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sábado, 18 de abril de 2015

A água revela o despreparo do Brasil para enfrentar os impactos do clima

A água revela o despreparo do Brasil para enfrentar os impactos do clima


08/04/2015 - Artigo de Mario Mantovani*, originalmente publicado no Brasil Post - A água é o elemento da natureza que melhor expressa os impactos do clima, quer seja por secas estremas ou grandes enchentes, e evidencia como estamos sendo, todos, diretamente afetados. Viva em uma grande metrópole ou no campo, os impactos do desmatamento e da poluição nos atingem diariamente e podem ser sentidos nas coisas mais corriqueiras do cotidiano, desde a falta d’água ao preço dos alimentos ou de contas como de água e luz.


Apesar das evidencias e dos alertas da comunidade científica, nem mesmo a falta de chuvas na região sudeste, que ganhou o status de crise hídrica e ressuscitou o fantasma do apagão, foi suficiente para fazer com que o Brasil se posicionasse em relação ao compromisso que levará à Conferencia do Clima de Paris com medidas efetivas para combater o desmatamento e reduzir as emissões de CO2.
Autoridades e governantes ainda se mantêm céticos perante a importância da preservação das florestas e da Mata Atlântica para garantir água, resiliência, qualidade de vida nas cidades e sustentabilidade às atividades produtivas. A demora na implementação de políticas públicas e medidas efetivas para enfrentamento da crise da água, somada ao contexto político, econômico e de descredito da sociedade em muitas instituições públicas, tem levado organizações civis e movimentos sociais a promoverem ações, campanhas e iniciativas locais para minimizar os problemas. As soluções criativas e solidárias, além das mudanças de comportamento, ajudam, mas são insuficientes diante da dimensão dos impactos e do modelo de desenvolvimento que ainda prevalece no país.
A situação das nossas cidades é muito diferente da dos discursos e dos compromissos diplomáticos, que não são implementados efetivamente. Desde 2011, o Brasil se comprometeu com a Estratégia Internacional para Redução de Desastres (Eird), coordenada pela Organização das Nações Unidas (ONU) para construção de cidades resilientes. Segundo a Estratégia, “Cidades Resilientes” são aquelas capazes de resistir, absorver e se recuperar de forma eficiente de desastres ou impactos do clima, e de maneira organizada, prevenir para evitar que vidas e bens sejam perdidos. Esse compromisso envolve dez providências essenciais que deveriam ser implementadas por prefeitos e gestores públicos. As principais delas são o planejamento e o uso do solo, a implantação e manutenção de infraestrutura, saneamento básico, áreas verdes e áreas protegidas, educação e participação das comunidades e da sociedade civil organizada.
No Brasil, ainda estamos longe dessa realidade, mas alguns municípios, como o Rio de Janeiro, começam a dar os primeiros passos em busca desse compromisso. Em janeiro de 2015, a Prefeitura do Rio de Janeiro lançou o documento “Rio Resiliente: Diagnóstico e Áreas de Foco”, em que aponta cinco vulnerabilidades climáticas da cidade: chuvas fortes, ventos fortes, ondas e ilhas de calor, elevação do nível do mar e seca prolongada. O objetivo desse documento, segundo a Prefeitura, é indicar à sociedade e às gestores públicos os desafios a serem enfrentados nos próximos anos e décadas, de forma que a preocupação ambiental seja efetivamente incorporada no planejamento de longo prazo da cidade. Uma vez identificadas essas vulnerabilidades, a próxima etapa é apresentar projetos concretos que as mitiguem, evitando que a cidade seja surpreendida como se deu no caso recente da crise hídrica no sudeste. A Prefeitura já avalia formas de promover a eficiência energética e hídrica de seus prédios, inclusive suas quase 1.500 escolas. No caso de chuvas fortes, o maior problema, por ocasionar vítimas fatais, é o deslizamento em encostas de morros. Com a implantação de um radar meteorológico e do Centro de Operações Rio em 2010, mapeamento geológico, instalação de sirenes e abrigos, assim como treinamento de comunidades para evacuação, não há registro de mortes por deslizamentos desde o verão de 2011.
A mitigação ou redução de riscos e desastres decorrentes da ocupação irregular dessas áreas de risco, que deveriam ser aquelas áreas de preservação permanente (APP) urbanas, localizadas em margens de rios e fundos de vale, conservam ecossistemas e ambientes mais equilibrados e promovem impactos positivos em saúde pública e bem-estar das comunidades. Infelizmente, essas áreas que devem ser preservadas para garantir segurança às populações e aumentar a resiliência das cidades, estão ameaças por mais retrocessos na legislação ambiental.
Tramita no Congresso Nacional mais um projeto de lei (PL6830/2013) de autoria do Deputado Valdir Colato (PMDB-SC) que pode reduzir as APPs urbanas, transferindo para os municípios a autonomia para estabelecer o tamanho das faixas de preservação. Atualmente, o Código Florestal estabelece o tamanho da APP em áreas rurais e urbanas, cabendo aos municípios legislar de forma complementar a essa norma Federal. Esse é apenas mais um exemplo prático de como alguns legisladores, motivados muitas vezes por interesses pontuais, ou desconhecimento, insistem em manter o Brasil na contramão da história. Enquanto países e cidades renaturalizam rios e ampliam instrumentos de proteção às suas florestas para evitar acidentes, aqui buscam de forma recorrente desproteger.
Por isso, é preciso estar atento às votações e projetos de lei que tramitam no Poder Legislativo e que podem impactar ainda mais as nossas vidas. E exigir que o Governo Brasileiro assuma compromisso efetivo com o desmatamento e com um novo modelo de desenvolvimento para o país.
*Mario Mantovani é diretor de Políticas Públicas da Fundação SOS Mata Atlântica, ONG brasileira que desenvolve projetos e campanhas em defesa das Florestas, do Mar e da qualidade de vida nas Cidades. Saiba como apoiar as ações da Fundação.
Fonte: http://www.sosma.org.br/artigo/agua-revela-o-despreparo-brasil-para-enfrentar-os-impactos-clima/

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Extremos climáticos devem ocorrer com mais frequência e intensidade em São Paulo

Extremos climáticos devem ocorrer com mais frequência e intensidade em São Paulo


A variação climática observada na Região Metropolitana de São Paulo nos últimos anos – caracterizada por chuvas intensas concentradas em poucos dias, espaçadas entre longos períodos secos e quentes – deve se tornar tendência ou até mesmo agravar nas próximas décadas.
As conclusões são de um estudo realizado por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), em colaboração com colegas das Universidades de São Paulo (USP), Estadual de Campinas (Unicamp), Estadual Paulista (Unesp), de Taubaté (Unitau) e dos Institutos Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e de Aeronáutica e Espaço (IAE), entre outras instituições e universidades do Brasil e do exterior, no âmbito do Projeto Temático “Assessment of impacts and vulnerability to climate change in Brazil and strategies for adaptation option”, apoiado pela FAPESP.
Resultados do estudo foram descritos em artigos publicados na revista Climate Research e contribuíram para a elaboração do Atlas de Projeções de Temperatura e Precipitação para o Estado de São Paulo, uma publicação interna do Inpe lançada em 2014, também resultado de projeto.
“Estamos observando na Região Metropolitana de São Paulo um aumento na frequência de chuvas intensas, deflagradoras de enchentes e deslizamentos de terra, distribuídas entre períodos secos que podem se estender por meses”, disse José Antônio Marengo Orsini, pesquisador do Inpe e atualmente no Cemaden.
“Os modelos climáticos projetam que esses eventos climáticos extremos passarão a ser cada vez mais comuns em São Paulo e em outras cidades do mundo e podem até mesmo se intensificar, se forem mantidos o atual ritmo de urbanização e de emissão de gases de efeito estufa”, disse o pesquisador, que coordenou o estudo.
Os pesquisadores analisaram a variabilidade do clima da região metropolitana nos últimos 80 anos por meio de dados diários de chuva referentes ao período de 1933 a 2011 fornecidos pela estação meteorológica Água Funda, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da Universidade de São Paulo (USP). Do período de 1973-1997, foram utilizados também dados de outras 94 estações meteorológicas espalhadas pela região.
As observações indicaram um aumento significativo, desde 1961, no volume total de chuva durante a estação chuvosa, que pode estar associado à elevação na frequência de dias com chuva pesada e à diminuição de dias com precipitações leves na cidade.
Enquanto os dias com chuva pesada – acima de 50 milímetros (mm) – foram quase nulos nos anos 1950, eles ocorreram entre duas e cinco vezes por ano entre 2000 e 2010 na cidade de São Paulo.
Ilha de calor – De acordo com Marengo, as alterações no regime de chuvas em São Paulo podem ser decorrentes da variabilidade climática natural, mas podem também estar relacionadas ao crescimento da urbanização, em especial nos últimos 40 anos, que contribuiu para agravar os efeitos da “ilha de calor” na cidade.
Com o aumento da urbanização, o solo da região – antes exposto e com vegetação remanescente da Mata Atlântica – foi sendo cada vez mais coberto por materiais como asfalto e concreto, que absorvem muito calor e não retêm umidade.
Com isso, durante o dia o clima fica muito quente e, à noite, o calor acumulado é liberado para a atmosfera. A umidade relativa do ar da cidade é reduzida e a evaporação de água do solo para a formação de nuvens é acelerada, segundo explicou Marengo.
“O aumento da taxa de evaporação faz com que mais água do solo seja extraída, deixando-o totalmente seco, como tem acontecido nas regiões dos reservatórios que abastecem a região metropolitana de São Paulo”, disse o pesquisador. “Isso pode contribuir para aumentar o deficit hídrico da cidade”, avaliou.
Projeções climáticas – A fim de avaliar possíveis tendências e alterações no padrão de chuvas extremas até 2100, os pesquisadores fizeram projeções de mudanças climáticas de diferentes regiões do Estado de São Paulo, incluindo a região metropolitana, usando uma técnica chamada downscaling.
A técnica combina o modelo climático regional Eta-CPTEC, desenvolvido pelo Inpe, com os modelos globais HadCM3 e HadGEM2, criados no Reino Unido e usados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), para fazer projeções de curto, médio e longo prazo, com uma resolução espacial de 40 quilômetros.
“Ela permite fazer previsões climáticas mais detalhadas de regiões do Estado de São Paulo, como o Vale do Paraíba ou a Serra do Mar, que não aparecem em um modelo climático global”, explicou Marengo.
O modelo foi rodado pelos pesquisadores com base no cenário 21 SRES A1B de emissões de gases de efeito estufa até 2100, usado pelo IPCC.
Nesse cenário climático, considerado intermediário, as emissões de gases-estufa poderão atingir 450 partes por milhão (ppm) e causar um aumento na temperatura global da ordem de 3 ºC até 2100.
Os pesquisadores realizaram simulações para os períodos de 2010 a 2040, 2041 a 2070 e 2071 a 2100, tendo como base o período climatológico de 1961 a 1990, adotado como padrão para projeções climáticas pela Organização Mundial de Meteorologia.
Os resultados das projeções indicaram que aumentará a frequência e a intensidade de chuvas extremas na região metropolitana de São Paulo e nas regiões norte, central e leste do estado nas próximas décadas.
Por outro lado, as projeções também sugeriram um aumento significativo na frequência de veranicos nessas mesmas regiões, sugerindo que as chuvas extremas serão concentradas em alguns dias e ocorrerão entre períodos de seca mais longos, explicou Marengo.
“As projeções mostram que haverá um aumento dos riscos de enchentes, inundações e de delizamentos de terra na região metropolitana de São Paulo e nas regiões norte, central e leste do estado”, disse o pesquisador.
“As pessoas que moram nessas regiões deverão experimentar um aumento maior de temperatura, assim como mudanças no regime de chuva e secas mais prolongandas”, afirmou.
Vulnerabilidade climática – Segundo Marengo, uma das razões pelas quais essas regiões do estado poderão ser mais atingidas pelas variações climáticas é o fato de terem maior densidade populacional.
Além delas, as regiões do Vale do Paraíba, da Serra do Mar, da Baixada Santista e de Campinas também deverão sentir mais os efeitos das variações climáticas, indicou Marengo.
“Os impactos sociais e econômicos do aumento da temperatura, secas mais prolongadas e mudanças no regime de chuva nesses locais deverão ser maiores”, estimou.
“No caso da região oeste de São Paulo, por exemplo, onde a densidade populacional é menor, os impactos serão relativamente menores, mas também ocorrerão.”
A projeção de aumento da mancha na região metropolitana de São Paulo até 2030, justamente nas áreas mais vulneráveis às consequências das mudanças climáticas, deverão agravar ainda mais o risco de desastres naturais, avaliou o pesquisador.
“Os deslocamentos populacionais causados pelas mudanças climáticas não serão só rurais, porque há mais pessoas vivendo nas cidades do que no campo hoje”, estimou Marengo.
“Se fenômenos recentes, como a seca em São Paulo, mostram que não estamos preparados para enfrentar os problemas relacionados às mudanças climáticas, os resultados do estudo reforçam que esses problemas só tendem a piorar e que é preciso considerar possíveis estratégias de adaptação”, disse Marengo.

Fonte: http://noticias.ambientebrasil.com.br/clipping/2015/02/27/113316-extremos-climaticos-devem-ocorrer-com-mais-frequencia-e-intensidade-em-sao-paulo.html

sábado, 10 de janeiro de 2015

A rota para uma mudança climática imprevisível

A rota para uma mudança climática imprevisível


No lugar das monoculturas industriais, precisamos de uma mudança para práticas agroecológicas que conservem a biodiversidade e garantam a biossegurança.


Vandana Shiva - Esquerda.net

Bioversity International/S. Landersz - Flickr

Os nossos atuais modos de produção e consumo, que começaram com a Revolução Industrial e se agravaram com o advento da agricultura industrial têm contribuído para ambas.
 
Se não forem tomadas medidas para reduzir as emissões de Gases de Efeito de Estufa (GEE), podemos experimentar um catastrófico aumento de 4°C na temperatura até ao final do século. Mas a mudança climática não causa apenas o aquecimento global. Ela está a intensificar as secas, inundações, ciclones e outros eventos climáticos extremos, como testemunhamos em diversas partes do mundo.
 
Nunca tínhamos ultrapassado as 280 ppm (partes por milhão) até à Revolução Industrial e os atuais níveis de CO2 (dióxido de carbono) ultrapassaram as 400 ppm. O óxido nitroso (N2O) e o metano são GEE, como o CO2, só que mais potentes. De acordo com o Relatório da Convenção sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC), o N2O tem cerca de 300 vezes mais potencial para causar o aquecimento global do que o CO2, enquanto que o metano é em torno de 20 vezes mais forte.
 
As emissões de óxido nitroso e de metano aumentaram dramaticamente devido à agricultura industrial. O óxido nitroso é emitido através do uso de fertilizantes nitrogenados sintéticos e o metano é emitido a partir das atividades pecuárias que produzem leite, carne e ovos.
 
A Conferência da Organização das Nações Unidas de Leipzig sobre os Recursos Fitogenéticos, em 1995, avaliou que 75 por cento da biodiversidade do mundo havia desaparecido na agricultura devido à chamada Revolução Verde (programa da Fundação Rockefeller liderado pelo agrónomo norte-americano Norman Ernest Borlaug) e ao advento da agricultura industrial. O desaparecimento de polinizadores e organismos benéficos ao solo é outra dimensão da erosão da biodiversidade devido à agricultura industrial.
 
Mudanças climáticas, agricultura e biodiversidade estão intimamente ligadas. O avanço das monoculturas e o aumento no uso de fertilizantes químicos, combinados com a destruição de habitats, têm contribuído para a perda da biodiversidade, que faria o sequestro de gases de Efeito de Estufa.
 
Monoculturas químicas, mais vulneráveis ao fracasso no contexto de um clima instável, não são sistemas nos quais podemos confiar para garantir alimentos em tempos de incerteza. O processo de adaptação às alterações climáticas imprevisíveis requer diversidade em todos os níveis e, sistemas biodiversos não são apenas mais resistentes às mudanças climáticas, como também mais produtivos em termos de nutrição por hectare.
 
A humanidade estava informada e não adotou medidas destinadas a evitar às crises do clima e da biodiversidade. Na RIO-92, a comunidade internacional assinou dois acordos juridicamente vinculativos: as Convenções sobre o Clima e Biodiversidade; ambas baseadas no conhecimento das ciências ambientais e nos crescentes movimentos ecológicos. Um deles foi a resposta científica ao impacto da poluição dos combustíveis fósseis, o outro foi a resposta científica à erosão da biodiversidade devido à propagação de monoculturas industriais e químicas, bem como à poluição genética causada por organismos geneticamente modificados (OGM).
 
O Artigo 19.3 da Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica prevê que as partes considerem a necessidade de um Protocolo que estabeleça procedimentos para a transferência, manipulação e uso de organismos vivos modificados (OVMs) resultantes da biotecnologia que possam ter um efeito adverso sobre a biodiversidade e seus componentes. Isto levou à implementação do Protocolo de Biossegurança.
 
A biossegurança cientificamente avalia o impacto dos organismos geneticamente modificados sobre o ambiente, a saúde pública e as condições socioeconómicas, garantindo a sustentabilidade social e ecológica de sistemas agrícolas e alimentares. Os sistemas baseados na agroecologia conservam a biodiversidade, aumentam a saúde e a nutrição por área de cultivo, garantem a segurança alimentar e aumentam a resiliência ao clima.
 
Mas, desde 1992, os grandes poluidores – a indústria de combustíveis fósseis e a indústria agroquímica (que é agora também a indústria da biotecnologia) – fizeram todo o possível para subverter os tratados ambientais internacionais sobre mudanças climáticas e biodiversidade, que são obrigatórios e baseados cientificamente. Porém, os seus ataques às ciências ambientais mantêm-se sem a necessária base científica e são absolutamente irresponsáveis, porque eles lançam-nos diretamente nos desastres e catástrofes climáticas enquanto impedem a realização de uma mudança, apesar de evidências científicas mostrarem que temos alternativas melhores e que funcionam.
 
Temos que nos afastar de uma agricultura industrial quimicamente-intensiva e do sistema alimentar global centralizado, baseado na produção de commodities, que contribui para as emissões. No lugar de uma biodiversidade destruída pelas monoculturas industriais, incluindo aquelas baseadas em sementes transgénicas, precisamos de uma mudança para práticas agroecológicas que conservem a biodiversidade e garantam a biossegurança. A transição para uma agricultura biodiversamente-intensiva e ecologicamente-intensiva aborda simultaneamente tanto a crise climática quanto a da biodiversidade, e, ao mesmo tempo, enfrenta a crise alimentar.
 
Embora a agricultura industrial seja um dos principais contribuidores para as mudanças climáticas e mais vulnerável a elas, há uma tentativa por parte da indústria da biotecnologia de usar a crise climática como uma oportunidade para expandir ainda mais o uso de OGMs e aprofundar o seu monopólio das sementes baseadas na biopirataria através de patentes, em detrimento das sementes resilientes ao clima que foram aprimoradas pelos agricultores ao longo de gerações.
 
Mas, como disse Einstein: “Nós não podemos resolver um problema com a mesma mentalidade que o criou”. Sistemas intensivos, centralizados, baseados na monocultura e em combustíveis fósseis, incluindo agricultura OGM, não são flexíveis. Eles não conseguem adaptar-se e evoluir. Precisamos de flexibilidade, resiliência e adaptação a uma nova realidade. Esta resiliência vem da diversidade. Esta diversidade de conhecimento, economia e política é o que eu chamo de Democracia da Terra.
 
A nossa vizinha, Caxemira, enfrentou uma tragédia este ano, assim como Uttarakhand, na Índia, viveu no ano passado. Quando a chuva de um dia possui cinco a seis vezes mais volume do que o normal, é um evento extremo. Isto é o que significa a mudança climática. Ela custou vidas, dizimou vilas, fazendas, estradas, pontes. As atividades humanas criaram desastres como o dilúvio na Caxemira. A ação humana é necessária para prevenir essas catástrofes climáticas. Não podemos ficar como espectadores mudos enquanto o paraíso da Índia na terra torna-se o “Paraíso Perdido”.
 
Artigo de Vandana Shiva* publicado em envolverde.com.br e originalmente na edição 217 da Eco21.
 
* Vandana Shiva é diretora executiva do Fundo Navdanya, física, ecofeminista e ativista ambiental.

Fonte: http://cartamaior.com.br/?%2FEditoria%2FMeio-Ambiente%2FA-rota-para-uma-mudanca-climatica-imprevisivel%2F3%2F32588

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Aiea diz que uso limitado e seguro da energia nuclear pode ajudar clima

Aiea diz que uso limitado e seguro da energia nuclear pode ajudar clima



Agência da ONU afirmou que iniciativa pode reduzir impacto sobre a demanda global de energia; relatório menciona ainda programas nucleares do Irã e da Coreia do Norte.
Yukiya Amano discursa em Viena. Foto: AIEA/Dean Calma
Edgard Júnior, da Rádio ONU em Nova York.
A Agência Internacional de Energia Atômica, Aiea, afirmou que o uso seguro e limitado da energia nuclear pode ajudar a reduzir o impacto que a demanda global de energia está tendo sobre o clima do planeta.
A afirmação foi feita pelo diretor-geral da agência da ONU, Yukiya Amano, esta quinta-feira, durante o lançamento do relatório sobre Mudança Climática e Energia Nuclear 2014, em Viena.
Demanda
Amano disse que a energia nuclear "foi obrigada a representar um papel maior nos programas de energia nacionais no mundo, no momento em que a demanda global de energia deve aumentar drasticamente nas próximas décadas".
Ele explicou que junto "com a energia hidrelétrica e a eólica, a energia nuclear tem os menores índices de emissão de dióxido de carbono, CO2.
O relatório da Aiea foi lançado pouco antes da próxima rodada de negociações sobre o clima, a COP 20, que vai acontecer entre 1º e 12 de dezembro, em Lima, no Peru.
Os países vão debater suas contribuições para reduzir as emissões de carbono antes da reunião final da ONU sobre o assunto marcada para o ano que vem, em Paris.
Coreia do Norte e Irã
Falando à diretoria-executiva da agência, Amano declarou que a Aiea continua "seriamente preocupada"com o programa nuclear da Coreia do Norte. Ele pediu às autoridades norte-coreanas que cumpram com suas obrigações e cooperem imediatamente com o órgão.
Em relação ao Irã, o diretor-geral afirmou que enquanto a agência continua verificando o material nuclear declarado pelo país, a Aiea "não está em posição de fornecer garantias reais sobre a ausência de atividades e materiais não declarados pelo governo iraniano".
Segundo ele, o Irã "não forneceu qualquer explicação que possa ajudar a agência a esclarecer algumas questões, nem propôs novas medidas para a próxima etapa do Quadro de Cooperação, apesar dos diversos pedidos da Aiea".
Amano citou também o caso do acidente da usina Fukushima Daichi, no Japão. Segundo ele, o relatório fala sobre a importância da adoção de medidas de segurança quando se utiliza energia nuclear.

Fonte: http://www.unmultimedia.org/radio/portuguese/2014/11/aiea-diz-que-uso-limitado-e-seguro-da-energia-nuclear-pode-ajudar-clima/?utm_source=twitterfeed&utm_medium=twitter

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Para mudar os ares - Mapas climáticos podem facilitar a reordenação urbana

Para mudar os ares



Mapas climáticos podem facilitar a reordenação urbana
CARLOS FIORAVANTI | Edição 224 - Outubro de 2014

de Campinas, SP
© EDUARDO CESAR
Campinas, terceira cidade mais populosa de São Paulo: entre parques e arranha-céus
Campinas, terceira cidade mais populosa de São Paulo: entre parques e arranha-céus
Ao comparar mapas feitos a partir de imagens de satélite e por simulação de computador, a arquiteta e urbanista Alessandra Prata Shimomura verificou que a temperatura média anual do centro da cidade de Campinas está três graus Celsius mais alta hoje do que há 10 anos. De fato, as ruas José Paulino, 13 de maio, Barão de Jaguara e outras próximas são quentes, abafadas e apinhadas de gente, embora espaçosas e limpas. Mapas de temperatura e de vento, como os que ela fez ao longo de três anos na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e apresentados em primeira mão à Pesquisa FAPESP, permitem uma revisão das estratégias de planejamento urbano, ao indicar as regiões que ficariam mais agradáveis com mais árvores para fazer sombra para os pedestres e as que deveriam ser poupadas de prédios altos demais ou muito próximos, que bloqueiam a circulação do ar, um fenômeno climático pouco lembrado, mas relacionado ao conforto e à saúde das pessoas. Mostrando o valor dessa abordagem, um mapeamento do movimento do vento de Hong Kong em 2002 indicou os bairros mais vulneráveis e ajudou a conter o avanço da epidemia da síndrome respiratória aguda severa (Sars) nessa ilha da China.
© EDUARDO CESAR
Tráfego intenso nas ruas de Campinas, em São Paulo
Ilhas de calor: tráfego intenso nas ruas de Campinas (SP)
Mapas climáticos começam a ser usados mais intensamente. No Brasil, um dos produtos gerados por trabalhos coletivos – como o Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais e a Rede Clima, financiada pelo governo federal – são mapas da vulnerabilidade das grandes cidades brasileiras aos efeitos da mudança do clima, oferecidos a prefeitos e outros gestores do espaço público (ver Pesquisa Fapesp nº 171). Ana Rocha, da Universidade Federal de Santa Catarina, e Eleonora Assis e Simone Hirashima, da Universidade Federal de Minas Gerais, valorizaram a ventilação, a iluminação natural, a umidade e a temperatura ao projetar um conjunto habitacional em Governador Valadares, no interior mineiro. “Diante da necessidade de ventilação, foi feito um estudo do terreno utilizando maquete física e túnel de vento para caracterização dos ventos”, relatam em um artigo publicado em 2012. Elas também consideraram “indispensável promover a formação de grupos multidisciplinares e fomentar a comunicação entre os departamentos envolvidos no processo do projeto”.
Alessandra preparou os mapas de Campinas em colaboração com o geógrafo Antonio Manuel Saraiva Lopes, professor da Universidade de Lisboa, que trabalha nessa área desde os anos 1990. Em 2013, em colaboração com Elis Alves, da Universidade de São Paulo (USP) de São Carlos, Lopes examinou o regime de ventos e a variação de temperatura que resultam na formação de ilhas de calor na cidade de Lisboa. Em todo o mundo, de acordo com um levantamento de Chao Ren e Edward Ng, da Universidade de Hong Kong, e Lutz Kaztschner, da Universidade de Kassel, Alemanha, 15 países – principalmente da Europa e da Ásia, e apenas dois da América do Sul, Brasil e Chile – já adotaram essa metodologia, chamada mapas climáticos urbanos e desenvolvida nos anos 1970 na Alemanha como recurso de planejamento urbano.
© EDUARDO CESAR
Avenida movimentada no centro da cidade de Campinas, em São Paulo
Prédios altos no centro da cidade de Campinas (SP) dificultam a circulação de ar, aquecendo o ambiente
Em um estudo a ser publicado na revistaUrban Climate, Michael Hebbert, professor da University College London, volta ainda mais no tempo e situa os primórdios da climatologia aplicada ao planejamento urbano do século XVIII, com o meteorologista inglês Luke Howard, autor do livro The climate of London, deduced from meteorological observations, publicado em 1833, e outros trabalhos similares na França e na Alemanha. Nessa época, poluição do ar e ventilação preocupavam tanto quanto o abastecimento e a drenagem de água, mas os danos causados pelas chaminés residenciais eram mais difíceis de resolver que a qualidade da água.
“Hoje temos vários instrumentos e tecnologias, como as imagens de satélites e as fotos aéreas e mesmo os drones, que permitem olhar a cidade sob a ótica do clima urbano e facilitam o reconhecimento das áreas mais ou menos aquecidas, com maior ou menor circulação de ar; em parceria com instrumentos de medição de variáveis climáticas”, diz Alessandra. Seus mapas finais, que resultaram de uma combinação de outros mapas e de informações processadas por meio de um programa de computador, indicaram que os ventos vêm do litoral, trazendo tanto a brisa do mar quanto a poluição da cidade de São Paulo, e passam ainda intensos pelas cidades de Valinhos e Vinhedo antes de entrar no centro de Campinas, perder velocidade ao atravessar a cidade e sair em direção a Limeira.
078-081_Urbanismo_224
Em geral, a cidade de Campinas, a terceira mais populosa do estado, depois de São Paulo e Guarulhos, “é satisfatória na escala regional, mas não se deve descuidar”, ela conclui. “Agora poderiam ser feitas análises in loco, para ajustar as conclusões e medir a satisfação dos usuários em cada lugar.” Em escala regional ou local, ela lembra, o clima não é só um atributo intocável da natureza, mas também é construído e depende das decisões das pessoas, que constroem casas ou prédios que barram o vento ou aquecem ou esfriam com rapidez.
Dos mapas climáticos urbanos emergem possibilidades de ação para manter ou melhorar o chamado conforto ambiental, que faz uma cidade, principalmente sua região mais povoada, o centro, agradável ou sufocante. No caso de Campinas, uma das recomendações é preservar os corredores de ventos, como as matas, as grandes avenidas, as rodovias e o fundo dos vales, que ajudam a minimizar o efeito da temperatura nesses locais. Outra é manter a diversidade das formas de ocupação de espaço, conciliando áreas construídas e áreas verdes e abertas como a fazenda do Instituto Agronômico (IAC), já na área urbana. “Campinas ainda não é uma São Paulo”, ela compara, lembrando-se dos vastos tapetes de ruas asfaltadas e prédios quase sem árvores como os da zona leste da capital.
© COLEÇÃO V8 / CENTRO DE MEMÓRIA-UNICAMP
Outros tempos: rua Barão de Jaguara com rua General Osório, centro de Campinas, em 1928
Outros tempos: rua Barão de Jaguara com rua General Osório, centro de Campinas, em 1928
Trabalhos como o de Alessandra sugerem mais atenção a soluções simples e a conceitos antigos, embora nem sempre lembrados, de engenharia e arquitetura. Em um estudo divulgado em setembro, por exemplo, o arquiteto e urbanista da Unicamp Fernando Durso Neves Caetano verificou que muros externos cobertos por plantas, chamados de muros vivos, podem reduzir em até seis graus Celsius a temperatura interna de casas e prédios em dias quentes de verão e, inversamente, retendo o calor nos dias frios.
De modo mais amplo, pode-se pensar em expandir a participação dos cidadãos em suas cidades. Uma das formas cogitadas por Alessandra é a criação de agentes urbanos, que poderiam acompanhar e representar os moradores de um bairro, zelando pelo espaço público e mediando pedidos e reclamações à prefeitura. “Os moradores querem informar ou reclamar sobre problemas das ruas e geralmente têm dificuldade para encontrar com quem falar”, diz ela. “Os pedidos de podas de árvores, por exemplo, podem demorar anos até serem atendidos!” Alessandra, até o final do ano, pretende voltar à Defesa Civil de Campinas e entregar os mapas elaborados com as informações sobre quedas de árvores, galhos, casas e prédios destelhados pelo vento, que ela pediu e lhe passaram há dois anos. “É um retorno que eu tenho de dar”, diz ela. Será seu primeiro encontro com os possíveis usuários de seus mapas.
Projeto
Dinâmica urbana e ordenamento territorial: mapa climático urbano e sua aplicação no planejamento (nº 10/19447-7); Modalidade Jovem Pesquisador; Pesquisadora responsável Alessandra Rodrigues Prata Shimomura (Unicamp); Investimento R$ 63.349,26 (FAPESP).
Artigos científicosHEBBERT, M. Climatology for city planning in historical perspectiveUrban Climate. 2014. on-line.
ROCHA, A. P. de A. et alConjunto para habitação social com princípios bioclimáticos para o município de Governador Valadares, MGRevista de Arquitetura Imed. v. 1, n. 2, p. 122-32, 2012.
Fonte: http://revistapesquisa.fapesp.br/2014/10/09/para-mudar-os-ares/

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Estudo investiga atraso da estação chuvosa na Amazônia

30 de outubro de 2014 

Por Karina Toledo, de Washington

Observações sugerem que a transição do período de seca para o de chuva no sul da Amazônia está ocorrendo cerca de um mês mais tarde do que nos anos 1970 (foto: Neil Palmer/CIAT)
Agência FAPESP – A transição da estação seca para a estação chuvosa no sul da Amazônia costuma ocorrer entre os meses de setembro e outubro. Atrasos nesse processo causam fortes impactos na agricultura local, na geração de energia e no funcionamento dos grandes rios da região, dos quais a população depende até mesmo para se locomover.
As fortes secas que afetaram a Amazônia nos anos de 2005 e 2010, bem como as enchentes de 2009 e 2014, indicam uma crescente variabilidade no início do período das chuvas que os modelos de previsão do clima ainda não são capazes de detectar com sensibilidade.
Compreender melhor os fatores que influenciam essa transição e, dessa forma, aperfeiçoar os modelos matemáticos existentes é o objetivo de um projeto apoiado pela FAPESP e coordenado pelo pesquisador José Antônio Marengo Orsini, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), em parceria com a cientista Rong Fu, da University of Texas, nos Estados Unidos.
"Observamos um aumento de quase um mês na duração do período de seca, quando comparado aos dados dos anos 1970. Os modelos matemáticos existentes indicam que esse atraso no início das chuvas tende a aumentar. Queremos investigar se há influência da pluma de poluição da região metropolitana de Manaus nesse processo", contou Marengo.
A pesquisa está sendo realizada no âmbito da campanha científica Green Ocean Amazon (GOAmazon), que reúne pesquisadores de diversas universidades e institutos brasileiros e norte-americanos e conta com financiamento do Departamento de Energia dos Estados Unidos (DoE, na sigla em inglês), da FAPESP e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), entre outros parceiros (leia mais em:http://agencia.fapesp.br/forcatarefa_investiga_se_oceano_verde_da_amazonia_esta_em_risco/18691/).
Resultados preliminares foram apresentados na terça-feira (28/10), em Washington (Estados Unidos), durante o simpósio FAPESP-U.S. Collaborative Research on the Amazon.
"Evidências da literatura sugerem que a transição do período de seca para o de chuvas é influenciada por fatores externos, como anomalias na temperatura da superfície do oceano, transporte de umidade, entre outros. Mas o gatilho para essa transição está sem dúvida dentro da floresta", disse Fu.
Os pesquisadores estão trabalhando com dois diferentes modelos, um americano, chamado Community Earth System Model (Cesm), e o Modelo Brasileiro do Sistema Terrestre (Besm, na sigla em inglês). Mas, segundo Marengo, eles ainda não são capazes de representar com precisão os impactos da extensão da seca no sul da Amazônia.
Existem parâmetros que precisam ser melhorados, como a inclusão de aerossóis e a representação das nuvens baixas. A ideia é usar toda a gama de dados gerada pelos diversos experimentos do GOAmazon para alimentar esses modelos e aperfeiçoá-los", contou Marengo.
De acordo com o pesquisador, a região sul da Amazônia é a que sofre mais com o atraso do início das chuvas, pois no norte não há um período de seca definido. Além do impacto sobre as populações, os cientistas temem que o prolongamento do período de seca possa causar danos permanentes à floresta.
"O ser humano se adapta, mas a floresta pode começar a secar e ficar mais vulnerável a queimadas. Quando começar a chover pode ser tarde demais. Somente com o aperfeiçoamento dos modelos poderemos ter mais certeza sobre os possíveis impactos", disse Marengo.
Modelando nuvens
Outro projeto realizado no âmbito do GOAmazon que tem como objetivo o aperfeiçoamento de modelos de previsão climática foi apresentado no simpósio em Washington por Tercio Ambrizzi, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP e por seu colega Carlos Roberto Mechoso, da University of California em Los Angeles (Ucla).
"Nosso objetivo é investigar como os aerossóis produzidos pela região de Manaus influenciam o processo de formação de nuvens na Amazônia. Nós comparamos as simulações que os diversos modelos são capazes de fazer com dados reais que estão sendo produzidos nos diversos sítios de pesquisa do GOAmazon", disse Ambrizzi.
Depois de aperfeiçoados, esses modelos poderão ser incorporados em programas que desenham cenários de mudança climática, aumentando o grau de confiabilidade das projeções, afirmou o pesquisador.
Ao todo, o grupo trabalha com cinco diferentes modelos matemáticos, entre eles um de previsão do clima global, um de previsão regional e um voltado especificamente à formação de nuvens. Há ainda um programa capaz de mapear a trajetória das nuvens, desde o desenvolvimento inicial, a maturação e o decaimento, na forma de chuva, com auxílio de imagens de satélite.
Por meio do chamado modelo lagrangiano de difusão de partículas, o grupo de Ambrizzi investiga detalhadamente de onde vem a umidade existente na região da Amazônia e para onde ela se dirige. Os primeiros resultados foram divulgados em artigo publicadona revista Hydrology and Earth System Sciences.
"É possível ver claramente pela trajetória das partículas que as regiões do Atlântico tropical norte e sul são fontes de umidade para a Amazônia. Essas partículas caminham até a região Sudeste, onde se transformam em chuva", disse Ambrizzi.
Sítios de pesquisa
Desde o início de 2014, uma gama enorme de dados sobre composição química de aerossóis e gases atmosféricos, microfísica de nuvens e parâmetros meteorológicos está sendo coletada nos diversos sítios de pesquisa instalados na região amazônica para o projeto GOAmazon.
O chamado sítio T3, localizado em Manacapuru, a 100 km de Manaus, é onde está instalada a estrutura do Atmospheric Radiation Measurement (ARM) Facility – um conjunto móvel de equipamentos terrestres e aéreos desenvolvido para estudos climáticos e pertencente ao DoE. O local recebe a pluma de Manaus após percorrer um longo caminho e sofrer interações com partículas emitidas pela floresta e com a radiação solar.
O T2 está situado no município de Iranduba, situado na margem do Rio Negro oposta à cidade de Manaus, e recebe a pluma de poluição assim que ela é emitida. Lá foi instalado com apoio da FAPESP um contêiner com equipamentos semelhantes aos existentes em Manacapuru.
A infraestrutura para coleta de dados do GOAmazon conta ainda com duas torres instaladas dentro da cidade de Manaus, na sede do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), batizada de sítio T1, e um conjunto de torres ao norte de Manaus – conhecido como T0 –, que inclui a Torre Alta de Observação da Amazônia (Atto), com 320 metros de altura. O T0 está situado no lado oposto ao percorrido pela pluma e representa, portanto, as condições da atmosfera amazônica sem a influência da poluição.
"Estamos analisando os dados das estações antes da pluma de Manaus e depois da pluma de Manaus. A primeira constatação é que, sem conhecer a situação da química atmosférica antes da pluma, no T0, fica quase impossível interpretar os dados coletados no T3, onde está a infraestrutura do ARM", ressaltou Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física (IF) da USP e idealizador do projeto GOAmazon ao lado de Scot Martin, da Harvard University, nos Estados Unidos.
A comparação entre os dados coletados nos diversos sítios, afirmou Artaxo, revela haver forte influência da pluma de Manaus na composição química dos aerossóis e dos gases traço observados em Manacapuru.
"Qual é o impacto e suas consequências ainda vamos analisar. Já vimos, em relação ao ozônio, que há um aumento de até quatro vezes na concentração quando se comparam o T0 e o T3. Passa de 10 partes por milhão (ppm) para 40 ppm após a pluma, chegando a níveis que podem ser danosos às plantas. Vimos também forte efeito no balanço de radiação atmosférica, alterando a quantidade de radiação disponível para as plantas realizarem fotossíntese", disse. 
Fonte: http://agencia.fapesp.br/estudo_investiga_atraso_da_estacao_chuvosa_na_amazonia/20136/