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quinta-feira, 21 de novembro de 2013

13 filmes que discutem racismo na educação

13 filmes que discutem racismo na educação


Consciência Negra. Dia em que se relembra a morte de Zumbi dos Palmares, líder de um quilombo, que lutou incessantemente pela libertação de escravos e por uma sociedade digna. Na perspectiva de discutir como ainda hoje o racismo está presente e como a luta do movimento negro permanece necessária na sociedade brasileira, o Centro de Referências escolheu 13 filmes que tratam da temática no ambiente escolar ou na educação de forma geral. São histórias presentes que nos auxiliam a desvendar a origem dos preconceitos e dar mais passos para que o país como um todo possa vencê-los.
1. Escritores da Liberdade, Richard LaGravenese – EUA/ 2007/Comédia Dramática
Uma nova professora chega a escola tentando mostrar aos estudantes que aquilo que trazem de casa os das ruas faz sentido também dentro da sala de aula. Problemáticas como racismo, desigualdade social e exclusão social dão o mote do filme. Baseado em fatos reais, o longa mostra como a professora Erin Grunwell transformou a relação de aprendizagem  em uma escola dividida por tribos. Escola marcada pela resistência dos estudantes em lidar com as diferenças, é por meio da professora que a discussão de cor/raça é trazida para as atividades, que incluem escrever sobre a história de vida de cada um.
2. Vista a minha pele, Joel Zito Araújo & Dandara - BRA/2004/ Comédia
 O vídeo ficcional-educativo traz em menos de 30 minutos uma paródia sobre como o racismo e o preconceito ainda são encontrados nas salas de aula do Brasil. Invertendo a ordem da história, o vídeo utiliza a ironia para trabalhar o assunto de forma educativa. Nele, negros aparecem como classe dominante e brancos como escravizados e a mídia só apresenta modelos negros como exemplo de beleza.
3. Cultura Negra – Resistência e identidade, Ricardo Malta – BRA/2009 /Documentário
O documentário, produzido pela da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR) e do Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (CEAP), organizações sociais que combatem a intolerância religiosa e buscam por maior visibilidade da cultura negra. Um dos objetivos do vídeo é contribuir com o debate entorno da Lei nº10639/03, que torna obrigatório a inclusão do ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e inclusão, no calendário escolar, do dia 20 de novembro como “Dia da Consciência Negra”.
4. Olhos azuis, Jane Elliot- 1968/EUA/Documentário
O documentário mostra como foi o trabalho desenvolvido pela educadora norte-americana Jane Elliot, que realizou atividades de conscientização tanto com crianças quanto com adultos brancos, em 1968. O vídeo mostra o processo de conscientização realizado durante as oficinas, no qual os brancos poderiam sentir a discriminação sofrida por negros.
5. Ao mestre com carinho, James Clavell, 1967/ EUA
Um engenheiro desempregado começa a lecionar em uma escola pública da periferia de Londres, formada por estudantes rebeldes e também racistas. Aos poucos, ganha a confiança, amizade e respeito dos alunos.
6. Mãos talentosas, Thomas Carter-2009/EUA/Drama
O filme conta a história de um menino pobre do Detroit. Desmotivado por tirar baixas notas na escola, era motivo de bullying de forma frequente. Incentivado a estudar pela mãe, que voltou a estudar já adulta, Ben Carson torna-se diretor do Centro de Neurologia Pediátrica do Hospital Universitário Johns Hopkins aos 33 anos, em Baltimore, EUA.
7. Encontrando Forrester, Gus Van Sant – 2000/ EUA
O filme trata sobre a história  de Jamal, um adolescente do Bronx que vai estudar em uma escola de elite de Manhattan (EUA).  Mas continua sofrendo discriminação e preconceito por conta de sua cor. Com a ida, conhece o talentoso escritor William Forrester , que percebe seu talento para a escrita e o incentiva a prosseguir nessa área.
8. Mentes Perigosas, John N. Smith -1995/EUA/ Drama
A professora Louanne Johnsonganhar dinheiro com artesanato entra em uma escola da periferia norte-americana e é hostilizada pelos alunos. Percebendo que seu método de ensino não está funcionando Louanne passa a se envolver mais com a diversidade cultural de seus estudantes e, assim, percebe melhor as dificuldades que passam.
9. Entre os muros da escola, Laurent Cantet – 2008/ França/ Drama
François Marin  atua como professor de língua francesa em uma escola de ensino médio, na periferia de Paris, composta por estudantes de diversos países da África, do Oriente Médio e da Ásia. Ele e seus colegas docentes tentam buscar diversas ações para ensinar os estudantes, mas ainda assim encontram dificuldades, dada as condições socioeconômicas em volta da unidade escolar.
10. Separados mas iguais, George Stevens Jr – 1991/ EUA/ Drama
Baseado em fatos reais, “Separados, mas iguais” narra a disputa entre pais de alunos negros  e juízes do Condado de Claredon, na Carolina do Sul, no início dos anos 50. Na época, as escolas separavam os alunos brancos, que claramente tinham acesso à educação de maior qualidade acesso à verba para manter a estrutura das escolas.Um diretor da escola , tem o pedido de um ônibus escolar negado, com o apoio do pai de um de seus alunos, entra com processo contra o estado, alegando a inconstitucionalidade do país ao promover escolas diferenciadas para negros e brancos.
11. Sarafina – o som da liberdade, Darrell Roodt – 1992/África do Sul/Musical
Com Whoopi Goldberg no papel principal, o filme conta a história de uma professora sul-africana que não aceita ver seus estudantes se sentindo diminuídos. Em um processo educativo permanente, ela ensina seus alunos negros a lutarem por seus direitos e compreenderem a sociedade em que vivem, não esquecendo que podem diariamente transformá-la.
12. Preciosa, Lee Daniels – 2009/EUA/ Drama
O filme conta a trajetória de Claireece “Preciosa” Jones, uma garota negra que sofre diversas dificuldades. Quando criança, é abusada e violentada pelos pais. Cresce pobre e passa por uma série de discriminações por ser analfabeta e acima do peso. Após muita insistência pessoal e com a ajuda de uma educadora que muito acredita na sua possibilidade de mudança, Preciosa dá a volta por cima.
13. Alguém falou de racismo, Daniel Caetano – 2002/Brasil/Drama
O filme mistura trechos documentais e ficcionais para contar a história de um professor que decide provocar seus alunos a pensarem sobre o preconceito racial e a construção da sociedade brasileira que sistematicamente segregou negros e brancos.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

A bicicleta como extensão do homem em dez cenas no cinema



Qual a relação entre rodas, bicicleta e aviões? O pesquisador canadense Marshall McLuhan (1911-1980) em seu livro clássico “Os Meios de Comunicação como extensões do Homem” faz interessantes interconexões históricas entre esses três meios técnicos e seus desdobramentos culturais como o cinema e a invenção de um veículo com rodas in line como o meio que conduzirá à aviação. Dos insights do pesquisador canadense podemos descobrir secretas conexões entre a invenção da roda, o cinema e as bicicletas na história da cultura. Mais do que isso, descobrimos a base tecnológica de todo o imaginário de iluminação espiritual e transcendência que a bicicleta passa a construir na cultura pop a partir do pós-guerra.

                No capítulo “Roda, Bicicleta e Avião”, McLuhan narra a trajetória dos veículos de tração por arrasto (trenó, esqui etc.) até a tecnologia da roda. Foi necessário muito esforço mental e abstração para separar os movimentos recíprocos com as mãos, do movimento livre das rodas. Os efeitos das carroças de quatro rodas sobre a vida urbana foram extraordinários: desenvolvimento das cidades, separação entre a vida urbana e rural etc. Com as ferrovias e estradas a força configuradora das rodas ganha ainda mais força, até a atual era da informação diminuir o seu poder de moldar as relações humanas.

                Mas as rodas deixaram dois importantes legados para a atualidade: o cinema e a bicicleta. A câmera e o projetor do cinema são significativos por serem constituídos por um conjunto sutil de rodas: enrolar o mundo em um carretel para depois desenrolá-lo na tela. Com a convergência tecnológica, testemunhamos mais um subproduto da era das rodas desaparecendo com a obsolescência do dispositivo cinematográfico: o fim dos rolos de filmes e o início da projeção de filmes digitais diretamente em streaming.

                Mas foi o alinhamento das rodas em tandem que as elevou ao plano do equilíbrio aerodinâmico, trazendo maior intensidade e velocidade. Não foi por acaso que os irmãos Wright eram mecânicos de bikes e que os primeiros aeroplanos pareciam mais com bicicletas. A aerodinâmica, o equilíbrio, a velocidade que quebra a resistência do ar e a condição de suspensão que o ciclista experimenta em deslocamento criaram a conexão com os veículos aéreos.

                Sincronicamente, as rodas alinhadas no dispositivo cinematográfico também estão presentes na bicicleta. Não é à toa que o cinema tão bem representou a evolução do imaginário das bikes na cultura do século XX, de signo da racionalidade do mecanismo na modernidade, passando pela poética realista da sua importância como meio de transporte barato até as conotações mais espirituais ou metafísicas decorrentes da experiência de suspensão que o veículo cria para o usuário. A mesma experiência que levou ao insight da invenção do avião.

"Transformar a vida em impulso"


A bicicleta surge em 1817 na Alemanha pelas mãos do Barão Karl Von Drais que inventou seu laufmaschine (máquina de correr), patenteado por ele como “velocípede” e apelidado posteriormente como “dandy horse”.

                A primeira bicicleta por propulsão mecânica foi construída pelo escocês Kirpratick MacMillan em 1839: um projeto de tração traseira usando pedais conectados por barras de uma manivela traseira semelhante à transmissão de uma locomotiva a vapor.

                Mas é em 1885 que John Starley cria a chamada “bicicleta de segurança” com a dianteira dirigível e uma unidade com corrente para a roda traseira, dando conforto, rapidez e segurança.

Bicicleta: um importante
papel no movimento
feminista
                Se no início, a bicicleta é o símbolo do racionalismo mecânico e do imaginário da máquina como símbolo da organização científica da sociedade moderna como uma “máquina de correr”, após a bicicleta da segurança assume um papel de liberação ao tornar-se peça importante no movimento feminista do início do século XX, dando à mulher a sensação de liberdade e auto-suficiência. “Eu não perderia meu tempo em fricção quando posso transformar a minha vida em impulso”, dizia o norte-americano Frances Wilard em 1895 no seu livro “Como Aprendi a Andar de Bicicleta”, cuja metáfora do ciclismo ajudou a estimular as mulheres a se libertar dos corsets e das saias até os tornozelos para aderirem ao ciclismo.

                Na frase de Wilard já está o registro da experiência de suspensão, impulso, deslocamento acima do solo e liberdade, longe dos tempos das primeiras “máquinas de correr” impulsionadas pelos pés no chão. O simbolismo da bicicleta começa a abandonar o campo imaginário maquínico para criar um imaginário mais espiritual da liberdade e suspensão.

Em postagem anterior fizemos uma relação entre essa experiência de suspensão da bicicleta e o estado alterado de consciência da suspensão que propiciaria estados gnósticos de iluminação espiritual (veja links abaixo): a bicicleta é mais do que um mero instrumento de lazer, é algo mais próximo da declaração política. Velocidade, equilíbrio, uma certa liberdade de espírito, manter a forma, técnica e perfeição tecnológica, na aerodinâmica.

A bicicleta é em si um instrumento musical: o som ritmado da corrente, engrenagens, a respiração e batimento cardíaco, tendo como fundo o som contínuo “shhhhhh” do contato do pneu no asfalto. Tal como um mantra, confere uma “liberdade ao espírito” ao esvaziar a mente, seja pela repetição de sons e movimento, seja pelo esgotamento físico. Montar na bicicleta e se deslocar velozmente como se estivesse suspenso e, ao mesmo tempo, o som ritmado do corpo e do mecanismo anulando a atividade racional/mental.

  Por exemplo, a música “Bike” do Pink Floyd de 1967 associa a experiência de andar com uma bicicleta munida de cesta e campainha a ouvir uma melodia com rimas e ressonâncias que surgem do mecanismo da bike, e convida a mulher amada a escutá-la. É um exemplo dessa representação espiritual e transcendente da bicicleta na cultura pop de pós-guerra.

Acompanhe o trajeto da construção do imaginário das bikes no cinema nessas dez cenas selecionadas:

1 – A Saída dos Operários da Fábrica (1895)




Nesse filme projetado na primeira exibição pública de apresentação do invento vemos operários saindo de uma fábrica em Lyon, França. Operários com suas bicicletas, montados ou desmontados saem junto com os pedestres. A bicicleta ainda dentro do seu significado moderno como “máquina de correr”, integrada ao cotidiano fabril e à racionalidade contemporânea.

2 – Ladrões de Bicicletas (1948)



Clássico do neo-realismo italiano de Vitório de Sica onde numa Itália arrasada pela Segunda Guerra todos lutam para sobreviver em bairros operários em meio a ruas degradadas e ladrões de ocasião. No neo-realismo, cineastas decidem sair dos estúdios e filmar nas ruas com atores não profissionais para arrancar poesia de uma estética realista e documental. E a bicicleta surge aqui como signo principal da vida dura, como veículo barato e prático para tempos difíceis. Aqui, a bike se liberta do imaginário maquínico da modernidade para ser investida por um poético significado: como tábua de salvação em uma sociedade que afunda.

3 – Clube da Luta (1999)





Andar de bicicleta dentro de casa não é algo recomendável. Por isso a cena do filme Clube da Luta onde o personagem principal lê um livro para pacientes com câncer enquanto Tyler Durden anda de bicicleta pelos cômodos da casa ganha um grande significado: a bike como símbolo de inconformismo e revolta em um filme contra a sociedade consumista que prende as pessoas a objetos e trabalhos sem sentido.

4 – Cinema Paradiso (1988)



Forçado pelas dificuldades econômicas de pós-guerra na Sicília, Toto é forçado a trabalhar na igreja local, uma atividade que ele não ama tanto quanto sair com Alfredo, proprietário do cinema local. Nesta cena, com a sua bicicleta Alfredo resgata o menino do seu enfadonho trabalho religioso após o menino encenar um acidente. A bicicleta é o veículo de libertação: da tediosa rotina para a fantasia e o sonho do cinema.

5 -  “Quicksilver – O Prazer de Ganhar” (1986)


Dentro do subgênero “desconstruindo o Yuppie” muito comum nessa década (“Totalmente Selvagem”, 1986; “Depois de Horas”, 1985), Kevin Bacon faz um especulador que perde tudo na Bolsa. Desencantado de tudo vai ganhar a vida comobike courrier nas ruas de Nova York. Através da bicicleta descobre a liberdade e o colorido das ruas, como nessa sequência onde as acrobacias com uma bicicleta se encontram com a breakdancing. Mais uma vez, bicicleta é o veículo da liberdade e novas descobertas.

6 – “Os Goonies” (1985)

 

Um grupo de crianças que se autodenominam “Os Goonies” acham um mapa que supostamente os levará ao tesouro de um pirata do século XVII. Isso às vésperas de suas casas serem demolidas devido à expansão de um clube de campo local. Eles têm um plano para salvar suas casas com o tesouro, mas para isso terão que fugir dos adultos e do irmão mais velho com suas bicicletas. A bicicleta como instrumento de fuga para aventuras e veículo para a descoberta de um outro mundo que os fará crescer.

7 – “A Grande Farra dos Muppets” (The Great Muppet Caper, 1981)

 

Olhando essa sequência filmada no Battersea Park, Londres, ficamos pensando: como eles fizeram isso? Quem se importa, quando estão reunidos nessa sequência todos os sentidos que o cinema atribui às bikes: liberdade, leveza, estado de suspensão, aventura e poesia. E surrealismo: Miss Pig e Caco, o Sapo pedalando e cantando.

8 – “Vidas Sem Destino” (Gummo, 1997)


Aqui temos a sequência de bike com as crianças mais assustadoras do cinema. “White trash” - ou Lixo Branco, termo utilizado para pessoas brancas de baixíssimo estatuto social, cultural e econômico. Um filme sobre a rotina dos moradores sem esperança de uma cidade devastada por um tornado. Já não há mais adultos, e as crianças vivem por si mesmas. Aqui, a bicicleta BMX (recorrente na década de 1980, sempre associada à infância, aventura e audácia) está associada a jovens niilistas e sem esperanças. O passeio de bike é para observar a cidade imunda e desorganizada.

9 – “ET” (1982)

 

Talvez a mais emblemática cena de bicicleta na história do cinema: o protagonista Eliot atravessado o céu montado na sua BMX, tendo a Lua ao fundo e um pequeno alienígena em sua cesta. Temos a representação icônica da experiência de suspensão que a bicicleta pode proporcionar: o estado alterado de consciência de silêncio pelo esvaziamento da mente na integração homem, máquina e natureza.

10 – Butch Cassidy and The Sundance Kid (1969)


Com certeza, a melhor sequência com bicicleta da história do cinema, um perfeito vídeo-clip dentro do filme ao som de “Raindrops Keep Fallin’ on my Head” cantada por B.J. Thomas. E também uma sequência bem simbólica: a história da dupla de bandidos marca o fim da era do romântico “velho oeste” e o início da modernidade. Cansados de serem perseguidos pela polícia, eles fugirão para a Bolívia. É o fim de uma era, aqui representada na sequência onde Butch Cassidy apresenta para Etta o símbolo do futuro e da modernidade que está por vir: a bicicleta.

Por isso essa sequência é esteticamente perfeita, mas ideologicamente regressiva em relação ao imaginário libertário da bicicleta que estava sendo delineado no cinema desde o pós-guerra. Ao se mostrar para Etta fazendo malabarismos na bike ela dá de encontro com uma cerca, leva um tombo e depois é perseguido por um touro. Acidente premonitório com relação ao futuro dos protagonistas e o fim de uma era romântica.

domingo, 3 de novembro de 2013

Em O Capital (2012), adaptação de novela francesa, Costa-Gavras acerta mais uma vez

Em O Capital (2012), adaptação de novela francesa, Costa-Gavras acerta mais uma vez


Em O Capital (2012), Costa-Gavras acerta mais uma vez. E reafirma seu mote: "Todo filme é político. Nada mais político do que os filmes de super heróis."


Léa Maria Aarão Reis - 02/11/2013

unifrance.org

O Capital (Le Capital, 2012) - Trailer HD Legendado



Não foi difícil para o escritor francês Stéphane Osmont,  economista egresso dos altos quadros da banca europeia, fazer o papel de oráculo quando escreveu a novela Le Capital, em 2004. Assim como o economista americano, Nouriel Rubini, um ano depois, o autor de festejados trabalhos de ficção (?) na área financeira (O manifesto e A ideologia) previu a crise que se abateria pelo mundo, em 2008, com origem na especulação desenfreada, nos Estados Unidos. Ele foi consultor financeiro e conheceu bastante bem os bastidores das altas apostas com as fortunas sem fronteiras.
 
Lançado no ano passado, O capital, adaptado para o cinema pelo cineasta Costa-Gavras (do célebre Z, de Estado de sítio, A confissão, Desaparecido e Music Box, muito mais que um crime entre outros; e agora em cartaz no Brasil há várias semanas) mostra o protagonista, o banqueiro Marc Tourneil interpretado pelo ator franco-marroquino, excelente, Gad Elmaleh, virando-se para a plateia e exclamando, cìnicamente, durante uma reunião com ávidos acionistas: ”Continuaremos tirando dos pobres para dar aos ricos neste jogo, meus senhores. Até que tudo isto exploda!”
 
A história pessoal da ascensão financeira de Tourneil no banco Fênix – é sempre bom lembrar: aquele que ressurge das cinzas -, e estruturada nos mais perversos jogos de poder, é o fio condutor para um passeio macabro pelos labirintos sujos do mundo do dinheiro, do poder, do sexo. Remete a Marx ao avesso – no título do livro e do filme - e ao “horror”, a que se referia, no seu livro seminal, Viviane Forrester, em 97 – O horroreconômico.
 
Mais uma vez Costa-Gavras acerta, prosseguindo na sua obra de filmes ditos “políticos”. Quando o interpelaram porque só faz cinema político, ele respondeu: ”Não existe cinema político. Todo filme é político. Nada mais político do que os filmes de super heróis.” 
 
Neste mais recente trabalho enxuto, preciso e eficiente, pontilhado das ironias de Osmont e do cinismo dos executivos, pelo qual alguns críticos não se entusiasmaram (acharam “esquemático”) Costa-Gravas reproduz algumas observações literárias à perfeição, nos tempos cinematográficos justos, sem pernosticismos, permitindo que qualquer espectador tenha acesso à trama. Exemplos de algumas das observações dos personagens: ”A moral do capital é deixar os ricos mais ricos e os pobres mais pobres.” Ou: “Os estados democráticos não podem mais se livrar dos bancos que os asfixiam”. E mais: “Você é respeitado pelo salário que recebe e para tal é preciso possuir dinheiro.”
 
Outra delas: quando Tourneil responde, rindo, à sua mulher, no tom farsesco  que permeia o filme, e prestes a decidir o seu futuro se aproveitando de um vácuo de poder: “Quem é o presidente neste momento? Quem está no poder? É uma piranha gorda chamada A Conjuntura.” 
 
E a apologia da mentira, quando o banqueiro é entrevistado pela primeira vez, de supetão, durante uma mega festa organizada pela indústria de marcas luxuosas e se sai com esta: “O luxo é democrático! É um direito de todos!” Em seguida comenta, rindo, baixinho, também aqui para sua mulher: ”Agora aceito dar qualquer entrevista. A gente diz uma bobagem e pronto.”
 
O esquema é bastante conhecido, mas nunca é demais lembrá-lo. “Somos um bando de caçadores”, se autodenominam os grandes acionistas, em Miami, capitaneados pelo acionista mor do banco Fênix (outro excelente ator, Gabriel Byrne). Dizem os banqueiros franceses: ”Eles (referindo-se aos investidores dos fundos especulativos americanos) querem ganhos do capitalismo de caubói. Porque lá eles não têm empecilhos; não têm leis sociais como as nossas. Esses americanos adoram Paris, mas detestam a França”.
 
Depois de filmar a ditadura grega dos anos 60; o estalinismo na Europa Central; a tortura na aliança militar do Cone Sul (seu filme Estado de sítio não chegou a estrear em Washington e foi banido do Centro Kennedy porque seria “inapropriado”); os primeiros trágicos meses da ditadura chilena e os crimes de guerra do nazismo, agora, aos 80 anos Costa-Gavras mostra que está novo em folha, mordaz como de hábito - “A Europa se transformou em um grande supermercado”, observou recentemente – sempre ocupado em denunciar. 
 
Esquemático? Ou ativista?
 
Certo é que a aliança com Osmont, de 55 anos, uma geração depois da sua, deu certo. Os dois trabalham juntos nos grandes assuntos do nosso tempo: as conseqüências nefastas da globalização, o massacre das demissões em massa, o desemprego; os mercados desregulados, os abismos entre ricos e pobres; os produtos tóxicos oferecidos pelos bancos. 
 
Em mais um dos diálogos que mantém com a mulher (ela é um dos lados da sua consciência que o aguilhoa) Tourneil lembra duas coisas fundamentais. Primeiro: ”Neste mundo das finanças ninguém denuncia ninguém; é como na máfia”. Segundo: “Para que eu quero mais dinheiro? O que mais há além dele?”


Créditos da foto: unifrance.org

domingo, 6 de outubro de 2013

A internacional capitalista

A internacional capitalista


Em O Capital, Costa-Gavras encena as ambições sob o jogo do mundo financeiro

por Orlando Margarido — publicado 06/10/2013
O Capital
Alcateia. Tourneuil (Gad Elmaleh) integra o corpo que prova o fim das ideologias

Na constatação mais evidente, O Capital, novo filme de Constantin Costa-Gavras que estreia na sexta 4, está estruturado no modelo temático tradicional de poder, dinheiro e mulheres. Em princípio, o protagonista Marc Tourneuil (Gad Elmaleh) gravita entre esses três elementos sem muita certeza, e principalmente destreza, de como lidar com eles. Divide essa dúvida vez ou outra com o espectador, olhando a câmera, ou na voz em off. Esse recurso e o fato de a trama se vincular à dança financeira dos bancos internacionais, cenário do livro adaptado de Stéphane Osmont, conferem, no entanto, outra potência ao drama do que mero retrato de uma ambição individual.
É de Costa-Gavras o olhar que se sabe político, termo por ele mesmo questionado, mas de todo modo voltado ao coletivo, ao que se passa em torno.  Seja esta perspectiva da Igreja sob o nazismo em Amen ou o desespero do desemprego em O Corte. Como tal, a crise bancária e dos mercados não poderia ser apenas documentada, mas deveria também refletir a ética e os valores em um jogo pesado que descarta os mais fracos e impõe o homem da vez, mesmo não sendo o definitivo. Tourneuil é essa figura à mão quando um banqueiro francês se descobre condenado por um câncer e o elege seu substituto, à frente de uma alcateia faminta pelo cargo.
Tem início a roda de traições, revezes e cifras altas que se expandem aos Estados Unidos, sob a pressão de um executivo determinado a um golpe (Gabriel Byrne), e ao Japão, na forma de um banco condenado, na permissiva rede de desdobramentos conhecida.
Não será apenas o desafio de vencer as ameaças pela ganância o ponto mediador das ações do personagem. Também por um lado a sedução de uma bela modelo (Liya Kebebe), a quem não recusa, e por outro as convicções morais firmes da mulher (Natacha Régnier), que com sua leitura muito particular de Mao Tsé-tung impulsiona o marido a uma reforma controversa no banco. Nesse ponto, Gavras nos mostra que as fronteiras deixaram de existir não apenas no mundo das finanças, mas também no das ideologias.

domingo, 15 de setembro de 2013

Condor: operação militar que mata, tortura e sequestra pessoas

Condor: operação militar que mata, tortura e sequestra pessoas


Filme brasileiro mostra como acordo militar entre os países do Cone Sul levou à morte opositores das ditaduras na América Latina nos anos 1970. A operação foi instituída em novembro de 1975 no Chile, onde os militares dos seis países assinaram um documento que estabelecia uma aliança. Por Gérson Trajano


Em ‘Condor’, documentário de Roberto Mader (2007), sobre uma operação conjunta dos governos militares dos países do Cone Sul nos anos 1970: Brasil, Argentina, Chile, Bolívia, Paraguai e Uruguai, com o apoio dos Estados Unidos, a fim de neutralizar e reprimir qualquer ação que se opunha aos regimes e que vitimou mais de 30 mil pessoas, segundo dados das comissões de Direitos Humanos na América Latina, Jarbas Passarinho pede para que esqueçamos os mortos durante o período militar e que o Brasil vire logo essa página da história.

Passarinho, ex-coronel do exército brasileiro, foi ministro de três governos militares durante a ditadura (1964-1985), senador da República e ainda comandou a pasta da Justiça na gestão Fernando Collor (1990-1992). Em outro depoimento no filme, ele admite que houve um golpe de Estado no Brasil em 1964. “Nos tivemos que almoçá-los antes que eles nos jantassem”, diz, como justificativa para a conduta dos militares. 

O coronel também admite a existência da operação Condor, afirmando que ela foi muito mais do que apenas uma troca de informações. Durante duas décadas negou-se a existência dessa operação, sendo tratada como um exagero paranóico, um revanchismo por parte das vítimas e de seus familiares oprimidos pelos governos militares.

A operação foi instituída em novembro de 1975 no Chile, onde os militares dos seis países assinaram um documento que estabelecia uma aliança na troca de informações sobre os ativistas de esquerda, práticas contra alvos suspeitos e ações em países estrangeiros. Curiosamente, o Brasil participou da aliança mas não assinou o acordo.

A operação tinha como função principal combater o terrorismo internacional, que era representado pelos comunistas. Mas a ação não distinguia os meros opositores políticos e ideológicos dos que pegaram em armas para derrubar as ditaduras, mas sendo da mesma maneira, presos, sequestrados, torturados e assassinados brutalmente.

O filme de Mader não fala das estatísticas de mortos e desaparecidos, ou entrevista especialistas sobre o assunto. O diretor preferiu apresentar histórias humanas de pessoas cuja vidas mudaram para sempre em decorrência do acordo firmado em 75. Como é o caso da uruguaia Sara Mendez, que foi seqüestrada com seu filho Simón, que tinha poucas semana de vida. Depois de torturada e solta, ela começou uma incansável procura pelo filho e só o reencontrou 25 anos depois. Simón havia sido criado por um pai policial.

A também uruguaia Victoria Larraberti, teve seus pais presos e torturados. A família fugiu para a Argentina, quando Victoria tinha um ano e meio de idade e seu irmão, Anatole, quatro anos de vida. Os pais foram capturados e assassinados na frente dos filhos. Victoria e seu irmão foram levados de volta ao Uruguai e mantidos em centros de detenção até que finalmente foram levados para um terceiro país, o Chile de Pinochet. Lá, foram adotados e mesmo depois de encontrados pela família biológica continuaram vivendo no Chile. 

O documentário descreve com detalhes a operação, mostrando as evidências dos assassinatos políticos de Orlando Letelier, em Washington (Estados Unidos), e de Carlos Prats, em Buenos Aires (Argentina), ambas figuras de destaque no governo Salvador Allende, presidente deposto por Augusto Pinochet em 1973. Mostra também a dimensão da operação, que, em determinados momentos, chegou a eliminar simultaneamente mais de uma centena de opositores do regime militar chileno.

Patrício Polanco, dirigente do MIR – Movimento de Esquerda Revolucionário –, que defendia a luta armada, mesmo enquanto ocupava um posto no governo Allende, fala de como resistiu às humilhações e às degradações num campo de concentração criado pelo governo Pinochet exclusivamente para torturar e matar seus opositores. O filme revela as únicas imagens feitas num campo de concentração chileno dessa época.

A operação fechou o cerco sobre toda a esquerda latino-americana. Quando do golpe em 1964 no Brasil, muitos esquerdista fugiram para o Chile, mas com a queda de Allende e a Condor em execução, Pinochet passou a perseguir os brasileiros em seu país e a informar o governo brasileiro.

A opção de muitos foi se refugiar na Argentina. Mas a partir de 1976, com o governo do general Jorge Videla, já não era tão seguro viver no país, que com os militares no poder viveu uma das ditaduras mais sangrentas na região.

O documentário traz ainda uma entrevista com John Dinges, escritor e jornalista, autor do livro Os anos Condor. Ele conta como foi a participação do general Manoel Contreras, braço direito de Pinochet e comandante da polícia secreta do Chile durante a pior fase de terror do estado chileno. 

Contreras foi um dos idealizadores da operação Condor e de 1973 a 1978 comandou a Dina – Direção Nacional de Inteligência – apontada como responsável pelo assassinato e desaparecimento de 3. 200 pessoas. No filme, ele diz que nos quartéis da Dina nunca se torturou ninguém. Segundo ele, isso não passava de propaganda comunista. 

Atualmente Contrares está em prisão militar, onde cumpre 400 anos de pena por desaparecimentos, execuções e torturas de pessoas quando comandava a polícia política de Pinochet.


domingo, 11 de agosto de 2013

E se o mundo ainda não estiver pronto antes da chegada do nosso olhar?

E se o mundo ainda não estiver pronto antes da chegada do nosso olhar?


Em um ‘Encontro com Milton Santos – O mundo global visto do lado de cá’ (2006), de Sílvio Tendler, descobrimos que há três mundos em um só. Tese: o 1º é a imagem idílica que dele desponta do mundo – a globalização como fábula. Antítese: o 2º é o mundo como ele é – a globalização como perversidade. Síntese: o 3º é o mundo como ele pode ser – uma outra globalização.


Moscou, 2008. Em uma aula de língua russa na RUDN, a Universidade Russa da Amizade dos Povos, há um tanzaniano, uma francesa, um americano, uma mongol, dois turcos, um chinês e dois brasileiros, entre os quais o autor deste texto. Como um estudante ocidental, sempre observei o mapa do mundo com a proeminência da região atlântica. Eis que Li Cheng, o simpático chinês ao meu lado, abre uma agenda multiuso de cuja contracapa desponta uma ordem mundial outra. No mapa de Li, a China desponta como o coração do mundo. Ainda que eu pudesse compreender as implicações geopolíticas de tais construções diferenciais, confesso que meu olhar forjado pelo Ocidente me acostumou a ver e a naturalizar o Atlântico como o eixo do mundo. 

“O centro do mundo está em todo lugar. O mundo é o que se vê de onde se está”. Assim falou Milton Santos (1926-2001), o geógrafo brasileiro que refletiu profundamente sobre o processo de globalização capitalista como uma tensão dialética. Em um ‘Encontro com Milton Santos – O mundo global visto do lado de cá’ (2006), documentário dirigido por Sílvio Tendler, descobrimos que há três mundos em um só. Tese: o primeiro é a imagem idílica que dele desponta do mundo – a globalização como fábula. Antítese: o segundo é o mundo como ele é – a globalização como perversidade. Síntese (há muito inviabilizada pelos donos do poder): o terceiro é o mundo como ele pode ser – uma outra globalização. 

“Nunca na história da humanidade houve condições técnicas e científicas tão adequadas para construir o mundo da dignidade humana. Ocorre que essas condições foram expropriadas por um punhado de empresas que decidiram construir um mundo perverso. Cabe a nós fazer dessas condições materiais a condição material da produção de uma outra política”. O professor Milton Santos entrevê a discrepância entre os Estados nacionais que, como os Estados Unidos, vaticinam o arrefecimento do Estado-Nação, mas, ao mesmo tempo, exponencializam seus gastos militares e fortalecem as próprias demandas a despeito dos países combalidos. A circulação de capitais e mercadorias não poderia ser mais intensa e global, ao passo que a circulação das pessoas esbarra nas fronteiras farpadas e, no limite, na introjeção da própria lógica do escravo. “Aquele não é o meu lugar, eu devo ficar aceitar minha condição”. Mas Milton Santos entrevê o surgimento da antítese contestatória quando o torpor e a inércia mais parecem consolidados. “Penso sempre em meio ao processo contraditório. Tenho muito medo da ortodoxia, do marxismo ortodoxo, do pensamento que não se renova, que não se historiciza. É quando há o risco da religião e do dogma. Assim, num sentido heterodoxo, eu me considero um marxista e um marxizante. Pois se tudo se torna capitalista, obrigatoriamente a contradição se instala”. 

Sílvio Tendler cita um fragmento de ‘Geopolítica da Fome’, de Josué de Castro, para ilustrar a tensão contraditória que contrapõe a tese das grandes corporações à antítese do miseralato. “A humanidade se divide em dois grupos: o grupo dos que não comem e o grupo dos que não dormem com receio da revolta do que não comem”. Porque a inanição historicamente (re)produzida, como bem ensina Milton Santos, não se refere a uma restrição das forças produtivas, mas à distribuição da riqueza social que os donos do poder insistem em chamar de “recursos escassos”. Assim, o desemprego e a pobreza atuam como forças da natureza; trata-se, segundo os porta-vozes da opressão, de fenômenos cíclicos contra os quais somente se pode proteger atrás dos muros altivos e farpados dos condomínios-bunkeres. No mais, se os sindicatos e as entidades de classe protestam pela manutenção e expansão dos direitos trabalhistas, as grandes corporações podem globalizar a produção e particularizar os salários. Socialização das perdas, privatização dos lucros. A jaqueta cujo tecido foi costurado no Bom Retiro, o zíper foi fabricado na Malásia e os botões, na China, custa menos para o consumidor final por conta dos centavos que mal forram os pratos daqueles agora rebaixados a subproletários. Pois é preciso orar financeiramente diante do altar do consumo, “este sim o verdadeiro fundamentalismo da contemporaneidade”.

Mas mesmo com o poder mundial das grandes corporações e de seus Estados nacionais fortemente armados, Milton Santos entrevê importantes possibilidades de resistência justamente no conceito contraditório de humanidade. Quando dos primórdios da globalização, com as grandes navegações primeiramente capitaneadas pelos portugueses, a expansão territorial significou a submissão colonial e a chacina dos povos nativos. O outro era visto como escravo. A globalização de nossos tempos comporta um fator de dominação ainda mais brutal e cínico, pois a pobreza é fomentada e explorada a despeito da possibilidade de erradicá-la. Mas, agora, as distâncias planetárias se tornam contíguas não apenas para as grandes corporações e os aparelhos de repressão, mas também para os movimentos de contestação. As causas sociais deixam de ser meramente locais para se articularem mundialmente. Se a exploração é global, o desenvolvimento tecnológico passa a ser alvo de disputa, pois suas benesses são impessoais e dependem de quem delas se apropria – as grandes corporações e sua lógica instrumental de exclusão e maximização dos lucros ou a grande maioria da humanidade representada pelos movimentos de resistência que pretendem reconstruir o mundo sobre novas bases. 

Milton Santos, que se considerava um intelectual outsider por não pertencer a nenhum partido político, por não ter credo, por não fazer parte de nenhum grupo intelectual, estruturou seu pensamento sobre a dialética que diagnostica a desestruturação do presente para, em meio aos escombros entre os quais os oprimidos precisam se esgueirar, projetar o reordenamento futuro do real. Algo como uma retomada do ímpeto do marxista italiano Antonio Gramsci, que, acossado pelo cárcere do ditador fascista Benito Mussolini, propugnou pelo pessimismo do intelecto para que o otimismo da vontade e da resistência se tornasse libertador. “É preciso explicar por que o mundo de hoje, que é horrível, é apenas um momento do longo desenvolvimento histórico e que a esperança sempre foi uma das forças dominantes das revoluções e insurreições. Eu ainda sinto a esperança como minha concepção de futuro”. (Jean-Paulo Sartre, no prefácio de Os condenados da terra, de Frantz Fanon.) 

Há 10 anos, quando eu começava a caminhar pelo corredor polonês da dialética, as várias leituras que Milton Santos me propiciava me levaram a um livro de homenagens ao grande intelectual brasileiro e universal – o local como momento indissociável da configuração histórica universal, mas sem perder suas características de identidade e resistência. Cheguei a um fragmento que falava sobre a juventude do escritor russo Liev Tolstói. Quando criança, o menino Tolstói, trêmulo, tinha medo de olhar para trás. “E se o mundo ainda não estiver pronto antes da chegada do meu olhar?” Se tivesse lecionado para o jovem Tolstói, o geógrafo baiano de Brotas de Macaúbas teria ensinado ao autor de Guerra e Paz que novo ainda desconhecido pressupõe não apenas o temor da expectativa incerta, mas o ímpeto da descoberta e da transformação. 

*Flávio Ricardo Vassoler é escritor e professor universitário. Mestre e doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, é autor de O Evangelho segundo Talião (Editora nVersos) e organizador de Dostoiévski e Bergman: o niilismo da modernidade (Editora Intermeios). Periodicamente, atualiza o Subsolo das Memórias, www.subsolodasmemorias.blogspot.com, página em que posta fragmentos de seus textos literários e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.