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domingo, 31 de agosto de 2014

Geografia dificulta opção pelo modal ferroviário na Amazônia


Geografia dificulta opção pelo modal ferroviário na Amazônia



A construção e até a reforma de rodovias de acesso às localidades mais remotas da Amazônia, que garantam o suporte logístico essencial à economia, esbarram quase sempre em dois obstáculos equivalentes ao tamanho da região: a preservação ambiental e a segurança das populações indígenas. A alternativa de substituição pelo modal ferroviário, solução proposta pelos ambientalistas para a ligação entre Manaus e Porto Velho, que atravessa um parque nacional e uma reserva indígena, encontra resistência no custo inicial e nas dificuldades geográficas para a implantação do projeto.
O óbvio, que é o transporte hidroviário, dependeria de investimentos em portos de carga, terminais de passageiros e até em sistemas de sinalização que demarquem as hidrovias. O modal aéreo oferece perspectivas, mas, de acordo com especialistas, enfrenta restrições de capacidade e custo operacional em um país com aviação regional subdesenvolvida.
"As prioridades um, dois, três e quatro deveriam ser a hidrovia. Só depois se poderia pensar em ferrovias em eixos estratégicos com menos impacto ambiental que a rodovia, que abre muito espaço para a grilagem e a exploração das madeireiras", diz Virgílio Vianna, superintendente da Fundação Amazônia Sustentável. "Quando se fala de rodovias, os impactos são muito grandes, mas mesmo as ferrovias são obras complicadas de serem implantadas", afirma José Hélio Fernandes, presidente da Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística (NTC).
"O desenvolvimento sustentável preconiza um tripé: econômico, social e ambiental. Qualquer um dos três que se sobreponha ao outro desfaz o equilíbrio. Hoje a Amazônia não está integrada ao Brasil. Sob a ótica da infraestrutura, mal chegou ao século 20", diz o doutor em engenharia de transportes Augusto Rocha.
Para muito além do debate ambiental, a interiorização de rodovias é considerada importante para o desenvolvimento econômico da região. A criação de uma rota alternativa multimodal até a ferrovia Norte-Sul em Tocantins poderia representar uma economia de até 30% no frete e serviria para o escoamento da produção de soja das fronteiras agrícolas até os portos do Pará e do Maranhão.
A recuperação da BR-230, a Rodovia Transamazônica, com mais de 4 mil quilômetros, ligando as cidades de Cabedelo, na Paraíba, a Lábrea, no Amazonas, é defendida por Augusto Rocha desde que adotado um modelo de gestão ambiental. As obras da BR-319, entre Manaus e Porto Velho, estão paradas à espera de licenciamento ambiental do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (Ibama), de acordo com o portal do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit).
A conclusão do asfaltamento dos 3.467 quilômetros da BR-163, que liga Tenente Portela, no Rio Grande do Sul, a Santarém, no Pará, pode reduzir em dois ou três dias o percurso entre Manaus e São Paulo e permitir que parte da soja do Centro-Oeste não precise descer para os portos da região Sul para ser embarcada para o mercado exterior.
A construção de aeroportos nas microrregiões do Amazonas, com a utilização de pistas no rio para hidroaviões e pistas em solo para aviões convencionais, com pelo menos um terminal de cada tipo em todas as microrregiões do Estado, seria um esforço importante para a integração regional. A ideia é que as calhas dos rios maiores tivessem também um aeroporto a cada 600 quilômetros para permitir a presença de tráfego aéreo para os Estados mais desenvolvidos.
A construção da segunda pista do Aeroporto Eduardo Gomes seria importante para garantir a movimentação caso uma aeronave enfrente problemas mecânicos na única pista que hoje existe no terminal.
"O problema logístico é muito sério na Amazônia", diz Virgílio Vianna, da Fundação da Amazônia Sustentável. "A multimodalidade de transportes é o que ainda dá suporte ao escoamento da produção da região, mas é importante conciliar alternativas ambientais e economicamente satisfatórias", diz Fernandes, da NTC.
"Há uma equação dúbia quando se trata da Amazônia: por um lado se quer desenvolvimento, mas todos com um mínimo de consciência desejam também a preservação da floresta. O desafio é conseguir as duas coisas e o desenvolvimento sustentável parece ser um bom caminho para superar o dilema", diz o professor Rocha.

Fonte: Valor Econômico

segunda-feira, 16 de junho de 2014

País precisa abrir mercado ferroviário, diz especialista

País precisa abrir mercado ferroviário, diz especialista



A opinião do especialista está inspirada na experiência do próprio Reino Unido na formação do modelo ferroviário que vigora desde os anos 1990


Wladimir D'Andrade, do Estadão

Ponte em obra inacabada da ferrovia Transnordestina
Ponte em obra inacabada da ferrovia Transnordestina
São Paulo - A reforma na modelagem do sistema ferroviário brasileiro tem que rumar na direção da abertura de mercado para facilitar a entrada de um grande número de empresas e, assim, garantir preços competitivos para usuários deste meio de transporte.
A opinião é do especialista em ferrovias Jake Rudham, que faz parte da agência do governo britânico responsável por negócios em outros países, a UK Trade Investment.
O especialista, que está no Brasil para garimpar as oportunidades do setor, falou com exclusividade ao Broadcast, serviço de notícias em tempo real da Agência Estado.
"O Brasil necessita de um direcionamento para a abertura do mercado ferroviário", disse o representante. De acordo com ele, as companhias britânicas procuram por oportunidades internacionais e vislumbram possibilidade de investimentos tanto em países com grande desenvolvimento ferroviário, como Estados Unidos e Austrália, quanto em mercados carentes, a exemplo de nações africanas e do Oriente Médio.
"Se o Brasil quiser se tornar um dos lugares visados pelos investidores, ele precisa encontrar uma maneira de tornar o ambiente mais fácil e aberto para os negócios", afirmou Rudham.
A opinião do especialista está inspirada na experiência do próprio Reino Unido na formação do modelo ferroviário que vigora desde os anos 1990, quando o país realizou as privatizações do setor. Os britânicos adotaram o modelo open access, o mesmo que o Brasil vai implementar a partir das próximas concessões ferroviárias.
Este sistema mantém uma separação entre construtor e operadores dos trens. A capacidade da ferrovia é disponibilizada para as empresas especializadas no transporte de carga. O gerenciamento da capacidade é feita por um órgão ligado ao governo, a Valec no caso brasileiro e a Network Rail no Reino Unido.
Atualmente, sete empresas operam frete nas linhas que cortam o Reino Unido. Os preços são livres e, segundo o especialista britânico, são competitivos a ponto de o sistema recuperar parte do mercado perdido para o modal rodoviário anos antes - apenas no transporte ferroviário de passageiros há uma intervenção governamental, que oferece subsídios.
"Em um mercado em que qualquer empresa pode operar frete, não necessita de controle de preços", afirmou Rudham. "A economia inglesa é historicamente aberta e levamos esse princípio ao sistema ferroviário", disse. Na última década, o transporte de carga realizado pelas ferrovias britânicas cresceu em torno de 50%.
Brasil
Rudham veio a São Paulo pela primeira vez nesta semana para entender as intenções do governo brasileiro no setor ferroviário e encontrar possíveis investimentos no País para companhias britânicas. Por isso, ele não menciona projetos específicos que estão no radar de investidores do mercado brasileiro.
O representante do governo britânico fala do Brasil com entusiasmo em relação a oportunidade de negócios, mas faz ressalvas quanto ao ambiente de negócios.
"Cinco anos atrás, o investidor estrangeiro olhava o Brasil com grande entusiasmo, mas a realidade é que não é o lugar mais fácil para fazer negócios", afirmou Rudham.
Ele disse que muitos projetos para o País ainda estão na mesa e que o investidor estrangeiro necessita de tempo para entender como os negócios são conduzidos no Brasil. "Mas o País definitivamente tem um grande potencial e é reconhecido como um lugar de grandes oportunidades", disse o especialista.