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sábado, 4 de abril de 2015

Como a Costa Rica conseguiu produzir toda sua eletricidade de forma limpa



Planta geotérmica usa vapor de vulcão dormente para gerar energia


Durante os primeiros 75 dias deste ano, a Costa Rica conseguiu uma marca inédita: usou apenas energia renovável para abastecer sua rede elétrica, em meio a esforços para "limpar" sua matriz energética até 2021.
O país se beneficiou de três represas cheias graças a um período excepcional de fortes chuvas, além da energia de fontes geotérmica - que usa o calor vindo do interior da Terra - , eólica, solar e biomassa, segundo o Instituto Costa-riquenho de Eletricidade.
Com isso, as usinas térmicas do país não precisaram ser usadas no período, "com consequente benefício ambiental e econômico, porque não houve necessidade de usar combustíveis (fósseis)", disse o instituto.
Por enquanto, só metade das fontes de energia primária da Costa Rica são renováveis. Neste ano, o país conseguiu avançar "limpando" a energia elétrica.
Especialistas consultados pela BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC, apontam que o país tem tentado obter rendimento máximo de seus recursos naturais para evitar ter de importar hidrocarbonetos.
Um dos elementos-chave foi a integração ao Programa de Energias Renováveis e Eficiência Energética Centro-americana (4E), implementado pelo escritório de cooperação internacional do governo alemão junto à Secretaria-Geral do Sistema de Integração da América Central (SG-SICA), que trabalha para fomentar uma matriz mais limpa na região.
O diretor regional do programa 4E, Manfred Haebig, explica à BBC Mundo que o país "sempre teve a matriz energética mais 'verde' da América Central".
A matriz é composta em 80% por hidrelétricas e só 20% das energias renováveis é eólica e geotérmica (uma usina no país é abastecida pelo vapor de um vulcão dormente).
O problema disso - além do impacto da construção de hidrelétricas - é que o modelo é bastante dependente do clima: se falta água, o fornecimento de energia fica comprometido.
"Hoje as represas estão cheias e pode-se falar de 100% de energia renovável. Mas isso é dinâmico e pode mudar ao longo do tempo", explica Haebig.
A novidade, no caso costa-riquenho, é que o país tem levado em consideração as mudanças climáticas, que alteram, por exemplo, a constância das chuvas, explica Tabaré Arroyo, autor do estudo "Líderes em Energia Limpa", produzido para a organização ambiental WWF.
País criou ambiente propício para investimentos em energia renovável

Arroyo explica que a Costa Rica tem investido não apenas em energia hidrelétrica, mas também eólica e geotérmica, para o caso de caírem os níveis de água acumulada nas represas.
"Obter 100% de eletricidade renovável é algo novo na América Latina", afirma.

'Líder regional'

Em seu relatório para a WWF, Arroyo explica que dois mecanismos ajudaram o país centro-americano a avançar nas energias renováveis.
O primeiro é um sistema de leilão para a compra adicional de energia limpa.
O segundo é um programa para promover a geração de energia pelos próprios consumidores - "que conectam seus sistemas solares, eólico, de biomassa e cogeração à rede", explica o especialista. Esses pequenos produtores podem vender os excedentes, o que vem ajudando a abastecer a rede energética.
"Graças a seu grande potencial e um marco jurídico favorável, a Costa Rica criou um ambiente atrativo para investimentos em energia renovável", diz o relatório.
Entre 2006 e 2013, o país atraiu mais de US$ 1,7 bilhão para financiar projetos energéticos limpos.
Com isso, a Costa Rica virou o "país latino-americano mais bem posicionado no Índice de Sustentabilidade Energética", diz a WWF.
Ao mesmo tempo, reportagem do jornal britânico The Guardian ressalta que a Costa Rica ainda enfrenta muitos obstáculos para cumprir suas metas energéticas: além de ter um padrão instável de chuvas, o país ainda depende do petróleo para o setor de transportes.
O combustível consumido por carros, ônibus e trens responde por quase 70% das emissões de carbono costa-riquenhas. E são poucos os carros híbridos disponíveis, disse o jornal.
Ainda assim, em um país dependente do turismo ecológico, "faz sentido buscar fontes de energia limpas e não contaminantes", diz Jake Richardson, especialista em energia renovável do site Clean Technica.
O objetivo é também economizar na importação de combustíveis fósseis e no próprio bolso: a Autoridade Reguladora de Serviços Públicos calcula que a tarifa de eletricidade ficou até 15% mais barata graças às mudanças energéticas.

domingo, 22 de março de 2015

Petróleo barato desata uma revolução energética


A queda do preço obriga um reposicionamento dos equilíbrios geoestratégicos mundiais

 21 MAR 2015 
Usina solar de Abengoa, em Sanlúcar la Mayor (Sevilha). / BERNARDO PÉREZ

A Espanha se deu bem na loteria do petróleo: 15 bilhões de euros, o equivalente a 1,5% do PIB, é o valor que o país economizará por ano se o preço da commodity se mantiver nos parâmetros atuais. No país da ruína estrutural energética, esse é um raro golpe de sorte para ser comemorado duas vezes; a queda do barril do tipo brent — referência na Europa — arrasta junto o preço do gás. “Implicará em um grande alívio para a nossa desequilibrada balança comercial, que deve boa parte de seu déficit externo aos mais de 40 bilhões de euros anuais, 4% do PIB, que gastamos com a importação de combustível”, diz contente Juan Luis López Cardenete, professor da IESE Business School e ex-diretor-geral do grupo empresarial espanhol Unión Fenosa. Um petróleo barato dará um alívio nas contas das famílias e nos balanços das empresas. Também contribuirá para o aumento de arrecadação de impostos. Quando tempo vai durar a festa?
Agora que o Governo considera a reindustrialização objetivo prioritário, a Espanha não deveria aproveitar para se somar à revolução tecnológica e industrial gerada em torno da energia e se envolver na chamada transição energética: a substituição progressiva dos combustíveis fósseis por energias renováveis? Porque se há um país dependente das importações de combustíveis fósseis, esse é a Espanha. O grau de dependência externa de petróleo, gás e carvão é de 70,5%, ante 53,2% de média na UE e de 25% nos EUA. “Assistimos a uma catarse energética e a movimentos geoestratégicos em torno do petróleo que não procedem do mercado, mas de interesses ocultos. Nada será igual ao que era”, afirma José Luis Martínez Marín, fundador do Clube Espanhol da Energia.
A fatura energética vai retomar obrigatoriamente sua escalada — um ano é o prazo apontado por alguns especialistas —, e a aplicação das discutidas técnicas de fraturamento hidráulico do subsolo, ofracking — que não são competitivas, temporariamente, após a queda dos preços —, possibilitará a extração em grande escala de hidrocarbonetos e deixará distante no tempo o catastrófico cenário teórico do crash energético global. Graças à “revolução energética silenciosa” empreendida anos atrás, Estados Unidos e Canadá obtiveram uma notável vantagem competitiva sobre os países europeus. O primeiro objetivo continua sendo assegurar o fornecimento energético para as próximas décadas, apesar do risco de contaminar aquíferos e de desencadear a sismicidade induzida. Mas isso não significa que as maiores potências renunciem a desenvolver as energias renováveis. A China, o monstro contaminante que pode arrastar a humanidade ao desastre ambiental, não abriu mão, nem os EUA, o outro grande contaminador que beira a autossuficiência de hidrocarbonetos.
O mercado mundial de cru
O que acontece na Espanha, a outrora campeã mundial dos renováveis, que há seis anos atraía investimentos de meio mundo no calor das políticas estabelecidas pelo Executivo anterior? A transição energética encontra o país com o passo trocado, os cofres públicos vazios e o Governo ocupado em consertar a situação herdada. Os processos dos investidores que se sentem prejudicados pelos cortes aplicados em retribuição pelas energias renováveis já formam uma avalanche, enquanto a indústria de alto consumo energético denuncia que a elevada tarifa elétrica espanhola as torna pouco competitivas. A ameaça, feita depois, da multinacional de alumínio Alcoa de fechar suas plantas de Avilés e A Coruña pela “impossibilidade de ter acesso a uma energia a preços competitivos” é sintomática. “A Espanha tem uma das tarifas elétricas mais caras da Europa, e isso sem levar em conta o déficit tarifário”, afirma Natalia Fabra, professora de Economia da Universidade Carlos III.
O Governo considera cumprido o objetivo de congelar a escalada de preços da eletricidade, que entre 2002 e 2012 teve um aumento anual de 5,9%. Segundo o ministro da Indústria e Energia, José Manuel Soria, a nova regulamentação do setor elétrico conseguiu que o déficit tarifário correspondente a 2013 tenha caído para 3,5 bilhões de euros — frente a 10,5 bilhões previstos. E também deixar em zero o de 2014. É um alívio que o monstro dos 25 bilhões de déficit acumulado tenha deixado de crescer. Vista com perspectiva, a gestão política dos prêmios para energias renováveis se revela como um desastre maiúsculo, que obrigaria perguntar-se pelas causas e responsabilidades. “Ao contrário da solar, na eólica se acertou bastante, se aproveitou o conhecimento da dinamarquesa Vestas para desenvolver uma tecnologia e indústrias próprias exemplares. Os prêmios foram generosos, mas a coisa funcionou. Hoje a produção eólica é superior à fotovoltaica e, no entanto, se pagam mais prêmios pelas fotovoltaicas do que pelas eólicas”, diz José Ignacio Pérez Arriaga, professor de Regulamentação Energética no MIT (Massachusetts Institute of Technology).
“Mais do que os prêmios, de fato muito generosos, o problema com as renováveis é que não houve disciplina e se permitiu a produção de muito mais potência do que estava previsto e era necessário para cobrir a curva de aprendizado”, explica o diretor do Centro de Pesquisas Energéticas, Ambientais e Tecnológicas (CIEMAT), Cayetano López Martínez. “O que deveria ser um incentivo para pesquisa e desenvolvimento de novas energias passou a se tornar”, destaca, “em um produto de mais investimento e uma operação ruim para o erário público”.
Diante dos processos que apresentaram agora contra a Espanha os próprios consórcios energéticos internacionais que também investiram em energia renovável no país, não se pode dizer que tenham agradecido ao esforço de financiar a “curva de aprendizagem” às custas de consumidores passados e futuros. “A questão não está em chegar primeiro à aula, mas sim em tirar a melhor nota. Nos precipitamos: o que deveria ter sido feito em 15 anos se fez em dois”, afirma Mariano Marzo, professor de Recursos Energéticos da Universidade de Barcelona. Assim como outros especialistas, ele também acredita que este é o momento propicio para promover as energias renováveis — produzir um watt fotovoltaico custa sete vezes menos do que antes —, mas especifica: “Sem subsídio nem ajudas, e somente as que já são competitivas e maduras: a eólica, a solar fotovoltaica…”.
Mas o Governo parece voltar todos os seus esforços em tratar de tirar os pés da lama judicial e evitar aqueles compromissos de prêmios assinados para 20-25 anos que pesam sobre o erário público. A pergunta é se conseguirá, e o problema é a insegurança jurídica e a queda da reputação provocada pelas bruscas mudanças de critérios da Administração espanhola. “Nessa matéria há poucos países com tão alto grau de insegurança jurídica; por isso os investimentos em eólica e solar estão paralisados. Se não houvesse essa incerteza, tenho certeza que essas duas renováveis teriam decolado, porque cada vez mais serão fundamentais. E como não temos um plano estratégico como país, uma visão a longo prazo, não podemos aplicar uma política de transição energética. Menos mal que estamos na UE, e pelo menos Bruxelas vai abrindo um caminho”, afirma José Ignacio Pérez Arriaga.
Ninguém, entre os especialistas, critica o empenho em impedir que a espiral do déficit tarifário continue crescendo, mas sim a paralisação e abandono total das energias renováveis. Na visão desses especialistas, a única energia que a Espanha não precisa importar se tornou um tabu. Há um coro de vozes com experiência e conhecimento que afirma que, fiéis à pior tradição espanhola, o país não foi de um extremo ao outro, sem considerar que há indústrias de sucesso e com futuro. Nas discussões do Plano de Energia Estratégica para a Europa (Sep Plan), nas quais se fixam as prioridades de desenvolvimento tecnológico industrial, alguns representantes espanhóis mostraram desinteresse nos projetos associados às renováveis. E isso apesar de, como aponta Cayetano López, ter começado a se criar um potente setor industrial. “A maioria das empresas de fabricação de painéis fotovoltaicos pararam nas mãos de chineses, mas na solar de concentração somos os melhores do mundo, e no campo eólico, Gamesa, Acciona e Iberdrola são empresas muito potentes”, afirma.
Um trabalhador opera um caminhão durante as operações de carregamento em um poço petrolífero de Montada (EUA). / DANIEL ACKER (BLOOMBERG)
É lugar comum entre os especialistas que na Espanha não houve, nem há, uma política energética que mereça esse nome. Há uma amostragem superficial de opiniões: “Somos um dos poucos países da OCDE que não tem uma previsão para 2014, nos limitamos a ir a reboque da estratégia europeia de 20/20/20/ (20% de redução dos gases do efeito estufa; aumento a 20% do peso das energias renováveis na energia total; melhorar em 20% a eficiência energética) estabelecida para o ano de 2020 e que dificilmente vamos cumprir (…). O assombroso é que a política energética não está projetada para a redução do custo da fatura de abastecimento, da dependência e das emissões (…). Ninguém sabe qual mix energético (combinação de energias) nosso país pretende (…). Política energética é pensar no transporte de bens e nas moradias, e nós construímos cinco milhões de moradias sem o adequado isolamento térmico (…). O transporte representa 31% de consumo energético e 70% do combustível é queimado na cidade. O que acontece com a pedestrianização, a bicicleta, o carro elétrico? Na Alemanha, o trem é usado três vezes mais que na Espanha (…). É preciso diminuir a dependência do petróleo, passar para a eletrização das ferrovias, trens e ônibus, e dizer o que fazer com as nucleares, porque, se vamos continuar contando com elas, é preciso investir em sua renovação. Não vai nos acontecer como com a Alemanha, que fechou suas nucleares e tem que voltar ao carvão, com toda sua carga contaminante”.
Propor um pacto de Estado sobre a energia continua a ser uma promessa vazia, apesar da catarse em curso deixar pouca margem de decisão a respeito de questões, como a prospecção marinha de jazidas de petróleo e gás e o uso do fracking, enfrentadas hoje pelos dois grandes partidos políticos. No livro branco sobre política energética elaborado a pedido do Governo, em 2005, José Ignacio Pérez Arriaga enfatizava a necessidade de consenso na política energética “Os investimentos em energia são caros e para muitos anos. Não pode acontecer de um Governo apostar em energia nuclear ou se comprometer a pagar por fontes renováveis, e o seguinte, não. Recomendei-lhes que a política energética ficasse nas mãos de especialistas, e não de simpatizantes ou militantes do partido da vez no poder, mas não me ouviram. Os Governos de diferentes traços não fizeram nada para evitar que o déficit tarifário crescesse cada vez mais. Preferiram jogar a culpa uns nos outros e só reagiram quando perceberam que estavam nas garras do lobo”, diz.
“Os centros tecnológicos e as indústrias energéticas têm que andar de mãos dadas”, diz um especialista
Por mais conjuntural que seja, a queda do barril brent [referência de petróleo] levará, previsivelmente, ao aumento do consumo de hidrocarbonetos, e cabe perguntar se o Governo não deveria aumentar os impostos sobre a gasolina para diminuir o aumento do consumo e investir o dinheiro arrecadado na transição energética.
Natalia Fabra acredita que sim. “Os preços do petróleo são voláteis e imprevisíveis. É preciso tirar da tarifa de eletricidade a remuneração excessiva a usinas nucleares e hidrelétricas, aumentar o peso das fontes renováveis no mix energético, buscar a eficiência e adotar uma estratégia como a da Alemanha, da França, do Reino Unido...”. A isso o professor universitário Mariano Marzo acrescenta um pouco de pedagogia básica. “As pessoas precisam entender que a energia não é uma questão apenas de dinheiro, nem uma mercadoria a mais; precisam compreender que é um bem escasso e de importância fundamental, que é poder e a própria base da sociedade de bem-estar”, afirma. Diz que voltaremos ao tempo do “menino, apague a luz” e que ter carro ou uma segunda casa será um luxo.
“Ou a Espanha cria sua própria política ou ela será imposta de fora”, declara Emiliano López Atxurra, titular da cadeira de energia do Instituto Vasco de Competitividad. “Política energética”, ressalta, “é integrar-se ao projeto do eixo franco-alemão, que busca o renascimento tecnológico e industrial europeu com base na inovação e na eficiência energética. É preciso considerar a energia como motor industrial e tecnológico. Se a Europa não quiser perder o passo, precisará se refundar sobre uma política energética e fazer com que suas empresas de bens elétricos caminhem para processos de integração e ganhem musculatura.” López Atxurra considera que haja um deslocamento do foco para o tecnológico industrial, o que seria demonstrado pela substituição da gestão financeira pela industrial na cúpula dos grandes consórcios de energia. “Os centros tecnológicos e as indústrias energéticas têm que dar as mãos”, defende.
A outra boa notícia é que a Europa vai apoiar as iniciativas espanholas para deixar de ser uma ilha em questões de energia e reforçar suas interconexões de eletricidade e gás com o continente. Isso lhe permitirá vender seus excedentes de geração de energia e aproveitar suas potentes instalações de ciclo combinado, acionadas a gás. Em fevereiro foi inaugurada uma nova conexão elétrica com a França, que ficará até junho em teste. Ela permitirá duplicar a capacidade de intercâmbio entre os dois países, de 1.400 para 2.800 Megawatts (MW), ou dos atuais 3% para 6% da demanda.
Com seus defeitos e virtudes, a Espanha não pode se desconectar do processo de transição energética que vai mudar nossas vidas.


Fonte: http://brasil.elpais.com/brasil/2015/03/20/economia/1426874140_308827.html

segunda-feira, 2 de março de 2015

Dos molinos de vento ao ‘fracking’

Dos molinos de vento ao ‘fracking’



Indústria do gás instalou-se em Burgos, onde existe resistência à fratura hidráulica


Exploração de petróleo em Sargentes de Lora, em Burgos. / GORKA LEJARCEGI

O boom da energia eólica parou às portas de Masa. Literalmente. Os geradores aéreos estendem-se pelo campo, mas chegam só até o começo dessa localidade de Burgos. As empresas de energia elétrica também gostariam de construir moinhos em um terreno público de propriedade da Junta Comunitária de Masa. “Tínhamos um pré-contrato assinado. Mas passaram os quatros anos do prazo e foram embora”. Florencio Herrero, prefeito da vila, abre o portão do terreno já resignado a não receber os 6.000 euros (19.286 reais) por ano que iriam pagar ao povoado.
As promessas estão agora debaixo de suas enlameadas botas marrons. A empresa canadense BNK quer adquirir dois hectares desse mesmo terreno público para furar a terra em busca do gás de xisto que diz existir a milhares de metros de profundidade. A companhia quer ser a primeira a usar a técnica da fratura hidráulicana Espanha. Depende das autorizações que solicitou ao Governo e a Junta de Castilla e León para realizar até 12 sondagens em cinco municípios ao norte de Burgos, no norte do país. Entre eles, Masa, onde a BNK pediu à Administração regional a declaração de utilidade pública do projeto e a ocupação temporária dos terrenos do tamanho de dois campos de futebol para perfurar dois poços.
Este punhado de terra – onde pastam algumas vacas e onde os oito moradores de Masa se abastecem de madeira – é o resumo energético do mandato: Uma viagem da aposta anterior (via subvenções) pelas energias renováveis até o crescimento dos combustíveis fósseis impulsionado pelo Executivo do Partido Popular (PP), que legislou para apoiar projetos de gás e petróleo.
Os planos da BNK são perfurar verticalmente em cada poço até uma profundidade de 3.000 a 4.500 metros. Depois, analisariam as amostras e, se as reservas forem confirmadas, continuaria perfurando horizontalmente durante mais dois quilômetros. Ao terminar, injetariam no poço água misturada com areia e produtos químicos sob alta pressão para fragmentar a rocha na qual o gás está alojado. As autorizações que a BNK pediu são para sondagens exploratórias. Se depois quiser explorar comercialmente o gás, precisará pedir mais permissões.
Florencio nunca havia ouvido falar do fracking até três anos atrás. Agora, depois de ter visitado – convidado pela BNK – os poços que a companhia tem na Polônia, sabe que “o subsolo é do Estado”. Ele obedecerá o que a Junta e o Governo decidirem sobre o projeto. Não diz nem sim nem não quando é perguntado se quer a utilização dofracking. “Eu não o utilizaria, mas se beneficiar a população...”. Ele sabe que vai demorar. “Isso vai longe... eu acho que não verei”, diz este agricultor de 72 anos e macacão de trabalho azul.
“Vamos fazer tudo o que pudermos para que não seja utilizado”. Germán de Diego, o prefeito de Valle de Sedano, não é ambíguo. Diz que a Prefeitura argumentará que não irão vender os terrenos à empresa para perfurar poços e que no município não é possível encontrar duas pessoas que apoiem a fratura hidráulica. As cinco prefeituras nas quais a BNK quer perfurar, todas do PP, têm moções contra o fracking.
O político fala sentado na mureta da ponte sobre o Sedanillo. A neve de janeiro alimenta este rio e seus afluentes, que fluem em cada canto.
A água é o que mais preocupa Álvaro Fernández, Luisa Huidobro, María Ruiz e Vanesa Ramos. Quando são inquiridos, montam uma pequena assembleia antifracking em frente ao ambulatório de Sedano, povoado no qual vivem 500 pessoas. “A natureza é a única coisa que temos; é do que vivemos, do turismo, dos mananciais e fontes”, argumenta Luisa.
Em Sedano, como no resto do norte de Burgos, os moradores estão sob o fogo de dois grupos inimigos. De um lado, as plataformas contrárias a essa técnica. Em qualquer bar é possível encontrar folhetos nos quais adverte-se que o fracking “provoca sismos, contamina a água e o campo. É incompatível com outros usos do solo como a agricultura, a criação de gado e o turismo”. Do outro lado, a empresa, que diz que as técnicas utilizadas “são seguras e provadas por uma experiência de décadas”. “A informação está muito distorcida, não sabemos em quem acreditar”, resume sem descer da bicicleta Mario Fernández, outro dos moradores de Sedano.
Neste povoado de pedra, o escritor Miguel Delibes passou os verões durante quase meio século. Sua extensa família ainda conserva várias casas em Sedano. Miguel Delibes, filho, biólogo e atual presidente do Conselho de Participação de Doñana, mostra-se, como quase sempre, ponderado. “Meu desejo é que a fratura hidráulica não seja feita em Sedano”. Mas, na sequência, lembra que o Conselho Consultivo das Academias de Ciências da Europa emitiu em outubro um pronunciamento no qual não fechava as portas às sondagens exploratórias. “As questões são sérias, mas não descartaram definitivamente a realização de testes piloto na Europa”, acrescenta. Esse relatório foi analisado há um mês na Real Academia de Ciências da Espanha, da qual Delibes é membro.
A neve resiste mais em desaparecer a meia hora de carro de Sedano. Ali, os motores de cinco cavalinhos negros fazem barulho. São as bombas com as quais extrai-se petróleo em Sargentes de Lora desde os anos sessenta. Estes poços são uma das razões pelas quais a BNK está disposta a gasta até 20 milhões de euros (64,4 milhões de reais) por sondagem exploratória em Sedano, em Masa e em outros três povoados da região. A existência de gás no norte de Burgos é conhecida, entre outras coisas, pelos poços que vem sendo abertos há 50 anos por toda a comarca. A suspeita é que seja o gás de xisto, que só pode ser extraído com fracking.
Dos poços de Sargentes já não jorra petróleo de alta qualidade. E no bar Ouro Negro, em frente ao campo petrolífero, não há nem uma alma.

Fonte: http://brasil.elpais.com/brasil/2015/02/27/internacional/1425074776_013674.html

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Ar mais limpo

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Estudo revela queda na concentração de um dos principais poluentes atmosféricos na Região Metropolitana de São Paulo liberados pelo escapamento de carros a álcool
YURI VASCONCELOS | Edição 224 - Outubro de 2014

O ar que os paulistanos respiram está menos poluído. Um estudo recente feito por cientistas do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG/USP) revelou que, nos últimos 30 anos, caiu consideravelmente a concentração de acetaldeído na atmosfera da Região Metropolitana de São Paulo. Esse poluente, que faz parte do grupo dos aldeídos, é liberado principalmente pelo escapamento de veículos movidos a etanol. Além de provocar irritação nas mucosas, nos olhos e nas vias respiratórias e desencadear crises asmáticas, os aldeídos são substâncias carcinogênicas em potencial. Também contribuem para o aquecimento global. De acordo com os resultados da pesquisa realizada na USP, a queda na concentração de acetaldeído deve-se basicamente a dois fatores: aperfeiçoamento da tecnologia de motores automotivos e políticas públicas implementadas no país nas últimas décadas voltadas ao controle da poluição veicular, notadamente o Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores (Proconve).
Os resultados do estudo são, de certa forma, surpreendentes, porque nos últimos anos verificou-se um aumento substancial no número de veículos movidos a etanol (ou álcool). Lançados em 2003, os carros com tecnologia flex, que podem ser abastecidos com gasolina, álcool ou uma mistura dos dois, já são a maior parte da frota nacional, com mais de 20 milhões de unidades em circulação. A gasolina vendida nos postos de combustível, por sua vez, é misturada ao álcool nas refinarias numa proporção de 75% de gasolina e 25% de álcool. “Apesar do aumento da frota que utiliza etanol, um biocombustível renovável feito a partir da cana-de-açúcar, não se verificou uma elevação no nível de acetaldeído no ar da Grande São Paulo. Pelo contrário. Nossas medições, realizadas entre 2012 e 2013, apontaram uma concentração média de 5,4 partes por bilhão (ppb) de acetaldeído na atmosfera, enquanto um estudo de 1986 mostra que esse valor era cerca de três vezes maior, de 16 ppb”, diz o químico e pós-doutorando do IAG Thiago Nogueira, que liderou a pesquisa. Parte por bilhão é uma medida de concentração utilizada para mensurar substâncias químicas quando as soluções são muito diluídas.
Uma tecnologia automotiva fundamental para frear o aumento dos aldeídos são os catalisadores. Esse equipamento é instalado junto ao escapamento do carro com a função de tratar os gases gerados no processo de combustão antes que eles sejam liberados no ambiente. Todos os veículos atuais, para atender ao Proconve, saem de fábrica equipados com catalisadores de três vias, que recebem esse nome por ajudar a reduzir a presença dos principais poluentes atmosféricos exalados pelos automóveis: monóxido de carbono (CO), óxidos de nitrogênio (NO2) e compostos orgânicos voláteis, grupo no qual se inserem os aldeídos.

“Sem o catalisador seria impossível diminuir a presença de aldeídos na atmosfera, ou de qualquer outro poluente veicular”, explica o engenheiro mecânico Henrique Pereira, membro da comissão técnica de motores da SAE Brasil (Sociedade dos Engenheiros da Mobilidade). “Os catalisadores transformam os gases nocivos resultantes da queima do combustível, entre eles os aldeídos, em compostos menos agressivos à saúde humana e ao ambiente.” De acordo com Pereira, embora seja uma peça fundamental para a melhoria da qualidade do ar, os catalisadores não seriam eficientes caso os motores não tivessem sido aprimorados. “Para que o catalisador atinja um melhor rendimento, o motor do carro precisa receber uma mistura ideal de combustível e ar. Nesse sentido, a injeção eletrônica foi uma inovação mandatória para o bom funcionamento dos motores e, em consequência, dos catalisadores”, diz Pereira. A injeção eletrônica, componente que substituiu os carburadores dos carros existentes até os anos 1980, prepara uma combinação ideal de combustível e ar para o motor.
Outra estrutura aprimorada pelos fabricantes de automóveis com o objetivo de limitar a emissão de poluição foi a câmara de combustão, o local onde ocorrem as explosões da mistura ar-combustível. “Ao melhorar a eficiência da queima da mistura, os carros diminuem a emissão de substâncias poluentes. Isso ajudou a reduzir a emissão de aldeídos pelos automóveis movidos a etanol”, diz o engenheiro químico Alfredo Sílvio Castelli, diretor da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA).
O desenvolvimento de motores se deu, em larga medida, em função da aprovação de programas e leis ambientais mais restritivas. Com o objetivo de reduzir e controlar a contaminação atmosférica por fontes móveis, o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) lançou em 1986 o Proconve, que estabeleceu prazos, limites máximos de emissão para automóveis nacionais e importados. “Antes da regulamentação das emissões no país com o Proconve, os fabricantes de automóveis projetavam seus modelos focando em dois fatores principais: o desempenho do motor e o consumo de combustível. Não se priorizavam as emissões”, conta Pereira. “Com o Proconve, o controle das emissões passou a ser prioritário no desenvolvimento de novos veículos.”

Desde a implantação do programa, o limite de aldeídos vem caindo continuamente. Durante sua primeira fase, não havia um padrão para emissão desses compostos orgânicos formados por uma combinação de átomos de carbono, oxigênio e hidrogênio. A partir da segunda etapa do Proconve, em 1992, ficou estabelecido que os automóveis deveriam sair da fábrica emitindo no máximo 150 miligramas (mg) da substância por quilômetro rodado. Cinco anos depois, na terceira fase, esse valor caiu para 30 mg e atualmente, na quinta fase, o limite é de 20 mg por quilômetro rodado. “O Proconve, definitivamente, ajudou a melhorar a qualidade do ar das cidades brasileiras. Hoje, os chamados veículos leves fabricados no Brasil, grupo que engloba os automóveis, os utilitários e as camionetas, obedecem a um limite de emissão de poluentes no mesmo padrão do encontrado nos Estados Unidos”, diz Castelli. “Os carros movidos a etanol no passado emitiam uma quantidade maior de acetaldeído do que os automóveis flex fabricados hoje”, afirma. “O estudo é interessante por mostrar como se encontra atualmente a atmosfera da Região Metropolitana de São Paulo”, opina o engenheiro Francisco Emilio Nigro, professor da Escola Politécnica da USP e assessor técnico da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo.
Concentração localizada
O estudo realizado no IAG da USP mediu não apenas a concentração de acetaldeído no ar de São Paulo, mas também de formaldeído – outro tipo de aldeído, emitido principalmente por veículos movidos a diesel ou a gasolina – e de óxidos de nitrogênio (NO e NO2) e de ozônio (O3). As amostras analisadas foram coletadas no telhado do edifício do IAG no campus da USP no bairro do Butantã, na zona oeste de São Paulo, entre junho de 2012 e maio de 2013. Na comparação com estudos anteriores, verificou-se um acréscimo na concentração de formaldeído – 8,6 ppb agora, ante 5,4 ppb três décadas atrás.

O trabalho também compilou medições da concentração de aldeídos dentro de túneis na cidade de São Paulo realizadas nos últimos 20 anos. “A vantagem das medidas nesses locais é que elas isolam os poluentes emitidos pelos veículos daqueles liberados por outras fontes, como indústrias ou queimadas, e também dos poluentes formados por reações fotoquímicas na atmosfera”, explica Nogueira. Foram comparadas concentrações principalmente de três túneis na capital paulista: Presidente Jânio Quadros, Maria Maluf e um do Rodoanel. Os dados revelam uma redução acentuada de acetaldeído, de 60 ppb, no túnel Jânio Quadros em 2004, para 13,3 ppb no mesmo túnel em 2011. Quanto ao formaldeído, a redução foi de 50 ppb para 10,3 ppb.
Os resultados completos da pesquisa estão descritos em um artigo publicado na ediçãoon-line, em setembro, da revista Fuel. A importância de estudar a concentração na atmosfera de compostos orgânicos voláteis, como formaldeído e acetaldeído, e de óxidos de nitrogênio é que eles, indiretamente, interferem no clima. Ambos são substâncias que, em condições ideais de temperatura e radiação solar, sofrem reações fotoquímicas, dando origem a poluentes secundários como o ozônio. “Esse poluente frequentemente ultrapassa os padrões de qualidade do ar na Região Metropolitana de São Paulo”, diz Maria de Fátima Andrade, professora do IAG e coautora do estudo. “Há uma relação entre os compostos primários e secundários que faz a queima do etanol, apesar de diminuir a poluição primária, não ter melhorado a secundária”, diz. Os primários são os aldeídos, monóxido de carbono, óxidos de nitrogênio, óxido de enxofre e hidrocarbonetos, e entre os secundários está o ozônio. Segundo Maria de Fátima, o ozônio formado na troposfera (camada mais próxima da superfície terrestre) contribui para o aquecimento local, diferentemente do ozônio existente na estratosfera (nível mais elevado da atmosfera), que tem a função de absorver radiação solar, impedindo que grande parte dos raios ultravioleta chegue à Terra.
“Apesar da redução de alguns dos compostos precursores de ozônio, como o acetaldeído, a concentração desse gás não tem diminuído nos últimos anos em São Paulo. É importante estudar o que está determinando esse comportamento. Será que não cai por conta da diferença entre os compostos orgânicos voláteis e os óxidos de nitrogênio? E qual o papel do etanol na produção de ozônio em São Paulo? Essas são perguntas que ainda precisam ser respondidas”, afirma Maria de Fátima. O estudo que detectou a queda de concentração de acetaldeído em São Paulo foi feito no âmbito do projeto temático, com duração de quatro anos, coordenado pela professora do IAG e iniciado em 2011.
Projetos1. Narrowing the uncertainties on aerosol and climate changes in São Paulo State – nuances-Sps (nº 2008/58104-8); Modalidade Auxílio Pesquisa – Programa de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais – Projeto Temático; Pesquisadora responsável Maria de Fátima Andrade (USP); Investimento R$ 2.083.587,98 e US$ 1.314.236,24 (FAPESP)
2. Avaliação das emissões veiculares de compostos orgânicos e inorgânicos provenientes da combustão de biocombustíveis e suas contribuições na qualidade do ar na RMSP (nº 2011/18777-6); Modalidade Bolsa no País – Regular – Pós-doutorado;Pesquisadora responsável Maria de Fátima Andrade (USP); Bolsista Thiago Nogueira (USP); Investimento R$ 267.841,44 (FAPESP).
Fonte: http://revistapesquisa.fapesp.br/2014/10/09/ar-mais-limpo/

sábado, 17 de maio de 2014

Energia renovável gera 6,5 milhões de empregos no mundo

Energia renovável gera 6,5 milhões de empregos no mundo


Sérgio Abranches

A Associação Internacional de Energia Renovável estimou que os empregos renováveis, criados pela indústria de energia renovável – que exclui as grandes hidrelétricas – chegaram a 6 milhões e 500 mil em 2013. Houve um crescimento de 14,5% em relação a 2012, quando esses empregos chegaram a 5 milhões e 700 mil.Os maiores empregadores foram China, com pouco mais de 2 milhões e 600 mil empregos, Europa, com 1 milhão 250 mil,  Brazil, com perto de 900 mil, Estados Unidos, com 600 mil, e Índia, com 400 mil. Na Europa, a Alemanha é de longe o maior gerador de empregos em energia renovável, com mais de um terço do total da região, quase 400 mil empregos. Espanha também é grande empregadora, com mais de 100 mil empregos no setor de renováveis.
O relatório, Renewable Energy and Jobs: Annual Review 2014, mostra que os setores mais dinâmicos são os de geração elétrica solar fotovoltaica e eólica. Os setores de biocombustíveis líquidos, biomassa moderna e biogás também são grandes geradores de empregos.

Renewable jobs
Empregos Renováveis 2013 – IRENA

Hoje há quase 2 milhões e 300 mil pessoas empregadas no setor de geração solar fotovoltaica em todo o mundo (metade na China) e mais de 800 mil no setor de geração eólica de eletricidade. Em ambos, principalmente em instalação e manutenção de centrais. Mas o setor de manufatura também tem se mostrado bastante dinâmico. O segundo maior empregador, depois da solar, é o setor de biocombustíveis líquidos, com quase 1 milhão e meio de empregos. Biomassa, emprega quase tanta gente quanto eólica com quase 800 mil empregos. A China é quem gera mais empregos nas indústrias solar fotovoltaica e eólica. O Brasil é forte empregador em biocombustíveis líquidos, biomassa e eólica.
Countries
Países com mais empregos renováveis 2013 – IRENA
São empregos de melhor qualificação e mais bem remunerados que os empregos das indústrias tradicionais. Para manter esse dinamismo, diz o relatório, três fatores são cruciais: políticas de energia renovável estáveis e previsíveis (coisa que o Brasil hoje certamente não tem, com temos visto ao longo dessa crise de energia que atravessamos), educação e treinamento de qualidade. Em muitos países já se experimentam dificuldades para encontrar trabalhadores qualificados. Em eólica, profissionais para desenvolver projetos, técnico de serviços e manutenção, engenheiros especializado elétricos, de computação, mecânicos e construção, inspetores de instalações estão em falta. No setor de fotovoltaica, faltam também engenheiros especializados elétricos, de operação e manutenção. Em bioenergia, faltam engenheiros capacitados para pesquisa e desenvolvimento, técnicos em manutenção e serviços especializados e pessoal de treinamento.
No Brasil, diz o relatório, a maior indústria de energia renovável é a da bioenergia, principalmente bioetanol que gera quase 540 mil empregos diretos e biodiesel, com em torno de 80 mil empregos diretos. A geração eólica vem em seguida. Um setor muito novo no Brasil, mas já criou mais de 30 mil empregos diretos. O relatório acentua que o setor de bioenergia está em processo de mudança contínua e de longo alcance. A crescente mecanização do cultivo e corte da cana reduziu o número de empregos diretos, segundo o relatório, de perto de 460 mil, em 2006, para perto de 330 mil, em 2012. Ao mesmo tempo, os empregos na produção de etanol aumentaram de quase 180 mil, em 2006, para mais de 200 mil, em 2012, informa o relatório com base nos dados da RAIS/MTE (2014). Mas o emprego na produção caiu entre 2012 e 2009-2011. Neste último período, era de quase 215 mil.
O que o relatório não diz,   é que a mecanização é uma medida positiva e desejável, tanto em termos humanos, quanto ambientais. O corte manual da cana, sobretudo, é extremamente danoso à saúde dos trabalhadores, reduzindo dramaticamente sua expectativa de vida. A queima da palha da cana, necessária para o corte manual, tanto para facilitar o trabalho, quanto para eliminar o risco de picada de cobras venenosas, gera material particulado que contém elementos cancerígenos, comprovados em várias pesquisas científicas. Além disso, é um poluente muito tóxico, que reduz a qualidade do ar das cidades vizinhas às plantações e compromete a saúde pública. Os trabalhadores que são reempregados nas próprias fazendas/usinas de cana, conseguem empregos de melhor qualidade e recebem qualificação para poderem exercê-los. O desemprego daqueles que a indústria não consegue reempregar, embora também recebam qualificação para melhorar sua empregabilidade, não pode e não deve servir de justificativa para interromper a mecanização.
Outra questão que o relatório não chega a mencionar é a crise em que a indústria de bioenergia, principalmente do bioetanol se encontra há anos, pelos impactos combinados de eventos climáticos extremos, que levaram a sucessivas quebras de safras, e erros de política governmental. O subsídio à gasolina e a falta de incentivos ao investimento para renovação dos canaviais, reduziram a competitividade e a produtividade do etanol e fazem os motores flex serem 80% motores a gasolina. Além disso, a falta de estímulos e políticas adequados induz a indústria a certa inércia tecnológica, que mantém os motores flex menos eficientes no uso do álcool.

sábado, 26 de abril de 2014

‘Gelo de fogo’ escondido em permafrost é fonte de energia do futuro?

‘Gelo de fogo’ escondido em permafrost é fonte de energia do futuro?

O mundo é viciado em combustíveis fósseis (petróleo, carvão e gás natural), e é fácil entender o por que: baratos, abundantes e fácil de extrair, eles alimentam o desenvolvimento da indústria mundial.
Cada vez mais, porém, os governos vêm buscando alternativas aos hidrocarbonetos tradicionais – seja porque são altamente poluentes ou porque sua extração tem se tornado mais difícil, à medida que algumas reservas vão se esgotando.
Um substituto potencial – em enormes quantidades – foi encontrado e repousa profundamente sob permafrost (solo gelado do Ártico) ou os leitos dos oceanos: o hidrato de metano.
Apesar de potencialmente menos poluente que petróleo e carvão, porém, sua extração apresenta enormes riscos ambientais.
Reservas gigantes – Conhecido como ‘gelo que arde’, o hidrato de metano consiste em cristais de gelo com gás preso em seu interior. Eles são formados a partir de uma combinação de temperaturas baixas e pressão elevada e são encontrados no limite das plataformas continentais, onde o leito marinho entra em súbito declive até chegar ao fundo do oceano.
Acredita-se que as reservas dessa substância sejam gigantescas, observa Chris Rochelle, do Serviço Geológico Britânico. A estimativa é de que haja mais energia armazenada em hidrato de metano do que na soma de todo petróleo, gás e carvão do mundo.
Ao reduzir a pressão ou elevar a temperatura, a substância simplesmente se quebra em água e metano – muito metano.
Um metro cúbico do composto libera cerca de 160 metros cúbicos de gás, o que o torna uma fonte de energia altamente intensiva. Por causa disso, da sua oferta abundante e da relativa facilidade para liberar o metano, um número grande de governos está cada vez mais animado com essa nova fonte de energia.
Desafios técnicos – O problema, porém, é extrair o hidrato de metano. Além do desafio de alcançá-lo no fundo do mar, operando sob altíssima pressão e baixa temperatura, há o risco grave de desestabilizar o leito marinho, provocando deslizamentos.
Uma ameaça ainda mais grave é o potencial escape de metano. Extrair o gás de uma área localizada não é tão complicado, mas prevenir que o hidratado se quebre e libere o metano no entorno é mais difícil.
E isso tem consequências sérias para o aquecimento global – estudos recentes sugerem que o metano é 30 vezes mais danoso que o CO2.
Por causa desses desafio técnicos, ainda não há escala comercial de produção de hidrato de metano em qualquer lugar do mundo. Mas alguns países estão chegando perto.
Os Estados Unidos, o Canadá e o Japão já investiram milhões de dólares em pesquisa e já realizam alguns testes, desde 1998. Os mais bem sucedidos ocorreram no Alasca em 2012 e na costa central do Japão em 2013, quando, pela primeira vez, houve uma exitosa extração de gás natural a partir de hidrato de metano no mar.
Os Estados Unidos lançaram um programa de pesquisa e desenvolvimento nacional já em 1982 e, em 1995, tinham terminado a sua avaliação dos recursos disponíveis do gás de hidratos no país. Desde então, têm realizado projetos-piloto na costa da Carolina do Sul, no norte do Alasca e no Golfo do México. Cinco ainda estão em execução.
Exploração comercial – O interesse do Japão é óbvio, assinala Stephen O’Rourke, da empresa de consultoria energética Wood Mackenzie: ‘Japão é o maior importador de gás do mundo’.
No entanto, ele ressalta que o orçamento anual do Japão para pesquisa na área é relativamente baixo – US$ 120 milhões (cerca de R$ 270 milhões). Os planos do país de produzir em escala comercial no fim desta década, portanto, parecem muito otimista. Mas mais à frente, o potencial é enorme.
‘O gás metano pode mudar o jogo para o Japão’, diz Laszlo Varro, da Agência Internacional de Energia (IEA).
Em outros países, porém, os incentivos para explorar o gás comercialmente são menores por enquanto. Os Estados Unidos estão priorizando suas reservas de gás de xisto, recurso que também é abundante no Canadá. Já a Rússia ainda tem enormes reservas de gás natural.
A China e a Índia, com sua feroz demanda por energia, são uma história diferente. No entanto, eles estão muito atrás em seus esforços para explorar o recurso.
‘Houve alguns progressos recentes, mas não prevemos produção comercial antes de 2030′, afirma O’Rourke. De fato, a IEA não incluiu gás hidratado nas suas projeções globais de energia para os próximos 20 anos.
Riscos – Mas se essa fonte for explorada, o que parece provável no futuro, as implicações ambientais podem ser extensas.
Apesar de ser menos poluente que o carvão ou o petróleo, continua sendo um hidrocarboneto e, portanto, emite CO2. E há ainda o risco mais sério da liberação direta de metano na atmosfera.
Alguns argumentam, porém, que pode não haver alternativa, na medida em que o aumento da temperatura global pode provocar a liberação do gás ‘naturalmente’, devido ao aquecimento dos oceanos e ao derretimento das calotas polares.
‘Se todo o metano for liberado, nós vamos ver um cenário de filme Mad Max’, diz Varro. ‘Mesmo usando estimativas conservadoras sobre as reservas de metano, isso faria todo o CO2 de recursos fósseis parecer uma piada’, destacou.
‘Por quanto tempo o gradual aquecimento global pode prosseguir sem liberar o metano? Ninguém sabe. Mas quanto mais ele avança, mais perto chegamos de jogar roleta russa’, acrescentou.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Tensão e medo sobre um mar de petróleo

Tensão e medo sobre um mar de petróleo



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Aliada histórica de Washington, Arábia Saudita sente-se isolada e revê aliança. Que muda na geopolítica do Oriente Médio e do mundo?
Por Immanuel Wallerstein | Tradução Eduardo Sukys
Há tempos o regime saudita é considerado um pilar da estabilidade política no Oriente Médio, um país que sempre exigiu respeito e prudência de todos os seus vizinhos. Isso não é mais verdade, e os primeiros a reconhecer isso são personagens internos importantes do regime. Hoje, eles sentem-se ameaçados de todos os lados e bastante temerosos sobre as consequências da agitação no Oriente Médio com relação à sobrevivência do regime.
Essa reviravolta é resultado da história da Arábia Saudita. O próprio reino não é muito antigo. Foi criado em 1932 por meio da unificação de dois reinos menores na península árabe, Hejaz e Nejd. Era uma parte pobre e isolada do mundo, que havia acabado de se libertar do governo otomano durante a Primeira Guerra Mundial e acabara sob a égide paracolonial da Grã-Bretanha.
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O reino foi organizado em termos religiosos por uma versão do Islã Sunita chamada Wahabismo (ou Salafismo). Wahabismo é uma doutrina puritana muito rígida, conhecida não apenas por sua intolerância diante de religiões diferentes do Islã, mas também em relação a outras versões do próprio Islã.
A descoberta do petróleo transformou o papel geopolítico da Arábia Saudita. Foi uma empresa americana, chamada posteriormente de Aramco — e não uma empresa britânica — que conseguiu os direitos de prospecção, em 1938. A Aramco buscou assistência do governo americano para a exploração dos campos.
Em 14 de fevereiro de 1945, como consequência do interesse da Aramco combinado com a visão do Presidente Franklin Roosevelt sobre o futuro geopolítico dos Estados Unidos, ocorreu uma reunião, hoje famosa, mas pouco noticiada naquele tempo, entre Roosevelt e o rei da Arábia Saudita, Ibn Saud, a bordo de um destróier americano no Mar Vermelho. Apesar da doença grave de Roosevelt (ele morreria dois meses depois) e da falta de qualquer experiência de Ibn Saud com a cultura e tecnologia ocidental, os dois líderes conseguiram estabelecer um respeito mútuo real. A tentativa do primeiro-ministro Britânico, Winston Churchill, de desfazer o acerto em uma reunião que organizou imediatamente após a anterior mostrou-se muito contraproducente, pois ele foi visto como “arrogante” por Ibn Saud.
Embora grande parte da discussão privada de cinco horas entre Roosevelt e Ibn Saud tenha sido dedicada às questões do Sionismo e da Palestina – sobre as quais tinham opiniões totalmente diferentes – a consequência real e de longo prazo foi na verdade um acordo no qual a Arábia Saudita coordenaria e controlaria as políticas de produção mundial de petróleo em benefício dos Estados Unidos que, por sua vez, ofereceriam garantias de longo prazo de segurança militar à Arábia Saudita.
A Arábia Saudita desenvolveu uma verdadeira dependência paracolonial perante os Estados Unidos, o que permitiu à riquíssima família real enriquecer ainda mais e se “modernizar”, não apenas com relação ao uso de tecnologia, mas até mesmo em um sentido cultural, burlando, em suas próprias vidas, muitas das restrições do Wahabismo. Foi um acordo apreciado e alimentado pelos dois lados. E funcionou bem até a metade final da primeira década do ano 2000. Dois eventos importantes perturbaram o acordo. Um deles foi o declínio geopolítico dos Estados Unidos. O segundo foi a chamada Primavera Árabe, e o que os sauditas consideraram como suas consequências negativas em todo o mundo árabe.
Do ponto de vista da Arábia Saudita, o relacionamento com os Estados Unidos azedou por diversos motivos. Primeiro, os sauditas sentiram que a reorientação “Ásia-Pacífico” anunciada pelos Estados Unidos, em substituição à orientação de longa data “Europa-Atlântico”, significava um recuo no envolvimento ativo na política do Oriente Médio.
Os sauditas perceberam mais provas dessa reorientação na disposição dos Estados Unidos em entrar em negociações com os governos da Síria e do Irã. Eles também ficaram perturbados pelo anúncio da retirada das tropas do Afeganistão e com a relutância clara, por parte de Washington, em participar de outra “guerra” no Oriente Médio. Sentiram que não podiam mais contar com a proteção militar dos EUA, caso necessitassem. Portanto, decidiram jogar de forma independente dos EUA e contra as preferências norte-americanas.
Enquanto isso, sua relação com outros grupos islâmicos ficou cada vez mais difícil. Tornaram-se extremamente cautelosos com relação a qualquer grupo vinculado à Al-Qaeda. E por um bom motivo, uma vez que a Al-Qaeda já havia deixado claro que desejava destituir o regime saudita existente. O regime reocupava-se especialmente com os cidadãos sauditas que foram para Síria a fim de ingressar na Jihad. Seu temor, lembrando o passado, era que essas pessoas voltassem para a Arábia Saudita e a implodissem. Realmente, em 3 de fevereiro, por decreto do próprio rei (algo raro), os sauditas ordenaram que todos os seus cidadãos retornassem. Procuraram controlar este retorno e pretendiam dispersar os que voltavam, a fim de minimizar sua capacidade de criar organizações internas. Parece duvidoso que esses jihadistas obedeçam. Eles consideraram esse decreto um abandono, por parte do regime saudita.
Além dos possíveis partidários da Al-Qaeda, o regime saudita já tem, há tempos, um relacionamento complicado com a Irmandade Muçulmana. Embora a versão de Islã da Irmandade também fosse salafista, e em muitas formas parecida com o Wahabismo, havia duas diferenças cruciais. A base principal da Irmandade Muçulmana era Egito, enquanto a base Wahabita estava na Arábia Saudita. Essa relação sempre foi em parte uma competição sobre o local da força geopolítica dominante no Oriente Médio.
Há uma segunda diferença. Devido à sua história, a Irmandade Muçulmana sempre teve um pé atrás com os monarcas, considerando o Wahabismo sempre vinculado à monarquia saudita. Por isso, o regime saudita não recebe bem a difusão de um movimento que não se importaria com sua eventual destruição.
Embora antes houvesse uma relação boa com o regime Baathista na Síria, isso tornou-se impossível agora, devido à polarização cada vez maior entre sunitas e xiitas no Oriente Médio.
A falta de apreço dos sauditas por secularistas, simpatizantes da Al-Qaeda, partidários da Irmandade Muçulmana e pelo regime xiita Baathista torna difícil apoiarem alguém na Síria de hoje. Porém, não apoiar ninguém não projeta uma imagem de liderança. Dessa forma, os sauditas enviam algumas armas a alguns poucos grupos e fingem fazer muito mais.
O grande inimigo é realmente o Irã? Sim e não. Mas para limitar o dano, o regime saudita está secretamente envolvido em conversas com os iranianos. O resultado dessas conversas é muito incerto, já que os sauditas acreditam que os iranianos querem incentivar uma explosão dos xiitas na Arábia Saudita. Embora as dimensões reais deste grupo sejam incertas (provavelmente em torno de 20% da população saudita), ele está concentrado no sudeste do país, precisamente na área de maior produção de petróleo.
O único regime com o qual os sauditas estão em paz atualmente é o israelense. Ambos compartilham a sensação de ameaça e medo. E ambos utilizam as mesmas táticas políticas de curto prazo.
O fato é que o regime saudita esconde poeira debaixo do tapete. A elite interna está mudando da chamada segunda geração, dos filhos de Ibn Saud (os poucos filhos sobreviventes estão bem idosos), para os netos. Eles são um grupo grande e inexperiente, que pode ajudar a derrubar a casa real devido à competição pelos espólios, que ainda são consideráveis.
Os sauditas têm um bom motivo para se sentirem ameaçados e temerosos.