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quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Rumo a uma nova ordem petrolífera global

Rumo a uma nova ordem petrolífera global



Queda do preço do produto começa a delinear novos equilíbrios geopolíticos

Os EUA se tornam um produtor de referência, e a Europa reduz sua fatura energética

 Madri 29 OCT 2014

mercado do petróleo se viu sacudido por uma espécie de tempestade perfeita, uma combinação de excesso de oferta, de demanda mais fraca do que a prevista e de valorização do dólar (a moeda de referência para o mercado petroleiro), o que provocou a queda de 25% nos preços do petróleo bruto desde junho. Depois de um período de relativa estabilidade, com o barril quase sempre acima dos 100 dólares desde 2011 – alcançou 115 dólares em junho –, parece, segundo diversos especialistas, que os preços estão se firmando numa faixa bem mais baixa, entre os 70 e 90 dólares, o que introduz novas e profundas variáveis no mercado petroleiro.
A mais relevante delas, possivelmente, é a mudança que começa a se desenhar na correlação de forças geopolíticas. Diferentemente de outras ocasiões, a Arábia Saudita descartou reduzir a produção como forma de tentar sustentar os preços, e inclusive aceitou reduzir o valor cobrado de seus clientes asiáticos, para manter sua fatia do mercado. Outros membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) pediram medidas, mas quase ninguém confia em um acordo que reduza a oferta do cartel na reunião de 27 de novembro. “Se a OPEP não reduzir a produção para sustentar os preços, quem reduzirá?”, pergunta-se Kevin Norrish, do banco Barclays. “A OPEP já não atua como o produtor de referência do mercado, e a oferta de petróleo de xisto dos Estados Unidos está destinada a ocupar esse lugar”, defendem os analistas do Goldman Sachs.
Os altos preços do petróleo têm possibilitado a exploração de poços que exigem técnicas custosas, como as perfurações em águas profundas ou o fraturamento hidráulico (fracking). Graças a isso, os Estados Unidos puderam aumentar sua produção de petróleo a um ritmo anual em torno de 1,3 milhão de barris diários desde 2011. Consequentemente, os EUA avançaram muito rumo à autossuficiência energética e podem se tornar aquilo que os especialistas veem como o fiel da balança do mercado, capaz de ditar seus rumos. Dessa forma, os produtores de fora da OPEP, com os EUA à frente, foram capazes de suprir o aumento da demanda global, o que diluiu grandemente a influência do cartel de exportadores. “Não há precedentes históricos de que um país possa manter durante tanto tempo semelhantes aumentos de produção. Isso alterou completamente o mercado”, explica Antonio Merino, diretor da Secretaria Técnica da Repsol e um dos maiores especialistas espanhóis em mercado energético. “O que está sendo aferido agora é o nível de preços sob o qual os EUA serão capazes de manter não mais a produção petrolífera, que ronda os 5,5 milhões de barris por dia, e sim os aumentos de oferta destes últimos anos. Eu acredito que esse nível esteja mais próximo dos 85 ou 95 dólares por barril do que dos 70 dólares”, explica.

Há outros fatores que pressionam os preços para baixo. A Líbia, com uma produção inexistente em setembro de 2012, consegue colocar atualmente no mercado entre 800.000 e 900.000 barris diários. A tomada de vários poços petroleiros do Iraque por jihadistas doEstado Islâmico não causou uma interrupção da produção, que é de aproximadamente três milhões de barris diários. O Irã anunciou sua intenção de aumentar a oferta para quatro milhões de barris por dia em março de 2015, caso obtenha um acordo para eliminar as sanções internacionais. Tudo isso em meio a uma forte freada da demanda global, que levou a Agência Internacional da Energia a reduzir em 25% suas previsões de setembro relativas ao aumento do consumo, coincidindo com o alerta lançado pelo Fundo Monetário Internacional acerca do risco de uma terceira recessão na Europa. O nervosismo do mercado não se fez esperar.
O preço do barril do petróleo tipo Brent, o de referência para a Europa, chegou a cair 31 dólares, o maior redução desde meados de 2012. Uma queda tão forte e abrupta antes disso só na crise financeira de 2008, quando a cotação desabou 75%. “Não acho que veremos nada parecido com aquilo”, admite Norrish. Naquela época, o barril do Brent chegou a ser cotado a 36 dólares.
Sem atingir esses níveis, o fato é que a redução do custo energético tem um impacto notável sobre a economia, na forma de economia na fatura energética, de correção de desequilíbrios externos e de menor pressão inflacionária. “O saldo líquido é positivo para a economia mundial”, assegura Andrew Kenningham, da Capital Economics, em um de seus últimos relatórios. “Uma queda de 10 dólares no preço do petróleo equivale a uma transferência de 0,5% do PIB mundial dos países produtores para os países consumidores, e estes sempre acabam aumentando o seu gasto. Se assumirmos que os consumidores gastam a metade do que poupam, uma queda permanente de 10 dólares no preço do petróleo impulsionaria a demanda global em 0,2% a 0,3%”, argumenta Kenningham. Ou seja, uma injeção de 320 bilhões de dólares na economia mundial se, como calcula a Capital Economics, os atuais preços do petróleo, em torno de 85 dólares, se mantiverem até o final de 2016.
Tradicionalmente, uma redução no preço do petróleo bruto anima o consumo. Os analistas do Goldman Sachs calculam que a cotação do produto baixará 15% em 2015, o que implicará uma ampliação de 200.000 barris diários na demanda. Isso também propiciaria um aumento da confiança e da atividade em nível global. Os Estados Unidos já se beneficiam da forte redução nos custos de produção graças ao gás extraído com a técnica do fracking. Mas “a situação na zona do euro é muito diferente. Primeiro porque uma queda do preço das matérias primas vai exacerbar o temor de deflação na região e de um novo episódio de crise da dívida”, adverte Kenningham, da Capital Economics. “Nessas circunstâncias, o impacto sobre o consumo de um petróleo mais barato mal será notado, e, seja como for, reforçará os argumentos em prol de um programa de compra de bônus em grande escala por parte do Banco Central Europeu”, salienta. Claro que, aí, já entram em jogo outras variáveis.



Fonte: http://brasil.elpais.com/brasil/2014/10/29/economia/1414618384_024198.html

sábado, 5 de julho de 2014

Japão pede racionamento em 1º verão sem energia nuclear

Japão pede racionamento em 1º verão sem energia nuclear

O Japão lançou neste mês uma campanha de racionamento de energia elétrica diante do primeiro verão sem a participação das usinas nucleares na matriz energética do país.
Pela primeira vez em quase meio século, nenhum dos 54 reatores nucleares do país está em funcionamento.
O governo não impôs nenhuma meta de economia em termos quantitativos, mas tem pedido às pessoas que evitem o desperdício de energia “na medida do possível” nos meses de julho a setembro, principalmente das 9h às 20h nos dias úteis, quando o consumo costuma a aumentar por causa do calor.
Autoridades sugerem medidas simples no dia a dia, como programar o ar-condicionado para 28˚C ou acima disto.
Este será o quarto ano seguido – desde o terremoto seguido de tsunami de 2011 que destruiu a usina nuclear de Fukushima e obrigou o fechamento de outras plantas – em que o governo pede um esforço da população na economia de energia.
Nos três anos anteriores não houve nenhum grande problema, mas o governo já indicou que quer reativar as usinas no futuro.
Cerca de 80% da energia consumida neste verão será proveniente de usinas termoelétricas.
Segundo um levantamento feito pelo governo, cerca de 20% destas plantas estão em operação há mais de 40 anos e, por isto, correm o risco de sofrer algum tipo de sobrecarga ou mesmo colapso.
Para piorar o cenário, de acordo com a Agência de Meteorologia do Japão, existe a possibilidade de uma zona de alta pressão atmosférica no Oceano Pacífico causar temperaturas mais altas do que a média no mês de agosto.
Usinas nucleares – Após o desastre de 2011, o Japão tinha desativado quase todas as usinas nucleares do país.
A última que continuava em funcionamento era a planta de Ohi, na província de Fukui. Mas ela foi desativada em setembro do ano passado.
Em maio deste ano, o Tribunal de Fukui decidiu não permitir a retomada das operações dos dois reatores.
“Esta é uma decisão histórica, que dá voz a muitos moradores das proximidades de usinas nucleares, que antes não eram ouvidos”, disse a conselheira municipal Harumi Kondaiji, de Tsuruga (Fukui), cidade localizada a 60 quilômetros da usina de Oi.

Emissões de CO2 – Mas o governo do primeiro-ministro Shinzo Abe cita o alto custo da importação de hidrocarbonetos e o aumento das emissões de gás carbônico como fortes argumentos para defender a reativação de algumas usinas.
Entretanto, ativistas como Hisayo Takada, do Greenpeace Japan, acreditam que o fechamento das usinas nucleares tem impacto pouco significativo sobre as emissões de CO2. “O aumento das emissões após o desastre de Fukushima tem sido surpreendentemente moderado”.
Para o Greenpeace, o paradigma emissões versus energia nuclear é uma falsa dicotomia.
“A cota global de emissões de CO2 do Japão vinda de geração de energia é de cerca de 30%, o que significa que 70% das emissões não tem nada a ver com a questão nuclear, mas com problemas ligados a transporte, aquecimento etc”, explicou Hisayo.
Entre as ações propostas pela organização para substituir o uso da energia nuclear estão a eliminação gradual de subsídios para combustíveis fósseis e para a produção de energia nuclear; introdução de taxas adicionais para grandes poluidores e o estabelecimento de metas para o uso e desenvolvimento de energias renováveis. 

terça-feira, 17 de junho de 2014

A Agência Internacional de Energia disse que a festa acabou

A Agência Internacional de Energia disse que a festa acabou




Serão necessários cerca de 48 trilhões em investimentos até 2035 para cobrir as crescentes necessidades energéticas mundiais, segundo disse a AIE.


Richard Heinberg (*)

Arquivo

















Créditos da foto: Arquivo

A Agência Internacional de Energia (AIE, ou IEA, em sua sigla em inglês) acaba de publicar um relatório especial intitulado “Perspectivas mundiais de investimento em energia”, que deveria fazer com que os políticos começassem a se desesperar correndo em busca da saída – se quiserem ler as entrelinhas e ver o informe no contexto das tendências financeiras e geopolíticas atuais.


Serão necessários 48 trilhões em investimentos até 2035 para cobrir as crescentes necessidades energéticas mundiais, segundo disse a AIE na última terça-feira em Paris. A diretora-executiva da AIE, Maria van der Hoeven, declarou que a confiabilidade e a sustentabilidade dos futuros abastecimentos de energia dependem de um alto nível de investimento. “Mas isso não se materializará, a menos que esteja em funcionamento um marco político crível, assim como um acesso estável a fontes financeiras a longo prazo”, disse. “Nenhuma dessas condições deveria ser dada por garantidas”.



E aqui segue um pouco do contexto que falta ao informe da AIE: a indústria do petróleo, na realidade, está reduzindo custos no investimento upstream (em busca de novas jazidas e perfuração). Por quê? Os preços mundiais do petróleo – que, com o preço atual por barril entre dos 90 a 110 dólares, estão em níveis historicamente altos – são, no entanto, muito baixos para justificar a afronta a uma geologia cada vez mais exigente. A indústria precisa de um preço do petróleo de pelo menos 120 dólares por barril para financiar a exploração no Ártico e em alguns campos ultraprofundos. E não nos esqueçamos: os tipos de juros atuais são ultrabaixos (graças ao quantitative easing da Reserva Federal), de modo que conseguir investimentos de capital deveria ser mais fácil agora do que nunca. Se acaba o QE e os tipos de juros sobem, a capacidade da indústria e dos governos de aumentar o investimento em capacidade de produção de energia diminuirá no futuro.
Outros pontos do informe deveriam provocar igualmente um ataque de nervos nos políticos.
A bolha da rocha está se destruindo. Em 2012, a AIE previa que as taxas de extração de petróleo das formações rochosas nos EUA (principalmente, em Bakken, na Dakota do Norte e Eagle ford, no Texas) continuarão crescendo durante muitos anos, superando os EUA e a Arábia Saudita na taxa de produção de petróleo para 2030 e se transformando em um exportador neto de petróleo para 2030. Em seu novo informe, a AIE disse que a produção de tight oil nos EUA começará a diminuir por volta de 2020. Alguém até poderia pensar que o pessoal da AIE andaram lendo as análises do Post Carbon Institute sobre as previsões de tight oil e gás de rocha! www.shalebubble.org. É uma bem-vinda dose de realismo, embora a AIE provavelmente siga pecando pelo otimismo: nossa própria leitura dos dados sugere que o declínio começará antes e será mais abrupto.



Ajude-nos, OPEP! Você é nossa única esperança!
Isto é o que Wall Street Journal coloca em seu artigo sobre o relatório: “Uma agência de controle de energia de máximo nível disse que o mundo precisará de mais petróleo do Oriente Médio na próxima década, à medida que o boom nos EUA diminua. Mas a Agência Internacional de Energia avisa que pode ser que os produtores do Golfo Pérsico não consigam cobrir a brecha arriscando preços do petróleo mais altos”.



Vejamos: Como está a OPEP nesses dias? Iraque, Síria e Líbia estão em um caos político. O Irã definha sob as sanções comerciais dos EUA. As reservas de petróleo da OPEP continuam ridiculamente sobre-estimadas. E ainda que os sauditas compensem o declínio dos velhos campos de petróleo, colocando em produção novos locais, estão ficando sem novos campos para desenvolver. Dessa forma, parece que o risco de preços de petróleo mais altos é bastante grande.



Uma previsão de preços: “O quê, isso me preocupa?” (Frase célebre pronunciada pelo menino mascote da revista de humor MAD). Apesar de todos esses desenvolvimentos funestos, a AIE não apresenta nenhuma mudança em relação a sua previsão de preços de petróleo de 2013 (isto é, um aumento gradual dos preços do petróleo mundial a 128 dólares por barril para 2035). O novo informe disse que a indústria do petróleo terá que aumentar seu investimento em upstream no período previsto em 2 bilhões de dólares sobre as previsões anteriores de investimento da AIE.



De onde se supõe que a indústria petroleira vai deduzir que esses 2 bilhões de dólares saiam senão de preços significativamente mais altos? (Mais altos a curso prazo, talvez, do que a previsão de preços em longo prazo da AIE de 129 dólares por barril e subindo). Essa previsão de preços é obviamente pouco confiável, mas isso não é nada novo. A AIE vem publicando previsões de preços absurdamente equivocadas durante toda a década passada. De fato, se o enorme aumento de investimento em energia recomendado pela AIE for feito, tanto a energia elétrica como o petróleo serão muito menos acessíveis. Para uma economia mundial estritamente atada à conduta dos consumidores e dos mercados, uma economia já em estancamento ou contração, as limitações energéticas significam uma coisa e apenas uma: tempos difíceis.



E o que acontece com as energias renováveis?
A AIE prevê que apenas 15% dos 48 bilhões necessários irão para energias renováveis. Todo o demais é necessário apenas para remendar nosso atual sistema energético de petróleo-carnobo-gás de forma que não acabe na sarjeta por falta de combustível. Mas, quanto investimento seria necessário se a mudança climática fosse levada a sério? A maior parte das estimativas se referem apenas à eletricidade (isto é, passam por cima do crucial e problemático setor do transporte) e ignoram a questão da taxa de retorno energético. Inclusive quando simplificamos artificialmente o problema dessa forma, 7,2 bilhões divididos ao longo de vinte anos simplesmente não são suficientes. Um pesquisador estima que os investimentos terão que subir entre 1,5 a 2,5 bilhões por ano. De fato, a AIE está nos dizendo que não temos o que nos falta para manter nosso atual regime energético e provavelmente não vamos investir o suficiente para mudar para outro.



Se você olhar para as tendências citadas e ignoradas e para as enganosas previsões de preços explícitas, a mensagem da AIE é clara: a estabilidade continuada dos preços do petróleo parece problemática. E com os preços dos combustíveis fósseis altos e voláteis, os governos provavelmente terão mais dificuldade de dedicar o capital de investimento progressivamente escasso ao desenvolvimento de nova capacidade energética renovável.



Quando ler esse informe, imagine-se na pele de um político de alto nível. Você não vai querer começar a pensar em uma aposentadoria antecipada?




(*) Ecólogo e professor universitário norte-americano, especializado em temas relacionados aos aspectos ambientais e sociais do uso de energias e suas fontes e, em particular, os relacionados às consequências resultantes das teorias do esgotamento do petróleo.



segunda-feira, 14 de abril de 2014

Japão decide manter energia nuclear

Japão decide manter energia nuclear


Três anos após a catástrofe nuclear de Fukushima, governo aprova retomada da energia nuclear, anulando decisão do gabinete anterior de fechar todas as usinas até 2030.
Segundo o texto do novo plano básico de energia, aprovado nesta sexta-feira (11/04) em Tóquio, o governo do Japão dará prosseguimento à "reativação das centrais nucleares" do país, que permanecem "paradas" em consequência do acidente nuclear provocado por um terremoto seguido de tsunami, em março de 2011.
A decisão anula os planos do governo anterior, de eliminar a energia nuclear até 2030, e já era esperada, depois que o pró-nuclear Partido Liberal Democrata (PLD) chegou ao poder, em dezembro de 2012. No entanto, os deputados do partido do primeiro-ministro Shinzo Abe demoraram mais do que o previsto para aprovar a medida, por considerar que o plano inicial era demasiadamente pró-nuclear.
Shinzo Abe assumiu governo japonês no final de 2012
Após várias revisões, o governo definiu a energia nuclear como "uma fonte importante, barata no que se refere ao custo operacional e capaz de gerar eletricidade de forma contínua e estável." O novo plano prevê que sejam reativados somente os reatores nucleares que preencham, segundo o governo em Tóquio, os padrões de segurança mais rígidos do mundo.
Através da ampliação das energias renováveis, o gabinete de Abe também pretende reduzir a proporção da energia nuclear na matriz energética japonesa. O novo plano foi aprovado apesar da grande rejeição popular da energia nuclear num Japão pobre de recursos naturais.
Nova matriz energética
Antes da catástrofe nuclear em Fukushima, em 11 de março de 2011, por volta de um terço da demanda energética japonesa provinha da energia nuclear. E estava planejado que essa proporção deveria aumentar. Atualmente, todas as 50 usinas nucleares do país estão desativadas por razões de segurança e de manutenção.
Para compensar a falta da energia nuclear, foram ativadas usinas termelétricas, o que fez o Japão importar ainda mais gás natural, petróleo e carvão. O Japão possui uma dependência energética do exterior de 90%. O governo também desistiu da meta de reduzir as emissões de CO2 em 25% abaixo do valor de 1990. O novo plano energético também abriu o caminho para a construção de novos reatores, dependendo de o abastecimento ser ou não estável.
Rússia fornece gás natural para o Japão
Tradicionalmente, o partido de Abe sempre esteve bem próximo da indústria nuclear. Especialistas em Tóquio estimam que, entre as usinas nucleares existentes, pouco mais de dez deverão ser reativadas. Assim, futuramente, a matriz energética japonesa será composta da energia nuclear, como também da energia proveniente de fontes fósseis e renováveis.
Difícil recomeço
Como ainda não se sabe quantos reatores cumprem os padrões de segurança necessários à reativação, o novo plano energético não aponta percentagens. Em nota de rodapé, no entanto, está escrito que até 2030 a proporção da energia renovável deverá ser maior do que o previsto no plano energético anterior.
Esse plano básico de energia, aprovado em junho de 2010, dava mais destaque à redução das emissões de CO2, prevendo que o Japão teria como objetivo aumentar o uso da energia nuclear e da energia renovável em mais de 50%, até 2020, e por volta de 70% ao longo da década posterior. Segundo o plano anterior, a energia proveniente de fontes renováveis seria responsável por 20% da geração de eletricidade em 2030.
Mais da metade dos japoneses é contra a energia nuclear
O novo plano diz que o país irá "reduzir" o uso da energia nuclear para o "menor nível possível" através do aumento da percentagem de energia renovável, mas não indicou nenhuma meta numérica ou datas. "O governo está recomeçando, anulando a estratégica energética prevista antes do desastre. É o ponto onde estamos", afirmou o secretário-chefe do gabinete de governo japonês, Yoshihide Suga.
Rejeição popular
O novo plano foi aprovado apesar da grande insatisfação popular frente à energia nuclear após a catástrofe de Fukushima. De acordo com pesquisas de opinião, mais da metade dos japoneses rejeitam a energia nuclear. Além das mortes de 18 mil pessoas vítimas do tsunami, mais de 140 mil pessoas não puderam retornar às suas casas devido à radiação em torno da instalação nuclear avariada.
Nesta sexta-feira, em Tóquio, ambientalistas criticaram o novo plano energético, afirmando que esse teria como meta socorrer a indústria nuclear. Hisayo Takada, ativista do Greenpeace, afirmou que "o novo plano básico de energia do Japão aprovado hoje é um produto do acordo entre o governo e políticos, e vale tanto quanto um 'plano básico de apoio econômico' para as empresas e a indústria nuclear."
CA/afp/lusa/dpa

DW.DE


Rio e São Paulo desperdiçam mais de 30% da água

Rio e São Paulo desperdiçam mais de 30% da água



JC e-mail 4928, de 07 de abril de 2014
Para especialistas, razoável seria 15%; em SP, nível do abastecimento de Cantareira é o mais baixo da história




Estados mais ricos do país, Rio e São Paulo - que hoje divergem por conta do pedido do governo paulista para captar água da bacia do Rio Paraíba do Sul - desperdiçaram, em 2011, mais de 30% da água tratada. As perdas na distribuição chegaram, respectivamente, a 32,8% e 35,2%. De acordo com o Ministério das Cidades, que reúne os dados do setor, a média brasileira é ainda pior: 38,8%, por conta dos estados do Norte e do Nordeste, que em sua maioria desperdiçavam mais da metade da água tratada. Para especialistas, no entanto, o razoável seria até 15%. Alguns países da Europa e os Estados Unidos estão nesse patamar. Na Alemanha, por exemplo, o índice já está abaixo dos 10%. O Japão, no entanto, foi além: tem índice de 7%, sendo que, em Tóquio, o desperdício não passa dos 5%.

Responsável por 7,7 milhões de ligações de água, o volume de água tratado pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), em 2012, foi de 3.059 milhões/m3. Apenas com vazamentos, a companhia perdeu 20,3%. No entanto, de acordo com a Sabesp, esse número vem caindo. Nos últimos 10 anos, houve queda de 8 pontos percentuais. Ainda assim, a água desperdiçada com vazamentos daria, de acordo com Antônio Eulálio, conselheiro do Crea/RJ, para encher "em torno de 300 piscinas olímpicas". Somadas as perdas que impactam no faturamento, como ligações irregulares, gatos de água e hidrômetros quebrados, o desperdício chegou, em 2012, a 25,7%.

No Rio, a Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Cedae), desde o começo deste ano, trata e distribui 48 mil litros por segundo. De acordo com a Cedae, 70% das redes de distribuição antigas, "potencialmente causadoras de vazamentos", já foram substituídas, o que explicaria em parte a queda no índice de desperdício que, em 2009, passava dos 50%. A Cedae cita ainda as perdas comerciais, "impactadas pelo consumo em comunidades (favelas)". Segundo a empresa, "nas comunidades existe abastecimento, mas o nível de consumo informal (gatos) é extremamente elevado".

- Rio e São Paulo têm perdas extraordinárias. Discute-se quem pode captar ou não água do Rio Paraíba do Sul, mas é uma falsa discussão. Se tanta água não fosse desperdiçada, a carência seria menor. A discussão tinha que passar pela má gestão das empresas de saneamento dos estados e não apenas pela captação da água do rio que atende a maior concentração da força produtiva brasileira. Claro que agora é necessária uma solução de curto prazo, mas desperdiçar mais de 15% deveria ser inaceitável - diz Paulo Canedo, coordenador do laboratório de Hidrologia da Coppe/UFRJ: - Se o estado de São Paulo conseguisse reduzir em 50% as perdas na distribuição, seria possível atender cerca de 4,5 milhões a mais de pessoas.

No mês passado, por conta da capacidade dos reservatórios do Sistema Cantareira virem acumulando recordes negativos, o governador Geraldo Alckmin (PSDB-SP) pediu ao governo federal para captar água do Rio Paraíba do Sul, maior fonte de abastecimento do Rio. O pedido abriu uma crise entre os dois estados, e o então governador Sérgio Cabral (PMDB) disse que não ia "tolerar nada" que afetasse o abastecimento.

- As duas empresas, Sabesp e Cedae, já deveriam estar perto de 20% e não perto dos 30%. Não existe perda zero, mas 15% seria um nível civilizado. Os números do Brasil são maiores, e ainda podem estar subdimensionados - diz Édison Carlos, presidente do Instituto Trata Brasil, lembrando que não é só o cidadão que deve ser cobrado quando há escassez:

- Num momento como o que vivemos agora, cobra-se que o cidadão reduza o consumo, mas as empresas têm que ser cobradas também.

No entanto, ele diz que é preciso levar em conta que os números do desperdício incluem o abastecimento de pessoas que vivem em áreas irregulares e têm ligações clandestinas:

- Só em São Paulo, fala-se em 3 milhões vivendo nessas condições, e a Sabesp não pode levar rede oficial para essas regiões. Mas não é por isso que o assunto não deve ser discutido. Temos que falar sobre isso, ainda mais porque Rio e São Paulo não podem usar os rios urbanos como fonte de água.

No Brasil, segundo o Ministério das Cidades, em 2011, nenhum estado tinha índice de perda abaixo ou igual a 20%. No mesmo ano, o Atlas do Saneamento, publicado pelo IBGE, apontava que 60% das cidades com mais de cem mil habitantes perdiam de 20% a 50% da água tratada, em função de vazamentos entre a captação e o consumidor. Além disso, 23% das cidades brasileiras conviviam com racionamento de água.

Presidente da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (Abes), Dante Ragazzi diz que o desperdício "passa pela gestão das empresas", mas que a União, estados e municípios têm que trabalhar em conjunto:

- Em São Paulo, o governo estadual apostou na Sabesp, e os índices têm caído. Mas não tem milagre. O Rio, por exemplo, tem grandes favelas, então, a discussão tem que passar também pela regularização das áreas. O desafio é gigantesco, mas tem que incluir municípios, governos estaduais e a União. A meta do Plansab (Plano Nacional de Saneamento Básico) é chegar a 2033 com índice de perda de 31%.

- A distribuição de água tem que melhorar, mas ninguém controla realmente o serviço. No Rio e em São Paulo, todos que andam nas ruas veem canos vazando. Imagina se uma empresa pode engarrafar, por exemplo, uma bebida e perder 30%, 40% dessa produção? Ela quebra. Mas as empresas de saneamento postergam ações de manutenção, os canos vazam, falta água, elas perdem dinheiro... No mais, as empresas estão mesmo conformadas com o roubo de água? - pergunta Canedo.

Para Ragazzi, uma melhora no setor passa pelo governo federal. Ele acredita que a União poderia disponibilizar recursos e receber uma espécie de contrapartida.

Em nota, o Ministério das Cidades reconhece que "as perdas de água representam um dos grandes desafios para a expansão e melhorias da distribuição". Diz ainda que "a perda com a água produzida e não faturada faz com que o setor do saneamento deixe de obter importantes recursos financeiros, além de sobrecarregar desnecessariamente os mananciais hídricos com as demandas por aumento de produção de água". Segundo a nota, o ministério tem apoiado financeiramente, "por meio dos programas de abastecimento de água, os prestadores de serviços em ações que visam reduzir as perdas, bem como só aceita propostas de aumento de produção de água, quando as perdas estão abaixo da média nacional". A pasta afirma que "em um cenário ideal, as medidas preventivas de controle de perdas devem ser consideradas já nas etapas de planejamento e implantação do sistema de abastecimento de água. Ao longo da operação do sistema, medidas de redução e controle de perdas devem ser implementadas de forma contínua e permanente pelo prestador de serviços.".

(Carolina Benevides / O Globo)

terça-feira, 8 de abril de 2014

Ascensão e queda da civilização dos combustíveis fósseis

Ascensão e queda da civilização dos combustíveis fósseis


José Eustáquio Diniz Alves

“We should leave oil before it leaves us”

(Devemos deixar o petróleo antes que ele nos deixe)
Faith Birol (Chief economist of the IEA)

[EcoDebate] Tudo que sobe cai. Esta verdade não vale apenas para a lei da gravidade, mas também para os diversos sistemas econômicos-culturais da história da humanidade. A ascensão do império de Nabucodonosor desmoronou junto com os jardins suspensos da Babilônia. Após a ascensão dos impérios Persa, Egípcio, Grego, além do império progressista de Asoka na Índia e do império guerreiro de Qin Shi Huang na China, houve um período de plenitude, mas depois de um certo tempo todas essas civilizações colapsaram. O império Otomano calapsou. O império Maia colapsou. O império Austro-Húngaro colapsou, assim como tantos outros.
O “Abismo de Sêneca” é uma teoria utilizada para descrever a tendência das civilizações entrarem em colapso depois de ter atingido o seu pico máximo. O Império Romano gastou mais de 500 anos para chegar ao seu apogeu mas desmoronou em pouquíssimo tempo. Por isto se diz que a evolução da riqueza é lenta, mas a ruína é rápida. Mais recentemente o mundo assistiu a ascensão do império Soviético durante 70 anos e seu colapso em menos de um ano. Há várias pessoas que falam também em um possível colapso americano.
Mas, para além dos colapsos específicos, o mundo pode assistir a uma transformação maior do que a apresentada nos exemplos acima. Trata-se do colapso dos 250 anos da civilização dos combustíveis fósseis (1768-2018). Antes da invenção da máquina a vapor, por James Watt, em 1768, eram utilizadas três fontes básicas de energia: a força humana, a força animal e a energia da lenha (carvão vegetal obtido nas florestas). Para plantar, a humanidade usava a enxada ou o arado puxado por algum animal. A locomoção era a pé, no lombo de cavalos, camelos, etc. ou em carroças. Não existiam prédios com elevadores. A luz vinha das fogueiras ou da gordura de animais, como os óleos de baleia e tartaruga. A concentração de CO2 na atmosfera estava em torno de 280 partes por milhão (ppm).
Todavia, tudo isso mudou com o início da Revolução Industrial e Energética que aconteceu no final do século XVIII. O artesão foi substituído pela manufatura que, por sua vez, foi substituída pela grande indústria. O transporte foi revolucionado, primeiro pelas ferrovias e pelos navios a vapor, depois pelo automóvel, caminhão e rodovias, transatlânticos (e transpacíficos), aviões, helicópteros, etc. A pequena agricultura foi substituída pela grande produção agrícola na base de fertilizantes, agrotóxicos, tratores, colhedeiras, etc. As cidades que abrigavam 5% da população mundial em 1800 passaram a abrigar 50% em 2008 e devem chegar a 70% em 2050. A mortalidade infantil caiu e a esperança de vida ao nascer da população mundial chegou a 70 anos, em 2013. Tudo isto foi possível graças ao uso da energia advinda do carvão mineral, petróleo e gás.
Os ganhos foram extraordinários. Considerando o período 1768 a 2018 (auge da utilização dos combustíveis fósseis), a população mundial saltou de cerca de 760 milhões para 7,6 bilhões de habitantes (multiplicando por 10 vezes em 250 anos) enquanto a economia deve apresentar um crescimento de 130 vezes no mesmo período (números interpolados dos cálculos de Angus Maddison). Assim, o pulo do gato na história do homo sapiens foi o uso da energia extrasomática (exterior ao corpo humano ou animal). A exploração dos combustíveis fósseis tornou possível à humanidade libertar, para uso próprio e em curto intervalo de tempo, vastas quantidades de energia acumuladas durante milhões de anos na forma de hidrocarbonetos. A humanidade deixou de temer a natureza e passou a controlá-la e dominá-la. Entramos na Era do Antropoceno, que é a época em que a humanidade se torna capaz de mudar o curso natural da vida no Planeta, sendo determinante para a extinção em massa de inúmeras espécies e pelo aquecimento global e as mudanças climáticas.
Como calculou Price (1995), o uso dos combustíveis fósseis é equivalente à posse de 50 escravos por pessoa no mundo. Sociedades altamente intensivas no uso do petróleo, como os Estados Unidos (EUA), teriam o equivalente a 200 escravos per capita. Ou seja, seria com se os EUA tivessem 62 bilhões de “escravos fantasmas” à disposição do país, sendo que estes escravos não fazem greve, nem revoltas e não precisam de comida, ao contrário, ajudam a alimentar o “senhorio” humano.
Desta forma, pode-se dizer que o “santo” que propiciou o “milagre” do crescimento da civilização humana nos últimos 250 anos foi, sem dúvida, o combustível fóssil. É claro que a ciência e a tecnologia ajudaram o crescimento econômico, o aumento da produtividade e a disponibilidade de alimentos. O crescimento demográfico também foi fundamental para aumentar o número de trabalhadores e de consumidores. Mas sem energia abundante não haveria oferta de meios de subsistência e nenhuma invenção científica e tecnológica funcionaria. Desta forma, não é possível ignorar que oitenta por cento da matriz energética mundial advém do petróleo, gás e carvão mineral. Porém, este “escravo barato e cheio de energia” não é eterno e nem ilimitado. O “ouro negro” está ficando caro e cada vez mais escasso. Os problemas ambientais se avolumam e a demanda de energia aumenta com o crescimento das atividades antrópicas.
O petróleo e demais combustíveis fósseis não vão acabar totalmente e de repente, mas a exploração de novas reservas vai ficar economicamente muito cara, tornando-as inviáveis comercialmente. Um campo de petróleo é uma jazida onde o petróleo ocupa o espaço poroso entre os grãos da rocha reservatório. A jazida é uma armadilha (no Brasil, costuma-se dizer “trapa”, de trap, em inglês) que retém o petróleo no seu caminho ascendente a partir da rocha geradora. Mas a jazida é diferente de reserva, pois nem todo o petróleo de um campo pode ser extraído. Reserva de petróleo é o volume que se pode extrair, comercialmente, de uma jazida, pelos métodos de recuperação e produção conhecidos, sob as condições econômicas e regulamentares vigentes. Além disto há custos crescentes no transporte, no armazenamento, no refino, etc.
Na primeira metade do século XX, a EROEI (energia retornada sobre energia investida) era alta. Atualmente existe uma erosão da EROEI e muitos poços se tornam deseconômicos. Isto quer dizer que o limite máximo (pico) para a produção de petróleo pode ocorrer muito antes do esgotamento das jazidas, talvez a partir de 2018. Por exemplo, o Estado da Califórnia era o maior produtor dos Estados Unidos há 100 anos. Mas os campos foram se esgotando e agora a Califórnia está em terceiro lugar. A possibilidade de produzir gás de xisto (hydraulic fracturing and horizontal drilling) está esbarrando na falta de água e nos perigos de contaminação dos lençóis freáticos. Entre o gás e a água parece que a Califórnia vai ter que optar pela água e buscar uma saída da dependência dos combustíveis fósseis. O fato é que a produção de petróleo convencional está estagnada.


O pico de Hubbert (Hubbert’s peak) é uma teoria que modela a produção de petróleo indicando que as descobertas e a produção seguem, de início, a forma de uma curva logística – apresentando um crescimento lento no começo, se acelerando em um estágio posterior e depois se desacelerando até se inverter e fazer o movimento logístico para baixo. Ou seja, a produção de petróleo segue o comportamento de uma curva normal, ou em forma de sino (curva de Gauss). A teoria foi desenvolvida pelo geofísico americano M. King Hubbert, que em 1956, publicou um artigo mostrando que o pico (máximo da produção) de petróleo, no mundo, deveria ser atingido em torno de 50 anos. Depois deste pico, a produção cairia rapidamente, podendo criar um grande desequilíbrio entre a demanda e a oferta, o que provocaria um grande aumento do preço dos combustíveis fósseis.
De fato, a produção convencional de petróleo cru atingiu seu pico em algo como 75 milhões de barris dia, por volta do ano 2005, exatamente 50 anos depois das previsões de Hubbert. O que tem crescido nos últimos anos é a extração do petróleo não convencional, como o gás de xisto, as areias betuminosas e o petróleo das profundezas abissais do pré-sal. Assim mesmo, estas fontes não convencionais estão se mostrando incapazes de compensar o declínio da produção convencional. A depleção dos hidrocarbonetos parece inevitável.
Diversos estudiosos e especialistas do tema, como Gail Tverberg, estão prevendo que o Pico do Petróleo (e dos combustíveis fósseis) será atingido entre 2015 e 2020. A partir daí haverá um declínio rápido, o que poderá provocar um grande aumento do preço dos combustíveis e uma crise econômica maior do que a “estagnação secular” e de tudo que já se viu antes.
Sem energia barata e abundante, ou seja, sem os tais “escravos baratos e cheios de energia” o mundo deve passar por uma grande crise econômica e social. O PIB deve cair e o desemprego deve aumentar. Pode ser o fim do desenvolvimento como se conhece. Diversos países já passam por esta situação como os PIIGS (Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha) e diversos outros passam por crises econômicas, políticas e sociais: Tailândia, Ucrânia, Síria, Egito, Argentina, Venezuela, Turquia, etc. Para agravar a situação, o preço dos alimentos vai subir, pois grande parte da agricultura mundial é “petroficada” e não funciona sem os fertilizantes, agrotóxicos e o transporte, tudo dependente dos combustíveis fósseis.
O pico do petróleo está associado ao aumento do desemprego e do preço dos alimentos. Segundo Relatório do NECSI (New England Complex Systems Institute) publicado em 2012, há uma correlação importante entre o aumento do preço dos alimentos, calculados pela FAO (agência da ONU para a agricultura) e a ocorrência de protestos em todo o mundo. Sempre que o índice da FAO sobe, ocorrem mais manifestações. Crise econômica e crise ambiental, numa situação de enorme desigualdade social, pode ser um fator novo como nunca se viu nos últimos 200 anos. Pode crescer as revoltas populares e não é improvável imaginar uma situação de “canibalismo social”, desafiando as regras da civilização piramidal hierárquica.


Assim, o sonho do progresso civilizatório dos cornucopianos pode se transformar em colapso e no pesadelo do fim da civilização dos combustíveis fósseis e do consumo ostentatório. Esta situação atinge os regimes capitalista e socialista, ou seja, o modelo de sociedade urbana-industrial, independentemente de quem são os proprietários dos meios de produção. Poderá ser o fim do desenvolvimento econômico, em suas formas liberal ou estatal.
A entropia, ou degradação de energia, já havia sido prevista pelo economista romeno Nicholas Georgescu-Roegen, que nos anos de 1970, mostrou que a economia não pode ignorar a 2ª Lei da Termodinâmica. Uma mesma fonte de energia não pode ser queimada duas vezes, muito menos ad infinitum. Antes do crescimento da civilização do Homo Sapiens, ocorria a retenção da energia mais rapidamente do que a sua dissipação. Atualmente, a sinergia está sendo substituída pela entropia. Georgescu-Roegen mostrou que, em algum momento, a escala da economia teria que ser reduzida, tanto em termos de capital, quanto de força de trabalho. Ou seja, ele mostrou que a alternativa para o declínio da civilização e a possível catástrofe econômica e ambiental seria o decrescimento das atividades antrópicas, quanto mais cedo melhor.
Mas parece que a humanidade ainda não acordou do sonho de grandeza e, provavelmente, terá que pagar um alto preço por ignorar uma verdade muito simples: que não pode haver crescimento infinito em um planeta finito, com recursos naturais escassos e com declínio da exergia (energia disponível). O ajuste entre o consumo humano e a biocapacidade do Planeta deve ocorrer, mais cedo ou mais tarde, e quem se preparar melhor poderá sofrer menos com o fim da civilização dos combustíveis fósseis.

Referências:
Gail Tverberg – A Forecast of Our Energy Future; Why Common Solutions Don’t Work, 29/01/2014

Nicholas Georgescu-Roegen, O decrescimento: Entropia – Ecologia – Economia. Editora Senac, SP, 2013.
Dave Lindorff. Growth is the Enemy of Humankind. 17/01/2013

Why The American Empire Was Destined To Collapse, Nomi Prins Interviews Morris Berman, March 9, 2012

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ALVES, JDE. Estagnação secular, fim dos emergentes e armadilha da renda média, EcoDebate, RJ, 17/01/2014

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NECSI – The Food Crises, New England Complex Systems Institute: http://necsi.edu/

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Lars Boelen. PeakOil, end of story? 22/03/2014

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José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, Doutor em demografia e professor titular do mestrado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br
EcoDebate, 02/04/2014