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quinta-feira, 4 de setembro de 2014

4 de Setembro de 1969: A ação mais ousada contra a ditadura militar

4 de Setembro de 1969: A ação mais ousada contra a ditadura militar


Reprodução
O sequestro foi executado por integrantes da Ação Libertadora Nacional (ALN) e do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR8), no RJ; Em troca, os militantes exigiram a libertação de 15 presos políticos e a leitura de manifesto em rede de TV e rádio contra o governo
04/09/2014
Por Fernando do Valle,
O rapto do embaixador estadunidense Charles Elbrick foi, sem dúvida, a ação mais ousada dos opositores a ditadura militar. Entre os muitos atos contra a ditadura, o sequestro do principal representante do país que deu suporte ao golpe surpreendeu os militares e repercutiu em todo o mundo.
O sequestro foi executado por integrantes da Ação Libertadora Nacional (ALN) e do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR8) no dia 4 de setembro de 1969, na cidade do Rio de Janeiro. Em troca, os militantes exigiram a libertação de 15 presos políticos e a leitura de manifesto em rede de TV e rádio contra o governo.
O militante Cid Benjamin, que participou do sequestro, recorda, em seu livro recém-lançado Gracias a la vida, memórias de um militante, que a ideia veio por acaso:
“eu estava com Franklin Martins [também militante e ex-ministro da Comunicação Social no governo Lula] na rua Marques quando passou o carro do embaixador, devidamente ornamentado com uma bandeirinha dos Estados Unidos de cada lado do capô. A falta de cuidado nos chamou a atenção. Meses antes, o embaixador norte-americano na Guatemala fora metralhado por guerrilheiros urbanos. Ao ver seu colega no Brasil circular de forma tão despreocupada, não passou pela nossa cabeça um atentado contra sua vida, mas capturá-lo como moeda de troca por Vladimir Palmeira [que estava preso há 11 meses]” (trecho do livro de Cid Benjamin)”
Os movimentos armados contra a ditadura militar atravessavam um momento difícil: a edição do AI-5, em dezembro de 1968, que endureceu a repressão, e uma série de prisões havia desestruturado a guerrilha contra o regime. As lideranças do MR-8 e alguns dirigentes da ALN (parte da direção não apoiou o sequestro) acreditavam que a libertação dos presos demonstraria à opinião pública a força da oposição.
O carro diplomático (um Cadilac preto) que transportava Elbrick foi rendido pelos militantes que usaram uma Kombi na ação. O motorista do embaixador foi deixado nas proximidades e Elbrick foi levado para uma casa no bairro de Santa Teresa.
“O cativeiro do embaixador norte-americano foi descoberto ainda durante o sequestro e muitos dos que entravam ou saíam da casa tinham sido fotografados. Como vários de nós éramos fichados na polícia, por termos sido presos no Congresso da UNE de Ibiúna, em outubro de 1968, ou por termos tido papel de destaque nas manifestações estudantis contra a ditadura, não foi difícil nossa identificação.” (trecho do livro de Cid Benjamin)
Segundo Cid Benjamin, o embaixador falava português, pois já tinha servido em Portugal e não era um defensor da política do governo norte-americano, que apoiava ditaduras de direita na América Latina.
“Sem que Elbrick percebesse, chegamos a gravar conversas nas quais ele elogiava o trabalho de dom Helder Câmara e se dizia contrário à censura à imprensa e à tortura de presos políticos.”(trecho do livro de Cid Benjamin)
Exigências atendidas e a reação dos militares linha-dura
O sequestro durou quatro dias e entre os presos políticos que foram libertados e embarcaram rumo ao México estava o lendário comunista Gregório Bezerra (PCB), o líder sindical José Ibrahim, Onofre Pinto, da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), os líderes estudantis Luís Travassos e José Dirceu, o jornalista Flávio Tavares, dentre outros.
Após sua libertação, Elbrick chegou a declarar ao jornal Última Hora de 8 de setembro, de 1969: “fui muito bem tratado. Eles até me deram charutos e lavaram a minha camisa”. Os militares não gostaram da entrevista do embaixador e ele foi substituído pelos Estados Unidos poucas semanas depois.
Flávio Tavares lançou o livro Memórias do Esquecimento em 1999 (uma edição ampliada saiu em 2005 pela Editora Record), em que ele narra o sequestro e sua trajetória de luta contra o regime. Tavares declarou em 2005 ao Estadão: “O livro foi a minha catarse ou minha salvação e libertação interior… só enfrentando a memória pude vencer os fantasmas e viver em paz”.
No início da década de 60, Tavares trabalhou como comentarista político do jornal Última Hora, de Samuel Wainer, quando cobriu eventos como a Conferência da Orgnização dos Estados Americanos, em Punta del Leste, Uruguai, em 1961. Lá, ele conheceu Ernesto Che Guevara, que era o delegado de Cuba. Sobre essa experiência, Tavares escreveu Meus 13 dias com Che Guevara, lançado no ano passado. Há cerca de um mês, Tavares também lançou O Golpe de 64, em que foca a participação dos Estados Unidos no golpe contra o presidente João Goulart.
O jornalista retrata em seu livro Memórias do Esquecimento como, por muito pouco, a troca dos prisioneiros políticos pelo embaixador foi impedida pelos paraquedistas ultradireitistas do Exército:
“Na tarde de nossa partida, uns 40 oficiais paraquedistas da Brigada Aeroterrestre saíram da Vila Militar, em três caminhões, para impedir que os prisioneiros entrassem na Base Aérea ou, se fosse o caso, para nos retirar de lá à força e, de imediato, executar todo o grupo. Os oficiais planejavam nos raptar, levando-nos ao centro do Rio para nos enforcar de um a um na Cinelândia, defronte ao Theatro Municipal, naquele mesmo sábado. Havia apenas uma dúvida — alguns queriam nos “metralhar”, mas a ideia da forca era dominante”. (trecho do livro de Flávio Tavares)
Felizmente, os paraquedistas enfrentaram um congestionamento devido a um jogo no Maracanã que os reteve por mais de meia hora na avenida Brasil. Os militares identificados como de linha-dura (que não aceitavam qualquer negociação com a guerrilha) chegaram à Base Aérea 20 minutos após a decolagem do avião que transportou os presos políticos ao México.
A guerrilha contra o regime realizou mais três sequestros de diplomatas estrangeiros em 1970: o cônsul japonês Nobuo Okushi, o embaixador alemão Ehrenfried Anton Theodor Ludwig Von Holleben e o embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher também foram capturados como método de pressão ao regime militar.
O documentário Hércules 56 e a história de Jonas
Realizado em 2006 pelo diretor Sílvio Da-Rin, o documentário Hércules 56 relata o sequestro do embaixador. Para isso, o diretor reuniu alguns participantes da ação em uma verdadeira mesa-redonda. O nome do filme se refere ao modelo e à matrícula do avião militar que transportou para o exílio os presos políticos.

Trecho do manifesto lido nas rádios e TVs:
“O senhor Burke Elbrick representa em nosso país os interesses do imperialismo, que, aliados aos grandes patrões, aos grandes fazendeiros e aos grandes banqueiros nacionais, mantêm o regime de opressão e exploração.
Os interesses desses consórcios de se enriquecerem cada vez mais criaram e mantêm o arrocho salarial, a estrutura agrária injusta e a repressão institucionalizada. Portanto, o rapto do embaixador é uma advertência clara de que o povo brasileiro não lhes dará descanso e a todo momento fará desabar sobre o eles o peso de sua luta. Saibam todos que esta é uma luta sem tréguas, uma luta longa e dura, que não termina com a troca de um ou outro general no poder, mas que só acaba com o fim do regime dos grandes exploradores e com a constituição de um governo que liberte os trabalhadores de todo o país da situação em que se encontram.”
Em 1979, o jornalista Fernando Gabeira, que participou do sequestro publicou seu livro O que é isso companheiro?, que virou filme em 1997 pelas mãos do diretor Bruno Barreto. Os companheiros de Gabeira criticaram o filme, principalmente a maneira que retratou o líder da ação, Virgilio Gomes da Silva (codinome Jonas) interpretado pelo ator Matheus Nachtergaele, como sectário e desequilibrado. No filme, Jonas está sempre agitado e fuma sem parar. Detalhe: ele nunca fumou.
Outra crítica ao filme refere-se ao protagonismo de Gabeira no sequestro. Ele atuou como coadjuvante na ação e não foi ele quem escreveu o conhecido manifesto contra o regime, como aparece no filme. Quem redigiu o texto foi Franklin Martins.
O militante Virgilio Gomes da Silva chegou a São Paulo aos 18 anos, em 1954, de carona em um caminhão de carnes. Ele deixou de vez a vida na roça do Rio Grande do Norte, onde morava com a família e conseguiu emprego na indústria química no bairro de São Miguel Paulista. Em 1957 entrou no PCB. No ano do sequestro, 1969, Virgilio era o número 2 na hierarquia da ALN (o número 1 era Carlos Marighella).
Jonas foi preso pouco tempo depois do sequestro, no dia 29 de setembro, na casa do jornalista Antonio Carlos Fon, na rua Duque de Caxias, em São Paulo. O livro “De retirante a guerrilheiro” revela detalhes inéditos dos últimos momentos de Jonas na prisão. “Ele passou por uma sessão de 12 horas de tortura, com choques e afogamento. No fim, ainda guardou água na boca para cuspir na cara do torturador”, conta a autora, Edileusa Lima, no perfil de Virgílio no site da Comissão da Verdade Rubens Paiva da Assembleia Legislativa de São Paulo. Virgilio Gomes da Silva foi assassinado a chutes, pontapés e pauladas.
Em 2004, graças a uma investigação jornalística do repórter Mário Magalhães (autor da biografia de Marighella), a família de Jonas descobriu e teve acesso ao laudo de sua morte. Até então considerado desaparecido político, ficou-se sabendo que ele está enterrado no cemitério de Vila Formosa, em São Paulo.
FONTES USADAS: livro Memórias do Esquecimento, de Flávio Tavares, livro Gracias a la vida, memórias de um militante, de Cid Benjamin, site da Comissão da Verdade Rubens Paiva, Revista Fórum e o jornal O Estado de São Paulo

sábado, 12 de abril de 2014

Indústria química e ditadura

Indústria química e ditadura



O modelo econômico da ditadura potencializou os desequilíbrios estruturais herdados do período precedente: dependência tecnológica e financeira e concentração de renda.

11/04/2014
Thomaz Ferreira Jensen
Há 50 anos o comando das Forças Armadas perpetrava golpe de Estado para instaurar a ditadura no Brasil, que se prolongaria por 21 anos. Também há meio século, em junho de 1964, era criada a ABIQUIM, Associação Brasileira da Indústria Química.
É público e notório que as Forças Armadas agiram com o apoio e a serviço dos interesses da grande burguesia – os donos das principais indústrias, dos bancos, da grande mídia empresarial e das grandes propriedades rurais – e do imperialismo – governo dos Estados Unidos e empresas daquele País com interesses no mercado brasileiro.
A ABIQUIM congregou, desde o início, as indústrias químicas nacionais e estrangeiras, que aqui já estavam instaladas desde os anos 1920. Permitiu, assim, articular os interesses destas corporações e apresentá-los aos governos da ditadura para obter financiamento e vantagens desde os primeiros meses do regime autoritário.
É já fartamente comprovado o engajamento das principais indústrias químicas, plásticas e farmacêuticas no apoio ao golpe de abril de 1964 e à ditadura que se seguiu. O excelente documentário “Cidadão Boilesen”, lançado em 2009 e dirigido pelo cineasta Chaim Litewski, mostra a estruturação e o financiamento por empresários e banqueiros paulistas da OBAN (Operação Bandeirantes), centro de investigações e torturas montado pelo Exército brasileiro em 1969 para combater organizações de esquerda que confrontavam o regime ditatorial e que geraria, pouco tempo depois, o DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informação do Centro de Operações de Defesa Interna). A OBAN significou o poder repressivo comandado e financiado diretamente pelos donos do capital, sem mediações, e executado pelos agentes fardados do Estado, com inteligência da CIA, a central de espionagem do governo dos Estados Unidos.
O caso de Henning Boilesen, retratado no documentário, é exemplar. Dinamarquês naturalizado brasileiro, trabalhou durante 19 anos no grupo químico Ultra, tendo sido presidente da Ultragaz. Aproximou-se de grupos militares e paramilitares e, sádico, costumava acompanhar sessões de tortura na OBAN.
Segundo Elio Gaspari, em seu livro “A ditadura escancarada”, a primeira reunião organizada para captação de recursos para a OBAN foi convocada por Delfim Netto, então ministro da Fazenda, e contou com a participação de 15 empresários e banqueiros, como Gastão Bueno Vidigal, dono do banco Mercantil de São Paulo, que era também presidente do clube Paulistano. Lá, às quintas-feiras, costumava promover almoços com empresários e não raro convidava Delfim Netto para apresentar análises de conjuntura econômica. Ao final da palestra, eram recolhidas as colaborações para a OBAN.
Pery Igel, dono do Grupo Ultra e patrão de Boilesen, foi certamente um dos mais destacados financiadores da OBAN, ao lado de Paulo Ayres Filho, dono da Pinheiros Produtos Farmacêuticos e de executivos das montadoras de automóveis estadunidenses Ford e General Motors. Boilesen é figura paradigmática, triste representação de outras tantas dezenas de empresários que apoiaram e financiaram a ditadura, e que até hoje permanecem anônimos.
Boilesen foi assassinado em 15 de abril de 1971, em São Paulo, numa ação conjunta envolvendo militantes da ALN (Ação Libertadora Nacional) e do MRT (Movimento Revolucionário Tiradentes). Delfim Netto compareceu ao enterro e levou consigo Roberto Campos, amigo de ambos.
Delfim participou com destaque de todos os governos ditatoriais e foi signatário do AI-5 – ato do governo militar decretado em dezembro de 1968 que fechou o Congresso Nacional e permitiu ao regime ditatorial acirrar a repressão. Delfim foi o operador do modelo econômico da ditadura, num contexto em que as corporações industriais dos Estados Unidos buscavam expandir seu domínio sobre a América Latina para barrar o avanço da influência política dos países socialistas, liderados pela União Soviética.
O modelo econômico da ditadura potencializou os desequilíbrios estruturais herdados do período precedente: dependência tecnológica e financeira e concentração de renda. O Estado tornou-se órgão técnico para gerir o modelo ditado pelas transnacionais e aparato repressivo para sufocar os conflitos sociais e políticos daí decorrentes.
Heranças deste modelo sentidas até hoje são a generalizada corrupção, o arrocho salarial – que o Movimento Sindical procura enfrentar através da política de valorização do Salário Mínimo e das conquistas salariais nas negociações coletivas – e a intensa rotatividade de trabalhadores gerada pelo fim da lei de estabilidade no emprego, em 1966, e que atinge hoje níveis alarmantes em todos os setores econômicos, incluindo a indústria plástica e de cosméticos, dentro do segmento químico.
A ditadura legou uma indústria química estruturalmente dependente de capitais e de insumos estrangeiros. Apenas em 2013, o déficit comercial da indústria química para fins industriais, representada pela ABIQUIM, alcançou 32 bilhões de Dólares. E, no mesmo ano, a indústria química, plástica e farmacêutica, remeteu ao exterior 3,6 bilhões de Dólares a título de lucros, dividendos e pagamento de empréstimos às suas matrizes, localizadas, majoritariamente, nos Estados Unidos e na Europa.
Além disso, a política agrícola da ditadura, pela subordinação da economia nacional aos interesses do capital estrangeiro, impôs ao Brasil a “revolução verde” no campo, o que deu as bases para o agronegócio comandado pelos grandes produtores de commodities, como soja e milho, pelas transnacionais químicas fabricantes de agrotóxicos e sementes transgênicas, e pelas corporações que comercializam as exportações. A ditadura nos legou uma agricultura dependente de quantidades cada vez maiores de agrotóxicos-venenos que afetam a saúde do solo, dos trabalhadores rurais e dos consumidores.
De forma trágica, a ditadura legou centenas de trabalhadores e sindicalistas torturados, mortos e desaparecidos. 50 anos depois do golpe, permanecem impunes os assassinos de Olavo Hanssen e Virgílio Gomes da Silva, mártires da categoria química, símbolos que sintetizam a devastação provocada pela repressão no meio sindical brasileiro.
Olavo era trabalhador da Quimbrasil e sócio do Sindicato dos Químicos do ABC, quando foi capturado pela repressão em 1 de maio de 1970. Levado à OBAN, foi morto sob tortura, aos 30 anos de idade. Virgílio, nascido no sertão do Rio Grande do Norte, veio para São Paulo como retirante, cumprindo a sina de tantas trabalhadoras e trabalhadores químicos. Militante do Sindicato dos Químicos de São Paulo desde meados da década de 1950, atuando na região de São Miguel Paulista, zona leste da capital, organizou os trabalhadores e liderou greves, sobretudo na Companhia Nitro Química Brasileira. Foi preso por alguns dias em 1964, quando o Sindicato sofreu intervenção e, a partir de 1967, passou a integrar a ALN, liderada por Carlos Marighella. Participou de diversas ações armadas, culminando com o seqüestro do embaixador dos Estados Unidos, em setembro de 1969, do qual Virgílio foi o comandante militar. Duas semanas depois, foi capturado pela repressão e levado à OBAN, tendo sido torturado e assassinado em 29 de setembro, aos 36 anos de idade. Mais um brasileiro, jovem, da classe trabalhadora, militante sindical, assassinado pela ditadura. Seu corpo jamais foi encontrado.
A Comissão Nacional da Verdade, instalada em março de 2012, já manifestou que pretende investigar os rastros do financiamento da ditadura por banqueiros e industriais, especialmente da OBAN. Se assim de fato o fizer, legará um serviço inestimável ao Brasil, sobretudo aos que hoje enfrentam os mesmos grupos econômicos forjados e impulsionados pelo Estado repressor da ditadura.
Em nome da memória e da verdade, a indústria química deveria manifestar-se sobre este período, aproveitando o cinqüentenário da ABIQUIM. Ou ser instada a fazê-lo pela Comissão, que entregará ao final deste ano relatório de seus trabalhos para a Presidenta Dilma Rousseff.
O silêncio e a omissão, hoje, perpetuam a impunidade e mantêm sobre todas as indústrias químicas a suspeita de cumplicidade com práticas já comprovadas que pesam sobre empresas específicas.
Thomaz Ferreira Jensen, economista, é membro do conselho consultivo da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

O legado da ditadura no Brasil

O legado da ditadura no Brasil



A militarização federal e das poli­cias foi um dos resultados do golpe que reprimia violentamente qualquer manifestação popular


11/04/2014
Maria Cristina Longo

O golpe militar completa 50 anos e é o momento de lembrar o imenso desastre que esse evento representou para a esmagadora maioria da sociedade brasileira. Esse regime depôs o então presidente João Goulart simplesmente porque ousou mencionar algumas reformas de base como a reforma agrária. O golpe de 64 instaurou uma sangrenta ditadura no Brasil, em que todos aqueles que pensavam e expressavam suas opiniões de modo diferente ao do Estado militar e da classe dominante foram cruelmente perseguidos, torturados e mortos por esse regime político.

O regime polí­tico ditatorial tratou, rapidamente, de agir em inúmeras frentes para beneficiar a classe dominante brasileira, para apoiar grandes grupos econômicos internacionais e para reprimir e tentar domesticar o povo brasileiro.

As frentes consistiram em controlar totalmente o poder polí­tico em todos os âmbitos, municipal, estadual, federal, bem como o legislativo e judiciário, em desmantelar a educação pública brasileira, em construir um plano de desenvolvimento para o paí­s que beneficiasse apenas e tão somente os donos das multinacionais aliados à classe dominante brasileira, em controlar os meios de comunicação, e todas as formas de arte e expressão popular, em militarizar o aparato estatal (central e regional com suas polícias) para impedir qualquer contestação ao que estivesse ocorrendo.

A ditadura militar utilizou o poder político para colocar em prática um plano econômico para o paí­s que privilegiou rodovias ao invés de 
ferrovias e hidrovias, beneficiando as grandes montadoras internacionais e a classe dominante brasileira associada a essas grandes grupos econômicos. O plano, visivelmente, não beneficiou a maior parte da população, mas essencialmente os interesses internacionais e de uma elite local ao produzir veí­culos motorizados e escoar sua produção dentro do paí­s. O mesmo que ocorreu nesse ramo da economia ocorreu em inúmeras outras decisões nacionais tomadas autoritariamente de cima para baixo. As cidades brasileiras cresceram desordenadamente, sem nenhum planejamento, como resultado de um grande fluxo migratório de pessoas em busca de novos postos de emprego.

Contudo, para que construir e planejar cidades se a elite dominante que controlava o poder polí­tico através dos militares podia pagar por tudo que desejasse, como educação, saúde, habitação, lazer e transporte?

Da área da educação foi roubada a nossa história. Foram apagados dos livros de história qualquer vestí­gio de revoltas internas e momentos contestatórios para passar uma impressão aos estudantes de que somos um povo pací­fico e feliz. Foi introduzida a disciplina de educação moral e cí­vica como forma de mostrar a necessidade que haveria em sermos um povo que se comporta.

Os meios de comunicação e outros meios de expressão artí­sticos foram cuidadosamente controlados pelos censores da ditadura, punindo aqueles que tentassem criticar ou denunciar qualquer prática abusiva por parte dos agentes econômicos dominantes ou por parte do Estado. É importante ressaltar que a rede Globo de televisão e outros meios de comunicação que existem ainda hoje apoiaram o golpe militar de 64.

A militarização federal e das polí­cias foi um dos resultados do golpe que reprimia violentamente qualquer manifestação popular desde as passeatas que pediam a volta da democracia até as greves que ocorriam no ABC de São Paulo.

Quais são os resultados de tamanha polí­tica autoritária? Imenso 
autoritarismo nas forças armadas e nas polí­cias, especialmente na polícia  militar que continua reprimindo violentamente qualquer movimento social, a  mando do Estado brasileiro aliado a interesses privados. O caos urbano em  que quase todas as cidades brasileiras encontram-se, como a extrema  dificuldade de locomoção derivada da opção por transporte privado em  detrimento de transporte coletivo. A deterioração da educaãoo pública,  a concentração de renda que possui consequências perversas para maioria  dos brasileiros que mal conseguem sobreviver com menos de um ou dois salários mí­nimos mensais.

Enfim, problemas de hoje derivados de decisões autoritárias passadas.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

ROBERTO MARINHO, NO GOLPE ATÉ O PESCOÇO!

ROBERTO MARINHO, 
NO GOLPE ATÉ O PESCOÇO!



Dos chapéus, Ataulfo Merval e Traaack têm a quem sair!

Documentos revelam interlocução de Roberto Marinho com cérebros do golpe


O Conversa Afiada reproduz texto de Helena Sthephanowitz, extraído da Rede Brasil Atual:

NOS EUA, A CONFIRMAÇÃO DA MÃO DE ROBERTO MARINHO NOS BASTIDORES DA DITADURA



Em telegrama ao Departamento de Estado norte-americano, embaixador Lincoln Gordon relata interlocução do dono da Globo com cérebros do golpe em decisões sobre sucessão e endurecimento do regime




No dia 14 de agosto do 1965, ano seguinte ao golpe, o então embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Lincoln Gordon, enviou a seus superiores um telegrama então classificado como altamente confidencial – agora já aberto a consulta pública. A correspondência narra encontro mantido na embaixada entre Gordon e Roberto Marinho, o então dono das Organizações Globo. A conversa era sobre a sucessão golpista.

Segundo relato do embaixador, Marinho estava “trabalhando silenciosamente” junto a um grupo composto, entre outras lideranças, pelo general Ernesto Geisel, chefe da Casa Militar; o general Golbery do Couto e Silva, chefe do Serviço Nacional de Informação (SNI); Luis Vianna, chefe da Casa Civil, pela prorrogação ou renovação do mandato do ditador Castelo Branco.

No início de julho de 1965, a pedido do grupo, Roberto Marinho teve um encontro com Castelo para persuadi-lo a prorrogar ou renovar o mandato. O general mostrou-se resistente à ideia, de acordo com Gordon.

No encontro, o dono da Globo também sondou a disposição de trazer o então embaixador em Washington, Juracy Magalhães, para ser ministro da Justiça. Castelo, aceitou a  indicação, que acabou acontecendo depois das eleições para governador em outubro. O objetivo era ter Magalhães por perto como alternativa a suceder o ditador, e para endurecer o regime, já que o ministro Milton Campos era considerado dócil demais para a pasta, como descreve o telegrama. De fato, Magalhães foi para a Justiça, apertou a censura aos meios de comunicação e pediu a cabeça de jornalistas de esquerda aos donos de jornais.

No dia 31 de julho do mesmo ano houve um novo encontro. Roberto Marinho explica que, se Castelo Branco restaurasse eleições diretas para sua sucessão, os políticos com mais chances seriam os da oposição. E novamente age para persuadir o general-presidente a prorrogar seu mandato ou reeleger-se sem o risco do voto direto. Marinho disse ter saído satisfeito do encontro, pois o ditador foi mais receptivo. Na conversa, o dono da Globo também disse que o grupo que frequentava defendia um emenda constitucional para permitir a reeleição de Castelo com voto indireto, já que a composição do Congresso não oferecia riscos. Debateu também as pretensões do general Costa e Silva à sucessão.

Lincoln Gordon escreveu ainda ao Departamento de Estado de seu país que o sigilo da fonte era essencial, ou seja, era para manter segredo sobre o interlocutor tanto do embaixador quanto do general: Roberto Marinho.
E seu relato, Gordon menciona Marinho entre os cérebros da continuidade do golpe. E cita Milton Campos como muito respeitável




Eleições diretas poderiam das margens para esquerdistas; como o marechal Lott; regime criaria eleição indireta




Marinho discutiu com Caslelo Branco a possibilidade de Costa e Silva vir a sucedê-lo






O histórico de apoio das Organizações Globo à ditadura não dá margens para surpresas. A diferença, agora, é confirmação documental.

terça-feira, 1 de abril de 2014

"50 ANOS DO GOLPE" - Os 50 anos do Golpe Militar e suas marcas no Brasil de hoje: é hora da ruptura!

Os 50 anos do Golpe Militar e suas marcas no Brasil de hoje: é hora da ruptura!



Por Ib Sales Tapajós*
                   
Nesta semana o Golpe Militar de 1964 completa 50 anos. Há 50 anos teve início na América Latina um longo ciclo de golpes militares e contrarrevoluções que durou até a década de 80, levando o historiador Eric Hobsbawm a caracterizar esse período como “a era mais sombria de tortura e contraterror da história do Ocidente” [1].
Precisamos refletir sobre o significado desse fato político e a herança que ele deixou à sociedade brasileira. Primeiramente, é preciso refutar e combater uma leitura desse período realizada por setores conservadores da sociedade brasileira, para quem a nossa Ditadura teria sido “menor pior” do que as demais ditaduras da América Latina. A ESTÓRIA da “ditabranda”, contada por um Editorial da Folha de São Paulo em 2009, não resiste a uma análise séria dos fatos: durante o regime militar brasileiro, mais de 70 mil pessoas foram presas, exiladas e perseguidas e cerca de 437 foram mortas e desaparecidas, segundo levantamento feito por familiares das vítimas da ditadura.
                   Por outro lado, Vladimir Safatle e Edson Teles (ambos filósofos e professores da USP) argumentam, na abertura do livro “O que resta da Ditadura”, que a violência de uma ditadura se mede não apenas pela quantidade de mortos deixados para trás, mas principalmente pelas marcas que ela deixa no presente. Por isso, “a ditadura brasileira foi a ditadura mais violenta que o ciclo negro latino-americano conheceu” [2].
Com efeito, a ditadura civil-militar que se iniciou no dia 1º de abril de 1964 e perdurou até o ano de 1985 produziu sequelas que até hoje são sentidas no dia-a-dia pelo povo brasileiro, sobretudo pelos pobres, negros e moradores de periferias urbanas, em quem recai a repressão cotidiana de uma das polícias mais violentas do mundo. A propósito, estudos apontam que a polícia militar brasileira é a única da América Latina que comete mais homicídios e crimes de tortura na atualidade do que durante o período da ditadura militar. [3]
A execução da trabalhadora negra Cláudia Silva Pereira pela PM do Rio de Janeiro mostra que essa polícia herdou muitas das práticas da ditadura. Após levar um tiro nas costas e outro no pescoço (!) Cláudia foi arrastada por cerca de 250 metros no asfalto por uma viatura policial. As imagens chocaram o país, mas não se trata de um caso isolado: antes dela, o desaparecimento do ajudante de pedreiro Amarildo de Souza (que também foi torturado pela PM!) mostrou ao país que a brutalidade policial e a violação de direitos humanos elementares são uma constante no nosso “regime democrático”.
               Memória, Verdade e Justiça: a exceção brasileira
               Se há um traço que distingue a ditadura brasileira das demais ocorridas na América Latina, não é a “brandura” afirmada pela Folha de São Paulo, mas sim a ausência de uma justiça de transição e a total impunidade dos responsáveis pelos crimes bárbaros aqui cometidos. O Brasil é o único país da região onde os torturadores nunca foram julgados. Nosso Exército jamais reconheceu os crimes cometidos no regime militar e dirigentes das Forças Armadas chegam ao cúmulo de taxar de “ressentidos” aqueles que lutam pela memória e reparação dos crimes da Ditadura!
A instalação da Comissão Nacional da Verdade em maio de 2012 foi um passo importante para que o povo brasileiro tenha acesso a informações que os militares golpistas e seus aliados políticos gostariam de manter escondidas. Entretanto, os trabalhos da Comissão sofrem uma séria limitação: a recusa do Governo Dilma em propor revisão à Lei da Anistia (Lei nº 6.683/1979), a qual impede a punição dos torturadores e assassinos da Ditadura. Pressionado pelas forças militares, o Governo quer apenas uma “justiça parcial”, que na prática significa manter a injustiça e a impunidade.
Igualmente lamentável foi a decisão do Supremo Tribunal Federal em 2010, que considerou compatíveis com a Constituição de 1988 os dispositivos da Lei da Anistia que perdoaram as torturas e demais crimes de lesa-humanidade praticados por agentes públicos do regime militar. Entretanto, a Corte Interamericana de Direitos Humanos tem entendimento consolidado de que os Crimes contra a Humanidade não prescrevem e não são alcançados por anistia. Essa tese foi reforçada inclusive na condenação que sofreu o Estado Brasileiro na referida Corte, no caso dos desaparecidos da Guerrilha do Araguaia, mostrando que o debate não está encerrado, mas, pelo contrário, pode e deve ser retomado nos meios jurídicos e políticos nacionais.
Felizmente a Anistia Internacional lançou a campanha#50diascontraimpunidade, que recolherá assinaturas numa petição online a ser encaminhada para a presidente Dilma Rousseff e ao Congresso Nacional, exigindo a revisão da Lei da Anistia. Átila Roque, um dos dirigentes da organização no Brasil, é muito preciso na motivação da campanha: “Enquanto você não fecha o ciclo da impunidade, favorece que certas práticas, certas estruturas do Estado, que seguem uma rotina de violação de direitos, continuem. Persiste uma estrutura de segurança altamente militarizada, organizada para combater o inimigo interno e não para garantir o direito à segurança e ao exercício pleno da cidadania” [4].
É fundamental que seja intensificada a pressão popular pela revisão da Lei da Anistia, de modo a permitir que os criminosos da Ditadura sejam responsabilizados por seus atos. Devemos seguir o exemplo dos nossos vizinhos argentinos, chilenos e uruguaios, que colocaram na cadeia os seus ditadores. Precisamos enterrar práticas do passado que definitivamente não devem se repetir no presente!
               50 anos após o Golpe: lutar pelo direito à manifestação no ano da Copa.
De maneira tragicamente cômica, após 50 anos do Golpe Militar, parlamentares da base de apoio do Governo da ex-guerrilheira Dilma Rousseff se articulam para aprovar uma “Lei Antiterrorismo” que é um claro atentado ao direito de manifestação. O Projeto de Lei do Senado nº 499/2013 nos faz lembrar da famigerada Lei de Segurança Nacional do Regime Militar, e possui um objetivo preciso: evitar protestos e tensões sociais durante a Copa do Mundo de 2014 e Olimpíadas de 2016. Em nome da Copa, o Governo Dilma e sua base aliada no Congresso se submetem a todas as imposições da FIFA, a ponto de limitar direitos civis e políticos essenciais em qualquer regime democrático. [5]
O Projeto de Lei Antiterrorismo, se aprovado, permitirá uma ampliação do processo de criminalização dos movimentos sociais já em curso no Brasil. Exemplo gritante desse processo foi o indiciamento de sete jovens ativistas das jornadas de junho no Rio Grande do Sul por crimes como “formação de milícia”. A Polícia Civil gaúcha apontou para a responsabilização criminal dos jovens pelos atos de “vandalismo” nas manifestações, mesmo sem ter nenhuma prova ou indício que demonstre a participação direta ou indireta deles em atos violentos.
Aparentemente, as forças repressivas em nosso país aumentaram o leque de sujeitos que constituem o chamado “inimigo interno”: além dos negros, pobres e moradores das favelas, agora também os líderes dos protestos devem ser monitorados, contidos e reprimidos. O problema é que a lógica do inimigo interno é própria das ditaduras e dos regimes de exceção: em 1964 o inimigo eram os “terroristas” e “subversivos”. Agora, são os “vândalos” – palavra muito usada por empresas da Grande Mídia que apoiaram o Golpe e, agora, fazem coro à criminalização das lutas sociais.
O Golpe de 1964 conseguiu estancar pela força um processo muito intenso de mobilização democrática e popular em nosso país, que teve seu ápice na luta pelas reformas de base propostas pelo Governo João Goulart. Agora, 50 anos depois, as classes dominantes, os governos e as forças de segurança tentam conter o ímpeto radical e contestador que ressurgiu nas ruas do nosso país nas jornadas de junho.
Isso tudo coloca a defesa do direito de manifestação como prioridade da pauta da juventude e dos movimentos sociais. Juntamente com outras pautas de ruptura com os resquícios autoritários do Golpe de 1964, como a desmilitarização da Polícia, o respeito aos direitos humanos e a punição dos criminosos da ditadura. Além disso, a luta por uma reforma política que promova rupturas com o controle do Estado pelo poder econômico é uma pauta necessária para avançarmos em uma real democratização do nosso país.
É hora de enterrar de vez o nosso passado ditatorial e caminhar rumo a uma Democracia Real, certamente o principal anseio dos milhões que tomaram as ruas do Brasil em Junho de 2013.
* Ib Sales Tapajós é advogado militante do Juntos, membro da Executiva do PSOL em Santarém/PA.
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[1] Eric Hobsbawm, A Era dos Extremos, Companhia das Letras, 1995. Pag. 433.
[2] Edson Teles e Vladimir Safatle. O que resta da Ditadura. Boitempo Editorial, 2010. Pag. 10.
[3] Maria Rita Kehl. Tortura e sintoma social, no livro “O que resta da Ditadura”. Pag. 24.
[4] Órgão faz campanha por revisão da Anistia.http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,orgao-faz-campanha-por-revisao-da-anistia,1147226,0.htm
[5] Sobre a Lei Antiterrorismo, ler: http://juntos.org.br/2014/02/a-lei-antiterrorismo-uma-ameaca-ao-direito-de-manifestacao/

"50 ANOS DO GOLPE" - Todos queriam um golpe

Todos queriam um golpe




Não foram só os militares que desprezaram as regras democráticas em 1964. Havia conspiradores na direita, na esquerda e nas entranhas do próprio governo João Goulart



Amauri Segalla e Pedro Marcondes de Moura
Em 1964, o Brasil era um País enredado numa teia de conspirações. Tramava-se contra o governo de João Goulart, mas o próprio Jango quis corromper as regras da sucessão presidencial. Enquanto a direita urdia a tomada de poder, líderes da esquerda defendiam o fechamento do Congresso Nacional. Se os empresários lançaram uma campanha que incendiou militares, os estudantes da UNE cantaram uma música com o refrão “Não dá pra ter democracia se a barriga está vazia”. Ao mesmo tempo em que Gilberto Freyre celebrou o golpe, Darcy Ribeiro defendeu a resistência até a morte. O Brasil de 1964 era um balaio de ideias e correntes políticas, de líderes pertinazes e sabotadores empedernidos, e por isso mesmo a sociedade ansiava por mudanças, ainda que elas significassem o desapego à democracia. Alguma coisa precisava acontecer, e aconteceu da pior maneira possível. No livro “A Ditadura Envergonhada”, do jornalista Elio Gaspari, consta o que Miguel Arraes, o governador esquerdista de Pernambuco, disse a amigos às vésperas do histórico 1º de abril: “Estou certo de que um golpe virá. De lá ou de cá, ainda não sei.”
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NUVENS SOBRE BRASíLIA
Conspiradores de todas as correntes ideológicas lutavam por ruptura institucional

O golpe veio de lá, mas poderia ter vindo de qualquer lugar. Seu primeiro capítulo se deu na renúncia de Jânio Quadros, em 1961, que desencadeou uma sequência de acontecimentos que acabaram por fragmentar o País. Na ausência de Jânio, a chefia da nação deveria ser transmitida a João Goulart, mas seu nome foi vetado por ministros militares – e assim ele sofreria seu primeiro golpe antes mesmo de assumir o cargo. Inventou-se uma fórmula parlamentarista delirante, segundo a qual Jango ocuparia a Presidência, mas sem desfrutar de fato do poder. O parlamentarismo caiu um ano e meio depois, em um plebiscito que daria a Jango 9,5 milhões de votos. Mas, enfim presidente, o homem que já causava arrepios nos conservadores aproximou-se ainda mais das esquerdas. Em outubro de 1963, pediu ao Congresso a decretação do estado de sítio e, pouco depois, quis alterar a Constituição, o que abriria a possibilidade de ser reeleito no pleito de 1965, suspenso pela ditadura. Seu cunhado, o ex-governador do Rio Grande do Sul Leonel Brizola, assumiria então o papel de incendiador oficial da República. No Comício da Central, no dia 13 de março, Brizola propôs o fechamento do Congresso. A Jango, disse não uma, mas várias vezes: “Se não dermos o golpe, eles o darão contra nós”. A ideia golpista estava no ar.
Em janeiro, em uma entrevista na tevê, Luiz Carlos Prestes, secretário-geral do Partido Comunista, fez uma declaração que assustou almas mais suscetíveis: “Poderíamos concordar com a dissolução do Congresso se houvesse um governo que desse as necessárias garantias democráticas a todas as forças patrióticas”. Não eram, a seu modo, conspiradores de plantão?
A guinada de Jango e a proximidade com líderes comunistas exasperaram os sentimentos mais sombrios da direita nacional. Ávidos por derrubar o presidente, alguns dos principais empresários do País criaram o Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais, o Ipês, constituído com o propósito de lançar campanhas difamatórias contra movimentos de esquerda. O Ipês fez propagandas de alcance nacional que apresentavam comunistas como indivíduos sanguinários, e seus quadros contavam com figuras que mais tarde se tornariam símbolos da ditadura, como o general Golbery do Couto e Silva. Num período em que a circulação de informações não se dava de maneira irrestrita como agora, o Ipês produziu um longo documentário sobre a economia do País. A obra carregou na dramaticidade. A situação era feia – inflação perto de 100% ao ano, diminuição da renda per capita, gastos públicos excessivos –, mas o Ipês pintou um cenário de tragédia que levou pânico principalmente à classe média.
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No âmbito político, havia golpistas entre os governadores dos principais Estados brasileiros. Em São Paulo, Adhemar de Barros organizou, com a ajuda de lideranças católicas, a Marcha da Família, evento que contou com a presença de centenas de milhares de pessoas contrárias à “onda comunista” – era o apoio popular que os militares precisavam para levar o golpe adiante. Em Minas Gerais, o governador e banqueiro José de Magalhães Pinto fez tudo que pôde para defenestrar Jango. No dia 28 de março, Magalhães reuniu-se com o general Olympio Mourão Filho, comandante da 4ª Região Militar e primeiro militar a pôr suas tropas na rua. A pauta do encontro: as ações que seriam lançadas para tomar a Presidência. Carlos Lacerda, o “derrubador de presidentes”
e governador do então Estado da Guanabara, orgulhava-se de ter instigado o governo americano ao dar uma entrevista bombástica para o jornal “Los Angeles Times”, denunciando o que chamou de infiltração comunista no governo Jango. Não estavam todos conspirando contra o presidente?
Na lógica dos governadores, a queda de Jango resultaria num governo militar transitório até as eleições presidenciais, em 1966, quando disputariam votos na condição de favoritos. Brizola raciocinou da mesma forma. Havia até um slogan para a campanha dele: “Cunhado não é parente, Brizola para presidente”.
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Em 64, o Brasil ansiava por mudanças, mesmo se elas ameaçassem a democracia
O golpe veio e a ironia é que muitos de seus protagonistas – de um lado ou de outro da trincheira – acabaram banidos pelos militares. Adhemar fugiu e morreu na França. Lacerda foi preso. Prestes entrou na clandestinidade e depois viveu anos na antiga União Soviética. Brizola exilou-se no Uruguai. Consta que, ao cruzar a fronteira, carregava a faixa presidencial roubada de Jango.
Montagem sobre foto de Dmitri Kessel/Time Life Pictures/Getty Images, fotos: Arquivo em/D.A Press; Uh/Folhapress 

"50 ANOS DO GOLPE" - Os 20 dias que mudaram o Brasil

Os 20 dias que mudaram o Brasil




As radicalizações das forças políticas de direita e esquerda, a atuação dos conspiradores civis e militares e os equívocos políticos do governo João Goulart contribuíram para que, entre os dias 13 de março e 1º de abril de 1964, o golpe fosse consumado



Sérgio Pardellas
Foi a partir de uma data associada ao mau agouro que a situação política do então presidente da República João Goulart se deterioraria e as forças golpistas civis e militares encontrariam solo fértil para, dali a 20 dias, articular e sacramentar sua deposição, que condenou o País a 20 anos de trevas. Eram 19h45 de uma sexta-feira 13 quando o nada supersticioso Jango, suando frio, ainda meio baqueado por uma queda de pressão horas antes, subiu ao palanque erguido na Central do Brasil, no Rio de Janeiro. Enquanto aguardava o momento do seu pronunciamento, Jango fixou os olhos na multidão – cerca de 200 mil pessoas. A imensa maioria exibia cartazes com dizeres a seu favor. Em meio a um ambiente de radicalização à direita e à esquerda, greves e inflação em alta, o evento estava sendo observado com atenção não só pela população, mas por segmentos expressivos da sociedade civil, agentes políticos de todas as colorações partidárias e, principalmente, militares governistas e oposicionistas. Afinal, o comício poderia marcar a definitiva aliança com as esquerdas de um presidente até então hesitante a fazê-lo por medo de perder o apoio dos moderados, encarnados pelo PSD de Tancredo Neves. A expectativa se confirmou.
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FIM DE LINHA
Sem oferecer resistência ao golpe, Jango,
já deposto, experimentaria sua pior solidão

Ao tomar a palavra, às 20h46, sob forte calor e tensão emocional, ao lado da mulher, Maria Thereza, Jango, de improviso, proferiu um de seus mais duros discursos desde a posse. Enquanto o ministro da Casa Civil Darcy Ribeiro soprava palavras incendiárias em seu ouvido, aproveitando as pausas no discurso, Goulart selava sua união com as esquerdas ao defender as reformas de base, entre elas a agrária, confirmar o rompimento com o PSD e pregar a necessidade de reescrever a Constituição, à qual se referiu como antiquada. O pronunciamento magnetizou a plateia e inflamou representantes do PTB, PCB e CGT, mas também atiçou a caserna e setores conservadores. A imprensa alinhou-se nas críticas ao comício e, daquela sexta-feira até 1º de abril, o conflito político entre os grupos antagônicos da época assumiu proporções preocupantes para a continuidade do processo democrático.
O discurso de Jango se materializaria, dois dias depois, em uma mensagem enviada ao Congresso. Além das reformas de base, Goulart propunha uma reforma eleitoral que criava o instituto da reeleição para presidente e abria brechas legais para a candidatura ao pleito de 1965 do cunhado Leonel Brizola, uma das principais lideranças do PTB. Até então, o petebista não poderia se lançar candidato porque a Constituição dizia que eram inelegíveis parentes de até segundo grau de ocupantes do Executivo.
O ambiente não poderia ser mais propício para a movimentação dos militares golpistas. Para as esquerdas, as iniciativas do presidente foram encaradas como uma vitória. Para a direita e conspiradores, “já não se tratava de resistir, mas de intervir no processo para liquidar uma situação tida como intolerável”, sublinhou o jornalista Carlos Castello Branco, que assinava uma das colunas mais respeitadas da época, Coisas da Política, no “Jornal do Brasil”.  Até Juscelino Kubitschek, do PSD, que não costurava e nem sequer pensava em golpe de Estado, pois era um dos candidatos favoritos à eleição de 1965, comentou com um interlocutor: “Jango passou dos limites. Saiu da legalidade que o sustentava”, anunciou. O governador de Minas Gerais, Magalhães Pinto, da UDN, e o de São Paulo, Adhemar de Barros, passaram a ocupar rádios e televisões para atacar Goulart. Carlos Lacerda, ferrenho opositor, governador da Guanabara, ampliou o tom dos ataques. Em meio ao clima de tensão política e desconfiança geral, nem as esquerdas pareciam pacificadas, mesmo após todos os movimentos do presidente em direção aos seus anseios. Houve, na esquerda, quem considerasse que um eventual golpe em marcha, de inspiração direitista ou não, pudesse contar com a participação do próprio presidente.  
A Marcha da Família disseminou o medo da esquerda
No dia 18 de março, o ex-presidente da República Eurico Gaspar Dutra concedia uma entrevista ao “JB” em que, além de atacar pessoalmente Goulart, pregava “a união em defesa da legalidade enquanto é tempo”. A entrevista, de grande repercussão, embalou manifestações populares a favor da destituição de Jango. Numa espécie de revide ao Comício da Central, no dia 19 de março surgiu o movimento intitulado Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Ostentando cartazes com os dizeres “Comuna não tem vez” e “Aqui não, João”, a marcha reuniu 500 mil pessoas, entre lideranças conservadoras, católicas e setores da classe média, na praça da república, em São Paulo. O evento que tomou as ruas da cidade representou o grande ato de resistência a Jango. Naquela altura, entre os círculos conspiratórios, Castelo Branco começava a se sobressair como liderança anti-Goulart. O sentimento de medo de um governo de esquerda que, para os opositores a Jango, “ameaçava a Constituição e a família brasileira”, fora disseminado e ganhou ainda mais fôlego. Restava a gota d’água. E ela teria proporções de um oceano para Goulart: a rebelião dos marinheiros.
Em 23 de março, marinheiros e fuzileiros organizavam o aniversário da associação que os representava. A festa ocorreria na sede da Petrobras e serviria para os subalternos da Marinha criticarem as condições de trabalho. O ministro da Marinha, Sílvio Mota, interveio na tentativa de proibir não só a utilização da Petrobras como local da festa, mas também a comemoração em si. No dia 24 de março, véspera do aniversário da associação não reconhecida pela Marinha, Mota mandou prender 12 de seus dirigentes. Entre eles, seu presidente, o cabo José Anselmo. Quando a crise eclodiu, em 25 de março, Jango estava com a família em São Borja. Durante o evento, realizado na sede do Sindicato dos Metalúrgicos da Guanabara, cerca de dois mil marinheiros ouviram um discurso desafiador do cabo Anselmo. Em tom político, ele defendeu as reformas de base e atacou seus superiores.
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CONSPIRAÇÃO MILITAR
Após a ida de Jango ao Automóvel Clube, o general
Castelo Branco intensificou tratativas para o golpe

A festa se desenrolava quando Mota mandou prender outros 40 marinheiros, mas foi desautorizado por Jango. Horas depois, o ministro da Marinha renunciou ao cargo. No dia 27 de março, Jango, mesmo pressionado pelas Forças Armadas, decidiu anistiar os rebeldes. Sentindo-se feridas no que mais de essencial existia nelas, os fundamentos da autoridade, hierarquia, disciplina e respeito às leis militares, as Forças Armadas estavam à beira de um rompimento definitivo com Jango. Em conversa com o ministro da Guerra, general Jair Dantas Ribeiro, JK dizia que na noite de 29 para 30 de março o País vivia “a maior crise político-militar de sua história”. Os jornais afirmavam que “o estado de direito submergia no Brasil”.
O momento exigia de Jango prudência política, mas ocorreu o inverso. No dia 30 de março, o presidente resolveu comparecer à sede do Automóvel Clube, onde aconteceria a posse da nova diretoria da Associação dos Sargentos e Suboficiais da Polícia Militar. Para assessores próximos a Goulart, a ida ao evento era uma insensatez. Tancredo Neves aconselhou-o pessoalmente a não ir, mas o presidente fez ouvidos moucos e desembarcou no Automóvel Clube perto das 20h, acompanhado da mulher e de alguns ministros. Em discurso, além de acusar “inimigos da democracia” de conspirar contra o seu governo, Jango usou termos contrários à disciplina militar que azedaram de vez sua relação já esgarçada com as Forças Armadas. Até os oficiais legalistas e nacionalistas já temiam pelo pior. “Acabou-se. Não há mais sustentação. Eles vão dar o golpe”, disse o tenente-coronel Alfredo Arraes de Alencar. A partir dali, organizações de esquerda passaram a se preparar de fato para um possível golpe. “Agora, quanto pior, melhor”, dizia o general Ernesto Geisel.
Rebelião dos marinheiros e discurso

em clube militar foram a gota d’água

No dia 31 de março, o movimento golpista já estava em marcha e ganhava dinâmica própria. Em editorial intitulado “Basta!”, o prestigiado jornal “Correio da Manhã” passou a cobrar a deposição de Jango. O presidente do Senado, Auro de Moura Andrade, foi um dos primeiros políticos a romper publicamente com Jango, ao denunciar a “infiltração comunista no País” e afirmar a necessidade da “intervenção militar para garantir a ordem”. Em seguida, o governador de Minas, Magalhães Pinto, apresentou-se como líder civil do movimento para depor Goulart. Horas depois o presidente teve a confirmação do golpe em curso. De Juiz de Fora (MG), o general Olímpio Mourão Filho liderava um comboio militar, formado por recrutas, que marchava para a Guanabara. Em uma derradeira conversa com Jango, no Palácio Laranjeiras, JK sugeriu ao chefe do Executivo medidas conservadoras para estancar a crise. Fez coro o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, Peri Bevilaqua. O general garantiu apoio militar, desde que declarasse oposição às greves patrocinadas pela CGT e se comprometesse com a manutenção da disciplina e da hierarquia militar. Goulart se recusou a tais exigências. Naquele momento, o presidente ainda acreditava num dispositivo militar a seu favor. Pensava também contar com o apoio do general do II Exército, Amaury Kruel, que ainda não havia se posicionado em meio ao turbilhão da crise. Quando tropas, tanques e carros blindados do Exército estacionaram no Ibirapuera (SP), Kruel tomou sua decisão em favor dos golpistas. Em pronunciamento às rádios, depois de o governador Adhemar de Barros declarar apoio aos mineiros, Kruel disse que a Pátria deveria ser salva do “jugo vermelho”. Foi uma derrota para Goulart. Do QG do Exército, Geisel e Golbery do Couto e Silva aglutinavam os focos de rebelião militar por telefone. Na noite de 31 de março, Kruel ordenou o deslocamento das tropas do II Exército em direção à Guanabara. Ou seja, para lá marchavam as colunas militares de Minas e de São Paulo, ambas para derrubar o governo. No Nordeste, o comandante do IV Exército também acompanhou os golpistas e ordenou a prisão do governador Miguel Arraes. Ao amanhecer do dia 1º de abril, o governo de Jango estava sitiado. Às duas da madrugada do dia seguinte, quando o presidente já se encontrava em sua estância em Porto Alegre, o presidente do Congresso, Auro de Moura Andrade, declarou a vacância do cargo de presidente. O golpe estava consumado.
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Fotos: CPDOCJB/Folhapress, UH/Folhapres