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sexta-feira, 14 de agosto de 2015

CLIMA E CONFLITOS ARMADOS: COMO UMA SECA HISTÓRICA AJUDOU NA CONSOLIDAÇÃO DO ESTADO ISLÂMICO

Tanque do exército sírio destruído na cidade de Azaz, ao norte de Aleppo (foto: Christiaan Triebert/Flickr)
Tanque do exército sírio destruído na cidade de Azaz, ao norte de Aleppo (foto: Christiaan Triebert/Flickr)
Por Bruno Toledo
No tabuleiro estratégico do Oriente Médio atual, uma das peças mais recentes – e violentas – do ‘jogo geopolítico’ é o autointitulado Estado Islâmico (EI), um grupo jihadista salafista liderado por fundamentalistas islâmicos sunitas, que ocupa vastos territórios ao longo da fronteira entre o Iraque e a Síria, e que “governa” diretamente quase dez milhões de pessoas. Desde o começo de 2014, o EI vem ganhando terreno, aproveitando o vácuo de poder resultante do sangrento confronto civil que destrói a Síria desde 2011 e as dificuldades do governo iraquiano pós-ocupação norte-americana (2003-2012) em garantir controle sobre o seu próprio território.
Caracterizado pela extrema violência empregada na sua luta pela construção de um “califado global”, o EI é considerado uma das principais ameaças à segurança internacional, em especial nos Estados Unidos, na Europa e na África muçulmana. Grupos na Nigéria (em particular, o famigerado Boko Haram) e na Líbia se alinharam ao EI, expandindo sua influência efetiva para além dos territórios diretamente ocupados. Além disso, o EI tem avançado bastante na abordagem e cooptação de muçulmanos descontentes na Europa e nos EUA, particularmente os mais jovens, que acabam atraídos pela rigidez e pelos propósitos “grandiosos” do grupo junto ao Islã.
Em cinza, os territórios sob controle do Estado Islâmico na Síria e no Iraque, em meados de julho de 2015 (Wikimedia Commons)
Em cinza, os territórios sob controle do Estado Islâmico na Síria e no Iraque, em meados de julho de 2015 (Wikimedia Commons)
Os fatores que explicam a emergência desse grupo são complexos e ainda não existem teorias consolidadas que respondam a todas as perguntas sobre o surgimento, o crescimento e a consolidação recente do Estado Islâmico no Iraque e na Síria. Alguns motivos diretos são mais claros: o caos sírio resultante da guerra civil que se arrasta no país há quase cinco anos, que abriu espaço para a proliferação de grupos armados de diferentes matizes e motivações; e os desentendimentos históricos entre sunitas (minoria) e xiitas (maioria) no Iraque, catalisados pelas cicatrizes do regime sunita de Saddam Hussein (1979-2003) e pela falta de tato dos governos de maioria xiita que sucederam à administração provisória dos EUA no país, a partir de 2004. Junto com a violência decorrente das guerras locais, a situação securitária dramática desses países também piorou com as consequências econômicas de tais conflitos. Para alguns especialistas, os problemas econômicos vividos por essas populações (e o fracasso dos estados sírio e iraquiano em solucionar estes problemas) explicam em grande parte a grande aceitação que o EI possui nas comunidades sunitas.
No entanto, junto os problemas econômicos decorrente do conflito, um fator que pode nos ajudar a entender o cenário dramático que levou ao crescimento exponencial do EI nos últimos anos está distante das armas ou do petróleo que abundam na região: as mudanças climáticas. Ou melhor, a ocorrência de eventos climáticos extremos na região, que nos últimos anos reduziram dramaticamente a disponibilidade de água, um bem natural crucial numa região desértica como a do Iraque e da Síria.
Charles Strozier, professor de história da The City University of New York, e Kelly Berkell, pesquisadora do Center on Terrorism da John Jay College of Criminal Justice, foram os primeiros a destrinchar a relação entre clima e o crescimento massivo do Estado Islâmico nos últimos anos. Em artigopublicado em setembro passado no The Huffington Post, Strozier e Berkell lembram que a situação econômica na Síria começou a declinar a partir de 2006, com o começo de uma seca histórica que perdurou até meados de 2010. Na ocasião, a resposta do governo de Bashar Al-Asad foi bastante limitada, o que serviu para alimentar os primeiros descontentamentos.
Vista área do campo de refugiados sírios de Za'atri, na Jordânia (U.S. Department of State/Flickr)
Vista área do campo de refugiados sírios de Za’atri, na Jordânia (foto: U.S. Department of State/Flickr)
De acordo com eles, a seca que precedeu o conflito armado na Síria se insere num padrão recente de estiagem persistente observado por cientistas do clima no Oriente Médio nas últimas décadas. Apenas na Síria, mais de 60% de seu território foi diretamente afetado, em especial o nordeste, principal região produtora de alimentos no país. Consequentemente, mais de 800 mil agricultores tiveram perdas consideráveis de safra entre 2006 e 2010, colocando em risco a segurança alimentar de mais de três milhões de pessoas que acabaram jogadas na extrema pobreza. Muitas famílias procuraram refúgio em torno de cidades como Aleppo, Damasco, Hama, Homs e Daraa – foi nesta última cidade que as tensões civis eclodiram na Síria, no começo de 2011, exatamente por causa do desabastecimento de água para a população. A resposta violenta do governo Assad a estes primeiros protestos conduziram o país para a espiral de destruição que resultou na guerra civil que ainda aflige a Síria.
No Iraque, a trajetória foi bastante similar. Durante a grande seca de 2006-2010, o país viveu o auge da insurgência contra as tropas norte-americanas e o governo iraquiano. Aproveitando as dificuldades enfrentadas por Washington e Bagdá em absorver os impactos dessa seca ao longo da fronteira ocidental do país, diversas facções insurgentes ganharam terreno e jogaram o país numa guerra civil violenta. A estabilização política veio apenas em meados de 2010, junto com as chuvas na região afetada pela seca. No entanto, o pacto político entre sunitas e xiitas não resistiu à retirada dos Estados Unidos no país, completada em 2012. Com a ruína desse pacto, o Estado Islâmico ganhou terreno junto às comunidades sunitas que desconfiavam do governo central liderado por xiitas. Ao ganhar terreno, uma das primeiras preocupações do EI foi assegurar o controle sobre os recursos hídricos das regiões ocupadas, junto com os valiosíssimos poços petrolíferos.
Para Frank Femia, do think tank norte-americano Center for Climate and Security, o avanço do Estado Islâmico no Iraque e na Síria nos dá indícios sobre o papel difuso das mudanças climáticas como fator para a ocorrência ou acirramento de conflitos armados. Em entrevista ao portalSlate em junho do ano passado, Femia reconhece que a escassez de recursos naturais na região torna as coisas ainda piores. “Organizações terroristas podem tentar controlar estes recursos e ganhar influência e poder. Você não pode dizer que as mudanças climáticas estão causando o EI, mas elas certamente possuem um papel na região”.
A mesma matéria da Slate aponta para um estudo publicado na revista científica Science em 2013 que aponta uma correlação forte entre altas temperaturas e instabilidade política (como guerras civis, revoltas, violência étnica), ainda que não cite uma razão que explique essa conexão. Umestudo anterior já tinha associado desidratação com desempenho cognitivo reduzido e altos índices de ansiedade.
De acordo com o relatório Global Risks 2015, lançado pelo Fórum Econômico Mundial em seu encontro mais recente, a falta de água é o maior fator de desestabilização global atual se considerarmos o tamanho do impacto, e o 8º em termos de probabilidade. Seu impacto pode ser maior do que o da disseminação de doenças infecciosas (como o vírus ebola) e das armas de destruição em massa, explica Regina Scharf empost publicado em fevereiro passado.
Fuzileiros navais norte-americanos carregando caixas com garrafas de água para assistência humanitária durante a Operação Sweeney, na península de Al Faw, no Iraque (foto: U.S. Navy/Wikimedia Commons)
Fuzileiros navais norte-americanos carregando caixas com garrafas de água para assistência humanitária durante a Operação Sweeney, na península de Al Faw, no Iraque (foto: U.S. Navy/Wikimedia Commons)
Para os especialistas em segurança, a questão climática já não é mais alheia às análises sobre cenários e perspectivas de conflito armado ao redor do mundo. Um relatório do Departamento de Defesa dos EUA publicado no ano passado já lista os impactos das mudanças climáticas como “ameaças multiplicadoras” à segurança internacional.
Para o Pentágono, esses impactos climáticos podem aumentar a frequência, a escala e a complexidade de missões militares futuras. Nesse contexto, o governo norte-americano considera que as mudanças climáticas, associadas a outras dinâmicas globais, podem exacerbar a escassez de água e aumentar os preços dos alimentos em regiões já críticas, agravando a situação alimentar, a pobreza, a degradação ambiental, e tensões políticas e sociais – ingredientes mais do que perfeitos para alimentar formas de violência, em particular, o terrorismo.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

“Não aceito a legitimação racial do Estado de Israel”

“Não aceito a legitimação racial do Estado de Israel”



O escritor israelense Shlomo Sand faz duras críticas a seu país e explica os conceitos que baseiam o livro "Como deixei de ser judeu"

por Leneide Duarte-Plon — publicado 28/11/2014
De Paris
Historiador e professor da Universidade de Tel Aviv, o escritor Shlomo Sand se define como um "judeu laico e ateu". Mas isso é possível? Por julgar que não, ele escreveu o livro Comment j’ai cessé d’être juif (Como deixei de ser judeu), publicado este ano em francês. No livro, que será lançado em português pela editora Benvirá, Sand escreve que tem consciência "de viver numa das sociedades mais racistas do mundo ocidental, na qual o racismo está presente nas leis, nas escolas, na mídia".
Segundo Shlomo Sand, o barril de pólvora prestes a explodir não vai conhecer a paz "enquanto não houver uma verdadeira pressão internacional sobre o Estado de Israel". "Para salvar Israel de si mesmo, o mundo deve acordar, sobretudo os Estados Unidos", diz.
Nesta entrevista, feita por telefone na França, onde se encontrava de passagem, ele diz que Hitler venceu a guerra ideológica pois, exatamente como os nazistas, "os sionistas consideram a identidade judaica como algo à parte, uma etnia e mesmo às vezes com bases raciais". Diz que algo tribal, racista venceu "porque os sionistas definem o Estado israelense não como o Estado de todos os cidadãos, mas dos cidadãos judeus". E informa: "Na Universidade de Tel Aviv há laboratórios que pesquisam desesperadamente o DNA judeu para provar que os judeus são um povo-raça", diz.
CartaCapital: Depois de escrever dois best-sellers sobre a invenção do "povo judeu" e da "terra de Israel", o senhor lançou este ano na França Comment j’ai cessé d’être juif. É possível deixar de ser judeu e por que o senhor não quer continuar a sê-lo?
Shlomo Sand: Aos olhos do antissemita não se deixa de ser judeu porque para ele isso é uma coisa racial, da essência da pessoa e não se pode deixar de pertencer a uma raça. Aos olhos do sionista é a mesma coisa. Recebi muitas cartas de sionistas que me diziam ser impossível, já que a visão deles é essencialista, ser judeu está no sangue. Penso que ser judeu na História é ser um crente muito, muito especial. O Judaísmo é a mãe dos monoteísmos, é uma religião muito importante, que deu origem a dois outros monoteísmos, o cristianismo e o islã. Mas como venho da segunda geração de ateus laicos me perguntei sempre "Por que sou judeu?. "Sou realmente judeu?". Escrevi o livro por duas razões.

CCC: Quais?
SS: Vivo num Estado que se define como "Estado Judaico". Ora, um quarto da população não é considerada judia e não pode tornar-se judia, senão pela conversão. Como sou um cidadão de um Estado que se define como judaico, sou um cidadão privilegiado porque o Estado não pertence aos seus cidadãos árabes nem cristãos. Como minhas origens são judaicas, isto é, sou descendente de pessoas que sofreram muito tempo essa política segregacionista que perseguiu os judeus, não quero ser judeu num Estado Judaico. Se esse Estado fosse de todos os cidadãos israelenses, não teria escrito esse livro.

A segunda razão é que penso que a identidade judaica laica é vazia, não tem um peso cultural, linguístico, etc. Os judeus laicos no mundo não falam a mesma língua, não comem os mesmos alimentos, não ouvem as mesmas músicas. Woody Allen não sabe o que é a música israelense de hoje, não sabe o que se come em Israel, não pode falar minha língua. Queria compreender o que é um judeu laico excluindo a memória. Sempre me defini como judeu dizendo que enquanto houvesse um antissemita no mundo eu seria judeu. Mas parei de me definir assim. Pode-se virar cristão, virar judeu religioso, virar socialista, brasileiro, ou francês, mas como virar judeu laico? Existe uma forma de se virar judeu laico sem ter nascido de mãe judia? No momento em que compreendi que faço parte de um clube exclusivo que não pode receber novos membros, decidi que não quero pertencer a um clube exclusivo em pleno século XXI.
CC: Em Israel, a menção "judeu" vem inscrita na carteira de identidade. O senhor escreve: "Em Israel e no estrangeiro, os sionistas do início do século XXI rejeitam o princípio da nacionalidade israelense para somente admitir uma nacionalidade, a judia". Um pouco depois: “Cada vez mais, tenho a impressão de que sob certos aspectos Hitler saiu vitorioso da Segunda Guerra Mundial". Pode explicar?
SS: Hitler ganhou a guerra ideológica, de certo modo. Ele tinha decidido que os alemães judeus não eram alemães, que eram uma raça à parte, uma etnia à parte, um povo à parte. O alemão judeu não estava de acordo com isso, sentia-se alemão, era um cidadão alemão, tinha uma nacionalidade alemã. E por que Hitler ganhou ideologicamente? Porque os sionistas consideram a identidade judaica como algo à parte, uma etnia e mesmo às vezes com bases raciais. Na universidade de Tel Aviv, onde trabalho, há laboratórios que pesquisam desesperadamente o DNA judeu para provar que os judeus são um povo-raça que partiu há dois mil anos da terra que se chama Israel, passando por Moscou e fazendo outros percursos até retornar à Palestina. Digo que algo tribal, racista, ganhou porque os sionistas definem o Estado israelense não como o Estado de seus cidadãos mas dos cidadãos judeus. Não discuto a existência de Israel, discuto a identidade etnocêntrica da política israelense.

CC: O senhor se diz laico e ateu. Como é possível isso num país que se define como um Estado Judaico, construído a partir da história de um povo que crê numa religião revelada e no destino de povo eleito de Deus?
SS: Não é possível e por isso me sinto mal em Israel. Queria mudar toda a cultura política israelense. Queria “dessionizar” o Estado de Israel. Digo no meu livro que o Estado de Israel não consegue definir quem é judeu por critérios laicos. Eles têm dois modos de definir quem é judeu: pela biologia, pela genética, ou pela religião. Pelos critérios religiosos, um judeu é alguém que se converteu à fé judaica ou quem nasceu de mãe judia. E o Estado pertence somente a essas pessoas. Assim sendo, um judeu brasileiro que mora em São Paulo pode ser cidadão de Israel. Mas Israel não é o Estado de meus alunos árabes que trabalham comigo na Universidade de Tel Aviv. Se Israel vai continuar a manter uma identidade etnocêntrica semi-religiosa com uma visão muito profunda das raças e com uma visão profunda de povo escolhido, penso que não preciso ser profeta para dizer que isso vai destruir Israel. Não há futuro para um Estado assim.

CC: O senhor considera que Israel, fundado dentro dos princípios da religião que reconhece um “povo judeu” e o vê como “povo eleito” de Deus, é um Estado teocrático?
SS: Não, porque não é a verdadeira fé em Deus que está no centro da política. São os nacionalistas que se utilizam da religião. O princípio do Estado é etno-religioso mas não é a religião que está no centro. As elites laicas têm necessidade da religião para se afirmar e por isso Israel se torna cada vez mais um Estado etnocrático.

CC: Os judeus franceses são intransigentes com os negacionistas que negam a existência dos fornos crematórios e o genocídio judeu. Em Israel, nega-se a Nakba, a expulsão e o massacre dos palestinos pelos sionistas, em 1948. Esses dois negacionismos têm pontos em comum?
SS: Não, o primeiro era um projeto de eliminação do outro e no projeto colonialista judaico o objetivo era de empurrar o outro para longe. Em 1948, houve massacres mas não eram uma característica da colonização sionista. O projeto do nazismo era eliminar o outro, não apenas expulsá-lo. Negar o sofrimento dos judeus durante a Segunda Guerra mundial na Europa é condenável mas negar a Nakba é também condenável, mesmo se são realidades diferentes. Meu dever hoje é lutar contra o esquecimento da Nakba. Com esse ocultamento, não se pode construir a paz.

CC: O Estado da Palestina, reconhecido por 135 países entre os 193 que fazem parte da ONU, é ainda viável? Por que Israel não quer um Estado palestino nas fronteiras estabelecidas pela ONU em 29 de novembro de 1947?
SS: O Estado de Israel é reconhecido com suas fronteiras de antes da guerra de 1967. Eu também reconheço a existência desse Estado com as fronteiras de 1967. Se um Estado palestino ao lado de Israel é ainda viável, não sei. Mas não vejo outra solução. Moralmente, como não sou nacionalista, desejaria a solução de um Estado para as duas identidades. Mas como não creio que isso é realizável, defendo a solução de dois Estados com as fronteiras de 1967. Mas não creio que em Israel se possa realizar isso porque a inércia no sionismo é a colonização. O sionismo nunca parou a colonização do fim do século XIX até hoje. Mesmo entre 1948 e 1967 havia uma colonização sionista em Israel. Tomaram as terras de palestinos israelenses e deram aos judeus israelenses. Por que Israel não aceita um Estado palestino? Porque os sionistas pensam que o centro desse Estado é o centro da antiga "pátria dos judeus", Hebron e Jericó. Esse é o centro do imaginário bíblico que teria sido a pátria dos judeus. Para muitos, sobretudo para as elites políticas e intelectuais, renunciar a isso é muito difícil. Enquanto não houver uma verdadeira pressão internacional sobre o Estado de Israel, não haverá paz. Para salvar Israel de si mesmo o mundo deve acordar, sobretudo os Estados Unidos. Eles podem pedir que Israel respeite o direito dos palestinos, saia dos territórios ocupados e favoreça a criação do Estado palestino. Em Israel, não vejo um movimento político capaz de realizar esse projeto.

CC: O senhor pensa que o movimento pelo boicote (BDS) a Israel, criado por Noam Chomsky, Desmond Tutu, Stéphane Hessel, Ken Loach, entre outros, pode ser eficaz para lutar contra a segregação e o apartheid dos palestinos em Israel?
SS: Aceito hoje em dia qualquer pressão sobre Israel, menos o terrorismo.

CC: O escritor Amos Oz denunciou este ano os “neonazistas hebreus”, como ele chama os extremistas judeus que realizaram uma onda de atentados racistas contra os cristãos e os muçulmanos. O que o senhor pensa da expressão?
SS : Como nunca comparei o sionismo ao nazismo, não comparo os extremistas sionistas aos nazistas porque não é comparável e isso é importante. Enquanto não existe um projeto de genocídio, nada pode ser comparado ao nazismo. Os extremistas racistas me enojam, mas na história não somente os nazistas foram racistas. Tenho certeza de que no Brasil há racistas, sempre houve racistas que não queriam viver com os negros ou com os índios e não são comparáveis aos nazistas. Não se pode comparar o extremista sionista execrável aos nazistas.

CC: Os israelenses gostam de escrever que Israel é a única democracia do Oriente Médio. O que o senhor pensa disso? O senhor escreve que gostaria de "tornar compatíveis as leis constitucionais de Israel com os princípios democráticos".
SS: Existe um jogo liberal em Israel, por isso o definiria não como uma democracia mas como uma etnocracia liberal. Israel não poderia nem mesmo adotar os princípios da monarquia britânica, nem os da democracia brasileira porque não há igualdade de todos os seus cidadãos. Não acredito que existam democracias perfeitas. Mas há Estados mais democráticos que outros. A democracia não é somente uma certa liberdade de expressão, liberdade dos partidos políticos. Antes de tudo, uma democracia é um Estado de todos os seus cidadãos. Um Estado democrático não pode pertencer a uma parte de seus cidadãos. E como Israel se define como um Estado judaico e não como um Estado israelense, não pode ser democrático. E como o poder israelense procura o bem dos judeus e não o dos israelenses, ele não pode ser considerado democrático. Um quarto da população não é parte integrante desse Estado. O Estado deve ser um lugar de identificação, deve servir a todos os cidadãos. Por outro lado, de forma relativa, Israel é um país liberal. O fato que eu possa ser professor da Universidade de Tel Aviv com minhas ideias mostra que o Estado é pluralista e liberal. Não podem me demitir.

CC: Como seu livro foi recebido em Israel?
SS : Relativamente bem, não foi um best-seller como os outros dois sobre a invenção do povo judeu e a invenção da terra de Israel, mas foi bem. A Universidade de Tel Aviv fez um grande debate sobre o livro. E o subtítulo era claro: “Como deixei de ser judeu, aos olhos dos israelenses”. Isso porque não aceito a legitimação etnocrática e racial desse Estado.

CC: Sua posição tem consequências políticas ou práticas?
SS : Eu sou circuncidado, não posso mudar isso. Nunca me senti judeu, era israelense de origem judaica. Mas não conseguia compreender isso por causa do antissemitismo no mundo. Hoje, acho que o mundo ocidental é mil vezes menos antissemita que antes. Ora, o mundo ocidental apoia um Estado etnocrático no Oriente Médio e eu quero que isso mude, que o mundo possa apoiar duas repúblicas, uma palestina e uma israelense, para fazer um acordo histórico com o povo que empurraram para o Oriente Médio.

CC: Já que se fala de circuncisão, o que o senhor pensa de se mutilar o corpo de uma criança com argumentos religiosos?
SS: Não sou contra a circuncisão com uma condição: que seja decidida por uma pessoa adulta para ela mesma, a partir de 18 anos. Mas sou contra realizá-la em seres humanos que não decidiram nada.
Fonte: http://www.cartacapital.com.br/internacional/201cnao-aceito-a-legitimacao-etnocratica-e-racial-do-estado-de-israel201d-8478.html

terça-feira, 4 de novembro de 2014

“Meu objetivo é o Estado palestino”, diz nova chefe da diplomacia europeia

“Meu objetivo é o Estado palestino”, diz nova chefe da diplomacia europeia



Ex-ministra italiana quer estrear no posto com uma viagem ao Oriente Médio



A alta representante da UE para Assuntos Exteriores, Federica Mogherini. / A. PIZZOLI (AFP)

A primeira mudança adotada pelanova chefe da diplomacia europeia, Federica Mogherini, ao tomar posse do cargo, foi transferir seu gabinete do Serviço Europeu para a Ação Externa, mais representativo dos países-membros, para a Comissão Europeia, o braço executivo da União Europeia (UE). Apesar dos poucos metros que separam os dois edifícios em Bruxelas, a decisão é simbólica: Mogherini quer que a política externa europeia deixe de ser uma cacofonia de 28 vozes para confluir em uma só voz. Como ex-ministra de Relações Exteriores da Itália, ela sabe que a tarefa não será simples.
Ciente de que forjar essa voz europeia requer uma boa dose de projeção pública, Mogherini assumiu o cargo na segunda-feira já dando uma longa entrevista a seis jornais europeus, entre eles o EL PAÍS. “É a primeira coisa que estou fazendo hoje”, explicou, em seu novo escritório, que, por enquanto, é enfeitado apenas por um buquê de flores. Toda a equipe da Comissão Europeia liderada por Jean-Claude Juncker tomou posse no sábado, inclusive a alta representante, uma figura a meio caminho entre o Executivo europeu e cada país-membro.
A nova chefe da diplomacia acredita que pode fazer uma diferença na política europeia em relação ao Oriente Médio. Sem se referir a suaantecessora, Catherine Ashton, Mogherini transmite uma vontade de reformular completamente o perfil de seu cargo. “Pela primeira vez, sinto que há uma necessidade de que a União Europeia se faça presente na região, para que haja avanços. Talvez não tenha sido assim no passado, mas a política exterior europeia tem ali um enorme potencial, e esta é uma das questões na qual pode ser fácil falar com uma só voz”.
Os sucessivos fracassos obtidos pelas políticas de paz na região levaram alguns países a transcender as diretrizes do bloco europeu. Na semana passada, a Suécia se tornou a primeira nação da União Europeia a reconhecer a Palestina como Estado. Poucos dias antes, oParlamento britânico e o Senado irlandês haviam pedido o mesmo a seus primeiros-ministros. Mogherini não esconde suas preferências, mas minimiza o gesto de reconhecimento. Perguntada sobre se aspira chegar a esse reconhecimento nos seus cinco anos de mandato, responde: “Meu objetivo é ter um Estado palestino”.
Para ilustrar sua ideia, utiliza a metáfora do dedo apontado para a Lua: é possível contemplar o dedo, mas o importante é dirigir o olhar para a Lua. “O importante não é quantos Estados reconhecerão a Palestina nos próximos anos, mas sim se teremos um Estado palestino dentro de cinco anos. Tudo o que puder ser útil para atingir esse objetivo ajuda, mas o que temos que nos perguntar é como chegar à Lua”. Esta social-democrata italiana, que defendeu uma tese sobre a relação entre política e religião no Islã, reconhece um certo esgotamento da opinião pública europeia por causa da falta de avanços no Oriente Médio. A UE é o principal doador na região, mas sua influência é limitada. “Pode haver uma sensação de frustração entre os contribuintes europeus, especialmente em tempos de crise. Não se pode ser contribuinte sem ser um ator político”, admite.
O novo rosto da política exterior europeia responde com segurança e desenvoltura às perguntas feitas durante uma hora e meia pelos jornais The Guardian (Reino Unido), Süddeutsche Zeitung (Alemanha), Le Monde (França), La Stampa (Itália), Gazeta Wyborcza (Polônia) y EL PAÍS. Sem documentos à mão, recorre a um sorriso quando percebe algum apuro em suas respostas e espanta o ceticismo sobre as conquistas que pode alcançar, proclamando: “Sou uma otimista”.
Para não minar esse otimismo, ela contorna uma pergunta mais direta sobre a ameaça representada pelo Estado Islâmico no Oriente Médio e opta por enquadrá-la na situação geral vivida pela região, “provavelmente a mais difícil já enfrentada, se levarmos em conta o que está acontecendo na Síria, no Iraque, no Líbano, no Egito, na Líbia...”. No entanto, reconhece que a ofensiva do Estado Islâmico marca um antes e um depois no mundo árabe.
Ainda que sua primeira viagem como representante europeia a leve a Tel Aviv, Jerusalém, Gaza e Ramallah durante pouco mais de dois dias, Mogherini situa no mesmo patamar de importância a crise entre Rússia e Ucrânia. É nessas duas regiões que ela coloca as prioridades de seu mandato, para o qual foi insistentemente incentivada pelo primeiro-ministro italiano, Matteo Renzi, que em fevereiro deste ano a nomeou como titular da pasta de Relações Exteriores e em agosto conseguiu o aval dos Estados-membros a seu posto no bloco, apesar da resistência de alguns deles.
As primeiras críticas aludiam a sua relativa pouca idade (tem 41 anos, mas acumula uma longa experiência em políticas relacionadas com a União Europeia). Mas foi justamente sua atitude morna em relação à Rússia que lhe trouxe numerosas inimizades no Leste europeu, muito fortalecido na distribuição de cargos europeus na atual legislatura. Juntamente com a Espanha, a Itália foi o país mais relutante em punir Moscou economicamente por seu papel no conflito na Ucrânia.
A nova chefe da diplomacia europeia tem tentado reverter essa imagem desde que foi eleita para conduzir a diplomacia europeia, e agora admite que a atuação do presidente russo, Vladimir Putin, coloca em perigo os frágeis acordos políticos conquistados em 5 de setembro, que propiciaram umatrégua imperfeita no leste da Ucrânia. “Apesar de a Rússia ter falado apenas de respeito às chamadas eleições [realizadas pelos separatistas no leste ucraniano], não é um sinal muito animador. Não estamos com uma venda nos olhos. Pode haver consequências políticas nas próximas semanas. Teremos que avaliar a situação com os ministros de Exterior dos países-membros”, reconhece, referindo-se à validade que a Europa outorga aos acordos firmados entre russos e ucranianos em Minsk (Belarus).
Ainda assim, ela pede para que o processo não seja dado como enterrado. “Ainda acredito que haja vontade política suficiente. Pelo menos no lado ucraniano. E temos que ver se também há no lado russo”. Para isso, a alta representante afirma que, nos próximos dias, tentará entrar em contato com Putin, cuja principal – e quase única – interlocutora neste conflito tem sido a chanceler alemã, Angela Merkel. Sobre a maior punição imposta pela UE à Rússia, as sanções econômicas aplicadas desde julho, a italiana prefere não dar muitas pistas: elas poderão ser mantidas, relaxadas ou endurecidas em função do que ocorrer na região.
Nenhum dos dossiês que a alta representante receberá em sua mesa será simples, mesmo o que implica tratar com os Estados Unidos, “o parceiro mais relevante da UE”. Mogherini vai supervisionar o acordo de livre comércio que Bruxelas está negociando há meses com Washington, com uma crescente oposição nas opiniões públicas de ambos os lados. “Assinar esse acordo é fundamental, por motivos políticos e econômicos”, diz a alta representante, que confia em ver o acordo ratificado pelo Governo de Barack Obama. 

O duro desafio da imigração

​LUCÍA ABELLÁN | BRUXELAS
A imigração é um dos desafios que está colocando os líderes europeus contra a parede: se a abordam sem preconceitos, correm o risco de serem rejeitados pela opinião pública; se negligenciam os países mais desfavorecidos, o problema pode se tornar cada vez maior. Federica Mogherini sabe que os movimentos migratórios têm implicações para a política de fronteiras, mas insiste em oferecer outra abordagem: “A longo prazo, são necessárias políticas de desenvolvimento; ou você consegue que os habitantes desses países tenham uma vida sustentável ou sempre será preciso fazer frente a grandes fluxos de imigrantes, por motivos econômicos ou de direitos humanos”.
A nova alta representante para a Política Exterior europeia está ciente da experiência de seu próprio país. Após os naufrágios ocorridos perto da ilha de Lampedusa, há um ano, em que centenas de estrangeiros que tentavam chegar à Itália morreram pelo caminho, Mogherini defende mais que nunca uma gestão europeia dos fluxos migratórios. “Talvez não queiramos reconhecer que isso existe, por razões internas e de comunicação, mas então teremos que enfrentar as consequências. Vemos isso acontecer no Mediterrâneo. É melhor ir para a raiz do problema: é mais barato e mais eficaz. Temos que encontrar o tempo e a energia para fazer disso um discurso europeu”.
Mais do que falta de tempo, Mogherini encontrará resistências entre os países-membros, que por um lado estão reduzindo seus orçamentos de cooperação para economizar e, por outro, destinam mais verbas à fortificação de suas fronteiras, como a Espanha fez nos enclaves de Ceuta e Melilla, no norte da África.
Fonte: http://brasil.elpais.com/brasil/2014/11/03/internacional/1415044768_498902.html

sábado, 25 de outubro de 2014

Por que o mundo está ignorando os curdos revolucionários na Síria?

Por que o mundo está ignorando os curdos revolucionários na Síria?



por-que-o-mundo-esta-ignorando-o-1
Por David Graeber
Em 1937, meu pai se ofereceu como voluntário para lutar nas Brigadas Internacionais em defesa da República espanhola. Um possível golpe fascista havia sido detido temporariamente pela sublevação dos trabalhadores, encabeçada pelos anarquistas e socialistas, e em grande parte da Espanha uma autêntica revolução social se produziu, o que levou a cidades inteiras em autogestão democrática, indústrias sob o controle dos trabalhadores, e o fortalecimento radical das mulheres.
Os revolucionários espanhóis esperavam criar uma visão de uma sociedade livre que todo o mundo pudesse seguir. Em troca, as potencias mundiais declararam uma política de “não intervenção” e mantiveram um bloqueio rigoroso da república, inclusive depois que Hitler e Mussolini, signatários ostensivos, começaram a mandar tropas e armas para reforçar o lado fascista. O resultado foram anos de guerra civil que terminou com a derrota da revolução e alguns dos massacres mais sangrentas de um século sangrento.
Eu nunca pensei que veria, em minha própria vida, ocorrer a mesma coisa. Obviamente, nenhum acontecimento histórico sucede realmente duas vezes. Há mil diferenças entre o que ocorreu na Espanha em 1936 e o que está acontecendo em Rojava, as três províncias curdas em grande parte do norte da Síria, hoje. Mas algumas das semelhanças são tão surpreendentes, e tão angustiantes, que sinto que me incumbe, como alguém que cresceu em uma família cuja política eram em muitos aspectos definida pela revolução espanhola, dizer: Não podemos deixar que termine da mesma maneira outra vez.
A região autônoma de Rojava, tal como existe hoje em dia, é um dos poucos pontos brilhantes – na realidade um muito brilhante – que emergiram da tragédia da revolução síria. Depois de haver expulsado os agentes do regime de Assad em 2011, e apesar da hostilidade de quase todos seus vizinhos, Rojava não só mantém sua independência, mas é um notável experimento democrático. As assembleias populares foram criadas como os órgãos de tomadas de decisão em última instância, os conselhos são selecionados com um cuidadoso equilíbrio étnico (em cada município, por exemplo, os três altos oficiais tem que incluir um curdo, um árabe e outro cristão sírio ou armênio, e ao menos um dos três tem que ser uma mulher), existem conselhos juvenis e de mulheres e, em um notável eco da organização armada Mujeres Libres da Espanha, um exército feminista, a mítica “YJA Estrela” (a “União de Mulheres Livres”, a estrela faz referência à antiga deusa da mesopotâmia Ishtar), que levou a cabo uma grande parte das operações de combate contra as forças do Estado Islâmico.
Como pode ocorrer algo assim e, todavia ser quase totalmente ignorado pela comunidade internacional, incluindo, em grande parte, pela esquerda internacional? Principalmente, ao parecer, devido a que o partido revolucionário de Rojava, o PYD, trabalha em aliança com os Trabalhadores Curdos da Turquia (PKK), um movimento guerrilheiro marxista que desde os anos de 1970 esteve envolvido com uma grande guerra contra o Estado turco. A OTAN, os EUA, e a União Europeia o classificam oficialmente como uma organização “terrorista”. Enquanto isso, os esquerdistas em grande maioria os descrevem como stalinistas.
Mas na realidade, o próprio PKK já não é nada remotamente parecido com o velho partido leninista vertical que uma vez foi. Sua própria evolução interna, e a conservação intelectual do seu fundador, Abdullah Ocalan, que esteve em uma prisão em uma ilha turca desde 1999, o levou a trocar por completo seus objetivos e táticas.
O PKK declarou que já nem sequer trata de criar um estado curdo. Em seu lugar, inspirado em parte pela visão do ecólogo e anarquista Murray Bookchin, adotaram a visão de “municipalismo libertário”, chamando os curdos a criarem comunidades livres, autônomas, baseadas nos princípios da democracia direta, que logo se uniriam através de fronteiras nacionais – as quais se espera que se tornem progressivamente insignificantes. Desta forma, propuseram, a luta curda poderia se converter em um modelo para um movimento mundial até uma autêntica democracia, economia cooperativa, e a dissolução gradual da nação-estado burocrática.
Desde 2005, o PKK, inspirado na estratégia dos rebeldes zapatistas em Chiapas, declarou um alto ao fogo unilateral com o Estado turco e começou a concentrar seus esforços no desenvolvimento de estruturas democráticas e os territórios que já controlavam. Alguns questionam o quão isso é sério na realidade. Claramente permanecem elementos autoritários. Mas o que se sucedeu em Rojava, onde a revolução síria deu aos radicais curdos a oportunidade de levar a cabo tais experimentos em um grande território, ao lado, sugere que isto é qualquer coisa menos uma fachada. Conselhos, assembleias e milícias populares se formam, a propriedade do regime foi entregue às cooperativas administradas pelos trabalhadores – e tudo isso apesar dos contínuos ataques por parte das forças de extrema direita do ISIS. Os resultados cumprem com qualquer definição de uma revolução social. No Oriente Médio, pelo menos, estes esforços se fazem notar: Sobretudo depois que as forças do PKK e Rojava interviram para abrir-se exitosamente um caminho através do território do ISIS no Iraque para resgatar os milhares de refugiados yezidis presos no Monte Sinjar depois que os peshmerga locais fugiram do campo. Estas ações foram amplamente celebradas na região, mas notavelmente quase não chamou a atenção da imprensa europeia e estadunidense.
Agora, o ISIS voltou, com dezenas de tanques de fabricação estadunidense e artilharia pesada tomadas das forças iraquianas, para se vingarem contra muitas dessas mesmas milícias revolucionárias em Kobané, declarando sua intenção de massacrar e escravizar – sim, literalmente escravizar – toda a população civil. Enquanto isso, o exército turco está na fronteira evitando que reforços ou munições cheguem aos defensores, e os aviões estadunidenses passam por cima zombando, lançando alguns ocasionais, simbólicos e diminutos bombardeios – ao parecer, só para poder dizer que não é certo que não fizeram nada como um grupo que diz estar em guerra com os defensores de um dos grandes experimentos democráticos do mundo.
Se há um paralelo hoje com os superficiais devotos, falangistas assassinos de Franco, quem seriam senão ISIS? Se há um paralelo com as Mujeres Libres da Espanha, quem poderiam ser senão as mulheres valentes que defendem as barricadas em Kobané? O mundo – e mais escandalosamente, a esquerda internacional – será realmente cúmplice de deixar que a história se repita?
Tradução > Geapi

sábado, 11 de outubro de 2014

7 coisas que você precisa entender sobre o Estado Islâmico

7 coisas que você precisa entender sobre o Estado Islâmico



Em 2014, avalanche de notícias ruins chegou ao ápice quando vídeos que mostram a violência explícita do grupo radical muçulmano foram divulgados na internet


Combatentes do Estado Islâmico em parada militar em Raqqa, no norte da Síria
Estado Islâmico: para entender situação no Oriente Médio, é importante conhecer o grupo
São Paulo - Desde que os Estados Unidos invadiram o Iraque, em 2003, os conflitos no Oriente Médio têm aparecido na mídia com mais frequência.
Por anos, o ocidente ouviu todo tipo de relato, principalmente os mais atrozes, como invasões, terrorismoe morte de civis.
Em 2014, a avalanche de notícias ruins chegou ao seu ápice quando vídeos que mostram a violência explícita de um grupo radical muçulmano foram divulgados na internet.
Para entender a situação no Oriente Médio, é importante conhecer melhor o Estado Islâmico. É aqui que a gente entra.
Confira sete informações básicas sobre o tema a seguir:

1. Sunitas e Xiitas

A história é antiga, do início do século VII. Quando morreu o profeta Maomé, fundador do islamismo e responsável pelo Alcorão, começou uma disputa política para ver quem ocuparia a posição de principal líder da cultura islã.
Quem reivindicava o cargo era Ali, genro de Maomé. Mas o povo o achava jovem e inexperiente demais para o cargo.
Quem acabou escolhido pela maioria dos muçulmanos foi Abu Bakr, que era amigo do profeta.
A discordância foi a origem de uma divisão na população islâmica. Mas, por um tempo, ficou tudo bem. Depois de Abu, outros dois líderes foram aclamados como chefes supremos e governaram em paz.
Mas, em 656, o califa Uhtman foi assassinado por um grupo rebelde, o que abriu espaço para que Ali finalmente se tornasse o novo governante. Nesse ponto, a tensão entre os dois grupos já era enorme e o califa acabou morto cinco anos depois, por um opositor.
Além dessa desavença política, questões religiosas também separam os grupos. Aqueles que seguem rigidamente as antigas interpretações do Alcorão e da lei islâmica, a Sharia, são os xiitas.
Eles defendem, por exemplo, que os califas só podem vir da árvore genealógica de Maomé. Apesar de serem minoria em outros lugares, são parte significativa do Iraque e do Irã, por exemplo.
Já os sunitas, que correspondem a cerca de 90% da comunidade islâmica do mundo, divergem dos xiitas com relação ao tipo de sucessão do profeta e adotam uma fonte de conhecimento diferente: o livro de Suna.
Nele são contados os grandes feitos de Maomé e, por essa natureza, os sunitas tendem a ser mais abertos às transformações.
O Estado Islâmico veio do povo sunita, apesar de carregar consigo uma aura de violência que não é característica dele.

2. As guerras no Iraque

AFP/Getty Images / Joe Raedle
Soldados americanos andam em fila no Iraque










Tudo começou quando os Estados Unidos invadiram o Iraque, em 2003, sob o pretexto de combater o terrorismo.
A ocupação não foi nem um pouco pacífica e o país norte-americano enfrentou uma grande resistência de diversos grupos militares iraquianos.
Destes, um dos que mais se destacou foi o Jama’at al-Tawhid wal-Jihaduma, que existia desde 1999 e era liderado pelo jordaniano Abu Musab al-Zarqawi.
Ele foi o responsável por comandar diversos ataques às forças de coalizão e promover as ações suicidas contra civis iraquianos.
Demorou apenas um ano para que ele firmasse aliança com Osama Bin Laden, mudando o nome do grupo para Tanzim Qaidat al-Jihad fi Bilad al-Rafidayn, ou, como é mais conhecido, Al Qaeda no Iraque.
Nos dois anos seguintes, o grupo se fundiu com outros menores e buscou evitar os erros cometidos pela facção principal da Al Qaeda. Isso foi em 2006, pouco antes do líder al-Zarqawi ser morto por um ataque aéreo promovido pelos Estados Unidos, em junho.
Esse fato trouxe Abu Omar al-Baghdadi para o poder e, em outubro do mesmo ano, o grupo passou a se autointitular Estado Islâmico do Iraque (EII), cujo principal objetivo era estabelecer um estado islâmico nas áreas majoritariamente sunitas do país.
No fim década de 2000, a imagem do EII foi severamente abalada por conta da violência gratuita contra a população iraquiana, que deixou de apoiá-lo massivamente.
A reorganização começou a ser feita em 2010, quando os líderes Abu Omar al-Baghdadi e Abu Ayyub al-Masri foram assassinados por ações dos Estados Unidos, dando espaço ao atual líder: Abu Bakr al-Baghdadi.
Após a saída das tropas dos Estados Unidos do Iraque, no final de 2011, quem ficou responsável pela reestruturação do país foi um grupo xiita.
Apesar da elaboração de uma nova constituição e da transformação do Iraque em uma república parlamentarista, os ataques na região continuaram.
Comandados por diversos grupos contrários ao governo pró-ocidente, entre eles o Estado Islâmico do Iraque, os bombardeios voltaram a ser rotina.
Desde então, o EII seguiu avançando territorialmente no norte do país, sob os olhares atentos dos Estados Unidos, que só observavam tudo de longe.

3. O líder Abu Bakr al-Baghdadi

Reuters
Homem que seria o recluso líder do Estado Islâmico, Abu Bakr al-Baghdadi
Apesar de Abu Bakr al-Baghdadi comandar o EI desde 2010, há poucas informações disponíveis sobre sua vida. 
Boa parte do que se sabe veio de blogs jihadistas. Em 2013, eles publicaram informações sobre o doutorado que o califa possui em estudos islâmicos, pela Universidade Islâmica de Bagdá.
Nascido em 1971, próximo à cidade de Samarra, ao norte de Bagdá, al-Baghdadi teria formado grupos militares nas províncias de Salaheddin e Diyala antes de entrar para a al-Qaeda. 
Em 2006, foi preso em Camp Bucca, prisão estadunidense ao sudoeste do Iraque, de onde foi liberado em 2009.
Pouco se sabe sobre sua personalidade, mas desde que o Estado Islâmico foi criado, ele prefere ser chamado de al-Khalifah Ibrahim. 
Em outubro de 2011, o Departamento de Estado dos Estados Unidos declarou que al-Baghadadi era um terrorista global e ofereceu um prêmio de 10 milhões de dólares para quem tiver informações que levem à sua prisão ou morte

4. Guerra Civil Síria

ODD ANDERSEN/AFP/Getty Images
Em Aleppo, na Síria, um rebelde carrega seu filho
Quando a Primavera Árabe floresceu no Oriente Médio, a Síria também teve sua parcela de revoltas internas. 
O país, governado pelo partido Baath desde 1963 e pelo presidente Bashar al-Assad desde 2000, enfrentava sérias restrições econômicas, índices de desemprego na casa dos 25% e a degradação constante dos direitos humanos. 
Então, entre janeiro e março de 2011, os grandes protestos da população contra o governo começaram.
O presidente al-Assad não considerou as manifestações legítimas, declarando que elas eram feitas por terroristas, e as reprimiu com intensidade. 
Segundo o Observatório de Direitos Humanos, cerca de 73 mil pessoas foram mortas no conflito só em 2013, sendo que 22 mil delas eram civis. 
E o que era apenas um conflito político, tornou-se também um conflito religioso por conta das divergências existentes entre os diversos grupos que vivem no país.
O Estado Islâmico entra nessa história porque, desde que al-Baghdadi tomou o controle do grupo, em 2010, eles cruzaram a fronteira síria.
 Com os confrontos contra o poder local, o EI enviou diversos militares para combatar al-Assad e garantir a formação da Jabhat al-Nusra, o braço deles na Síria.
Esse grupo foi o responsável por vários ataques a cidades sírias, especialmente no norte do país.
 Em 2013, a Jabhat al-Nusra se uniu com o Estado Islâmico do Iraque, formando o chamado Estado Islâmico do Iraque e Síria (EIIS ou ISIS, em inglês).
5. O califado

No dia 29 de junho de 2014, o EIIS anunciou a criação de um califado nas terras dominadas por ele no Iraque e Síria. 

Com isso, o califa al-Baghdadi se autodeclarou como autoridade para os cerca de 1,5 bilhão de muçulmanos existentes no mundo. 
Nesse mesmo período, devido a conflitos internos com o líder do braço sírio, o EIIS se separou e passou a ser chamado apenas de Estado Islâmico (EI).
O califado nada mais é do que uma forma de governo em que o governante é considerado o sucessor do profeta Maomé, seja geneticamente (como pregam os xiitas) ou escolhido pelo povo (a ideia dos sunitas), e que reúna em si toda a fé islâmica sem limites geográficos. Tipo um governo universal mesmo.
 Os autores divergem quanto à última vez em que um califado tenha funcionado.
 Alguns dizem que foi durante os quatro primeiros governos da sociedade islâmica e que durou apenas 30 anos, ainda no século VII. 
Outros relatam diversas outras tentativas ao longo da história, inclusive o califado Ahmadiyya, que seria uma organização global que estaria em funcionamento desde 1908.
Os califados também possuem um caráter expansionista e não reconhecem fronteiras políticas. O Estado Islâmico, por exemplo, vem realizando ataques sucessivos a diversas cidades sírias e iraquianas, aumentando sua extensão territorial. 
Desde o início de 2014, por exemplo, cidades como Mosul, Tikrit e Deir Ezzor foram tomadas. 
De acordo com o serviço de inteligência dos Estados Unidos, estima-se que o EI seja composto por mais de 31,5 mil pessoas, sendo 15 mil estrangeiros de 80 países, muitos deles veteranos de guerras anteriores, o que contribui com a organização militar do grupo.

6. A violência

Carlo Allegri/Reuters
Homem exibe um cartaz em memória ao jornalista norte-americano morto pelo Estado Islâmico James Foley










Em agosto de 2014, o Estado Islâmico divulgou um vídeo que mostra a decapitação do jornalista britânico James Foley, desaparecido na Síria desde 2012. 
Menos de um mês depois, outro vídeo foi divulgado e a morte de mais um jornalista, Steven Sotloff, foi confirmada. 
O terceiro vídeo que foi parar na internet mostrava o assassinato humanista britânico David Haines.
Os casos chocaram o mundo. Em grande parte porque tratava-se da execução de pessoas ocidentais, não-muçulmanas. 
Mas a verdade é que a violência do Estado Islâmico não é um caso isolado. 
Apesar de ser sunita, o grupo é mais radical em suas posições do que a maioria da população islâmica e tem causado controvérsias por isso. 
Em julho, por exemplo, o grupo destruiu a Tumba de Jonas, local sagrado tanto para o islã, quanto para católicos e judeus. 
Na invasão do campo de gás de Shaer, 270 pessoas foram mortas. 
Em maio de 2014, 140 jovens curdos foram raptados para terem lições sobre o radicalismo islâmico. Isso sem falar nos vários ataques a civis feitos ao longo dos anos, sem confirmação do número de mortos.
Aliás, declarar a fundação de um califado é, acima de tudo, uma forma de mostrar a superioridade do Estado Islâmico frente aos outros grupos islâmicos existentes. 
Na Síria, um dos principais conflitos atuais é contra o governo de Assad. No Iraque, eles lutam no oeste do país, na província de Anbar. 
No caminho desses dois países, não faltam relatos de execuções em massa. Contribui para isso o poder de fogo que o EI possui e a organização militar, muito maior do que o de seus adversários locais.

7. Reação internacional

Em agosto de 2014, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, anunciou uma intervenção na região pela primeira vez desde 2011, quando as tropas saíram do Iraque. 

Em setembro, o discurso endureceu e Obama disse que os Estados Unidos liderariam uma coalizão contra EI. “O ‘Estado Islâmico’ não é islâmico, pois mata e aterroriza, e também não é um Estado”, disse.
As críticas feitas pela população norte-americana a respeito da guerra ao terror durante governo Bush ajudam a explicar a demora em Obama se manifestar. 
Mas, diante dos vídeos divulgados pelo EI e da pressão popular, o governo não pode deixar de se manifestar. Mas com cuidado. 
O presidente garantiu que não enviaria tropas para a Síria, apenas esforços aéreos para ajudar os combatentes locais.
A posição dos Estados Unidos reflete um pouco a situação do mundo com relação ao Estado Islâmico. Alguns países da região tentaram interferir na situação através do apoio a tropas locais, mas não adiantou muito. 
Apesar de a ONU já considerar o EI como uma organização terrorista desde 2004, outros países-chave para o conflito demoraram a se manifestar ou ainda não o fizeram. 
A Turquia só quebrou o silêncio em outubro de 2013. A Arábia Saudita, em março de 2014, e o Reino Unido, em junho do mesmo ano.