Páginas

Mostrando postagens com marcador PENSAMENTO POLÍTICO. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador PENSAMENTO POLÍTICO. Mostrar todas as postagens

domingo, 5 de janeiro de 2014

O terceiro artigo da série: O que é, como e para que ser de esquerda? (3)

O que é, como e para que ser de esquerda? (3)




Flávio  Aguiar

A pedra fundamental do ser de esquerda, seu como e seu para que, é a valorização republicana da cidadania, da ação coletiva, do espaço


Quando os regimes comunistas da União Soviética e seus satélites se dissolveram, ao invés do tão longamente esperado “homo sovieticus”, emergiram naquele espaço desconstruído algumas das piores máfias do planeta, oligarcas desabusados que apenas o neo-czarismo autoritário de Vladimir Putin pode enfrentar, um catolicismo ou  uma ortodoxia bizantina rançosos e carolas, políticos e políticas entusiasticamente neoliberais ou de extrema-direita... Enfim a lista de dsarrazoados é enorme, mostrando o quanto os regimes comunistas daquela região não conseguiram construir a democracia socialmente avançada que o capitalismo triunfante não só negou historicamente, mas passou a negar ainda com mais veemência nos primeiros anos da orgia neoliberal.

Sintetizando, pode-se considerar que as repúblicas socialistas tinham muito pouco, ou quase nada, de republicanas, o que roeu pela base a sustentação das políticas sociais que conseguiram promover, e turvaram a visão das suas grandes conquistas históricas, como a derrota do nazi-fascismo e a ajuda à sustentação de lutas de libertação no mundo, no Sudeste Asiático, na África e até na América Latina. Uma expressão dramática desta falta de “espírito republicano” foi a tragédia do Muro de Berlim, que, se cercava o lado Ocidental, deixava desde sempre a impressão de que os prisioneiros do cerco estavam do outro lado, o Oriental.

Por aí pode ter-se juma primeira medida de que hoje – estamos falando neste aqui e agora do século XXI em seu começo – a pedra fundamental do ser de esquerda – seu “como” e seu “para que” é a valorização republicana da cidadania, da ação coletiva, do espaço público, e da governaça do Estado e de seu papel, tudo aquilo que a ideologia à solta do império dos mercados, embalada por sua vitória sobre o comunismo soviético, continua e vai continuar negando, pisoteando a cidadania, o espírito de coletividade, manietando o espaço público e buscando a privatização completa da governança do Estado, fazendo-a administradora de privilégios ao invés de garantidora de direitos.

Isto implica a valorização da democracia como um valor permanente, em todas as suas dimensões, sem perder de vista nenhuma em detrimento de outra: a dimensão direta, nas ruas e manifestações, a participativa, como no prática orçamentária que leva este nome, mas também no fortalecimento do espírito associativo, e a representativa, combatendo o descrédito com que a direita quer recobrir sempre este espaço. Isto implica a luta pelo papel regulador do Estado, em detrimento das ideias de um mercado “autorregulável”, e ao mesmo tempo a luta pela maior transparência deste mesmo Estado, e pela reversão das práticas abusivas de administração de privilégios que faz parte de seu legado histórico.

É complicado, mas este “ethos” de esquerda implica a afirmação de uma visão totalizante dos seres humanos, desconstruindo os preconceitos sexuais, religiosos, sociais, racistas, nacionais, regionais, continentais, culturais que pretendem “naturalizar” a afirmação da desigualdade e informar as políticas discriminatórias de minorias, mas também de maiorias, como hoje, por exemplo, acontece seguidamente nesta Europa de naufrágio da social-democracia, onde ao lado das políticas de discriminação preconizadas pelas extremas-direitas em vários países viceja o claro tempo pela democracia que a imposição das “políticas de austeridade” exige para sua implementação e afirmação hegemônica.

O mais complicado de tudo isto ainda é que isto exige uma contínua alimentação mútua entre análise e praxis no espaço concreto onde a inserção das múltiplas esquerdas se dá. De nada adianta, ou melhor, adianta muito pouco afirmar-se uma concepção que abstratamente prescinda, por exemplo, dos Estados nacionais, se a garantia dos direitos individuais e coletivos da cidadania se dá através do jogo dentro e entre estes mesmos Estados.
O internacionalismo que as esquerdas de modo justo preconizam não pode ser visto como uma constelação abstrata que, das alturas, quase astrologicamente, governe os passos dos povos do mundo. Este internacionalismo passa por uma construção concreta, diária e solidária, entre povos que têm uma história concreta, de choques e desigualdades, heranças de violências muitas vêzes mútuas, insufladas de fora ou de dentro, que precisam ser neutralizadas para que se avance a ideia de um compromisso entre iguais que rompa o círculo vicioso do emprego da força.

Todo este conjunto de ideias não esgota o tema sobre o que é, como e para que ser de esquerda. Espero que contribua para o prosseguimento da discussão. A boa discussão, penso eu, é aquela que levanta mais perguntas que estimulem a sua continuidade do que respostas definitivas que procurem fechar o caminho. Isto não deve barrar a ação, que deve ser continua. Mas deve situar a compreensão de que perguntar continuamente também faz parte das ações de esquerda.


Fonte: http://www.cartamaior.com.br/?/Coluna/O-que-e-como-e-para-que-ser-de-esquerda-3-/29504

sábado, 4 de janeiro de 2014

O segundo artigo da série: O que é, como e para quê ser de esquerda (II)

O que é, como e para quê ser de esquerda (II)



Flávio  Aguiar



A utopia messiânica implica em se ver a história da humanidade como chegando a um ponto ômega, final, onde este se transforma em alfa, inicial.


Conheço o vento
Pelo canto donde sopra
Ditado popular

Uma das falácias que tomou conta de muito pensamento pela esquerda foi a de que como o socialismo fosse “científico”, ela prescindia de uma curvatura utópica, e até a ela se opusesse.

“Científico”, neste contexto em que surgiu, implicava a idéia de previsibilidade e pré-determinação: estávamos fadados, condenados à vitória.

Este mesmo era um pensamento utópico: tão utópico, que acabou por adquirir uma curvatura messiânica, e figuras com caráter de “messias” chegaram a ocupar o proscênio da esquerda mundial. Stalin foi o maior destes “messias”, encarnando até o princípio de que momentaneamente apenas seu país mereceria o paraíso comunista; os outros deveriam permanecer ou até mesmo conquistar (como era o caso de boa parte do pensamento de esquerda no Brasil) o purgatório burguês e capitalista, “etapa” necessária para que pudessem se aperfeiçoar e ajudar o paraíso distante a se aperfeiçoar ainda mais.

Stalin foi um messias mundial; mas os houve também em menor escala: regionais, nacionais, até paroquiais. Hoje em dia é até fácil, no entanto, apontar-lhe o dedo e culpá-lo por tudo, pelo gigantesco desvio que foi o seu império (czariato?). É um pouco mais difícil procurar discernir o que de pensamento messiânico poderia estar embutido no DNA daquele cientificismo socialista.

Não que ela fosse inevitável, a curvatura messiânica. Hoje sabemos que nada é inevitável, nem mesmo aquela  propalada vitória final. Mas é possível discernir também a idéia de que uma utopia de curvatura messiânica implica a possibilidade de uma outra curvatura, a da ética, dee dimensões incalculáveis.

A utopia messiânica implica em se ver a história da humanidade como chegando a um ponto ômega, final, onde este se transforma em alfa, inicial: o mundo recomeça, a história recomeça do zero, livre das cicatrizes do passado, o homem novo e nascituro redime as feridas superadas. O corolário desta forma de pensar é que para chegar a este ponto alfômega, tudo é permitido, pois tudo será perdoado e redimido. Daí a se enfiar uma picareta na cabeça do adversário mais próximo é um pequeno passo, especialmente se este adversário de hoje for o aliado de ontem. Não precisa ser uma picareta de ferro: pode ser a da desqualificação, até a da calúnia se necessário for. Até porque, continuando pelas rotas dos corolários, somente eu, o meu grupo, o meu pensamento, a minha visão ensurdecedora do futuro rutilante é que encarnamos a verdade: esta é que é a verdade.

Um aspecto terrível (há vários) desta visão ofuscante é que ela ofusca a análise do presente – do real. Nós – apenas nós – dominamos a inteligibilidade da história; em nome disto podemos prescindir do diálogo com a multiplicidade do real para perceber o que está de fato acontecendo. É como se pudéssemos navegar apenas olhando as estrelas – sem prestar atenção ao movimento das ondas, das correntes, à direção do vento. Podemos até fazer uma transposição cibernética desta metáfora marítima: só cabe na sensação/percepção  do real  aquilo que possa  ser recriado como objeto do meu progama de navegação. O resto deve ser deletado, pois só cria ruído no aparato.

Há um exemplo histórico de como isto funciona. Em 1954 havia uma campanha gigantesca de direita, através da mídia, para derrubar Getúlio Vargas. Não porque ele tivesse sido ou fosse autoritário, ditador, etc., embora se mobilizassem tais argumentos; na verdade porque ele se tornara definitivamente um “populista”. Grande parte da esquerda (comunista, trotskista e socialista) comprou esta visão e tais argumentos, embalada por um sentimento (de raiz messiânica) de  que naquela altura era necessário afastar o “messias errado” do caminho, para que este ficasse desimpedido.

Em 24 de agosto estas esquerdas foram duplamente surpreendidas. Primeiro, como todo mundo, pela notícia do suicídio do presidente, que ninguém esperava, nem mesmo seus correligionários mais próximos. Segundo, porque o que se viu foi a emergência de uma massa enfurecida depredando as sedes dos partidos de direita, os jornais a seu serviço, e até mesmo sedes de partidos de esquerda, que faziam oposição ao presidente. Houve dois movimentos rápidos: na hora, em alguns pontos do país, líderes de esquerda tentaram por-se à frente do povão insurreto, nem que fosse para tentar impedir a depredação das suas sedes partidárias.

Num outro movimento, criou-se a legenda para tal quadro de que “a massa que saía à rua para comemorar a queda de Getúlio, ao saber do suicídio, mudou de temperamento”. Esta legenda,  embalada tanto pela retórica liberal de direita de então, quanto pela retórica de esquerda que ia na sua onda, apenas reafirmava o caráter volúvel, quase bestial, imprestável para a política a menos se for acabrestada por alguma liderança ou vanguarda providencial, das “massas populares”.

Reconstituindo-se os fatos, pode-se perceber que não havia “massa saindo à rua para comemorar”.  O que tirou o povão das casas ou do trabalho foi a leitura repetida da carta Testamento no Repórter Esso e outros radiojornais do país.
Confundiu-se o alarido da imprensa reacionária, capitaneada por Carlos Lacerda, com uma fantasmagórica “opinião pública”. E a esquerda em grande parte embarcou na maionese.   A visão ofuscante da própria constelação de idéias impediu a análise do real. Parte da esquerda tornou-se a messias de si mesma, iludindo-se que açambarcava a história em seu aprisco, achando que interpretava inclusive o discurso da direita, quando na verdade estava sendo devidamente instrumentada por ele.

Porém tais consideações não são feitas para desestimular os pensamentos ou as práxis das esquerdas. Pelo contrário: seu objetivo é estimular uma forma de pensamento e práxis em que se mantenha um rigoroso mas delicado equilíbrio entre visão utópica, indispensável para a ação, e análise do real presente, o que é uma ação igualmente indispensável. Mas para manter este equilíbrio não basta subsumir os discursos alheios no próprio: é necessário escutá-los e com eles dialogar. Com rigor, com veemência, com combatividade, com princípios, mas dialogar, pois o diálogo também é um princípio que as esquerdas não podem perder de vista.

Voltaremos ao assunto.


Fonte: http://www.cartamaior.com.br/?/Coluna/O-que-e-como-e-para-que-ser-de-esquerda-II-/29381

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Publico aqui o primeiro da série de três artigos escrito por Flávio Aguiar, entre outubro e novembro de 2013, que retrata: O que é, como e para que ser de esquerda (I)

O que é, como e para que ser de esquerda (I)



Flávio  Aguiar


A primeira coisa a fazer para ser de esquerda é postular que existe uma esquerda. A ideia pode parecer tautológica, mas não é.

O que vou escrever visa complementar o que nosso companheiro Emir Sader expôs no seu blog, nesta página, sobre o que é ser de esquerda.

É uma questão complexa, que metodologicamente dividi em três capítulos: (I) O que é ser de esquerda, o que envolve questões conceituais; (II) como ser de esquerda, o que implica considerações sobre tática e estratégia; (III) para que ser de esquerda, o que sugere a discussão sobre meios, fins, e contra-fins, isto é, aquilo que é necessário rejeitar para ser de esquerda.

Comecemos pelo começo, isto é, as questões conceituais.

A primeira coisa a fazer para ser de esquerda é, portanto, postular que existe uma esquerda. A ideia pode parecer tautológica, mas não é. Porque é isto que está em questão. Para existir uma esquerda, é necessário que exista uma direita. E a direita se auto-nega sistematicamente: se aquela é a questão, este é o nó da questão: a esquerda tem diante de si um inimigo que elude (ilude) constantemente sua existência.
 
Para a direita, negar a existência da esquerda é uma afirmação tática para encobrir, acobertar, a sua própria existência. Estaremos diante da tática do lobo na pele do cordeiro? Em parte. Porque em parte não se trata disto, mas se trata de uma questão ontológica: como a direita não quer mais se apresentar como um partido, ou uma seção (secção também) da sociedade, só lhe resta se apresentar como abarcando o significado – os signifcantes (mídia) de toda a sociedade. Ou seja, estamos diante do paradoxo de que, para afirmar ou manter ou defender a sua pretensão à hegemonia na praxis e do pensamento, temos uma corrente social que deve negar sua existência e apresentar-se como aquilo que ela não é: a expressão de valores universais.

A esquerda precisa, portanto, concentrar-se na sua própria maneira de ser, e de se apresentar, diante e depois das crises por que passou, com a derrota ou o fracasso dos regimes que eram ou se apresentavam como seus. O primeiro passo para ser de esquerda, portanto, é refluir sobre seus próprios passos, e pensar o que aconteceu, para que os erros, os equívocos, as fantasmagorias do passado não voltem a cegar a visão do horizonte. Isto não garante que não venham a sobrevir novos erros, equívocos, novas fantasmagorias, Trata-se apenas de pensar que não sejam os mesmos.

Então vamos ao principal deles. Postulando que haja uma esquerda, é necessário logo a seguir negar esta tese, ou melhor, realocar o peso das palavras. Trata-se de afirmar que existe uma esquerda, onde esta palavra é um substantivo e aquela um artigo indefinido. Não se trata de afirmar que exista uma esquerda, onde aquela palavra é um numeral e esta um mero adjetivo da unidade.  Ou seja, postular que há uma esquerda significa postular que existem esquerdas, que ela é plural, e que nenhuma das correntes que nela convivem é a dona da verdade absoluta e que, portanto, nada justifica que umas e outras andem enfiando as próprias picaretas nas cabeças de outras e umas, até porque isto significa facilitar a ascensão dos picaretas em seu próprio seio.

Em termos de metodologia e conceituação, isto significa trocar o debate em que muitas vezes a esquerda se envolveu sobre se a democracia é uma valor universal ou não, por outra formulação. O debate sobre democracia como valor universal se prendeu, em geral, à ideia da afirmação/negação de um tipo de democracia – a representativa de inspiração liberal – como sendo a democracia por excelência.

A prática não é bem assim, está demonstrado. Existe a democracia participativa – de que os orçamentos que levam este nome são um exemplo recente – e existe também  a democracia direta, a das ruas, das praças, das manifestações, que tem seu espaço e seu próprio protocolo, complicado às vezes por irrupções de violência – seja da repressão ou dos que querem se valer da oportunidade para promover quebra-quebras pseudamente anarquistas.

A questão é a de se buscar a construção da democracia como um valor permanente, isto é, a ser buscado em cada instância de um movimento e do conjunto dos movimentos da sociedade. Vamos reconhecer: não pensávamos assim, na maioria, décadas atrás. Para muitosa democracia e suas formalidades – fosse na aura representativa, na esfera participativa ou na linearidade das praças e ruas ocupadas – eram apenas passos táticos até que se atingisse o estágio da ditadura do proletariado, confundida com a ditadura das vanguardas do proletariado, concepção que facilitou o caminho para a emergência da ditadura das burocracias, que já nada tinham a ver com o proletariado.

É claro que há situações-limite e mesmo fora de qualquer limite. Não dá para comparar a situação de uma lua na clandestinidade, por exemplo, com esta que vivemos hoje em que há um respeito, mesmo que limitado, por princípios eleitorais, de representatividade, de participação e até mesmo de ação direta, com todas as ressalvas que haja. Dentro do reconhecimento das diferenças, o que importa, para uma práxis de esquerda, é a afirmação do direito à diferença. A começar, portanto, por suas diferenças.

É difícil? É.

Mas não é impossível. A prática o tem demonstrado. Voltaremos ao assunto, na semana que vem.