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terça-feira, 5 de agosto de 2014

Entenda o que é o ebola e como a doença mortal se espalha

Entenda o que é o ebola e como a doença mortal se espalha


Atualizado em  5 de agosto, 2014

Ebola | Crédito: AFP
Agentes de saúde pública estão entre os que mais correm risco de contrair o Ebola
A epidemia de ebola no oeste da África é a pior de que se tem registro na história. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), 887 pessoas morreram na região por causa da doença, levando autoridades de saúde da Guiné, Libéria e Serra Leoa a correr contra o tempo para tentar controlar o vírus.

O que é o ebola?


Ebola é uma doença causada por um vírus cujos sintomas iniciais incluem febre, fraqueza extrema, dores musculares e dor de garganta, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). À medida que a doença avança, o paciente pode sofrer de vômitos, diarreias e – em alguns casos – hemorragia interna e externa.
Humanos contraem a doença por meio do contato com animais - como chimpanzés, morcegos e antílopes - contaminados.
Entre humanos, o vírus pode se espalhar por meio do contato direto com sangue contaminado, fluidos corporais ou órgãos do doente, ou mesmo por meio do contato com ambientes contaminados. Até funerais de vítimas de ebola podem representar risco, se outras pessoas tiverem contato direto com o corpo do defunto.
O período de incubação pode demorar de dois dias a três semanas, e o diagnóstico é difícil. Em humanos, a doença está limitada majoritariamente à África, embora um caso tenha ocorrido nas Filipinas.
Agentes de saúde pública também correm risco caso tratem pacientes sem tomar as precauções adequadas para prevenir a contaminação.
As pessoas permanecem contaminadas enquanto seu sangue e suas secreções contiverem o vírus – em alguns casos, até sete semanas depois da recuperação.
Ebola | Crédito: Science Photo Library
Esse modelo molecular mostra partes dos vírus do Ebola que os cientistas 
estudam na tentativa de produzir medicamentos que reduzem a propagação da doença
Ebola | Crédito: BBC

Onde a doença ocorre?

Surtos de ebola têm ocorrido primariamente em vilarejos remotos da África Central e Ocidental, segundo a OMS.
A doença apareceu originalmente na República Democrática do Congo (quando se chamava Zaire), em 1976. Desde então, se espalhou para o leste, afetando países como Uganda e Sudão.
O surto atual tem a particularidade de ter se iniciado na Guiné, que nunca tinha registrado um caso antes, e de estar se espalhando por áreas urbanas.
De Nzerekore, uma área rural no sudeste da Guiné, o vírus chegou à capital, Conakry, e aos países vizinhos Libéria e Serra Leoa.
Um homem que viajou de avião entre a Libéria e Lagos (Nigéria) em julho foi mantido em quarentena ao desembarcar e depois morreu por causa do ebola - o primeiro caso na Nigéria.
Um dos médicos que o trataram foi infectado e oito pessoas com quem ele teve contato agora estão em isolamento.
A organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) qualifica o surto de "sem precedentes", pois os casos se distribuem por áreas separadas por centenas de quilômetros na Guiné.
A ONG diz que a tarefa de acompanhar pessoas que tiveram contato com pacientes de ebola é uma "corrida contra o relógio".

Que medidas estão sendo tomadas contra o ebola?

O Banco Mundial anunciou que destinará US$ 200 milhões em caráter de urgência para ajudar Guiné, Libéria e Serra Leoa a conter a epidemia de ebola.
Centenas de soldados na Libéria e em Serra Leoa foram mobilizados para conter o pânico nas comunidades afetadas e transportar equipes médicas de um vilarejo a outro.
A Libéria já fechou escolas e a maioria das suas fronteiras e colocou em quarentena as comunidades onde o vírus foi encontrado.
Em julho, a morte de um renomado médico liberiano, Samuel Brisbane, ajudou a propagar os esforços de comunicação do governo sobre o vírus.
Em Serra Leoa, o médico que liderava os esforços contra a doença também se converteu em uma de suas vítimas.
Ebola | Crédito: AP
Ainda não há cura para o Ebola
As companhias aéreas Asky e Arik Air, que operam no Oeste da África, suspenderam seus voos para Libéria e Serra Leoa. Testes mais rigorosos estão sendo realizados em aeroportos.
No início do surto atual, o Senegal fechou sua fronteira com a Guiné.
Países asiáticos, como China e Vietnã, também estão se mobilizando para evitar a entrada do vírus em seu território, com ações como o monitoramento mais criterioso de passageiros nos aeroportos.

Quais são as precauções a ser tomadas?

Segundo a OMS, evitar o contato com pacientes de ebola e seus fluidos corpóreos. Não tocar nada em ambientes públicos que possa carregar o vírus - por exemplo, toalhas de mão.
Quem estiver cuidando de pacientes de ebola precisa usar equipamento de proteção, como luvas e máscaras, e lavar bem as mãos regularmente.
Populações em áreas rurais estão sendo aconselhadas pela OMS a não consumir carnes cruas de animais selvagens e manter a distância de morcegos, macacos e primatas. Alguns tipos de morcegos são considerados iguarias na Guiné, onde o surto teve início.
Em março, o Ministério da Saúde da Libéria aconselhou as pessoas a evitar sexo; o vírus pode ser transmitido pelo sêmen, mesmo até sete semanas depois da eventual recuperação de um paciente, observa a OMS. As recomendações já eram de evitar apertos de mão e beijos.
Ebola | Crédito: Reuters
Carnes de animais contaminados trazem riscos à população no oeste da África
Ebola | Crédito: EPA
Lavar as mãos reduz as chances de contrair a doença

O que fazer quando se contrai o vírus?

Manter-se em isolamento e procurar ajuda médica profissional. A chance de sobrevivência aumenta se o paciente começar a receber tratamento imediatamente.
Não existe vacina para o vírus, embora algumas, assim como tratamentos clínicos, estejam em testes.
Como os pacientes ficam desidratados rapidamente, a recomendação é beber líquidos que contenham eletrólitos ou receber fluídos por via intravenosa.
Segundo a Médicos Sem Fronteiras, o atual surto é causado pela variedade mais agressiva do ebola, matando entre 50% e 60% das pessoas que infecta.
Não se sabe que fatores determinam que alguns pacientes se recuperem e outros sucumbam.

Mortes por Ebola

Guiné - 358, de um total de 485 casos
Libéria - 255, de um total de 468 casos
Serra Leoa - 273, de um total de 646 casos
Nigéria - 1 de quatro casos
* Número de casos inclui prováveis casos

terça-feira, 6 de maio de 2014

Para a ignorância não há remédio

Para a ignorância não há remédio




Doenças como o sarampo ressurgem por causa do movimento antivacinação. Por Eduardo Graça, de Nova York

por Eduardo Graça — publicado 30/04/2014
De Nova York

vacinação
Campanhas como a da imagem, feitas pelo governo dos EUA, tentam aplacar a rejeição de parte da população às vacinas
Jeremiah mitchell vive em Tulsa, a segunda maior cidade de Oklahoma. A criança de 10 anos acaba de aparecer na primeira página do segundo jornal de maior circulação nos Estados Unidos, debruçado sobre seu iPad, que controla com os cotovelos. Em uma segunda imagem, a mãe o ajuda a colocar suas próteses. As pernas também foram amputadas depois de ele ser diagnosticado com meningite, aos 6 anos, quando cursava o jardim de infância. Outras cinco crianças de sua escola foram infectadas e duas morreram. O caso de Mitchell tornou-se emblemático na denúncia, pelo governo Barack Obama, do crescimento do movimento antivacina no país, estimulado por grupos religiosos e conservadores. Segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças, a decisão de não vacinar crianças em idade escolar é fator crucial para o reaparecimento de doenças até poucos anos restritas aos arquivos médicos, entre elas a própria meningite, o sarampo e a coqueluche.
Há 14 anos o sarampo foi oficialmente erradicado nos EUA. De acordo com o CDC, neste ano crianças serão, porém, infectadas três vezes mais pela doença do que em 2009. Quase 5% dos alunos de jardins de infância de Idaho, Illinois, Michigan, Oregon e Vermont não foram vacinados no ano passado, sob alegação de “razões de crença pessoal” dos pais. Um surto de sarampo nos últimos dois anos no Texas, na Califórnia e em Nova York deveu-se, afirma Washington, ao número expressivo de crianças não vacinadas aptas a viajar pelo país.
Diretora de imunização do CDC, Anne Schuchat veio a público lembrar que a decisão de não vacinar crianças, cara à noção de direito individual do cidadão americano, afeta invariavelmente o bem-estar de toda a população. “Não queremos que crianças nos dias de hoje morram de sarampo nos EUA. Mas nesse cenário diria ser quase inevitável isso não acontecer.” O país teve 189 casos registrados de sarampo em 2013 (ante 55 no ano anterior), 24.231 de coqueluche (com 91 casos fatais) e 480 de meningite (com 75 mortes). Até abril, 115 casos de sarampo foram confirmados neste ano.
O movimento antivacina, estimulado pela crença de que as inoculações obrigatórias seriam responsáveis pelo crescimento exponencial de casos de autismo nos Estados Unidos, não se restringe aos grotões em estados sulistas do chamado Cinturão da Bíblia. Em 2008, uma explosão de sarampo em San Diego surpreendeu as autoridades: em vários bairros da cidade de pouco mais de 1 milhão de habitantes, 20% das crianças em idade escolar simplesmente não foram vacinadas contra a doença. O mesmo se repetiu em 2014 no distrito de Orange, localizado ao sul de Los Angeles, a maior metrópole da Califórnia. No ano passado, um jovem judeu ortodoxo de 17 anos, não vacinado por razões religiosas, foi apontado como a primeira peça do quebra-cabeça montado pelos médicos do Brooklyn, distrito mais populoso de Nova York, para entender o aumento impressionante de casos de sarampo na cidade.
Em um país profundamente dividido ideologicamente, o combate duro aos alarmes dados pelo CDC preocupam, mas não surpreendem. Presidente do Centro de Informação Nacional para a Vacinação, ONG sem fins lucrativos, Barbara Loe Fisher é das mais arraigadas defensoras do direito de os pais decidirem se querem vacinar os filhos. “Os questionamentos em relação à vacinação obrigatória são legítimos, especialmente quando sabemos que 10% das crianças vacinadas no jardim de infância tornam-se asmáticas e uma em cada 50 são diagnosticadas com autismo. Por que é que nos EUA os cidadãos devem ser coagidos a tomar todas as vacinas recomendadas pelo governo quando no Canadá, no Japão e na Comunidade Europeia eles são livres para escolher o que acham ser o melhor para suas famílias?”
Desde 1986, quando o Congresso passou, durante o governo Reagan, o Ato Nacional de Proteção à Vacinação para Crianças, os grandes laboratórios e os médicos contam com uma rede de proteção legal contra processos centrados em possíveis malefícios causados por vacinas.
No Brasil, também neste mês, seis adolescentes tiveram reações – como dor muscular, cefaleia e náusea – à primeira dose da vacina contra o HPV no Rio Grande do Sul. A reação levantou dúvidas sobre a qualidade dos lotes de vacina produzidos no País. Nas redes sociais, o estudo realizado em 1998 por um médico britânico, com 12 pacientes, a ligar o autismo à vacinação obrigatória, reapareceu com destaque em fóruns de discussão. Tal estudo foi considerado fraudulento pelas autoridades médicas do Reino Unido poucos anos depois de publicado e seu autor, Andrew Wakefield, perdeu o registro médico. Nos EUA, desde então e apesar da comprovada fraude acadêmica, 17 estados modificaram sua legislação e permitiram aos pais “isenção por motivos filosóficos e/ou religiosos” da obrigatoriedade da vacinação.
Do outro lado da conversa, Michaela Mitchell, a mãe de Jeremiah, conta que em 12 horas ele deixou de ser um menino obcecado por andar de bicicleta pelas ruas de Tulsa para retornar à sua casa, depois de ficar em coma, “tal qual uma múmia”. Ela tornou-se uma das faces mais visíveis nos EUA da luta contra a possibilidade de jardins de infância como os frequentados por seu filho optarem pela não exigência de comprovação da vacina, comum em Oklahoma: “Eu disse que ele tinha todo o direito de ter raiva pelo que aconteceu. E que, a partir de agora, teríamos de fazer tudo de modo diferente”.
No debate em torno da obrigatoriedade da vacinação, os dois lados parecem concordar em ao menos um aspecto: as crianças pagam o maior preço na oposição entre a liberdade individual e a proteção da saúde pública.

sábado, 19 de abril de 2014

Mapa do câncer no mundo: a resposta deve estar na Índia

Mapa do câncer no mundo: a resposta deve estar na Índia
https://www.facebook.com/photo.php?fbid=680441605349679&set=a.422338444493331.97100.419178804809295&type=1

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Sistemas de saúde no mundo

Sistemas de saúde no mundo


Este mapa revela como diversas nações tratam suas políticas de saúde.


- Os países com sistemas de saúde públicos, gratuitos e universais se incubiram da tarefa de oferecer saúde a todo seu povo, mesmo os que 
não podem pagar por ela oque revela um sentido coletivo e solidário 
como princípio social;



- Há países em convênio da saúde pública com a privada, oque se revela 
ou em nações que garantem apenas alguns serviços de saúde a seu povo 
e outros ficam sob o critério de quem puder pagar para ter acesso ou em nações em que o sistema público paga ao privado e atuam de forma simultânea nos serviços de saúde mais atendendo todo o seu povo,



- E países aonde o seguro saúde privado é a política preponderante o que restringe o acesso a saúde a somente quem pode pagar e a administração privada, os serviços públicos de saúde quanto existem são apenas uma subvensão de serviços privados para atender pessoas carentes, ou seja, 
uma política social e não de saúde pública efetivamente.



Aqui se revelam conceitos e valores de sociedades que me põe em um 
lado e em oposição a outro.
No entanto devemos ter um enfoque para além do modelo dos sistemas de saúde, por exemplo peguemos o da Coréia do Norte que se propõe e 
cumpre o sentido de cobertura pública, gratuita e universal e vejamos o da Coréia do Sul em que apesar de ser um sistema misto obteve o mesmo êxito em cobertura atuando nas políticas de emprego e previdência com plano de saúde, assim mesmo tendo àereas cobertas apenas por pagamento a política de geração de empregos e previdência foram eficientes a ponto de tornar a cobertura praticamente universal.
Os maiores desafios se veem em nações continentais e altamente populosas que se proporam a ofertar saúde universal como o Brasil, a China e a Índia como também os maiores sistemas de saúde do mundo.
Os melhores resultados se obtiveram nos países de Welfare State com saúde pública, gratuita e universal como Noruega, França, Canadá e mesmo o Reino Unido.
Nações socialistas também apostaram na saúde pública, gratuita e 
universal e obtiveram grandes êxitos como Cuba, Belarus, Coréia do Norte 
e mesmo a China sendo o país com maior sistema de saúde mais bem sucedido.
Outros bons exemplos na gestão e cobertura de saúde vem novamente da pública, gratuita e universal do Japão com larga tradição e investimento, 
da Líbia da era de Khadafí que ainda mantém parte de sua estrutura apesar do caos e da Argentina e do Uruguai na América do Sul.
O único país com saúde predominantemente privada com cobertura de qualidade é a Suíça por diversas particularidades baseadas em pequena população, altos níveis de emprego e educação e renda alta pela concentração financeira de centros como Basiléia.



No mundo de hoje também se enfrentam duas concepções, com os EUA e 
a hegemonia liberal vem as privatizações, terceirizações e ampliação de nações com países em convênio da saúde pública com a privada em oposição a ascenção dos BRICs e do legado ainda advindo do Welfare State que advoga a manutenção e expansão da saúde pública, gratuita e universal.



Na América Latina, na Àsia e na Àfrica se expande a noção de saúde para todos que é desmantelada na Europa, América do Norte, Oceania e em grandes metrópoles mundo a fora.
A adoção do princípio de saúde universal por nações paupérimas como africanas é muito válido para o sentido de sociedade que procuram construir e mesmo a isignificância da presença de rede privada.



Na batalha dos sistemas de saúde também estão batalhas de concepções 
de mundo muito além de simples cobertura pois podemos apontar bons exemplos em todos os sistemas como a Suíça, a Coréia do Sul e a Noruega; mais importante do que a cobertura porém são os rumos de modelos de cada sociedade a que se propõe e que se degladiam entre as "virtudes do mercado" e "a soliedariedade cidadã".



PS: a quem puder ajudar a completar o mapa agradeço muito pois a pesquisa continua.



* As fontes deste mapa são das mais diversas, muitas de agências da ONU mais em geral são de pesquisas diversas e antigas o tal que muitos links já até perdi e estou a procura de recupera-los.

sábado, 30 de novembro de 2013

O tiro de Obama saiu pela culatra

O tiro de Obama saiu pela culatra


A reforma do sistema de saúde proposta pelo presidente democrata decepciona o eleitor e pode abalar seu segundo mandato

por Eduardo Graça — publicado 29/11/2013 
De Nova York
Barack Obama
Obama durante evento de arrecadação de fundos do partido Democrata na segunda-feira 25, em San Francisco, na Califórnia. Nas eleições legislativas, o Obamacare pode derrubar o partido

Presidente Pinóquio. Rei da incompetência. Senhor da presunção política. Esses foram alguns dos epítetos associados a Barack Obama nas últimas semanas, e não por comentaristas ou meios de comunicação associados à direita raivosa. A capa mais recente do semanário britânico The Economist traz o presidente dos EUA de terno e gravata, com o oceano no pescoço, e o título “O homem que um dia andou sobre as águas”. A da Time, ilustrada com uma pílula de aspirina partida ao meio, é ainda mais direta: “A promessa quebrada”. A revista pergunta, em tom pessimista: “Ainda é possível salvar o Obamacare? O que será da segunda administração Obama, consumida pela tentativa de se ajeitar um programa impopular?”.
Em Double Down, a recém-lançada continuação do best sellerVirada no Jogo, em torno dos bastidores da reeleição de Obama, os jornalistas Mark Halperin e John Heilemann contam como a administração celebrou a decisão da Suprema Corte, quatro meses antes das eleições do ano passado, de afirmação da constitucionalidade do projeto de reforma do sistema federal de saúde. Segundo os repórteres, após o resultado ser divulgado, houve comemoração e lágrimas de felicidade na Casa Branca. “Apesar de toda a controvérsia legal, o QG democrata considerou o resultado extremamente positivo para a vitória em novembro. A decisão empolgava a coalizão democrata, especialmente negros, jovens e hispânicos, interessados em obter ou melhorar sua cobertura de saúde”, escrevem os repórteres.
O voto nos EUA, como se sabe, não é obrigatório, e o tema levou, demostraram as pesquisas de boca de urna, minorias étnicas a sair de casa e votar em Obama. Não por acaso, a reportagem da Time traça o perfil de um jovem de origem latino-americana, cujo plano de saúde oferecido pelo empregador é um daqueles que desaparecerá na confusão burocrática do Obamacare. Sua esperança foi substituída por uma dor de cabeça sem prazo para terminar.
Há um mês os democratas foram os grandes beneficiários do descontentamento da maioria da população com o fechamento de parte do governo e a ameaça de um histórico calote causado pela intransigência conservadora. Uma das condições impostas pela oposição para a aprovação do novo orçamento federal era justamente um atraso no lançamento do Obamacare. O presidente venceu, porém, a queda de braço e a reforma entram em vigor, ainda que aos trancos e barrancos, em janeiro. Na ocasião, o aparato de mídia digital criado por Obama para as duas disputas presidenciais se voltava com força total para as eleições legislativas de novembro, com os democratas disparados à frente. Não mais. Pesquisa da CNN/ORC International divulgada na terça-feira 26 revela que 49% dos norte-americanos preferem o Partido Republicano, ante 47% pró-democratas, uma virada de 10 pontos em quatro semanas, resultante, segundo as entrevistas, da decepção do eleitor com o Obamacare.
À impossibilidade de se entrar no site do Obamacare por falhas técnicas juntou-se a constatação de que uma das principais promessas de Obama, a de que “ninguém precisará trocar seu plano de saúde”, mostrou-se inverídica. Por conta das novas regras, empregadores poderão optar por oferecer planos de qualidade inferior. Se o empregado for temporário, a obrigatoriedade de se oferecer o benefício simplesmente desaparece. O mercado intui que apenas aqueles com necessidades mais imediatas de cobertura médica, especialmente os mais idosos e com doenças crônicas, se apressarão para ingressar no Obamacare, o que causaria um aumento no preço do produto. A lógica do governo era oposta: ao atrair os mais jovens e pobres, sem seguro-saúde, para o mercado, o aumento de procura naturalmente diminuiria o valor daquele que é, no mundo desenvolvido, o serviço mais caro do gênero.
Na média da maioria das pesquisas, 57% dos americanos reprovam o Obamacare e outros 55% se dizem insatisfeitos com o governo democrata. Mas o resultado mais duro para Obama veio na consulta popular feita pelo Washington Post e pela ABC News. Pela primeira vez em cinco anos de governo a maioria dos norte-americanos diz não confiar em seu presidente. À pergunta “o senhor acredita que o presidente é honesto com seus cidadãos?”, 52% responderam não, ante 46% optantes do sim. O ex-presidente Bill Clinton se apressou em “aconselhar” Obama: “Ainda que seja preciso uma mudança na legislação, o presidente deveria honrar seu compromisso e o governo precisa encontrar uma saída para as pessoas que querem continuar a manter seus planos”.
Além da reforma do perverso sistema de saúde público, que consome quase 18% do PIB e deixa cerca de 50 milhões de cidadãos sem qualquer proteção médica, pesa a desaprovação popular à mudança, pela maioria democrata, de regras seculares de funcionamento do Senado, motivada pela recusa dos republicanos em aprovar indicações de Obama para cargos na Justiça Federal. Para piorar, os EUA aceitaram um tratado com o Irã menos duro para Teerã do que o proposto por Brasília e Turquia, e ridicularizado por Washington, em 2010. A soma dos acontecimentos levou analistas a identificarem novembro como o mês mais tumultuado da era Obama, com possíveis sequelas de longo prazo. Por fim, a Suprema Corte ainda decidiu analisar, de forma surpreendente, o direito de as corporações se negarem, baseadas na liberdade religiosa, de custear métodos de controle de natalidade para funcionários.
“Quiçá o mais triste desse fiasco é que nenhum país rico tenha, hoje, mais necessidade de uma reforma no sistema de saúde do que os EUA. O Obamacare até tenta resolver o problema, mas é uma tentativa imperfeita, baseada em um sistema falho e comandada por um presidente cada vez mais distante da perfeição e sem muito tempo para sair da complicação em que se meteu”, anota The Economist.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

No Afeganistão, o quebra-cabeça do sistema de saúde

No Afeganistão, o quebra-cabeça do sistema de saúde
Enquanto as tropas militares norte-americanas se preparam para deixar o país até o fim de 2014, o sistema de saúde afegão encontra-se em um estado mais deplorável do que nunca, com destaque para as dificuldades de acesso aos cuidados médicos de aproximadamente 450 mil deslocados internos pelo conflito armado

por Pierre Micheletti
Um pequeno caminhão japonês, sobrecarregado com duas vezes a altura das laterais da carroceria, para a algumas centenas de metros dos primeiros abrigos improvisados. No final desta primavera [do Hemisfério Norte], a planície de Gull Butta, na periferia de Cabul, é varrida por um vento suave e poeirento, que obriga a proteger o rosto. Mal o veículo para, todos os ocupantes descem. Descobre-se então que o piso da carroceria é ocupado por gado. Cerca de uma dúzia de bezerros e vacas são empurrados para fora sem a menor cerimônia e imediatamente amarrados por mulheres a estacas de metal sólido que elas fincaram logo ao descer.
Durante esse tempo, as crianças cuidam das aves domésticas, enquanto os homens descarregam as indispensáveis bicicletas Phoenix e jogam ao chão pesadas trouxas. Os postes de madeira que serviram de assoalho para separar os seres humanos dos animais em breve se tornarão as armações de barracas rudimentares que vão se somar àquelas já instaladas.
Quatro famílias jogis1 estão viajando. Elas vêm de Surobi, distrito cuja segurança era até recentemente confiada ao Exército francês dentro da coalizão internacional no Afeganistão. Levaram quatro horas, empilhadas em cima do caminhão, para chegar a um dos acampamentos que circundam a capital afegã, chamados de Kabul Informal Settlements (KIS, Assentamentos Informais de Cabul). O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) listou cerca de cinquenta deles para uma população estimada em 35 mil pessoas. Nesse país, que conta em 2013 com mais de 450 mil deslocados2 (refugiados internos) e onde 75% dos moradores já experimentaram pelo menos um deslocamento forçado na vida, encontramos os mesmos fenômenos e o mesmo jargão em torno das grandes cidades afegãs: Herat e seus HIS, Mazar-e-Sharif e seus MIS...
Em Cabul, esses acampamentos ilegais podem chegar a algumas dezenas de pessoas, como em Puli Gozargah, ou a quase 5 mil, como em Charahi Qamber. Os mais antigos datam de 2002 e do início da operação militar da coalizão; os mais recentes, como Gull Butta, têm poucos meses de existência. Eles experimentaram uma forte expansão a partir de 2008, com uma significativa aceleração em 2011. Acolhem populações agora sedentarizadas, em trânsito, ou ainda famílias nômades que vão e vêm ao sabor dos rigores do inverno ou da intensidade da violência e da miséria. Outros voltaram após se refugiar no exterior, na maioria dos casos no Paquistão; estes representam 60% da população dos KIS.
Tanto entre os deslocados como entre os refugiados, a primeira causa da partida é a violência. Todos exibem em comum o fato de não terem auferido nenhum benefício com a presença da armada internacional nem com os bilhões de ajuda despejados. E de viver, em alguns casos há cerca de dez anos, em condições de extrema pobreza, em abrigos feitos de qualquer maneira, sem água, porque as autoridades, que querem fechar toda perspectiva de instalação definitiva, são contrárias à escavação de poços. A renda média nos campos é de R$ 0,61 por pessoa por dia.
Vinte e duas famílias ocupam Gull Butta. Elas estão divididas em dois pequenos conjuntos de barracas separadas por um aterro. Esse é o lugar onde foi parar o caminhão, que parece ter hesitado até o último momento entre os dois campos. Visitantes se aproximam: sorrisos, abraços, reencontros. Logo, eles ajudam os recém-chegados a transportar seus bens para o primeiro grupo de barracas.
Do outro lado do aterro, é Herwaz Ron que, na sua qualidade de ancião, nos acolhe. Lá, em cinco barracas, vivem cerca de vinte pessoas. Estes são kuchis, nômades que chegaram há algumas semanas de Jalalabad. “O calor do verão e a miséria nos fizeram deixar essa província na fronteira com o Paquistão na estrada para Peshawar”, explica o patriarca. “Esperamos que, na capital, venha a ser mais fácil encontrar pequenos trabalhos, alimentos e água.” Para falar de seu grupo, ele usa o termo Sheikh Mohammadi(“tribo nômade” de vendedores ambulantes e outros pequenos negócios), um subterfúgio a que os kuchis recorrem com frequência para afastar sua má reputação de ladrões, mendigos e prostituídos. Referindo-se a suas condições de vida, o homem queixa-se de nada receber da ajuda governamental modesta que chega a seu KIS e que o acampamento no lado oposto – jogi – não lhes permite desfrutar.
No complexo mosaico das tribos afegãs, os kuchis ocupam um lugar à parte. Sua vida é feita de erraticidade, pobreza e ostracismo. Essa situação levou o governo a propor que dez assentos lhes fossem reservados no Parlamento que deverá sair das próximas eleições, previstas para o final de 2014. Enquanto isso, aqui como nos outros acampamentos, são as ONGs, como a Solidarités International, presente em Gull Butta, que lhes fornecem o mínimo essencial de comida, água e cuidados.
As agendas de consultas dos ambulatórios e clínicas móveis denunciam as doenças da pobreza, cujo impacto é reforçado pela insalubridade dos locais. Entre as mais frequentes estão as infecções de ouvido, nariz e garganta, assim como as pulmonares, e, no verão, as diarreias de todo tipo, causa de uma alta mortalidade infantil. Os homens, que executam como podem trabalhos braçais em Cabul por um pouco mais de R$ 6 por dia, frequentemente sofrem de distúrbios osteoarticulares. Crianças e adultos estão expostos a infecções cutâneas, às carências e aos parasitas que deixam entrever a falta de higiene das pessoas entrevistadas. Metade das mulheres casa-se antes dos 15 anos. Entre as que estão grávidas ou amamentando, uma em cada cinco sofre de desnutrição moderada ou grave.3 O número de crianças vivas é de seis por família, em média.
Formar em medicina uma geração de mulheres
O sistema de saúde continua falho, ainda que as ONGs e o Ministério da Saúde estejam tentando levar a cabo uma oferta de cuidados primários: vacinação, luta contra a mortalidade no parto, contra a malária, contra o HIV-aids (ver boxe)... Para administrar eficazmente a saúde das mulheres, em um país onde elas só podem ser curadas por pessoas do mesmo sexo ou comparecer a uma consulta se estiverem acompanhadas por um parente do sexo masculino, a formação de toda uma geração de profissionais – agentes de saúde comunitária, enfermeiras, médicas, parteiras – é primordial. Mas os obstáculos são muitos: baixos níveis de escolarização e alfabetização, forte resistência das famílias a vê-las se afastar para receber educação...
Quando essa resistência é superada, a necessidade de gerenciar os marhams– acompanhantes masculinos designados pelas famílias, irmãos, cunhados ou primos, que devem acompanhar as mulheres a todos os lugares durante sua formação ou nos locais de seu exercício profissional – oferece um obstáculo inesperado. É preciso, portanto, também abrigá-los e alimentá-los e, para que uma mulher seja autorizada a ocupar um cargo, prever a presença do marhamou encontrar um emprego para ele. Consequentemente, o sistema de saúde encontra-se sobrecarregado por uma logística que o engessa e gera custos adicionais significativos, comprometendo suas capacidades financeiras futuras.
Em outras províncias, perto da fronteira com áreas tribais do Paquistão, as doenças transmissíveis, como a poliomielite, experimentaram um crescimento alarmante em 2012, em razão da falta de vacinas – uma consequência involuntária da... morte de Osama bin Laden. “O boato, alimentado pelo Talibã paquistanês que atua nessas províncias, afirma que vacinadores estariam associados, em Abbottabad, à localização do líder da Al-Qaeda”, explica um médico afegão. Isso também levou ao assassinato, há vários meses no Paquistão, de vacinadores da Unicef.4 “Apesar de nossas reuniões com comunidades rurais e do trabalho feito com a ajuda de mulás para acalmar a situação, o problema ainda não foi resolvido nas províncias orientais”, acrescenta o médico.
Outro flagelo: o consumo de ópio, do qual o Afeganistão é o maior produtor mundial. Hoje, existe cerca de 1 milhão de usuários, dos quais 150 mil se injetam com heroína, em práticas e condições de higiene desastrosas. Quando da partida dos soviéticos em 1989, a produção era de 1,2 mil toneladas por ano; em 2009, ela chegou a 6,9 mil toneladas. Com a retirada das tropas da coalizão, a produção experimentou uma nova aceleração: 7% somente em 2011.5 Uma pesquisa realizada no final de 2012 pelo Escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crime (Unodc) em 546 vilarejos revela um aumento de 30% na área plantada.6 As receitas decorrentes dessa cultura representam hoje cerca de 60% do PIB afegão.
Na cúpula de Tóquio, em julho de 2012 – tendo sido a primeira reunião realizada em 2002 para estabelecer as bases para a “reconstrução” após a derrota dos talibãs –, os países doadores e as organizações internacionais discutiram com o governo afegão a ajuda a ser dada. Em um país cujo PIB é estimado em US$ 17,24 bilhões (2010), um estudo recente do Banco Mundial7 assinala que a renda nacional não será capaz de cobrir as despesas do Estado durante anos. Se levarmos em conta os cânones dessa organização, o déficit orçamentário subiria para 21% em 2025, com um pico de 39% em 2014.
Para a população pobre – cerca de 15 milhões de pessoas entre os 30 milhões que o país abriga –, o futuro do sistema de saúde se apoiará a partir de 2014, mas sobretudo de 2017 em diante, na eficácia do Ministério da Saúde e de seu pessoal. Os financiamentos, concedidos pela União Europeia, pelo Banco Mundial e pela Agência de Cooperação dos Estados Unidos (Usaid) não irão mais para ONGs, como é o caso hoje, mas diretamente para o Estado, sem que no entanto os doadores tenham se outorgado meios verdadeiros de controle.
Entrevistada na cidadela hipersegura dos “Jardins”, um dos lugares de encontro da comunidade humanitária expatriada, a coordenadora de uma organização internacional manifesta sua preocupação: “Os riscos são de dois tipos: um deles, financeiro, seria uma rápida diminuição dos recursos ligada à corrupção maciça enfrentada pelo governo afegão; e o outro, político, que as estruturas agora oficialmente identificadas como ‘governamentais’ sejam alvo dos grupos armados de oposição”.
Analisando a situação nas quatro províncias – Cabul, Kapisa, Parwan e Panshir – já sob a exclusiva administração do Ministério da Saúde, um funcionário afegão, médico de uma ONG internacional, acredita que “os resultados dessa gestão direta deixam todos muito céticos quanto a uma generalização do sistema. As unidades distantes dos principais eixos rodoviários são negligenciadas; o dinheiro é desviado; exige-se dos pacientesbakchichs para atendimentos que deveriam ser gratuitos; há um forte absenteísmo dos cuidadores, assim como interrupções nos fornecimentos; a hierarquia falha em sua função de supervisão... Além disso, alguns médicos trabalham em paralelo em clínicas ou consultórios particulares, o que é parcialmente explicado por seu nível de remuneração: entre US$ 200 e US$ 550 por mês”. A responsável por outra ONG internacional acrescenta: “Para nós, é uma luta de todos os dias”.
E após a partida da coalizão?
Na cúpula de Tóquio, decidiu-se oferecer uma ajuda de US$ 16 bilhões daqui até 2017. O financiamento do sistema de saúde está incluído nesse pacote. No entanto, de acordo com uma responsável por uma ONG médica, “tudo dependerá da forma como o Ministério da Saúde vai enfrentar as deficiências já identificadas na operação atual, bem como da capacidade das ONGs de atuar nas margens, como é o caso nas KIS hoje, e de apontar as lacunas por todo o território afegão. Resta saber se as condições de segurança nos permitirão permanecer no local e continuar ativos...”.
A atitude dos talibãs em relação às ONGs internacionais permanece incerta. É fato que algumas tiveram uma atitude que claramente as posicionou como verdadeiras colaboradoras das forças armadas estrangeiras.8 Estas poderiam ser reduzidas a uma paralisia ou serem forçadas a fazer as malas nos meses vindouros, algumas na esteira de seus mentores da coalizão internacional. 
Pierre Micheletti é professor adjunto do Instituto de Estudos Políticos (IEP) de Grenoble, ex-presidente dos Médicos do Mundo-França, autor de Humanitaire: s’adapter ou renoncer, Marabout, Paris, 2008.

Ilustração: Mariza Dias Costa


1 Minoria étnica originária do Tadjiquistão que conta com cerca de 100 mil pessoas. 
2 “Profil d’opérations 2013 – Afghanistan” [Perfil das operações 2013 – Afeganistão], Acnur. Disponível em: .
3 Sobre nutrição e saúde mental nos KIS, cf. Giovanna Winckler-Roncoroni, “Survey of mental health and child care practices in the KIS, Afghanistan” [Pesquisa sobre práticas de saúde mental e cuidados com a criança nos KIS, Afeganistão], Ação contra a Fome, Paris, maio 2012. 
4 Frédéric Bobin, “Au Pakistan, la lutte antipolio est la cible des talibans” [No Paquistão, a luta contra a poliomielite é o alvo dos talibãs]”, Le Monde, 19 dez. 2012.
5 “Afghanistan – Annual opium poppy survey, 2011” [Afeganistão – Pesquisa anual sobre papoula de ópio, 2011], Escritório das Nações Unidas contraDrogas e Crime (Unodc), Viena. Disponível em: .
6 “Afghanistan – Opium risk assessment 2013” [Afeganistão – Avaliação de risco do ópio, 2013], Unodc. 
7 “Afghanistan, from transition to transformation” [Afeganistão, da transição à transformação], Banco Mundial, Washington, 1o jul. 2012.
8 Ler “Les humanitaires victimes des logiques d’État” [Trabalhadores humanitários vítimas da lógica do Estado], Le Monde Diplomatique, jun. 2007. 

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Médico cubano em Mauá (SP) reafirma compromisso com atenção básica à saúde

Médico cubano em Mauá (SP) reafirma compromisso com atenção básica à saúde



Seis médicos estão trabalhando no município no ABC Paulista pelo programa do governo federal Mais Médicos
 

12/11/2013
Norge Luiz, médico, é cubano e veio trabalhar na cidade de Mauá, no ABC Paulista, depois da criação do Programa Mais Médicos, do governo federal. Antes dos  estrangeiros chegarem ao município, as equipes de saúde da família das 23 Unidades Básicas de Saúde estavam sem praticamente sem médicos. Agora, todas elas estão completas.
“Nossa formação é a formação cubana em que o primordial é compromisso proletário”, disse o médico à reportagem daTVT, que o acompanhou durante uma visita domiciliar à casa dos irmãos Antônio Jorge Nunes e Francisco Jorge Nunes. Francisco se recupera de uma cirurgia no quadril e sofre de problemas psíquicos ainda não diagnosticados. Antônio é quem cuida dele. Eles nunca haviam recebido uma visita domiciliar até então.
“Pela primeira vez eu vejo uma visita domiciliar, acho muito interessante, acho que a questão da comunicação, por ele ser de outro país, não é nenhum problema. Acho que a recuperação do Francisco vai ser melhor do que eu esperava, porque com este tratamento, acho que vai ser mais rápido.”
Norge veio ao Brasil com a mulher, Odalis. O casal deixou em Cuba três filhos, o mais novo, de quatro anos. Eles estão entre os seis cubanos que estão atuando no município. Ambos estão acostumados a trabalhar fora de casa. Ela passou cinco anos trabalhando na Venezuela e no Congo, e ele atuou três meses numa missão internacional em Gana. “Nos estamos preparados para trabalhar em qualquer parte do mundo, com pobres, médios, ricos, sem importar raça , idade, ou classe social”, afirma Odalis.
Ao contrário dos outros médicos estrangeiros, os cubanos não recebem a bolsa de R$10 mil do governo federal. No caso de Cuba, o contrato do governo brasileiro é com a Organização Pan-americana de Saúde, que repassa os recursos do programa Mais Médicos para o governo de Cuba. Os médicos recebem só o equivalente a mil dólares, o equivalente a cerca de R$ 2.500. “Nosso dinheiro não é só para nós, é para nós e para o povo cubano”, comenta Norge.
Foto: TVT/Reprodução

domingo, 13 de outubro de 2013

História de proibições

História de proibições

O consumo de certas substâncias faz parte da própria construção cultural da humanidade. E legislações como a Lei Seca nos EUA mostram que proibir não costuma ser a melhor solução
Por Adriana Delorenzo
Esta matéria faz parte da edição 126 da revista Fórum.
Imagine se, de um dia para outro, o café se tornasse ilegal e quem fosse encontrado com ele pudesse ser preso. Imagine também que você fosse acostumado a tomar três xícaras por dia, o que você faria por um cafezinho? Essa indagação é feita pelo diretor e fundador da ONG Drug Policy Alliance, Ethan Nadelmann, e o vídeo pode ser visto no YouTube. Nadelmann é um defensor do fim da guerra às drogas nos Estados Unidos. A tese dele é que, se realmente fosse proibido, o café se tornaria mais caro, e quem quisesse muito uma dose diária de cafeína talvez tivesse de se envolver com mercados ilegais para manter seu hábito. Essa situação não é diferente das que vivem muitas pessoas que desejam consumir alguma droga considerada ilícita. A diferença do café em relação a outras drogas é que a substância já foi “domesticada”, na opinião do ativista, o que poderia acontecer com a maconha, por exemplo.
Existem muitas substâncias que podem ser danosas à saúde, como o tabaco, o álcool e o açúcar. Com o consumo exagerado, elas provocam consequências, mas podem ser usadas sob o manto da legalidade. Nessa categoria, ainda se encaixam os produtos da indústria farmacêutica. “As drogas são produtos da cultura, são necessidades humanas, assim como os alimentos ou as bebidas, podendo ter um bom ou um mau uso, assim como ocorre com os alimentos”, afirma o professor de História Social da Universidade de São Paulo (USP) Henrique Carneiro, no artigo As necessidades humanas e o proibicionismo das drogas no século XX. “A diferença é que um viciado em açúcar não corre o risco de ir preso, mas apenas o de perder a saúde na obesidade ou diabetes. A ideia da erradicação do consumo de certas substâncias é uma concepção fascista que pressupõe um papel inquisitorial extirpador para o Estado na administração das drogas, assim como de outras necessidades humanas.”
Mas quem definiu o que pode ser ou não consumido livremente? Qual é o critério utilizado? Por que, mesmo proibidas, as pessoas continuam a usar drogas? Não existe critério científico para isso. De acordo com o antropólogo Edward MacRae, professor da Universidade Federal da Bahia, a diferença entre drogas lícitas e ilícitas pode ser entendida com base em uma visão histórica e política, não pelo seu potencial danoso. “Ao escolher a repressão como o principal método de abordar o problema, comete-se de início um erro grave. Apesar de se criminalizar a produção, comércio e uso de um longo elenco de substâncias, devido a uma série de razões históricas, políticas e econômicas, acaba-se de fato abdicando de qualquer controle sobre os que mais malefícios causam: o tabaco e o álcool”, afirma no artigo Abuso de drogas: problema pessoal ou social?. De acordo com o antropólogo, o uso de álcool e tabaco é promovido por campanhas publicitárias, mas existe um “controle social informal” que permite que, apesar de ter seu uso liberado, grande parte da população reserve momentos de lazer para o consumo de bebidas. “A maneira como a maioria consegue conviver com substâncias potencialmente tão perigosas e criadoras de dependência como o álcool é que comprova a eficácia dos controles sociais informais.” Tarso Araújo traz em seu Almanaque das Drogas dados que mostram que o álcool pode ser mais danoso que drogas proibidas. A cada 100 mil habitantes, morrem por ano quatro pessoas por drogas ilícitas; já por causa do álcool são 35 mortes.
Desastre da Lei Seca
De acordo com o jornalista Denis Russo Burgierman, autor do livro O fim da guerra, a proibição das drogas começou no século XX. Após a Lei Seca nos Estados Unidos, que durou de 1920 a 1933, o álcool deu lugar à maconha e a outras drogas na lista de itens proibidos e criminalizados nos EUA. “A guerra contra as drogas propriamente dita tem 50 anos, começou com as convenções internacionais que foram criadas pela ONU, a partir de 1961, sob muita influência norte-americana, já que as políticas proibicionistas já existiam nos EUA. Começou ali um lobby muito forte para a proibição global”, explica Burgierman.
Antes da criminalização da maconha, a Lei Seca proibiu a produção, a venda e o consumo de qualquer tipo de bebida alcoólica nos Estados Unidos. A medida se deu após forte pressão da Igreja Protestante, que queria manter a sobriedade da população. Mas milhões de pessoas buscavam com os gangsters um jeitinho de encontrar uma cerveja, vinho ou destilado. Foi nessa época que  enriqueceu um dos mafiosos mais famosos, que mais tarde viraria personagem de Hollywood, Alphonsus Gabriel Capone, o Al Capone. Ele controlava pontos de venda ilegais de bebidas, e estima-se que tenha acumulado uma fortuna de mais de 100 milhões de dólares.
Henrique Carneiro destaca que a Lei Seca norte-americana fez surgir, além das poderosas máfias, o imenso aparelho policial “na mesma exploração comum dos lucros aumentados de um comércio proibido”. Nessa época, começaram a surgir outros milionários que lucravam com a proibição, segundo aponta o professor, como a família Kennedy. Hoje, a história se repete. O que aconteceu com a Lei Seca ocorre em escala global. A política proibicionista de combate a drogas não diminuiu o uso e ainda tornou o tráfico rico e poderoso. No Brasil, o poder dos traficantes, o surto de violência e o recorde no número de presos demonstram que a política de drogas fracassou.
“A proibição cria uma indústria muito lucrativa e muito desregulamentada,  sem fiscalização, sem regra nenhuma”, afirma Burgierman. De acordo com ele, os comerciantes dessa indústria clandestina atuam para ganhar novos mercados, levando suas mercadorias para serem vendidas até em escolas. A Drug Policy Alliance calcula que somente nos Estados Unidos sejam gastos mais de 51 bilhões de dólares por ano na guerra contra as drogas. Em 2011, 1,53 milhão de pessoas foram presas por porte de drogas naquele país, sendo que quase 758 mil por porte de maconha. Dos presos, dois terços são negros ou hispânicos.
Outro efeito negativo da Lei Seca e que se repete hoje, apontado por Burgierman, é que a proibição leva a um uso muito mais perigoso das substâncias. “Com a proibição do álcool nos anos 1920, pela primeira vez as pessoas começaram a morrer de overdose por bebidas alcoólicas, de tão poderosas que elas ficavam. A proibição leva a uma dinâmica que incentiva os produtores a colocarem o máximo de barato no mínimo de dose. Há um incentivo para aumentar a potência das drogas, isso claramente acontece sempre que tem proibição.” Em contrapartida, ele cita o exemplo da Califórnia, que regulamentou o uso médico da maconha e onde as pessoas têm preferido as variedades menos potentes da erva. “O crack foi uma consequência direta da guerra contra as drogas, o Brasil tentou impedir a entrada de produtos químicos que eram usados no refino da cocaína na Bolívia, e o resultado foi que os bolivianos começaram a exportar a pasta base para o Brasil, foram surgindo laboratórios no país, e com o incentivo de buscar formas mais potentes das drogas, veio a inovação, o crack.”