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quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Como Alemanha se beneficiará recebendo 800 mil refugiados



(EPA)

Quando a chanceler alemã, Angela Merkel, anunciou na semana passada que a Alemanha concederia asilo a 800 mil refugiados neste ano, muitos afirmaram que outros países da União Europeia deveriam seguir o exemplo da maior economia do bloco.
Desde que dezenas de milhares de imigrantes de Síria, África e Oriente Médio começaram a chegar às fronteiras da Europa, a narrativa política na Alemanha tem sido distinta.
Em seus discursos, Merkel vem destacando "o ideal europeu comum". Segundo ela, o continente como um todo tem de se envolver com o problema da crise humanitária na Síria.
"Se a Europa fracassar no assunto dos refugiados, sua estreita relação com os direitos civis universais serão destruídos", disse a chanceler alemã.
"Como um país financeiramente saudável e forte, temos a força para fazer o que é necessário", acrescentou.
Surpreendentemente, o posicionamento de Merkel quanto à crise humanitária na Síria gerou um inédito consenso no país. Tanto a maioria dos políticos de direita quanto de esquerda apoiam a iniciativa da chanceler.
Para muitos deles, aceitar refugiados é uma questão de solidariedade com aqueles que fogem de perseguições e guerras.
No entanto, há razões pragmáticas por trás do autopropalado altruísmo.
Efetivamente, a Alemanha possui uma das populações que envelhecem e diminuem mais rapidamente na Europa.
Segundo estimativas da Comissão Europeia, calcula-se que em 2060 a população do país encolherá em 10 milhões de pessoas, passando de 81,3 milhões em 2013 para 70,8 milhões.
Por essa razão, o país poderia beneficiar-se de um influxo de jovens trabalhadores.
Por outro lado, acredita-se que o Reino Unido se tornará o país mais populoso da União Europeia. Segundo o relatório da entidade, a população do país vai aumentar das atuais 64,1 milhões para 80,1 milhões de pessoas em 2060.
O crescimento da população britânica é resultado da taxa de fertilidade relativamente alta e de um dos maiores saldos líquidos de imigração entre todos os países que pertencem ao bloco comum.
Essa diferença pode ajudar a explicar por que Alemanha e Reino Unido mantêm posições diferentes sobre imigração.
No caso alemão, a crescente proporção de cidadãos dependentes antecipa um enorme fardo para os contribuintes.
Estima-se que a proporção de pessoas com 65 anos ou mais sobre a população entre 15 e 64 anos aumentará de 32% em 2013 para 59% em 2060.
Em outras palavras, isso significa que daqui a 45 anos haverá dois alemães com menos de 65 anos trabalhando e gerando impostos para cada alemão aposentado.
Segundo explica o editor de economia da BBC, Robert Peston, "considerando essas circunstâncias, seria particularmente útil para a Alemanha receber um influxo de famílias jovens da Síria ou de outras partes, que estão dispostas a trabalhar duro e se esforçar para reconstruir suas vidas e demonstrar a seus anfitriões que não são um fardo".
Mas nem tudo é boa notícia para a Alemanha.
A entrada maciça de imigrantes, como está acontecendo agora, cria enormes desafios para a sociedade.
(Getty)
Governos de muitas cidades dizem estar sobrecarregados pois não têm onde abrigar os refugiados, que chegam a dezenas de milhares de pessoas.
E os sistemas de segurança social e os orçamentos regionais vão ter de enfrentar crescentes custos adicionais.
Mas, como observou em sua edição internacional a revista Der Spiegel, a entrada sem precedentes de imigrantes na Alemanha "vai mudar fundamentalmente o país."
"(Os refugiados) representam um fardo, mas são também uma oportunidade para criar uma nova Alemanha, mais cosmopolita e generosa".
E a onda de imigração também é bem recebida pelos empresários. "Embora a taxa oficial de desemprego seja de quase 2,8 milhões no país, diz a Der Spiegel, a comunidade empresarial precisa urgentemente de trabalhadores."
"A economia alemã depende da imigração, tanto da Europa quanto de pessoas que entram no país devido aos direitos de asilo."
"Com uma população em queda, as empresas não podem preencher todos os postos de trabalho e trabalhadores qualificados são cada vez mais raros. Essa tendência será agravada nos próximos anos. Trata-se de uma realidade que ameaça a prosperidade do país", afirma a publicação.
Especialistas dizem que a Alemanha não vai conseguir satisfazer suas necessidades somente com o mercado de trabalho europeu, onde é permitida a livre circulação de trabalhadores na União Europeia.
Em meio ao acalorado debate sobre imigração, o governo alemão não está isento de críticas, muitas das quais partem de setores à extrema-direita tradicionalmente contrários a entrada de estrangeiros no país.
Mas economistas afirmam que a imigração promove crescimento e o país vive, atualmente, um momento em que a onda de imigrantes pode representar um benefício econômico e demográfico no futuro.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Entenda o problema da dívida da Grécia

Entenda o problema da dívida da Grécia

YOLANDA FORDELONE
20 Fevereiro 2015

bandeira-da-grécia
(Atualização em 22/6/2015)
Os termos do acordo que a Grécia tenta negociar remetem a um problema antigo. No passado, mais precisamente em 2010, o país aceitou cumprir um programa de reformas e de ajuste fiscal em troca de um empréstimo do Banco Central Europeu (BCE), da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional (FMI) para salvar as contas do governo grego, que estavam se tornando impagáveis. A ajuda, que totalizou € 240 bilhões (cerca de R$ 756 bilhões), veio, mas os ajustes estão sendo postergados pelo país. Entenda:
O que a Grécia tenta negociar? 
O país quer adiar o plano de ajuste fiscal, que tem como objetivo diminuir a relação dívida/PIB da Grécia, mas que implicará em cortes de gastos do governo e arrocho salarial.  Em abril, em meio à pressão pelo pagamento de uma das parcelas de sua dívida, a Grécia anunciou que a Alemanha lhe devia € 279 bilhões (quase R$ 1 trilhão) em indenização para reparar danos causados durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). O valor é superior à dívida grega com credores do BCE e do FMI. O país comandado por Angela Merkel não cedeu e afirmou que  indenizações já foram pagas nos anos 1960.
Qual o jogo político por trás da negociação?
Quando o empréstimo à Grécia foi concedido, em 2010, o governo era outro. O governo de coalizão atual, que assumiu o país em janeiro, argumenta que os termos da reforma acertados no passado levam o país para uma recessão. O governo foi eleito, inclusive, com uma plataforma que ia contra o plano de austeridade proposto no passado. Teme que, se aceitar seguir com as reformas, vá contra os eleitores que o escolheram.
O que acontece se a Grécia não chegar a um acordo?
Se não houver acordo entre a Grécia e os credores, a linha de financiamento ao governo grego e aos bancos será cortada, o que diminuirá o crédito do país e afundará a economia em uma recessão ainda mais forte. Além disso, quanto mais tempo a Grécia demorar para ajustar as contas da casa maior será a sua dívida. Jörg Asmussen, do Conselho de Administração do BCE, declarou que a demora no ajuste “faria a razão da dívida ante o PIB do país ultrapassar a meta dos 120% em 2020, que é o limite superior considerado viável para a Grécia”.  Em 2011, pouco depois do início dos empréstimos à Grécia, o endividamento chegou a 165,3% do PIB.
A Grécia irá sair da zona do euro?
Segundo especialistas, um movimento de corte de crédito a bancos gregos poderia forçar o país a deixar a zona do euro. Alguns acreditam que isso não seria de todo o mal para os dois lados – Grécia e zona do euro. Em fevereiro, o ex-presidente do Federal Reserve (Fed), o banco central dos EUA, Alan Greenspan, declarou que acha ser uma questão de tempo a Grécia sair do bloco. “Acredito que a Grécia abandonará a zona do euro. Não acho que permanecer no euro é vantajoso para os gregos ou para o resto da zona do euro. É só uma questão de tempo antes de todo mundo reconhecer que a saída (da Grécia) é a melhor estratégia”, disse.
Onde tudo começou?
Antes de a Grécia entrar na zona do euro em 2001, o governo local já tinha fama de gastar mais do que arrecadava. Os motivos eram diversos – a começar pelas contas públicas. O país, por exemplo, tem muitos aposentados, o que aumenta significativamente os gastos com pensão.
Além disso, os gregos são conhecidos por pagar pouco imposto.  Em 2012, a diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, foi dura nas críticas. Disse que os gregos deveriam pagar mais impostos se querem que suas crianças tenham acesso a uma boa saúde e educação.
Para conseguir a adesão ao bloco, a Grécia chegou a maquiar os dados da dívida. Depois de entrar na zona do euro, instaurou-se o otimismo. O risco dos títulos gregos diminuiu, fazendo com que o país vendesse diversos bônus no mercado e aumentasse ainda mais a sua dívida. O governo gastou mais nos primeiros anos na zona do euro e, ao mesmo tempo, não fez ajustes necessários.
A crise que assolou as principais economias do mundo em 2008 acabou com a “farra do boi” da Grécia. O mercado de títulos diminuiu a liquidez, investidores estrangeiros se tornaram mais seletivos a quem iam emprestar dinheiro.
Ao mesmo tempo, a crise fez a Grécia aumentar os gastos sociais à medida que cresceu o número de desempregados no país. A turbulência financeira abriu os olhos da Europa para o problema: a dívida grega, que já vinha de um histórico alto, caminhava para se tornar impagável. Foi então que os empréstimos do BCE, União Europeia e FMI ao país começaram.

Fonte: http://economia.estadao.com.br/blogs/descomplicador/entenda-o-problema-da-divida-grega/

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Lituânia fecha ciclo de adesão ao núcleo de países da zona euro

Lituânia fecha ciclo de adesão ao núcleo de países da zona euro



País do Báltico torna-se no 19.º membro do clube, mas não se sabe quando é que a moeda única terá novas adesões.

As primeiras notas de euro chegaram à Lituânia de barco no dia 23 de Outubro, mas só agora é que começam a ser usadas em detrimento da moeda nacional, a litas (com cada euro a valer 3,45 litas). Fabricadas no banco central alemão, pesavam 114 toneladas, no valor de 132 milhões de euros, e foram transportadas em segredo por questões de segurança. Guardadas nos cofres dos bancos, chegou agora a vez de iniciarem uma nova viagem, através das mãos dos lituanos, espalhando-se depois pelo resto da zona euro que, a partir desta quinta-feira, é composta por 19 países membros.
Esta pode parecer uma conjuntura estranha para uma nova adesão à moeda única, já que a zona euro está em risco de entrar em deflação e de voltar a sofrer uma recessão, ao mesmo tempo que as regras impõem controlos apertados ao nível da dívida pública (abaixo dos 60% do PIB) e do défice (tem de ser inferior a 3% do PIB). No entanto, para a Lituânia, que já tentara aderir ao euro em 2007, este parece ser o passo mais lógico, principalmente tendo um vizinho como a Rússia. 
Em declarações ao PÚBLICO, Mauricas Zygimantas, economista-chefe do Nordea Bank da Lituânia e professor na Universidade de Gestão e Economia (ISM) de Vilnius, realça que a adesão ao euro reforça as ligações ao Ocidente e irá trazer benefícios económicos ao país. “O euro representa mais um passo na direcção” da Europa Ocidental, que, realça, é “próspera, democrática, tolerante e transparente”, e mais um passo para se distanciar do Leste europeu, “empobrecido, autocrático, intolerante e corrupto”.
Neste quadro, acrescenta, o euro “pode ser visto como a continuação de uma longa jornada de regresso ao encontro da civilização ocidental, que começou em 1990 após a Lituânia ter recuperado a independência face à União Soviética, e culminou em 2004 com a adesão à União Europeia e à NATO”. Para Mauricas Zygimantas, a crise económica e financeira que atravessa a Rússia torna este movimento ainda mais apelativo, ao mesmo tempo que o conflito militar na Ucrânia faz recordar a grande virtude da União Europeia: a paz. Isto numa altura em que a Lituânia está a reforçar as despesas para a área da defesa.
Depois, deixando de parte as comparações Este/Oeste, Mauricas Zygimantas destaca que a moeda única tem “vários benefícios para oferecer”, destacando quatro elementos-chave: facilita a livre movimentação de bens, serviços, pessoas e capital, potenciando os benefícios do mercado único; elimina riscos que ainda subsistiam de desvalorização da moeda (apesar da litas orbitar junto do euro desde 2002); permite influenciar as políticas do Banco Central Europeu; e vai facilitar o comércio, investimento e turismo entre os três países bálticos.
A Estónia e Letónia usam, respectivamente, a moeda única desde 2011 e 2014 (a Letónia foi o membro mais recente), e a entrada da Lituânia coloca o país em pé de igualdade com os dois vizinhos, além de representar o fim de um período em que cada um dos pequenos países do Báltico tinha a sua própria moeda.
Ao PÚBLICO, Algirdas Miskinis, responsável pelo departamento de política económica da Faculdade de Economia da Universidade de Vilnius, destaca ainda que a adesão ao euro representa “uma tentativa de um pequeno país se tornar mais visível na União Europeia e no resto do mundo”. Além disso, diz, “há fortes argumentos económicos” para entrar na moeda única, como o acesso a financiamento mais barato, facilidade de pagamentos, transacções mais baratas e mais investimento directo estrangeiro.
Desafios pela frente
Nem tudo, no entanto, são apenas vantagens, e a Lituânia terá vários desafios pela frente. Algirdas Miskinis destaca dois deles: o do crescimento económico, “que está a desacelerar devido ao embargo russo e ténue crescimento na União Europeia”, e o social, uma vez que “os salários são baixos e a desigualdade é bastante elevada”. Para já, estima-se que em 2015 os ordenados cresçam acima da inflação, fazendo aumentar os salários reais, o que faz alguns analistas lançar alertas sobre o risco de perda de competitividade do país.

De resto, Algirdas Miskinis considera que nem a dívida pública nem a inflação são problemas, e que o défice público está controlado, embora “graças aos baixos salários e pensões”. De acordo com dados de Dezembro do banco central da Lituânia, a procura interna e as exportações vão crescer menos do que o estimado inicialmente, principalmente devido ao embargo russo aos produtos alimentares, e que representam 38% das vendas de bens do país ao exterior.
Já Mauricas Zygimantas sublinha que o maior desafio do país será não cair no erro da “euforia pós-euro” e continuar a “controlar os níveis da dívida do sector privado e do sector público”. Para já, diz, os exemplos da Estónia e da Letónia são “muito encorajadores”, uma vez que os dois países têm dos défices públicos mais baixos da União Europeia. Para já, o Orçamento do Estado da Lituânia para o ano que vem, o primeiro da vida no euro, aponta para um défice público de 1,2% do PIB, com a economia a crescer 3,4%.
Com a adesão da Lituânia, a zona euro fecha um ciclo de crescimento, sem que haja mais nenhum país da UE na lista de espera. Em 2002, quando se deu o grande pontapé de saída,  entraram 12 países de uma só vez, Portugal incluído. Depois disso, foi preciso esperar até 2007 para o clube da moeda única voltar a crescer, com a Eslovénia, e demorou nove anos a passar de 12 para 19 países, quando há 29 na União Europeia.
Não obstante haver a expectativa de que o euro se torne a moeda de todos os Estados-Membros, como passo inevitável, o Reino Unido é a prova de que dificilmente haverá uma só moeda para todos os países. Outros, como a Polónia, já ensaiaram várias aproximações, mas continuaram com a moeda local, e sem coletes de força no défice.
Silvia Merler, do think tank Bruegel, afirmou ao PÚBLICO que “ninguém poderá dizer neste momento qual será o próximo país a aderir” ao euro, nem quando. Esta investigadora refere, no entanto, que após a nomeação do antigo primeiro-ministro polaco, Donald Tusk, para presidente do Conselho Europeu, surgiram novas especulações sobre a entrada deste país no clube da moeda única. Mas, mesmo que isso aconteça, sublinha, “ainda vai demorar algum tempo”.

Fonte: http://www.publico.pt/economia/noticia/lituania-fecha-ciclo-de-adesao-ao-nucleo-de-paises-da-zona-euro-1680861

domingo, 9 de novembro de 2014

O que significa a unificação alemã para a geração pós-Guerra Fria?

O que significa a unificação alemã para a geração pós-Guerra Fria?



Publicado: 

"Aufklärung jetzt!" ("Esclarecimento já!") parece um slogan de protesto muito antigo -- "Povo, levante-se e abra as portas do inferno!" Isso foi em 1813, quando a Alemanha teve de se libertar de Napoleão. Como filho da guerra, eu fui incitado à ação já em 1945 pela Aufarbeitung (reconciliação). Desde minha infância, portanto, fui confrontado com essa dupla história de ditadura.
Na antiga República Federal Alemã, foi inicialmente sobre a denúncia dos crimes nazistas e a Segunda Guerra Mundial. A discussão se baseava em duas questões: a culpa alemã e como era possível que a maioria dos alemães tivesse acreditado em um Führer diabólico.
Depois de 1945, houve outros problemas prementes em consequência da guerra: o destino dos prisioneiros de guerra, o futuro de milhões de refugiados e deslocados, a reconstrução de um país marcado pela guerra, os empregos e a recuperação da soberania alemã.
"Sempre teve a ver com a identidade alemã."

Em 1961 foi construído o Muro; ao mesmo tempo, por causa do processo de Eichmann em Jerusalém, o genocídio contra os judeus europeus tornou-se uma questão, assim como a questão de por que os democratas da República de Weimar haviam sido tão fracos. Por que a República não havia sido capaz de resistir ao movimento de massa totalitário nazista? Por que os partidos civis concordaram com a lei que instituiu Hitler em 1933?

Todos esses debates tinham um denominador comum: eram sobre a identidade dos alemães na República Federal. Era uma dolorosa reconciliação com essa história de ditadura, que não deixou de ter consequências para a vida mental. Entre os intelectuais, formou-se em muitos casos uma relação fraturada com seu país, eventualmente crescendo para um ódio-próprio alemão.
Na República Democrática Alemã, os comunistas -- apoiados pela potência vitoriosa, a União Soviética -- ditavam sua percepção histórica ideológica, justificando a constituição do socialismo. Os discursos históricos nos dois Estados alemães eram sobre a reivindicação de uma nova identidade alemã, democrática ou socialista. Debates históricos em nome do futuro. A vida continuava. Mas como? Essa era a questão.
Portanto, na Alemanha reunificada se originou uma cultura de memória de ambas as ditaduras, cada qual com seus próprios memoriais e monumentos. Estes servem como locais históricos contemporâneos de aprendizado e de apelo à proteção da liberdade.
No meio de Berlim ergue-se o memorial aos judeus assassinados na Europa, a curta distância do mausoléu soviético para os soldados do Exército Vermelho que perderam a vida na batalha por Berlim. A reconciliação com as duas ditaduras, a dos nazistas e a dos comunistas, percorreu um longo caminho, portanto. Mas o chamado à ação "Aufarbeitung jetzt!" ("Reconciliação já!") perde a validade porque o trabalho já está feito?
"A Geração Unificação Alemã tem de encontrar sua identidade."
Eu acredito que não; afinal, a "Geração Unificação Alemã" cresceu. Ela ainda está presa em um processo de determinação, certificando-se de sua responsabilidade pelo país. Por trás dessa geração está a divisão alemã em dois Estados, assim como a história das ditaduras e a das duas guerras mundiais. Essa geração não conhece nem a República Democrática Alemã nem a antiga República Federal por experiência própria.
A "Geração Unificação Alemã" também continua o caminho dos alemães que começou muito antes de seu nascimento, há mais de mil anos. A queda do Muro em 1989 não foi a experiência emocional "alemã" conjunta dessa geração; mais provavelmente foi a Copa do Mundo da Fifa de 2006.
Naquela época, como que por magia, jovens autoconfiantes segurando bandeiras alemãs apareceram para apoiar em público seu time: "Queremos que nosso time, o time alemão, seja campeão do mundo!" -- ignorando críticas que consideravam adequado advertir contra um novo nacionalismo. Foi uma demonstração surpreendente: a história da divisão ficou para trás.
Por causa disso, essa geração enfrenta outra "reconciliação": que parte da herança histórica alemã é importante para nós? O que nós queremos transmitir? Ao mesmo tempo, essa geração não tem problemas de informação. No universo da internet, a história alemã está presente em episódios, biografias e documentários. É uma oferta confusa de eras, personalidades históricas e eventos.
Diante disso, as aulas de história na escola foram sistematicamente desvalorizadas durante décadas, muitas carecem de orientação e capacidade para classificar fragmentos no curso da história. O fio da meada desses eventos muitas vezes está ausente -- e com isso a consciência da continuidade de sua própria história alemã, aquela em que esta geração nasceu e na qual seguirá.
A "Geração Unificação Alemã" será aquela que moldará o futuro econômico, cultural e político da Europa. Por responsabilidade por seus filhos e as sucessivas gerações, ela deve ter consciência de seu legado histórico. Isto se aplica em parte aos crimes das ditaduras, mas principalmente à manutenção de certas coisas: democracia, criatividade em tecnologia, ciência, cultura e o poderio econômico do país. A base de nossa prosperidade.
Fonte: http://www.brasilpost.com.br/manfred-wilke/o-que-significa-a-unifica_4_b_6126214.html?ir=Brazil&utm_hp_ref=brazil

sábado, 20 de setembro de 2014

Como seria o mapa da Europa se houvesse uma vaga independentista?

Como seria o mapa da Europa se houvesse uma vaga independentista?


Imagine que se alastra uma vaga de referendos como o que se realizou quinta-feira na Escócia. Imagine que todos terminam com vitória dos movimentos independentistas. Consequência: iríamos ter 37 novas nações e territórios. Veja o mapa ao detalhe.
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Fonte: http://expresso.sapo.pt/como-seria-o-mapa-da-europa-se-houvesse-uma-vaga-independentista=f889831#ixzz3DfUCxcfV

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Londres oferece mais poder à Escócia para deter o separatismo

Londres oferece mais poder à Escócia para deter o separatismo



Conservadores e trabalhistas se culpam pelo avanço do separatismo a dez dias do referendo


 Londres 8 SEP 2014
Partidários da independência da Escócia comemoram a pesquisa. / JEFF J MITCHELL (GETTY)
No domingo, o Governo britânico ofereceu mais poderes à Escócia se for bem sucedido no referendo de independência do próximo dia 18. A oferta foi colocada — ainda que, significativamente, de forma genérica, sem nenhum detalhe — pelo ministro do Tesouro e ministro da Fazenda, George Osborne, horas depois que uma pesquisa abalou Westminster ao colocar pela primeira vez em vantagem (51% diante de 49%) o voto em favor da independência. A pesquisa do site YouGov para o jornal Sunday Times confirma que o resultado do referendo é imprevisível, o que já motivou uma forte queda da libra esterlina na última terça-feira.
O avanço do sim foi demolidor nas últimas semanas. Em início de agosto, a pesquisa do YouGov garantia uma liderança muito sólida, de 22 pontos, aos defensores de que a Escócia continue a fazer parte do Reino Unido. A pesquisa começou a mudar contra prognóstico em favor do sim depois do debate cara a cara de 5 de agosto entre o líder separatista do Partido Nacional Escocês (SNP) e principal ministro escocês, Alex Salmond, e o responsável pela campanha de união, Alistair Darling.
Agora, o sim obteria 51% dos votos diante de 49% do não, uma vez que os indecisos são excluídos. Se os indecisos forem levados em conta, o sim também fica na frente: 47% a 45%. A pesquisa, primeira com credibilidade a colocar os separatistas no topo desde que a campanha começou, ameaça provocar uma comoção política e gerou acusações mútuas entre conservadores e trabalhistas sobre o avanço dos partidários da independência. Para os primeiros, deve-se à falta de garra e à perda de credibilidade dos trabalhistas na Escócia. Para eles, é consequência do ressentimento em relação às políticas de ajuste decididas pela coalizão de conservadores e liberais-democratas em Londres.
É preciso levar em conta, no entanto, que a pesquisa do YouGov é a única na qual o sim teve uma alta tão pronunciada. No fim de semana passado mesmo, uma pesquisa da Panelbase para a campanha do sim dava uma vantagem de 52 a 48 ao voto em favor de que a Escócia continue no Reino Unido.
De qualquer forma, a tendência de alta do sim no último mês é generalizada, o que pode realmente redirecionar a campanha do não e levar às urnas eleitores contrários à independência que já tinham dado por perdida a vitória do não e podiam se ver tentados a ficar em casa no próximo 18 de setembro.
Essa tendência de alta do separatismo, que na terça-feira começou a irritar o setor financeiro, provocou também o alarme da classe política em Londres. Entrevistado no programa político dominical da BBC, The Andrew Marr Show, George Osborne prometeu mais poderes para a Escócia “se os riscos de separação forem evitados” e rejeita a independência. Ainda que o Governo tenha oferecido desde o princípio mais poder para o Parlamento escocês se a união não for rompida, a oferta de Osborne pareceu uma reação improvisada à pesquisa do YouGov, porque deixou para “dentro de alguns dias” o detalhamento desses novos poderes.
O problema para os partidários do não é que uma análise um pouco mais detalhada da pesquisa do YouGov leva a pensar que a mudança de tendência no voto não tem só a ver com a independência em si ou com uma Escócia com mais poderes dentro do Reino Unido. Parece que, entre os votantes, fala mais alto uma das mensagens em que mais insiste a campanha do sim nas últimas semanas: sabendo que a chave do resultado do referendo está no que farão os desencantados eleitores trabalhistas, o SNP deu ênfase à ideia de que a independência vai lhes garantir que nunca mais serão administrados pelos conservadores, um partido que governa no Reino Unidos graças aos votos colhidos na Inglaterra.
Sunday Times garante que vários ministros acreditam que David Cameron deveria demitir-se de imediato como primeiro-ministro se a Escócia votar pela independência e que há movimentos no grupo parlamentar para forçar sua saída se ele resistir.
O jornal compara a situação de Cameron com a de lorde North, o primeiro ministro a ser demitido em 1782 depois que a Câmara dos Comuns aprovou uma moção de censura contra ele pela perda das colônias na América.
A pesquisa do YouGov revela que, por trás do aumento do separatismo, esconde-se uma profunda desconfiança quanto aos políticos de Westminster, e que se alimenta, sobretudo, de desencantados eleitores trabalhistas que mudaram sua intenção de voto no último mês. Segundo a pesquisa, 35% dos eleitores trabalhistas se mostram agora favoráveis à independência, quase o dobro de um mês atrás. Entre os conservadores, apenas 7% apoiam a independência e entre os liberais-democratas, 16%. Curiosamente, 18% dos votantes do SNP pesquisados dizem são contrários à independência.
Ainda que todos os políticos estejam no terreno do não, os líderes separatistas geram muito mais confiança do que os unionistas. Cerca de 42% confiam em Salmond e 44%, em seu vice, Nicola Sturgeon. Mas apenas 33% acreditam no responsável pela campanha unionista, Alistair Darling, e só 23% dizem confiar no primeiro-ministro Cameron ou no líder trabalhista Ed Miliband.
Outro dos problemas para o unionismo é que sua campanha, baseada sobretudo em ameaças sobre os desastres que a Escócia sofrerá se abandonar o Reino Unido, é considerada negativa por 60% dos pesquisados e apenas 31% acreditam que é, em geral, uma campanha positiva. A mensagem separatista, por sua vez, é vista como positiva por 69% dos pesquisados, diante de 30% que a consideram negativa. Esse otimismo dos separatistas parece ter calado fundo entre o eleitorado.
A última prova do caráter negativo dos unionistas foi dada por Ed Miliband que, fazendo campanha no sábado, advertiu que se os escoceses votarem pela independência, terão de se impor controles de fronteira com guardas armados entre os dois países, algo os que separatistas negam. “Se vocês não querem fronteiras, votem por continuar no Reino Unido”, disse-lhe Miliband aos escoceses.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

O grande desestabilizador

O grande desestabilizador



Vladimir Putin, um homem só e obcecado com a segurança, tem o apoio de 85% dos russos



Retrato de Vladimir Putin em um grafite na Crimeia. / REUTERS


A Rússia e o Ocidente não sabem ainda se estão às vésperas de uma guerra, mas mergulharam profundamente na grande desestabilização do sistema de relações internacionais existente desde a desintegração da União Soviética em 1991. Por trás das crescentes turbulências há uma rede complexa, onde a política e a geoestratégia se entrelaçam com o azar. O presidente da Rússia, Vladimir Putin, não é um gênio todo poderoso capaz de mover todos os fios da trama em que o continente europeu está ficando preso, mas tem um papel-chave no que acontece. Pela forma com que se empenha em redesenhar o papel de seu país no mundo, Putin assume grandes riscos, incluindo a possibilidade de que o império a que aspira acabe sendo uma sociedade primitiva.
Do ponto de vista ocidental, três episódios marcam a escalada da tensão: a anexação da Crimeia, consumada em março; a desestabilização do leste e do sul da Ucrânia, e especialmente das regiões de Donetsk e Lugansk, acelerada a partir de abril, e a queda do Boeing MH17 com 298 pessoas a bordo, em 17 de julho. Os problemas ligados a estes acontecimentos não podem ser resolvidos separadamente e para desentranhá-los, até agora, faltam estratégias e mediadores.
A Crimeia foi uma tentação irresistível para Putin, que encomendou pesquisas sobre a eventual reação de seus compatriotas sobre a "incorporação" da península à Rússia antes mesmo que, em Kiev, o presidente Victor Yanukovich deixasse a Ucrânia à deriva, de acordo com fontes em Moscou. As pesquisas indicaram que os russos apoiavam a ideia e o presidente foi se animando para acabar anexando a região, após a fuga de Yanukovich em uma alucinação coletiva com seu povo. "Putin sentiu que a Rússia estava se tornando coesa, que afirmava sua soberania, que era tomada por uma onda de patriotismo. Não foi só ambição ou pretensão de querer entrar para a história. Foi algo muito mais profundo", afirmam meios próximos ao Kremlin. O desejo de recuperar um cenário heróico da história russa se impôs ao direito internacional e também ao cálculo racional sobre as sequelas da atitude, que o cientista político Glev Pavlovski classifica como fruto do "improviso".
A desestabilização do leste e sul da Ucrânia responde em parte à lógica de uma "operação especial" de serviços de segurança. Era necessário desviar a atenção ocidental, focada na Crimeia, para outro ponto de tensão. Putin, que se formou como oficial do KGB (serviço secreto soviético), apoiou os jogos de Rinat Akhmetov, o grande oligarca de Donetsk, com o objetivo de pressionar Kiev e o Ocidente para obter concessões sobre o modelo de Estado na Ucrânia. Mas as reivindicações regionais degeneraram. "Surpreendentemente, surgiram numerosos voluntários dispostos a ir à lutar na Ucrânia e apareceram as armas. O jogo saiu das mãos do Kremlin", afirma Pavlovski, segundo o qual os insurgentes atuam com sua própria dinâmica interna, mas não por ordens de Moscou. "Putin estava satisfeito com o que estava acontecendo no leste da Ucrânia até que o Boeing foi derrubado. Isso mudou tudo", afirma.
O incidente com o voo MH17 aglutinou Estados Unidos e Europa, que consideram os separatistas culpados pela queda, o que obriga Putin a escolher se segue apoiando os insurgentes ou se afasta deles. Um jornalista russo conhecedor (e, em ocasiões, partícipe) das intrigas do Kremlin ventila que Putin poderia tentar se distanciar dos separatistas mediante o veredicto dos especialistas internacionais, e que, por isso, tem sido tão favorável que se entregue a eles as caixas-pretas do avião. Neste "razoamento", realidades e percepções não têm porque coincidir.
Enquanto isso, os cidadãos se adaptam aos novos tempos. Os funcionários do Estado (cujo salário médio é mais que o dobro que o dos russos) elaboram as listas de sanções, os oligarcas amigos do líder calam ou expressam vagamente sua frustração pelos dilemas que enfrentam. Em um destes dias preocupantes em que os russos andam à espera do aumento de impostos e notam a diminuição na variedade de queijos e embutidos, a elite econômica celebrava com caviar o aniversário de uma figura de destaque do governo em uma grande festa protegida pelos serviços de segurança do Estado.
A dinâmica das relações entre Rússia e Ocidente não pode ser reduzida à psicologia de Putin nem às analogias lapidárias com outros personagens sinistros da história da Europa. Quem conhece de verdade as fraquezas e apostas, as mentiras e lealdades do presidente, não se expressa em público, e daí a variedade de interpretações sobre o presente e de predições sobre o futuro. E não basta que os líderes ocidentais, como Angela Merkel, insinuem que Putin "perdeu o sentido da realidade". Talvez, Putin "está em outro mundo", mas neste mundo estão também hoje 85% de seus compatriotas que o apoiam (dados de julho do Centro Levada). E, apesar desse apoio, o presidente é hoje um homem só e desconfiado.
"A segurança do Estado é o principal para Putin, e todo seu mandato como presidente desde 2000 está impregnado pela ideia de que deve garantir essa segurança, que ele considerou ameaçada em diversos momentos por fatores distintos, primeiro os oligarcas que dominavam os canais de televisão ou apoiavam a oposição política e pelas tendências separatistas nas regiões. Os oligarcas que não se submeteram a ele foram presos ou obrigados a emigrar, enfraqueceu as elites regionais. Agora, o presidente considera que o Ocidente é a principal ameaça para a segurança da Rússia", diz Alexei Makarkin. Fontes próximas ao Kremlin afirmam: "A democracia para ele é algo secundário".
Makarkin recorda que "Putin tentou melhorar as relações com o Ocidente no início de seu mandato partindo da ideia de que a Rússia tinha sua esfera territorial de interesse". O primeiro Maidan (protesto em sentido metafórico) da Ucrânia -a chamada Revolução Laranja- colocou Putin em guarda em 2004, mas naquele momento os líderes em Kiev se dedicavam a lutar entre eles e o Partido das Regiões representava uma elite confortável para Moscou no leste da Ucrânia, explica Makarkin. No Ocidente, além disso, estavam os amigos políticos de Putin, como o italiano Silvio Berlusconi, e no interior da Rússia foram tomadas medidas preventivas, como a criação de um movimento juvenil controlado pelo Kremlin. Putin se tranquilizou.
Agora, "Putin acredita que o Ocidente foi injusto com ele, que apoiou a oposição no interior da Rússia e as forças anti-Rússia no território dos países pós-soviéticos. Putin acha que o Ocidente enganou a Ucrânia, pois prometeu um compromisso e firmou um acordo que não pôde cumprir”, diz Makarkin. O especialista classifica de "alarmista" a possibilidade de guerra. "Não temos aliados, porque nossos sócios (Belarus e Cazaquistão) fazem um jogo duplo e querem ficar bem com a Ucrânia e conosco. Também não temos ideologia competitiva em escala mundial e a onda conservadora e reacionária no interior da Rússia não tem aspecto de se tornar um projeto atrativo, como foi o comunismo", acrescenta.
Por sua vez, o cientista político Stanislav Belkovski acredita que "Putin sempre quis estar no Ocidente e ser um líder ocidental. Ao chegar ao poder, cogitou a possibilidade de que a Rússia ingressasse na Otan, renunciou aos radares no Vietnã e Cuba, e foi o primeiro a oferecer suas condolências a George Bush pelo atentado de 11 de setembro de 2001. Com o tempo, chegou à convicção de que o Ocidente não o queria, mas enquanto estiveram em cena o chanceler alemão Gerhard Schröder, o presidente Berlusconi e o francês Jacques Chirac, líderes com quem tinha muitas coisas em comum, Putin tinha a ilusão de que podia ficar no Ocidente. Quando essa geração se foi, "ele ficou isolado".
A situação requer árbitros e mediadores, diz Belkovski, cuja lista de candidatos inclui o papa Francisco, o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, ou o ex-presidente de Israel Shimon Peres. O cientista político acredita que seria mais útil abordar os problemas da Ucrânia em uma arquitetura mais ampla, vinculada aos conflitos herdados em espaço pós-soviético. Encurralar Putin não é aconselhável nem eficaz, afirma. Além disso, pode ser perigoso. É hora de recordar o episódio que o próprio presidente contava quando se dispunha a substituir Boris Yelktsin em 2000. Quando criança, contava, tinha perseguido um rato que, ao se ver sem saída, se voltou agressivo contra ele.
Putin é um refém de sua política. Na fórmula para superar a crise, se existe, o presidente não pode ser percebido como frágil, porque isso o tiraria o apoio que a sociedade o deu e dos setores nacionalistas que podem ameaçá-lo se fraquejar. No Kremlin, se preocupam com protestos locais durante as eleições municipais de 14 de setembro, e para se opor a eles se planeja criar um "conselho antifascista" no qual serão incorporados cossacos, organizações ortodoxas e veteranos, segundo o jornal Moskovski Komsomolets.
Os comícios de partidos políticos e representantes da sociedade civil avançada e dos movimentos juvenis de própria criação (Nashi ou Iduschi Vmeste) podem ser substituídos por marchas de cossacos e cristãos fundamentalistas e outros representantes da sociedade tradicional e patriarcal.
Putin busca refúgio no coração da Rússia e talvez não seja casual que recentemente tenha proposto reconstruir os monastérios dos Milagres e da Ascensão, no Kremlin, destruídos por comunistas em 1929. Estes planos preveem derrubar todas as obras que foram realizadas desde 2007 para modernizar o edifício de despachos que em 1930 substituiu os monastérios destruídos. Rico país é a Rússia, que por desejo de seus líderes destrói e constrói uma e outra vez no mesmo lugar, independentemente do esforço e custo material. Os símbolos na Rússia são parte da realidade.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Luta pela terra no Primeiro Mundo

Luta pela terra no Primeiro Mundo



Ocupações contra projetos imobiliários e por ideais libertários proliferam na Zona do Euro

por Francisco Colaço Pedro — publicado 16/07/2014
terras-europa
O movimento contra o aeroporto de Notre-Dame-des-Landes aumentou com a repressão, no noroeste da França

À margem das instituições e da mídia, uma onda de ocupações de terras propaga-se pela Europa para reivindicar o direito à terra, deter a especulação imobiliária, implantar hortas comunitárias e centros de serviços públicos ou lazer, entre outras finalidades. Um dos casos de maior repercussão é o de Notre-Dame-des-Landes, no noroeste da França. Cerca de 40 mil pessoas entre famílias, jovens mascarados e agricultores da região ocupam 1,5 mil hectares pertencentes ao Estado e destinados à construção de um aeroporto. Elas estão determinadas a “lutar contra o avanço das obras, aprender a viver em conjunto, cultivar a terra e ter mais autonomia em relação ao sistema capitalista”. Há assembleias regulares, um jornal distribuído de bicicleta, padaria, biblioteca e até uma rádio pirata captada pelos usuários das autoestradas Vinci, a maior empresa de construção e concessões do mundo, responsável pelo projeto. Previsto para funcionar em 2017, o aeroporto foi adiado para 2020. Uma pesquisa mostrou 56% dos franceses contrários à obra, 24% favoráveis e o restante indefinido. Movimentos semelhantes brotam em outras regiões da França. Em Rouen e Dijon, terrenos são tomados para o cultivo de hortas comunitárias e bloqueio de projetos imobiliários. Em Avignon, uma manifestação contra a construção de uma autoestrada resultou na ocupação de casas e terrenos agrícolas.
Inspirados no Movimento dos Sem Terra brasileiro, na Via Campesina e em exemplos históricos do continente, jovens de toda a Europa se organizam desde 2007 na rede Reclaim the Fields (RtF), voltada para “o retorno à terra e a retomada do controle da produção alimentar”. Lutam contra megaprojetos e pela defesa das terras agrícolas e participam das mobilizações contra um projeto de trem de alta velocidade no norte de Itália, a expansão do aeroporto de Heathrow na Inglaterra e o projeto da maior mina de ouro a céu aberto do continente, na Romênia. O grupo se declara determinado a criar alternativas ao capitalismo através de cooperação, coletivismo, autonomia, produção em pequena escala e iniciativas em conexão com lutas políticas globais. “Há uma longa história de lutas pelo acesso e controle da terra na Europa. É importante partilhar a diversidade das experiências atuais”, afirma o RtF, expressão de contradições em uma Europa com áreas cada vez mais escassas e de propriedade crescentemente concentrada. Segundo o Trasnational Institute, 3% de proprietários controlam metade das terras europeias. A Política Agrícola Comum aprofunda as desigualdades ao beneficiar as grandes empresas agroalimentares em prejuízo dos agricultores.
As tentativas de debelar o movimento de Notre-Dame-des-Landes reforçaram a solidariedade entre ocupantes, habitantes da região e pessoas de todo o país. “Essa solidariedade dá uma sensação incrível de resistência à repressão. Há pessoas das cidades vizinhas e de toda a Europa”, diz Zou, um jovem participante de Paris. O total de 200 ocupantes hoje é superior ao de dois anos atrás. Em 2013, durante a jornada mundial das lutas camponesas e de luto pelo massacre de Eldorado dos Carajás, no Brasil, vários terrenos e quintas adjacentes foram tomados. “Há uma imensa quantidade de terra abandonada em toda a Europa. Faz sentido ocupar áreas coletivamente para nos alimentarmos, recuperar os usos tradicionais e proteger os ecossistemas locais”, diz Guillem, do Can Masdeu, área agrícola e centro social tomados há 12 anos na periferia de Barcelona, Espanha. Segundo o catalão, as tomadas de propriedades devem-se aos “tempos duríssimos da crise”, mas também ao número crescente de indivíduos dispostos a “construir alternativas, desde cooperativas de produção e consumo a núcleos habitados”. Há 2 mil aldeias abandonadas no país. Nas regiões de Navarra e Aragón, houve dez ocupações recentes. As aldeias de Artizkuren e Lakabe foram invadidas há 20 anos. Os projetos transcendem a ecologia e visam uma mudança social inspirada pelos ideais anarquistas de autogestão, apoio mútuo e funcionamento horizontal, sem hierarquia  nem discriminação. Na Andaluzia, o Sindicato de Trabalhadores retomou a ocupação de terras como forma de luta. Em 2012, 500 agricultores invadiram os 400 hectares da quinta de Somonte e, em maio do ano passado, outras três propriedades ociosas. “A ocupação põe em causa uma base de toda a sociedade: a propriedade como valor supremo”, diz Guillem. “O direito à propriedade não pode prevalecer sobre o direito a satisfazer necessidades básicas. Num tempo de crise civilizacional, essas experiências são exemplos de que se pode viver deoutra maneira.”