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quinta-feira, 16 de abril de 2015

A AMÉRICA LATINA NA DINÂMICA DA GUERRA GLOBAL

A AMÉRICA LATINA NA DINÂMICA DA GUERRA GLOBAL




 Jorge Beinstein 
Tudo ao mesmo tempo: em meados do mês de Março de 2015 os Estados Unidos deram um salto qualitativo de claro perfil belicista nas suas acções contra a Venezuela, também desenvolvem exercícios militares em países limítrofes com a Rússia na chamada operação “Atlantic Resolve”, algumas dessas operações são realizadas a uns 100 quilómetros de São Petersburgo [1] , além disso intensificam-se informações acerca de uma nova ofensiva do governo de Kiev contra a região do Donbass [2] , aumenta a circulação de naves de guerra da NATO no Mar Negro, continuam as velhas guerras imperiais no Iraque e no Afeganistão às quais acrescentou-se a seguir a ofensiva contra a Síria (passando pela Líbia)… e muito mais…
Evidentemente o Império está lançado numa catastrófica fuga militar para a frente estendendo suas operações a todos os continentes, encontramo-nos em plena guerra global. Nem os grandes meios de comunicação, nem os dirigentes internacionais mais importantes registaram publicamente o facto, todos falam como se vivêssemos em tempos de paz, só em alguns poucos casos surgem alguns deles a advertir sobre o perigo de guerra mundial ou regional. Uma excepção recente é a do Papa Francisco quando afirmou que actualmente nos encontramos perante “uma terceira guerra mundial” que ele descreve como a desenvolver-se “por partes” ainda que sem designar os contendores e fazendo vagas referências à “cobiça” e a “interesses espúrios” com a linguagem confusa e jesuítica que o caracteriza [3] .
A cada mês acrescenta-se algum novo indiciar que anuncia a proximidade de uma nova recessão global muito mais forte e extensa que a de 2009. O capitalismo, a começar pelo seu polo imperialista, foi-se convertendo velozmente num sistema de saqueio onde a reprodução das forças produtivas fica completamente subordinada à lógica do parasitismo. As elites imperiais e suas lumpen-burguesias satélites “necessitam” super-explorar até ao extermínio seus recursos naturais e mercados periféricos para sustentar as taxas de lucro do seu decadente sistema produtivo-financeiro.
As tendências globais rumo à decadência económica exprimem-se de múltiplas maneiras no dia a dia. Dentre elas, a volatilidade dos preços das matérias-primas, o petróleo por exemplo, chave mestra da economia mundial, cujo estancamento extractivo (que não conseguiu ser superado pelo show mediático em torno do “milagroso” petróleo de xisto) combina-se com desacelerações da procura internacional como ocorre actualmente. A isso somam-se golpes especulativos e geopolíticos que convertem os mercados em espaços instáveis onde as manobras de curto prazo impõem a incerteza.
O curto-prazismo especulativo hegemónico engendra pacotes tecnológicos depredadores como a mineração a céu aberto, a fracturação hidráulica ou a agricultura com base em transgénicos acompanhados por operações políticas e comunicacionais que degradam, desarticulam sistemas sociais procurando convertê-los em espaços indefesos diante dos saqueios.
O optimismo económico da época do auge neoliberal deu lugar ao pessimismo do “estancamento secular” agora apregoado pelos grandes peritos do sistema [4] . Eles indicam que a salvação do capitalismo não chegará a partir da economia condenada a sofrer recessões ou crescimentos insignificantes, o melhor é nem falar demasiado desses tristes temas. Então a guerra ascende ao primeiro plano, algum massacre protagonizado por tropas regulares ou mercenários, algum bombardeio, alguma ameaça de ataque na Europa do Leste, Ásia, África ou América Latina. Os meios de comunicação nos esmagam com essa notícias, contudo ninguém fala da guerra global.
Tudo acontece como se a dinâmica da guerra se houvesse autonomizado mas empregado um discurso embrulhado, difícil de entender. Mas assim como os super-poderes dos homens de negócios dos anos 1990 não eram independentes e sim compartilhados no interior de uma complexa trama de poderes (políticos, mediáticos, militares, etc) que em termos gerais costuma-se denominar como “classe dominante”, também a aparente autonomia do militar dificulta-nos ver as redes mafiosas de interesses onde se borram as fronteiras entre os seus componentes. As elites da era neoliberal sofreram mudanças decisivas, experimentaram mutações que as converteram em classes completamente degeneradas que, cada vez mais, só podem recorrer à força bruta, à lógica da guerra. Não se trata portanto de a componente militar se autonomizar e sim, antes, de que as elites imperialistas se militarizam. Elas já não seduzem com ofertas de consumo mais algumas doses de violência, agora só propagam o medo, ameaçam com as suas armas ou utilizam-nas.
Progressismos latino-americanos
Dentro desse contexto global devemos avaliar os progressismos latino-americanos [5] que se instalaram na base das crises de governabilidade dos regimes neoliberais.
Os bons preços internacionais das matérias-primas durante a década passada, somados a políticas de contenção social dos pobres, permitiram-lhes recompor a governabilidade dos sistemas existentes. Em alguns desses casos desenvolveram-se ampliações ou renovações das elites capitalistas e em quase todos eles prosperaram as classes médias. Os governos progressistas iludiram-se supondo que as melhorias económicas lhes permitiram ganhar politicamente os referidos sectores mas, como era previsível, ocorreu o contrário: as camadas médias iam para a direita e, enquanto ascendiam, olhavam com desprezo os de baixo e assumiam como próprios os delírios mais reaccionários das suas burguesias. A explicação é simples, na medida em que são preservados (e ainda fortalecidos) os fundamentos do sistema e em que seus núcleos decisivos radicalizam seus elitismo depredador seguindo a rota traçada pelos Estados Unidos (e “Ocidente” em geral) produz-se um encadeamento de subculturas neo-fascistas que vão desde acima até abaixo, desde o centro até as burguesias periféricas e desde estas até suas camadas médias. Na Venezuela, Brasil ou Argentina as classes médias melhoravam seu nível de vida e ao mesmo tempo despejavam seus votos nos candidatos da direita velha ou renovada.
Estabeleceu-se um conflito interminável entre governos progressistas que tornavam governáveis os capitalismos locais e direitas selvagens ansiosas por realizar grandes roubos e esmagar os pobres. O progressismo, confrontado politicamente com essa direita qualificada de “irresponsável”, cujos fundamentos económicos respeitava, chantageava aqueles na esquerda que criticavam sua submissão às regras do jogo do capitalismo utilizando o papão reaccionário (“nós ou a besta”), acusando-os de fazerem o jogo da direita. Na realidade o progressismo é um grande jogo favorável ao sistema e em última análise à direita, sempre em condições de retornar ao governo graças à moderação, à “astúcia” aparentemente estúpida dos progressistas que por vezes conseguem cooptar esquerdas claudicantes cuja obsessão em “não fazer o jogo da direita” (e simultaneamente integrar-se no sistema) é completamente funcional à reprodução do país burguês e em consequência a essa detestável direita.
Agora o jogo começa a esgotar-se. Os progressismos governantes, com diferentes ritmos e variados discursos, acossados pelo arrefecimento económico global e pelo crescente intervencionismo dos Estados Unidos, vão perdendo espaço político. Em vários casos suas dificuldades fiscais pressionam-nos a ajustar despesas públicas (e de modo algum a reduzir os super lucros dos grupos económicos mais concentrados), a aceitar as devastações da mega-mineração ou a adoptar medidas que facilitam a concentração de rendimentos. No Brasil, o segundo governo Dilma colocou um neoliberal puro e duro no comando da política económica, encurralado por uma direita ascendente, uma economia oscilando entre o estancamento e a recessão e uma intervenção norte-americana cada vez mais activa. No Uruguai o novo governo de Tabaré Vazquez mostra um rosto claramente conservador e no Chile a presidência Bachelet não precisa correr demasiado à direita, depois da sua rosada demagogia eleitoral afirma-se como continuidade do governo anterior e em consequência, passada a confusão inicial, herdará também a hostilidade de importantes faixas de esquerda e dos movimentos sociais.
Na Argentina, o núcleo duro agro-mineral exportador-financeiro e os grupos industriais exportadores mais concentrados estão mais prósperos do nunca enquanto a ingerência norte-americana amplia-se conduzindo o jogo de títeres políticos rumo a uma ruptura ultra-direitista. Na Venezuela a eterna transição rumo a um socialismo que nunca acaba de chegar não conseguiu superar o capitalismo ainda que torne caótico o seu funcionamento, forjando desse modo o cenário de uma grande tragédia. Por enquanto só a Bolívia parece salvar-se da avalanche, afirmando-se na maior mutação social da sua história moderna sem superar o âmbito do subdesenvolvimento capitalista mas recompondo-o integrando as massas submersas, multiplicando por mil o que havia feito o peronismo na Argentina entre 1945 e 1955 (de qualquer forma isso não a liberta da mudança de contexto regional-global).
Na América Latina assistimos a um processo de crise muito profundo onde convergem progressismos declinantes com neoliberalismo integralmente degradados, como na Colômbia ou no México, conformando um panorama comum de perda de legitimidade do poder político, avanços de grupos económicos saqueadores e activismo imperialista cada vez mais forte.
A este panorama sombrio é necessário incorporar elementos que dão esperança, sem os quais não poderíamos começar a entender o que está a ocorrer. Por debaixo dos truques políticos, dos negócios rápidos e das histerias fascistas aparecem os protestos populares multitudinários, a persistência de esquerdas não cooptadas pelo sistema (para além dos seus perfis mais ou menos moderados ou radicais), a presença de insurgências incipientes ou poderosas (como na Colômbia).
Nem os cantos de sereia progressistas nem a repressão neoliberal puderam fazer desaparecer ou marginalizar completamente esses fantasmas. Realidade latino-americana que preocupa os estrategas do Império, que temem o que consideram como sua inevitável arremetida contra a região possa desencadear o inferno da insurgência continental. Nesse caso o paraíso dos grandes negócios poderia converter-se num grande atoleiro onde afundaria o conjunto do sistema.
Geopolítica do Império, integrações e colonizações
A estratégia dos Estados Unidos aparece articulada em torno de três grandes eixos; o transatlântico e o transpacífico que apontam num gigantesco jogo de pinças contra a convergência russo-chinesa centro motor da integração euro-asiática. E a seguir o eixo latino-americano destinado à recolonização da região.
Os Estados Unidos tentam converter a massa continental asiática e sua ampliação russo-europeia num espaço desarticulado, com grandes zonas caóticas, objecto de saqueio e super-exploração.
Os recursos naturais, assim como os laborais, desses territórios constituem seu centro de atenção principal, na elipse estratégica que cobre o Golfo Pérsico e a Bacia do Mar Cáspio estendendo-se em direcção à Rússia encontram-se 80% da reservas globais de gás e 60% das de petróleo e na China habitam pouco mais de 230 milhões de operários industriais (aproximadamente um terço do total mundial).
A América Latina aparece como o pátio traseiro a recolonizar. Ali se encontram, por exemplo, as reservas petrolíferas da Venezuela (as primeira do mundo, 20% do total global), cerca de 80% das reservas mundiais de lítio (num triângulo territorial compreendido pelo Norte do Chile e Argentina e pelo Sul da Bolívia) imprescindível na futura indústria do automóvel eléctrico, as reservas de gás e petróleo de xisto do Sul argentino, fabulosas reservas de água doce do aquífero guarani entre o Brasil, o Paraguai e a Argentina.
Uma das ofensivas fortes do Império na década passada foi a tentativa de constituição da ALCA, zona de livre comércio e investimentos que significava a anexação económica da região por parte dos Estados Unidos. O projecto fracassou, a ascensão do progressismo latino-americano somado à emergência de potências não ocidentais, sobretudo a China, e o atolamento estado-unidense na sua guerra asiáticas foram factores decisivos que em diferentes medidas debilitaram a investida imperial.
Mas a partir da chegada de Obama à presidência os Estados Unidos desencadearam uma ofensiva flexível de reconquista da América Latina: foi posta em marcha uma complexa mescla de pressões, negociações, desestabilizações e golpes de estado. Os golpes brandos com êxito em Honduras e no Paraguai, as tentativas de desestabilização no Equador, Argentina, Brasil e sobretudo na Venezuela (onde vai-se perfilando uma intervenção militar), mas também a tentativa em curso de extinção negociada da guerrilha colombiana e a domesticação de Cuba fazem parte dessa estratégia de recolonização.
A mesma é implementada através de uma sucessão de tentativas suaves e duras tendente a desarticular as resistências estatais e os processos de integração regional (Unasul, Celac, Alba) e extra-regionais periféricos (BRICS, acordos com a China e a Rússia, etc) assim como a bloquear, corromper ou dissolver as resistências sociais e as alternativas políticas mais avançadas, em curso ou potenciais. Tentando levar avante uma dinâmica de desarticulação mas procurando evitar que a mesma gere rebeliões que se propaguem como um rastilho de pólvora numa região actualmente muito inter-relacionada.
Sabem muito bem que em muitos países da região a substituição de governos “progressistas” por outros abertamente pró imperialistas significa a ascensão de camarilhas enlouquecidas que a curto prazo causariam situações de caos que poderiam desencadear insurgências perigosas. Alguns estrategas do Império acreditam poder neutralizar esse perigo com o próprio caos, desenvolvendo “guerras de quarta geração” instalando diferentes formas de violência social desestruturante combinadas com destruições mediático-culturais e repressões selectivas. Nesse sentido, o modelo mexicano é para eles (por agora) um paradigma interessante.
Temem por exemplo que um cenário de caos fascista na Venezuela derive numa guerra popular que os obrigaria a intervir directamente num conflito prolongado, o que somado às suas guerras asiáticas os conduziria a uma super extensão estratégica ingovernável. É por isso que consideram imprescindível obter o apaziguamento da guerrilha colombiana, potencial aliada estratégica de uma possível resistência popular venezuelana.
O panorama é completado com o processo de integração colonial dos países da chamada Aliança do Pacífico (México, Colômbia, Peru e Chile). A isso somam-se os tratados de livre comércio de maneira individual com países da América Central e outros como o Chile e a Colômbia e o velho tratado entre EUA, Canadá e México.
Integração colonial e desarticulação, manipulação do caos e fortalecimento de pólos repressivos, Capriles mais Peña Nieto, Ollanta Humana mais Santos mais bandos narco-mafiosos… tudo isso dentro de um contexto global de decadência sistémica onde a velha ordem unipolar declina sem ser substituída por uma nova ordem multipolar. Tentativa de controle imperialista da América Latina submersa na desordem do capitalismo mundial.
O cérebro do Império não consegue superar as mazelas do seu corpo envelhecido e enfermo, os delírios reproduzem-se, as fugas para a frente multiplicam-se. Evidentemente encontramo-nos num momento histórico decisivo.
Notas

[1] Finian Cunningham, “NATO’s Shadow of Nazi Operation Barbarossa”, Strategic Culture Foundation, 13/03/2015
[2] Colonel Cassad, “Ukraine: Reprise de la guerre au printemps?”, http://lesakerfrancophone.net/ le 13 mars 2015
[3] “El papa Francisco advirtió que vivimos una tercera guerra mundial combatida ‘por partes’ “, http://www.lanacion.com.ar , 13 de septiembre de 2014
[4] Laurence H Summers, “Reflections on the ‘New Secular Stagnation Hypothesis'” y Robert J Gordon, “The turtle’s progress: Secular stagnation meets the headwinds” en “Secular Stagnation: Facts, Causes, and Cures”, CEPR Press, 2014.
[5] Utilizo o termo “progressista” no sentido mais amplo, desde governos que se proclamam socialistas ou pró socialistas como na Venezuela ou Bolívia até outros de corte neoliberal-progressista como os do Uruguai ou Brasil.

Fonte: http://controversia.com.br/15792

Fonte: http://www.indiretasdageografia.com.br/2015/04/a-america-latina-na-dinamica-da-guerra.html

sexta-feira, 10 de abril de 2015

No Haiti, movimentos sociais querem invasores fora dali

No Haiti, movimentos sociais querem invasores fora dali


Foto: La Izquerda Diario Chile

A favela Fort National, em um morro de Porto Príncipe, oferece um perfeito exemplo do misto de ironia, agonia e luta que envolve o Haiti hoje.
10/04/2015
Por Kim Ives,
Sua superfície, rochosa como a da Lua, está coberta por pilhas de detritos, sujeira, lixo. Centenas de moradores morreram aqui quando o terremoto de 12 de janeiro de 2010 destruiu oito em cada dez casas de concreto que se apertavam – e ainda hoje se apertam – entre os corredores estreitos e escuros nos quais corre o esgoto. Moscas e ratos convivem nesse labirinto sombrio com famílias numerosas; as crianças se agacham como sapos e saem pulando quando um estranho passa pela entrada das residências (não raro protegidas apenas por uma cortina).
Observando-se o padrão de telhados de lata por Fort National, vergalhões enferrujados retorcidos escapam das paredes de concreto inacabadas, como dedos rogando aos céus pelo maná.
No alto dessa vizinhança empoleirada sobre a maior colina do centro da capital, há uma enorme placa que já ostentou a visão imaginada de um arborizado complexo de apartamentos com calçadas largas e pessoas bem-vestidas. Esse projeto, que seria levado a cabo por uma construtora dominicana sob um contestado contrato sem licitação, seria financiado por US$ 174 milhões dos US$ 13 bilhões da verba de ajuda internacional ao Haiti pós-terremoto. A placa, como a promessa, já se deteriorou há muito tempo, como tantos projetos anunciados no país depois da tragédia. Menos de metade dos US$ 13 bilhões já foi gasta, e, além de alguns hotéis de luxo e um parque gigante no norte, longe da região do terremoto, é difícil ver mudança na dura realidade do Haiti apesar do mutirão feito a seu favor pelo mundo inteiro.
Vista de Porto Príncipe, capital do Haiti. Foto: Eliza Capai
Para onde foram os US$ 174 milhões de Fort National?
“Nós fomos informados pelos assessores de [Michel] Martelly [atual presidente do Haiti] de que cerca de US$ 44 milhões supostamente foram destinados à construção de 3 mil pequenas casas em um deserto remoto [no projeto de] Morne à Cabri”, disse o ex-senador Moïse Jean-Charles. “Mas quando eu perguntei ao ministro das Finanças de Martelly, em uma audiência do Senado, para onde foi o dinheiro, ele apenas sorriu. Ao menos foi honesto, pensei.”
O bairro de Fort National é sede também de uma fortaleza homônima construída pelo fundador do Haiti, general Jean-Jacques Dessalines, para enfrentar represálias ou tentativas de recolonização francesas, inglesas ou espanholas após a independência do Haiti – a primeira a ser proclamada na América Latina –, em 1º de janeiro de 1804.

Hoje, contudo, esta histórica guarnição está ocupada por invasores: as tropas da odiada Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti (Minustah). Estabelecida no país desde 1º de junho de 2004, a força liderada pelo Brasil – agora com cerca de 7.500 militares – foi responsável por massacres, estupros, abusos sexuais e, mais notavelmente, a importação de cólera em outubro de 2010. Fezes infectadas de soldados nepaleses da ONU vazaram de banheiros externos para o maior rio do Haiti e deram origem à pior epidemia de cólera do mundo, que custou aproximadamente 9 mil vidas haitianas. Apesar da abertura de três processos judiciais em Nova York, a ONU nega qualquer responsabilidade pelo surto.
A placa desbotada anunciando o complexo jamais construído e as silhuetas de soldados da ONU com metralhadoras em punho sobre os muros das fortificações de Dessalines estão entre os “estímulos” para a militância da população de Fort National, uma das mais organizadas e mobilizadas de Porto Príncipe. A vizinhança é sede do Movimento para Liberdade, Igualdade e Fraternidade entre Haitianos (Moleghaf), uma organização popular com papel central no partido político Coordenação Dessalines (KOD), formado no último mês de fevereiro.
Terremoto em 2010 deixou centenas de milhares de mortos em Porto Príncipe. Foto: Eliza Capai
Reconhecido pelos moradores como prefeito do bairro, Oxygène David, 40, é o líder de ambas as organizações e vive em um casebre de um quarto, danificado pelo terremoto, localizado nas entranhas do labirinto de Fort National. Ex-emendador de fios de postes telefônicos para a companhia estatal Teleco, Oxygène perdeu seu emprego em 2008, quando a empresa foi privatizada pelo antigo presidente René Préval, e se tornou líder da mobilização anti-neoliberal no Haiti, organizando piquetes semanais em frente ao Ministério dos Assuntos Sociais para exigir pagamento retroativo e reparações. Por sua militância, acabou preso duas vezes por meses – sem julgamento – sob os presidentes Préval e Martelly.
Ao longo da noite de 11 de janeiro, até as 5 da manhã, centenas de moradores de Fort National se reuniram em volta de um palco erguido em um terreno baldio perto do topo da favela. O evento foi organizado por vários “baz” – pequenas associações de jovens – da região, sendo a “Baz Rezistans” (Base da Resistência) a principal delas, cujos membros são ligados ao Moleghaf. A maior parte da noite consistiu em músicos haitianos tocando rasin (ritmo tradicional) e rap com conteúdo claramente político. Mas também houve discursos políticos.
“Temos de seguir mobilizados para lutar contra as (s)eleições que eles tentaram impôr sobre nós”, discursou Oxygène. “Não são possíveis eleições livres, justas e soberanas a menos que Martelly renuncie e a Minustah deixe o país. A iminente febre eleitoral vai intoxicar e corromper muitas pessoas, preparando-as para aceitar qualquer coisa. Mas nós devemos nos manter firmes e não permitir outra eleição fictícia como a de 2011.”

“Seleições”

Movimentos sociais no Haiti agora utilizam frequentemente o termo “seleições”, indicando que os resultados eleitorais são decididos nos bastidores dos poderes estrangeiros, sobretudo Washington, e de elites locais através de artíficios nas urnas e contagem de votos. Ou seja, na visão de muitos haitianos, os candidatos são selecionados, e não eleitos.
Oficial da Minustah, missão da ONU liderada pelo Brasil no Haiti, conversa com haitiano e oficial do exército norte-americano em Porto Príncipe
Em 2011, Washington, a Organização de Estados Americanos (OEA) e a Minustah intervieram nas eleições soberanas do Haiti para tirar do pleito o presidente apoiado por Préval, Jude Céléstin, e substituí-lo pelo antigo cantor de compas (gênero musical do Haiti) e queridinho da direita, Martelly, que assumiu o poder. Como pontuou o então embaixador da OEA no Haiti Ricardo Seitenfus: “Washington e seus aliados não apenas derrubaram o Conselho Eleitoral do Haiti; eles derrubaram o eleitorado haitiano”. Ele chamou de “um golpe eleitoral” os resultados obtidos em 28 de novembro de 2010 e em 20 de março de 2011.
Após o primeiro turno da última eleição presidencial, em 28 de novembro de 2010, quase todos os candidatos deram uma entrevista coletiva no mesmo dia dizendo que a votação deveria ser anulada devido a irregularidades, fraude e caos. Naquela noite, porém, o chefe da Minustah, Edmond Mulet, ligou para Mirlande Manigat e Michel Martelly para convencê-los de que eles estavam na frente e deveriam continuar na corrida eleitoral. Eles continuaram.
A pedido de Washington, a OEA enviou uma equipe de supostos especialistas para analisar os resultados das eleições, empurrando o vice-líder Jude Célestin para o terceiro lugar, e Michel Martelly, terceiro, para a segunda colocação. Em um relatório de agosto de 2011, o Centro de Pesquisas Econômicas e Políticas (CEPR) mostrou que os cálculos da OEA eram completamente não científicos e, aparentemente, motivados politicamente.

Haitianos, em sua ampla maioria, também perceberam esse jogo de poder, mas, ainda se recuperando do terremoto, em geral se resignaram a dizer: “Vamos ver o que Martelly pode fazer”. O que ele fez nos três anos e meio após sua posse, de 14 de maio de 2011, foi estabelecer um regime neoduvalierista, cujas marcas registradas são corrupção flagrante, impunidade, repressão, intimidação, ineficiência e desperdício, tudo suavizado pela mais desavergonhada e custosa propaganda que proclama por todos os cantos que “o Haiti está avançando”. Eleições parlamentares e municipais, já marcadas, jamais se realizaram (diferentemente dos três carnavais por ano), resultando na extinção do Parlamento em 12 de janeiro. Enquanto manifestações cresceram em tamanho e frequência nos meses anteriores, também cresceu a repressão, engolindo a manifestação seguinte, e o Haiti entrou em um círculo vicioso político.
“De Ferguson ao Haiti, as vidas de negros importam”, diz cartaz de manifestante em protesto de fevereiro de 2015. Foto: San Francisco Bay View

A oposição

A oposição ao governo Martelly se divide em três correntes principais que, no entanto, permanecem basicamente unidas. Primeiro, há o Movimento Patriótico pela Oposição Democrática (Mopod), uma coalizão liderada majoritariamente por líderes tradicionais da “classe política”, como Tumeb Delpé, a adversária de Martelly em 2011, Mirlande Manigat, e o ex-deputado Serge Jean-Louis. Há também a Organização Política Família Lavalas, do ex-presidente Jean-Bertrand Aristide, cujo atual líder nominal, Dra. Maryse Narcisse, mais recentemente caracterizou o partido como “oposição moderada”. E a corrente dessalinita, composta pela KOD e pela Plataforma das Crianças de Dessalines (PPD), liderada pelo ex-senador Moïse Jean-Charles. (Recentemente o Mopod trocou seu “D” para significar Dessalines também.)
A revolta liderada pela oposição resultou na renúncia, em 13 de dezembro, do primeiro-ministro Laurent Lamothe (parceiro de negócios de longa data de Martelly), bem como na libertação de prisioneiros políticos, e também um “peão” de Martelly que liderava a Suprema Corte foi reposto, além de ter sido nomeado um novo conselho eleitoral.
Apesar dessas concessões, as manifestações semanais – às vezes diárias – de milhares continuaram, recebidas com gás lacrimogêneo, balas de borracha e canhões de água. Até as concessões que o governo é forçado a fazer parecem provocação, dado o estado de espírito de revolta no Haiti.
Apenas na primeira semana de fevereiro, nos dias 2 e 3, uma greve geral de transportes paralisou o país, deixando sinistramente vazias, com barricadas de pneus queimando, as principais ruas da capital. Nessa semana, um galão de gasolina no Haiti estava custando, 215 gourdes (US$ 4,58), conforme fixado pelo governo. A média de preço nos Estados Unidos é de US$ 2 o galão. Por isso, quando o novo primeiro-ministro do governo Martelly, Evans Paul, negociou um acordo com empresas de transporte na noite de 2 de fevereiro, diminuindo o preço da gasolina para 195 gourdes (US$ 4,15) por galão, a população ficou pulando de raiva.
“A greve nacional foi um completo sucesso, as ruas todas sem carros, e tudo que conseguimos foi uma redução de 43% no preço?”, disse um irado manifestante. “Isso é loucura. É exatamente por isso que Martelly deve sair.”

Os amigos de Martelly

Toda semana, uma nova delegação oficial chega da América do Norte ou da Europa para trazer apoio ao regime de Martelly. Houve visitas de delegações de congressistas dos EUA e de membros dos governos da França e do Canadá.
Michel Martelly, atual presidente do Haiti, cumprimenta o Secretário de Estado norte-americano John Kerry durante visita a Washington em fevereiro de 2014
No fim de janeiro, o Conselho de Segurança da ONU e a organização Clube de Madri fizeram visitas de três dias. Em 28 de janeiro, ao deixar o Haiti, o ex-presidente boliviano e vice-presidente do Clube de Madri, Jorge Quiroga, instou a Minustah a “reforçar sua presença no Haiti” e convidou ONU, OEA e União Europeia para enviar “missões in loco para observar o processo eleitoral”. O convite deixou uma porta aberta, porque as três instituições enviaram missões de observadores às eleições haitianas nas últimas duas décadas e meia.
No mesmo dia 28 de janeiro, cerca de 40 militantes do Moleghaf e o Movimento pelo Desenvolvimento Nacional (Modena) realizaram um piquete em frente à embaixada norte-americana em Tabarre, nos subúrbios da capital. Foi o primeiro de sete atos anti-imperialistas mensais planejados até 28 de julho de 2015, centenário da primeira ocupação do Haiti pela Marinha dos EUA, que durou até 1934. Os manifestantes não tinham dinheiro nem para pagar a tarifa de transporte até lá.
“A libertação do Haiti não virá da assim chamada comunidade internacional”, disse Henriot Dorcent, outro líder da Coordenação de Dessalines. “Na verdade, a libertação do Haiti da pobreza, injustiça e instabilidade política só virá quando o povo haitiano impedi-los de se intrometer em nossos assuntos internos. É para isso que nós na KOD e a maioria do povo haitiano estamos lutando hoje.”
Em fevereiro e março, os piquetes mensais do Moleghaf em frente da embaixada continuaram, mas a mobilização pela saída de Martelly arrefeceu quando o Conselho Eleitoral anunciou o calendário eleitoral deste ano: primeiro turno de eleições parlamentares e municipais em agosto e segundo turno junto com o primeiro turno das eleições presidenciais, em outubro; e segundo turno da eleição principal em dezembro. As Crianças de Dessalines, o Mopod e a Família Lavalas já anunciaram que terão candidatos, embora os dois primeiros grupos tenham dito previamente que não participariam de eleições comandadas por Martelly e supervisionadas pela Minustah. Apenas a KOD manteve sua posição e se recusou a concorrer nas futuras eleições, que considera um truque apenas para “seleições”.
“Nossa luta é como a de Jean-Jacques Dessalines há dois séculos ou [do líder guerrilheiro antiocupação] Charlemagne Péralte contra os americanos há um século”, disse Oxygène David. “O império pôs Martelly no poder como um fantoche para realizar sua agenda, cercado por um exército de ocupantes para protegê-lo. Mas, como nossos ancestrais, continuaremos lutando até que tanto o fantoche como seus protetores tenham ido embora. Esse é o tipo de determinação que o povo haitiano mostrou no passado, e é a mesma determinação que mostraremos novamente agora.
Reportagem traduzida e republicada do site da Agência Pública. Leia aqui o original, em inglês.
Fonte: http://www.brasildefato.com.br/node/31788

sábado, 4 de abril de 2015

Como a Costa Rica conseguiu produzir toda sua eletricidade de forma limpa



Planta geotérmica usa vapor de vulcão dormente para gerar energia


Durante os primeiros 75 dias deste ano, a Costa Rica conseguiu uma marca inédita: usou apenas energia renovável para abastecer sua rede elétrica, em meio a esforços para "limpar" sua matriz energética até 2021.
O país se beneficiou de três represas cheias graças a um período excepcional de fortes chuvas, além da energia de fontes geotérmica - que usa o calor vindo do interior da Terra - , eólica, solar e biomassa, segundo o Instituto Costa-riquenho de Eletricidade.
Com isso, as usinas térmicas do país não precisaram ser usadas no período, "com consequente benefício ambiental e econômico, porque não houve necessidade de usar combustíveis (fósseis)", disse o instituto.
Por enquanto, só metade das fontes de energia primária da Costa Rica são renováveis. Neste ano, o país conseguiu avançar "limpando" a energia elétrica.
Especialistas consultados pela BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC, apontam que o país tem tentado obter rendimento máximo de seus recursos naturais para evitar ter de importar hidrocarbonetos.
Um dos elementos-chave foi a integração ao Programa de Energias Renováveis e Eficiência Energética Centro-americana (4E), implementado pelo escritório de cooperação internacional do governo alemão junto à Secretaria-Geral do Sistema de Integração da América Central (SG-SICA), que trabalha para fomentar uma matriz mais limpa na região.
O diretor regional do programa 4E, Manfred Haebig, explica à BBC Mundo que o país "sempre teve a matriz energética mais 'verde' da América Central".
A matriz é composta em 80% por hidrelétricas e só 20% das energias renováveis é eólica e geotérmica (uma usina no país é abastecida pelo vapor de um vulcão dormente).
O problema disso - além do impacto da construção de hidrelétricas - é que o modelo é bastante dependente do clima: se falta água, o fornecimento de energia fica comprometido.
"Hoje as represas estão cheias e pode-se falar de 100% de energia renovável. Mas isso é dinâmico e pode mudar ao longo do tempo", explica Haebig.
A novidade, no caso costa-riquenho, é que o país tem levado em consideração as mudanças climáticas, que alteram, por exemplo, a constância das chuvas, explica Tabaré Arroyo, autor do estudo "Líderes em Energia Limpa", produzido para a organização ambiental WWF.
País criou ambiente propício para investimentos em energia renovável

Arroyo explica que a Costa Rica tem investido não apenas em energia hidrelétrica, mas também eólica e geotérmica, para o caso de caírem os níveis de água acumulada nas represas.
"Obter 100% de eletricidade renovável é algo novo na América Latina", afirma.

'Líder regional'

Em seu relatório para a WWF, Arroyo explica que dois mecanismos ajudaram o país centro-americano a avançar nas energias renováveis.
O primeiro é um sistema de leilão para a compra adicional de energia limpa.
O segundo é um programa para promover a geração de energia pelos próprios consumidores - "que conectam seus sistemas solares, eólico, de biomassa e cogeração à rede", explica o especialista. Esses pequenos produtores podem vender os excedentes, o que vem ajudando a abastecer a rede energética.
"Graças a seu grande potencial e um marco jurídico favorável, a Costa Rica criou um ambiente atrativo para investimentos em energia renovável", diz o relatório.
Entre 2006 e 2013, o país atraiu mais de US$ 1,7 bilhão para financiar projetos energéticos limpos.
Com isso, a Costa Rica virou o "país latino-americano mais bem posicionado no Índice de Sustentabilidade Energética", diz a WWF.
Ao mesmo tempo, reportagem do jornal britânico The Guardian ressalta que a Costa Rica ainda enfrenta muitos obstáculos para cumprir suas metas energéticas: além de ter um padrão instável de chuvas, o país ainda depende do petróleo para o setor de transportes.
O combustível consumido por carros, ônibus e trens responde por quase 70% das emissões de carbono costa-riquenhas. E são poucos os carros híbridos disponíveis, disse o jornal.
Ainda assim, em um país dependente do turismo ecológico, "faz sentido buscar fontes de energia limpas e não contaminantes", diz Jake Richardson, especialista em energia renovável do site Clean Technica.
O objetivo é também economizar na importação de combustíveis fósseis e no próprio bolso: a Autoridade Reguladora de Serviços Públicos calcula que a tarifa de eletricidade ficou até 15% mais barata graças às mudanças energéticas.

sexta-feira, 27 de março de 2015

Mogherini se reúne com Castro para acelerar aproximação

Mogherini se reúne com Castro para acelerar aproximação


União Europeia tenta fechar acordo político com Cuba antes do fim do ano



Federica Mogherini e o presidente Raúl Castro, no dia 25. / EFE


O degelo entre os Estados Unidos e Cuba criou um novo sentido de urgência na Europa sobre as relações do continente com a ilha. A chefa de Política Externa Europeia, Federica Mogherini, visitou Havana nesta terça-feira e transmitiu uma mensagem clara aos seus interlocutores: o acordo político e de cooperação que ambas as partes negociam há um ano deveria ser fechado ainda em 2015. Mogherini se reuniu durante duas horas com o presidente cubano, Raúl Castro.Sabrina Bellosi, assessora da chefa da diplomacia europeia, publicou uma foto do encontro em sua conta no Twitter.

A Europa quer reafirmar os anos de relação com a ilha — é o primeiro investidor estrangeiro e o segundo parceiro comercial depois da Venezuela — para elevar seu perfil institucional em um momento de mudanças no país.
“Temos um claro senso de proximidade. A Europa pode acompanhar as reformas que o país está adotando com investimentos em setores como a agricultura, energias renováveis e turismo”, afirmou Mogherini ao EL PAÍS e a outro jornal europeu durante sua visita a Havana. A ilha depende do petróleo em 94% para seu abastecimento de energia e busca expandir as atividades no setor de energias renováveis, um segmento para o qual pode atrair capital e projetos europeus.
O anúncio inesperado do fim da inimizade entre Washington e Havana em dezembro passadosurpreendeu a União Europeia, em meio a um processo que estava paralisado. Depois dos esforços de ambas as partes para revitalizá-lo, a terceira rodada de negociação começou no início de março com alguns avanços concretos, embora também com a constatação de divergências.
A visita de Mogherini representa uma tentativa de acelerar o ritmo das conversas. “Sei que sua presença aqui vai dar um impulso”, disse o ministro de Relações Exteriores, Bruno Rodríguez, na sede do ministério. Para dar maior visibilidade a essa tentativa, o próprio Rodríguez irá a Bruxelas no fim de abril para dialogar com representantes europeus. O receio de alguns países — Polônia, República Checa e Alemanha — em relação ao diálogo com o regime no início do processo se transformou em apoio firme para acelerar o pacto, que inclui três pilares: cooperação, âmbito político e relação econômica.
No entanto, ninguém esconde que o diálogo sobre direito humanos, uma das peças-chave dessa negociação, apresenta dificuldades. Para evitar que esse tema emperre as discussões, foram tomadas duas decisões. A primeira, já em vigor, começar pela parte mais fácil, a da cooperação. Esse é o capítulo sobre o qual os contatos estão focados. A segunda, buscar uma espécie de negociação paralela por meio do enviado especial da UE para os direitos humanos, Stavros Lambrinidis, que possa retirar os assuntos mais espinhosos do diálogo principal, para que sejam abordados separadamente.
Ainda não se sabe se todas essas manobras sutis, tão próprias da UE, vão convencer os negociadores cubanos num momento em que têm um substancioso processo aberto com Washington. Por enquanto, Rodríguez enviou um sinal a Mogherini para agradecer o voto europeu na ONU contra o embargo norte-americano, e a chefa da diplomacia respondeu: “Você sabe qual tem sempre sido a posição europeia a respeito. Especialmente nesses momentos, não vemos motivo para manter o embargo”.
A conclusão do acordo entre a União Europeia e Cuba permitirá revogar a posição comum, um instrumento que impede estabelecer relações institucionais formais, a não ser que haja avanço em direitos humanos. Muitos países contornaram essa barreira —19 têm acordos bilaterais com a ilha — e a própria UE retomou o diálogo com o regime castrista em 2008. A posição comum foi promovida pelo então primeiro-ministro da Espanha, José María Aznar, embora agora um dos mais ferrenhos defensores do degelo com Cuba seja o ministro de Relações Exteriores espanhol, José Manuel García-Margallo.
Além de se reunir com o Governo, Mogherini se encontrou com representantes do mundo artístico cubano e com o arcebispo de Havana, Jaime Ortega, uma das poucas vozes com permissão de fazer críticas ao Executivo. Ortega destacou o papel da Igreja Católica nos sinais de abertura do regime.

Fonte: http://brasil.elpais.com/brasil/2015/03/25/internacional/1427292264_088061.html

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

O pesadelo chileno

O pesadelo chileno



Evo Morales pede a mediação do papa Francisco no conflito com o Chile em torno de uma saída ao mar para seu país


 20 ENE 2015

Na próxima quinta-feira Evo Morales vai assumir a presidência da Bolívia pela terceira vez. No colorido juramento indígena haverá uma presença fantasmagórica: a de Francisco, o Papa. A última reunião do pontífice com Morales provocou um arrepio regional. Ao sair do Vaticano, Morales disse que o chefe da Igreja lhe pediu os antecedentes da disputa de seu país com o Chile para reivindicar uma saída para o mar. Os alarmes chilenos estão acesos. Por trás da tensão percebem-se vários sinais dos tempos. O ativismo diplomático de Bergoglio, as contradições do Governo de Michelle Bachelet e o contraste entre dois modos de ser da América Latina.
A disputa entre Bolívia e Chile é um dos inúmeros conflitos limítrofes entre os países surgidos da derrocada do império espanhol. Essa querela, que desencadeou a Guerra do Pacífico de 1879, teria sido resolvida em 1904 com um tratado de paz pelo qual os bolivianos trocaram a clausura por uma ferrovia desde La Paz até o porto de Arica, direitos especiais para que seus produtos chegassem ao oceano e uma indenização de 300.000 libras esterlinas.
Mas as pretensões da Bolívia reapareceram. E os chilenos González Videla, Pinochet, Lagos e Bachelet, em sua primeira presidência, aceitaram negociá-las. Todos fracassaram.
Em abril do ano passado Evo Morales recorreu ao Tribunal de Haia, porque “dialogar com o Chile é continuar perdendo tempo”. O Governo chileno ignorou essa jurisdição. E existiu que não existe país sem saída para o mar que receba os benefícios da Bolívia: até o final de 2016 serão investidos 500 milhões de dólares (1,32 bilhão de reais) para melhorar o transporte dos produtos bolivianos até o mar.
A disputa, que captou a atenção da opinião pública de ambos os países, vai marcar a nova posse de Morales. Sobretudo porque Bachelet não vai comparecer. Ela se fará representar pelo presidente da Corte. Ricardo Lagos e ela própria estiveram presentes nas posses anteriores. Desta vez, pelo contrário, ela chamou seus embaixadores na América Latina a Santiago para analisarem a disputa com a Bolívia. O que vai opinar o comunista Eduardo Contreras, embaixador no Uruguai e favorável a um acordo com os bolivianos? Morales provoca arrepios na coalizão de Bachelet.
O chanceler Heraldo Muñoz, enfraquecido por um escândalo de financiamento eleitoral, se sobressaltou com as declarações de Morales em Roma. Para um chileno não deve haver pior pesadelo que o surgimento de um Papa argentino advogando pelos bolivianos.
A Santa Sé não comentou a deslealdade de Morales. Mas o contexto a torna verossímil. Bergoglio vem demonstrando uma inclinação irrefreável pela política internacional. Assim que foi eleito Papa, pensou em resolver o conflito do Uruguai com a Argentina em torno da instalação de uma fábrica de celulose à margem do rio que separa os dois países. O rei da Espanha já queimou os dedos nessa controvérsia. Não se soube mais nada da tentativa papal.
Francisco interveio também na crise de Nicolás Maduro com sua oposição, por meio de Aldo Giordano, seu núncio na Venezuela. Até agora, não teve resultados. O último pedido de Giordano é que o chavismo se mire no espelho dos Castro e seu reencontro com os Estados Unidos.
Esse experimento foi o maior êxito de Bergoglio. Os chilenos temem que seja o modelo seguido em uma intervenção em seu enfrentamento com a Bolívia. Os dois casos oferecem um formato ao estilo de Davi versus Golias, pelo qual o Papa sempre fica fascinado. Não faltam exemplos desse fascínio. Desde a solidariedade com os migrantes de Lampedusa até a recente criação de cardeais de países periféricos e dioceses menores.
Entre os diplomatas de Bachelet há um pressentimento mais difícil de expressar: que no interior do pontífice continue a palpitar aquele jesuíta politizado, com afinidades com o nacionalismo peronista, que nos anos 1970 citava o fato de a Bolívia não ter saída para o mar como exemplo da opressão que ofende o mundo. Entre 1958 e 1960 Francisco viveu em Santiago. Estudou arte e literatura na célebre missão do padre Hurtado. Mas essa experiência talvez não seja o bastante para exorcizar o perigo que Bachelet teme. Morales sabe pressionar. Ele revelou que lhe pediram os antecedentes do conflito e, de imediato, ele anunciou que o papa vai visitar seu país em julho.
Talvez Bachelet encontre alívio no Vaticano, onde é possível que vá no próximo mês com Cristina Kirchner. O motivo pode ser inoportuno: agradecer a mediação entre Chile e Argentina do cardeal Antonio Samoré, falecido em 3 de fevereiro de 1983.
A intenção papal de ajudar a Bolívia provoca reações contraditórias entre os católicos chilenos. Sobretudo no cardeal Francisco Errázuriz, nomeado por Bergoglio para a comissão que reforma a Cúria romana.
Em contrapartida, o Pontífice vai reforçar a simpatia que nutre por ele a esquerda populista latino-americana, que enxerga o conflito entre Bolívia e Chile como o último muro a derrubar. Em 2003 Hugo Chávez ofendeu Ricardo Lagos, dizendo que sonhava em tomar banho de mar numa praia boliviana. Mas a tensão entre os dois países revela outro ponto de discórdia. Morales disse que só admitirá que Bachelet é socialista se ela abandonar a Aliança do Pacífico. E seu vice, Álvaro García Linera, descreve essa associação entre Chile, Peru, Colômbia e México como “a represália dos Estados Unidos pela nova autonomia regiional”.
Bachelet, em um movimento involuntário, parece representar o papel que lhe designam na Bolívia. Antes de se reunir com seus embaixadores, ela vai avaliar na Filadélfia o tratado de livre comércio com os Estados Unidos. Uma viagem dedicada às fobias de Evo Morales.
Fonte: http://brasil.elpais.com/brasil/2015/01/19/opinion/1421708351_904056.html