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quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Brasil: quem aposta na violência

Brasil: quem aposta na violência


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Black-bloc é apenas detalhe. Diante da paralisia do governo, e das dificuldades dos movimentos sociais, direita flerta com caos
Por Antonio Martins
Como 2014 promete emoções fortes… Em São Paulo, por pouco não surgiu, nas últimas horas, a primeira vítima fatal das manifestações contra a Copa do Mundo. Fabrício Proteus Chaves, de apenas 22 anos, correu risco de morte depois de ser baleado sábado, de modo covarde e fútil – no peito e nos testículos – por policiais militares. O secretário de Segurança tenta proteger os que atiraram. De Lisboa, a presidente Dilma Roussef convocou (para fevereiro) reunião de emergência… Porém, o silêncio, diante dos novos atos brutais cometidos pela polícia paulista leva a temer que o governo federal manterá, em relação aos protestos, a atitude de avestruz adotada a partir de outubro. A repressão concentra as atenções sobre o black-bloc. Mas será ele, de fato, um oponente da brutalidade do Estado? Ou, pelo contrário, contribui pra radicalizá-la, ao adotar a violência como arma política e tornar legítima, portanto, a lógica que sustenta a repressão policial? A seguir, três hipóteses sobre os últimos acontecimentos.
1. A PM paulista provoca manifestantes e age para criar um fato dramático
Pelo menos duas cenas demonstram que, na manifestação de sábado, a polícia militar de São Paulo voltou empregar violência gratuita e agir de forma abertamente provocadora. A primeira são os disparos contra o jovem Fabrício. Confira as imagens, em especial a partir do segundo 00:12. Fabrício não “se atira” contra um dos policiais (que havia tropeçado), como alega o secretário de Segurança. Sua queda é claramente precedida pela cena em que outro policial saca a arma e a aponta para o garoto. A conclusão evidente é que sofreu o impacto do tiro e caiu. Depois disso, quando já não poderia representar ameaça alguma, recebeu mais dois disparos, ambos à queima-roupa. No entanto, sem se dar a qualquer esforço de investigação, os jornais sustentamque há “duas versões” sobre os fatos – como se não fosse possível verificar qual delas é verdadeira.
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A segunda cena é a ação brutal com que a PM agiu contra manifestantes que haviam se refugiado no Hotel Linson, na rua Augusta, assustados com a tropa de choque. Repare, nos dois vídeos. A tropa de choque entra aos berros, disparando balas de borrachadentro do saguão, contra pessoas que não esboçam resistência alguma (muitas deitadas no chão). Depois, ao conduzirem os detidos ao camburão, os PMs o fazem aos safanões e “gravatas”, chutando até mesmo um fotógrafo da Agência EFE que registrava os fatos.
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Lembre-se: horas antes, a polícia não havia impedido os black-blocs de depredar dezenas de vitrines, fazer barricadas de fogo ou virar contêiners de lixo sobre a rua. Agora, é selvagem contra pessoas pacíficas. Estepadrão bizarro de comportamento repete-se inúmeras vezes, desde as jornadas de junho. Por exemplo, na depredação do terminal de ônibus do Parque Dom Pedro II (25/10) (e também em outros estados, como no quase-incêndio da Câmara Municipal do Rio, em 7/10). Será apenas despreparo policial?
Ou a PM paulista age orientada por interesses partidários? Nas eleições presidenciais de novembro, a presidente Dilma tem amplas chances de vitória. Seus adversários conservadores buscam, para embaralhar o jogo, um fato – qualquer um – capaz de provocar comoção nacional. Gente como Geraldo Alckmin, que liderou a destruição do Pinheirinho, hesitará em reprimir manifestações com violência, se o ganho político puder ser esta comoção?
2. Obcecado pelo cálculo eleitoral, o Palácio do Planalto adota a estratégia do avestruz
O suspeitíssimo comportamento da polícia de São Paulo poderia ser um problema menor, se o governo federal fizesse alguns gestos simples. A presidente Dilma nem precisaria se envolver diretamente. Bastaria que o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, responsável por coordenar a defesa da segurança pública no território nacional, declarasse, por exemplo, que está consternado com os tiros disparados contra Fabrício Chaves; ou que julga descabidos os procedimentos da PM no Hotel Linson. A polêmica estaria criada. Voltaria a ficar claro que há, no universo da política, visões distintas. Para alguns, as questões sociais são “caso de polícia”. Para outros, as reivindicações populares precisam ser recebidas com diálogo, não a bala.
Mas, desde outubro de 2013, houve uma reviravolta no governo Dilma. A presidente sabe que é acossada por uma mídia hostil. Está, obviamente, empenhada em se reeleger. Porém, julgou que, para isso, o melhor é adotar uma atitude de retranca. Como um time de futebol preocupado apenas em segurar um resultado, seu governo abdicou da ousadia. Nada cria. Deixa todas as iniciativas aos adversários. Torce apenas para que o tempo corra rápido, até outubro.
Talvez não perceba o quanto esta atitude é trágica – porque apaga, aos olhos da população, as diferenças. Assim como ocorre na Europa, há anos, surge a ideia de que os políticos são todos iguais, y no nos representan.
Esta postura contamina, aos poucos, todas as ações do governo federal. Na Economia, leva a Dilma ao Fórum de Davos, para dizer que o Brasil curva-se às ideias ortodoxas (leia análise brilhante de André Singer). Na resposta às manifestações sociais, provoca o encerramento do diálogo com os movimentos (ensaiado com sucesso em junho, mas interrompido em outubro) e aposta numa estratégia cuja base é o controle policial.
Ao invés de se manter crítico aos comandos das PMs e aos governos que as controlam, o ministro Cardozo afaga-os. Anuncia “ações conjuntas”. Promete “reforços”, “apoio”, “assistência”. Produz-se, então, o cenário dos sonhos, para os interessados em manter a brutalidade da tropa de choque e tentar usá-la com fins eleitorais. Eles se convencem de que poderão continuar a praticar barbaridades. E sabem que estão blindados pela mídia: qualquer episódio desastroso será jogado na conta do Palácio do Planalto…
Estão reunidos os ingredientes para um grande desastre político? Não: falta mencionar a indispensável contribuição dos black-blocs.
3. O Black-bloc reforça exatamente aquilo que diz combater
Desde julho, nenhum movimento social brasileiro obteve, da mídia, destaque comparável ao black-bloc. Em setembro e outubro, dezenas de milhares de bancários fizeram uma greve nacional como há muito não se via. Durou 22 dias e arrancou dos banqueiros um reajuste salarial acima da inflação. Jamais chegou às manchetes dos jornais ou foi destaque nos noticiários da TV. Em novembro, oito mil famílias ligadas ao MTST – mais que a população de milhares de cidades brasileiras – ocupam, na zona sul de São Paulo, uma grande área antes reservada à especulação imobiliária. Lá, organizaram um sistema de convívio alternativo – na alimentação, limpeza, segurança, creches – que perdura e cresce. Quase não há reportagens a respeito, apesar do enorme interesse que despertariam. Mas uma manifestação de 1,5 mil black-blocs gerahoras na TV e dias seguidos de manchetes.
Num certo sentido, é compreensível. O black-bloc surgiu há pouco, no Brasil, e novidades atraem; além disso, fogo, fumaça e gente mascarada são elementos imageticamente fortes. Mas é provável que este não seja o único fator. Para quem quer multiplicar a repressão contra os movimentos sociais, nada mais útil que naturalizar a violência; que apresentá-la como algo praticado igualmente pelos manifestantes e pela polícia; que levar a sociedade a aceitá-la ou desejá-la.
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Um vídeo feito também no sábado, na Praça da República, por onde passou a manifestação contra a Copa, ilustra isso de modo emblemático. Milhares de pessoas assistem a um show musical. Um grupo de black-blocs investe contra o palco, atirando latas de cerveja contra os que lá estão. A multidão revolta-se. Um dos agressores mascarados começa a ser linchado pelos populares. Só escapa porque um segurança intervém, extintor de incêndio em punho. Ainda mais grotesco: o apresentador toma o microfone e exclama: “tem de dar porrada, mesmo”! É ovacionado pela multidão.
No sábado, os black-blocs produziram, em série, atos de violência gratuita como este. Diante do Teatro Municipal, hostilizaram os participantes de uma comemoração dos 460 anos de São Paulo. Testemunhas dizem que estouraram uma bomba. Investiram contra os policiais, com rojões e bolas de gude, antes de serem atacados.
Dizem ser radicais contra a opressão do Estado, mas a cena da Praça da República serve como metáfora do que podem, involuntariamente, produzir. Ao elegerem a violência como método de luta principal contra o aparato repressivo, acabam por legitimá-la. São compreendidos pelos que desprezamos o capitalismo – principalmente por serem jovens e não temerem expor-se ao risco. Mas que resposta sua atitude despertará, entre a vasta maioria que está fora de nossas redes sociais endogâmicas? Até agora, todas as evidências sugerem que não virão aplausos, mas apoio à ação policial, muito mais violenta: “tem de dar porrada, mesmo”!
* * *
A cinco meses da Copa do Mundo e a nove das eleições, há algo muito grave na conjuntura brasileira. O governo Dilma assemelha-se a um grande navio à deriva, que perdeu a bússola política e se orienta apenas pelo meteoro fugaz das eleições. Os movimentos sociais históricos atuam – mas não conseguiram, ainda, apresentar uma alternativa de conjunto, capaz de recompor um horizonte utópico e entusiasmar as maiorias. Grupos como os black-bloc são, evidentemente, incapazes de fazê-lo – e seria tolo esperar isso deles. A direita política e midiática, esta sim, parece saber muito bem o que quer. E está determinada a alcançá-lo.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Surge um novo inimigo interno

Surge um novo inimigo interno
As mesmas alcunhas de “subversivos”, “baderneiros”, “vândalos”, “terroristas” já foram e seguem sendo repetidas pelos mesmos meios de comunicação para designar militantes que lutaram contra a ditadura, grevistas, sem-terra, sem-teto, vendedores ambulantes, indígenas e moradores de favelas. Hoje, o alvo são Black Blocs

por Andressa Caldas e Eduardo Baker, Thiago Melo
O ano de 2013 vai ficar marcado pelas manifestações iniciadas em junho e que tomaram as ruas de várias capitais brasileiras. Com o devido distanciamento histórico, seu significado e consequências ainda serão objeto de muitos estudos e análises.
Para perplexidade de muitos, as maiores mobilizações deste ano não foram planejadas por nenhum partido ou sindicato. Por outro lado, as frases estampadas nos cartazes feitos artesanalmente para as passeatas refletem em grande medida – de forma criativa e oxigenada – as agendas levantadas pelos movimentos sociais nos últimos anos.
Por enquanto, o que se pode dizer é que as mobilizações mudaram. Saem os discursos dos carros de som, entram as marchinhas e performances espontâneas de anônimos e coletivos. Menos panfletos e faixas, mais cartazes e projeções de vídeo. Tudo sendo transmitido ao vivo – por grupos de jornalismo independente ou por qualquer um com celular, outra novidade das jornadas de junho. Graças ao streaming, o reality showdos protestos escancarou situações há muito conhecidas e denunciadas pelas periferias urbanas e pelos movimentos sociais: a extrema brutalidade da polícia brasileira e a cobertura tendenciosa da mídia corporativa.
“Não acabou, tem que acabar,  eu quero o fim da Polícia Militar”
Se tudo começou por 20 centavos – sintoma mais evidente do encarecimento do custo de vida e da gentrificação dos centros urbanos –, não há dúvidas de que tanto a resposta violenta da polícia como a cobertura distorcida das empresas de comunicação acabaram por rapidamente unificar no país duas pautas necessárias e urgentes: a desmilitarização da polícia e a democratização da mídia.
A dobradinha “a mídia aponta, a polícia atira” tem servido para estigmatizar e criminalizar todo aquele que ameace a ordem e os interesses corporativos. As mesmas alcunhas de “subversivos”, “baderneiros”, “vândalos”, “terroristas” já foram e seguem sendo repetidaspelos mesmos meios de comunicação para designar militantes que lutaram contra a ditadura, trabalhadores grevistas, sem-terra, sem-teto, vendedores ambulantes, indígenas e moradores de favelas.
Hoje, o alvo são os Black Blocs. Para desespero inconformado da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e das polícias, o novo “inimigo interno” nem sequer se constitui como movimento. Não tem líderes nem sede. Como se sabe, black blocnada mais é do que uma tática de ação direta surgida na Europa nos anos 1980, que, por um lado, protege os manifestantes da violência policial e, por outro, ataca símbolos do autoritarismo e do capitalismo. Porém, nada disso importa: eles são o novo bode expiatório.
Se a tática black blocpode ser considerada uma das grandes novidades das mobilizações no Brasil, a resposta do Estado, no entanto, continua a mesma: abuso de autoridade, repressão policial, legislação de exceção e criminalização.
Há requintes de crueldade e toques de surrealismo na ação dos agentes de segurança nestes últimos seis meses. Policiais sem identificação nominal usam indiscriminadamente armas Taser e spray de pimenta, jogam bombas dentro de casas e hospitais e abusam dos tiros de bala de borracha – que cegaram pelo menos duas pessoas.
No Complexo da Maré, no entanto, as balas não eram de borracha. Em 24 de junho, após manifestação realizada no bairro de Bonsucesso pela redução do valor da passagem de ônibus, o Bope – com o apoio da Força Nacional – entrou na favela e matou dez moradores. A mídia tradicional logo caracterizou o massacre como “confronto entre policiais e traficantes”. Longe de ser um ato isolado de alguns agentes, a brutalidade e a arbitrariedade constituem o modus operandida polícia, claramente ditado por seus comandantes, que devem ser responsabilizados.
Em São Paulo, pessoas foram detidas por “porte de vinagre” – como no caso do jornalista Piero Locatelli, que cobria as manifestações. No Rio, o morador de rua Rafael Vieira está preso desde 20 de junho, autuado por suposto “porte de explosivo”. No documento policial, no entanto, consta a apreensão de uma vassoura, uma garrafa de desinfetante e água sanitária, material que Rafael usava para limpar o local onde dormia: o chão da rua.
No Distrito Federal, mais de trinta pessoas foram detidas durante protesto na abertura da Copa das Confederações. Muitas horas depois, militantes foram presos dentro de casa, em suposto flagrante. Também na capital, no dia 15 de novembro, após ato pela desmilitarização da polícia, cinquenta manifestantes foram detidos e quinze deles levados para presídios.
No Rio de Janeiro, após manifestação no dia 15 de outubro em apoio à greve dos professores municipais, cerca de duzentas pessoas foram conduzidas à força a delegacias, tendo ocorrido 84 prisões provisórias por supostos flagrantes. Além do grande volume de detenções, o que qualifica especialmente esse dia é o uso da Lei de Organizações Criminosas (Lei n. 12.805/2013) contra os manifestantes, enquadrando a atividade de protesto como “associação criminosa”. Igualmente grave foi o uso de penas inafiançáveis para dificultar a liberdade dos manifestantes presos e a internação forçada de adolescentes. Um manifestante que participava da ocupação na escadaria externa da Câmara dos Vereadores do Rio, Jair Seixas, conhecido como Baiano, permanece preso, acusado injustamente do crime de associação com porte de arma.
Em São Paulo, a polícia ressuscitou da ditadura a Lei de Segurança Nacional para enquadrar um casal de manifestantes. Em 28 de outubro, a polícia prendeu mais de noventa manifestantes na zona norte paulistana. No dia 14 de novembro, cerca de oitenta manifestantes, logo chamados de “Black Blocs”, foram intimados a prestar depoimento. O promotor do caso, antes mesmo de concluir as investigações, afirmou estar “lidando com uma organização criminosa” e, com base em “matérias jornalísticas”, comparou os Black Blocs às Farc, exatamente como fez o Ministério Público do Rio Grande do Sul em relação ao MST cinco anos atrás.
“Da Copa, eu abro mão. Quero dinheiro para a saúde e a educação”
A menção à Copa do Mundo nos gritos durante os protestos no país não é por acaso. Das vaias à presidente Dilma na abertura da Copa das Confederações em Brasília, os protestos seguiram o calendário dos jogos e ocorreram em praticamente todas as cidades-sede, deixando claro o descontentamento da população com os excessivos gastos em megaeventos esportivos e com as inúmeras violações de direitos humanos cometidas “em nome da Copa”. O desfecho violento na final no Maracanã mostrou o que pode acontecer – em maior ou menor escala – em 2014.
Em seu pronunciamento oficial de 21 de junho, a presidente Dilma defendeu que o Brasil vai fazer uma grande Copa. Apesar de se dizer atenta “às vozes democráticas que pedem mudanças”, a presidente não proferiu nenhuma palavra sobre os abusos policiais nem fez até hoje qualquer menção à urgente reforma das polícias, reivindicada nas ruas.
No dia 31 de outubro, o governo federal deu mostras que terá uma postura ainda mais repressiva. O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, se reuniu com os secretários de Segurança Pública do Rio e de São Paulo para propor a cooperação das inteligências das polícias e da Abin e medidas de exceção, como a criação de tribunais itinerantes durante as manifestações e mudanças na legislação.
Coincidentemente ou não, as medidas do Ministério da Justiça e as ações mais contundentes de repressão e prisões maciças em São Paulo, Rio de Janeiro e Distrito Federal ocorreram algumas semanas após uma reunião de emergência da presidente Dilma com dois dos principais patrocinadores da Copa, que pediram garantias de que as manifestações não atrapalhariam o Mundial. De acordo com a imprensa, a presidente teria assegurado que fará “tudo o que for preciso” para que não haja protestos.
Enquanto o governo garante que não vai haver protestos durante a Copa, as multidões e as redes sociais ecoam o grito de “Não vai ter Copa”. Essa é a nova síntese que vem das ruas. Ainda é cedo para saber se a expressão é um vaticínio ou mera provocação; uma palavra de ordem ou apenas uma hashtag. 2014 ainda não começou. 

Andressa Caldas e Eduardo Baker
Advogados e pesquisadores da Justiça Global


Thiago Melo

Advogado do Instituto de Defensores de Direitos Humanos (DDH).

sábado, 16 de novembro de 2013

Polícia lista suspeitos e defende linha dura contra black blocs

Polícia lista suspeitos e defende linha dura contra black blocs


Atualizado em  15 de novembro, 2013
Black blocs desafim polícia em São Paulo (foto: AP)
Polícia de São Paulo deve passar a indiciar suspeitos de violência por associação criminosa
Em uma tentativa de enfraquecer os protestos de grupos black blocs marcados para esta sexta-feira, a polícia paulista interrogou, listou e fotografou 65 dos 280 suspeitos detidos após participar de ações violentas durante manifestações no Estado nos últimos meses.
A polícia sugeriu ainda que os black blocks passem a ser tratados da mesma forma que os torcedores de futebol brigões: eles seriam obrigados a comparecer a delegacias duas horas antes de cada protesto e deixariam o local só duas horas após a manifestação.
Os advogados de parte dos suspeitos interrogados na quinta-feira negaram que seus clientes fizessem parte do grupo Black Block e disseram que suas detenções foram ilegais ou de caráter político.
A Polícia Civil de São Paulo diz que trabalhava com relatórios de inteligência segundo os quais grupos black blocs preparavam grandes manifestações em todo o Brasil nesta sexta-feira. Elas ocorreriam a partir do meio da tarde.
A maioria das ações estaria sendo planejada pela internet e seria organizada por lideranças que atuariam em diferentes Estados simultaneamente, segundo a polícia. Os adeptos do Black Bloc afirmam em páginas da internet que o termo designa uma tática de confronto e não um grupo específico.
Os interrogatórios de suspeitos ocorridos na quinta-feira já estavam previstos como parte de um inquérito do Deic (Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado), que unifica todas as investigações sobre o grupo no Estado aberto há cerca de um mês. Todos os ouvidos foram liberados após responderem às perguntas da polícia.
Porém, policiais que não se identificaram disseram à BBC Brasil que os interrogatórios podem dissuadir parte dos supostos black blocs de atender a uma convocação para protestos na tarde desta sexta-feira pela por meio da internet.
Segundo o diretor do Deic (Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado), Wagner Giudice, o grupo interrogado é heterogêneo e tem tanto membros ativos do Black Bloc como simpatizantes do movimento detidos ocasionalmente em protestos anteriores.
A maioria dos interrogados têm idades entre 16 e 25 anos (nove dos 65 são menores de idade), é de classe média e parte estuda. Um grupo com cerca de 15 suspeitos era formado majoritariamente por universitários de faculdades de ciências humanas da USP, a Universidade de São Paulo.
"Já identificamos as lideranças, mas há muitos que só atenderam uma convocação, são inocentes alienados via redes sociais", disse Giudice.
"Eu vi muita gente chorando (nos interrogatórios) com a mãe do lado e levando bronca dela", disse Giudice.
O delegado disse porém que muitos interrogados apontaram a participação de partidos políticos na organização dos protestos. Ele não disse quais são as legendas, mas a BBC apurou que a suspeita da polícia é de que membros de partidos de extrema esquerda estejam ligados aos black blocs em São Paulo.

Associação criminosa

Giudice afirmou que houve um entendimento na força-tarefa formada pela polícia e pelo Ministério Público para investigar os black blocs de que eles devem ser indiciados pelo crime de associação criminosa (a antiga formação de quadrilha).
Até então não havia um consenso completo na polícia paulista, e cada delegado indiciava suspeitos por crimes diferentes. Ao adotar o novo procedimento, São Paulo segue uma fórmula que já vinha sendo aplicada no Rio de Janeiro.
A tese é a de que os suspeitos se reuniriam de forma organizada e reiterada para cometer crimes, na maioria das vezes o dano ao patrimônio durante os protestos. Na prática, isso significa que uma vez detidos, esses suspeitos podem ser presos em flagrante e receber penas de até três anos de prisão.
A opção de indiciamento por associação criminosa é considerada por analistas uma resposta dura aos manifestantes. Partidários de tratamento mais leve aos suspeitos defendem que eles respondam por crimes como o dano, que tem penas mais leves e permite que a pessoa responda às acusações em liberdade.
Giudice afirmou que os interrogatórios vão continuar. Cerca de 80 suspeitos haviam sido chamados a depor na quinta-feira. Os 15 que faltaram devem ser reconvocados para depor em outro dia. Além disso, cerca de outras 200 pessoas ainda podem ser ouvidas nos próximos dias.
Giudice disse que apesar de todos os integrantes da primeira leva de interrogatórios serem liberados após as oitivas, parte pode ser indiciada no decorrer da investigação.
Ele também sugeriu que uma vez identificados, os black blocs sejam tratados como torcedores de futebol que se envolvem frequentemente em brigas de torcidas. Uma vez que a polícia identificasse protestos sendo convocados, esses suspeitos seriam convocados a comparecer em delegacias. Lá permaneceriam durante todo o protesto.
Contudo, a implementação de medida como essa dependeria de aprovação do Judiciário.

Defesa

O advogado Geraldo Santamaria Neto, que defende dois dos suspeitos – presos durante um protesto na Marginal Pinheiros no mês passado – disse que as detenções deles na ocasião foram ilegais.
"Não são black blocs, eles estavam apenas se manifestando", disse. Um dos clientes dele foi detido após invadir a loja Tok&Stok.
Já o advogado Alberto Albiero, da central sindical CSP Conlutas, defende 15 suspeitos, todos estudantes da USP.
Eles foram detidos no mesmo protesto da Marginal Pinheiros. "Nenhum deles é black bloc. Isso não nos parece correto, era um ato pacífico. Foram presos ilegalmente, trata-se de perseguição política", disse. Ele afirmou que parte de seus clientes seria vinculada aos partidos PSOL e PSTU.
"Eu vim depor e perguntaram se eu era black bloc, mas não sou", disse um rapaz logo após ser liberado por policiais do Deic.
Já outro interrogado, Alexandre Morgado, de 30 anos, disse que pertence ao Grupo de Apoio ao Protesto Popular (Gapp), uma equipe de 11 socorristas que atende tanto manifestantes quanto policiais feridos durante os protestos.
"Nós fazemos o atendimento (de primeiros socorros) no local e esperamos com a vítima até a chegada do Samu (o serviço de ambulâncias da prefeitura)", disse.
Morgado afirmou que ele e seu grupo não são black blocs, até porque atuam sem máscaras. Ele diz ter sido detido enquanto dava atendimento a um ferido.
Já a polícia diz que o Gapp é um grupo black bloc investigado por fornecer uma estrutura de apoio médico aos manifestantes violentos para evitar que, uma vez feridos, eles deem entrada em hospitais e assim sejam identificados pela inteligência policial.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Black blocs, o alvo é a Copa

Black blocs, o alvo é a Copa


“Vale a pena perguntar por que esses jovens chegaram ao ponto de enxergar na violência a única forma de ser escutados”, diz Esther Solano, professora da Unifesp, que entrevista os adeptos da tática desde as manifestações de junho
06/11/2013
Paulo Hebmüller
de São Paulo

Jovens na casa dos 20 anos, com emprego e acesso ao ensino superior, embora ambos de qualidade discutível; submetidos à precariedade dos serviços públicos do Estado em áreas como saúde, transporte e educação; defensores de uma visão de mundo na qual atacar símbolos do capitalismo não pode ser considerado um ato violento, pois a verdadeira violência contra a população é praticadapelo sistema político e corporativo – dados como esses compõem o perfil dos black blocs de São Paulo, na visão da pesquisadora Esther Solano Gallego.
“Eles querem ser escutados, mas por alguém que tenha um olhar um pouco mais imparcial e se disponha a realmente entendê- los”, diz a professora de Relações Internacionais na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Esther vai às ruas desde junho – primeiro como manifestante; depois, com o colega Rafael Alcadipani, professor da Fundação Getúlio Vargas, passou a conversar com diferentes grupos para procurar entender suas motivações.
A pesquisa acabou centrada na dinâmica entre os policiais, a cargo de Alcadipani, e os adeptos da tática black bloc. É ao lado deles que a professora fica nas manifestações. O objetivo do trabalho, de acordo com Esther, não é emitir julgamentos ou defender qualquer dos lados, mas sim tentar entender um fenômeno social que cabe aos pesquisadores conhecer.
Uma das questões que agora ocupam a pesquisadora tem a ver com a criação de uma força-tarefa, unindo Ministério Público e as polícias Civil e Militar, anunciada pela Secretaria da Segurança Pública de São Paulo no início de outubro.O secretário Fernando Grella Vieira defende o indiciamento dos black blocs por associação criminosa.
Na entrevista a seguir, a espanhola Esther Solano – que se doutorou em Ciências Sociais em meio à crise econômica em seu país e veio para o Brasil em 2011, diz que é difícil saber se as medidas levarão os jovens a radicalizar suas ações ou a retroceder por medo da prisão. Certo mesmo é que por enquanto os adeptos da tática permanecem nas ruas, e que seu objetivo é chamar a atenção do mundo – literalmente – na Copa de 2014, cuja abertura coincidirá com o primeiro aniversário das grandes manifestações de junho.
Brasil de Fato – Com quantos jovens que utilizam a tática Black Bloc você já conversou?
Esther Solano Gallego – Mais ou menos 30. Comecei a falar com eles porque me parece muito importante entender o que está acontecendo, e a única forma de entender é sair para a rua e conversar com eles, o que para mim, por paradoxal que pareça, é muito fácil. Esses jovens não consideram os meios de comunicação de massa seus interlocutores. Mas, quando eu me apresentei como professora e pesquisadora, me aceitaram muito bem.
Qual o perfil que você já identificou neles?
É bem heterogêneo. Temos que diferenciar: há aqueles que sabem realmente o que significa a tática black bloc, leem e sabem articular um discurso mais ou menos politizado, e que são a grande maioria dos que entrevistei. Mas claro que há alguns que simplesmente aproveitam o momento de caos para cobrir o rosto. Tenho tentado conversar com eles também, porque acho que estão representando sua própria forma de violência. Mas são a minoria na minha pesquisa, e essas conversas não têm dado muitos frutos.
Em relação ao primeiro grupo, são jovens que têm um projeto político, que quando saem para a rua para quebrar um banco entendem que esse gesto tem um significado. Os mais novos têm 17 anos, mas em geral a idade vai de 20 a 24 anos; a grande maioria trabalha, muitos estudam. Há alguns formados, a maioria em universidade particular, mas há também gente de universidades públicas como a USP. A maioria é de classe média baixa. São usuários do transporte público, do SUS, da escola pública, mas a maioria não vem daquela periferia mais pobre e excluída.

Eles fazem parte do que vários estudiosos têm chamado de um subproletariado que vem crescendo muito nos últimos anos no Brasil?
A maioria, sim. São jovens que trabalham há pouco tempo, mas já conhecem bem a precariedade do Estado. Friso novamente que a maior parte não é daquela periferia que praticamente não tem acesso às manifestações.
Que tipo de leitura e formação política têm esses jovens com quem você conversa?
Tem de tudo. Alguns leram bastante os anarquistas e articulam bem essa linguagem. Outros não leramtanto, mas têm uma visão política bem articulada. São basicamente duas coisas: a grande maioria possui uma visão política mesmo – talvez não a da academia –, e enxerga bem o que quer fazer. Vale a pena reiterar que a maior parte dos jovens que entrevistei tem um pensamento definido como base de suas ações, o que não impede que, em momentos de manifestações maiores, apareçam indivíduos com muito menos articulação ou que simplesmente se aproveitam do momento.
Há alguma conexão com a origem dos black blocs na Alemanha do final da década de 1980 e com os chamados movimentos antiglobalização dos anos de 1990?
A maioria dos que entrevistei não pensava no que era o black bloc antes das manifestações. Muitos falam que começaram a pensar nisso depois daquele protesto do dia 13 de junho (no Centro de São Paulo), quando a Polícia Militar, como eles dizem, “chegou batendo”. Alguns já tinham lido alguma coisa, mas a grande maioria se envolveu pela ação e reação do momento.
Como você analisa a acusação de que eles são fascistas e estão a serviço de outra causa que não é a intenção original das manifestações?
Acho que aí existem duas coisas. Primeiro, que a esquerda mais institucionalizada, mais partidária, talvez se sinta muito afastada do que aconteceu. Minha percepção é de que há um certo ressentimento com isso, porque ninguém contou com os partidos de esquerda, com os sindicatos ou com os movimentos tradicionais para ir à rua. Outro aspecto é que, em todas as conversas que tive com eles, não percebi nenhuma indicação de que sejam manipulados ou de que respondam a outro grupo. Creio que a motivação é a indignação própria, e que eles têm um grau de autonomia suficiente para não ser movidos por outro grupo.
O anticapitalismo é o discurso mais forte?
Uma jovem me deu uma ótima explicação: em São Paulo a ação começou com o discurso black bloc internacional, de anticapitalismo e ataque aos símbolos do capital, mas depois foi se apropriando do discurso das manifestações brasileiras. Ou seja, talvez não tanto contra o capital, mas incorporando as bandeiras e as reivindicações dos protestos: mudanças e melhoria do sistema político de forma geral. O anarquismo é a inspiração, mas, durante as conversas, aparecem muito mais a precariedade do Estado brasileiro e a violência institucional do que as ideias anarquistas como motivações de sua presença nas ruas.
Eles também se colocam como a linha de frente contra a polícia, não é?
Eles dizem que nunca convocam as manifestações, e que vão à rua para proteger os manifestantes. São duas ações: uma que eles chamam de proteção – a linha de  frente –, e outra, de ação direta. Essa é a forte agora: chamar a atenção, “dar um grito”, utilizando a violência como forma de expressar a indignação. Vale a pena perguntar por que esses jovens chegaram ao ponto de enxergar na violência a única forma de ser escutados.
Os black blocs de São Paulo já podem ser considerados um grupo?
Eles sempre falam que o black bloc não é um grupo, mas uma tática. No final das contas, não são muitos os que saem na rua. Acho que no Rio de Janeiro o movimento é maior. Em São Paulo, não são tantos assim, e acabam sendo as mesmas pessoas que a polícia já levou para a delegacia, já identificou etc. Há também outros que vão aparecendo, que simplesmente cobrem o rosto, e aí você perde a noção de quem é quem. As novas medidas da Segurança Pública em São Paulo podem representar um ponto de virada. Quase todos os black blocs, digamos, mais frequentes já foram para a delegacia. Os policiais também muitas vezes são os mesmos. Então já pedem a documentação, revistam as mochilas etc. Imagino que a polícia saiba quem é a maior parte deles.
Eles têm receio de ser presos e processados, agora que o Estado anunciou o endurecimento da reação?
Sem dúvida. Os que já têm uma passagem por delegacia receiam ser presos novamente e considerados reincidentes. Agora podem ser enquadrados até por formação de quadrilha. Processar por associação criminosa me parece excessivo, embora deva dizer que não tenho grande conhecimento do Direito em geral e do brasileiro em particular. Mas a questão é que os delegados passam a ter legitimado pelo Estado o poder de fazer esse enquadramento. O Estado, no seu papel de protetor da propriedade pública e privada, está se valendo de seu aparato policial e jurídico para propor o endurecimento das penas.
Você já teve algum problema nas manifestações?
Nunca. Comigo os jovens são muito respeitosos, e a polícia também. Isso também pode parecer paradoxal em razão das cenas de violência nas manifestações, mas o fato é que minha experiência destes meses nas ruas é esta, tanto com os policiais como com os Black blocs. Mas claro que fico com um pouco de medo quando começam a aparecer pedras e bombas.
O que eles acham de ser chamados de vândalos ou baderneiros?
Eles são absolutamente contra essa dicotomia criada entre o “bom manifestante” e o “ruim”, categorias que a imprensa coloca para tentar defini-los. Eles dizem que o que fazem não é violência, é performance – é um tipo de espetáculo, em que querem atingir símbolos para chamar a atenção. O discurso é de que a verdadeira violência é a de um sistema político que não dá respostas para a população e que mantém, por exemplo, índices altíssimos de homicídios e de mortes no trânsito. Para eles, a violência é a do sistema, e o que fazem é chamar a atenção para essa violência política e corporativa.
Críticos ao redor do mundo dizem que essa tática sequer arranha o capitalismo.
É. Inclusive há todas aquelas incoerêcias do tipo quebrar um banco, mas usar iPhone. Isso é parte do paradoxo humano. Claro que eles sabem que o dono do banco não está nem aí quando depredam uma agência – mas que conseguem chamar a atenção sobre as coisas que para eles estão equivocadas, tanto no governo quanto na ordem econômica, isso conseguem, até porque de fato a espetacularização dos acontecimentos por parte da imprensa é evidente. Agora, a partir da constatação de que as ruas estão ficando esvaziadas, já presenciei diálogos entre eles sobre se a população está entendendo ou não o que eles tentam fazer.
Você esteve na manifestação do dia 25 de outubro (quando o coronel da PM Reynaldo Simões Rossi foi agredido)?
Não, mas depois conversei com algumas pessoas que foram. O fato é que o Movimento Passe Livre (MPL) tem muita capacidade convocatória, então conseguiu juntar bastante gente que utiliza a tática black bloc. Como já disse, é um movimento muito heterogêneo, e entre eles há quem acredite numa violência mais focada e mais simbólica, e outros que acreditam numa violência mais pesada; os que são mais articulados e os menos, como aliás em todo grupo social. Quando você junta tantas pessoas, num estado de emoções à flor de pele – o componente emocional é muito importante –, com grandes tensões com a polícia, era claro que ia acontecer o que aconteceu. À noite é quando a tensão aumenta e todo mundo vai perdendo a paciência. É sempre o pior momento das manifestações.
Você conhece os rapazes que foram presos?
Os que eu conheço não foram presos. Sei que houve prisão de gente do MPL, anarcopunks etc. Ou seja, foi uma manifestação bem heterogênea. Não dá para falar que só havia black blocs.
Você acha que, a partir do episódio do espancamento do coronel, a PM e a Justiça vão endurecer definitivamente as ações contra os black blocs?
Claramente as políticas vão endurecer. O governador Alckmin já falou da necessidade de penas mais rígidas para quem agride policiais. O espancamento do coronel Reynaldo vai esquentar muito os ânimos. Foi uma agressão filmada, transmitida em todos os meios de comunicação, e espetacularizada, de um PM de alta patente. Depois houve a resposta da presidenta Dilma oferecendo ajuda à PM de São Paulo. É claro que isso vai trazer como consequência uma série de respostas institucionais, radicalizando o discurso, tanto em nível policial como jurídico. O problema será entrar numa dinâmica de ação-reação violenta na qual as posturas dos dois lados endureçam.
O black bloc veio para ficar?
Pelo menos por enquanto, sim. Mas, a partir dessas medidas do governo, será que eles vão se radicalizar? Ou vão retroceder com medo de ser presos? Não sei. De qualquer maneira, a Copa está aí e o foco deles é fazer um espetáculo nela para chamar a atenção de todo o mundo – de todo o mundo mesmo! Pode até acontecer de a ação policial ser muito dura e conseguir esvaziar o movimento. Afinal, eles são jovens de vinte e poucos anos, e é possível que fiquem com medo de ser presos. Mas a ideia é estar na Copa.
E logo depois tem a eleição...
A espiral da violência vem aumentando. Estou preocupada com o que possa vir a acontecer no ano que vem.
Foto: Marcelo Camargo/ABr

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Os black blocs de gravata de seda

Os black blocs de gravata de seda


Há uma violência que campeia invisível no Brasil. Em vez de máscaras, ternos de corte fino; gravatas são de seda, italianas. Eles se avocam o mercado.


por: Saul Leblon - 05/11/2013


Há uma violência que campeia invisível no Brasil nos dias que correm. Em vez de máscaras, ternos de corte fino; as gravatas são de seda, italianas. O uniforme, de grifes famosas, que faíscam nas vitrines da Via Condotti, em Roma, adorna protagonistas  confortavelmente instalados no anonimato de uma legenda poderosa.

Eles se avocam ‘o mercado’. Do rosto desconhecido ecoam decibéis sustenidos. Ora de forma cifrada, ora escancarada, o alarido martela diuturnamente. Suas sentenças tem a dureza dos vereditos inapeláveis. Nas chantagens irrecorríveis, opera um amplo sistema de difusão.

Os  black blocs do dinheiro graúdo não legitimam aqueles outros, que se instalam no confortável papel de implodir  o patrimônio público nas ruas, indiferentes ao  árduo compromisso de democratizá-lo (leia as análises de Marco Aurélio Weissheimer e Wanderley Guilherme dos Santos; nesta pág).

Mas não são menos violentos no menosprezo pelo destino da sociedade e a sorte do seu desenvolvimento.
Há quem arrisque dizer que são almas gêmeas, produto de um mesmo tempo e de uma mesma lógica. Diferem na escala.

E isso deveria significar alguma coisa para aqueles que imaginam implodir o sistema chutando uma cabine de caixa eletrônico.

As labaredas nas escaramuças de rua formam uma espécie de tanquinho de areia perto dos incêndios estruturais que ameaçam ou ardem em torno de um alvo maior.

‘O mercado’ não reconhece os compromissos compartilhados que tornam possível a vida em sociedade.

Menos ainda a supremacia do interesse público sobre a ganância, que toma de assalto recursos, como se não houvesse amanhã.

‘O mercado’ acusa o governo Dilma de  obstruir  seu livre curso.

Centuriões avisam que ‘o mercado’ quer um Brasil com a legislação trabalhista da China.

Sem a contrapartida do Estado chinês.

Quer uma taxa de desemprego espanhola, de 26%, para dobrar de joelhos o custo Brasil.

Mas sem a indigência falimentar do Estado espanhol.

‘O mercado’ quer um Brasil desossado,  à moda grega.

Mas com o charme de Paris, sem o IPTU do Haddad.

É esse cosido de país dilacerado que os blac blocks de gravata de seda reivindicam no noticiário econômico inflamável dos dias que correm.

Quanto custará a paralisia que essa guerra de expectativas pode trazer –já está trazendo--  ao investimento, enquanto múltiplos de bilhões se refugiam no abrigo da liquidez de curto prazo ?

Difícil dizer. Mas não é descabido afirmar: são valores suficientes para decepar um pedaço do futuro daqueles que hoje imaginam estilhaçar o sistema chutando ícones dele na avenida Paulista.

O Brasil, como se sabe pelas sirenes do noticiário,  patina em baixa taxa de poupança interna (embora R$ 6,7 trilhões de riqueza financeira estejam aplicados em papéis de curto prazo); seu investimento (por isso) desliza;  as exportações definham diante da competitiva manufatura chinesa (que traz embutido o comando econômico do PC da China); as importações vão  de vento em popa nas velas de um câmbio valorizado, cujo ajuste requer uma pactuação que não esfarele o poder de compra dos salários...

E assim por diante.

Há dois caminhos: conversar sobre o assunto e eleger linhas de passagem para superar a teia dos impasses atuais -- isso quem faz é a disputa política, ou decidir que a fatalidade lacrou o futuro brasileiro.

Há exatamente dois anos, em novembro de 2011,  indignados espanhóis ocuparam as ruas num misto de voluntarismo e aversão ao sistema político.
Cravaram uma abstenção de 30% nas eleições gerais.

A captura do Estado espanhol pelos mercados foi avassaladora. A vitória incondicional do extremismo conservador, com as consequências hoje sabidas, pesará sobre o futuro de sucessivas gerações de espanhóis.

Os blac blocks de gravata de seda, extremamente competitivos, querem cumprir suas metas e bônus, não se  importam com a sorte da nação.

 É deles o lema que pulsa no noticiário isento: deve haver um abismo no mundo onde cabe esse país que só não afundou ainda por falta de uma cova do seu tamanho.

As labaredas desse incêndio incontrolável  irrompem no jornal da manhã e reacendem no noticiário da noite.

A mensagem das chamas tem um alvo: 2014.

‘O mercado’ não quer mais a ‘gastança social’ do PT, nem o   ‘intervencionista’ de Dilma.

Mas  ‘o mercado’ quer entrar no Brasil de qualquer jeito para desfrutar da sua riqueza e do seu mercado.

Há uma fila de espera de dez instituições financeiras internacionais querendo entrar na economia brasileira nesse momento.

As licenças do governo demoram até dois anos para serem liberadas.

Os gravatões de seda consideram isso um acinte.

O insuspeito noticioso do amigável  Valor Econômico admite que o governo Dilma autorizou o ingresso de quase 8 bancos por ano desde 2011.

Acima até da média de Lula, de seis bancos/ano.

Mas nada que se compare ao desempenho de FHC: 18,4 bancos por ano.

O governo Dilma acaba de autorizar os bancos Bradesco, Itaú e Banco do Brasil a aumentarem de 20% para 30% a participação estrangeira no seu capital.

Os black blocs enrolam a gravata de seda e espiam por cima dos óculos de aro made in France.

O problema é que Dilma quer saber exatamente o que o capital estrangeiro vem fazer aqui e que vantagem trará ao país.

‘O estilo ultradetalhista da presidente tem alimentado suspeitas de que existe um viés nacionalista contra o aumento da participação estrangeira em instituições financeiras’, justifica o amigável Valor.

A presidente do Brasil só autoriza banco novo se ficar demonstrado o interesse do país na operação.

Dilma quer saber o que o banco fará pelo financiamento de longo prazo indispensável a um novo ciclo de desenvolvimento.

A Presidenta faz o que determina a Constituição. E o que determina a Constituição  o ‘mercado ‘ rejeita.

Agora ela quer disciplinar o acesso à riqueza mineral do subsolo brasileiro.

O governo quer realizar leilões de reservas minerais comprovadas, cujo risco é zero.

E elevar de 2% para 4% os royalties sobre a atividade mineradora.

O Brasil está entre os maiores exportadores de minério de ferro do mundo. Só o faturamento da Vale do Rio Doce em 2012 foi de R$ 90 bilhões.

A arrecadação de royalties de todo o setor mineral brasileiro no ano passado rendeu ao caixa do Estado pouco mais de R$ 2 bilhões.

A acusação mais branda que se ouve no setor é a de que o governo está querendo fazer caixa para persistir na gastança fiscal.

Ideólogos dos blac blocks de gravata de seda, lotados na FGV, vaticinam: ou o Brasil derruba a política de reajuste do salário mínimo em 2014 –que beneficia também os aposentados, ou o PT vai imitar Haddad, em 2015, e taxar mais os ricos para sustentar os pobres.

O país está entre esses dois fogos.

Que fazer?

Salpicar o país de  fogueiras esparsas que rendem uma manchete exclamativa na Folha de amanhã?

Ou montar um poderoso contrafogo de barragem política, que amplie a abrangência e a profundidade da agenda progressista?

A ver.


domingo, 3 de novembro de 2013

Nem black nem bloc - Muitos dos que quebram e destroem são jovens revoltados com a vida infame da periferia, ou outros que procuram algum futuro além do shopping center

Nem black nem bloc


Muitos dos que quebram e destroem são jovens revoltados com a vida infame da periferia, ou outros que procuram algum futuro além do shopping center

02.11.2013 - Marco Aurélio Nogueira*
Bloco. Efeito colateral de uma vida bloqueada, sem esperança, nem utopia


A ação é tão caótica e contundente que é como se somente eles estivessem nas ruas. Além da polícia, claro, seu alter ego. São tão performáticos e agressivos, tão sem agenda e voz coletiva que geram a sensação de que as massas não existem. A violência que praticam não gera comunidade ou democracia, mas seu oposto. Ataca o sistema e seus ícones, mas não os põe em xeque, antes os reforça. Empurra as pessoas de volta para casa, longe das ruas politizadas por junho de 2013.

Nunca se falou tanto em black bloc, essa “tática” clonada da Europa que parece tomar conta das grandes metrópoles brasileiras de uns meses para cá. Não sabemos quase nada do fenômeno. Há duas versões típicas na praça. Uma faz a crítica do movimento como hostil à democracia, desmobilizador e desagregador. Outra faz seu elogio, escancarado ou dissimulado. Afirma que a violência black bloc é fundamental para tirar as massas da letargia, chamar às falas os partidos de esquerda e revelar a face brutal do Estado, ou que é expressão da iniquidade social, uma reação defensiva que protege as massas.

A estética black bloc adere na vida que temos. Seus seguidores querem ser vistos como vanguarda da luta contra o capital, a ala mais intransigente da contestação, aqueles que tirarão as massas do pacifismo que não perturba a ordem nem abala as instituições. A ação não traz consigo direitos, causas ou utopias, somente o fim dos tempos. Não leva rigorosamente a lugar nenhum. Reforça o sistema, em vez de miná-lo. É, na verdade, o efeito colateral de uma vida bloqueada, sem esperança, sem utopia, individualizada e fragmentada, de uma sociedade em que a violência entrou na corrente sanguínea, de um Estado pouco eficiente, de uma cultura que homenageia o espetáculo, mas não se complementa com uma ética pública consistente. Produto das contradições de um capitalismo sem freios e do descontrole que afeta a vida coletiva.

Mas nem tudo que verte sangue nas ruas é ação black bloc. Nem todos os que batem e quebram seguem a eventual filosofia de vida que lhe é típica. Muitos são revoltados, gente que quer dar um basta à vida infame que leva na periferia ou que deseja visualizar algum futuro além dos shopping centers. Podem até existir alguns “riquinhos” que aproveitam o pique para descarregar hormônios reprimidos ou mal utilizados.

Não havia black blocs na rodovia Fernão Dias, em São Paulo. Mas havia muita revolta, indignação, ressentimento e medo. Adrenalina de sobra para enfrentar a polícia, pois a polícia é um dos piores pesadelos das periferias urbanas, onde entra sem pedir licença, sem dialogar, matando com espantosa facilidade. 

Não se precisa de black blocs para que se extravase o que está armazenado nos porões das periferias, carências e sofrimentos que se misturam com criminalidade, drogas e miséria. A desesperança alimenta desejos de vingança, protestos imprecisos contra tudo que representa ordem e autoridade. Porque a ordem e a autoridade que se apresentam ali não nasceram de nenhuma construção, não são de modo algum “amigáveis”.

É uma situação que afeta a todos, mas fere sobretudo os mais jovens. Mata-lhes o futuro, convida-os a fazer cálculos existenciais negativos. É por isso que são eles que se jogam contra a polícia, que queimam e destroem. Encontram assim formas de lutar por reconhecimento, de aparecer, de adquirir uma identidade que a vida lhes rouba, de exigir uma atenção que lhes é negada. Ou será que há alguma política para eles, algum braço do Estado que não seja o da polícia? A democracia política não lhes faz muito sentido, pois seus resultados não são palpáveis, não são decodificados. Quem atua nas periferias como agente democrático? Agem ali operadores e associações de outro tipo, algumas delas especializadas em fomentar violência.

A violência explode sempre que a política soluça, a democracia não encorpa como valor e os governos não produzem resultados. Anda junto com a exclusão, o crime, a exploração. Não há como sumariamente suspendê-la. Em épocas de má política e muito espetáculo, a necessidade de dizer “não aguento mais” conflui para a busca de um lugar que dê visibilidade. É uma via torta, contraproducente. Mas há um tipo de política nela, que precisa ser compreendida. Até para que não se ative uma espiral de violência que a ninguém beneficiará.

Como apagar o rastilho? Certamente não com mais polícia. Pactos e entendimentos são recursos cívicos eficazes, atos que celebram a cooperação para a conquista de coisas comuns, no caso, políticas públicas e direitos. Se forem sérios, generosos e tiverem qualidade, vencem. Temos deficiências nessa área, mas sempre se pode tentar superá-las. Poder-se-ia começar, por exemplo, com um pacto intraestatal: situação e oposição, União, Estados e municípios trabalhando juntos, em nome de um plano de recuperação das periferias, de desmilitarização da polícia, de valorização das escolas, gestos que deixem claro que se quer de fato fazer alguma coisa. Sem isso, será difícil que se avance.

*MARCO AURÉLIO NOGUEIRA É CIENTISTA SOCIAL, DIRETOR DO INSTITUTO DE POLÍTICAS PÚBLICAS E RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA UNESP E ACABA DE LANÇAR AS RUAS E A DEMOCRACIA - ENSAIOS SOBRE O BRASIL CONTEMPORÂNEO(CONTRAPONTO)