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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Os 30 anos de ódio ao MST nas páginas de Veja

Os 30 anos de ódio ao MST nas páginas de Veja



O que os ataques e silêncios da revista sobre o maior movimento social brasileiro revelam sobre a história recente da política brasileira


Najla Passos
Arquivo

Brasília - O ódio da mídia ao MST acompanha os 30 anos do movimento, desde a sua fundação, em janeiro de 1984. Mas o padrão de manipulação usado para tentar fraudar a imagem do movimento muda bastante, acompanhando a conjuntura e tentando tirar proveito dela. Prova é a forma com que a maior revista do país, a Veja, teceu a trajetória do MST em suas páginas: primeiro com a tentativa de cooptação, depois com total invisibilidade, até a campanha permanente de criminalização, que oscilou da associação com o perigo comunista, herdada da ditadura, à acusação de terrorismo, no período pós 11 de setembro. Nos últimos anos, uma nova condenação ao ostracismo, acompanhada pelo conjunto da mídia, garantiu a retirada do tema reforma agrária da pauta nacional.

O MST foi fundado no bojo do mesmo desejo de democracia que levou às ruas a Campanha das Diretas Já, como um movimento pacífico de luta pela terra. Mas o esforço dos companheiros que tentavam retomar a pauta da reforma agrária, interrompida com o deposição de João Goulart em 1964, não mereceu nem mesmo uma linha nas páginas da revista. Isso só viria a acontecer em junho do ano seguinte, quando José Sarney já havia herdado de Tancredo Neves o posto de primeiro presidente civil pós-ditadura, e acabava de lançar um pacote para viabilizar uma espécie de reforma agrária que jamais sairia do papel.

Assumindo para si um papel nunca a ela delegado de mediadora do “pacto social” que Sarney propunha ao Brasil polarizado, Veja defendeu o pacote na reportagem de capa “Reforma Agrária – os fazendeiros se armam”, de 19 de junho de 1985. O MST, que não apoiava a proposta, aparecia como um movimento localizado apenas em Santa Catarina, sem respaldo suficiente para se tornar um grande interlocutor do governo em relação ao tema.

O movimento voltou a ser capa da revista quando o país já se deparava com as falsas promessas de desenvolvimento do neoliberalismo, defendido com veemência pela revista. O alagoano Fernando Collor de Mello, lançado nas famosas páginas amarelas como o Caçador de Marajás,  havia ganhado a primeira eleição presidencial pós-ditadura, prometendo abertura às importações e diminuição das funções do Estado, em contraposição ao sindicalista Luiz Inácio da Silva, que defendia pautas mais sociais, como a bandeira da reforma agrária do MST.

No dia 15 de agosto de 1990, a Veja publicou sua primeira reportagem atacando frontalmente o MST. Na foto de capa, um único sem-terra, “armado” com sua foice, aterrorizava um exército de policiais armados com escudos, cassetetes e revólveres. Inaugurou ali a utilização do clássico termo “baderna”, com que até hoje descreve as ações do movimento.  Depois disso, a revista se calou acerca do MST, que continuou crescendo, a ponto de se transformar no maior movimento social brasileiro.

Ostracismo midiático
Em 1994, na corrida presidencial que contrapunha o sociólogo Fernando Henrique Cardoso e novamente o operário Lula, o MST começou a ganhar espaço em outros órgãos de imprensa. A Folha de S. Paulo, em 1994, publicou 40 matérias sobre o MST. Em 1995, já com Fernando Henrique na presidência, foram 450. A Veja, porém, continuou firme no seu propósito de condenar o movimento ao ostracismo e, assim, manter longe da agenda nacional a pauta da reforma agrária. Duas grandes tragédias, porém, lançaram nova luz sobre o movimento: os massacres de Corumbiara e de Eldorado dos Carajás.

Em 9 de agosto de 1995, 355 sem-terra foram presos e torturados, 125 ficaram gravemente feridos e nove morreram, incluindo a pequena Vanessa, de 6 anos.
 
Eles não eram ligados ao MST, ms a imprensa não fez esta distinção ao tratar do caso. O assunto ganhou repercussão internacional. Ainda assim, Veja resistiu o quando pode. So foi noticiar o massacre quase um mês depois, na edição de 6 de setembro. A matéria “Executados, torturados e humilhados” apresentava o tom de indignação que tomava o mundo e não fazia alusões ao MST.

Em 17 de abril de 1996, 21 sem-terra ligados ao MST foram brutalmente executados e 51 ficaram feridos, no Massacre de Eldorado dos Carajás. O crime causou comoção mundial e a Veja não pode mais ignorar o movimento. Na edição de 24 de abril, a revista era pura indignação. A própria capa já era uma denúncia contra a atrocidade, com a exibição de um trabalhador rural assassinado com um tiro na nuca.

Na reportagem, Veja trouxe pela primeira vez a menção a um Brasil arcaico e um outro moderno, a partir de uma analogia usada dias antes pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. Segundo a revista, “como um sociólogo debruçado sobre personagens de uma tese acadêmica, e não pessoas de carne e osso, com sonhos de um futuro melhor, filhos pra criar e uma vida para tocar, Fernando Henrique classificou os sem-terra e a PM de presentantes do ‘Brasil arcaico’, em oposição ao ‘moderno’, do qual se considera representante, talvez condutor”. Mas se a matéria principal tecia uma das raras críticas da publicação ao presidente e se mostrava solidária aos sem-terra, o box intitulado “O Sindicato-partido do MST” fazia o oposto, ao afirmar que o movimento era armado e tinha tradição de enfrentar a polícia.

Alvo prioritário

Após 1996, durante o império do pensamento único, a Veja transformou o MST em seu alvo prioritário. De acordo com a pesquisadora Carla Silva, no livro “Veja: o indispensável partido neoliberal”, as investidas contra o movimento superaram até mesmo os ataques ao PT e a igreja combativa. “Neste caso [do MST] não há uma tentativa de cooptação ou de diálogo, como se vê em relação ao PT, quem que a revista busca em vários momentos apontar linhas de ação. Também não há uma visão despolitizada como a Renovação Carismática colocada em oposição à CNBB. No caso do MST, a crítica é permanente”, registrou ela.

Na edição de 6 de abril de 1997, “A marcha dos radicais – quem são e o que querem os sem-terra” apresentava o movimento como o retrato mais perfeito do Brasil arcaico de que falava FHC em 1995 – e que até a própria Veja condenara. Os sem-terra eram apresentados como um povo inculto e atrasado, tal como os beatos seguidores de Antônio Conselheiro que desafiaram a República a se lançar na Guerra de Canudos. “Representantes de um Brasil Arcaicao, descalços, dentes ruins, bicho-de-pé e pouco estudo, os sem-terra invadem propriedades, desrespeitam a lei e enfrentam a polícia. Já morreram e mataram nesses conflitos. Parecem um pouco os fanáticos do beato Antônio Conselheiro”, pregava a revista.

Em outro momento, a reportagem acabava por revelar o porquê do seu ódio ao MST, considerado por ela a única oposição, de fato, ao governo FHC, após o que classificava de “desmoronamento da oposição sindical, da oposição de esquerda (PT e Lula) e também da de direita (o PPB de Maluf)”. E, em um terceiro momento, justificava porque precisava inverter a imagem do movimento perante a população: pesquisa do Ibope realizada no período mostrava que 83% dos brasileiros apoiavam a reforma agrária e 40% eram favoráveis, até mesmo à invasão de fazendas.

O MST e o “perigo vermelho”

As investidas da Veja contra o MST se tornaram mais agressivas nos anos seguintes. Na edição de 3 de junho de 1998, às vésperas da eleição que reconduziu FHC à presidência, a revista apresentava aos seus leitores um MST absolutamente aterrorizante. A foto de capa  trazia João Pedro Stédile, umas das principais lideranças do movimento, com feições sérias, em tons vermelhos, a própria encarnação do demônio. O texto “A esquerda com raiva – inspirados por ideais zapatistas, leninistas, maoístas e cristãos, os líderes do MST pregam a implosão da democracia burguesa e sonham com um Brasil socialista” resgatava o pânico do perigo vermelho inculcado nos brasileiros pela ditadura.

Em 10 de maio de 2000, mais um exemplo: a matéria de capa “A tática da baderna – O MST usa o pretexto da reforma agrária para pregar a revolução socialista” voltava a semear o pânico. O texto da reportagem seguia a mesma linha: “Numa palavra, o MST não quer mais terra. O movimento quer toda a terra, quer tomar o poder no país por meio da revolução e, feito isso, implantar por aqui um socialismo tardio (...)”. Num box com a suíte “Meu nome é Stédile, João Stédile”, uma fotomontagem apresentava o líder sem-terra vestido de smoking e portando pistola automática, no melhor estilo James Bond, o espião da série 007 que tinha licença da rainha da Inglaterra para matar. 

O MST terrorista

Depois dos atentados de 11 de setembro de 2011, com o mundo estarrecido frente ao perigo terrorista, a Veja se apropriou do pânico generalizado para, mais uma vez, inovar no tratamento destinado ao MST.  A etapa da tentativa de construção desse “MST terrorista” propagado pela revista começou com a publicação, em 18 de junho de 2003, quando Lula já havia assumido a presidência, da reportagem de capa em analogia direta à capa de 1998 que trazia Stédile travestido de diabo.

Nesta, o eleito para compor o quadro foi o então líder do movimento, José Rainha, estampado em foto de capa com a manchete “A esquerda delirante – Para salvar os miseráveis dos ‘desconfortos do capitalismo, o líder sem-terra José Rainha ameaça criar no interior de São Paulo um acampamento gigantesco como o de Canudos, instalado há um século por Antônio conselheiro no sertão da Bahia”,

Na reportagem, os mesmos estereótipos martelados na década anterior: anacronismo, atraso, radicalismo e táticas agressivas foram algumas das expressões reutilizadas. Também veio da década anterior a associação do líder sem-terra com o beato Antônio Conselheiro, tratado pela história oficial como o fanático que não aceitava os tempos modernos da república. Seguidores, pregação, beato, promessas e glorificação ideológico ajudavam a compor o texto que não poupou nem mesmo Euclides da Cunha, autor do clássico Os Sertões, que fala sobre Canudos, a ser citado na matéria para respaldar os absurdos propagados pela revista.

A partir daí, as matérias negativas contra o MST se tornaram pauta obrigatória em todas as edições da revista. Exemplo claro é o editorial “Veja avisou”, da edição de 2 de julho de 2003, que recuperava todas as críticas feitas pela revista ao movimento ao longo da década.  Em 30 de julho, a matéria “Stédile declara guerra” reforçava a associação do movimento à baderna e à violência, acusando-o de misturar os “excluídos do campo e da cidade, o complexo de culpa da classe média e a falta de firmeza das autoridades com as ilegalidades praticadas”. Foi nesta toada que a Veja concluiu o primeiro ano do mandado do ex-presidente Lula.

No início de 2004, a bancada ruralista, munida das páginas de Veja, começou a colher assinaturas para a instalação da CPI da Terra. A revista continuou firme na campanha, cada vez mais ácida. Na edição de 14 de abril daquele ano, a reportagem “O abril sem lei do MST” atestava a inoperância do governo Lula para conter as “ações criminosas” do movimento: a luta pela reforma agrária. Na semana seguinte, a matéria “Como na guerra” narrava a historia de um fazendeiro obrigado a fazer barricadas para se proteger dos “beligerantes” sem-terra.

As “madraçais” do MST

No final de setembro, o deputado João Batista usou a Tribuna da Câmara para exigir que o MEC fiscalizasse as escolas mantidas com dinheiro público nos assentamentos. Com base em matéria publicada pela Veja, ele acusava as escolas de formar futuros revolucionários, extirpando “o raciocínio lógico e o senso crítico” dos futuros cidadãos brasileiros. A base da denúncia que gerou calorosos debates foi a matéria “Madraçais do MST”, publicada na edição de 8 de setembro de 2004.
 
“Assim como os internatos muçulmanos, as escolas dos Sem-Terra ensinam o ódio e instigam a revolução. Os infiéis, no caso, somos todos nós”, bradava a revista. 
Em 2005, uma nova e ousada tentativa de criminalizar o MST. Na matéria “Ligações perigosas – escuta mostra que o MST orientou a facção criminosa PCC a organizar uma manifestação”, a revista acusava, sem nenhuma base palpável, o maior movimento social de brasileiro de ter relações sólidas com o movimento criminoso que, à época, assustava o país. As ligações jamais foram comprovadas, mas a revista nunca desmentiu as acusações.

No final do ano, a tal CPI da Terra apresentou seu relatório final propondo a transformação de invasão de terra em prática terrorista. Veja apelou de novo. Na reportagem “O terror contra o saber – braço feminino do MST destrói laboratório com mais de uma década de pesquisas”. A revista, claro, omitiu que o tal laboratório, da empresa Aracruz, realizava pesquisas com sementes transgênicas que causavam imensos prejuízos à agricultura familiar e agroecológica da região.

Nesta época, o desgaste sofrido pela imagem do MST já era claramente perceptível. Uma nova pesquisa do Ibope encomendada pela Confederação Nacional da Agricultura (CNA), em 2006, mostrou o efeito de uma década de propaganda de Veja contra o MST: 56% dos brasileiros achavam que as ações do MST causavam mais resultados negativos para a reforma agrária do que positivos e 53% acreditavam que o governo deveria suar a polícia para conter as invasões.

Ataques e omissões recentes

Em 2009, a Veja conseguiu, enfim, respaldar a instalação de mais uma CPI para investigar o MST, a partir da reportagem de capa “Por dentro do cofre do MST”, na qual a revista acusava o governo federal e entidades internacionais de financiar as atividades classificadas como criminosas do movimento. Era a terceira, criada em cinco anos, para investigar e desgastar o MST. Para o governo Lula, ficava cada vez mais temerário apoiar o movimento já associado ao terrorismo, mesmo que, contra eles, não se provasse nada. A causa da reforma agrária foi sendo cada vez mais minada e abandonada.

Desde então, a presença do MST nas páginas da revista foi declinando. A luta dos sem-terra pela reforma agrária nunca mais mereceu reportagem de capa, ainda que para criticá-la. A presidenta Dilma Rousseff assumiu a presidência e governou os três primeiros anos do seu mandato com o MST e a reforma agrária na mais absoluta invisibilidade. Portanto, foi mais fácil para ela registrar os piores índices de investimentos na causa: conseguiu destinar um volume de terras à reforma agrária menor do que seu adversário, FHC, e assentou um número menor de famílias do que seu antecessor, Lula. E com a benevolência da revista.

Créditos da foto: Arquivo

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Cenário da educação no campo é desanimador, diz educadora

Cenário da educação no campo é desanimador, diz educadora

 


Reprodução 
 
“A escola estar no campo, além de um direito, é a garantia de um espaço fundamentador de debates, de aprofundamentos e de construção coletiva”, diz educadora

23/01/2014
Por Viviane Tavares,
Da EPSJV/Fiocruz

O eixo II do documento de referência da Conferência Nacional da Educação (Conae) 2014 trata de Educação e Diversidade: Justiça Social, Inclusão e Direitos Humanos. É neste eixo que são apontadas questões sobre ações afirmativas em relação à garantia do acesso, da permanência e do direito à aprendizagem aos grupos historicamente excluídos. De acordo com o documento, políticas públicas existem, o que é necessário é a concretização das mesmas, junto à efetivação Plano Nacional da Educação (PNE), bem como a ampliação do financiamento, a efetivação do regime de colaboração entre os entes federados e maior articulação entre os sistemas de ensino, incluindo a instituição do Sistema Nacional de Ensino (SNE).
 
A educadora Maria Cristina Vargas, é uma das representantes
do coletivo nacional de educação do (MST) na Conae. Foto: Reprodução
  

A educadora Maria Cristina Vargas, uma das representantes do coletivo nacional de educação do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST) na Conae explica, nessa entrevista, como a educação no campo é discutida nesse espaço, além de detalhar quais são as necessidades dos trabalhadores do campo em relação à educação. De acordo com ela, o cenário hoje é desanimador: até agora são 37 mil escolas fechadas e uma proporção de uma escola construída para cada 100 fechadas, e é no campo onde está concentrada a maior taxa de analfabetos do país. Confira:

Como é a discussão da educação no campo na Conferência da Educação?


Nós teríamos que pensar esse momento político como importante participação da população nas discussões da educação. O que nos preocupa é que mesmo sendo um processo que foi desenvolvido por meio das conferências municipais e estaduais, a participação dos trabalhadores do campo ainda é muito limitada. Pela forma que é conduzida essa preparação, que impões vários limites se restringindo à comunidade escolar, aos educadores, o que é muito importante, mas essa importância não nega a ampliação de outros atores sociais.

E como é durante o evento e os resultados dos anteriores?

Em relação aos pontos da educação no campo, a Conae ainda não é o espaço que a gente vai conseguir o diálogo necessário. Da última Conae [em 2010] até agora, pouca avançou. Avançamos em relação aos marcos regulatórios, como o decreto [7.542, de novembro de 2010, que dispõe sobre a política de educação do campo e o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária - PRONERA.], que leva em consideração a educação do campo. Mas, o problema está no sistema do nosso país que, por serem estados e municípios os responsáveis principalmente pela educação básica, não chega na efetivação destes programas. E sabe por quê? Porque nosso sistema de governo está voltado para o agronegócio. Se o agronegócio tem como principal objetivo a produção em grande escala, para exportação, e não a produção de alimentos, ele pensa quanto menos gente no campo, melhor. Já a agricultura camponesa é o contrário, garante mais gente no campo e mais produção de alimentos, então a questão das políticas públicas também é maior como mais escolas, políticas de saúde, infraestrutura de moradia. Não adianta ter um decreto se não tem vontade política de efetivação.

Como está a realidade da educação no campo hoje?

A realidade que temos hoje é de fechamento de 37 mil escolas do campo nos últimos anos. De 100 escolas que fecharam, uma abriu. São dados que demonstram como está a política de educação no campo nos estados e municípios. Construir escolas no campo não dá visibilidade, não dá retorno de popularidade aos prefeitos e governadores. Por outro lado, temos que reconhecer que as escolas que abriram são bem estruturadas, uma conquista das comunidades que exigiram essas escolas, mas não atende a necessidade de escolarização de populações do campo. Hoje as matrículas dessas crianças das 37 mil escolas foram feitas na cidade. O jovem fica no campo até quando tem escola, no momento que não tem mais esse direito básico, que é a educação, ele tem que se deslocar ou parar de estudar. Além disso, a maior parte do que é oferecido no campo é o ensino fundamental, o ensino médio está longe de chegar perto do que é preciso. A escola tem que estar próxima do estudante. O convívio e o aprendizado tem que se dar junto a sua comunidade.

O que alegam para fechar uma escola? 
No Brasil, um dos principais motivos que as prefeituras alegam - principalmente, porque são os municípios os responsáveis pelo ensino fundamental - é a questão financeira, que não é possível manter uma escola com poucos alunos, e preferem financiar os transportes escolares. No caso nosso, a gente não é contra o transporte escolar, mas que seja intracampo, pode até ter uma nucleação das escolas, se for importante e discutido com a comunidade que é bom aglutinar as crianças, mas por que essa nucleação não pode ser no campo, de maneira a organizar geograficamente para que ela fique no campo? Já que a escola mais distante fica inviável seguindo essa lógica, de que é melhor sustentar uma escola maior do que uma menor, por que não organizar ali mesmo no campo? Outra é a formação de professores, principalmente no segundo segmento do ensino fundamental e do ensino médio, porque esses períodos exigem profissionais qualificados em cada área, então isso amplia a quantidade de professores, nesse caso, principalmente no segundo segmento, poderia ter nucleação.

Qual é a realidade dos educadores no campo?


Os movimentos têm investidos na formação e na ampliação da quantidade de professores que possam trabalhar no campo, de preferência que sejam jovens e/ou sujeitos do próprio campo. Mas isso não impede, claro, de não tendo essa população que mora ali próximo da escola, que venham pessoas de outras regiões com uma formação que ajude a compreender a realidade do lugar. Essa é uma luta constante, de ampliar o acesso à Universidade, enfim, é a cada dia uma conquista específica de cada lugar.

Como é a educação no campo e relação ao sistema tradicional que é imposto, como os materiais didáticos etc.?
A educação tradicional relata o camponês como o jeca ou um lugar romantizado com a relação com a natureza e não como um lugar de trabalho e cultura. O que temos lutado também é que possamos mudar essa realidade na formação.  Os estudantes do espaço urbano também precisam ler o campo com a sua realidade, com um entendimento mais amplo. Os materiais didáticos que são utilizados no campo e na cidade têm de demonstrar a realidade camponesa para que  todos possam compreendê-la.

Qual é a importância dos trabalhadores estudarem no campo, além da proximidade, de ficar perto de casa? O MST tem uma pedagogia da alternância, que é dividir o tempo-escola e tempo-comunidade. Que diferença isso faz?


alternância é uma prática desenvolvida principalmente para a realidade camponesa, até para garantir o estudo, porque ele pode ficar um período na escola e outro na sua comunidade, desenvolvendo as práticas, e trabalhar muito a teoria e prática, e teoria para refletir. Mas, a defesa das escolas no campo, além de garantia de um direito, que é o da educação, é que a escola na realidade camponesa se comporta como um coração dessa comunidade, porque ela está mostrando que ali naquele lugar é um espaço de direito. A concepção de campo que foi desenvolvido pelo sistema é de que aquele lugar de trabalho, e não de formação cultural do sujeito. Nesse sentido, a escola estar no campo, além de um direito,  é a garantia de um espaço fundamentador  de debates, de aprofundamentos e de construção coletiva. A presença da escola é um reconhecimento desta comunidade. Assim como outras políticas públicas devem estar. O fato de ter médico no campo é muito importante também.

Diante dessa realidade, com diferentes demandas, quais serão as pautas nesta Conae?

As discussões que a gente tem feito nos fóruns da educação no campo são, entre tantas outras, a questão da construção das escolas e a parada imediata de fechamento de escolas. A gente tem também outra fundamental que é a de formação de professores. Mas tem uma que é mais invisível e que é um descaso do Estado, que é a alfabetização de jovens e adultos. É no campo onde está concentrado o maior número de jovens que não teve acesso à leitura e à escrita. E para nós isso é um dever desse Estado e não andar a passos lentos como está acontecendo agora. Em torno de 28% da população analfabetos se concentra no campo.


quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

"2013 é o pior ano da reforma agrária", diz coordenador do MST

"2013 é o pior ano da reforma agrária", diz coordenador do MST



Para João Paulo Rodrigues, quase nada se fez, sendo que em muitos casos o governo teve a proeza de andar para trás

18/12/2013
por Luiz Felipe Albuquerque,


O ano de 2013 não deixará saudades aos Sem Terra de todo o país. No que tange a luta pela terra, o balanço é positivo, já que as mobilizações, marchas e ocupações de terras e prédios públicos aconteceram praticamente durante o ano inteiro.

Mas no que se remete à política de reforma agrária, quase nada se fez, sendo que em muitos casos o governo teve a proeza de andar para trás. Essas são as avaliações de João Paulo Rodrigues, da coordenação nacional do MST, sobre a política agrária estimulada pelo governo federal durante todo esse ano.    

Como consta Rodrigues, algo que sempre esteve ruim nesse governo conseguiu piorar ainda mais. “Até agora, só 159 famílias foram assentadas em todo o país. É uma vergonha. Não passam de 10 os imóveis desapropriados pelo governo Dilma. Pior que o último governo militar do general Figueiredo, quando foram desapropriados 152 imóveis”, destaca. 

Confira a entrevista: 

MST - Como você avalia a luta pela terra em 2013 num período de completa paralisia da Reforma Agrária?

João Paulo Rodrigues - Apesar de ter sido um ano completamente negativo em relação à Reforma Agrária, os camponeses seguem firmes na luta pela terra.

Em março, por exemplo, montamos um acampamento permanente em Brasília durante três meses, realizando lutas constantemente na capital federal, como marchas, ocupações de ministérios e atos políticos.

No mesmo mês aconteceu a jornada das mulheres, quando mais de 10 mil camponesas se mobilizaram para exigir o assentamento das 150 mil famílias acampadas em todo país, ocupando terras, empresas de agrotóxicos, prédios públicos, fazendo marchas e trancando rodovias. 

Logo na sequência, no mês de abril, os Sem Terra fizeram outra jornada de caráter nacional, com mobilizações em 19 estados mais no Distrito Federal. Novamente trancaram dezenas de rodovias, ocuparam mais terras, prédios públicos, prefeituras e realizaram marchas e atos políticos por todo o país. 

Em junho e julho o Movimento se somou às manifestações que saíram nas ruas das principais cidades do país trancando diversas rodovias. Nessa onda, a juventude Sem Terra organizou sua jornada de lutas no começo do mês de agosto. No final desse mês, o conjunto do Movimento realizou, junto às centrais sindicais, uma mobilização nacional, com as centrais realizando greves e paralisações nas cidades, enquanto nós do campo trancávamos as rodovias.

No mês de outubro mais de 12 estados se mobilizaram em torno da Jornada Unitária por Soberania Alimentar, quando mais uma vez a população do campo promoveu marchas, ocupações de terras e prédios públicos. Nesse mesmo mês, a jornada dos Sem Terrinha repautou a luta no campo e necessidade da Reforma Agrária, ocupando ministérios e secretarias estaduais. 

Tudo isso só para falar das lutas de caráter nacional, sem contar as lutas regionais, nos estados. Ou seja, falar que não há mais luta no campo é uma grande mentira.

E onde entra a questão da Reforma Agrária?

Aí é que vem o grande problema, com um balanço extremamente negativo. Trata-se do pior ano da Reforma Agrária. O governo Dilma, que sempre esteve péssimo nessa questão, conseguiu piorar ainda mais. Até agora, só 159 famílias foram assentadas em todo o país. É uma vergonha.

Não passam de 10 os imóveis desapropriados pelo governo Dilma. Pior que o último governo militar do general Figueiredo, quando foram desapropriados 152 imóveis. 

Outro grave problema é o que o governo federal está chamando de “emancipação dos assentamentos”, passando o título dos lotes para os assentados. Na prática, isso serve para o Estado deixar de ter responsabilidade sobre as famílias. Mas o pior é que essa política vai criar uma contra Reforma Agrária, já que grandes fazendeiros passariam a pressionar os assentados para que vendessem seus lotes, colocando tudo por água abaixo e aumentando ainda mais a concentração da terra no país.    

E a que se deve essa dificuldade em avançar na Reforma Agrária?

Podemos citar duas grandes questões cruciais.

A primeira é o fato do governo estar completamente refém da Bancada Ruralista, a maior frente no Congresso Nacional. São 162 deputados e 11 senadores, sem contar a legião de adeptos de última hora.

Só para se ter uma dimensão do problema, por mais absurda que seja a pauta desse setor, eles estão conseguindo sair vitoriosos em todas, mesmo em propostas inconstitucionais. 

Podemos pegar desde o estrangulamento do Código Florestal, passando pela alteração da PEC do Trabalho Escravo, o retrocesso sobre a legislação referente à demarcação de terras indígenas, a criação de uma comissão especial para liberar com maior facilidade novos agrotóxicos – ignorando o trabalho de avaliação da Anvisa e do Ibama - e a liberação de novas sementes transgênicas.

Nenhuma dessas propostas é de interesse da sociedade brasileira. Todas são exclusivamente dos interesses particulares desse setor e estão sendo vitoriosas. A Bancada Ruralista é um câncer no povo brasileiro.

A outra questão é a ilusão do governo em relação ao agronegócio. As grandes exportações de commodities promovidas por esse setor permitem ao governo a manutenção da política de geração sistemática de superávit primário, garantindo o destino de recursos orçamentários para o setor financeiro, como o pagamento de juros e serviços da dívida pública, o que é lamentável.

Mas ao mesmo tempo tem se criado algumas políticas públicas para a agricultura familiar e camponesa.  

Primeiro é muito importante ressaltarmos que todas as políticas públicas são conquistas das lutas dos movimentos sociais. Lutamos pela garantia da compra de alimentos e conquistamos o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). Lutamos pela educação no campo e conquistamos o  Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera).

Lutamos pela agroindustrialização da nossa produção, e conquistamos o Programa Terra Forte. Lutamos por um outro modelo de agricultura, e conquistamos o Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica - Brasil Agroecológico. Isso só para constar alguns exemplos.

No entanto, temos em mente que embora essas medidas sejam importantes, elas também têm seus limites. São muito desproporcionais se comparadas com os investimentos destinados ao agronegócio. Para se ter uma idéia o Plano Safra 2013/2014 da agricultura familiar representa pouco mais de 20% em relação ao que é destinado a agronegócio.

Além disso, contamos com essas políticas públicas hoje, mas nada nos garante que poderemos contar com elas amanhã. Uma simples troca de governo, por exemplo, pode acabar com todas as nossas conquistas.  

O que é preciso fazer, então?

É preciso priorizar a produção camponesa e familiar, e não tratá-las como algo secundário. O governo precisa entender que a única solução à pobreza é uma ampla Reforma Agrária, criando milhares de empregos no campo. Ao contrário disso, resta apenas o inchaço dos grandes centros urbanos e a favelização das periferias ao redor dessas grandes cidades.   

Ou seja, mudar a lógica e a estrutura da produção agrícola no Brasil. A própria FAO reconheceu que a única saída à crise ambiental e a garantia da soberania alimentar está na agricultura familiar. Quem disse isso foi o José Graziano, diretor da FAO. Tanto é que 2014 será o Ano Internacional da Agricultura Familiar pela ONU. 

Mas por que ambos os modelos de agriculturas não podem ser conciliadas?

São modelos que se contrapõem em sua lógica e essência. A ganância do agronegócio junto aos seus gigantescos recursos econômicos inviabiliza outro tipo de agricultura, pois sempre buscarão incorporar as terras dos camponeses e os recursos naturais ao seu modelo de produção de commodities.

Para se ter uma idéia, nas duas últimas décadas mais de 6 milhões de pessoas foram expulsas pelo agronegócio no campo brasileiro. E foram para onde? Para as favelas dos grandes centros urbanos. O agronegócio não gera emprego, já que mais de 70% da mão de obra empregada no campo é da agricultura familiar, e se apropria das pequenas e médias propriedades, uma vez que a concentração de terras no Brasil segue aumentando ano a ano.

No âmbito da produção de alimentos básicos do povo brasileiro a situação também é gravíssima. De 1990 a 2011, as áreas plantadas com alimentos básicos como o arroz, feijão, mandioca e trigo declinaram entre 20 a 35%, enquanto os produtos nobres do agronegócio, como a cana e soja, aumentaram 122% e 107%. E tudo voltado à exportação. Estamos tendo que importar até arroz e feijão da China. Isso é alarmante.

Em fevereiro de 2014 o MST realizará seu 6° Congresso Nacional. O que o Movimento pretende com essa atividade?

Nele consolidaremos nossa proposta em torno da Reforma Agrária Popular. Mais do que nunca a Reforma Agrária é urgente e necessária. No entanto, é uma Reforma Agrária de novo tipo, o que chamamos de Popular.

Entendemos que a Reforma Agrária não é mais uma política voltada apenas para a população do campo. Ela é urgente e necessária para o conjunto da sociedade como um todo. 

Se quisermos comer um alimento cheio de veneno que nos dará câncer, se quisermos cultivar uma produção que destrói o meio ambiente e contribui com a crise climática, expulsa os camponeses do campo aumentando a população pobre das grandes cidades, então a Reforma Agrária de fato não é necessária.

Mas se quisermos, por outro lado, um modelo produtivo que concilie sua produção com a preservação ambiental, que o povo brasileiro tenha alimentos saudáveis e sem agrotóxicos, que a miséria e a pobreza deixem de existir em nosso país, então ela nunca se fez tão necessária.

Por isso, temos que mostrar sua importância à sociedade para que o conjunto da classe trabalhadora ajude na realização da Reforma Agrária Popular, que só será possível com uma ampla reforma no sistema político.

E quais as perspectivas da luta para o próximo período?

Nesse último período, construímos e ampliamos a unidade entre todos os movimentos sociais do campo, com os olhos voltados para um programa de agricultura que realmente interesse ao povo brasileiro. E isso tende a se fortalecer cada vez mais.

Paralelamente a isso, aumentam as evidências das contradições do modelo do agronegócio, como sua destruição do meio ambiente, o enorme uso de agrotóxicos e a insegurança quanto aos preços dos alimentos.

Além disso, fruto das grandes lutas desse ano, as organizações sociais construíram o Plebiscito Popular por uma profunda reforma política em 2014, que permitiria mudar drasticamente o quadro atual.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Uma madrugada em meio à luta de classes na Amazônia

Uma madrugada em meio à luta de classes na Amazônia



No Pará, famílias sem-terra resistem bravamente à  investida violenta de fazendeiros de Parauapebas e Curionópolis com a conivência da polícia
02/10/2013
Amaral Lima
da Reportagem
É uma hora da manhã da madrugada de sábado (21) e uma primeira rajada de metralhadora é disparada contras as famílias organizadas pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) do acampamento Frei Henri, no sudeste paraense.
“Essa madrugada promete”, diz um dos acampados que faz a segurança do acampamento. Uma e meia da manhã os disparos se tornam incessantes e é hora de ter atenção redobrada para ninguém se ferir e evitar que o acampamento seja invadido pelos fazendeiros e seus jagunços contratados.
Os tiros são feitos da entrada da Fazenda Fazendinha, de uma guarita de madeira do alto de um morro, que serve de local estratégico para pistoleiros e fazendeiros mirarem nos barracos das famílias postados a cerca de 300 metros abaixo. O cenário é de guerra, várias trincheiras são montadas no entorno do acampamento e mais de 70 pessoas, entre homes e mulheres, estão intocados na mata estrategicamente para proteger o local.
Nos barracos de madeira, as famílias deixam as redes e improvisam colchões no chão, para se defenderem das balas. Tudo isso acontece às margens da movimentada rodovia PA-150, que liga Marabá a Parauapebas.
A reportagem do Brasil de Fato está numa das trincheiras, de onde é possível observar que o balanço das folhas das árvores e a poeira que levanta do chão não são efeitos do vento, mas sim da chuva de chumbo que cai sobre o acampamento.
Na trincheira elaborada por uma série de pneus e sacos de areia, está Tonico*, deitado ao chão com uma caixa de fogos de artifício, única “arma” utilizada pelas famílias para afugentar os jagunços que chegam às cercanias da ocupação. “Eles vão passar a noite atirando, e nós ficamos aqui, se alguém se aproximar soltamos rojões para assustá-los”, diz.
Ninguém dorme
Ao visitar algumas casas pela madrugada se constata que pouco ou quase ninguém consegue dormir. No primeiro barraco perto de umas das barreiras de proteção do Frei Henri, está Elizabeth*, preocupada. Em sua morada, apenas a fi lha de dez meses e seus outros dois fi lhos dormem tranquilamente. Ela e o marido passam a noite acordados temendo que algo de ruim aconteça com a família.
“Medo eu tenho, mas sair daqui, não, morávamos na cidade de Parauapebas, mas o desemprego é grande e o aluguel é caro e quem casa quer casa, né? Por isso, decidimos ocupar essa terra aqui, para melhorar nossa vida”, conta.
A fi lha, que dorme protegida por uma cômoda, nasceu de sete meses com vários problemas mentais devido à gravidez conturbada que Elizabeth teve. “O médico fala que ela nasceu especial porque eu sofri muito com essa situação dos fazendeiros atirando na gente toda noite”, diz.
Passam das três da manhã, os tiros continuam e numa das trincheiras do acampamento, às margens da rodovia, são soltos fogos de artifício, sinal de que há alguma situação de risco na área. Na direção onde o rojão foi solto correm vários homens e entre eles uma mulher, Maria*.
Cansada, diz que não dorme há mais de uma semana, desde que os ataques recomeçaram. Ela é uma das responsáveis pela brigada de defesa do acampamento. “Moço eu não tenho medo de morrer, não, já passei perto de morrer e não morri, então, acho que agora não morro mais.”
Maria se refere às ameaças que sofreu quando ia vender suas verduras produzidas no acampamento paras as feiras de Parauapebas. “Foi por telefone e me disseram: ‘Ou você sai da beira da estrada ou eu te mato’. Era voz de homem e disse meu nome e tudo mais.”
Largar a terra pela ameaça dos fazendeiros não passa pela cabeça dessa mulher de estatura média, cor negra, rosto manchado do sol, e uma olheira profunda. “Eu fui garimpeira na década de 1980, e faz tempo que acompanho o MST, agora quero minha terra. Só isso”, protesta Maria.
Cessando as balas
Às quatro e meia da manhã os tiros diminuem. Seu Edvaldo está de espreita na porta de seu barraco acompanhando a movimentação. Produtor de mandioca e hortaliças orgânicas, não consegue mais sair para vender seus produtos agrícolas na cidade.
“Os fazendeiros estão botando muita pressão, param as vans que transportam passageiros entre os municípios e perguntam se tem sem-terra, perseguem a gente, outro dia um pistoleiro colocou a arma na minha cabeça e mandou eu voltar para o acampamento senão ia me matar”, relata.
O dia amanhece e os tiros cessam por completo. As famílias voltam a ter, mesmo que repentinamente, um momento de paz. Em uma semana de ataque completada no sábado, apenas uma mulher e uma criança se feriram levemente por balas de raspão.
“A investida permanente dos fazendeiros fortemente armados contra o acampamento tentando fazer a expulsão das famílias na marra é crime e a polícia precisava investigar isso”, cobra o advogado da Pastoral da Terra de Marabá, José Batista Afonso.
(*nomes fictícios)
Foto: Antonia Borges

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Sem-terra formados em Cuba aplicam a prevenção e promoção da saúde no campo

Sem-terra formados em Cuba aplicam a prevenção e promoção da saúde no campo

 


Os médicos Luciana Brandão, Marcos Tiaraju e João Antônio contam suas experiências no atendimento humanizado aos pacientes 

17/09/2013


José Coutinho Júnior,


A estrutura de saúde pública brasileira tem diversos problemas: falta de investimentos, falta de médicos, infraestrutura precária. Outro problema é o tipo de tratamento realizado por muitos profissionais, que desumanizam o paciente e não levam em conta sua realidade de vida.
A Página do MST conversou com Luciana Brandão, Marcos Tiaraju e João Antônio, médicos do movimento formados em Cuba, que contam suas experiências de como realizam um trabalho de prevenção e promoção da saúde, além de atender de forma humana os pacientes.
Luciana nasceu no Pará e se formou na primeira turma de médicos do MST em Cuba, em 2005. Em 2006 voltou ao Brasil e fez uma especialização de dois anos em saúde da família no município de Sobral.
“Chegamos de Cuba sem ter noção de como era o processo de fazer medicina no Brasil, e tínhamos muita bagagem da teoria e prática cubana para aplicar no nosso país, mas tínhamos muito que aprender aqui também”.
Atualmente atua na comunidade São Nicolau, atendendo 2350 pessoas do assentamento 25 de Maio. Além de fazer o atendimento, Luciana prioriza a prevenção e promoção da saúde, realizando trabalhos de saúde da mulher, do homem, da criança, pré-natal, saúde da gestante e do idoso.
Nos finais de semana, ela também faz plantão no hospital do município de Madalena, que tem uma população de 19 mil habitantes. “Muitos dos nossos acampados e assentados também vão para o hospital para serem atendido por nós. Tanto que muitos pacientes ligam e perguntam o dia que a gente vai estar lá para poder ir ao hospital”.
Em relação à prevenção da saúde, ela conta que muitas doenças ocorrem por causa das condições precárias de higiene. “Eles ingerem água das cisternas, que precisa ser filtrada e não filtram. As águas que consomem é a mesma que os animais tomam banho. Por causa das águas contaminadas, tem muitos casos de Parasitose”.
Outro problema é a desnutrição, causada tanto pelos efeitos da seca quanto pelos hábitos alimentares da população, que não tem o hábito de comer verduras. Para reverter essa situação, Luciana iniciou uma horta no posto de saúde. “Plantei alface, repolho, couve, rúcula, pepino. Ensino eles a plantar e comer verduras; a cozinhar sem óleo. Não precisa colocar óleo numa carne de frango ou em qualquer outra carne. Se cozinhar só com água já fica gostoso”.
Além de ficar no posto de saúde e hospital, Luciana realiza visitas domiciliares aos assentados, para conhecer a realidade dos pacientes e poder identificar os problemas.
“Eu sou metida, chego futucando tudo. Tenho um paciente hipertenso, diabético, com asma, insuficiência renal, e cheguei bem na hora do almoço dele. Ele estava comendo um peixe muito salgado. Disse que ele não ia mais comer o peixe, ia comer ovo cozido. Falei para a esposa dele cozinhar um ovo e disse que eu ia comer o peixe. Mas nem dei conta de comer de tão salgado”.
As medidas preventivas são simples, mas Luciana afirma que elas exigem que o médico seja coerente e que trate os pacientes como pessoas. “É complicado um médico gordo pedir para um paciente emagrecer, um que fuma pedir para parar de fumar. O trabalho de prevenção e promoção que fazemos aponta para melhoras nas vidas dos pacientes. Muitos falam que antes da gente era diferente, que nunca nenhum médico entrou na cozinha deles, sentou na mesa para comer ou na beirada da cama para conversar quando estão doentes”.

“Tu não tem que tratar a doença, tem que tratar o indivíduo”
Marcos terminou o curso em 2012. Regressou ao Brasil, revalidou seu diploma e começou a trabalhar no município de Nova Santa Rita (RS). O município tem uma população de 23 mil pessoas, sendo que 40% dela está na área rural. Nesse território existem quatro assentamentos, porém, a estrutura para exercer um trabalho específico nas áreas ainda está sendo criada.
Marcos conta que a ideia é realizar um trabalho diferenciado. “Nossa ideia é montar equipes de saúde da família no município, que ainda não existem, e trabalhar atendendo a população rural e urbana. Nesse momento fazemos o trabalho na área urbana, atendendo inclusive os assentados. Um dos assentamentos doou uma casa vaga e estamos adaptando para ser um consultório.
Para ele, o discurso da impossibilidade de se fazer um bom trabalho pela falta de estrutura é meia verdade. “As condições devem ser criadas pela comunidade e profissionais para se desenvolver um bom trabalho”.
A cidade tem quatro postos de saúde, mas apenas um foi construído para ser uma Unidade Básica de Saúde (UBS). Os outros três são casas compradas pela prefeitura para ainda serem transformadas em UBS. “É uma realidade carente de atenção médica, principalmente na área rural, e não tem um serviço de atenção básica organizada”, conta Marcos.
Ele e a equipe presente em Nova Santa Rita pretendem fazer um tratamento contínuo das comunidades do município, ao contrário da situação atual. Segundo Marcos, “os médicos vão para lá fazer bicos. Eles têm dois, três empregos e vão lá apenas um dia, sem ter uma continuidade de atenção para aquela população. O médico acaba não compreendendo aquela comunidade e não consegue intervir no processo de promoção e prevenção da saúde, só faz a cura da doença”.
O tipo de atendimento realizado, afirma Marcos, valoriza a relação entre médico e paciente.
“A gente dedica um tempo maior em cada consulta, cria uma relação com o paciente para que eles nos contem um pouco sobre a vida. A partir disso conseguimos intervir sob um ponto de vista psicológico também. Pessoas que chegam com dores crônicas muitas vezes não precisam ser medicadas: uma conversa de quinze minutos resolve e a pessoa sai de lá sorrindo. Tu não tem que tratar a doença, tem que tratar o indivíduo, o ser humano como um todo”, acredita.

Do Haiti ao sertão
João Antônio se formou em 2010. Regressou ao Brasil em setembro do mesmo ano e viajou para Fortaleza. Em fevereiro de 2012 revalidou seu diploma e foi para o Haiti, atuar na Brigada Dessalines que presta solidariedade ao povo daquele país.
Contribuiu na brigada por seis meses, atendendo tanto a população rural - principalmente os camponeses nas montanhas - como a população urbana, em especial a população da periferia da capital Porto Príncipe.
João conta que a estrutura social precária no Haiti foi uma grande dificuldade para exercer o trabalho. “O Estado não tem poder, e isso é algo que se estende há séculos. Não existe saúde pública e tivemos uma grande dificuldade em conseguir medicamentos. A gente conseguia alguns com o trabalho na cidade em parceria com alguns freis franciscanos, que nos davam medicamentos para levarmos aos camponeses”.
O estado de miséria em que se encontra a maioria da população torna a prevenção de doenças no país difícil. “Muitas pessoas vivem sem casa, mais de 60% da população são analfabetas e muitas enfermidades que já estão erradicadas em vários países, como no Brasil e Cuba, lá permanecem, como a malária, febre tifoidea, verminoses, cólera. A alimentação do povo é precária, pelo menos 58% da população é subnutrida”.
Essas dificuldades, aliadas à barreira do idioma, tornaram o trabalho de promoção e prevenção da saúde difícil, e João se limitou durante o tempo que ficou no Haiti a realizar o atendimento de urgência e emergência.
Ao regressar em outubro de 2012, João vai ao assentamento 25 de maio, atuar na comunidade Paus Brancos. Ele atende cerca de 475 famílias. Ele destaca o trabalho de prevenção realizado em conjunto com os pacientes.
“Com as mulheres estamos iniciando um processo de resgate, que é da farmácia viva, de trabalhar com as ervas medicinais. Estamos aprendendo com o coletivo de mulheres. É uma forma de luta contra as grandes empresas farmacêuticas, que impõem esse modelo de medicina hospitalocêntrico, medicamentoso, baseado no tratamento imediato”.
Na cidade, junto com uma equipe de profissionais, João iniciou um projeto de trabalhar com os idosos e adultos da cidade. Com algumas caminhadas e alongamentos, ele afirma que há uma melhora significativa na pressão, frequência cardíaca, temperatura e na disposição dos participantes.
“Muitas pessoas que chegaram com a pressão alta e muitas vezes tomavam medicamentos para a pressão, tiveram uma redução de cinco a dez milímetros de mercúrio com as caminhadas”.
João acredita que o tratamento da saúde não é oferecido apenas pelo médico. O ambiente, as condições de vida e as emoções das pessoas podem em si ser um tratamento. “Quando chove e os açudes sangram no nordeste, é sinal de que o ano vai ser bom para a agricultura. Toda segunda atendo na sede do assentamento, e geralmente 40, 50 pessoas aparecem”.
Mas um dia, lembra João, não havia ninguém no posto, pois no domingo anterior tinha chovido, os açudes sangraram “e a população foi ver o açude e as águas. Saber da boa notícia, naquele dia já foi um tratamento. Se alguém tinha dor, diarreia, se curou com a notícia. Isso é saúde também”.

Foto: José Coutinho Júnior

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Agronegócio, um modelo esgotado

Agronegócio, um modelo esgotado









Vandana Shiva (foto), cientista indiana mundialmente conhecida, falou sobre as consequências da chamada Revolução Verde e denunciou o controle das transnacionais na abertura do III Encontro Internacional de Agroecologia, em Botucatu, interior de São Paulo
06/08/2013
Péricles de Oliveira
de Botucatu (SP)

Perante uma atenta plateia composta por mais de 3 mil pessoas, a renomada cientista indiana Vandana Shiva fez uma palestra de uma hora, respondeu a perguntas e encantou a todos com suas ideias, experiências e convicções, durante a abertura do III Encontro Internacional de Agroecologia, no dia 31 de julho, na cidade de Botucatu, interior de São Paulo.
Vandana foi muito contundente ao longo de toda a sua fala. Começou contando de sua vida, de como havia estudado biologia e física quântica na universidade e de como se considerava uma pessoa alienada da realidade do mundo.
Esclareceu que o choque que a fez despertar foi um grave acidente ocorrido, 30 anos atrás, numa fábrica de pesticidas – que resultou numa tragédia, com a morte de mais de 35 mil indianos. A partir daí, é que ela acaba se convertendo à causa do povo e não para mais de pesquisar a ação das empresas transnacionais sobre a agricultura.
Hoje, ela é considerada uma das principais pesquisadoras dos malefícios para a saúde humana e para a destruição da biodiversidade que as sementes transgênicas e os agrotóxicos das empresas transnacionais vêm causando em todo o mundo.

“Revolução Verde”
Vandana falou sobre as consequências da chamada Revolução Verde, imposta pelo governo dos Estados Unidos, na década de 1960, a toda a sua área de influência como forma de vender mais insumos agroquímicos e suas mercadorias agrícolas.
O resultado disso – o de subjugar países e camponeses – pode ser visto hoje, já que 65% de toda a biodiversidade e dos recursos de água doce do planeta foram contaminados por agrotóxicos.
Além disso, há estudos comprovando que 40% de todo o efeito estufa que afeta o clima no planeta é causado pelo uso exagerado, desnecessário, de fertilizantes químicos na agricultura. Chegou a dizer, inclusive, que em muitas regiões da Europa, em função da mortandade e desaparecimento das abelhas, a produtividade agrícola já teria caído 30%.
A indiana atentou para o fato de que se fôssemos calcular os prejuízos e custos necessários para repor a biodiversidade e reequilibrar o meio ambiente com vistas a amenizar os desequilíbrios climáticos, eles seriam maiores, em dólares, do que todo o comércio de commodities que as empresas realizam.

Genocídio
Em relação à ação das empresas transnacionais que atuam na agricultura – como Monsanto, Bunge, Syngenta e Cargill – também não poupou críticas. Denunciou que elas controlam a produção e o comércio mundial da soja, milho, canola e trigo. E que fazem propaganda enganosa dizendo que a humanidade depende dos alimentos produzidos pelo agronegócio para sobreviver, quando na prática a humanidade se alimenta com centenas de outros vegetais e fontes de proteínas, que elas ainda não puderam controlar.
Disse que essas “empresas, ao promoverem as sementes transgênicas, não inventaram nada de novo. Não desenvolveram nada. O único que fizeram foi fazer mutações genéticas que existem na natureza para viabilizar a venda de seus agrotóxicos”.
Citou que a Monsanto conseguiu controlar a produção de algodão na Índia, apoiada por governos subservientes, neoliberais, e que hoje 90% da produção depende de suas sementes e venenos. Com isso houve uma destruição do modo camponês de produzir algodão e um endividamento dos que permaneceram.
A conjunção do alto uso de venenos intoxicantes que levam à depressão e a vergonha da dívida fez com que, desde 1995 até os dias de hoje, houvesse 284 mil suicídios entre os camponeses indianos. Um verdadeiro genocídio escondido pela imprensa mundial e cuja culpada principal seria a Monsanto.
Apesar de tantos sacrifícios humanos, a Monsanto ainda recolhe em seu país 200 milhões de dólares anuais, cobrando royalties pelo uso de sementes geneticamente modificadas de algodão.
Mais de 3 mil pessoas participaram da palestra dada pela cientista indiana Vandana Shiva - Foto: EIA
Commodities não são alimentos
O modelo do agronegócio é apenas uma forma de se apropriar do lucro dos bens agrícolas, mas ele não resolve os problemas do povo. Tanto é que aumentamos muito a produção, poderíamos inclusive abastecer 12 bilhões de pessoas [quase o dobro da população mundial], mas, no entanto, temos 1 bilhão de pessoas que passam fome todos os dias, sendo 500 milhões delas camponesas que vivem no meio rural e que tiveram seu sistema de produção de alimentos destruído pelo agronegócio.
As commodities agrícolas são meras mercadorias agrícolas, não são alimentos. Cerca de 70% de todos os alimentos do mundo ainda são produzidos pelos camponeses.
É preciso entender que alimentos são a síntese da energia necessária que os seres humanos precisam para sobreviver, a partir do meio ambiente em que vivem, recolhendo essa energia d a fertilidade do solo e do meio ambiente.
Quanto maior a biodiversidade da natureza, maior o número de nutrientes e mais sadia será a alimentação produzida naquela região para os humanos. E o agronegócio destrói a biodiversidade e as fontes de energia verdadeiras.
As empresas lançam mão de um fetiche gerado pela propaganda, de que estão usando modernas técnicas de biotecnologia para aumentar a produtividade das plantas, mas isso é um engodo. Quando se vai pesquisar o que são tais biotecnologias, elas são guardadas em segredo. Porque, no fundo, elas não mudam nada na natureza. São apenas mecanismos para aumentar a rentabilidade econômica das grandes plantações.
Na verdade, a agricultura industrial é a padronização do conhecimento, é a negação do conhecimento sobre a arte de cultivar a terra. Porque o verdadeiro conhecimento é desenvolvido pelos próprios agricultores, e pelos pesquisadores, em cada região, em cada bioma, em cada planta.

Consumidores
O modelo do agronegócio quer transformar as pessoas apenas em “consumidores” de suas mercadorias. Vandana nos diz que devemos combater o uso e o reducionismo da expressão “consumidores”, que devemos usar o termo “seres humanos”, pessoas que precisam de uma vida saudável. “Consumidor” indica uma redução subalterna do ser humano.
As empresas do agronegócio dizem que são o desenvolvimento e o progresso. Na prática, chegam a controlar 58% de toda produção agrícola do mundo, porém, dão trabalho para apenas 3% das pessoas que vivem no meio rural. Portanto, o agronegócio é um sistema antissocial.
A indiana revelou ainda que fez parte de um grupo de 300 cientistas de todo mundo que se dedicam a pesquisar a agricultura e que após realizarem diversos estudos, durante três anos, comprovaram que nem a Revolução Verde imposta pelos Estados Unidos, nem o uso intensivo das sementes transgênicas e dos agroquímicos podem resolver os problemas da agricultura e da alimentação mundial. Algo que só pode acontecer por meio da recuperação de práticas agroecológicas que convivam com a biodiversidade, em cada local do planeta.
Vandana concluiu sua crítica ao modelo do agronegócio dizendo que ele projeta a destruição e o medo, porque é concentrador e excludente. Por isso, tornou-se algo comum o costume dessas empresas ameaçarem ou cooptarem os cientistas que se opõe a elas.

A saída é a agroecologia
Após criticar duramente o modelo do capital, a cientista dedicou sua palestra a projetar as técnicas ou o modelo de produção da agroecologia como a alternativa popular e necessária para produção de alimentos.
Defendeu que o modelo da agroecologia é o único que permite desenvolver técnicas de aumentar a produtividade e a produção sem a destruição da biodiversidade.
Que a agroecologia é a única forma de criar empregos e formas de vida saudáveis para a população permanecer no campo e não ter de se marginalizar nas grandes cidades. Sobretudo, fez a defesa de que os métodos da agroecologia são os únicos que conseguem produzir alimentos sadios, sem venenos.

Dificuldades da transição
Quando perguntada sobre as dificuldades da transição entre os dois modelos, contestou, citando a Índia: “Nós já tivemos problemas maiores na época do colonialismo inglês. No entanto, Gandhi nos ensinou que a nossa fortaleza é sempre ‘lutar pela verdade’, porque o capital engana e mente para poder acumular riquezas. Mas a verdade está com a natureza, está com as pessoas”.
Dessa energia que emana de Gandhi, Vandana reforçou: “Se houver vontade política para fazer a mudança, se houver vontade para produzir alimentos sadios, será possível cultivá-los”.
Vandana concluiu conclamando a todos a se envolverem e participarem do Encontro Mundial de Luta Pelos Alimentos Sadios e Contras as Empresas Transnacionais que a Via Campesina, os movimentos de mulheres e centenas de entidades realizam todos os anos, na semana de 16 de outubro. “Precisamos unificar as vozes e as vontades em nível mundial. E essa será uma ótima oportunidade.”

Recomendações
Quando perguntada sobre as recomendações que daria aos jovens, aos estudantes de agronomia, aos agricultores praticantes da agroecologia, Vandana Shiva elencou seis pontos:
Primeiro: disse que a base da agroecologia é a preservação e a valorização dos nutrientes que há no solo. Neste instante, a indiana fez referência a outra cientista presente na plateia que a assistia muito atenta, a professora Ana Maria Primavesi. “Precisamos ir aplicando as técnicas que garantam a saúde do solo, e dessa saúde, recolheremos frutos com energia saudável.”
Segundo: estimular que os agricultores controlem as sementes. As sementes são a garantia da vida. “Nós não podemos permitir que as empresas transnacionais transformem nossas sementes em meras mercadorias. As sementes são um patrimônio da humanidade.”
Terceiro: precisamos relacionar a agroecologia com a produção de alimentos saudáveis que garantam a saúde e assim conquistar os corações e mentes da população da cidade, que está sendo cada vez mais envenenada pelas mercadorias com agrotóxicos. “Se vincularmos os alimentos com a saúde das pessoas, ganharemos milhões de pessoas da cidade para a nossa causa.”
Quarto: precisamos transformar os territórios em que os camponeses têm hegemonia em verdadeiros santuários de sementes, de árvores sadias, de cultivo da biodiversidade, da criação de abelhas, da diversidade agrícola.
Quinto: precisamos defender a ideia que faz parte da democracia, a liberdade das pessoas de terem opções de alimentos. Elas não podem mais serem reféns dos produtos que as empresas colocam nos supermercados de acordo com a sua vontade apenas.
Sexto: precisamos lutar para que os governos parem de usar dinheiro público – que é de todo o povo – para subsidiar, transferir esses recursos para os fazendeiros. Isso vem acontecendo em todo o mundo e também na Índia. O modelo do agronegócio não se sustenta sem os subsídios e vantagens fiscais que os governos lhes garantem.
Foto: EIA