas parciais e transitórias de controle operário da produção - e ajudar o abastecimento das populações da região, criar sistemas de transporte coletivo alternativo, etc. Aí surgiram os que se denominaram «cordones industriales», coordenações horizontais, territoriais, situadas principalmente nas grandes artérias periféricas de Santiago, mas que também se encontravam (ainda que de forma menor) desde Arica, no norte (no setor da eletrônica), até a Patagônia (Punta Arenas) passando por cidades como Concepción ou Valparaíso. Assim, em todo o país apareceu o mesmo fenômeno de auto-organização e coordenação territorial que surgiu de baixo graças ao trabalho dos sindicalistas e dos militantes. O que o historiador Peter Winn nomeou “revolução desde baixo”.

Como funcionavam esses «cordones industriales»?

Havia várias dezenas dessas coordenadorias em Santiago. Existe uma discussão historiográfica a respeito das cifras, mas implicaram em várias dezenas de milhares de trabalhadores (cerca de 100.00 no âmbito nacional). Trabalhei durante vários anos em Santiago sobre a imprensa e fiz dezenas de entrevistas, mas continua sendo difícil estabelecer o número exato daquelas estruturas, uma vez que algumas eram muito ativas e outras só existiam «no papel», na propaganda e discursos da esquerda. Entretanto, representou um fenômeno importante porque, ainda que fosse minoritário, afetava setores chaves da economia e segmentos muito ativos do campo sindical e político.
O mais poderoso daqueles cordones industriales foi o de Cerillos-Maipú, na comuna mais industrializada de Santiago (com 250 empresas e milhares de trabalhadores fabris). Sua organização territorial linear estava muito clara, uma vez que as empresas estavam construídas ao longo das rodovias e das vias do trem. Como explico em meu livro sobre “os mil dias da UP”, existia um «cordón em si», presente objetivamente na geografia da cidade, que levaria a um «cordón para si», uma organização mobilizada, nascida da auto-organização da classe operária nesses territórios urbanos. Em Maipú, um grande número de empresas pequenas e médias, que não estavam integradas na Área da Propriedade Social, eram bastiões sindicais do MIR e da ala esquerda do PS (muito ativa). Desde junho de 1972, portanto antes da grande crise de outubro, o cordão industrial começou a organizar-se. Isso indica que essa forma de organização estava latente na classe operária e explica por que durante a crise de outubro essas organizações se multiplicaram.
Os cordões nasceram, geralmente, da iniciativa de militantes de esquerda e sindicalistas. Nas empresas mais mobilizadas o resultado de autênticas assembleias operárias foi que elegeram um ou dois delegados para a assembleia do cordón industrial da zona. A investigação que realizei sobre o terreno graças à imprensa da época indica, entretanto, que há que relativizar a imagem do «soviete a la chilena», uma vez que só se tratava de um embrião de formas de poder dual (no sentido de Lenin ou do marxista boliviano Zavaleta Mercado), não sempre consolidado, o que também explica em parte a rapidez do golpe de Estado. Seguidamente, os cordões tinham dificuldades para superar o estado defensivo e transitório, devido às orientações políticas majoritárias da esquerda, de conflitos interpartidários ou interpessoais nas empresas e aos problemas de coordenação comunal e nacional. As assembleias estavam abertas a todos, mas em geral eram sobretudo os militantes dos partidos e os dirigentes sindicais que participavam e as animavam.

Essas assembleias eram uma forma de superação ou desenvolvimento dos comitês da Unidade Popular (CUP) ou outra coisa diferente?

Eram uma coisa muito diferente, uma vez que os Comitês da Unidade Popular entraram em recessão desde 1971 por falta de orientação política, mais além da campanha eleitoral, por parte da direção da Unidade Popular. Os cordões estavam realmente ancorados na classe operária industrial e sindical, reclamavam do controle operário, a aceleração das reformas, sempre defendendo o Governo frente à burguesia. Entraram em contradição com a Central Única de Trabajadores (CUT), que tinha uma organização territorial débil. Então os cordões supriram e superaram o déficit de organização.

Como funcionava a assembleia dos trabalhadores em uma fábrica? Era uma assembleia geral de todos os assalariados ou somente participava uma parte deles?

Existe, seguidamente, uma história sensivelmente diferente em cada fábrica. O historiador Peter Winn fez um estudo monográfico da grande fábrica têxtil Yarur, um bastião da classe operária onde o nível de organização era tal que se tratavam de autênticas assembleias dos trabalhadores, nas quais se discutia política, a orientação produtiva da fábrica e também a luta de classes em nível nacional, da participação nos cordões, das limitações da esquerda governamental ou da via institucional de Allende… Em outras fábricas havia mais dificuldades e as assembleias gerais só reuniam os assalariados mais organizados e politizados, seguidamente pessoas pertencentes à ala esquerda do PS. Segundo o ambiente político da fábrica, a dinâmica era diferente. Por exemplo, um estudo empírico que se realizou durante a UP em mais de 30 empresas, confirmava que onde dominavam a Democracia Cristã ou o PCC, o nível de participação era muito mais débil, a burocracia sindical marcava a linha e a construção dos cordões não era uma prioridade (inclusive estava contundentemente recusada). Aí se vê o papel fundamental desempenhado então pelo PCC para canalizar e «moderar» as mobilizações, mas também para frear este tipo de iniciativas de poder popular «de baixo» que ultrapassavam o marco da CUT e a orientação «gradualista» do Governo. Em um primeiro momento, a direção do PCC condenou firmemente os cordones industriales considerados como um elemento de divisão dos trabalhadores, uma iniciativa «esquerdista» e «aventureira»; entretanto, foram os cordones industriales que, em outubro de 1972 e depois em junho de 1973, ou seja, nos grandes momentos de crise política, permitiram que Allende se mantivesse na presidência. É aí onde aparece claramente o papel de todo um setor da Unidade Popular, em particular do Partido Comunista devido a sua implantação sindical, para frear as iniciativas de auto-organização e do que eu chamo formas de «poder popular constituinte», já que isso podia pôr em perigo as negociações com a Democracia Cristã no Parlamento e as tentativas de Allende de encontrar certo apoio institucional. Ao contrário, a ala esquerda do PS, os cristãos revolucionários e o MIR chamavam a «avançar sem ceder» e «criar, criar, o poder popular», ainda que por outra parte isso não fosse sempre seguido de ações concretas e, sobretudo, não permitisse construir uma via alternativa ao socialismo concreta e compreensível para as grandes maiorias. O vanguardismo, o propagandismo e o verticalismo também marcaram muito a esquerda revolucionaria “rupturista”. Entre a propaganda e a ação, às vezes, há muita distância!

Qual era, em 1970-1973, a taxa de filiação sindical? E a influência dos partidos políticos no movimento popular?

A taxa de filiação sindical era muito diferente segundo os setores. No setor público era quase obrigatória, portanto chegava a mais de 85%. No setor privado era importante - da ordem de 20% como média. A Central Unitaria de Trabajadores (CUT) era hegemônica e fundamental para as mobilizações, mas não representava todo o movimento sindical, já que nas pequenas e médias empresas havia numerosos sindicatos não filiados à CUT, devido entre outras coisas ao código do trabalho. Apesar de tudo, a CUT agrupava cerca de 700.000 trabalhadores em 1970 (de uma população de 9 milhões de habitantes). Na Central havia três correntes políticas principais: o PC, muito forte, muito estruturado e disciplinado, fortemente marcado pelo stalinismo (tinha mais de 250.000 membros) que era o principal apoio de Allende; o PS, muito mais heterogêneo, com uma forte ala esquerda capaz inclusive de chamar à greve geral insurrecional armada, mais interclassista (cerca de 180.000 membros); e não se pode esquecer da Democracia Cristã, que era a segunda ou terceira força sindical, dirigindo grandes sindicatos. Então a esquerda extraparlamentar estava formada, sobretudo pelo Movimiento de Izquierda Revolucionaria (MIR), organização muito jovem (formada em 1965), marcada pela teoria da «guerra popular prolongada» e obrigada a fazer frente à hegemonia dos grandes partidos operários, insertando-se nos setores mais marginais da classe operária, menos “controlados” – frequentemente abandonados - pela CUT, com um número de militantes entre 10.000 e 15.000 e um círculo de simpatizantes amplo e dinâmico. Existiam, por outra parte, algumas outras pequenas organizações ou grupos, como o PSR (Partido Socialista Revolucionário, trotskista), o PCR (maoísta) ou a Liga Comunista. Quanto mais apareciam as limitações ou dificuldades do projeto pacífico de Allende e à medida que as possibilidades de uma transição legal-institucional ao socialismo entravam em crise, mais se desenvolvia a influência ideológica do MIR, dirigido por Miguel Enríquez, em particular na esquerda da Unidade Popular. A política do MIR oscilava então entre uma crítica radical do «reformismo e o legalismo burguês» da esquerda e as tentativas de aliança com a ala esquerda do PS. Apesar de tudo, o MIR se reunia regularmente com Allende, inclusive proporcionou por um tempo uma proteção pessoal ao presidente (os Grupos de Amigos Pessoais, GAP).

No debate que você moderou na Universidad de Verano do NPA, um camarada chileno afirmou que, nas estruturas do poder popular, a grande maioria dos trabalhadores eram ao mesmo tempo «allendistas». Como explica essa situação, os avanços práticos que ultrapassam a legalidade e ao mesmo tempo certa forma de subordinação ideológica?

Até o final, Allende foi para a grande maioria do movimento operário «o camarada presidente», ou seja, muito mais que um símbolo da vitória eleitoral. Inclusive Allende teve uma influência cada vez mais forte sobre os operários democratas cristãos, que viam claramente que o Governo havia tomado medidas a favor dos trabalhadores, dos pobres – aumento dos salários, nacionalização do cobre, participação e gestão operária conjunta… A aura carismática de Allende nunca se questionou, apesar das limitações de seu programa ou as ilusões da esquerda com respeito às forças armadas «constitucionalistas». A contradição dialética é que o poder popular se desenvolvia em nome da defesa de “seu” Governo, mas sobre a base de reivindicações próprias dos trabalhadores, da classe… com ferramentas de luta que ultrapassam este mesmo Governo, como todos os partidos e poderes constituídos, por outra parte. Por exemplo, os lemas do cordão industrial Cerrillos e Maipú de 1972, são a ampliação do setor nacionalizado, alguns exigindo uma Assembleia Constituinte e o fechamento do «Parlamento burguês», fazendo eco da Assembleia Popular de Concepción de maio de 1972, o abastecimento sob controle popular, uma intervenção política no exército para mandar embora os reacionários, o controle operário da produção, etc. Tinham, portanto, reivindicações que iam muito além do marco político fixado por Allende, mas quase sempre em nome da “via chilena ao socialismo”. Assim o demonstra também a carta «ao camarada presidente», do dia 5 de setembro de 1973, da coordenadora provincial dos cordones industriales de Santiago (que aparece publicada no livro Venceremos) e dizia, em essência, «se você não confia nas massas, se continua tergiversando e procurando alianças parlamentares com a Democracia Cristã ou integrando os militares no Governo, você terá a responsabilidade do massacre frio da classe operária mais organizada da América Latina». E é o que aconteceu… A carta se dirige a Allende para que se apoie mais fortemente nas formas de poder popular e não procure consensos com a oposição. Isso indica também que o setor denominado «rupturista» pela historiografia atual – o MIR, a ala esquerda do PS e os setores cristãos revolucionários - não teve êxito para apresentar, para propor, um projeto alternativo ao de Allende, à estratégia de uma transição legal, pacífica, ao socialismo. O sociólogo Tomás Moulian falou da “dupla incapacidade” dos dois polos da esquerda, nesse momento histórico.
Em duas ocasiões, Allende integrou os mais altos representantes das forças armadas em seu Governo, inclusive ao lado dos principais dirigentes da CUT, que também foram nomeados ministros… Foi Allende quem nomeou Pinochet chefe do Estado Mayor em agosto de 1973, convencido de que se tratava de um «legalista». E foi o exército, encarregado de controlar o abastecimento ou aplicando a “lei de controle de armas”, que começou, um ano antes do golpe, a avaliar as resistências e fiscalizar violentamente as fábricas, reprimir os marinheiros de Valparaíso que denunciavam os preparativos golpistas. Tudo isso durante o governo da UP.
Ainda que os militantes do MIR tivessem razão em uma série de coisas – anunciaram o golpe de Estado mais de dois anos antes, insistiram na necessidade de um trabalho político com os soldados assim como na necessidade de reforçar as formas de poder popular - essa pequena organização revolucionária não pode tampouco representar e propor uma alternativa política nacional, que teria podido mudar o curso da história.

Pode voltar a Assembleia Popular de Concepción?

Em 1972, as divergências se acumulavam na esquerda, por conta das tentativas de Allende e do PC de procurar acordos com a Democracia Cristã para continuar suas reformas, consolidando a política do Governo, enquanto a esquerda – já o disse e isso era essencial - era minoritária no Parlamento. Frente a isso, assistimos ao crescimento das lutas sociais que fazem com que os setores políticos da cidade de Concepción do PS, do MAPU – os cristãos radicalizados procedentes da Democracia Cristã - e do MIR chamam de acelerar as coisas, «avançar sem ceder», romper com o Estado burguês e a ordem dominante. Após grandes manifestações de rua, em maio de 1972 se celebrou uma “Assembleia Popular” em Concepción, convocada por dezenas de organizações sindicais e sociais, comitês de populações e toda a esquerda, menos os comunistas. A Assembleia chamou à unificação das formas de poder popular. Às vezes, a posteriori, se quis ver neste ato público uma espécie de duplo poder local. Na verdade foi uma grande assembleia deliberativa, de alerta, de uma parte da esquerda da Unidade Popular e da extrema esquerda, um ato mais de interpelação do Governo que de poder dual. A princípio, devia tratar-se de um debate público entre dirigentes de partidos, mas os sindicalistas, os habitantes e os militantes sociais presentes na sala se impuseram para falar de seu cotidiano e esperanças, mas também temores, intervindo sobre as contradições do período, criticando suas direções políticas e as debilidades da esquerda, chamando à unidade e denunciando o imperialismo, os “múmias”, etc. A assembleia foi denunciada imediatamente pelo PC (que foi o único partido que se negou a participar) como uma manobra esquerdista, inclusive “manipulada pelo imperialismo”; o próprio Allende que, desde o dia seguinte, em uma tribuna do Mercurio afirmou que poderia tratar-se de uma divisão perigosa para o governo popular, chamou à unidade com o executivo.

Você falou dos Cordones industriales. Estavam também os que se denominavam «Comandos Comunales», você pode dizer em que se diferenciavam dos cordones?

Os Comandos Comunales eram essencialmente uma reivindicação do MIR e de certos setores da esquerda da Unidade Popular. Supunha-se que agrupariam, além da classe operária, todos os setores sociais subalternos, os «pobres da cidade» como dizia o MIR, os estudantes, os pequenos comerciantes, os camponeses, a pequena-burguesia. Deviam ser uma prefiguração de futuras comunas revolucionárias e de um duplo poder. Essa era a teoria que o MIR defendia em particular. Na prática se comprovou que tinham muitas dificuldades para ir mais além dos setores sociais urbanos denominados «marginais», dos pobladores e das problemáticas específicas (abastecimento, moradia, desemprego) dessas populações. A falta de união entre a classe operária e esses fragmentos importantes do movimento social, foi uma dificuldade real para o processo revolucionário: Como construir a unidade desse campo social, tão heterogêneo e com práticas históricas longínquas? A esquerda do PS, pelo contrário, desejava dar a prioridade aos cordones, quando o MIR insistia nos comandos. Muito frequentemente, esse debate representou a diferença da inserção social dos partidos: o PS era muito forte nos cordones industriales e na classe operária, o MIR, que tinha uma débil inserção industrial, desenvolveu os comandos comunais, partindo das populações urbanas pobres, como em Nueva La Habana. A posteriori, isso se pode analisar como uma orientação errônea do MIR, que sempre quis que os cordones industriales – a forma mais avançada do poder popular constituinte chileno - se reintegrassem como organização de base da CUT, uma vez que, em sua concepção, o comando comunal era a forma autêntica do poder popular. Porque o que realmente funcionou foram os cordones industriales, ao menos em Santiago e em algumas cidades médias… Por suposto, também haveria que analisar o que sucedia no campo, mas este é outro debate e significa outra investigação. Seja como for, o MIR nunca assumiu a necessidade de centralizar, de coordenar esses cordones industriales que ficaram entre os «tesouros perdidos», nas palavras de Hannah Arendt em seu Ensayo sobre la revolución, dois mil dias da Unidade Popular… e que há 40 anos do golpe de Estado e do início da repressão de 17 anos de ditadura neoliberal, merecem sair do esquecimento com o fim de ensinar lições para o futuro. Um legado essencial para essa nova geração de chilenas e chilenos que reencontrou o caminho das mobilizações sociais. 

Tradução: Liborio Júnior


terça-feira, 17 de setembro de 2013

40 anos depois da morte de Allende, deveríamos agradecer: Obrigada Washington, por nos livrar do perigo vermelho! Amém.

Obrigada, Washington


40 anos depois da morte de Allende, deveríamos agradecer: Obrigada Washington, por nos livrar do perigo vermelho! Amém.

13/09/2013
Bruna Muriel*

Na edição noturna do Jornal da Cultura da última quarta feira, 11 de setembro, o comentarista Luis Felipe Pondé afirmou que se o presidente chileno democraticamente eleito Salvador Allende não tivesse sido assassinado pela ditadura de Pinochet 40 anos atrás e houvesse permanecido no poder, teria fracassado. Porque, afinal, todo governo socialista fracassa.
Em seguida entraram os comerciais.
Meus olhos fitaram a tela entre cansados e instigados e, sobre minha cabeça, surgiu um balão com a seguinte interrogação: “Isto quer dizer que os governos liberais e neoliberais impostos a partir de golpes militares em distintos países da América Latina... São exitosos?”
E a opressão vivida pela oposição nos momentos posteriores ao golpe? E a intensificação das contradições sociais em escala nacional e internacional, experimentadas pelas experiências capitalistas, que expandiram o abismo entre indivíduos e países ricos e pobres? E que concentraram rendas e terras, intensificaram as guerras, a exclusão social, o tráfico, a alienação política, o impacto ambiental, a cultura do consumo e a violência armada?
É interessante como sabemos pouco sobre a trágica história deste país “hermano” sul-americano. Sabemos que produz ótimos vinhos - obrigado, senhor, pela existência do Concha y Toro! - e sabemos que possui montanhas nevadas, já que todo inverno a capa da Caras divulga as caras –e as bundas, se o Ziraldo me permite o trocadilho - das divas brasileiras que vão lá esquiar. Mas pouco sabemos sobre o quão próximo o Chile esteve de transformar-se em um país socialista.
Pelo menos este era o projeto de grande parte da população que apoiou o governo de Allende. Um presidente que tentou superar a situação de dependência externa, desigualdade social e a falta de participação democrática através de ações como: a nacionalização das indústrias, o diálogo com as organizações sociais, a implantação de novas experiências de participação popular e a criação de mecanismos de redistribuição da renda nacional, até então hiper-concentrada. E, como se não bastasse tamanho atrevimento, pasmem! Aprofundou a reforma agrária.
Ou seja, tudo aquilo que deixava – e ainda deixa - a elite, a classe média, a Igreja, os militares e os Estados Unidos de cabelos em pé. E, por isso, foi brutalmente assassinado em 1973 durante o bombardeio que destruiu o Palácio de La Moneda, em Santiago do Chile. A ação foi o momento inicial do golpe militar comandado pelo general Pinochet, cuja ditadura, apoiada por Washington, incluia criação de campos de concentração, mais de 3.200 mil mortos e outras 38 mil vítimas entre presos, torturados e exilados.
Fato é que, por pouco, a cidade de Santiago do Chile não vivencia um percurso politico, econômico e ideológico parecido com o de uma outra Santiago. A cidade-xará, mais caliente e rumbera, Santiago de Cuba, capital de uma guerrilha que levou o país a um percurso histórico que parece radicalmente distinto e distante do resto dos países da América Latina. O que não se fala é que, não fosse o suporte organizacional, financeiros, logístico, militar, dado pelos Estados Unidos às forças contrarrevolucionarias, a história de Nuestra América teria sido outra.
Aliás, é interessante notar que, ao sintetizar a multiplicidade de preconceitos (classistas, ideológicos, raciais, geográficos) imbricados à elite nacional, a vinda dos médicos cubanos para o Brasil através do programa Mais Médicos gerou uma reação da reação de tal modo extremada, que fez a maioria da população se solidarizar com os estranhos habitantes desta ilha caribenha, misteriosa e desconhecida, que – sabe-se lá por que - insiste em permanecer isolada e socialista. E por socialista, leia-se - ou leia na Veja - um regime antidemocrático, ditatorial, escravocrata e atrasado. Onde muito provavelmente, como em qualquer comunismo que se preze, se cortam as mãos dos opositores e se devoram criancinhas.
Teria sido melhor se o Chile houvesse permanecido sob um governo eleito democraticamente e vivenciado a fundo as experiências de transformação ansiadas por grande parte da população? Não sei.
É claro que as experiências do socialismo real distam muito daquilo que foi idealizado pelos seus teóricos e militantes. Hoje em dia, ninguém deseja viver em um sistema onde se cerceiam liberdades básicas (de expressão, opinião e políticas), onde a internet é controlada e onde permanece a pena de morte. Como em Cuba. Mas é o desejo de todo mundo (ok, quase todo mundo) viver em uma sociedade mais igualitária, povoado de pessoas alfabetizadas e saudáveis, que praticamente desconhecem a violência, o crack e a existência de meninos de rua. Pois é. Acabo de voltar de Cuba, e lá é exatamente assim.
Passou da hora de que o Brasil e o resto do mundo deixem de lado este olhar enviesado em relação à Cuba e às experiências dos governos progressistas da América Latina – os da década de 60 e 70, e os atuais. Olhar este constantemente reforçado pela propaganda falaciosa de um sistema que, através da retórica da liberdade, da democracia, do progresso e do desenvolvimento, encobre a expansão, em escala global, de lógicas comerciais perversas e de um modelo já intolerável de desenvolvimento baseado na exploração. De uns povos sobre outros, de uns seres humanos sobre outros e destes sobre a natureza.
Dialoguemos, portanto! Dialoguemos com as práticas de transformação social pela via pacífica do Chile de Allende. E dialoguemos com Cuba e sua corajosa experiência histórica. Caminhemos em busca de novas possibilidades de existência social, mais igualitárias e, ao mesmo tempo, mais libertárias. Dialoguemos, também, com os médicos cubanos cuja experiência, tanto em termos de medicina quanto em projetos de solidariedade internacional, tem muito a ensinar a uma cultura individualista e mercantilista, que vê a troca com o outro ser ou nação pelo viés do lucro, ainda quando o que está em jogo é a vida humana.
Vale lembrar que o programa de Ajuda Internacional Cubana parte de princípios éticos, filosóficos e ideológicos difíceis de compreender para os que estão acostumados a um modelo de cooperação internacional baseado na velha fórmula de “dar e receber”, onde a “ajuda” depende de acordos comerciais que, ou vinculam o país receptor a empresas multinacionais do país doador ou que acabam por gerar novas dívidas externas em países já fragilizados economicamente. É outra a percepção em relação à humanidade, à saúde e à vida. Dialogar com os médicos cubanos, portanto, pode contribuir para o resgate de uma medicina mais humana e holística, baseada na relação pessoal entre o médico e o paciente, fundamentada no conhecimento humano e não somente na alta tecnologia. Até porque a medicina em Cuba teve que se desdobrar em força e criatividade como forma de superar a carência de equipamentos high tecs, embargados devido ao bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos algumas décadas atrás.
O programa de colaboração sistemática e gratuita aos países subdesenvolvidos, como parte da política do estado revolucionário, foi incluído no projeto político nacional a partir de 1963, quando o médico argentino Ernesto Che Guevara encabeça a primeira missão de ajuda médica a Argélia. A este país seguiram outros da África, América, Ásia... Até chegarmos, em julho de 2013, a um total de 39.918 profissionais da saúde colaborando em 58 países, o que a faz ser reconhecida mundialmente. Exceto pela máfia do colarinho branco do Brasil.
Mas a primeira experiência de ajuda humanitária cubana teve início logo após a revolução de 1959. Nem bem um ano havia se passado desde a derrubada do ditador Fulgêncio Batista, quando uma importante brigada médica partiu rumo a um Chile devastado pelo terremoto mais forte de sua história, el sismo de Valdivia. Mais de 5 mil mortos, com seus 9,5 pontos de escala Richter.
Neste momento, as duas Santiagos – de Cuba e do Chile - se encontraram. Uma, seguiria um caminho duro, mas autônomo e independente. A outra, sofreria a intervenção militar mais cruel e sanguinária de todas as experiências cruéis e sanguinárias que foram os golpes de estado na América Latina.
Mas... Diante do sucesso das experiências capitalistas na América Latina e uma vez que o socialismo estava destinado ao fracasso mesmo... Acho que, 40 anos depois da morte de Allende, deveríamos agradecer.
Obrigada, Washington, por nos livrar do perigo vermelho! Amém.

*Bruna Muriel Huertas Fuscaldo é doutoranda pelo Programa de Pós Graduação emIntegração da América Latina da Universidade de São Paulo, PROLAM-USP.

domingo, 15 de setembro de 2013

Kerry, Kissinger e o outro 11 de setembro

Kerry, Kissinger e o outro 11 de setembro


A reunião entre Kerry e Kissinger e a oposição pública ao ataque à Síria, que ambos apoiam, deveriam ser vistas à luz do que aconteceu a 11 de setembro, mas de 1973. O papel que Kissinger desempenhou na planificação do golpe de Estado no Chile em 1973 fica mais claro à medida que passam os anos e surgem novos documentos. Por Amy Goodman


Enquanto a intervenção militar do presidente Obama na Síria parece ter sido adiada de momento, chama a atenção que o secretário de Estado dos Estados Unidos, John Kerry, se tenha reunido com um dos seus antecessores, Henry Kissinger, para supostamente falarem da estratégia das próximas negociações sobre a Síria com funcionários russos. A reunião entre Kerry e Kissinger e a oposição pública ao ataque à Síria, que ambos apoiam, deveriam ser vistas à luz do que aconteceu a 11 de setembro, mas de 1973.

Naquele dia, há 40 anos, o presidente democraticamente eleito do Chile, Salvador Allende, foi derrubado violentamente por um golpe de Estado que contou com o apoio dos Estados Unidos. O general Augusto Pinochet assumiu o controlo do país e deu início a dezassete anos de um regime militar de terror, no qual mais de 3.000 chilenos foram assassinados ou desapareceram, o mesmo número de pessoas, aproximadamente, que morreram no 11 de setembro de 2001. Allende, que era socialista, contava com muito apoio popular no seu país, mas as suas política eram o anátema das elites do Chile e dos Estados Unidos, pelo que o então presidente norte-americano, Richard Nixon, e o seu secretário de Estado e assessor de segurança nacional, Henry Kissinger, apoiaram as tentativas de derrubá-lo.

O papel que Kissinger desempenhou na planificação do golpe de Estado no Chile em 1973 fica mais claro à medida que passam os anos e surgem novos documentos, que o próprio Kissinger tentou manter em segredo. Peter Kornbluh, da organização sem fins lucrativos National Security Archive (Arquivo de Segurança Nacional), revelou as provas durante anos, e recentemente atualizou o seu livro “Pinochet: os arquivos secretos”. Kornbluh disse-me que Kissinger “foi o principal responsável pela elaboração da política de derrubar Allende e inclusive de apoiar Pinochet e as violações dos direitos humanos que ocorreram durante o seu regime”. Afirmou que Kissinger “pressionou Nixon para que assumisse uma política agressiva, mas secretamente, para conseguir derrubar Allende, desestabilizar a sua capacidade de governar e gerar o que Kissinger denominou 'um clima golpista'”.

O regime de Pinochet foi violento, repressivo e um aliado próximo dos Estados Unidos. Pinochet formou alianças com outros regimes militares da América do Sul, que criaram o “Plano Condor”, uma campanha de terrorismo de Estado e assassinatos coordenados na Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai. O Plano Condor chegou até às ruas de Washington DC quando, a 21 de setembro de 1976, o ex-embaixador chileno nos Estados Unidos durante o governo de Allende, Orlando Letelier, foi assassinado juntamente com o seu assistente, um cidadão norte-americano chamado Ronni Moffitt, num atentado com um carro bomba perpetrado pela polícia secreta de Pinochet na zona das embaixadas, a poucos quarteirões da Casa Branca.

Finalmente, após a crescente condenação mundial e a resistência não violenta dentro do seu país, o regime de Pinochet viu-se obrigado a realizar um plebiscito no qual se decidiria se Pinochet devia continuar como ditador no Chile. A população rejeitou o governo de Pinochet com um “Não” rotundo e inaugurou a atual era democrática no Chile.

Pelo menos dois cidadãos norte-americanos foram assassinados durante o golpe de 1973. Charles Horman e Frank Teruggi viajaram para o Chile para testemunharem a experiência democrática que se estava a desenvolver no país. Trabalhavam como escritores e jornalistas. O seu sequestro e assassinato por parte das forças de Pinochet, com a possível colaboração do governo norte-americano, foram representados no filme “Desaparecido” do realizador Costa Gravas, com Jack Lemon e Sissy Spacek como protagonistas. No Chile, o filme “Desaparecido” foi proibido pelo regime de Pinochet. No 40º aniversário do golpe de Estado, a viúva de Charles Horman, Joyce Horman, realizou uma cerimónia evocativa na cidade de Nova York. O evento foi organizado pela fundação Charles Horman Truth Foundation e atraiu centenas de pessoas, muitas das quais fizeram parte do governo de Allende, perderam familiares durante a ditadura ou viram-se obrigadas a exilar-se do Chile durante aqueles anos terríveis.

Entre os presentes estava Juan Garcés, um cidadão espanhol que foi assessor pessoal do presidente Allende. Garcés estava com Allende no Palácio de La Moneda no dia 11 de setembro de 1973. Pouco antes do palácio ser bombardeado pela força aérea, Allende acompanhou Garcés à porta e disse-lhe que saísse e contasse ao mundo o que tinha acontecido naquele dia.

Allende morreu durante o golpe e Garcés apenas conseguiu escapar do Chile com vida. Anos depois apresentou uma denúncia penal contra Pinochet e finalmente conseguiu que fosse preso na Grã-Bretanha em 1998, onde Pinochet permaneceu detido durante 504 dias. Ainda que Pinochet tenha podido finalmente regressar ao Chile, mais tarde foi processado lá e teve que enfrentar um julgamento e a prisão. Morreu em 2006 em prisão domiciliária aos 91 anos de idade.

Hoje, Juan Garcés considera que há alarmantes semelhanças entre a repressão no Chile e as atuais políticas norte-americanas: “Realizam deportações extraordinárias de presos, execuções extrajudiciais. Têm centros de detenção secretos. O recurso de habeas corpusé ineficaz. Preocupa-me muito que os mesmos métodos que foram utilizados no Chile durante a ditadura, com o conhecimento e o apoio do governo de Nixon e Kissinger, agora estejam a ser utilizados em muitos países, com outra desculpa, com o apoio dos Estados Unidos. Considero que é algo muito perigoso para todos”.

Em vez de reunir com Kissinger para procurar assessoria, John Kerry deveria apoiar a paz e consultar pessoas como Garcés, que dedicaram a sua vida a lutar por essa causa. O único motivo pelo qual se deverá procurar Kissinger é para levá-lo a tribunal, tal como aconteceu com Pinochet.

Artigo publicado em “Truthdig” e "Democracy Now" em 11 de setembro de 2013. Denis Moynihan colaborou na produção jornalística desta coluna. Texto em inglês traduzido por Mercedes Camps para espanhol. Tradução para português de Carlos Santos para Esquerda.net


Cinismo e cegueira ideológica

Cinismo e cegueira ideológica


Os liberais não têm apreço pela autocrítica. A patética defesa da ditadura Pinochet no Chile, sob falsas teses econômicas, é prova

por Vladimir Safatle — publicado 15/09/2013 
Allende
Celebração no Chile lembra os 40 anos do golpe militar que derrubou Salvador Allende
Uma característica interessante dos liberais, em especial os latino-americanos, é sua imunidade absoluta a qualquer forma de autocrítica. Você encontrará esquerdistas em exercícios constantes de autocrítica. Não é difícil mapear as críticas da própria esquerda aos desvios autoritários das experiências comunistas, à insensibilidade contra certas questões ligadas às liberdades individuais, à forma-partido, ao raciocínio estratégico tacanho de grupos de esquerda no governo, entre tantos outros temas. Mas você praticamente não encontrará um liberal fazendo a crítica das experiências neoliberais fracassadas dos anos 1980 e 1990, da desregulamentação dos mercados financeiros ou do aumento da desigualdade social resultante de “choques de modernização”.
Não, meus amigos, um liberal entende a autocrítica como uma confissão de capitulação. Para alguns, a confissão do erro é sinal de força, mas não para ele. Por isso sua perspectiva é antipolítica por excelência. Pois, como a política, é a reflexão a partir de contextos. Como ela é a inflexão tensa entre princípios e análise de contexto, ela é uma dimensão da ação estruturalmente falível. O que faz da primeira virtude política a autocrítica, a desconfiança de si mesmo. Sartre dizia que a filosofia era a capacidade de pensar contra si mesmo. Na verdade, esta é também uma bela definição da política.
Digo isso porque ainda me espanto com certas reações de nossos liberais. Na quarta-feira 11, o Chile lembrou os 40 anos do golpe militar que derrubou Salvador Allende e jogou o país no mais profundo período de obscurantismo de sua história. Não apenas devido aos fartamente documentados crimes contra a humanidade, como as caravanas da morte e as sessões públicas de tortura no Estádio Nacional. Relembrou não apenas o êxodo provocado (mais de 150 mil chilenos seguiram a via do exílio), mas a tentativa de moldar o país de forma a eliminar tudo o que ele tinha de debate político e de mentalidade aberta.

No entanto, quem esperava haver atualmente certo consenso supraideológico a respeito da barbárie que o regime Pinochet representou, enganou-se. Nunca um liberal, que no fundo viu com alívio a queda da experiência socialista e libertária de Allende, aceitará que as ditaduras latino-americanas foram simplesmente brutalidades políticas que merecem o mais firme e inequívoco repúdio. Ao contrário, eles sempre virão com o cinismo de argumentos do tipo: “Veja bem, não gosto de regimes autoritários, mas é inegável que Pinochet modernizou a economia do país, criando um Chile dinâmico e moderno”.

Na verdade, esse cinismo é a pior de todas as posições, pois tenta vender-se como análise isenta dos fatos, quando não passa, no fundo, de simples cegueira ideológica. Durante os dez primeiros anos da ditadura de Pinochet, o PIB do Chile caiu, em média, 1,1%, a despeito do auxílio financeiro maciço dos Estados Unidos. Quando o país voltou a crescer, nos últimos cinco anos da ditadura, apenas recuperou a posição que tinha décadas atrás, mas agora sem o sistema gratuito de saúde, sem a previdência pública e com um índice de desigualdade inimaginável anos atrás. Pinochet entregou um país no qual as famílias numerosas precisavam escolher qual filho iria para a escola até a universidade, porque tais famílias não tinham dinheiro para bancar a educação de todos os seus filhos. Quem fala isso é um chileno, que conhece a realidade de seu país de nascimento.
No entanto, quando escrevi isso em um artigo alguns dias atrás, deparei-me com comentários inacreditáveis, como: os anos de recessão foram necessários para “corrigir os estragos” feitos por Allende. De nada adianta esfregar na cara desses arautos da verdade todos os documentos americanos que vieram ao domínio público. Eles deixam claro, por exemplo, como o governo Nixon patrocinou uma inacreditável política de sabotagem econômica comandada pelo bandido internacional Henry Kissinger, como seus locautes, suas práticas de desabastecimento e de verdadeiras ações terrorismo de Estado. Eles falarão que tudo isso é um complô de esquerdistas internacionais para desculpar a incompetência de Allende.
Diante disso, fica claro como não se trata de contrapor argumentos com fatos, porque estamos diante de pessoas que nunca, em hipótese alguma, dirão algo como: “É, certamente, esse apoio foi um erro a respeito do qual deveríamos meditar”.

A segunda morte e a eterna vida de Neruda

A segunda morte e a eterna vida de Neruda


O cidadão Ricardo Eliecer Nefataí Reyes Basoalto (seu nome de batismo) morreu em circunstâncias suspeitas em 1973. Pablo Neruda, este, é eterno. Homenageá-lo, neste quadragésimo ano de sua morte, é também homenagear a eterna sombra do que com ele caíram – sem se vergar – perante a ditadura de Pinochet.


A morte de Pablo Neruda, dias após o golpe que derrubou o governo da Unidade Popular no Chile, e levou o Presidente Salvador Allende ao suicídio, depois de heróica resistência, está sob suspeição.

Neruda estava doente, com câncer. Alguns dias depois do golpe, foi levado para um hospital de Santiago, onde faleceu. Há dúvidas que apontam para a possibilidade de que tenha sido envenenado. Seus restos mortais foram exumados na sua casa em Isla Negra, e foram colhidas amostras para exame. Se confirmado o assassinato, será sua segunda morte, e mais um testemunho de sua eterna vida.

Neruda hoje é uma unanimidade no Chile. Mas nem sempre foi assim. 

Em primeiro lugar, ele era odiado pela direita. A tal ponto que, ameaçado de prisão quando era senador comunista, promoveu uma fuga discreta mas espetacular, em 1949, atravessando a cavalo a Cordilheira dos Andes na altura de Valdívia para a Argentina. Deste país viajou com documentos falsos para a França e só depois de algum tempo conseguiu regularizar sua situação na Europa.

A morte de Neruda foi simbólica. Ele morreu com o país que ajudou a criar, o Chile de uma mais suposta que verdadeira tradição democrática, mas que, enfim, tinha esta tradição como objetivo e apanágio. Foi um dos mais entusiastas aderentes à luta da Unidade Popular. Abriu mão de sua candidatura à presidência para que ele e o Partido Comunista Chileno pudessem apoiar a de Salvador Allende.

O Chile hoje é outro, um país de memória torturada e por vezes tortuosa, cujos cidadãos ainda se dividem quanto à herança de uma das ditaduras mais nefastas da América Latina, entre as múltiplas nefastas que esta amargou.

Mas sobre e para além delas paira a palavra única, ímpar, de Pablo Neruda.

A primeira edição de seu livro ‘Veinte poemas de amor y uma canción desesperada,’ em 1924, é saudada até hoje por muitos críticos como um dos marcos do “salto” da poesia hispano-americana para a modernidade do século XX. Ao longo de sua trajetória, Neruda cantou o amor, a história épica das lutas de libertação e sofrimento do nosso continente, e as simplicidades do cotidiano, revestidas de uma solene contemplação da natureza, como em seu inesquecível poema “Oda a la cebolla”:

“Bajo la tierra
fue el milagro
y cuando apareció
tu torpe tallo verde,
y nacieron
tus hojas como espadas en el huerto,
la tierra acumuló su poderío
mostrando tu desnuda transparencia,
y como en Afrodita el mar remoto
duplicó la magnolia
levantando sus senos,
la tierra
así te hizo,
cebolla,
clara como un planeta,
y destinada
a relucir,
constelación constante,
redonda rosa de agua,
sobre
la mesa
de las pobres gentes”.

Mas o livro que o consagrou como um poeta do continente foi mesmo seu Canto General, publicado no México em 1950 com ilustrações de David Alfaro Siqueiros e Diego Rivera, cujos orginais semi-prontos ele levara consigo em sua fuga através da Cordilheira, em 1949. Ali se lê, por exemplo, em “Alturas de Macchu Picchu”:

“Ésta fue la morada, éste es el sitio: 
aquí los anchos granos del maíz ascendieron 
y bajaron de nuevo como granizo rojo. 

Aquí la hebra dorada salió de la vicuña 
a vestir los amores, los túmulos, las madres, 
el rey, las oraciones, los guerreros. 

Aquí los pies del hombre descansaron de noche 
junto a los pies del águila, en las altas guaridas 
carniceras, y en la aurora 
pisaron con los pies del trueno la niebla enrarecida, 
y tocaron las tierras y las piedras 
hasta reconocerlas en la noche o la muerte. 

Miro las vestiduras y las manos, 
el vestigio del agua en la oquedad sonora, 
la pared suavizada por el tacto de un rostro 
que miró con mis ojos las lámparas terrestres, 
que aceitó con mis manos las desaparecidas 
maderas: porque todo, ropaje, piel, vasijas, 
palabras, vino, panes, 
se fue, cayó a la tierra. 

Y el aire entró con dedos 
de azahar sobre todos los dormidos: 
mil años de aire, meses, semanas de aire, 
de viento azul, de cordillera férrea, 
que fueron como suaves huracanes de pasos 
lustrando el solitario recinto de la piedra”.

O tom épico dado pelos versos longos lembra o Drummond de “A flor e a náusea”, ou seja, de A rosa do povo. São consanguíneos, o mineiro de Itabira e o chileno de Parral, ambos, ao modo de cada um, cidadãodo mundo.

Em 1971 ganhou o prêmio Nobel de literatura. Mas ele foki maior do que qualquer prêmio.

Diplomata de carreira desde sua nomeação, ainda jovem, para o cargo de cônsul em Rangoon, na Birmânia, Neruda teve o ápice desta sua faceta profissional ao ser nomeado Embaixador do Chile em Paris, em 1971, pelo governo da Unidade Popular, cargo que ocupou até o começo de 1973, tendo renunciado por razões de saúde.

Amigo de Garcia Lorca, acompanhou de perto, em suas funções consulares, a Guerra Civil Espanhola, não escondendo sua simpatia pelos republicanos, embora fosse repreeendido até pelo embaixador, que o desejava mais neutro.

Também amigo de Luis Carlos Prestes, veio ao Brasil saudá-lo em histórica jornada no Estádio do Pacaembú, em São Paulo, diante de milhares de pessoas. Neruda nunca fugiu de seus compromissos, nem calou sua palavra.

O cidadão Ricardo Eliecer Nefataí Reyes Basoalto (seu nome de batismo) morreu em circunstâncias suspeitas em 1973. Pablo Neruda, este, é eterno.

Homenageá-lo, neste quadragésimo ano de sua morte, é também homenagear a eterna sombra do que com ele caíram – sem se vergar – perante a ditadura de Pinochet.


Flávio Aguiar é correspondente internacional da Carta Maior em Berlim.

O que 1973 tem a dizer a 2013?

O que 1973 tem a dizer a 2013?


Não foi qualquer apego a efemérides que motivouCarta Maior a reunir uma dezena e meia de analistas, personagens, cineastas e filmes para registrar os 40 anos do golpe militar de 11 de setembro no Chile.

O Especial ‘Chile de Allende, 40 anos do golpe’ não mira o passado.

Se há uma interrogação não respondida na história da esquerda latino-americana ela pode ser resumida na pergunta que se tornou incontornável, desde que os Hawkers-Hunters da Força Aérea passaram a disparar contra o La Moneda, naquela terça-feira cinzenta de 1973.

‘O socialismo pela via democrática morreu com Allende?’

A atualidade da arguição inclui nuances.

Algumas delas falam diretamente ao Brasil dos dias que correm. 

Exemplos.

O que acontece em um país quando o conservadorismo forma a percepção de que as possibilidades democráticas e eleitorais de seu retorno ao poder se estreitaram?

Que contrapesos poderiam, ou melhor, deveriam ser acionados quando a judicialização da política e o golpismo midiático compõem um corredor polonês asfixiante em torno de um governo democrático e progressista?

Em que medida é realista apostar em um alicerce defensivo ancorado exclusivamente nas instituições existentes, quando o propósito é superar o que elas guarnecem?

É um primeiro indicativo.

Há outros a sinalizar que não estamos falando de ontem.

Mas das evocações que 1973 inspira em 2013.

O processo chileno tem recados a dar ao governo do PT.

E aos que se definem à esquerda do governo e do PT.

A coragem e a dignidade inexcedíveis de Salvador Allende e a de milhares de homens e mulheres que, a exemplo dele, perderam a vida e entes queridos no golpe, não estão em questão.

Mas o debate sobre os equívocos do processo e, sobretudo, a busca de alternativas, devem ser retomados à luz da nova realidade latino-americana.

Hoje ela é recortada pela emergência de um colar de governos progressistas, articulados de forma incipiente, mas em nível muito superior ao que dispunha Allende.

E, todavia, dificuldades regionais e globais já se entrelaçam a estreitar a sua capacidade de expandir as fronteiras da justiça social na região.

Allende endossou no seu cálculo político dois mitos, para o bem e para o mal, desacreditados hoje na porção progressista da América Latina.

Mas sem que se extraia disso as consequências políticas cabíveis.

A propalada solidez de 100 anos de democracia congressual chilena; e a decantada postura profissional do Exército do país formavam a pedra angular do projeto da Unidade Popular.

O ponto de partida ensejou certa prostração do Estado e da sociedade diante da beligerância progressiva da mídia e dos interesses locais e estrangeiros, que nunca endossaram a ideia de uma transição democrática para o socialismo.

Instalou-se a partir daí uma contradição latejante no motor da Unidade Popular.

De um lado, por eleger como ancora da travessia uma institucionalidade sobre a qual nunca teve domínio. E dentro da qual jamais conseguiu construir uma maioria.

De outro, e em decorrência do anterior, por desestimular a organização de milícias operárias de autodefesa, fiel ao princípio de que um ‘exército profissional’ zelaria pela higidez do processo constitucional e popular.

À natureza bipolar da engrenagem interna viria se somar certa subestimação das determinações mais gerais de uma desordem capitalista em curso.

Nela, o poder americano, fustigado por múltiplos reveses, armava as garras para recompor sua supremacia geopolítica.

Havia um contra-fluxo conservador em marcha no mundo quando Allende chegou ao poder, em 21 de setembro de 1970, mostra o Especial de Carta Maior.

A luta armada contabilizava derrotas sucessivas na América Latina. 

Ditaduras multiplicavam-se. 

O poder americano estava corroído pelo déficit e a inflação decorrentes do choque do petróleo e dos gastos na guerra do Vietnam.

Uma espiral adversa empurrava a máquina de guerra mais poderosa do mundo para uma derrota humilhante, consumada em 1975, quando Saigon caiu nas mãos dos comunistas.

A emergência de um Chile embalado na sedutora mescla de democracia e socialismo era o lança-chamas solto no paiol de um império inflamável e inflamado.

"Não permitiremos que isso dê certo", asseverou Henry Kissinger a uma delegação de autoridades chilenas, logo após a vitória da Unidade Popular.

“Allende nacionalizou 79 grandes empresas industriais (as minas de cobre entre elas), 16 dos 18 bancos comerciais existentes, expropriou cem milhões de hectares de terra, completando-se assim o processo de reforma agrária iniciado no governo de Eduardo Frei (1964-70). Além disso, foram incorporadas às instâncias do poder, à cúpula do Estado, à administração pública e à direção das estatais representantes do povo e da classe operária. Foi o primeiro governo da história do Chile que contou com a participação de quatro ministros operários, três comunistas e um socialista. A direita não tolerou isso”.

A contabilidade histórica é feita por quem viveu tudo isso como o segundo homem da estrutura da Unidade Popular, depois de Allende.

Luís Alberto Corvalán Lepe, (1916-2010), o lendário dirigente comunista chileno, coordenador da campanha da UP, foi entrevistado por Gilberto Maringoni em 1993. 

A conversa, mantida inédita desde então, é publicada pela primeira vez neste especial de Carta Maior

Corvalán disse a Maringoni que a questão política acabaria pesando ainda mais que a econômica na conflagração golpista.

A mesma percepção é endossada no texto produzido especialmente paraCarta Maior pelo jornalista Martín Granowsky .

Um dos expoentes do jornal Página 12, Granowsky recupera o relato do encontro tenso e premonitório, ocorrido em Washington , entre a delegação oficial chilena e a cúpula do Departamento de Estado norte-americano.

O governo Allende apenas se desenhava.

Henry Kissinger foi completo no seu estilo: rude, insolente, imperial e preconceituoso.

“A América Latina é uma região de quase nenhuma importância…”. começou dizendo o falcão de Nixon logo no início da conversa. “ O Chile não tem nenhum valor estratégico. Nós podemos receber cobre do Peru, Zâmbia, Canadá. Vocês não têm nada que seja decisivo. Mas se estabelecido esse projeto rumo ao socialismo, conforme Allende fala, teríamos problemas sérios na França e na Itália, onde há socialistas e comunistas divididos, que com esse exemplo poderiam unir-se. E isso afeta substancialmente o interesse dos Estados Unidos. Não vamos permitir que tenham êxito”.

Encerrou assim.

Termos ainda menos elegantes ele utilizaria um pouco mais adiante, como relata o próprio embaixador dos EUA no Chile (até agosto de 1973), Edward Kerry.

Sua entrevista no imperdível ‘O último combate de Salvador Allende’’,documentário incluído no Especial de Carta Maior, é desconcertante.

O conjunto dos relatos indica que enquanto a Unidade Popular evocava estrito respeito à ordem democrática, um programa de desestabilização financiado pela CIA minava a sociedade e a economia em quatro frentes.

A saber: criando a sensação de caos econômico (‘fazer a economia gritar”, era a diretriz do departamento de Estado); promovendo o descrédito através dos meios de comunicações (o El Mercúrio pautava diariamente os demais veículos); seduzindo fileiras das Forças Armadas (US$ 8 milhões da CIA estavam disponíveis...) e multiplicando conflitos de rua, com atentados a cargo de grupos paramilitares.

O retrospecto enseja variados alertas de latejante atualidade.

Condenar, a priori, a desgastante busca de uma maioria parlamentar, ainda que sempre movediça e melíflua, significa entregar ao conservadorismo um território político estratégico, sem disputá-lo.

Ademais do enorme potencial de ressonância, trata-se de um poder dotado de instrumentos e legitimidade para paralisar um governo e um país.

Quantas CPIs estariam em ação hoje no Congresso, com sessões especiais transmitidas ao vivo, a exemplo do que se faz no julgamento da AP 470, se o governo não arcasse com o fardo da negociação para, ao menos, dificultar o risco de uma maioria golpista? 

Sem maioria, Allende foi submetido a um esfarelante jogo parlamentar, obrigado a demitir ministros e desautorizado em inúmeros projetos e iniciativas sabotadas pelo Legislativo chileno.

Por fim, cederia também em outro terreno familiar ao processo brasileiro.

O da mídia.

Pressionado, liberou 155 rádios de integrarem o guarda-chuva da cadeia nacional. 

Ou seja, sancionou uma rede de radiodifusão autônoma e golpista.

Que martelava diuturnamente a insatisfação popular, assentada num desabastecimento deliberadamente produzido.

Em 11 de setembro de 1973, ‘a economia gritava’, como ordenara Washington.

A sensação dos gritos era amplificada pela emissão do aparato midiático conservador.

A inexistência de uma estrutura popular organizada para defender o governo e a sociedade evidenciaria, então, o preço caro da aposta na democracia representativa como fiadora de uma travessia socialista.

Coube ao general Augusto Pinochet, de forma sangrenta, reafirmar o ditado segundo o qual, a democracia liberal promete mais do que o sistema está disposto, de fato, a conceder.

Os textos reunidos no Especial de Carta Maior merecem leitura atenta nos sinais que emitem ao presente.

Como um velho farol solitário, o ano de 1973 lança alertas sobre os rochedos e as armadilhas que, no presente, como há quatro décadas, separam os vagalhões da terra firme. E vice versa. 

Reveses históricos seguidos, intercalados por um ciclo de regressividade neoliberal, achataram o debate socialista na AL desde então. 

O tempo cuidaria de lubrificar o acanhamento de uns e a rendição mercadista de outros. 

Reduziu-se o socialismo a um horizonte imaginário pouco, ou nunca, articulado às ações da realidade presente.

A tese da radicalização da democracia política ocuparia esse espaço como uma legenda-ônibus, recheada da difusa intenção de atravessar um vazio estratégico sem providenciar as pontes necessárias para isso.

A luz intermitente do farol de 1973 parece dizer que, mesmo para quem vai devagar, é necessário ter clareza do porto a que se quer chegar. 

E dispor das velas adequadas para isso.

Sob risco de ser tragado pelas correntezas do caminho.

Postado por Saul Leblon às 05:16