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quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Acordo de Associação Transpacífico consolida poder da Monsanto

Acordo de Associação Transpacífico consolida poder da Monsanto



A indústria multinacional de agricultura e biotecnologia Monsanto está prestes a mudar os rumos da produção e comercialização de sementes. Baseada no Acordo de Associação Transpacífico (TPP), um grande projeto de livre comércio que inclui 12 países, entre eles Chile, Peru e México, a empresa pode recorrer às leis do acordo para ter livre a rotulagem de alimentos transgênicos, limitando o plantio e a comercialização apenas para a empresa.
TPP
De acordo com o TPP, cujos integrantes somam 40% do PIB mundial, um padrão global de empresas será criado sobre os governos dos países envolvidos por meio de um sistema de tribunais. Esses tribunais poderão limitar, por exemplo, o acesso a medicamentos genéricos baratos em favor de medicamentos de marca, e permitir que empresas de cigarro processem governos por regulamentações na área da saúde.
Baseada nisso, a Monsanto pretende ter o controle corporativo do mundo de alimentos, saúde e meio ambiente. De todos, o fator preocupante é o do alimento. Se o controle global for efetivado, sementes que antes eram distribuídas igualitariamente serão distribuídas por apenas algumas corporações transnacionais, controlando não apenas a comida, mas também a saúde e a fonte de renda dos agricultores.
Outro fator preocupante são os produtos transgênicos, que também são defendidos pela Monsanto. A modificação genética mais preocupante envolve insensibilidade a herbicidas à base de glifosato (produtos químicos que matam plantas ditas “daninhas”). Muitas vezes conhecido como Roundup, após o produto mais vendido Monsanto ter esse nome, glifosato envenena tudo em seu caminho, exceto plantas geneticamente modificadas para resistir a ele. O glifosato é um parceiro essencial para os organismos geneticamente modificados, que são o principal negócio da indústria de biotecnologia a expansão.
Três países estão hesitantes e se eles desistirem, todo o acordo irá por água abaixo. Se enviarmos um enorme e forte apelo para líderes no Chile, Nova Zelândia e Austrália.
Por isso uma campanha está coletando assinaturas nas Internet para impedir a investida da empresa transnacional.
Intitulada “Antes que a Monsanto estoure a champagne” a petição é endereçada aos governos de todos os países que negociam o TPP.
Para assinar e compartilhar a petição CLIQUE AQUI!
* Com informações de Wikileaks, resistir.info e The Ecologist.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Grupo de seis empresas controla mercado global de transgênicos

Grupo de seis empresas controla mercado global de transgênicos



Ação das transnacionais é norteada pela política do fato consumado na introdução de produtos, pressão sobre os agricultores e influência direta sobre os órgãos públicos
Basta dar uma olhada na lista de cultivos geneticamente modificados já liberados para plantio comercial em território brasileiro pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) – cinco tipos de soja, 18 de milho e 12 de algodão, além de uma de feijão – para se ter a noção exata de que o clube dos transgênicos é para pouquíssimos sócios. Com exceção da nacional Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), todos os cultivos liberados até hoje no Brasil utilizam tecnologia transgênica e defensivos agrícolas produzidos pelas seis grandes empresas transnacionais que também lideram o setor de transgenia em nível global: Monsanto (Estados Unidos), Syngenta (Suíça), Dupont (EUA), Basf (Alemanha), Bayer (Alemanha) e Dow (EUA).
O monopólio praticado pelas transnacionais no mercado agrícola brasileiro se reproduz em todo o mundo. Um relatório divulgado em março pelo Grupo ETC, organização socioambientalista internacional que atua no setor de biotecnologia e monitora o mercado de transgênicos, revela que as seis maiores empresas, apelidadas de “Gene Giants” (Gigantes da Genética), controlam atualmente 59,8% do mercado mundial de sementes comerciais e 76,1% do mercado de agroquímicos, além de serem responsáveis por 76% de todo o investimento privado no setor.
A concentração de mercado, por si só, já seria passível de críticas, mas ambientalistas, associações de defesa do consumidor e adversários dos transgênicos em geral também repudiam severamente os métodos utilizados ao longo dos anos pelas Gene Giants para consolidar seu monopólio. Nos países onde atuam, a ação das empresas transnacionais, ainda hoje, é norteada pela política do fato consumado na introdução de seus produtos (com práticas como a distribuição ilegal de sementes ou a contaminação deliberada de lavouras convencionais), a pressão sobre os agricultores para a adoção da tecnologia transgênica e dos produtos químicos agrícolas a ela associados e a influência direta sobre os órgãos nacionais do poder público responsáveis por deliberar sobre a liberação de organismos geneticamente modificados.
“No Brasil, essas transnacionais compraram praticamente todas as pequenas e médias empresas de sementes, além de dominarem a cadeia agroalimentar desde a produção de sementes, agroquímicos e agrotóxicos até a parte de logística, transporte e exportação. Os agricultores hoje no Brasil estão submetidos aos interesses dessas transnacionais. Isso é um problema grave para um país que quer ter soberania alimentar e condições melhores de produção para garantir alimentos de qualidade à população”, diz Darci Frigo, advogado da organização socioambientalista Terra de Direitos. Nesses dez anos de reinado transgênico no país, diz Frigo, a perda da diversidade alimentar já é realidade: “Essas empresas vêm homogeneizando a dieta com poucos produtos. Basicamente, aqueles produtos que interessam a elas do ponto de vista da aplicação de determinados agrotóxicos ou outros insumos, com a chamada venda casada”.
Um dos métodos utilizados pelas transnacionais, diz Frigo, é cooptar cooperativas agropecuárias para fazer a distribuição das suas sementes e, à medida que as empresas de sementes vão sendo compradas e o mercado dominado, colocar à venda apenas a semente com a qual terão mais lucro: “Aqui no Brasil, muitas vezes, os agricultores iam comprar as sementes convencionais e não as encontravam mais, ou as encontravam em quantidades muito pequenas, o que os obrigava a, não tendo outra opção, comprar as sementes que, por exemplo, a Monsanto impunha no mercado. Então, essa imposição do pacote tecnológico, a imposição da transgenia, se deu a ferro e fogo. Quando os agricultores se deram conta, haviam entrado em um caminho sem volta”.
A captura dos agricultores é também apontada pelo pesquisador Paulo Brack, professor do Instituto de Biociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS): “Se você falar com um agricultor gaúcho sobre a opção de não plantar transgênicos, ele simplesmente vai te dizer que não existe mais semente convencional. O mercado foi tomado pelas sementes transgênicas. Hoje, ele está dominado, e você não tem nem mais a alternativa de plantar culturas convencionais. Isso é um escândalo, porque vai contra a economia do próprio agricultor, que perde a possibilidade de fazer a sua própria semente e tem de pagar royalties para as empresas. O círculo está se fechando, e o governo deveria resguardar, no mínimo, a possibilidade de produção de sementes convencionais e sementes crioulas”, diz.
Influência
Talvez as mais conhecidas peças de denúncia sobre os métodos utilizados pelas gigantes do setor de transgenia, o livro e o filme “O mundo segundo a Monsanto”, ambos da francesa Marie-Monique Robin, relatam a trajetória histórica da empresa estadunidense, desde o seu envolvimento nas pesquisas sobre a bomba atômica (que acabou jogada sobre os civis japoneses nos anos 1940) e a criação do agente laranja (utilizado para matar civis na guerra do Vietnã nos anos 1960) até sua chegada à tecnologia transgênica e ao novo papel de “empresa agrícola” nos anos 1990.
Durante todas essas décadas, relata Robin, a Monsanto jamais deixou de exercer forte influência sobre os agentes públicos que ocupavam postos em órgãos de estratégica importância como, por exemplo, a agência que regula o mercado de alimentos, drogas e produtos químicos nos Estados Unidos (FDA, na sigla em inglês). Livro e filme têm também uma parte especialmente dedicada à América do Sul, onde mostram os métodos utilizados pela Monsanto para introduzir ilegalmente a soja transgênica RR na lavouras do estado brasileiro do Rio Grande do Sul.
No Brasil, o método básico de ação das Gene Giants para consolidar a posição de seus produtos no mercado também alia a pressão sobre os agricultores à tentativa de influenciar setores estratégicos da administração pública: “Há uma influência muito grande no direcionamento da pesquisa e também no âmbito do Congresso Nacional e do financiamento das campanhas eleitorais. Isso determina que os temas de interesse das empresas de biotecnologia acabem entrando na lógica do parlamento. A bancada ruralista presta serviço à transgenia, apesar de os agricultores serem dominados pelo cartel formado por essas empresas, porque os parlamentares recebem apoio para suas campanhas eleitorais”, diz Darci Frigo.
Segundo o dirigente da Terra de Direitos, é tanta a força das gigantes da transgenia no Brasil atualmente que elas até mesmo reduziram sua propaganda: “As empresas abandonaram o discurso de que transgênico diminui o uso de agrotóxicos porque já estabeleceram seu domínio sobre os agricultores e o mercado, e agora ninguém mais vai discutir essa diminuição. As autoridades não questionam e o Ministério da Agricultura não se estrutura para fazer uma real fiscalização do que acontece no terreno. É grande a influência dessas empresas por meio da pressão sobre os parlamentares ou por meio das ações de cooptação dos órgãos responsáveis pela fiscalização, como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), para liberar agrotóxicos, ou a CTNBio, para liberar transgênicos”, diz Frigo.
iTunes transgênico
Mais recentemente, setores antitransgênicos manifestaram seu repúdio à iniciativa de algumas empresas transnacionais que anunciaram o compartilhamento gratuito de tecnologias relativas a seus produtos para pesquisadores de países em desenvolvimento. Nos Estados Unidos, um acordo inicialmente elaborado pela Monsanto, e agora posto em prática pela General Electric (GE), promete liberar aos agricultores informações técnicas sobre diversos produtos da empresa que já tiveram suas patentes expiradas: “Com isso, querem fazer que uma prática monopolista pareça um ato de caridade”, diz o relatório do Grupo ETC.
A medida de maior impacto, no entanto, foi anunciada em janeiro pela Syngenta. A transnacional suíça lançou na internet o que define como uma “plataforma de compartilhamento de inovação na agricultura”, onde disponibiliza gratuitamente para pesquisadores algumas técnicas e características genéticas de suas sementes patenteadas. Ironicamente batizada pelo movimento socioambientalista como o “iTunes dos Transgênicos”, o site da Syngenta é definido pelo Grupo ETC ao mesmo tempo como “uma tentativa de imposição de transferência tecnológica para o Sul” e “uma jogada concebida expressamente para acalmar o movimento contra o patenteamento de plantas que ganha força na Europa”.
Briga por royalties
No que diz respeito a patentes, o poder de persuasão das empresas que controlam o setor de transgênicos também tem seus limites. Absoluta no mercado brasileiro de soja transgênica, a Monsanto mantém há anos uma complicada relação com os produtores do grão no país por conta da cobrança de royalties relativos à sua tecnologia RR. Em junho deste ano, uma decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ), motivada por uma ação da Associação dos Produtores de Soja e Milho do Mato Grosso (Aprosoja-MT), determinou que a empresa suspendesse a cobrança de royalties, considerada indevida. A decisão obrigou a Monsanto a fazer um acordo com os produtores brasileiros para o ressarcimento de R$ 212 milhões cobrados indevidamente nas safras 2010/2011 e 2011/2012.
Diretor técnico da Aprosoja-MT, Nery Ribas afirma que, se dependesse das poucas informações transmitidas aos produtores pela Monsanto ao longo de todos esses anos de relação, a cobrança indevida não teria sido percebida: “Antes, a dificuldade em obter informações era muito grande, mas, com a contratação de consultorias especializadas, conseguimos demonstrar que a patente havia vencido em agosto de 2010. Ou seja, já havia sido cobrado indevidamente em duas safras”, diz.
A Aprosoja-MT liderou então um movimento pelo fim da cobrança dos royalties que acabou tendo efeitos em todo o Brasil: “Entramos com a ação e ganhamos em todas as instâncias. A Monsanto reconheceu o erro e estendeu esse benefício para todo o país. Já não cobrou os royalties nessa última safra [2012/2013] e, depois de muita discussão, chegamos a um acordo. Aquilo que nos foi indevidamente cobrado, vão ter de pagar em dobro. A legislação brasileira é muito clara: cobrou indevidamente, tem de pagar em dobro”, diz Ribas.
O acordo será efetivado na comercialização da nova tecnologia transgênica para soja desenvolvida pela Monsanto no Brasil, conhecida como Intacta: “O que temos para receber, relativo a esses dois anos, nos vai ser pago em forma de bônus no uso da nova tecnologia. Por quatro anos, a Monsanto concederá um bônus que o produtor poderá utilizar na aplicação da tecnologia. Em vez de R$ 115 por hectare, que é o preço dos royalties já definido pela Monsanto para a Intacta, serão cobrados R$ 96,50. Ou seja, haverá R$ 18,50 a menos por hectare durante quatro anos”, diz o dirigente da Aprosoja.
Nery Ribas diz que o cultivo de transgênicos “tem suas desvantagens, e uma delas é a obrigação de pagamento de royalties” às empresas detentoras da tecnologia: “Não somos contra a tecnologia e não somos de maneira nenhuma contra pagar pela tecnologia, mas desde que seja bom, justo e interessante para os dois lados. O que vinha ocorrendo é que o monopólio de uma única empresa sobre a inovação tecnológica fez que ela cobrasse um preço que nunca foi discutido pelos produtores. A Monsanto chegava, determinava o valor e pronto. Não se discutia valor, forma de cobrança etc. Nunca se discutiu isso, e o produtor, pela utilização dos benefícios, nunca questionou e sempre pagou, mas sempre reconhecendo que era muito caro”, diz.


Monsanto coage países africanos e empurra milho para o resto do mundo

Monsanto coage países africanos e empurra milho para o resto do mundo

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

As transnacionais dos transgênicos e o golpe de estado no Paraguai

As transnacionais dos transgênicos e o golpe de estado no Paraguai


Oscar Rivas e Miguel Lovera participaram do seminário internacional “10 anos de Transgênicos no Brasil”, realizado de 21 a 24 de outubro, em Curitiba/PR

06/11/2013
Por Ednubia Ghisi, Naiara Bittencourt e Tchenna Maso
Assim como a maioria dos países latino-americanos, o Paraguai vive sobre forte pressão das transnacionais donas das patentes de sementes transgênicas e de agrotóxicos. Desde a liberação dos Organismos Geneticamente Modificados – OMGs no país, o uso da transgenia aumenta a cada ano e se tornou a base da economia: atualmente a soja transgênica ocupa cerca de 3,4 milhões de hectares do território paraguaio.
 Oscar Rivas foi Ministro da Agricultura no governo Lugo e atualmente é integrante da organização Sobrevivência. Foto: Joka Madruga
Os paraguaios Oscar Rivas e Miguel Lovera participaram do seminário internacional “10 anos de Transgênicos no Brasil” e trouxeram relatos sobre os impactos dos transgênicos no país. Ambos atuaram diretamente no governo Fernando Lugo: Rivas foi Ministro da Agricultura e atualmente integrante da organização Sobrevivência, e Lovera presidiu o Servicio Nacional de Calidad Vegetal y de Semillas, hoje é professor do Centro de Estudios e Investigaciones de Derecho Rural y Reforma Agraria (CEIDRA) da Universidad Católica “Nuestra Señora de la Asunción”.
Confira a entrevista:
Qual foi o contexto da entrada dos transgênicos no Paraguai e como está esse panorama hoje?
Miguel Lovera – A entrada foi, assim como no Brasil, com a soja Maradona [da Argentina], mas nós temos informações de que a Monsanto esteve envolvida nesse processo. Temos depoimentos de pessoas que participaram do processo na Argentina, que falaram “é, eu falava com o cara da Monsanto e ele sabia o que estava fazendo’’. Então, para nós, trata-se de uma estratégia de sabotagem agroindustrial para ocupar um território, engolir esse território. Isso que aconteceu aqui aconteceu no Paraguai também. Só no ano de 1997 ou 1998, houve duas safras.
Qual a relação do golpe do Paraguai, que ocorreu no ano passado, com os setores do agronegócio? Como isso se deu?
Miguel Lovera – Esses fatos não são públicos. O máximo que podemos fazer é verificar quem foram os beneficiários do golpe. A Monsanto e outras transnacionais do agronegócio, da agrotecnologia, não podiam ter seus eventos transgênicos aprovados no Paraguai, e depois, na semana seguinte ao Golpe, eles já haviam aprovado os quatro eventos novos. Então, basta somar 1+1 para chegar à resposta. Nós acreditamos que eles contribuíram para esse golpe. Por exemplo, o agronegócio tem uma fundação chamada Fundação INBIO que recebe pelo menos dez milhões de dólares anuais para a promoção do agronegócio, entre cinco e dez milhões de dólares anuais. Então, se você precisa financiar alguma coisa sem que esteja diretamente envolvido, tem essa fundação que faz isso por você. O dinheiro dessa fundação vem de um imposto que a Monsanto cobra no país. O Estado paraguaio não cobra imposto sobre a exportação de soja, mas a Monsanto cobra. São US$ 4,40 por tonelada. A justificativa é o uso da tecnologia da Monsanto. No Brasil fala-se em royalties, é o mesmo lá no Paraguai, a empresa cobra, mas na forma de imposto. O governo não pode, porque os produtores fazem greve, fazem sabotagem, tudo, mas a Monsanto cobra. Esses fundos aí é que são destinados ao financiamento dessas entidades para todo tipo de questão obscura.
No Brasil isso também acontece…
Oscar Rivas – Quando nós falamos do agronegócio, ou das empresas do agronegócio, creio que temos que falar de um leque de atores. Não se trata, simplesmente, de produtores de soja ou de grãos para exportação. Temos o setor da carne, que é um dos setores mais conservadores do país. Do país não, do continente. As famosas Associações Rurais do Paraguai, que detém a maior quantidade de terras desde muitos, centenas de anos vem alastrando esse processo no país. E podemos falar dos mega-produtores, mega-empresários, que são absolutamente irresponsáveis desde sempre, e lhes interessa continuar sendo irresponsáveis, permanecendo impunes diante do descumprimento das normas ambientais e sociais, entre as quais se incluem a indígena e trabalhista. Estes dois grupos foram muito afetados pela gestão de um governo que estava revertendo, em 180 graus, a situação política e os benefícios concedidos por meio de decisões que davam suporte a seus padrões produtivos, a suas ganâncias e sua concentração de riqueza.  Eles estavam se acostumando, depois da saída de Stroessner do poder, nos vinte anos seguintes, a seguir exatamente o mesmo. A democracia não havia se instalado no Paraguai, simplesmente havia saído um ditador. Com o governo de Lugo, houve, realmente, uma eclosão popular, que se empoderou e tomou o executivo. Não o legislativo e não o judiciário. E exatamente o legislativo, sob o qual não tínhamos controle, realizou o golpe parlamentar, com todo o respaldo dessa sociedade que era beneficiária de uma política e de um governo de direita, conservador, neoliberal e que apostava, claramente, nesses setores. Usaram os meios mais vergonhosos, mais criminosos para chegar ao golpe parlamentar: o assassinato tanto de campesinos como de policiais, o que gerou uma condição que foi aproveitada midiaticamente por todos os setores conservadores, que, como disse ele, imediatamente recuperaram todas as situações de privilégios perdidos durante nosso governo progressista. Então, seguramente, não podemos falar de uma perspectiva muito simplista, dizer “fulano de tal financiou o golpe e foi o apoiador’’, todos os setores conservadores apoiaram. E quando falamos dos setores conservadores, também estamos nos referindo aos setores conservadores internacionais, que tinham o interesse de evitar que a América do Sul seguisse avançando em uma política mais social, uma política mais reivindicativa de soberania dos povos. E somente o Paraguai, entre todos os países, porque se tentou no Equador, na Venezuela, no Brasil, no Uruguai, na Argentina, na Bolívia, e, bom… Honduras primeiro, Paraguai depois. Foram os dois países onde não estava suficientemente consolidada politicamente esta estrutura de governo progressista e fomos vítimas dessa conspiração internacional, vinculada à conspiração do empresariado nacional. Creio que isso foi o que motivou o golpe de estado parlamentar e rapidamente as coisas, como disse bem ele… podemos analisar o que aconteceu imediatamente após o golpe e vamos ver quem são os atores beneficiados e, portanto, quem seriam os atores interessados em que esse golpe ocorresse.
Qual a importância de os setores progressistas ocuparem o executivo, principalmente no que se refere ao Ministério Agrário?
Oscar Rivas – O Ministério da Agricultura estava tomado pelo setor conservador do governo Lugo, que era o setor liberal. Eles não precisavam tomar o Ministério da Agricultura. Todavia, depois, quando o presidente decide por Miguel a frente do SENAVE [Servicio Nacional de Calidad Vegetal y de Semillas], se vê como é baleada a estrutura conservadora do Ministério da Agricultura. Porque o SENAVE é uma autarquia, mas está dentro da política agrária. Eu também creio que se deve tomar tudo aquilo que tem relação com o social e com o ambiental, porque são os freios para se seguir avançando com essa posse do território. Quando chegamos ao governo, havíamos chegado ao top da ocupação do território. Acharam que as coisas permaneceriam como sempre foram. Se encontraram, todavia, com as regras do povo, que se estavam cumprindo conforme as leis. Não é que tenhamos mudado todas as leis vigentes, é que a impunidade era muito grande e eles queriam voltar àquilo. E o que precisavam era, precisamente, o executivo, que gestiona o território e as questões de política pública, e era o que os estava perturbando para que essa situação de vantagem que o elegeu ocorresse. Estão, logicamente, o golpe era absolutamente necessário para sacar o único poder que estava a favor do povo.
Miguel Lovera presidiu o Servicio Nacional de Calidad Vegetal y de Semillas, hoje é professor do Centro de Estudios e Investigaciones de Derecho Rural y Reforma Agraria (CEIDRA) da Universidad Católica. Foto: Joka Madruga
Miguel Lovera – Creio que foi muito útil, muito proveitoso, porque nos deu a oportunidade de desmascarar o adversário, definir quem na realidade no país está disposto a uma convivência democrática e quem não. Foi o que fizemos. Para isso, usamos o marco da lei, nós não inventamos nenhuma lei nova, nos baseamos somente no marco existente, aplicando essas leis, e não agüentaram isso. Ficaram loucos, porque tiveram que cumprir leis que não estavam dispostos a cumprir. No status quo que existia antes de 2008, ninguém respeitava a lei. Quando nós chegamos, constatamos isso, e fomos, então, aos poucos, implementando a lei vigente. Não inventamos nada revolucionário, o que fizemos foi constatar que não estavam dispostos nem a respeitar as leis que eles propiciaram, que eles fizeram com seu status quo, e não estavam dispostos nem a isso. Isso está claro agora, aprendemos por mal, porque se retrocederam cinqüenta anos por frear o desenvolvimento político nacional, político, sócio-econômico, tudo. Houve um grande retrocesso. E obviamente, os setores dominantes, hegemônicos do Paraguai e hemisféricos, não são democráticos, não estão dispostos a conviver em um Estado de Direito se isso não lhes for lucrativo, se eles não mandam, se eles não decidem. Nos demos conta disso e aprendemos para o futuro, e no futuro não vamos tratá-los da mesma forma, para nada. Vamos ser muito mais precavidos, e vamos tomar as medidas necessárias para forçá-los a respeitar o estado de direito, o que deveríamos ter feito desde o início.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Lobby para liberação dos transgênicos é dos mais fortes da Europa

Lobby para liberação dos transgênicos é dos mais fortes da Europa



Para Arnaud Apoteker, representante dos Verdes no Parlamento Europeu, a pressão das transnacionais da biotecnologia e agroquímicos para a liberação é das mais fortes da Europa, mas não se compara com o lobby feito no Brasil
05/11/2013
Por Ednubia Ghisi, Naiara Bittencourt, Tchenna Maso
Transcrição de Rafaela Pontes de Lima
Do Paraná
Diferente do cenário de liberação das sementes transgênicas na América Latina, na Europa, apenas dois transgênicos têm cultivo autorizado. Para Arnaud Apoteker, representante dos Verdes no Parlamento Europeu, a pressão das transnacionais da biotecnologia e agroquímicos para a liberação é das mais fortes da Europa, mas não se compara com o lobby feito no Brasil. 
Segundo Apoteker, entre os fatores importantes para a resistência está a pluralidade de informações que circulam na mídia, o oposto da situação brasileira: “A sorte que temos na Europa é que os meios de comunicação são mais variados que aqui [no Brasil], temos mídias de diversas tendências políticas, sociais”.
Arnaud  Apoteker participou do seminário internacional “10 anos de Transgênicos no Brasil”, realizado de 21 a 24 de outubro, em Curitiba/PR.
Confira a entrevista abaixo
Qual o papel do Parlamento Europeu no contexto da resistência aos transgênicos?
Arnaud  Apoteker: O processo de regulamentações dos transgênicos ocorre através de um processo chamado “co-decisão’’, em que a comissão propõe o regulamento, o qual será submetido à apreciação do parlamento, que deverá modificar, vetar ou aceitar a proposta. O parlamento desempenha, portanto, o papel de assegurar um regulamento preventivo, com muita dificuldade, tendo em vista que os “deputados verdes’’ são minoritários, por isso ainda não é o regulamento que queremos. Mas o parlamento transformou a proposta da comissão que era realmente favorável à autorização dos transgênicos, impondo mais precaução, exigindo a realização de estudos, e delegando à Agência de Segurança Alimentar Européia a competência para a avaliação dos testes fornecidos pelo aplicantes. Então é papel do parlamento europeu garantir o mínimo. O parlamento tornou a lei de autorização dos transgênicos mais rígida do que seria se a sua elaboração ficasse a encargo apenas comissão européia. O problema é que depois do regulamento geral dos transgênicos, as autorizações individuais de transgênicos são da competência da Comissão e dos governos nacionais, e o Parlamento Europeu não é mais envolvido.
Hoje, na Europa, há um panorama de poucos transgênicos. Você mencionou que apenas dois eventos foram liberados, ambos destinados à produção de ração animal. Quais são os agentes políticos responsáveis por essas conquistas e quem foram os protagonistas das experiências de resistência aos transgênicos na Europa?
Eu acompanhei primeiro o que começou em 1996. Historicamente é importante porque começou logo que a União Européia autorizou as primeiras importações de soja transgênica, pouco depois do escândalo da “vaca louca”. Por isso, à época, tudo o que tinha a ver com a alimentação era muito sensível à população européia. Algumas grandes ONGs, como o Greenpeace, Amigos da Terra, alguns grupos de consumidores, organizações de camponeses como a Confederação Camponesa na França e em outros países, uniram-se em uma campanha para tratar dos diferentes aspectos ligados aos transgênicos. Do aspecto do camponês, que perderá sua independência, o aspecto do meio ambiente, com a contaminação genética e o aspecto do consumidor, com uma comida que talvez possa ser perigosa. O título que era interessante. Assim que começou a campanha, um jornal na França escreveu “Alerta, a soja louca está chegando’’, fazendo alusão ao escândalo da vaca louca. Então creio que, historicamente, era um bom momento para se começar a campanha. Além disso, foi uma das primeiras campanhas em que foram formadas alianças entre diferentes setores da sociedade.
Como você sente, na Europa, a influência das transnacionais que estão ligadas ao mercado de sementes e venenos?
Eu acho que a situação do Brasil é muito semelhante à vivida na Europa. A indústria da biotecnologia, que é a indústria dos agroquímicos, a indústria dos “agro-fornecedores’’, também é muito importante na Europa. Um dos ministros franceses me disse, certa vez, que nunca houve tanta pressão quanto no assunto dos transgênicos, nem mesmo em relação à energia nuclear havia tanta pressão, lembre-se que a França é uma potência nuclear. A pressão é muito forte. No parlamento europeu, por exemplo, onde trabalho agora, os lobbys dos transgênicos são os mais organizados, mas não são tão fortes como aqui. Viajei à Argentina e ao Brasil muitas vezes, e é incrível o peso deles. Aqui, o setor agrícola é muito forte, muito ligado à entrada de divisas no país. Além disso, vejo que aqui o lobby da biotecnologia ou do agronegócio compra os jornalistas, compra os jornais. Não chegamos a esse ponto na Europa, mas não pensem que não tem lobby. É quase o lobby mais forte que temos na Europa. Temos pelo menos cinquenta deputados verdes, não é zero. Então temos, no momento, um pouco mais de poder de resistência aolobby na Europa.
Aqui no Brasil, os grandes veículos de comunicação estão atrelados aos interesses do agronegócio, da monocultura, os latifundiários. Como é esta relação na Europa?
A sorte que temos na Europa é que os meios de comunicação são mais variados que aqui, temos mídias de diversas tendências políticas, sociais, temos muitas mídias alternativas, digamos, que falam dos assuntos que os meios mais conservadores não vão falar. Me dá a impressão que aqui é muito pequeno o espaço para os meios realmente independentes. Eu sei que têm alguns, mas na Europa, alguns deles são jornais bem lidos, de grande circulação, não são somente, digamos, marginais. Isso parece, para mim, uma diferença grande. Não é que aqui não se tenha liberdade de imprensa, eu acho que não tem censura, mas tem autocensura dos meios. Mas a questão central é que são poucos. Veja, quando se quer comprar jornal aqui, tem apenas três jornais mais ou menos. No momento estamos tendo também um movimento de concentração na Europa, porém é mais fácil encontrar mídias críticas do agronegócio do que aqui.
Tem muitas organizações européias discutindo sobre o agronegócio principalmente nos países periféricos, porque geralmente essas transnacionais, esses mercados estão diretamente relacionados a violações de direitos humanos nesses países, que tem democracias mais fragilizadas. Como é essa discussão na França?
A verdade é que não estou muito seguro de como responder a essa pergunta. Na França se fala muito do problema global do agronegócio, não colocamos o dedo aqui ou ali, o que se vê, hoje, é que a agricultura vem se internacionalizando. A crítica forte na França é por que temos que importar milhões de toneladas de soja brasileira ou argentina, que vai ser transgênica, ao invés de cultivá-la na França mesmo? Somos muito críticos à divisão do trabalho, ou do modelo de trabalho imposto pelo agronegócio. Aqui vocês produzem soja para que possamos fazer criação intensiva de porcos, de vacas e tudo isso. Estamos criticando a criação intensiva, pois este modelo somente funciona porque podemos importar milhões de toneladas de ração animal no lugar de produzir a ração animal na Europa mesmo. Esse debate é, todavia, difícil, vou falar apenas dos transgênicos. É importante para os movimentos internacionais que o Brasil não cultive transgênicos, gostaríamos muito de um Brasil livre de transgênicos. Uma ferramenta útil seria que os importadores da soja pedissem ao Brasil que a soja fosse não-transgênica, mas seria melhor não ter de pedir nada ao Brasil e fazer nossa própria soja ou outra planta parecida para alimentar nossos animais. O problema é que, se não pedimos e fazemos nossa própria soja, o Brasil não terá nenhum interesse em não fazer a soja transgênica. Então estamos nessa relação dialética, que é um pouco difícil. Temos que pedir que o Brasil não faça soja transgênica porque os consumidores europeus não querem se alimentar de animais que foram nutridos com soja transgênica, mas seria muito melhor se essa pergunta não existisse e que a carne européia fosse nutrida na Europa.
Foto: Joka Madruga

Sementes da discórdia - Após 10 anos de plantio no País, os organismos geneticamente modificados voltam à berlinda

Sementes da discórdia


Após 10 anos de plantio no País, os organismos geneticamente modificados voltam à berlinda

por Samantha Maia — publicado 05/11/2013
transgênicos
De Itaberá (SP), a soja convencional vai para a Europa, fechada aos transgênicos
Da clandestinidade à quase onipresença nas lavouras de soja, as sementes transgênicas da Monsanto passaram por cima da polêmica sobre os riscos ao meio ambiente, à saúde humana e à concentração do mercado. Na última década, desde a liberação no mercado nacional, em 2003, o Brasil tornou-se o segundo mercado da companhia, atrás apenas dos EUA. Em 2012, seu faturamento aqui chegou a 3,4 bilhões de reais, 21% mais que em 2011. No caminho aberto pela soja Roundup Ready, chegaram versões geneticamente modificadas de milho e algodão. Outras multinacionais seguiram o rastro, assim como a Embrapa. Abafada desde a legalização, a discussão associada aos efeitos diretos e colaterais da agricultura transgênica pode voltar ao primeiro plano. Argumentos não faltam.
Mesmo no governo federal há divergências. O Ministério da Agricultura e a Embrapa são entusiastas da nova tecnologia. Já o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) tem alertado para os efeitos colaterais indesejáveis. Desde 2009, diz o MDA, o Brasil tornou-se o maior consumidor e produtor de agrotóxicos do planeta por causa das sementes transgênicas, mais resistentes aos agrotóxicos. Apoiado nesse argumento, no início de outubro o procurador federal Anselmo Cordeiro Lopes, do Distrito Federal, enviou um ofício à Comissão Técnica Nacional de Biossegurança para incluir audiências públicas nos processos de análise para a liberação do uso comercial dos transgênicos. Ex-integrante da comissão, o agrônomo Rubens Nodari, especialista em genética, considera o órgão esvaziado desde a sua criação. “A falta de discussão tornou a CTNBio mera carimbadora de aprovações”, afirma o especialista.
Resultado: estima-se que todos os derivados de milho consumidos no País sejam transgênicos e a soja geneticamente modificada está em grande parte dos alimentos que levam lecitina de soja, de biscoitos a chocolates. A letra T em um triângulo amarelo nas embalagens indica a presença de ao menos 1% de ingredientes modificados, mas o expediente não tem sido eficiente para informar os consumidores. E, em muitos casos, a exigência nem sequer é cumprida. A entrada dos transgênicos no Brasil precedeu a regulamentação. A soja resistente ao glifosato (Roundup, fabricado pela Monsanto) foi contrabandeada da Argentina a partir de 1998 e, em poucos anos, dominou os campos do Sul do País. Em 2003 o governo liberou a comercialização das safras ilegais, mesmo sem ter feito os testes definitivos para provar a segurança dos produtos geneticamente alterados.
Baseados no princípio da precaução, estudos independentes têm barrado a entrada da produção transgênica na União Europeia. O pesquisador francês Gilles-Eric Séralini, entre outros, detectou um aumento de casos de câncer em ratos alimentados pelo milho NK603, também da Monsanto, liberado no Brasil desde 2008. Apesar de admitir ser importante aumentar a exigência de tempo de realização dos estudos solicitados às empresas, a CTNBio recusou-se a reavaliar a liberação do milho. Imperturbável, Flavio Finardi, presidente da comissão, diz existirem falhas técnicas no estudo francês. A reação da União Europeia foi liberar 3 milhões de euros para novas investigações científicas, em andamento.
Hoje há 56 variedades transgênicas aprovadas no Brasil: sementes de soja, milho, algodão e feijão. Apenas o último, desenvolvido pela Embrapa, ainda não é comercializado. Segundo as fabricantes de sementes alteradas, as lavouras transgênicas produzem mais e demandam menos agrotóxico, com economia de água, diesel e menor geração de gás carbônico. A Céleres, consultoria ligada às empresas de sementes, calcula em 19 bilhões de dólares os benefícios acumulados em 16 anos de biotecnologia no Brasil. Mas os dados também são controversos, a começar pela quantidade de agrotóxicos nas lavouras.

A saída da Agência Nacional de Vigilância Sanitária foi elevar o limite máximo do agrotóxico aceitável na soja. Mas o uso do glifosato trouxe consequências

como o surgimento de ervas daninhas resistentes e o aumento do risco de intoxicação do consumidor. Mais uma vez a despeito de evidências científicas em sentido contrário. Estudo recente da ONG Friends of the Earth detectou resíduo do herbicida na urina de 44% dos consumidores testados em 18 países europeus. No Brasil, a fiscalização sobre o uso dos agrotóxicos é feita pelos governos estaduais e acompanhada pelo Ministério da Agricultura. Há pouca informação, porém, sobre os impactos das quantidades permitidas sobre a saúde humana. As empresas sustentam, obviamente, a segurança do herbicida.
Enquanto a maioria dos integrantes da CTNBio se diz convencida da validade dos transgênicos, o mercado europeu premia os produtores das variedades convencionais. Na safra 2012-2013, a cooperativa Castrolanda, no sul de São Paulo, recebeu 4 reais de bônus por saca de 60 quilos de soja convencional. A remuneração compensou o trabalho de destinar um galpão exclusivo para o grão e a limpeza dos equipamentos usados para não restar vestígios dos grãos transgênicos, pois os testes são capazes de detectar quantidades ínfimas. Ainda assim, das 50 mil toneladas da oleaginosa produzidas naquele ano pela Castrolanda, apenas 10% foram não transgênicas e a expectativa é manter o mix na próxima safra.

Diante da ofensiva dos transgênicos, os agricultores interessados no cultivo convencional se uniram na Associação Brasileira dos Produtores de Grãos não Geneticamente Modificados (Abrange), para garantir seu espaço. Em 2010, em parceria com a Embrapa, lançaram o Programa Soja Livre para ampliar a oferta de sementes convencionais em Mato Grosso, o principal produtor do País. Neste ano, colocou no mercado um certificado para sementes tradicionais. “Muitas promessas de resultados com as sementes geneticamente modificadas não se confirmaram. E o custo da segregação fica com quem não quer produzir transgênico”, diz César Borges de Sousa, presidente da Abrange.

Também aí há polêmica. Segundo o produtor Luiz Moulatlet, não há diferença de produtividade ou de custo entre as duas culturas. A facilidade de manejo da espécie resistente ao glifosato tem sido perdida há duas safras, desde o surgimento de pragas resistentes. E outros agrotóxicos precisam ser usados, o que encarece o cultivo. Por causa disso, os cooperados da Castrolanda se opõem ao milho resistente ao glifosato. Os herbicidas disponíveis no mercado dariam conta do recado. “Mas sabemos que com o aumento do uso chegará uma hora em que encontraremos no mercado mais dessa opção do que outras”, diz Rudnei Bogorni, agrônomo da Castrolanda.
Alheia aos embates que, impávida, considera ideológicos, a Monsanto pretende seguir a sua trajetória de crescimento acelerado. Segundo Leonardo Bastos, diretor de marketing da empresa, a companhia aposta suas fichas no mercado brasileiro. Com 36 unidades em 12 estados, a multinacional atua com pesquisas, processamento de sementes e a produção do herbicida. Em 2008, comprou a empresa de engenharia genética CanaVialis e iniciou as pesquisas para desenvolver uma espécie de cana-de-açúcar alterada, igualmente resistente ao glifosato e às pragas.
A soja Intacta, produto exclusivo para o mercado nacional, é a grande novidade no portfólio da Monsanto. Se emplacar, o retorno da variedade resistente a lagartas deverá ser significativo, estima Bastos. A nova semente é vendida por 115 reais por hectare plantado, enquanto a versão anterior, a RR1, custa 22 reais por hectare. Segundo o executivo, os benefícios compensam: uma redução de 360 reais dos custos por hectare. “Testes feitos em campo mostram que há redução da aplicação de inseticida e o aumento da produtividade.”
É a regra do Brasil: interessa é produzir mais, mesmo com risco para a saúde dos consumidores.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Com ação coletiva, mexicanos proíbem cultivo de milho transgênico

Com ação coletiva, mexicanos proíbem cultivo de milho transgênico


Medida cautelar do Tribunal Federal Distrital suspende autorizações para uso de milho geneticamente modificado

21/10/2013
Da Redação,

Em decisão, o Tribunal Federal Distrital do México para questões civis suspendeu as autorizações existentes ou pendentes para o uso de milho geneticamente modificado. Por meio de uma medida cautelar emitida em 10 de outubro, o tribunal respondeu à ação coletiva movida por cidadãos, agricultores, camponeses, populações indígenas, advogados, cientistas e ativistas, e proibiu o cultivo de milho transgênico nos campos mexicanos.

Além disso, o tribunal também absteve o Ministério da Agricultura (Sagarpa) e o Ministério do Meio Ambiente (Semarnat) de outorgar permissões para plantações de milho geneticamente modificado. Na medida cautelar, o judiciário leva em consideração a questão do risco iminente ao meio ambiente por este tipo de produção que exige grandes extensões de terra, monoculturas e, especialmente, enorme capital e uso constante de agrotóxicos. 
Com a decisão, as empresas transnacionais que atuam no país serão diretamente atingidas. Entre elas, está a Monsanto, que vinha recebendo vários comentários de indignação por ter sido cotada para receber o World Food Prize, prêmio internacional que reconhece contribuições em todos os campos envolvidos no suprimento de alimentos.
No México, país considerado o centro da diversidade do milho, a situação dos transgênicos é alarmante e várias entidades sociais receberam com euforia a decisão do tribunal e consideraram o feito uma “vitória” à soberania alimentar. “Falamos de uma agricultura filha da era industrial, que com o tempo demonstrou ser extremamente prejudicial para os pequenos agricultores locais, para as variedades tradicionais, para a saúde do meio ambiente e das pessoas, além da economia rural. Por isso, a decisão tomada pelo tribunal federal pode ser comemorada como uma vitória para a incrível biodiversidade deste país e de quem luta para preservá-la”, afirma Carlo Petrini, presidente do Slow Food, associação internacional que segue o conceito da “ecogastronomia”. 

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Movimentos e entidades denunciam tentativa de legalização de sementes suicidas

Movimentos e entidades denunciam tentativa de legalização de sementes suicidas


Sementes suicidas não podem ser guardadas para a safra seguinte porque não germinam quando plantadas. Para movimentos, o projeto representa um ataque à soberania alimentar e à Biossegurança
16/10/2013
Leonardo Ferreira,
Dois projetos de lei no Congresso preocupam agricultores no campo. Trata-se do PL 5575/2009, de autoria de Cândido Vaccarezza (PT-SP), e o PL 268/2007, do deputado Eduardo Sciarra (PSD-PR), que se aprovadas legalizam o uso de Tecnologias Genéticas de Restrição de Uso (sigla GURT, em inglês), denominadas Terminator, também conhecidas como sementes suicidas.
As sementes Terminator, também chamadas de sementes suicidas, não podem ser guardadas para a safra seguinte porque não germinam quando plantadas devido alterações genéticas.
Movimentos e organizações sociais reagiram enviando carta à Presidenta Dilma Roussef, na qual pedem ao governo federal que atue em sua base política pela retirada do PL da pauta.
Para Cleber Folgado, coordenador da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, a legalização das sementes Terminator colocará os agricultores nas mãos das empresas, uma vez que eles não poderão reproduzir suas próprias sementes.
“O que está colocado em jogo na verdade é o domínio completo da agricultura por parte das empresas, por parte do capital transnacional, por parte do latifúndio, agronegócio sobre o que há de mais importante nas mãos dos camponeses que são as sementes.”
Folgado alerta que o projeto representa um ataque à soberania alimentar e à Biossegurança.
“Na medida em que os camponeses perdem essa possibilidade que eles têm de produção e reprodução das sementes e isso passa simplesmente ao controle das empresas, nós estamos falando de um risco para a soberania alimentar do país, para a soberania genética.”

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Especialista pede que cardeal denuncie práticas da Monsanto em discurso

Especialista pede que cardeal denuncie práticas da Monsanto em discurso 

 

O Cardeal Peter Turkson discursará na entrega do World Food Prize 2013, que tem entre os vencedores um executivo da Monsanto e fundador da Syngenta 

11/10/2013


da Redação

Em artigo publicado pela National Catholic Reporter, o integrante do Comitê sobre a segurança alimentar mundial da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), David Andrews pede que o cardeal Peter Turkson denuncie as práticas nocivas da Monsanto contra o meio ambiente e a produção de alimentos saudáveis no discurso que fará na entrega do Prêmio Mundial de Alimentação (World Food Prize 2013 Borlaug Dialogue), em Des Moines, Iowa (EUA). O prêmio deste ano tem entre seus vencedores um executivo da Monsanto e fundador da Syngenta.
Segundo Andrews, Turkson deveria aproveitar esta oportunidade para falar a verdade sobre a Monsanto, bem como sobre a mudança climática, a fome no mundo e a nutrição. “A empresa acabou com muitos de seus concorrentes nos mercados de sementes, portanto, análises sobre capitalismo feitos pelo Pontifício Conselho Justiça e Paz teriam uma relevância particular e merecem ser aplicados nesta instância”, explica.
Além disso, ele denuncia a tentativa da transnacional de manipular o Vaticano. De acordo com Andrews, houve duas conferências em Roma sobre biotecnologia promovidas pela Santa Sé e patrocinadas, em parte, pela Monsanto. “A Monsanto promoveu as reuniões como se tivesse o endosso do Vaticano sobre biotecnologia. Tenha em mente que a Monsanto gastou milhões de dólares, proclamando-se nas rádios, na televisão, em cartazes e anúncios, como sendo um exemplo de agricultura sustentável”, ressalta.
Confira o artigo.

Monsanto, Syngenta e o discurso do Cardeal Turkson

David Andrews,
National Catholic Reporter

O Cardeal Peter Turkson, presidente do Pontifício Conselho Justiça e Paz do Vaticano, fará um discurso na entrega do World Food Prize 2013 Borlaug Dialogue, em Des Moines, Iowa (EUA), que acontece de 16 a 18 de outubro. O evento incluirá uma cerimônia em homenagem aos vencedores do prêmio deste ano: três cientistas (entre eles, um executivo da Monsanto e fundador da Syngenta) responsáveis por descobertas na área dos OGMs, ou Organismos Geneticamente Modificados.
Talvez seja melhor que eu deixe claro minha opinião sincera em relação a esse assunto. Morei em Iowa por 13 anos e trabalho com questões da vida rural, alimentos e política de fazendas há 40 anos. Fui diretor-executivo da Conferência Nacional da Vida Rural Católica em Des Moines. Eu servi na Comissão de Política Interna da Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos e fui consultor do Pontifício Conselho Justiça e Paz no Vaticano durante a presidência do falecido Cardeal Van Thuan. Servi como consultor em política alimentar nas Nações Unidas. No momento, sirvo como ponto focal para a América do Norte no Comitê sobre a segurança alimentar mundial da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura - FAO, em Roma. Não sou novato no assunto. Venho acompanhando essas questões com certa profundidade há muitos anos.
Houve duas grandes conferências em Roma sobre biotecnologia organizadas pela Igreja Católica e patrocinadas, em parte, pela Monsanto. A primeira, em 2004, foi na Pontifícia Universidade Gregoriana, e a segunda, organizada pela Pontifícia Academia das Ciências, foi em 2008. Nenhum dos casos envolveu a política ou o ensino oficial da Igreja. Após a segunda conferência, que foi completamente parcial, a publicação que se seguiu foi identificada como produto dos participantes, não da Academia. No entanto, tais nuances foram perdidas entre o público, que não faz distinção de quem fala para quem na Santa Sé.
A Monsanto promoveu as reuniões como se tivesse o endosso do Vaticano sobre biotecnologia. Tenha em mente que a Monsanto gastou milhões de dólares, proclamando-se nas rádios, na televisão, em cartazes e anúncios, como sendo um exemplo de agricultura sustentável.
Turkson deveria aproveitar esta oportunidade para falar a verdade sobre a Monsanto, bem como sobre a mudança climática, a fome no mundo e a nutrição. A empresa acabou com muitos de seus concorrentes nos mercados de sementes, portanto, análises sobre capitalismo feitos pelo Pontifício Conselho Justiça e Paz teriam uma relevância particular e merecem ser aplicados nesta instância.
Como um líder da África e do Sínodo da África, Turkson bem saberá o que os agricultores africanos preferem, em termos de tecnologia agrícola. Estou em contato constante e frequente com pequenos agricultores e suas organizações da África, e eles falam claramente sobre o que querem - e não é biotecnologia.
Infelizmente, o governo dos Estados Unidos fala como se concordasse com a Monsanto sobre esta questão. Quando me encontrei com representantes dos Estados Unidos em Roma, eles tenderam a defender a biotecnologia.
Quando a Avaliação Internacional do Conhecimento, da Ciência e da Tecnologia Agrícola para o Desenvolvimento (IAASTD) foi publicada, em 2008, clamava pelo uso da agroecologia, e não preconizava a biotecnologia. A Monsanto e a Syngenta retiraram seu apoio, bem como os Estados Unidos. Esse relatório saiu depois de 400 participantes, alguns anos de estudo e US$12 milhões em despesas. Isso resultou na afirmação de que não é mais possível fazer negócios como antigamente, e chamou a atenção para uma mudança nas práticas da agricultura.
Turkson deve chamar a atenção para o fato de que as condições políticas e econômicas, e não a ciência ou os benefícios agrícolas, permeiam os planos da Monsanto. Esta é uma empresa que passou décadas processando os agricultores e gastou milhões na luta contra a transparência na rotulagem. Turkson deve reprisar o forte apoio da Igreja ao direito ao alimento, o direito à água e o direito às sementes.
Outro fator é o impacto que tem o produto promovido pela Monsanto, sua semente, sobre o meio ambiente. Ao mesmo tempo que a força da semente cria resistência contra as pragas ou ervas daninhas, ela também danifica o solo e soma ao impacto tóxico que tem sobre o meio ambiente.
O problema com a produção agrícola hoje como defendida pelos EUA e pela Monsanto é seu foco no cultivo de alimentos para animais e de biocombustíveis, que não alimentam pessoas. Eles usam a necessidade de alimentar 9 bilhões de pessoas como desculpa para produzir mais grãos para o gado e para os biocombustíveis. Na época em que o Papa Francisco era arcebispo de Buenos Aires, defensores das fazendas encontraram-se com ele para explicar como a biotecnologia tinha arruinado e mudado a agricultura na Argentina, tornando-a uma monocultura de milho ou soja em enormes fazendas, mudando, assim, a tradição das fazendas de famílias.
Recentemente, um grupo argentino chamado Grupo de Reflexión Rural compartilhou comigo uma carta escrita ao Papa pedindo que Turkson reconhecesse a devastação causada pela biotecnologia na Argentina e no mundo. "Nos últimos anos, disseminamos o conceito de Ecoteologia através de reuniões ecumênicas e da Internet, para incentivar os católicos a recuperar seus valores de cuidar da criação e a buscar inspiração espiritual na natureza e no meio ambiente", disse o grupo na carta.
Como outros, os argentinos reconhecem o papel importante de Turkson ao falar no Borlaug Dialogue, onde a Monsanto será homenageada, e gostariam de compartilhar algo que falou ao L'Osservatore Romano, no dia 5 de janeiro de 2011: Agricultores africanos não teriam necessidade alguma de sementes geneticamente modificadas se tivessem acesso a terras aráveis, que "não estivessem destruídas, devastadas ou envenenadas pelo armazenamento de resíduos tóxicos". Forçar os agricultores a comprar sementes patenteadas reproduz "o habitual jogo de dependência econômica," que, de alguma forma, é "uma nova forma de escravidão", disse Turkson. Esta declaração reflete com precisão o ponto de vista da sociedade civil e de milhões de pequenos agricultores.
Uma nova forma de colonialismo está sendo espalhada ao redor do mundo e a Monsanto é uma de suas portadoras principal. Não estou apenas fazendo menção a uma resistência ludita às novas tecnologias; eu vi essas novas tecnologias em ação por tempo suficiente para avisar Turkson para que não transmitisse a mensagem errada em Des Moines. Ele precisa ser claro e direto ao falar a verdade ao poder.

David Andrews é representante sênior da Food & Water Watch em Washington - D.C.
Tradução por Ana Carolina Azevedo.
Reproduzido no Brasil pela página Unisinos.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Mosquitos transgênicos no céu do Sertão

Mosquitos transgênicos no céu do Sertão



Com a promessa de reduzir a dengue, biofábrica de insetos transgênicos já soltou 18 milhões de mosquitos Aedes aegypti no interior da Bahia

09/10/2013
Coletivo Nigéria,

No começo da noite de uma quinta-feira de setembro, a rodoviária de Juazeiro da Bahia era o retrato da desolação. No saguão mal iluminado, funcionavam um box cuja especialidade é caldo de carne, uma lanchonete de balcão comprido, ornado por salgados, biscoitos e batata chips, e um único guichê – com perturbadoras nuvens de mosquitos sobre as cabeças de quem aguardava para comprar passagens para pequenas cidades ou capitais nordestinas.
Assentada à beira do rio São Francisco, na fronteira entre Pernambuco e Bahia, Juazeiro já foi uma cidade cortada por córregos, afluentes de um dos maiores rios do país. Hoje, tem mais de 200 mil habitantes, compõe o maior aglomerado urbano do semiárido nordestino ao lado de Petrolina – com a qual soma meio milhão de pessoas – e é infestada por muriçocas (ou pernilongos, se preferir). Os cursos de água que drenavam pequenas nascentes viraram esgotos a céu aberto, extensos criadouros do inseto, tradicionalmente combatidos com inseticida e raquete elétrica, ou janelas fechadas com ar condicionado para os mais endinheirados.
Mas os moradores de Juazeiro não espantam só muriçocas nesse início de primavera. A cidade é o centro de testes de uma nova técnica científica que utiliza Aedes aegypti transgênicos para combater a dengue, doença transmitida pela espécie. Desenvolvido pela empresa britânica de biotecnologia Oxitec, o método consiste basicamente na inserção de um gene letal nos mosquitos machos que, liberados em grande quantidade no meio ambiente, copulam com as fêmeas selvagens e geram uma cria programada para morrer. Assim, se o experimento funcionar, a morte prematura das larvas reduz progressivamente a população de mosquitos dessa espécie.
A técnica é a mais nova arma para combater uma doença que não só resiste como avança sobre os métodos até então empregados em seu controle. A Organização Mundial de Saúde estima que possam haver de 50 a 100 milhões de casos de dengue por ano no mundo. No Brasil, a doença é endêmica, com epidemias anuais em várias cidades, principalmente nas grandes capitais. Em 2012, somente entre os dias 1º de janeiro e 16 de fevereiro, foram registrados mais de 70 mil casos no país. Em 2013, no mesmo período, o número praticamente triplicou, passou para 204 mil casos. Este ano, até agora, 400 pessoas já morreram de dengue no Brasil.
Em Juazeiro, o método de patente britânica é testado pela organização social Moscamed, que reproduz e libera ao ar livre os mosquitos transgênicos desde 2011. Na biofábrica montada no município e que tem capacidade para produzir até 4 milhões de mosquitos por semana, toda cadeia produtiva do inseto transgênico é realizada – exceção feita à modificação genética propriamente dita, executada nos laboratórios da Oxitec, em Oxford. Larvas transgênicas foram importadas pela Moscamed e passaram a ser reproduzidas nos laboratórios da instituição.
Os testes desde o início são financiados pela Secretaria da Saúde da Bahia – com o apoio institucional da secretaria de Juazeiro – e no último mês de julho se estenderam ao município de Jacobina, na extremidade norte da Chapada Diamantina. Na cidade serrana de aproximadamente 80 mil habitantes, a Moscamed põe à prova a capacidade da técnica de “suprimir” (a palavra usada pelos cientistas para exterminar toda a população de mosquitos) o Aedes aegypti em toda uma cidade, já que em Juazeiro a estratégia se mostrou eficaz, mas limitada por enquanto a dois bairros.
“Os resultados de 2011 e 2012 mostraram que [a técnica] realmente funcionava bem. E a convite e financiados pelo Governo do Estado da Bahia resolvemos avançar e irmos pra Jacobina. Agora não mais como piloto, mas fazendo um teste pra realmente eliminar a população [de mosquitos]”, fala Aldo Malavasi, professor aposentado do Departamento de Genética do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP) e atual presidente da Moscamed. A USP também integra o projeto.
Malavasi trabalha na região desde 2006, quando a Moscamed foi criada para combater uma praga agrícola, a mosca-das-frutas, com técnica parecida – a Técnica do Inseto Estéril. A lógica é a mesma: produzir insetos estéreis para copular com as fêmeas selvagens e assim reduzir gradativamente essa população. A diferença está na forma como estes insetos são esterilizados. Ao invés de modificação genética, radiação. A TIE é usada largamente desde a década de 1970, principalmente em espécies consideradas ameaças à agricultura. O problema é que até agora a tecnologia não se adequava a mosquitos como o Aedes aegypti, que não resistiam de forma satisfatória à radiação.

O plano de comunicação
As primeiras liberações em campo do Aedes transgênico foram realizadas nas Ilhas Cayman, entre o final de 2009 e 2010. O território britânico no Caribe, formado por três ilhas localizadas ao Sul de Cuba, se mostrou não apenas um paraíso fiscal (existem mais empresas registradas nas ilhas do que seus 50 mil habitantes), mas também espaço propício para a liberação dos mosquitos transgênicos, devido à ausência de leis de biossegurança. As Ilhas Cayman não são signatárias do Procolo de Cartagena, o principal documento internacional sobre o assunto, nem são cobertas pela Convenção de Aarthus – aprovada pela União Europeia e da qual o Reino Unido faz parte – que versa sobre o acesso à informação, participação e justiça nos processos de tomada de decisão sobre o meio ambiente.
Ao invés da publicação e consulta pública prévia sobre os riscos envolvidos no experimento, como exigiriam os acordos internacionais citados, os cerca de 3 milhões de mosquitos soltos no clima tropical das Ilhas Cayman ganharam o mundo sem nenhum processo de debate ou consulta pública. A autorização foi concedida exclusivamente pelo Departamento de Agricultura das Ilhas. Parceiro local da Oxitec nos testes, a Mosquito Research & Control Unit (Unidade de Pesquisa e Controle de Mosquito) postou um vídeo promocional sobre o assunto apenas em outubro de 2010, ainda assim sem mencionar a natureza transgênica dos mosquitos. O vídeo foi divulgado exatamente um mês antes da apresentação dos resultados dos experimentos pela própria Oxitec no encontro anual da American Society of Tropical Medicine and Hygiene(Sociedade Americana de Medicina Tropical e Higiene), nos Estados Unidos.
A comunidade científica se surpreendeu com a notícia de que as primeiras liberações no mundo de insetos modificados geneticamente já haviam sido realizadas, sem que os próprios especialistas no assunto tivessem conhecimento. A surpresa se estendeu ao resultado: segundo os dados da Oxitec, os experimentos haviam atingido 80% de redução na população de Aedes aegypti nas Ilhas Cayman. O número confirmava para a empresa que a técnica criada em laboratório poderia ser de fato eficiente. Desde então, novos testes de campo passaram a ser articulados em outros países – notadamente subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, com clima tropical e problemas históricos com a dengue.
Depois de adiar testes semelhantes em 2006, após protestos, a Malásia se tornou o segundo país a liberar os mosquitos transgênicos entre dezembro de 2010 e janeiro de 2011. Seis mil mosquitos foram soltos num área inabitada do país. O número, bem menor em comparação ao das Ilhas Cayman, é quase insignificante diante da quantidade de mosquitos que passou a ser liberada em Juazeiro da Bahia a partir de fevereiro de 2011. A cidade, junto com Jacobina mais recentemente, se tornou desde então o maior campo de testes do tipo no mundo, com mais de 18 milhões de mosquitos já liberados, segundo números da Moscamed.
“A Oxitec errou profundamente, tanto na Malásia quanto nas Ilhas Cayman. Ao contrário do que eles fizeram, nós tivemos um extenso trabalho do que a gente chama de comunicação pública, com total transparência, com discussão com a comunidade, com visita a todas as casas. Houve um trabalho extraordinário aqui”, compara Aldo Malavasi.
Em entrevista por telefone, ele fez questão de demarcar a independência da Moscamed diante da Oxitec e ressaltou a natureza diferente das duas instituições. Criada em 2006, a Moscamed é uma organização social, sem fins lucrativos portanto, que se engajou nos testes do Aedes aegypti transgênico com o objetivo de verificar a eficácia ou não da técnica no combate à dengue. Segundo Malavasi, nenhum financiamento da Oxitec foi aceito por eles justamente para garantir a isenção na avaliação da técnica. “Nós não queremos dinheiro deles, porque o nosso objetivo é ajudar o governo brasileiro”, resume.
Em favor da transparência, o programa foi intitulado “Projeto Aedes Transgênico” (PAT), para trazer já no nome a palavra espinhosa. Outra determinação de ordem semântica foi o não uso do termo “estéril”, corrente no discurso da empresa britânica, mas empregada tecnicamente de forma incorreta, já que os mosquitos produzem crias, mas geram prole programada para morrer no estágio larval. Um jingle pôs o complexo sistema em linguagem popular e em ritmo de forró pé-de-serra. E o bloco de carnaval “Papa Mosquito” saiu às ruas de Juazeiro no Carnaval de 2011.
No âmbito institucional, além do custeio pela Secretaria de Saúde estadual, o programa também ganhou o apoio da Secretaria de Saúde de Juazeiro da Bahia. “De início teve resistência, porque as pessoas também não queriam deixar armadilhas em suas casas, mas depois, com o tempo, elas entenderam o projeto e a gente teve uma boa aceitação popular”, conta o enfermeiro sanitarista Mário Machado, diretor de Promoção e Vigilância à Saúde da secretaria.
As armadilhas, das quais fala Machado, são simples instrumentos instalados nas casas de alguns moradores da área do experimento. As ovitrampas, como são chamadas, fazem as vezes de criadouros para as fêmeas. Assim é possível colher os ovos e verificar se eles foram fecundados por machos transgênicos ou selvagens. Isso também é possível porque os mosquitos geneticamente modificados carregam, além do gene letal, o fragmento do DNA de uma água-viva que lhe confere uma marcação fluorescente, visível em microscópios.
Desta forma, foi possível verificar que a redução da população de Aedes aegypti selvagem atingiu, segundo a Moscamed, 96% em Mandacaru – um assentamento agrícola distante poucos quilômetros do centro comercial de Juazeiro que, pelo isolamento geográfico e aceitação popular, se transformou no local ideal para as liberações. Apesar do número, a Moscamed continua com liberações no bairro. Devido à breve vida do mosquito (a fêmea vive aproximadamente 35 dias), a soltura dos insetos precisa continuar para manter o nível da população selvagem baixo. Atualmente, uma vez por semana um carro deixa a sede da organização com 50 mil mosquitos distribuídos aos milhares em potes plásticos que serão abertos nas ruas de Mandacaru.
“Hoje a maior aceitação é no Mandacaru. A receptividade foi tamanha que a Moscamed não quer sair mais de lá”, enfatiza Mário Machado.
O mesmo não aconteceu com o bairro de Itaberaba, o primeiro a receber os mosquitos no começo de 2011. Nem mesmo o histórico alto índice de infecção pelo Aedes aegypti fez com que o bairro periférico juazeirense, vizinho à sede da Moscamed, aceitasse de bom grado o experimento. Mário Machado estima “em torno de 20%” a parcela da população que se opôs aos testes e pôs fim às liberações.
“Por mais que a gente tente informar, ir de casa em casa, de bar em bar, algumas pessoas desacreditam: ‘Não, vocês estão mentindo pra gente, esse mosquito tá picando a gente’”, resigna-se.
Depois de um ano sem liberações, o mosquito parece não ter deixado muitas lembranças por ali. Em uma caminhada pelo bairro, quase não conseguimos encontrar alguém que soubesse do que estávamos falando. Não obstante, o nome de Itaberaba correu o mundo ao ser divulgado pela Oxitec que o primeiro experimento de campo no Brasil havia atingido 80% de redução na população de mosquitos selvagens.
Supervisora de campo da Moscamed, a bióloga Luiza Garziera foi uma das que foram de casa em casa explicando o processo, por vezes contornando o discurso científico para se fazer entender. “Eu falava que a gente estaria liberando esses mosquitos, que a gente liberava somente o macho, que não pica. Só quem pica é a fêmea. E que esses machos quando ‘namoram’ – porque a gente não pode falar às vezes de ‘cópula’ porque as pessoas não vão entender. Então quando esses machos namoram com a fêmea, os seus filhinhos acabam morrendo”.
Este é um dos detalhes mais importantes sobre a técnica inédita. Ao liberar apenas machos, numa taxa de 10 transgênicos para 1 selvagem, a Moscamed mergulha as pessoas numa nuvem de mosquitos, mas garante que estes não piquem aqueles. Isto acontece porque só a fêmea se alimenta de sangue humano, líquido que fornece as proteínas necessárias para sua ovulação.
A tecnologia se encaixa de forma convincente e até didática – talvez com exceção da “modificação genética”, que requer voos mais altos da imaginação. No entanto, ainda a ignorância sobre o assunto ainda campeia em considerável parcela dos moradores ouvidos para esta reportagem. Quando muito, sabe-se que se trata do extermínio do mosquito da dengue, o que é naturalmente algo positivo. No mais, ouviu-se apenas falar ou arrisca-se uma hipótese que inclua a, esta sim largamente odiada, muriçoca.

A avaliação dos riscos
Apesar da campanha de comunicação da Moscamed, a ONG britânica GeneWatch aponta uma série de problemas no processo brasileiro. O principal deles, o fato do relatório de avaliação de riscos sobre o experimento não ter sido disponibilizado ao público antes do início das liberações. Pelo contrário, a pedido dos responsáveis pelo Programa Aedes Transgênico, o processo encaminhado à Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio, órgão encarregado de autorizar ou não tais experimentos) foi considerado confidencial.
“Nós achamos que a Oxitec deve ter o consentimento plenamente informado da população local, isso significa que as pessoas precisam concordar com o experimento. Mas para isso elas precisam também ser informadas sobre os riscos, assim como você seria se estivesse sendo usado para testar um novo medicamento contra o câncer ou qualquer outro tipo de tratamento”, comentou, em entrevista por Skype, Helen Wallace, diretora executiva da organização não governamental.
Especialista nos riscos e na ética envolvida nesse tipo de experimento, Helen publicou este ano o relatório Genetically Modified Mosquitoes: Ongoing Concerns (“Mosquitos Geneticamente Modificados: atuais preocupações”), que elenca em 13 capítulos o que considera riscos potenciais não considerados antes de se autorizar a liberação dos mosquitos transgênicos. O documento também aponta falhas na condução dos experimentos pela Oxitec.
Por exemplo, após dois anos das liberações nas Ilhas Cayman, apenas os resultados de um pequeno teste haviam aparecido numa publicação científica. No começo de 2011, a empresa submeteu os resultados do maior experimento nas Ilhas à revista Science, mas o artigo não foi publicado. Apenas em setembro do ano passado o texto apareceu em outra revista, a Nature Biotechnology, publicado como “correspondência” – o que significa que não passou pela revisão de outros cientistas, apenas pela checagem do próprio editor da publicação.
Para Helen Wallace, a ausência de revisão crítica dos pares científicos põe o experimento da Oxitec sob suspeita. Mesmo assim, a análise do artigo, segundo o documento, sugere que a empresa precisou aumentar a proporção de liberação de mosquitos transgênicos e concentrá-los em uma pequena área para que atingisse os resultados esperados. O mesmo teria acontecido no Brasil, em Itaberaba. Os resultados do teste no Brasil também ainda não foram publicados pela Moscamed. O gerente do projeto, Danilo Carvalho, informou que um dos artigos já foi submetido a uma publicação e outro está em fase final de escrita.
Outro dos riscos apontados pelo documento está no uso comum do antibiótico tetraciclina. O medicamento é responsável por reverter o gene letal e garantir em laboratório a sobrevivência do mosquito geneticamente modificado, que do contrário não chegaria à fase adulta. Esta é a diferença vital entre a sorte dos mosquitos reproduzidos em laboratório e a de suas crias, geradas no meio ambiente a partir de fêmeas selvagens – sem o antibiótico, estão condenados à morte prematura.
A tetraciclina é comumente empregada nas indústrias da pecuária e da aquicultura, que despejam no meio ambiente grandes quantidades da substância através de seus efluentes. O antibiótico também é largamente usado na medicina e na veterinária. Ou seja, ovos e larvas geneticamente modificados poderiam entrar em contato com o antibiótico mesmo em ambientes não controlados e assim sobreviverem. Ao longo do tempo, a resistência dos mosquitos transgênicos ao gene letal poderia neutralizar seu efeito e, por fim, teríamos uma nova espécie geneticamente modificada adaptada ao meio ambiente.
A hipótese é tratada com ceticismo pela Oxitec, que minimiza a possibilidade disto acontecer no mundo real. No entanto, documento confidencial tornado público mostra que a hipótese se mostrou, por acaso, real nos testes de pesquisador parceiro da empresa. Ao estranhar uma taxa de sobrevivência das larvas sem tetraciclina de 15% – bem maior que os usuais 3% contatos pelos experimentos da empresa –, os cientistas da Oxitec descobriram que a ração de gato com a qual seus parceiros estavam alimentando os mosquitos guardava resquícios do antibiótico, que é rotineiramente usado para tratar galinhas destinadas à ração animal.
O relatório da GeneWatch chama atenção para a presença comum do antibiótico em dejetos humanos e animais, assim como em sistemas de esgotamento doméstico, a exemplo de fossas sépticas. Isto caracterizaria um risco potencial, já que vários estudos constataram a capacidade do Aedes aegypti se reproduzir em águas contaminadas – apesar de isso ainda não ser o mais comum, nem acontecer ainda em Juazeiro, segundo a Secretaria de Saúde do município.
Além disso, há preocupações quanto a taxa de liberação de fêmeas transgênicas. O processo de separação das pupas (último estágio antes da vida adulta) é feito de forma manual, com a ajuda de um aparelho que reparte os gêneros pelo tamanho (a fêmea é ligeiramente maior). Uma taxa de 3% de fêmeas pode escapar neste processo, ganhando a liberdade e aumentando os riscos envolvidos. Por último, os experimentos ainda não verificaram se a redução na população de mosquitos incide diretamente na transmissão da dengue.
Todas as críticas são rebatidas pela Oxitec e pela Moscamed, que dizem manter um rigoroso controle de qualidade – como o monitoramento constante da taxa de liberação de fêmeas e da taxa de sobrevivências das larvas sem tetraciclina. Desta forma, qualquer sinal de mutação do mosquito seria detectado a tempo de se suspender o programa. Ao final de aproximadamente um mês, todos os insetos liberados estariam mortos. Os mosquitos, segundo as instituições responsáveis, também não passam os genes modificados mesmo que alguma fêmea desgarrada pique um ser humano.

Mosquito transgênico à venda
Em julho passado, depois do êxito dos testes de campo em Juazeiro, a Oxitec protocolou a solicitação de licença comercial na Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio). Desde o final de 2012, a empresa britânica possui CNPJ no país e mantém um funcionário em São Paulo. Mais recentemente, com os resultados promissores dos experimentos em Juazeiro, alugou um galpão em Campinas e está construindo o que será sua sede brasileira. O país representa hoje seu mais provável e iminente mercado, o que faz com que o diretor global de desenvolvimento de negócios da empresa, Glen Slade, viva hoje numa ponte aérea entre Oxford e São Paulo.
“A Oxitec está trabalhando desde 2009 em parceria com a USP e Moscamed, que são parceiros bons e que nos deram a oportunidade de começar projetos no Brasil. Mas agora acabamos de enviar nosso dossiê comercial à CTNBio e esperamos obter um registro no futuro, então precisamos aumentar nossa equipe no país. Claramente estamos investindo no Brasil. É um país muito importante”, disse Slade numa entrevista por Skype da sede na Oxitec, em Oxford, na Inglaterra.
A empresa de biotecnologia é uma spin-out da universidade britânica, o que significa dizer que a Oxitec surgiu dos laboratórios de uma das mais prestigiadas universidades do mundo. Fundada em 2002, desde então vem captando investimentos privados e de fundações sem fins lucrativos, tais como a Bill & Melinda Gates, para bancar o prosseguimento das pesquisas. Segundo Slade, mais de R$ 50 milhões foram gastos nesta última década no aperfeiçoamento e teste da tecnologia.
O executivo espera que a conclusão do trâmite burocrático para a concessão da licença comercial aconteça ainda próximo ano, quando a sede brasileira da Oxitec estará pronta, incluindo uma nova biofábrica. Já em contato com vários municípios do país, o executivo prefere não adiantar nomes. Nem o preço do serviço, que provavelmente será oferecido em pacotes anuais de controle da população de mosquitos, a depender o orçamento do número de habitantes da cidade.
“Nesse momento é difícil dar um preço. Como todos os produtos novos, o custo de produção é mais alto quando a gente começa do que a gente gostaria. Acho que o preço vai ser um preço muito razoável em relação aos benefícios e aos outros experimentos para controlar o mosquito, mas muito difícil de dizer hoje. Além disso, o preço vai mudar segundo a escala do projeto. Projetos pequenos não são muito eficientes, mas se tivermos a oportunidade de controlar os mosquitos no Rio de Janeiro todo, podemos trabalhar em grande escala e o preço vai baixar”, sugere.
A empresa pretende também instalar novas biofábricas nas cidades que receberem grandes projetos, o que reduzirá o custo a longo prazo, já que as liberações precisam ser mantidas indefinidamente para evitar o retorno dos mosquitos selvagens. A velocidade de reprodução do Aedes aegypti é uma preocupação. Caso seja cessado o projeto, a espécie pode recompor a população em poucas semanas.
“O plano da empresa é conseguir pagamentos repetidos para a liberação desses mosquitos todo ano. Se a tecnologia deles funcionar e realmente reduzir a incidência de dengue, você não poderá suspender estas liberações e ficará preso dentro desse sistema. Uma das maiores preocupações a longo prazo é que se as coisas começarem a dar errado, ou mesmo se tornarem menos eficientes, você realmente pode ter uma situação pior ao longo de muitos anos”, critica Helen Wallace.
O risco iria desde a redução da imunidade das pessoas à doença, até o desmantelamento de outras políticas públicas de combate à dengue, como as equipes de agentes de saúde. Apesar de tanto a Moscamed quanto a própria secretaria de Saúde de Juazeiro enfatizarem a natureza complementar da técnica, que não dispensaria os outros métodos de controle, é plausível que hajam conflitos na alocação de recursos para a área. Hoje, segundo Mário Machado da secretaria de Saúde, Juazeiro gasta em média R$ 300 mil por mês no controle de endemias, das quais a dengue é a principal.
A secretaria negocia com a Moscamed a ampliação do experimento para todo o município ou mesmo para toda a região metropolitana formada por Juazeiro e Petrolina – um teste que cobriria meio milhão pessoas –, para assim avaliar a eficácia em grandes contingentes populacionais. De qualquer forma e apesar do avanço das experiências, nem a organização social brasileira nem a empresa britânica apresentaram estimativas de preço pra uma possível liberação comercial.
“Ontem nós estávamos fazendo os primeiros estudos, pra analisar qual é o preço deles, qual o nosso. Porque eles sabem quanto custa o programa deles, que não é barato, mas não divulgam”, disse Mário Machado.
Em reportagem do jornal britânico The Observer de julho do ano passado, a Oxitec estimou o custo da técnica em “menos de” £6 libras esterlinas por pessoa por ano. Num cálculo simples, apenas multiplicando o número pela contação atual da moeda britânia frente ao real e desconsiderando as inúmeras outras variáveis dessa conta, o projeto em uma cidade de 150 mil habitantes custaria aproximadamente R$ 3,2 milhões por ano.
Se imaginarmos a quantidade de municípios de pequeno e médio porte brasileiros em que a dengue é endêmica, chega-se a pujança do mercado que se abre – mesmo desconsiderando por hora os grandes centros urbanos do país, que extrapolariam a capacidade atual da técnica. Contudo, este é apenas uma fatia do negócio. A Oxitec também possui uma série de outros insetos transgênicos, estes destinados ao controle de pragas agrícolas e que devem encontrar campo aberto no Brasil, um dos gigantes do agronegócio no mundo.
Aguardando autorização da CTNBio, a Moscamed já se preparara para testar a mosca-das-frutas transgênica, que segue a mesma lógica do Aedes aegypti. Além desta, a Oxitec tem outras 4 espécies geneticamente modificadas que poderão um dia serem testadas no Brasil, a começar por Juazeiro e o Vale do São Francisco. A região é uma das maiores produtoras de frutas frescas para exportação do país. 90% de toda uva e manga exportadas no Brasil saem daqui. Uma produção que requer o combate incessante às pragas. Nas principais avenidas de Juazeiro e Petrolina, as lojas de produtos agrícolas e agrotóxicos se sucedem, variando em seus totens as logos das multinacionais do ramo.
“Não temos planos concretos [além da mosca-das-frutas], mas, claro, gostaríamos muito de ter a oportunidade de fazer ensaios com esses produtos também. O Brasil tem uma indústria agrícola muito grande. Mas nesse momento nossa prioridade número 1 é o mosquito da dengue. Então uma vez que tivermos este projeto com recursos bastante, vamos tentar acrescentar projetos na agricultura.”, comentou Slade.
Ele e vários de seus colegas do primeiro escalão da empresa já trabalharam numa das gigantes do agronegócio, a Syngenta. O fato, segundo Helen Wallace, é um dos revelam a condição do Aedes aegypti transgênico de pioneiro de todo um novo mercado de mosquitos geneticamente modificados: “Nos achamos que a Syngenta está principalmente interessada nas pragas agrícolas. Um dos planos que conhecemos é a proposta de usar pragas agrícolas geneticamente modificadas junto com semestres transgênicas para assim aumentar a resistências destas culturas às pragas”.
“Não tem nenhum relacionamento entre Oxitec e Syngenta dessa forma. Talvez tenhamos possibilidade no futuro de trabalharmos juntos. Eu pessoalmente tenho o interesse de buscar projetos que possamos fazer com Syngenta, Basf ou outras empresas grandes da agricultura”, esclarece Glen Slade.
Em 2011, a indústria de agrotóxicos faturou R$14,1 bilhões no Brasil. Maior mercado do tipo no mundo, o país pode nos próximos anos inaugurar um novo estágio tecnológico no combate às pestes. Assim como na saúde coletiva, com o Aedes aegypti transgênico, que parece ter um futuro comercial promissor. Todavia, resta saber como a técnica conviverá com as vacinas contra o vírus da dengue, que estão em fase final de testes – uma desenvolvida por um laboratório francês, outra pelo Instituto Butantan, de São Paulo. As vacinas devem chegar ao público em 2015. O mosquito transgênico, talvez já próximo ano.
Dentre as linhagens de mosquitos transgênicos, pode surgir também uma versão nacional. Como confirmou a professora Margareth de Lara Capurro-Guimarães, do Departamento de Parasitologia da USP e coordenadora do Programa Aedes Transgênico, já está sob estudo na universidade paulista a muriçoca transgênica. Outra possível solução tecnológica para um problema de saúde pública em Juazeiro da Bahia – uma cidade na qual, segundo levantamento do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) de 2011, a rede de esgoto só atende 67% da população urbana.

Link do vídeo:
http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=pazJwnxGOe0
Fotos: Reprodução/Pública