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sexta-feira, 27 de junho de 2014

Para compreender Michel Foucault

Para compreender Michel Foucault



Há trinta anos, morria filósofo-ativista que recusou papel de líder, mas estimulou a transgredir “verdades” fabricadas e eternizadas pelo poder. Por Bruno Lorenzatto

por Bruno Lorenzatto — publicado 26/06/2014


“Mostrar às pessoas que elas são muito mais livres do que pensam, que elas tomam por verdadeiro, por evidentes, certos temas fabricados em um momento particular da história, e que essa pretensa evidência pode ser criticada e destruída.”
(Michel Foucault)

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Michel Foucault fala ao megafone ao lado de Jean-Paul Sartre, em manifestação

Há trinta anos, em junho de 1984, morria em Paris Michel Foucault. Um pensador do século XX que inventou certo modo radical de pensar, que atravessa este início de século: suas reflexões permanecem fundamentais para os movimentos de contestação política e social; para todos aqueles que desejam “saber como e até onde seria possível pensar de modo diferente”.
Foucault participou teórica e praticamente dos movimento sociais que poderíamos chamar de vanguarda de seu tempo, sobretudo durante as décadas de sessenta e setenta: a luta antimanicomial (sua experiência num hospital psiquiátrico foi uma das motivações que o levou a escrever História da Loucura); as revoltas nos presídios franceses (junto com Gilles Deleuze criou o GIP – Grupo de Informação sobre as Prisões, que buscava dar voz aos presos e às outras pessoas diretamente envolvidas no sistema prisional; com base nessa experiência escreveu Vigiar e Punir); o movimento gay (uma das motivações para sua História da Sexualidade).
O pensador francês também escreveu artigos para jornais e revistas no calor da hora sobre acontecimentos importantes, deu conferências e entrevistas em diversos países, inclusive no Brasil. Contrapunha seu papel de intelectual ao “intelectual universal”, isto é, uma espécie de líder que pensa pelas massas e as dirige para a “verdadeira” luta. O filósofo via a si mesmo como um “intelectual específico”, aquele que em domínios precisos contribui para determinadas lutas em curso no presente. Parafraseando Deleuze, Foucault foi o primeiro a ensinar a indignidade de falar pelos outros.
Ele dizia que suas pesquisas nasciam de problemas que o inquietavam na atualidade: evidências que poderiam ser destruídas se soubéssemos como foram produzidas historicamente; por isso fez da ontologia (o estudo do ser, um modo de reflexão geralmente desligado da realidade histórica, uma vez que busca princípios – as ideias, para Platão; o cogito, para Descartes; o sujeito transcendental, para Kant – que antecedem e, por assim dizer, fundam a história) uma reflexão em cujo cerne está o presente e, portanto, a investigação histórica.
Através de estudos transdisciplinares (e não entre disciplinas, pois trata-se de colocar em questão os limites entre elas), Foucault deu forma a uma crítica filosófica que recorre sobretudo à pesquisa histórica, para questionar as maneiras pelas quais certas verdades e seus efeitos práticos vieram a se formar e se estabelecer no presente.
Questionava assim os sistemas de exclusão criados pelo Ocidende quando do início da época moderna (na cronologia de Foucault, desde fins do século XVIII):
- o saber médico e psiquiátrico – a patologização e a medicalização como formas modernas de dominação sobre seres economica e socialmente inconvenientes, os loucos;
- o nascimento das ciências humanas e da filosofia moderna como saberes que atestam a invenção do conceito de homem, transformando o ser humano, ao mesmo tempo, em sujeito do conhecimento e objeto de saber: o grande dogma da modernidade filosófica;
- a prisão e outras instituições de confinamento (tais como a escola, a fábrica, o quartel) não como um avanço nos sentimentos morais e humanitários, mas como mudança de estratégia do poder, que visa o disciplinamento e a docilização dos corpos;
- a sexualidade como dispositivo histórico de objetivação (o indivíduo como objeto de saber e ponto de aplicação de disciplinas) e subjetivação (o modo segundo o qual o sujeito se reconhece enquanto tal) do corpo, através dos quais se implica uma verdade essencial do homem. Não deixa de ser notável o fato de o Ocidente ter inventado um ritual singular segundo o qual algumas pessoas alugam os ouvidos de outras (os psicanalistas) para falarem de seu sexo.
Às suas pesquisas, ele chamou ontologias do presente: um modo de reflexão, segundo Foucault iniciado por Kant, em que está em jogo o vínculo entre filosofia, história e atualidade. A tarefa de pensar o hoje como diferença na história. Mas se a questão para Kant era a de saber quais limites o conhecimento deve respeitar (os limites da razão), em Foucault a questão se converte no problema de saber quais limites podemos questionar e transgredir na atualidade, isto é, “dizer o que existe, fazendo-o aparecer como podendo não ser como ele é” (2008, p. 325).
Nesse sentido, o filósofo procurava dar visibilidade às partes ocultas que formam o presente e os fragmentos de narrativas que nos constituem lá mesmo onde não há mais identidade, onde o “eu” se encontra fracionado pela história plural que o engendrou. De modo que esse questionamento histórico-filosófico não nos conduz à reafirmação de nossas certezas, de nossas instituições e sistemas, mas ao afastamento crítico dessas instâncias e de si próprio como exercício ético e político. Como indica Deleuze (1992, p. 119): “a história, segundo Foucault, nos cerca e nos delimita; não diz o que somos, mas aquilo de que estamos em vias de diferir; não estabelece nossa identidade, mas a dissipa em proveito do outro que somos”.
A história (não a narrativa histórica ou a escrita da história, mas as condições de existência dos homens no decorrer do tempo, que lhes escapa à consciência), não é da ordem da necessidade; ela diz respeito à liberdade, à invenção; pertence à ordem mais da casualidade do que da causalidade; é feita mais de rupturas e violência do que de continuidades conciliadoras. Esse modo de conceber a história se opõe à imagem tranquila que a narrativa histórica tradicional criou: a história do homem como a manifestação de um progresso inevitável – o lento processo de realização de uma utopia –, que seria alcançado após o iluminismo pela aplicação dos métodos racionais. Como se a ciência, o pensamento e a vida estivessem continuamente mais próximos de verdades que aos poucos são reveladas como o destino final do homem.
Se os estudos de Foucault mostram que os seres humanos não dominam os acontecimentos que constituem o solo de suas experiências, eles atestam ao mesmo tempo que, no espaço limitado do presente, as pessoas dispõem da possibilidade de questionar o que muitas narrativas apresentam como necessário, assim como as formas de poder e dominação que se pretendem absolutas.
Os procedimentos de Foucault postulam, tal como Nietzsche descobrira no final do século XIX, que é possível fazer uma história de tudo aquilo que nos cerca e nos parece essencial e sem história – os sentimentos, a moral, a verdade etc. Essa descoberta indica que, mesmo esses elementos aparentemente universais ou imunes à passagem do tempo, se dão como contingências históricas, como coisas que foram criadas em um dado momento, em circunstâncias precisas.
Trata-se, assim, para Foucault, de pensar a história de determinadas problematizações: a história de como certas coisas se tornam problemas para o pensamento, dignas de serem pensadas por um ou outro domínio do saber e, através de formas de racionalização específicas, verdades são fabricadas. De maneira que suas pesquisas mostram que nossas evidências são frágeis e nossas verdades, recentes e provisórias.
Textos citados:
FOUCAULT, Michel. Estruturalismo e Pós-estruturalismo 1983. Ditos e Escritos II, Arqueologia das Ciências e História dos Sistemas de Pensamento, Trad. Elisa Monteiro, Rio de Janeiro: Forense, 2008.
DELEUZE Gilles. A vida como obra de arte, Conversações. Ed. 34, Rio de Janeiro, 1992.
Link para o filme “Foucault por ele mesmo”:https://www.youtube.com/watch?v=Xkn31sjh4To

sábado, 26 de abril de 2014

‘Gelo de fogo’ escondido em permafrost é fonte de energia do futuro?

‘Gelo de fogo’ escondido em permafrost é fonte de energia do futuro?

O mundo é viciado em combustíveis fósseis (petróleo, carvão e gás natural), e é fácil entender o por que: baratos, abundantes e fácil de extrair, eles alimentam o desenvolvimento da indústria mundial.
Cada vez mais, porém, os governos vêm buscando alternativas aos hidrocarbonetos tradicionais – seja porque são altamente poluentes ou porque sua extração tem se tornado mais difícil, à medida que algumas reservas vão se esgotando.
Um substituto potencial – em enormes quantidades – foi encontrado e repousa profundamente sob permafrost (solo gelado do Ártico) ou os leitos dos oceanos: o hidrato de metano.
Apesar de potencialmente menos poluente que petróleo e carvão, porém, sua extração apresenta enormes riscos ambientais.
Reservas gigantes – Conhecido como ‘gelo que arde’, o hidrato de metano consiste em cristais de gelo com gás preso em seu interior. Eles são formados a partir de uma combinação de temperaturas baixas e pressão elevada e são encontrados no limite das plataformas continentais, onde o leito marinho entra em súbito declive até chegar ao fundo do oceano.
Acredita-se que as reservas dessa substância sejam gigantescas, observa Chris Rochelle, do Serviço Geológico Britânico. A estimativa é de que haja mais energia armazenada em hidrato de metano do que na soma de todo petróleo, gás e carvão do mundo.
Ao reduzir a pressão ou elevar a temperatura, a substância simplesmente se quebra em água e metano – muito metano.
Um metro cúbico do composto libera cerca de 160 metros cúbicos de gás, o que o torna uma fonte de energia altamente intensiva. Por causa disso, da sua oferta abundante e da relativa facilidade para liberar o metano, um número grande de governos está cada vez mais animado com essa nova fonte de energia.
Desafios técnicos – O problema, porém, é extrair o hidrato de metano. Além do desafio de alcançá-lo no fundo do mar, operando sob altíssima pressão e baixa temperatura, há o risco grave de desestabilizar o leito marinho, provocando deslizamentos.
Uma ameaça ainda mais grave é o potencial escape de metano. Extrair o gás de uma área localizada não é tão complicado, mas prevenir que o hidratado se quebre e libere o metano no entorno é mais difícil.
E isso tem consequências sérias para o aquecimento global – estudos recentes sugerem que o metano é 30 vezes mais danoso que o CO2.
Por causa desses desafio técnicos, ainda não há escala comercial de produção de hidrato de metano em qualquer lugar do mundo. Mas alguns países estão chegando perto.
Os Estados Unidos, o Canadá e o Japão já investiram milhões de dólares em pesquisa e já realizam alguns testes, desde 1998. Os mais bem sucedidos ocorreram no Alasca em 2012 e na costa central do Japão em 2013, quando, pela primeira vez, houve uma exitosa extração de gás natural a partir de hidrato de metano no mar.
Os Estados Unidos lançaram um programa de pesquisa e desenvolvimento nacional já em 1982 e, em 1995, tinham terminado a sua avaliação dos recursos disponíveis do gás de hidratos no país. Desde então, têm realizado projetos-piloto na costa da Carolina do Sul, no norte do Alasca e no Golfo do México. Cinco ainda estão em execução.
Exploração comercial – O interesse do Japão é óbvio, assinala Stephen O’Rourke, da empresa de consultoria energética Wood Mackenzie: ‘Japão é o maior importador de gás do mundo’.
No entanto, ele ressalta que o orçamento anual do Japão para pesquisa na área é relativamente baixo – US$ 120 milhões (cerca de R$ 270 milhões). Os planos do país de produzir em escala comercial no fim desta década, portanto, parecem muito otimista. Mas mais à frente, o potencial é enorme.
‘O gás metano pode mudar o jogo para o Japão’, diz Laszlo Varro, da Agência Internacional de Energia (IEA).
Em outros países, porém, os incentivos para explorar o gás comercialmente são menores por enquanto. Os Estados Unidos estão priorizando suas reservas de gás de xisto, recurso que também é abundante no Canadá. Já a Rússia ainda tem enormes reservas de gás natural.
A China e a Índia, com sua feroz demanda por energia, são uma história diferente. No entanto, eles estão muito atrás em seus esforços para explorar o recurso.
‘Houve alguns progressos recentes, mas não prevemos produção comercial antes de 2030′, afirma O’Rourke. De fato, a IEA não incluiu gás hidratado nas suas projeções globais de energia para os próximos 20 anos.
Riscos – Mas se essa fonte for explorada, o que parece provável no futuro, as implicações ambientais podem ser extensas.
Apesar de ser menos poluente que o carvão ou o petróleo, continua sendo um hidrocarboneto e, portanto, emite CO2. E há ainda o risco mais sério da liberação direta de metano na atmosfera.
Alguns argumentam, porém, que pode não haver alternativa, na medida em que o aumento da temperatura global pode provocar a liberação do gás ‘naturalmente’, devido ao aquecimento dos oceanos e ao derretimento das calotas polares.
‘Se todo o metano for liberado, nós vamos ver um cenário de filme Mad Max’, diz Varro. ‘Mesmo usando estimativas conservadoras sobre as reservas de metano, isso faria todo o CO2 de recursos fósseis parecer uma piada’, destacou.
‘Por quanto tempo o gradual aquecimento global pode prosseguir sem liberar o metano? Ninguém sabe. Mas quanto mais ele avança, mais perto chegamos de jogar roleta russa’, acrescentou.

sábado, 19 de abril de 2014

Mapa do câncer no mundo: a resposta deve estar na Índia

Mapa do câncer no mundo: a resposta deve estar na Índia
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sexta-feira, 18 de abril de 2014

China apelará da decisão da OMC que determinou retirada de cotas de terras raras

China apelará da decisão da OMC que determinou retirada de cotas de terras raras

A China anunciou nesta quinta-feira (17) que apelará da decisão da Organização Mundial do Comércio (OMC), exigindo que retire as cotas que Pequim impõe à exportação das chamadas terras raras, um conjunto de 17 metais essenciais para fabricar produtos de alta tecnologia.
Segundo o porta-voz do ministério do Comércio, Shen Danyang, Pequim está determinado a interpor um recurso de apelação.
“Qualquer que seja o resultado, os objetivos e a política da China na defesa do meio ambiente e de proteção dos recursos continuará inalterado”, acrescentou.
As cotas que a China impõe à exportação de terras raras não se justificam, avaliou no fim de março um grupo de especialistas da OMC.
Portanto, o painel deu um parecer favorável ao recurso interposto pela UE, o Japão e os Estados Unidos contra estas medidas chinesas sobre as terras raras.
O assunto remonta a 2011, quando a China decidiu introduzir cotas à exportação de terras raras para “proteger seus recursos naturais e garantir um desenvolvimento econômico sustentável”.
A China assegura que representa 90% do mercado mundial de terras raras, apesar de que só abrigue 23% das reservas mundiais destes recursos.
As terras raras são elementos químicos que entram na composição de muitos produtos tecnológicos de última geração.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Extrair gás de efeito estufa do ar pode ser necessário se não houver ação rápida, diz ONU

Extrair gás de efeito estufa do ar pode ser necessário se não houver ação rápida, diz ONU



OESP - 13 de abril de 2014
ALISTER DOYLE - Reuters


Uma ação mais rápida é necessária para limitar o aquecimento global a limites estabelecidos e atrasos até 2030 podem levar à dependência de tecnologias para extrair gases de efeito estufa do ar, afirmou um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) divulgado neste domingo.
O estudo, com base na obra de mais de mil especialistas, disse que uma substituição de combustíveis fósseis por energia de baixo carbono como a eólica, solar ou nuclear é acessível e implicaria a redução de apenas cerca de 0,06 ponto percentual por ano do crescimento econômico mundial.
"Temos uma janela de oportunidade na próxima década, e, no máximo, nas próximas duas décadas" para agir a custos moderados, disse Ottmar Edenhofer, co-presidente de uma reunião em Berlim do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês).
"Eu não estou dizendo que é sem custo. Eu não estou dizendo que a política do clima é um almoço grátis. Mas é um almoço que vale a pena comprar", disse Edenhofer.
O relatório, endossado por governos, tem como objetivo ser o principal guia científico para as nações que trabalham em um acordo das Nações Unidas que deve ser assinado no final de 2015 para conter as emissões globais de gases de efeito estufa, que atingiram repetidamente novos recordes, guiadas pelo crescimento industrial da China.
Governos se comprometeram a limitar o avanço da temperatura a no máximo 2 graus Celsius acima dos níveis da era pré-industrial para evitar cada vez mais ondas de calor, inundações, secas e elevação do nível do mar, que, segundo o IPCC, estão ligados ao aquecimento artificial provocado pelo homem.
Cenários do IPCC mostraram que as emissões globais de gases de efeito estufa devem atingir o pico em breve e ser reduzidas em 40 a 70 por cento dos níveis de 2010 até 2050. Em seguida, devem ficar próximas de zero até 2100 para manter a alta das temperaturas abaixo de 2 graus Celsius.
Tais cortes são muito mais profundos do que a maioria dos governos está planejando.
"Uma mitigação ambiciosa pode até exigir a remoção de dióxido de carbono da atmosfera", disse o IPCC. Atrasos em medidas para reduzir as emissões até 2030 forçariam um uso muito maior dessas tecnologias, mostrou o resumo de 33 páginas do documento divulgado para formuladores de políticas públicas. 

quinta-feira, 20 de março de 2014

Princípio da precaução - Se existem antecedentes ou experiências que surgiu um risco, não se espera que a ciência comprove isso. É melhor prevenir do que lidar com o problema depois

Princípio da precaução

 




Reprodução 

Se existem antecedentes ou experiências que sugiram um risco, não se espera que a ciência comprove isso. É melhor prevenir do que lidar com o problema depois


19/03/2014

Anne Vigna,



Faz um bom tempo que as empresas responsáveis pelo tratamento da água conhecem os perigos do alumínio. Em Paris, a substância deixou de ser usada nesse processo há mais de 20 anos. Adota-se o cloreto férrico. A prefeitura da capital francesa resolveu fazer a mudança pelo que é conhecido como princípio da precaução: se existem antecedentes ou experiências que sugiram um risco, não se espera que a ciência comprove isso. É melhor prevenir do que lidar com o problema depois.

Quando perguntei à Sabesp e à Cedae se achavam possível parar de usar o alumínio, a resposta foi clara. “Mas por quê? O produto funciona muito bem”, disse André Luis Gois Rodrigues, responsável pela qualidade da água na Sabesp.

As duas empresas admitiram conhecer a polêmica. “Nada foi comprovado. O uso do alumínio é permitido pelo Ministério da Saúde e também pela OMS. Se um dia for demonstrado que há risco, com certeza deixaremos de usar”, explicou Jor ge Briard, da Cedae. Além de ser barato, o sulfato de alumínio permite obter uma cor transparente, um pouquinho azul, bem bonitinha, semelhante à de um rio limpo. Por isso, é bem prático. Ninguém vai se queixar da cor da água. Vale lembrar que a água não é a única fonte de absorção do alumínio no corpo.

Atualmente a substância encontra- se em altas concentrações na comida (nos legumes e especialmente nos aditivos alimentares, como conservantes, corantes e estabilizadores), nos cosméticos ou nos utensílios de cozinha. De acordo com a OMS, um adulto ingere cerca de 5 miligramas de alumínio por dia apenas da comida. Para a organização, os aditivos são a principal fonte de alumínio no corpo. Em comparação, a água traz um volume muito menor: em média 0,1 miligrama por litro, o que pode somar 0,3 miligrama se você bebe 3 litros por dia. Segundo a entidade, o alumínio na água representa só 4% do que um adulto absorve.

Essa relação também é válida para os agrotóxicos. É bem provável que, comendo legumes não orgânicos, uma pessoa absorva uma quantidade muito maior desses produtos do que ao beber água. Fazer essa comparação é muito complicado, porque o jeito de contabilizar os agrotóxicos é diferente na comida e na água. Sabemos, porém, que os agrotóxicos são diretamente aplicados nas plantações, e as medições mostram que estão em proporção maior nos alimentos do que na água.

Por conta da grande utilização de medicamentos na criação de animais hoje, os cientistas reconhecem que a dose diária de absorção de antibióticos e hormônios de crescimento é mais importante pela comida do que pela água. O professor Wilson Jardim, da Unicamp, explica, no entanto, que isso não muda o fato de que, mesmo em doses pequenas, os contaminantes presentes na água possam ter um efeito negativo na saúde.

A saída é a garrafinha?

Seria então melhor para a saúde beber água engarrafada, que chega a custar 800 vezes mais do que a água da torneira? A resposta, de novo, não é simples. Em tese, a água envasada tem melhor qualidade por ser subterrânea, o que oferece uma proteção natural contra contaminação. Mas encontrar informações sobre a qualidade da água mineral também é muito complicado no Brasil. A Associação Brasileira de Indústria de Água Mineral (Abinam), que representa as envasadoras da água, negou os pedidos de entrevista para esta reportagem. A comunicação também não é muito aberta do lado das autoridades.

Na verdade, não há como ter acesso à documentação sobre a qualidade da água engarrafada. Para obter a lavraria e a renovação da concessão, uma empresa de água mineral recebe, a cada três anos, a visita dos funcionários do Laboratório de Análises Minerais (Lamin) da Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM), um órgão federal. Os resultados das análises são comunicados à empresa e ao Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), responsável pela água mineral no país, mas não ficam disponíveis para o público. Por quê? Não recebi resposta do DNPM.

Essas análises teriam que ser feitas seguindo a resolução RDC 274/2005, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A norma inclui agrotóxicos e é bem parecida com a portaria que regula a água da torneira. Além de os dados não estarem disponíveis publicamente, outro problema é a forma de fiscalização das fontes. O Lamin do Rio faz análises no país todo, enquanto o de São Paulo concentra-se no estado de São Paulo, onde fica a maior concentração de concessões de água mineral do país.

Até o início de 2013, o Lamin do Rio não tinha os equipamentos necessários para fazer as análises dos agrotóxicos, e só no fim de 2014 o Lamin de São Paulo deverá fazer esse trabalho. Ou seja, a resolução levou oito anos para começar a ter todos os seus itens verificados.

Isso não acontece com a água da torneira, que é muito mais controlada. Primeiro, porque ela precisa chegar a toda a população. Segundo, porque a água bruta, a partir da qual se produz a água potável, vem em geral da superfície e está mais sujeita a todo tipo de contaminação.

Isso requer atenção constante e análises mais frequentes. A água mineral vem de lençóis subterrâneos, onde fica confinada. É menos poluída do que a que vem dos rios e não recebe nenhum tratamento químico. Depois de um ano fazendo as análises de agrotóxicos, o Lamin do Rio disse que não encontrou esses produtos nas águas minerais de todo o país, com exceção de São Paulo (onde ainda não fazem essa análise e onde está a maior parte das fontes). Mas não tive acesso aos documentos que comprovariam isso.

Ao procurar informações adicionais, descobri que, em São Paulo, a Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) iniciou, em 2011, o monitoramento de lençóis subterrâneos do estado em relação à presença de contaminantes e à atividade estrogênica – ou seja, à capacidade de algumas substâncias agirem no sistema reprodutivo humano, antecipando, por exemplo, a puberdade nas meninas ou produzindo esterilidade nos homens.

“Não foi detectada atividade estrogênica na maioria dos 33 pontos de amostragem, selecionados em função de sua maior vulnerabilidade. Apenas três locais apresentaram atividade estrogênica baixa. Isso significa que não há potencial de preocupação para a saúde humana se a água for consumida”, explica Gilson Alves  Quinaglia, gerente do setor de análises toxicológicas da Cetesb.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Argentina constrói primeira casa autossustentável no 'fim do mundo'

Argentina constrói primeira casa autossustentável no 'fim do mundo'




A cidade argentina de Ushuaia, conhecida como "cidade do fim do mundo" por ficar muito próxima da Antártica, iniciou nesta semana, a construção de uma das primeiras casas autossustentáveis da América Latina, que utilizará energia solar e eólica para manter a temperatura durante todo o ano e reciclará seus próprios resíduos.
O projeto, que leva o nome de "Tol-Haru, Ushuaia. A Nave Terra do Fim do Mundo", foi criado pela ONG Natureza Aplicada à Tecnologia (NAT), e conta com a colaboração do arquiteto Michael Reynolds, que promove o conceito de casas autossustentáveis.
O organizador do projeto, Mariano Torre, explicou à Agência EFE que escolheram Ushuaia, a "cidade do fim do mundo", como "um símbolo de uma nova relação entre o ser humano e a Terra que não seja tão destrutiva" e seja capaz de utilizar os resíduos para produzir novos recursos.
Além disso, Torre é nativo da cidade austral, e agradece "com a alma" poder devolver "algo" do que recebeu de seu lar.
A casa projetada por Reynolds é um "modelo de sobrevivência simples" e consiste em duas construções em forma de cilindro de 50 metros quadrados, fabricadas utilizando cerca de 300 pneus, três mil latas, cinco mil garrafas de plástico e três mil de vidro, entre outros materiais reciclados.
Ao seu redor, uma armação de vidro cria um efeito estufa para manter a temperatura da casa constante entre 18 e 22 graus e economizar assim energia elétrica em uma cidade onde o inverno é a única estação do ano.
O projeto é desenvolvido como um curso no qual participarão 70 voluntários de todo o mundo, de lugares tão afastados como a Turquia e a Austrália, junto com indígenas da comunidade Qom argentina.
Torre descreve a construção desta casa como "uma semente", e espera que "todos os participantes plantem outras sementes em seus países, nos vizinhos e no mundo todo".
O criador do conceito de "Naves Terra", Reynolds, será o professor dos participantes durante as três semanas de desenvolvimento do projeto.
Ele, que estudou arquitetura na Universidade de Cincinnati, no estado americano de Ohio, rejeita a grande quantidade de resíduos criados pelo urbanismo moderno e se especializou no design de casas ecológicas e que respeitam o meio ambiente.
O plano da casa "Tol-Haru" começou em 2010, e conta com o apoio do governo da Província da Terra do Fogo, que declarou o projeto "de interesse legislativo" em 15 de novembro de 2011.
A cidade de Ushuaia, além disso, é parte do pacto dos prefeitos da União Europeia assinado em novembro de 2012, no qual se comprometiam em desenvolver energias limpas para reduzir em 20% as emissões de dióxido de carbono até 2020.
Elena Roger, esposa e companheira de Torre na coordenação do projeto, agradeceu o esforço de Ushuaia por "cumprir com o compromisso" de fazer do mundo um lugar mais ecológico.
O prefeito da cidade, Federico Sciurano, qualificou a construção como "mensagem de esperança e de futuro" que indica "para onde quer ir" o município, em entrevista à agência oficial "Télam".
Dentro da Argentina, aliás, já existem outros grupos que mostraram a intenção de seguir o exemplo ushuaiense e realizar construções ecológicas.
Na cidade de Mar del Plata, na província de Buenos Aires, o projeto "Navetierra MDQ" começou a desenvolver uma ideia similar em 2010, embora ainda não tenha sido posto em prática.
Fonte: EFE

sábado, 28 de dezembro de 2013

Jovem caminha da Antártida ao Polo Sul estudando mudanças climáticas

Jovem caminha da Antártida ao Polo Sul estudando mudanças climáticas

Enquanto você lê esse texto, o jovem americano Parker Liautaud, 19 anos, está em algum lugar entre a costa da Antártida e o Polo Sul, sob temperaturas que variam de -28°C a -60°C. A empreitada do estudante de geofísica da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, começou na segunda semana de dezembro e deve garantir a Parker o recorde mundial de homem mais jovem a completar o percurso.
Mas a caminhada de 1,8 mil quilômetros, cerca de 30 km por dia, não se dá por mero capricho. O objetivo do estudante é colher amostras para uma série de estudos sobre as mudanças climáticas. “Sempre ouvi as pessoas discutindo sobre mudanças climáticas para as gerações futuras. Nós somos a geração futura. Por isso, estamos envolvidos nesse projeto”, declarou.
Uma pesquisa divulgada no dia 11 de dezembro pela Agência Espacial Europeia (ESA) revela que a camada de gelo da Antártida Ocidental perde 150 quilômetros cúbicos por ano, 15% a mais do que se estimava anteriormente. Os dados coletados por Parker poderão atualizar os estudos.
Árdua empreitada – A tarefa de Parker não é nada fácil: ele esquia 10 horas por dia com uma bagagem de 82 quilos, o mesmo que sua massa corporal. Só para montar o acampamento, ele precisa de quatro horas. A missão exige ainda dieta reforçada, de aproximadamente 6 mil calorias.
Dezembro é um mês estratégico para a empreitada, pois não anoitece na Antártida. Com a luz do dia sempre presente, Parker cruzará a terceira maior cadeia de montanhas do continente, os Montes Transantárticos, que alcançam até 4,5 mil metros.
A iniciativa está sendo organizada pela consultora de riscos Willis Group Holdings. De acordo com o grupo, a análise dos resultados obtidos possibilitará a construção de uma estratégia de resistência aos riscos que o aquecimento global oferece. Toda a aventura pode ser acompanhada pelo site do projeto.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Um acidente nuclear sem data para acabar

Um acidente nuclear sem data para acabar


O contínuo vazamento de água contaminada na central de Fukushisma fez todos os alarmes soarem e ressaltaram em 2013 que a crise nuclear está longe de ser resolvida, e que o desmantelamento da usina entrou em uma delicada e decisiva fase.
Quase três anos após um dos piores acidentes nucleares da história, a população de Fukushima continua lutando por controlar problemas como o dos vazamentos, por sua vez continuam os trabalhos para desmontar as danificadas e contaminadas instalações.
As proporções do problema da central do nordeste do Japão fortemente atingida pelo tsunami de 11 de março de 2011 voltou a ficar evidente de uma maneira dramática o agosto passado.
O governo japonês surpreendeu o mundo ao revelar que a central de Fukushima derramava diariamente cerca de 300 toneladas de água radioativa no mar, o que considerou como um problema grave e urgente.
A acumulação de água contaminada se tornou então a questão central na luta dos 3.500 trabalhadores que em duríssimas condições tentam lutar contra os perigos da central acidentada.
A água radioativa aumenta diariamente para cerca de 400 toneladas de água subterrânea que, proveniente das montanhas, se colam nos porões e se misturam com o líquido tóxico.
A preocupação aumentou ainda mais quando duas semanas depois a operadora da central reconheceu que tinha detectado uma fuga de 300 toneladas muito radioativas em um dos 1.000 tanques de armazenamento do líquido radioativo, o que evidenciava um grave problema mais.
Tanto é assim, que as autoridades japonesas deram ao acidente o nível 3 (incidente sério) dentro da escala internacional de fatos atômicos após consultar a situação com o Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).
O enorme vazamento detectado aconteceu de um dos 350 contêineres, mais econômicos e de rápida fabricação, que se construíram de maneira urgente após o acidente de março de 2011.
Soldados com resina para em vez da solda comum, os tanques foram posteriormente protagonistas de vários vazamentos.
Tudo isso, somado a vários erros humanos, pôs em interdição a gestão da operadora TEPCO, proprietária da central, e o governo japonês anunciou que se envolveria mais na gestão da crise.
Em meio à situação, em 18 de novembro, começou a operação mais delicada desde que foi gerada a crise atômica de Fukushima.
Os operários da central começaram a retirar o combustível gasto do edifício que o reator quatro aloja, um processo que durará cerca de um ano e que abriu a porta a uma nova fase no longo desmantelamento da usina, que acontecerá em menos de três ou quatro décadas.
Enquanto isso, pela segunda vez desde a crise de Fukushima, o Japão voltou a entrar em um período de blecaute nuclear, e ainda mantém vivo o debate sobre este tipo de energia.
A nova greve começou o setembro passado quando se desativaram, para uma revisão rotineira, os dois únicos reatores que se encontravam em funcionamento no país; as unidades 3 e 4 da usina de Oi (oeste do país).
Após a crise de Fukushima e devido aos temores sobre a segurança das usinas nucleares, o Executivo japonês decidiu em maio de 2012 deixar a provisão deste tipo de energia a zero pela primeira vez em 42 anos.
Dois meses depois, em 1º de julho, autorizou no entanto que a usina de Oi retomasse suas operações para garantir o fornecimento na região de Kansai, a segunda mais povoada do país.
Nenhum outro reator foi ativado desde então, embora o atual governo conservador, que chegou ao poder em dezembro de 2012, defenda voltar a apostar em energia nuclear e aprovou provas novas e mais detalhadas de segurança para que as centrais possam ser reativadas.
A iniciativa divide ainda os japoneses, traumatizados com as terríveis consequências do acidente de Fukushima, mas também preocupados com o grande aumento dos custos energéticos no país. 

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

ENANPEGE - Uma semana de desafios?

ENANPEGE - Uma semana de desafios?

"Já estamos em pleno século XXI. Se não reconhecermos a nossa identidade e o nosso papel no Brasil do presente perderemos uma oportunidade histórica de atuação."[1] Esse é um dos desafios propostos na apresentação do X ENANPEGE. Anuncia a ANPEGE como lugar precípuo para pensarmos nossas atividades aonde se reúne- por definição - um conjunto significativo da pesquisa que se realiza no âmbito da Geografia. Um lugar constituído por uma identidade.

Há sempre um espaço profícuo para o debate e a troca de ideias. Há sempre há algo que se constrói coletivamente e que permite a Geografia avançar. A ementa de apresentação do X ENANPEGE aponta um debate que não pode ser esquecido. Este é o forum que associa pesquisadores de GF e GH separados, na prática, por pesquisas fragmentadas. Único lugar onde a convergência destes "campos de pesquisa", esta posta como princípio. Momento em que o livre curso de pesquisadores pode gerar aproximações questionadoras de subdivisões, superando workshop de experts. Portanto, o lugar aonde se abriria a possibilidade do novo que é sempre uma aposta que deve conter, em si, a critica ao que existe. É assim que o conhecimento caminha.

Mas pensar a Geografia num mundo em transformação, num pais aonde as pessoas resolveram em massa se manifestarem contra o status quo, é um desafio ao qual não podemos nos furtar. Requer o debate sobre os impasses da pesquisa e suas dificuldades criando o ambiente necessário à construção de um projeto coletivo. "É um bom momento para sairmos mais dos intramuros das universidades e das instituições de pesquisa no sentido de contribuir com as grandes questões nacionais."[2] Requer que  cada um de nos, reconheça os desafios e situações de crise, significa estar aberto ao diálogo, reconhecer o fato de que o processo de conhecimento é coletivo. Que a critica é o comportamento precípuo a partir do qual o conhecimento se gesta e o debate pode iluminar caminhos de pesquisa.

O espaço da ANPEGE, numa universidade fragmentada deveria ser um ambiente de tolerância necessário à construção de um diálogo diante de um  mundo em transformação muito rápida. Um mergulho no desafio de (re)- encontrar o que une a Geografia e os geógrafos - e sua responsabilidade social.

Das dificuldades: pelo direto de discordar?

Entre tanto diretos conquistados um tabu parece estar longe de ser derrubado: o exercício da critica e a  "criminalização" da divergência de opiniões que impede que o diferente aflore e seja respeitado em sua situação de divergência. Porque temos que pensar todos da mesma forma, num único caminho para a pesquisa e para a universidade? Porque temos que desqualificar a divergência? O homogêneo só se conquista pela força, a meu ver, incompatível com o sentido da universidade. Se no  mundo acadêmico, numa reunião de pesquisadores, não se pode manifestar  divergências de pensamento e colocar ideias para o debate aonde vamos fazê-lo? Aonde e como vamos superar os cenários de crise teórico e prática? Porque a critica de ideias tem que se reduzir e ser confundida a uma critica  pessoal. Quando atingiremos o amadurecimento necessário para que o debate acadêmico possa se realizar plenamente, sem a desqualificação do outro?

Mas o que me parece mais grave: como superar o modelo competitivo que se instaura entre nós e que  compromete o debate e desqualifica o papel que a Geografia poderia assumir no mundo moderno? Porque temos que submeter a autonomia universitária á lógica da política das instituições de fomento? Porque nos submetermos, como cordeiros, exigência do ranqueamento imposto pela CAPES que nos leva perigosamente á construção de um "mercado acadêmico"? Como superar o deslocamento de nossas preocupações do currículo lattes e, da nota da CAPES, para uma preocupação em compreender a realidade brasileira em suas contradições e conflitos? Como superar a avassaladora voracidade daqueles que acreditam que os foros de debate de pesquisa devam ser usados para aumentar superficialmente o lattes - como se o reconhecimento acadêmico viesse do tamanho do currículo e não da qualidade da pesquisa? Mas sobretudo, como a comunidade geográfica avalia que 70% dos Grupos de trabalho, nesta edição do ENANPEGE, traz coordenadores ( cuja função é aquela de analisar/ escolher, portanto avaliar os trabalhos a serem apresentados) em situação de apresentadores de trabalho? Pior ainda, como compreender e justificar que em dois casos, coordenadores de GT aparecem com 7 trabalhos de sua autoria/coautoria no mesmo GT ( sem esquecer que em outros casos temos com 5, outro, ainda com 4, alguns com dois, etc.) ?

Como urgência coloca-se para a reflexão. O fim do preconceito inaugurando o direito de divergir e o exercício da crítica como condições  necessárias e indispensáveis à criação do ambiente da pesquisa e do trabalho acadêmico. Uma ética que mova nossas relações sustentada pela transparência nas avaliações dos trabalhos realizados em todos os níveis. O compromisso da Geografia como possibilidade de compreensão do mundo em que vivemos. Afinal, "o papel da Geografia sempre foi o de interpretar a rede complexa que envolve a produção social do espaço, em suas várias dimensões e escalas, funcionando nesta engrenagem como uma ferramenta capaz de compreender a imbricada trama das lógicas socioespaciais e, por isso mesmo, de orientar  as ações sobre as dinâmicas territoriais"[3] ?
[1] Ementa de apresentação do X ENANPEGE, 2013
[2] X ENANPEGE op cit
[3] Apresentação X ENANPEGE