Páginas

Mostrando postagens com marcador GEOGRAFIA ECONÔMICA. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador GEOGRAFIA ECONÔMICA. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

POR UMA NOVO MUNDO, SEM CAPITALISMO

POR UMA NOVO MUNDO, SEM CAPITALISMO

Escritor aborda semelhanças – e dessemelhanças – entre Marx e Weber e o ecossocialismo para conter a catástrofe humana e ambiental do capitalismo.
Por Aray Nabuco
Entrevista com MICHAEL LÖWY,cientista e escreitor radicado na França desde a década de 1960 e onde atualmente é diretor de pesquisas do Centro Nacional da Pesquisa Científica, que aborda semelhanças – e dessemelhanças – entre Marx e Weber e o ecossocialismo para conter a catástrofe humana e ambiental do capitalismo.

Caros Amigos - Queria que você pontuasse onde Weber encontra Marx nessa crítica ao capitalismo. Na coisificação das pessoas, na humanização das coisas?

Michael Löwy – O Weber ao mesmo tempo em que era crítico do Marx – obviamente não tinha nada a ver nem com marxista, nem com socialista –, tem uma crítica ao capitalismo bastante radical em alguns textos. Não em todos, sobretudo em A Ética Protestante. E ele, em alguns pontos dessa crítica, vai coincidir com Marx. Por exemplo, em algumas passagens ele até diz “estou usando o conceito marxista de mais-valia”. Isso não é o mais típico. Mas há um argumento dele que também é importante em A Ética Protestante, que ele vai retomar em outros escritos, que é que o capitalismo é um sistema no qual os meios substituem os fins. Quer dizer, o dinheiro, a acumulação do dinheiro, a acumulação do capital,investimento etc., já não é um meio para a satisfação das necessidades, para o prazer, para uma finalidade. É um fim em si. Há uma inversão entre meios e fins, que é irracional. A relação natural seria: você trabalha para poder usufruir da sua vida, satisfazer suas necessidades. Tudo é em função do capital, dessa acumulação. O meio virou o fim. Engraçado que o Weber tem uma conferência sobre o socialismo, que é uma conferência contra o socialismo, dada para um grupo de oficiais do exército austríaco. Então, completamente crítico do socialismo. Mas ele diz: “a verdade é que o capitalismo é um sistema que converte, transforma, substitui os meios pelos fins”. E isso é o que os socialistas dizem. Então, em algum momento chave, apesar da grande referência contra o socialismo, nesse aspecto, o argumento dele acaba coincidindo com os socialistas. Então, um pouco tem a ver com essa questão da reificação. O que predomina já não é a dimensão humana. É o capital, é a indústria, é a produção, isso que é importante. O ser humano, os seus governos, a felicidade, não importam. Agora, outras críticas do Weber são no mínimo contraditórias, mas são diferentes do argumento marxista. São complementares, eu diria. E é o caso dessa ideia de A Jaula de Aço. Que também de certa maneira está presente em Marx. O capitalismo é um sistema total, que determina totalmente a vida das pessoas. Não só as que trabalham no sistema,  mas todo mundo tem o seu destino determinado pela lógica do sistema capitalista. Então, estamos todos encerrados numa jaula de aço, sem saída.
É daí que vem a ideia da jaula de aço?
Exatamente. Aliás, a expressão exata é “habitáculo duro como aço”. Foi traduzido para o inglês como “Jaula de Aço” (Iron Cage), e a expressão pegou. Tem uma outra frase que o Weber usa que é “o capitalismo é uma escravidão sem mestre”. Quer dizer, uma escravidão impessoal. São escravizados não por outro indivíduo, mas por um sistema anônimo. As leis da economia, competição, competitividade, essas coisas impessoais. Então, são argumentos duros contra o capitalismo de alguém que não era um anticapitalista. Ele achava que o capitalismo era o sistema mais racional possível, muito superior a todos os anteriores e, sobretudo, achava que não tinha alternativa. Ele achava que o socialismo era uma ilusão. Então, a grande diferença dele para o Marx é essa. O Weber é um pessimista resignado, enquanto Marx é um otimista revolucionário, aposta na possibilidade de uma alternativa ao capitalismo. Mas no diagnóstico, o que o capitalismo faz aos indivíduos, há muita proximidade, muita afinidade, às vezes, certa complementaridade.
lowy1
Que elementos ele tinha ou em que se baseou para fazer essas críticas ao capitalismo, que estão evidentes mais de cem anos depois?
A ótica com a qual ele critica o capitalismo é diferente da de Marx. É o que eu chamo de pessimismo cultural ou uma forma de romantismo, que no fundo é uma crítica ao capitalismo em nome de valores do passado. Quer dizer, nas sociedades pré-capitalista, as finalidades humanas é que predominavam, o indivíduo não era prisioneiro das estruturas econômicas. Às vezes explicitamente, às vezes implicitamente, essa ideia de que o capitalismo representa um imenso progresso em termos de racionalidade. Mas do ponto de vista humano, social, ético, cultural é uma regressão. Agora eu acho que tanto Weber como Marx conseguiram captar elementos essenciais do capitalismo. Mais além de elementos específicos da época, captaram alguma coisa essencial do capitalismo, que hoje em dia só foi intensificada. Multiplicada por dez, por cem. Então, por isso é que são tão atuais.
Na crítica anticapitalista de Marx, ele avança e propõe uma solução – a organização do proletariado e a tomada do poder.Weber chega a propor alguma coisa que se aproveite para alguma revolução anticapitalista?
De jeito nenhum. Ele acha que o socialismo é uma ilusão, que os socialistas vão agravar os problemas do capitalismo. No fundo, ele era um pessimista resignado, tipo “o capitalismo está aí, não gostamos dele, mas não tem outro”. Um estado de espírito um pouco nietzscheano. Nietzsche dizia que temos que aceitar o destino, que o herói é aquele que aceita o destino, que é inevitável. Weber tinha um pouco desse pessimismo nietzscheano. Agora, curiosamente, em A Ética Protestante, que é o livro mais importante do Weber, no finzinho do livro, tem uma parte em que ele mesmo diz “agora eu vou deixar de desenvolver meu argumento científico, objetivo, sem juízo de valor, eu vou dar minha opinião. Tanto pior”. Ele mesmo diz isso. Então, nessas últimas páginas, ele dá livre curso quase que à sua afetividade, ao seu sentimento. Aí ele quase que joga um pouco a ideia de uma utopia, mas não é uma utopia socialista, é uma utopia romântica. Então, ele diz assim, “o que vai acontecer no futuro? Será que vamos caminhar para uma espécie de petrificação da sociedade, uma espécie de volta ao que era o mundo dos faraós do Egito, uma espécie de sistema totalmente fechado? Ou quem sabe haverá outra via, aparecerão outros profetas?”. Porque Weber tinha muita admiração pelos profetas bíblicos judeus. Ele achava que os profetas tinham rompido com a magia e introduzido uma religião ética, baseada em valores éticos. Então, diz Weber, “quem sabe aparecerão novos profetas, que voltarão a visitar princípios éticos e quem sabe haverá uma reincidência dos antigos valores?”.
Quais são esses valores?
Ele não explicita, mas tem uma frase que é assim: “O risco é que o mundo do futuro será um mundo de especialistas sem espírito e sem coração”. Então, o que são os valores que ele acredita? É o espírito e o coração. O espírito que é a inteligência, a cultura, a razão. E o coração, que é o amor. Weber é um romântico. E a utopia dele, se existir, seria uma utopia romântica de uma ressurreição de valores do passado, graças a novos profetas, mas que ele mesmo não chega a acreditar. Ele só está um pouco jogando com essa ideia. Mas é só nesse livro. Não é em nenhum outro lugar.
Surgiram alguns outros profetas, em sua opinião, desde Weber? Os profetas da sustentabilidade, por exemplo?
Não sei. Eu não me animaria. Houve falsos profetas. Muitos. A começar por Adolf Hitler. Mas isso não é culpa do Weber, coitado (risos).
Sempre que se coloca hoje a crítica anticapitalista chega-se também à crise ecológica, à crise ambiental, que torna bem evidente o suicídio que é o capitalismo. O que o marxismo traz como alternativa a essa crise ecológica, quando se faz a crítica ao capitalismo com esse viés ambiental?
Eu me permito fazer 30 segundos de publicidade, acabo de publicar um livro que se chama O que é o Ecossocialismo?, que justamente discute essa questão. Eu acho que o marxismo tem uma crítica, já em Marx e alguns marxistas se encontram elementos de crítica de como a dinâmica do capitalismo leva à destruição do meio ambiente, ao envenenamento do solo, à destruição das florestas. Isso já aparece em Marx, mas muito pouco desenvolvido. Isso precisa ser retomado. Colocado não como uma questão marginal, mas como um tema central. A segunda é que aparece em alguns textos do Max Weber, mas muito mais no marxismo do século 20, nas suas correntes dominantes, uma visão produtivista, segundo a qual o socialismo
só tem como objetivo mudar as relações de produção, substituir a propriedade privada pela propriedade coletiva para desenvolver livremente as forças produtivas. Aí tem que se tomar distância em relação a essa posição, para se colocar, em relação às forças produtivas, o que o Marx dizia em relação ao aparelho do Estado: que a revolução não pode tomar o aparelho do Estado como ele existe, capitalista. Tem que acabar com ele, transformá-lo radicalmente, substituí-lo por outra coisa. Seria um poder democrático dos trabalhadores. E a mesma coisa eu acho que vale para o aparelho produtivo. Esse aparelho produtivo que está aí, baseado nas energias fósseis, no petróleo, é o que está nos levando ao desastre ecológico. Precisamos pensar em uma transformação radical das relações de produção, do modelo de consumo, do modelo de transporte. No fundo, é uma mudança no modelo de civilização capitalista, industrial, ocidental moderno. Essa ideia, eu acho que parte do marxismo, mas tem que ir além do que está escrito em Marx e Engels, em Trotsky ou outros, como Gramsci, para incorporar a crítica ecológica produtivista. A gente precisa fazer uma síntese do que há de melhor no marxismo e no pensamento ecológico. Isso é o que a gente chama de ecossocialismo.

Fiz essa pergunta porque a preocupação com o ambiente, hoje, é um fundamento e porque Marx também tem a ideia do desenvolvimentismo e do progresso, que também estão na base da expansão capitalista.
Há os dois elementos em Marx. Há uma visão produtivista, do desenvolvimento das forças produtivas. Mas existe, paralelamente, essa ideia de que as forças produtivas estão destruindo o meio ambiente e que numa sociedade socialista temos que organizar o metabolismo, a sociedade humana,
e a natureza de outra forma, que permita deixar para as gerações futuras um planeta em condições viáveis. Essa ideia aparece em Marx. Não está desenvolvida, mas aparece. Portanto, precisamos retomar essas ideias, desenvolvê-las e incorporar problemas que não eram da época do Marx e que hoje a gente está vivendo. A crise ecológica da nossa época é mil vezes mais grave do que a do século 19.

lowe2
O senhor acha que a esquerda está incorporando esse pensamento de Marx? O que eu quero dizer é que, hoje, tanto os partidos de esquerda quanto os da direita, fazem o discurso da sustentabilidade, esse tipo de coisa que é óbvio que a gente tem que perseguir, mas que, do jeito que propagandeiam, não muda estrutura nenhuma. Como a esquerda deveria se posicionar diante desse discurso da sustentabilidade?
A palavra sustentabilidade, infelizmente, ficou totalmente esvaziada, porque todo mundo fala em sustentabilidade. O Banco Mundial fala em sustentabilidade; as companhias de petróleo falam em sustentabilidade etc. Deixou de ser uma palavra com conteúdo, virou uma coisa vazia. Então, a gente precisa colocar uma visão muito mais crítica, muito mais radical. Para que exista o que a gente chama de sustentabilidade, precisamos transformar radicalmente as estruturas econômicas, sociais, as fontes de energia, o modo de consumo. É uma revolução civilizacional. Não é bom dar um pouco mais de dinheiro para que as empresas fabriquem de modo menos sujo. Não, não dá pra corrigir na margem, você tem que pegar o problema pela raiz. E a raiz é o próprio sistema. O sistema capitalista não comporta a sustentabilidade. A lógica dele não comporta isso. Um capitalista que queira dar ênfase à ecologia vai à falência, porque seus concorrentes não dão. E não é por acaso que as conferências internacionais tenham fracassado. Porque cada país capitalista defende os seus produtores para ganhar mais mercado e a ecologia vai para o brejo. A única esperança que podemos ter é em coisas como essa que aconteceu ontem em Nova Iorque (manifestação popular, no fim de setembro, durante cúpula do clima). Saíram na rua 400 mil pessoas contra as mudanças climáticas, cobrando o governo, criticando. Formidável. É um acontecimento histórico. Nunca houve isso. E, claro, todo mundo participou. Foi meio unânime ver o Ban Ki-moon, das Nações Unidas; o prefeito de Nova Iorque, o Al Gore (ex-vice presidente dos Estados Unidos). Na cabeça da manifestação estavam os índios americanos, que estão lutando pela natureza há séculos. Mas foi um belo acontecimento. Isso dá alguma esperança, porque se for esperar os governos, francamente…
Já vi pesquisas mostrando que a maior parte das pessoas estão dispostas a abrir mão de conforto, de várias coisas para reduzir os impactos ambientais. Mas o sistema não vai deixar.

O Thomas Picketty cita toda essa crise capitalista também e chega a falar de uma crise estrutural de civilização. O senhor acabou de citar mais ou menos isso. É o caso da gente falar de uma mudança de era? De enterrar a Era Industrial, seus valores de progresso, de desenvolvimento econômico e passar para um outro momento?
Eu acho que sim. O que a gente chama de mudança de paradigma de civilização é uma mudança de era histórica, de certa maneira. Em que, no mínimo, tem que se dar aos conceitos de progresso, de desenvolvimento, um conteúdo completamente diferente. Progresso não é acumulação de produtos e de mercadoria; não é aumentar o PIB. Progresso é você viver de uma maneira mais harmônica, com outro relacionamento com a natureza, com outro tipo de necessidade. Marx tem uma bela frase que diz: o importante não é ter mais e mais produtos, acumular bens; o problema é você ser, se realizar como ser humano. Isso que é fundamental para pensar uma nova era, uma nova civilização. Que inclua os valores não de mercado, de economia, mas valores humanos. Exatamente. Valores humanos. E a produção industrial, obviamente, mas em função das verdadeiras necessidades, que são aquelas que sempre existiram. Todas as pessoas têm necessidade de comer, de morar, de vestir, de cultura, de saúde.
Agora, aquelas que são artificialmente induzidas pela publicidade, compra aquilo, compra outra, isso é que precisa acabar. Tem gente defendendo aqui e ali o downgrade da economia global. Diminuir o PIB, diminuir o volume de dinheiro, decrescimento da economia. O senhor acredita nisso?
Eu acho que esse pessoal de decrescimento tem muitas qualidades, mas alguns defeitos. A qualidade deles é desmistificar a religião do crescimento. Essa ideia de que o crescimento vai resolver todos os problemas, vai resolver o desemprego, vai acabar com a pobreza. Acabar com essa mistificação do crescimento. E eles também têm essa qualidade de lutar contra essa ideologia do consumo,essa obsessão neurótica. Eles vão contra isso e eu acho isso muito justo, muito importante. Agora, o problema que eu vejo é que o conceito de decrescimento é um conceito quantitativo. Os governos dizem: nós queremos que o PIB aumente em 10%. Aí vem o pessoal do decrescimento e diz: não, ele tem que diminuir em 10%. Eu acho que a colocação tem que ser qualitativa. O que eu quero dizer com isso? Que algumas atividades a gente deveria não só reduzir, mas suprimir. Por exemplo, a publicidade, a energia atômica, o carvão. Tem uma lista enorme de coisas que são inúteis, perigosas e que precisamos suprimir o mais rápido possível. Outras coisas, a gente tem que reduzir, como circulação de automóvel etc. E outras coisas a gente precisa aumentar. A gente quer aumentar a agricultura biológica, que até agora está muito pequena. A gente quer aumentar as energias renováveis,
eletricidade solar, do vento etc., expandir as renováveis para acabar com as energias fósseis. E a gente quer expandir saúde, educação. Tem várias coisas que a gente quer expandir, outras que a gente quer reduzir, outras que a gente quer suprimir. Então, o conceito de decrescimento não dá essa diversificação qualitativa, essa é a minha crítica. Mas eu reconheço que eles têm uma contribuição positiva.

lowy2
Eu gostaria de retomar um pouco sobre Walter Benjamin, tudo indica que toda aquela crítica que ele faz, inclusive a crítica anticapitalista, veio se concretizando, não é verdade, professor?
Benjamin efetivamente tem elementos quase proféticos, ele foi um profeta desarmado, teve que se suicidar. Um deles é justamente sobre essa questão ecológica. Ele tem, por exemplo, naquele livro inacabado dele, sobre as passagens de Paris (Paris, Capital do século XIX), ele diz que a relação do capitalismo com a natureza é destruidora, é assassina. E que podemos aprender outra relação com a natureza com os povos chamados primitivos. Eles têm uma relação que considerava a natureza como uma mãe generosa. É quase palavra por palavra os textos da Conferência de Cochabamba realizada por Evo Morales, na Bolívia, há dois anos, sobre a mudança climática e a defesa da Mãe Terra. O capitalismo destruidor, assassino da natureza, assassino da Mãe Terra, da Pachamama. E as tradições indígenas dão o exemplo de outro tipo de relação com a natureza. Já está sugerido ali no próprio texto. Acho que Benjamin é um pensador que tem muito a nos ensinar.
A esquerda está sabendo se aproveitar dessa crise ambiental para conseguir avançar sua proposta de mudança? Você acha que a esquerda está conseguindo passar isso tanto para os seus militantes quanto para as pessoas?
Sim e não. Para boa parte da esquerda, a ficha não caiu ainda. Continuam apostando no desenvolvimentismo etc. Outros já reconhecem que é um problema, que isso deve ser levado em conta, mas ficou um dos trinta capítulos do programa, não uma coisa central. Agora, uma parte da esquerda já está levando a sério, dando conta de que você não pode pensar o socialismo do século 21 sem ecologia. Isso é um desafio central. Uma parte da esquerda já está colocando isso e o ecossocialismo é imprescindível. E, hoje em dia, o ecossocialismo tem uma influência
crescente, pequena, mas crescente, nos Estados Unidos, na América Latina e na Europa, onde vários partidos da esquerda mais radical já assumem o ecossocialismo. Na Conferência da Esquerda Europeia já se discutiu o ecossocialismo e houve bastante simpatia. E houve duas conferências ecossocialistas na América Latina esse ano, uma em Quito (Equador) e outra em Caracas (Venezuela). Algo está se mexendo, mas acho que a coisa tem que ir mais depressa.

lowy3
Os capitalistas e essa esquerda lutam pelas fábricas. Mas a questão não seria se vamos manter essa fábrica ou fechá-la? A luta, hoje, passa por essa decisão?
Passa. Mas acho que é importante tomar a fábrica, porque as condições em que ela vive faz ela produzir outra coisa. Porque o capitalista que produz carro, nunca vai deixar de produzir carro, que polui. Então, se houvesse um trabalhador com consciência ecológica, ele vai poder tomar essa fábrica e decidir produzir bicicleta, por exemplo. Então, eu acho que é essa coisa: uma fábrica a gente quer fechar porque só produz porcaria; outra, a gente quer reorganizar para produzir outra coisa e outras são fábricas que não existem, que a gente vai criar. Ou existe muito pouco, por exemplo, para produzir equipamentos para energia solar, que ainda tem muito pouco e é caro. E assim por diante… A gente está vivendo um momento de grande concentração de riqueza, inclusive foi o que aprofundou a crise na Europa e provocou a crise nos Estados Unidos.
Como romper essa força que hoje agrega não só o poder financeiro e político, mas o tecnológico?
Eu acredito primeiro que para resolver esses problemas econômicos, ecológicos, sociais, você tem que mudar o sistema. Então, é aquela palavra de ordem, que apareceu inclusive naquela manifestação em Nova Iorque, “precisamos mudar o sistema, não o clima”. Agora, o sistema tem uma potência enorme, ele concentra o domínio econômico, financeiro, industrial, tecnológico, da mídia, tudo, essa turma da oligarquia financeira e também a oligarquia fóssil, do petróleo. Por outro lado, a insatisfação cresce, a indignação cresce, volto a falar dos 400 mil em Nova Iorque, a esperança nossa é essa. E obviamente todo mundo que está na rua hoje não se dá conta de que precisamos de uma revolução, do ecossocialismo. Nós precisamos partir de coisas muito concretas, reivindicações muito concretas, aqui e agora. Precisamos começar com isso.Então, por exemplo, nos Estados Unidos impedir aquele pipeline (dutos), que ia vir do Canadá trazendo petróleo sujo, um desastre, que os indígenas já falavam. Conseguir quebrar isso é um passo. As pessoas que se mobilizam começam a tomar consciência. Quem são seus inimigos, quem são seus aliados? Isso vai politizando as pessoas. Aqui no Brasil reivindicar desmatamento zero para a Amazônia, vai contra os interesses sistêmicos e o agronegócio fica furioso. Levar à frente essa batalha é fundamental. Isso são atitudes que a gente precisa começar aqui e agora. Sabendo que cada um desses objetivos que a gente conseguir, a gente tem que passar para um etapa superior. Levantar a próxima reivindicação, que é uma dinâmica até que a gente consiga dar a volta por cima.
Como o senhor vê a ascensão das forças conservadoras tanto na Europa, nos Estados Unidos, mesmo aqui no Brasil?
Realmente, é muito preocupante. Está abraçando quase todos os países da Europa. De formas diversas. Em alguns casos, é uma espécie de nacionalismo de direita, xenofóbico; em outros casos é diretamente fascista ou mesmo neonazista, como na Grécia. Mas é muito preocupante. Eles não são só conservadores, são racistas, são xenofóbicos, islamofóbicos, alguns são antissemitas. É um pessoal realmente muito preocupante. Em parte, tem a ver com a crise, mas não dá para explicar só pela crise. Países como a Áustria e a Suíça, em que há muito pouco desemprego, muito pouca crise, são países em que esses partidos racistas são mais de 20% dos votos. Enquanto na Espanha e em Portugal, que são países que estão no fundo da crise econômica e social, não há esse fenômeno. Então, a crise não explica tudo. É um defeito de alguns amigos meus marxistas, que acham que a economia explica tudo. Mas tem a ver com o passado colonialista da Europa, tem vários aspectos. É difícil explicar, mas é muito preocupante. Vocês aqui na América Latina têm muita sorte, porque apesar de tudo, isso tem pouco peso. Extrema direita, fascista existe, mas não é força política. As disputas políticas se dão entre esquerda e direita.
Porém, nós aqui na América Latina também temos os nossos governos que foram eleitos como governos de esquerda e populares e hoje são criticados por fazerem alianças com os neo-liberais. O que está acontecendo? Esses governos precisam dessas alianças? Como é que o senhor enxerga essas críticas?
Eu não acho que esse processo é inevitável.Eu acho que os governos de esquerda que foram eleitos podiam ter ido muito mais longe na realização de seu programa. Mesmo porque algumas experiências na América Latina foram bem mais longe do que o Brasil, do que o Chile. Mesmo a Bolívia, o Evo Morales foi muito mais longe no enfrentamento com as multinacionais, com as oligarquias, com o imperialismo do que o Brasil ou o Chile. Eu acho que a gente tem dois tipos de governo de esquerda na América Latina: uns que são antioligárquicos e anti-imperialistas, como é o caso da Venezuela e da Bolívia; e outros que dizem ser social-liberais. Ou seja, praticam uma política econômica ortodoxa, neoliberal; mas tem uma preocupação social com os pobres que a direita não tem. Então, faz uma diferença, mas não rompe com o modelo. Na Bolívia e na Venezuela houve um início de ruptura com o modelo neoliberal. Eu acho que essa política de fazer média com o sistema não é inevitável.
Eu citei o Thomas Picketty. O que o senhor acha dele?
Eu acho que o diagnóstico do Thomas Picketty sobre o capitalismo atual, como ele gera necessariamente desigualdades cada vez mais absurdas, é muito justo, é impecável. O problema é que as soluções que ele apresenta são falhas. São soluções que permitem que o sistema corrija poucos abusos, mas não muda a corrente.
Quais pensadores da América Latina, marxistas, que o senhor admira hoje ou que conhece?
Do passado, a figura que eu mais admiro é o José Carlos Mariátegui, que foi jornalista, escritor, filósofo, sociólogo. Porque para mim é o primeiro grande pensador marxista daqui. Ele é conhecido como autor de um livro sobre o Peru, Sete Ensaios Sobre a Realidade Peruana, mas eu acho que isso é uma visão muito limitada, ele tem uma obra muito mais rica, filosófica, inclusive. Para mim, ele é o equivalente latino-americano dos grandes pensadores marxistas do século 20, o jovem Lukáks, o jovem Gramsci, o jovem Walter Benjamin… Há semelhanças impressionantes entre o Mariátegui e escritos do Benjamin, nos anos 20. Eu acho que a gente tem que valorizar Mariátegui não só como um grande marxista, mas como alguém do mesmo porte dos grandes pensadores marxistas europeus da sua época.
E vivo, tem algum?
Eu vou falar dos meus amigos (risos). Roberto Schwarz é um dos maiores críticos literários, não só da América Latina, mas do mundo, marxista. E tem uma geração jovem que está aparecendo,gosto muito de uma moça brasileira, Isabel Loureiro, que acho que é uma das pessoas que procura retomar a tradição marxista. Eu acho que tem bastante gente. No Brasil, tem muita gente produzindo pensamento marxista, o Vladimir Safatle… O Brasil é um dos países do mundo onde há mais produção intelectual marxista.
Para encerrar, como foi a aproximação do senhor com o PSol?
Embora eu morasse na Europa, eu participei do processo de formação do PT, muito entusiasmado com o Lula, apostei, me identifiquei. Até o momento da eleição do Lula. O Lula estava fazendo muitas concessões e, rapidamente, eu tive a impressão que a política do governo não ia ser aquela do programa de governo. O programa do PT era anticapitalista, um governo socialista. E o que a gente vê logo no começo é fazer média com o liberalismo. Isso foi se agravando até chegar naquela infeliz história da reforma da Previdência e um pessoal da esquerda do PT não aceitou. Foram expulsos, fundaram o PSol e eu me identifiquei.

Aray Nabuco é jornalista.

Fonte http://www.carosamigos.com.br/index.php/grandes-entrevistas/5756-entrevista-michael-loewy

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

1% da população mundial concentra metade de toda a riqueza do planeta

1% da população mundial concentra metade de toda a riqueza do planeta


Desigualdade aumentou desde da crise de 2008 e chega ao ápice em 2015



Vista aérea de villa Certosa, la mansión de Silvio Berlusconi en Cerdeña.
Vista aérea da Villa Certosa, a mansão de Silvio Berlusconi na Sardenha. / GTRES


2015 será lembrado como o primeiro ano da série histórica no qual a riqueza de 1% da população mundial alcançou a metade do valor total de ativos. Em outras palavras: 1% da população mundial, aqueles que têm um patrimônio avaliado em 760.000 dólares (2,96 milhões de reais), possuem tanto dinheiro líquido e investido quanto o 99% restante da população mundial. Essa enorme disparidade entre privilegiados e o resto da Humanidade, longe de diminuir, continua aumentando desde o início da Grande Recessão, em 2008. A estatística do Credit Suisse, uma das mais confiáveis, deixa somente uma leitura possível: os ricos sairão da crise sendo mais ricos, tanto em termos absolutos como relativos, e os pobres, relativamente mais pobres.
No Brasil, a renda média doméstica triplicou entre 2000 e 2014, aumentando de 8.000 dólares por adulto para 23.400, segundo o relatório. A desigualdade, no entanto, ainda persiste no país, que possui um padrão educativo desproporcional, e ainda a presença de um setor formal e outro informal da economia, aponta o relatório.

Em O Preço da Desigualdade, um dos últimos livros de Joseph E. Stiglitz, o Nobel de Economia utilizou uma poderosa imagem da Oxfam para ilustrar a dimensão do problema da desigualdade no mundo: um ônibus que por ventura transporta 85 dos maiores multimilionários mundiais contém tanta riqueza quanto a metade mais pobre da população mundial.
Hoje, essa impactante imagem, plenamente em voga, ganha a companhia de outras que deixam latente a crescente desigualdadeentre os privilegiados e o resto do mundo: um de cada 100 habitantes do mundo tem tanto quanto os 99 restantes; 0,7% da população mundial monopoliza 45,2% da riqueza total e os 10% mais ricos têm 88% dos ativos totais, segundo a nova edição do estudo anual de riqueza publicado na segunda-feira pelo banco suíço Credit Suisse, feito com dados do patrimônio de 4,8 bilhões de adultos de mais de 200 países.
O que causou esse novo aumento da disparidade? A entidade financeira aponta a melhora dos mercados financeiros: a riqueza dos mais ricos é mais sensível às subidas de preço de ações de empresas e outros ativos financeiros que a do restante da população. No último ano, os índices de referência dos mercados das principais bolsas europeias e norte-americanas, o Eurotoxx 50 e o S&P 500, subiram mais de 10%.
Outro dado dá base à tese do aumento da desigualdade: ainda que o número dos muito ricos (aqueles que têm um patrimônio igual ou superior aos 50 milhões de dólares [195 milhões de reais]) tenha perdido aproximadamente 800 pessoas desde 2014 por conta da força da moeda norte-americana frente ao resto das grandes divisas, o número de ultrarricos (aqueles que têm 500 milhões de dólares [1,95 bilhão de reais]) ou mais aumentou “ligeiramente”, segundo o Credit Suisse, para quase 124.000 pessoas. Nem sequer o ajuste pela taxa de câmbio é capaz de neutralizar o aumento. Por país, quase a metade dos muitos ricos vive nos EUA (59.000 pessoas), 10.000 deles vivem na China e 5.400 vivem no Reino Unido.
Com esses dados, não é de se estranhar a satisfação mostrada na segunda-feira pelo responsável pela Gestão de Patrimônios do Credit Suisse para a Europa, o Oriente Médio e a África, Michael O’Sullivan: seu negócio não deixou de crescer desde o estouro da maior crise desde a Segunda Guerra Mundial. “Nossa indústria está em pleno crescimento, a riqueza seguirá com sua trajetória de subida”. Suas previsões não podem ser mais eloquentes. O número de pessoas com um patrimônio superior a um milhão de dólares (3,9 milhões de reais) crescerá 46% nos próximos cinco anos, até chegar aos 49 milhões de indivíduos.
Toda a riqueza mundial em seu conjunto, por outro lado, crescerá até 2020 um robusto, mas inferior, índice de 39%. Na Espanha, o número de pessoas com patrimônio superior a um milhão de dólares (3,90 milhões de reais) chegou em 2015 a 360.000 pessoas, 21% a menos do que no mesmo período em 2014. A Espanha é o nono país que mais perdeu milionários no último exercício. Da mesma forma que o restante da zona do euro, a evolução é distorcida pela fragilidade do euro frente à moeda norte-americana.

A classe média chinesa já é a mais numerosa do mundo

A China, o melhor expoente dos anos dourados dos emergentes que começam a chegar ao seu fim, já é o país do mundo com mais pessoas na classe média. Segundo o relatório anual de riqueza mundial do Credit Suisse, 109 milhões de moradores do gigante asiático têm ativos avaliados entre 50.000 e 500.000 dólares –195.000 a 1,95 milhão de reais–, a categoria estabelecida pelo banco suíço. Essa quantidade equivale à renda média de quase dois anos e oferece uma proteção “substancial” contra a perda de emprego, uma queda brusca na entrada de rendimentos ou um gasto de emergência.
Ainda que a distribuição de renda na China esteja muito distante de ser igualitária, a expansão da classe média seguiu um caminho paralelo à evolução de sua economia: com um crescimento maior – o gigante asiático cresceu dois dígitos em oito dos últimos 20 anos e se transformou na imagem do milagre emergente – mais pessoas entram na classe média. Em 2015, o Estado asiático superou os EUA (92 milhões) como o primeiro país em número de pessoas na classe média. O Japão (62 milhões de habitantes na classe média), a Itália (29 milhões), a Alemanha (28 milhões), o Reino Unido (28 milhões) e a França (24 milhões).

Diferenças regionais

Por região, 46% da classe média mundial vive na Ásia-Pacífico; 29% moram na Europa, berço do Estado de bem-estar social, e 16% na América. Em termos relativos, por outro lado, a América do Norte – com os Estados Unidos e o Canadá na liderança – aparece como o maior expoente da classe média, com 39% dos adultos dentro dessa faixa, seguida pela Europa, onde um em cada três maiores de idade são classe média. A proporção desaba na América Latina (11%) e na Ásia-Pacífico, a região mais povoada do globo e na qual somente um em cada 10 habitantes está dentro da categoria estabelecida pelo Credit Suisse.
Segundo os números da entidade financeira, 664 milhões de pessoas em todo o mundo podem ser consideradas de classe média, somente 14% da população adulta global. Dessa cifra, 96 milhões de pessoas (2% do total), têm uma riqueza avaliada em mais de meio milhão de dólares (1,95 milhão de reais).

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Entenda o problema da dívida da Grécia

Entenda o problema da dívida da Grécia

YOLANDA FORDELONE
20 Fevereiro 2015

bandeira-da-grécia
(Atualização em 22/6/2015)
Os termos do acordo que a Grécia tenta negociar remetem a um problema antigo. No passado, mais precisamente em 2010, o país aceitou cumprir um programa de reformas e de ajuste fiscal em troca de um empréstimo do Banco Central Europeu (BCE), da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional (FMI) para salvar as contas do governo grego, que estavam se tornando impagáveis. A ajuda, que totalizou € 240 bilhões (cerca de R$ 756 bilhões), veio, mas os ajustes estão sendo postergados pelo país. Entenda:
O que a Grécia tenta negociar? 
O país quer adiar o plano de ajuste fiscal, que tem como objetivo diminuir a relação dívida/PIB da Grécia, mas que implicará em cortes de gastos do governo e arrocho salarial.  Em abril, em meio à pressão pelo pagamento de uma das parcelas de sua dívida, a Grécia anunciou que a Alemanha lhe devia € 279 bilhões (quase R$ 1 trilhão) em indenização para reparar danos causados durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). O valor é superior à dívida grega com credores do BCE e do FMI. O país comandado por Angela Merkel não cedeu e afirmou que  indenizações já foram pagas nos anos 1960.
Qual o jogo político por trás da negociação?
Quando o empréstimo à Grécia foi concedido, em 2010, o governo era outro. O governo de coalizão atual, que assumiu o país em janeiro, argumenta que os termos da reforma acertados no passado levam o país para uma recessão. O governo foi eleito, inclusive, com uma plataforma que ia contra o plano de austeridade proposto no passado. Teme que, se aceitar seguir com as reformas, vá contra os eleitores que o escolheram.
O que acontece se a Grécia não chegar a um acordo?
Se não houver acordo entre a Grécia e os credores, a linha de financiamento ao governo grego e aos bancos será cortada, o que diminuirá o crédito do país e afundará a economia em uma recessão ainda mais forte. Além disso, quanto mais tempo a Grécia demorar para ajustar as contas da casa maior será a sua dívida. Jörg Asmussen, do Conselho de Administração do BCE, declarou que a demora no ajuste “faria a razão da dívida ante o PIB do país ultrapassar a meta dos 120% em 2020, que é o limite superior considerado viável para a Grécia”.  Em 2011, pouco depois do início dos empréstimos à Grécia, o endividamento chegou a 165,3% do PIB.
A Grécia irá sair da zona do euro?
Segundo especialistas, um movimento de corte de crédito a bancos gregos poderia forçar o país a deixar a zona do euro. Alguns acreditam que isso não seria de todo o mal para os dois lados – Grécia e zona do euro. Em fevereiro, o ex-presidente do Federal Reserve (Fed), o banco central dos EUA, Alan Greenspan, declarou que acha ser uma questão de tempo a Grécia sair do bloco. “Acredito que a Grécia abandonará a zona do euro. Não acho que permanecer no euro é vantajoso para os gregos ou para o resto da zona do euro. É só uma questão de tempo antes de todo mundo reconhecer que a saída (da Grécia) é a melhor estratégia”, disse.
Onde tudo começou?
Antes de a Grécia entrar na zona do euro em 2001, o governo local já tinha fama de gastar mais do que arrecadava. Os motivos eram diversos – a começar pelas contas públicas. O país, por exemplo, tem muitos aposentados, o que aumenta significativamente os gastos com pensão.
Além disso, os gregos são conhecidos por pagar pouco imposto.  Em 2012, a diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, foi dura nas críticas. Disse que os gregos deveriam pagar mais impostos se querem que suas crianças tenham acesso a uma boa saúde e educação.
Para conseguir a adesão ao bloco, a Grécia chegou a maquiar os dados da dívida. Depois de entrar na zona do euro, instaurou-se o otimismo. O risco dos títulos gregos diminuiu, fazendo com que o país vendesse diversos bônus no mercado e aumentasse ainda mais a sua dívida. O governo gastou mais nos primeiros anos na zona do euro e, ao mesmo tempo, não fez ajustes necessários.
A crise que assolou as principais economias do mundo em 2008 acabou com a “farra do boi” da Grécia. O mercado de títulos diminuiu a liquidez, investidores estrangeiros se tornaram mais seletivos a quem iam emprestar dinheiro.
Ao mesmo tempo, a crise fez a Grécia aumentar os gastos sociais à medida que cresceu o número de desempregados no país. A turbulência financeira abriu os olhos da Europa para o problema: a dívida grega, que já vinha de um histórico alto, caminhava para se tornar impagável. Foi então que os empréstimos do BCE, União Europeia e FMI ao país começaram.

Fonte: http://economia.estadao.com.br/blogs/descomplicador/entenda-o-problema-da-divida-grega/

sábado, 2 de maio de 2015

"Terceirizações devem acelerar a expansão do precariado no Brasil"

"Terceirizações devem acelerar a expansão do precariado no Brasil"


por Miguel Martins e Rodrigo Martins — publicado 01/05/2015

Os trabalhadores só deveriam aceitar a instabilidade no emprego se tivessem acesso a políticas para garantir a segurança da renda, avalia o economista britânico

Ato contra a terceirização
Ato contra a terceirização em Brasília: para críticos, PL 4330 vai precarizar o trabalho no Brasil
Economista com Ph.D. pela Universidade de Cambridge e professor de Desenvolvimento na Escola de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de Londres, Guy Standing há tempos alerta para o fenômeno da emergência do precariado, uma nova classe trabalhadora em formação, caracterizada pela trajetória de perda de direitos que os reduz à condição de suplicantes, em um mundo marcado pela “flexibilização” das relações trabalhistas. Autor do livro O Precariado: A Nova Classe Perigosa(Editora Autêntica, 2013), ele é entusiasta de programas de renda básica, entendido como uma garantia incondicional e universal, uma vez que os antigos instrumentos de proteção da socialdemocracia trabalhista acabaram solapados pela onda neoliberal.

“Se tivéssemos um novo sistema de distribuição de renda do século 21, não haveria grandes problemas com a instabilidade do trabalho. Poderíamos inclusive absorvê-la sem transtornos”, diz, em entrevista por escrito a CartaCapital.

CartaCapital: Para muitos analistas, o trabalho desempenhado pelo precariado é, por sua natureza, frágil e instável. Ele costuma estar associado à sazonalidade, à informalização, ao regime de tempo parcial, ao falso autoemprego, entre outras formas de trabalho “flexível”. O que distingue o precariado dos demais grupos sociais?
Guy Standing: A falta de segurança no trabalho sempre existiu. Isso não é o que define o precariado. Os integrantes desse grupo estão sujeitos a pressões que os habituaram à instabilidade em seus empregos e suas vidas. Mas, de forma ainda mais significativa, os trabalhadores do precariado não possuem qualquer identidade ocupacional ou uma narrativa de desenvolvimento profissional para suas vidas. E, ao contrário do antigo proletariado, ou dos assalariados que estão acima no ranking socioeconômico, o precariado está sujeito à exploração e diversas formas de opressão por estarem fora do mercado de trabalho formalmente remunerado. Ainda assim, o que distingue o precariado é a sua trajetória de perda de direitos civis, culturais, políticos, sociais e econômicos. Eles não possuem os direitos integrais dos cidadãos que os cercam. Estão reduzidos à condição de suplicantes, próximos da mendicância, pois são dependentes das decisões de burocratas, instituições de caridade e outros que detém poder econômico.

CC: Caso o Parlamento brasileiro aprove a liberação das terceirizações de forma indiscriminada, que impactos sociais essa medida poderia ter?
GS: O precariado cresce no Brasil há alguns anos. Acredito que a nova legislação e a continuidade da terceirização e da subcontratação pelas empresas devem acelerar este processo, o que pode levar à piora na desigualdade dentro do mercado de trabalho e intensificar a insegurança social e econômica. Tenho defendido há algum tempo que, do ponto de vista analítico e político, precisamos fazer distinções entre as sete formas de insegurança apresentadas em meu livro sobre o precariado. A insegurança empregatícia refere-se à probabilidade da perda de uma relação de emprego com um contratante específico. Isso deve ser distinguido da insegurança no trabalho ou ocupacional. Na verdade, a última é a mais séria. Se alguém vive uma situação de emprego terrível, ter uma estabilidade de longo prazo não é atraente.

O problema é, principalmente, o da insegurança na remuneração. Se houvesse políticas sensíveis para garantir a segurança da remuneração, como por meio de uma renda mínima, poderíamos aceitar a insegurança no emprego. A insegurança ocupacional é de outra natureza, já que buscamos desenvolver uma identidade ocupacional, e muitos gostariam de fazer o mesmo. A realidade, no Brasil e no mundo, é que medidas como a nova legislação das terceirizações no País intensificarão todas as formas de insegurança social e econômica. Esta é a tragédia da socialdemocracia trabalhista no século 20. Mas o precariado está evoluindo, e nos levará a novas opções políticas no futuro.
Guy Standing
Para Standing, terceirizações vão intensificar todas as formas de insegurança social e econômica

CC: Em seu livro, o senhor observa que o precariado não é uma classe organizada que luta pelos próprios interesses. Ao contrário, o grupo parece estar em guerra consigo mesmo. Um trabalhador temporário e com baixo salário pode ser induzido a pensar que um trabalhador com direitos é um “parasita de benefícios sociais”. Isso não favorece a emergência de radicalismos?
GS: Em O Precariado: A Nova Classe Perigosa, e mais sistematicamente em meu novo livro, A Precariat Charter (recém-lançado no Reino Unido, sem tradução para o português), argumento que o precariado até o momento representou uma classe-em-formação. A maioria de seus integrantes sabe o que não quer, antes de saber o que quer. Isso está mudando de forma impressionantemente rápida, muito mais veloz do que durante a emergência do proletariado no século XIX e começo do século XX. Sim, inicialmente o precariado é dividido internamente, em três partes que identifico em meu livro: reacionários, nostálgicos e progressistas. Mas a terceira facção tem crescido de forma relativa e absoluta, e este setor começa a definir uma nova política progressista, particularmente em países como Espanha, Portugal, Itália, Grécia e partes da Escandinávia.

Claro, devemos nos preocupar com os reacionários, aqueles que caíram no precariado depois de fazerem parte de famílias e comunidades de trabalhadores tradicionais. Eles tendem a ter pouca instrução, e dão ouvidos ao que chamo de “sirenes do populismo neofascista”. Eles estão se tornando a infantaria de partidos populistas de direita, como a Aurora Dourada na Grécia e a Frente Nacional na França. Mas acredito que muitos dos atraídos para esta direção só o fazem porque a parte nostálgica do precariado ainda não definiu uma alternativa, uma perspectiva para o futuro. Meu novo livro trata disto.

CC: Diante da globalização e da hegemonia do ideário neoliberal, existe alternativa a esse constante processo de precarização?
GS: Defendo que usemos o termo trabalho instável ou inseguro, e reservemos a ideia de precariedade apenas para os suplicantes. Isto é o que define o precariado. Se tivéssemos instituições e um novo sistema de distribuição de renda do século 21, não haveria grandes problemas com a instabilidade do trabalho. Poderíamos inclusive absorvê-la sem transtornos. Devíamos nos distanciar da romantização do trabalho estável, integral e de longo-prazo. É uma forma real de falsa conscientização. Para muitas pessoas, certamente é pouco saudável e atraente enfrentar uma vida de trabalho tediosa e alienante em um emprego, que se aceita apenas por necessidade. O que é desejável é um conjunto de políticas que permitam a troca de emprego, diversas combinações de tipos de atividades e de trabalho, e assim sucessivamente. Sim, há alternativa. Eu a apresento no meu novo livro. O sistema de distribuição de renda do século 20 quebrou. Precisamos construir um novo sistema de distribuição de renda e recuperar a Grande Trindade – Igualdade, Liberdade e Fraternidade – sob a perspectiva do precariado. Esta luta está apenas começando, mas já começou.

CC: O Brasil ainda vive um processo de crescimento demográfico. Após 2030, a população brasileira envelhecerá, porém, de forma bastante rápida. A Europa testemunhou essas mudanças demográficas há mais de 30 anos. O Brasil pode resistir às pressões neoliberais de reduzir seus gastos com seguridade social após 2030?
GS: Sim, é claro que o Brasil pode resistir à lógica neoliberal, se o precariado puder se transformar em uma força para liderar a oposição ao neoliberalismo. Mas as instituições e ideologias políticas no País têm de evoluir. Um dos dilemas políticos na Europa é que os idosos têm sido contemplados com uma parte desproporcional dos gastos sociais. O Brasil também sofreu um pouco com este problema. Mas na Europa a situação é pior, pois os idosos têm uma alta tendência de votar nas eleições. Logo, os políticos não enfrentam as desigualdades etárias dos gastos sociais por motivos eleitorais. No Brasil, isso é menos provável por causa do voto obrigatório. Mas o oportunismo político não está ausente.

Acredito que devíamos dar muito mais atenção para a necessidade de cortar subsídios públicos para grandes empresas, para os ricos e para a parte mais desenvolvida dos assalariados. Precisamos fazer uma campanha por uma “fogueira dos subsídios”. Eles são enormes, distorcidos, encorajam a ineficiência econômica, muitas vezes são corrompidos e, acima de tudo, são regressivos. Na busca de uma nova estratégia para a renda mínima, o que é essencial para o precariado, reduzir subsídios é essencial. Temos de ter em mente que nenhuma outra base de proteção social seria apropriada para o precariado. A partir daí, os envolvidos poderiam tolerar toda a insegurança empregatícia, uma caraterística central da globalização e da revolução tecnológica que estamos vivendo. A abordagem mais estúpida seria tentar frear as várias formas de relação trabalhista que estão em desenvolvimento. O precariado poderia aceitar a insegurança no trabalho se tivesse segurança de renda. Esse deveria ser o acordo.
Fonte: http://www.cartacapital.com.br/blogs/cartas-da-esplanada/terceirizacoes-devem-acelerar-o-crescimento-do-precariado-no-brasil-4345.html?utm_content=buffer851f0&utm_medium=social&utm_source=twitter.com&utm_campaign=buffer

sábado, 11 de abril de 2015

'Lei da terceirização é a maior derrota popular desde o golpe de 64'

'Lei da terceirização é a maior derrota popular desde o golpe de 64'


Para Ruy Braga, professor da USP especializado em sociologia do trabalho, Projeto de Lei 4330 completa desmonte iniciado por FHC e sela "início do governo do PMDB"

por Wanderley Preite Sobrinho — publicado 10/04/2015

Ruy Braga
Contratados com idade entre 18 e 25 anos devem ser os maiores afetados, afirma Ruy Braga

Especialista em sociologia do trabalho, Ruy Braga traça um cenário delicado para os próximos quatro anos: salários 30% mais baixos para 18 milhões de pessoas. Até 2020, a arrecadação federal despencaria, afetando o consumo e os programas de distribuição de renda. De um lado, estaria o desemprego. De outro, lucros desvinculados do aumento das vendas. Para o professor da Universidade de São Paulo (USP), a aprovação do texto base do Projeto de Lei 4330/04, que facilita a terceirização de trabalhadores, completa o desmonte dos direitos trabalhistas iniciado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso na década de 90. “Será a maior derrota popular desde o golpe de 64”, avalia o professor em entrevista a CartaCapital.
Embora o projeto não seja do governo, Braga não poupa a presidenta e o PT pelo cenário político que propiciou sua aprovação. Ele cita as restrições ao Seguro Desemprego, sancionadas pelo governo no final de 2014, como o combustível usado pelo PMDB para engatar outras propostas desfavoráveis ao trabalhador, e ironiza: “Esse projeto sela o fim do governo do PT e o início do governo do PMDB. Dilma está terceirizando seu mandato”.
Leia a entrevista completa:
CartaCapital: Uma lei para regular o setor é mesmo necessária?
Ruy Braga: Não. A Súmula do TST [Tribunal Superior do Trabalho] pacificou na Justiça o consenso de que não se pode terceirizar as atividades-fim. O que acontece é que as empresas não se conformam com esse fato. Não há um problema legal. Já há regulamentação. O que existe são interesses de empresas que desejam aumentar seus lucros.
CC: Qual a diferença entre atividade-meio e atividade-fim?
RB: Uma empresa é composta por diferentes grupos de trabalhadores. Alguns cuidam do produto ou serviço vendido pela companhia, enquanto outros gravitam em torno dessa finalidade empresarial. Em uma escola, a finalidade é educar. O professor é um trabalhador-fim. Quem mexe com segurança, limpeza e informática, por exemplo, trabalha com atividades-meio.
CC: O desemprego cai ou aumenta com as terceirizações?
RB: O desemprego aumenta. Basta dizer que um trabalhador terceirizado trabalha em média três horas a mais. Isso significa que menos funcionários são necessários: deve haver redução nas contratações e prováveis demissões.
CC: Quantas pessoas devem perder a estabilidade?
RB: Hoje o mercado formal de trabalho tem 50 milhões de pessoas com carteira assinada. Dessas, 12 milhões são terceirizadas. Se o projeto for transformado em lei, esse número deve chegar a 30 milhões em quatro ou cinco anos. Estou descontando dessa conta a massa de trabalhadores no serviço público, cuja terceirização é menor, as categorias que de fato obtêm representação sindical forte, que podem minimizar os efeitos da terceirização, e os trabalhadores qualificados.
CC: Por que os trabalhadores pouco qualificados correm maior risco?
RB: O mercado de trabalho no Brasil se especializou em mão de obra semiqualificada, que paga até 1,5 salário mínimo. Quando as empresas terceirizam, elas começam por esses funcionários. Quando for permitido à companhia terceirizar todas as suas atividades, quem for pouco qualificado mudará de status profissional.
CC: Como se saíram os países que facilitaram as terceirizações?
RB: Portugal é um exemplo típico. O Banco de Portugal publicou no final de 2014 um estudo informando que, de cada dez postos criados após a flexibilização, seis eram voltados para estagiários ou trabalho precário. O resultado é um aumento exponencial de portugueses imigrando. Ao contrário do que dizem as empresas, essa medida fecha postos, diminui a remuneração, prejudica a sindicalização de trabalhadores, bloqueia o acesso a direitos trabalhistas e aumenta o número de mortes e acidentes no trabalho porque a rigidez da fiscalização também é menor por empresas subcontratadas.
CC: E não há ganhos?
RB: Há, o das empresas. Não há outro beneficiário. Elas diminuem encargos e aumentam seus lucros.
CC: A arrecadação de impostos pode ser afetada?
RB: No Brasil, o trabalhador terceirizado recebe 30% menos do que aquele diretamente contratado. Com o avanço das terceirizações, o Estado naturalmente arrecadará menos. O recolhimento de PIS, Cofins e do FGTS também vão reduzir porque as terceirizadas são reconhecidas por recolher do trabalhador mas não repassar para a União. O Estado também terá mais dificuldade em fiscalizar a quantidade de empresas que passará a subcontratar empregados. O governo sabe disso.
CC: Por que a terceirização aumenta a rotatividade de trabalhadores?
RB: As empresas contratam jovens, aproveitam a motivação inicial e aos poucos aumentam as exigências. Quando a rotina derruba a produtividade, esses funcionários são demitidos e outros são contratados. Essa prática pressiona a massa salarial porque a cada demissão alguém é contratado por um salário menor. A rotatividade vem aumentando ano após ano. Hoje, ela está em torno de 57%, mas alcança 76% no setor de serviços. O Projeto de Lei 4330 prevê a chamada "flexibilização global", um incentivo a essa rotatividade.
CC: Qual o perfil do trabalhador que deve ser terceirizado?
RB: Nos últimos 12 anos, o público que entrou no mercado de trabalho é composto por: mulheres (63%), não brancos (70%) e jovens. Houve um avanço de contratados com idade entre 18 e 25 anos. Serão esses os maiores afetados. Embora os últimos anos tenham sido um período de inclusão, a estrutura econômica e social brasileira não exige qualificações raras. O perfil dos empregos na agroindústria, comércio e indústria pesada, por exemplo, é menos qualificado e deve sofrer com a nova lei porque as empresas terceirizam menos seus trabalhadores qualificados.
CC: O consumo alavancou a economia nos últimos anos. Ele não pode ser afetado?
RB: Essa mudança é danosa para o consumo, o que inevitavelmente afetará a economia e a arrecadação. Com menos impostos é provável que o dinheiro para transferência de renda também diminua.
CC: Qual a responsabilidade do PT e do governo Dilma por essa derrota na Câmara?
RB: O governo inaugurou essa nova fase de restrição aos direitos trabalhistas. No final de 2014, o governo editou as medidas provisórias 664 e 665, que endureceram o acesso ao Seguro Desemprego, por exemplo. Evidentemente que a base governista - com PMDB e PP - iria se sentir mais à vontade em avançar sobre mais direitos. Foi então que [o presidente da Câmara] Eduardo Cunha resgatou o PL 4330 do Sandro Mabel, que nem é mais deputado.
CC: Para um partido de esquerda, essa derrota na Câmara pode ser considerada a maior que o PT já sofreu?
RB: Eu diria que, se esse projeto se tornar lei, será a maior derrota popular desde o golpe de 64 e o maior retrocesso em leis trabalhistas desde que o FGTS foi criado, em 1966. Essa é a grande derrota dos trabalhadores nos últimos anos. Ela sela o fim do governo do PT e marca o início do governo do PMDB. A Dilma está terceirizando seu mandato.
CC: A pressão do mercado era mesmo incontornável?
RB: Dilma deixou de ser neodesenvolvimentista a partir do segundo ano de seu primeiro mandato. Seu governo privatizou portos, aeroportos, intensificou a liberação de crédito para projetos duvidosos e agora está fazendo de tudo para desonerar o custo do trabalho. O governo se voltou contra interesses históricos dos trabalhadores. O que eu vejo é a intensificação de um processo e não uma mudança de rota. Se havia alguma dúvida, as pessoas agora se dão conta de que o governo está rendido ao mercado financeiro.
CC: A terceirização era um dos assuntos preferidos nos anos 90, mas não passou. Não é contraditório que isso aconteça agora?
RB: O Fernando Henrique tentou acabar com a CLT [Consolidação das Leis do Trabalho] por meio de uma reforma trabalhista que não foi totalmente aprovada. Ele conseguiu passar a reforma previdenciária do setor privado e a regulamentação de contratos por tempo determinado. O governo Lula aprovou a reforma previdenciária do setor público e agora, com anos de atraso, o segundo governo Dilma conclui a reforma iniciada por FHC.
CC: Mas a CLT não protege também o trabalhador terceirizado?
RB: A proteção da CLT é formal, mas não acontece no mundo real. Quem é terceirizado, além de receber menos, tem dificuldade em se organizar sindicalmente porque 98% dos sindicatos que representam essa classe protegem as empresas em prejuízo dos trabalhadores. Um simples dado exemplifica: segundo o Ministério Público do Trabalho, das 36 principais libertações de trabalhadores em situação análoga a de escravos em 2014, 35 eram funcionários terceirizados.
CC: A bancada patronal tem 221 parlamentares, segundo o Diap (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar). Existe alguma relação entre o tão falado fim do financiamento privado de campanha e a aprovação desse projeto?
RB: Não há a menor dúvida. Hoje em dia é muito simples perceber o que acontece no País. Para eleger um vereador em São Paulo paga-se 4 milhões de reais. Para se eleger deputado estadual, são 10 milhões. Quem banca? Quem financia cobra seus interesses, e essa hora chegou. Enquanto o presidente da Fiesp [Federação das Indústrias do Estado de São Paulo], Paulo Skaf, ficou circulando no Congresso durante os últimos dois dias, dando entrevista, conversando com deputados e defendendo o projeto, sindicalistas levavam borrachada da polícia. Esse é o retrato do Congresso brasileiro hoje: conservador, feito de empresários, evangélicos radicais e bancada da bala.
Fonte: http://www.cartacapital.com.br/economia/lei-da-terceirizacao-e-a-maior-derrota-popular-desde-o-golpe-de-64-2867.html