Páginas

Mostrando postagens com marcador CONTINENTE AFRICANO. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador CONTINENTE AFRICANO. Mostrar todas as postagens

sábado, 4 de abril de 2015

O lixão pontocom da África

O lixão pontocom da África


Em Accra, capital de Gana, acumulam-se os detritos tecnológicos do mundo rico. Por Kauê Lopes

por Kauê Lopes — publicado 04/04/2015

Lixão
Os moradores vivem da coleta de computadores, DVDs, celulares etc. Ganham de 20 centavos a 10 dólares por dia
Andrew McConnell/Alamy/Latinstock

De Accra
Doze mil quilômetros separam Acra, a capital de Gana, do Vale do Silício, Califórnia, Estados Unidos, centro da revolução tecnológica do século XXI. Há, no entanto, outra distância maior do que a geográfica. Acra e o Vale do Silício estão no extremo de um ciclo de vida. Computadores, tablets e celulares nascem da cabeça de nerds sob o sol californiano e morrem e são descompostos no distrito de Agbogbloshie, periferia africana.
Densamente povoada por migrantes do norte do país e por imigrantes da Costa do Marfim, do Togo e de Burkina Fasso, Agbogbloshie carece de infraestrutura. Não há saneamento básico, pavimentação nas ruas ou áreas de lazer. Restos de madeira, plástico e metal formam a precária estrutura das casas. Nada mais parecido com qualquer favela de qualquer país pobre do mundo, não fosse um fato: um certo toque de ficção científica acrescentado à paisagem pelas montanhas de carcaças de computadores, tevês, fotocopiadoras, DVDs e celulares, como em uma aventura distópica de Philip K. Dick. Os “cadáveres” chegam diariamente em caminhões vindos da região portuária da cidade e transformam Agbogbloshie em um dos maiores lixões de eletroeletrônicos do planeta.
O cemitério permitiu o florescimento de um mercado paralelo e informal. Mais de 30 mil africanos de diferentes idades, crianças incluídas, ocupam-se de duas atividades, do conserto e venda de eletrônicos que ainda podem ser recuperados ou da extração de metais valiosos do entulho, entre eles prata, aço e cobre.
O rendimento do trabalho varia. Segundo Titi, taxista que durante três anos coletou minérios no lixão, o ganho médio diário oscila de 20 centavos a 10 dólares. A jornada de trabalho chega a 13 horas por dia, 7 dias por semana. No outro lado do mundo, no Vale do Silício, as fortunas acumulam-se em nanossegundos. De acordo com a revista Forbes, no último ano a fortuna de Bill Gates, fundador da Microsoft, aumentou em 3 bilhões de dólares, número que provavelmente os catadores do lixão ganense seriam incapazes de calcular.
Expostos a diversos tipos de riscos e doenças associadas ao lixo eletroeletrônico, os trabalhadores executam as atividades desprovidos de equipamentos de proteção, e muitos trabalham sem camisa e descalços. O maior risco vem da inalação de substâncias tóxicas que derivam da queima de fios de plástico, técnica utilizada para extrair o minério de cobre em seu interior. Além de interferir na saúde respiratória dos trabalhadores, a queima de lixo eletrônico contamina alimentos comercializados nos mercados da região, pois a fumaça carrega diferentes metais pesados, além do dióxido de carbono, facilmente depositados nas cascas de frutas e verduras expostas ao ar livre.
O cheiro de Agbogbloshie é indescritivelmente forte e ácido. O calor e a umidade não aliviam a sensação. Sem o menor sinal de vida, o Rio Odaw, que corta o lixão, lentamente carrega pedaços de plástico e de metal dispensados pelos trabalhadores, em uma versão piorada do Tietê paulistano. Cachorros e vacas famintos em busca das escassas gramas e de restos de comida dividem o espaço com os trabalhadores, enquanto as crianças jogam futebol com bolas improvisadas de isopor.
A maioria das carcaças eletrônicas de Agbogbloshie chega da Europa e da América do Norte. Sua liberação nos portos de Gana justifica-se por acordos comerciais cujo propósito, em tese, é ampliar o acesso da tecnologia aos desfavorecidos em países subdesenvolvidos. Em outras palavras, um europeu dono de um computador velho em casa, quebrado ou não, pode enviar o equipamento a algum país africano baseado no altruísta objetivo de propiciar acesso ao “mundo digital” a negros e mulatos pobres das periferias. É uma dupla limpeza: da casa propriamente dita e da consciência.
Apesar de veementemente condenado pela Convenção da Basileia, realizada em 1989, na Suíça, o fluxo de lixo eletrônico continua intenso, de modo que os lixões eletroeletrônicos se espalham por outros países africanos (Egito, Nigéria e Quênia já têm os seus) e na Ásia (incluídos os emergentes Índia e China).
O governo de Gana tenta organizar os trabalhadores em cooperativas, mas a miséria e a ignorância predominam no cemitério de Agbogbloshie e dificultam as iniciativas. O objetivo é sobreviver. Se esse fosse o texto de um programa do National Geographic Channel, o locutor encerraria: “E assim a vida se renova (no mundo digital)”.
*Reportagem publicada originalmente na edição 842 de CartaCapital, com o título "Lixão pontocom"
Fonte: http://www.cartacapital.com.br/revista/842/lixao-pontocom-4750.html

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

A riqueza da Nigéria e os ataques fundamentalistas

A riqueza da Nigéria e os ataques fundamentalistas


Ali está uma das maiores reservas de minério fóssil do mundo, cerca de um milhão de quilômetros quadrados de puro petróleo (...)Apesar de ser um país laico é justamente a religião que vem sendo usada para dar vazão aos desejos de apropriação da riqueza
14/01/2014
Por Elaine Tavares*
A riqueza que se esconde sob o solo da Nigéria é sua desdita. Ali está uma das maiores reservas de minério fóssil do mundo, cerca de um milhão de quilômetros quadrados de puro petróleo. Há jazidas de outros minérios, mas o principal é o óleo negro, que representa 20% do Produto Interno Bruto do país, 95% das exportações e 80% da receita nacional. Não é sem razão que a guerra esteja corroendo seu território e matando sua gente. A lógica da terra arrasada para melhor dominação ainda segue em vigência naquelas paragens e nesse caldo de guerra à morte pelas riquezas, é a religião que vem sendo usada para “justificar” a barbárie. Em nome de “deus” grupos de várias cores se digladiam para tomar conta do petróleo.

Nos últimos meses o chamado “grupo radical islâmico” Boko Haram tem protagonizado uma série de ataques, de requintado terror com o objetivo de, segundo pregam, estabelecer a Sharia (lei islâmica) nos 36 estados que conformam o país. A Nigéria tem hoje 174 milhões de habitantes, sendo o país mais populoso do continente e o sétimo país mais populoso do mundo. Convivem no seu território mais de 500 grupos étnicos, mas os mais expressivos são os hauçás, os igbos e os iorubás. Do ponto de vista religioso o país é praticamente dividido entre os que professam a fé cristã (mais centrados no sul) e os muçulmanos (ao norte), mas também há os que praticam as religiões tradicionais como as igbo e iorubá.
Apesar de ser um país laico é justamente a religião que vem sendo usada para dar vazão aos desejos de apropriação da riqueza. Nascido no norte, onde predominam os muçulmanos o grupo Boko Haram foi fundado em 2002, na cidade de Maiduguri, no Estado de Borno, por Ustaz Mohammed Yusuf, que o liderou até 2009. Hoje o comando está nas mãos de Abubakar Shekau e a sede foi levada para a cidade de Kanamma, onde fica o que chamam de central operativa "Afghanistan". Desde ali, o grupo vem realizando sequestros e atentados contra as forças policiais nigerianas e contra a população civil.
Desde o final de 2001 que o norte do país vive em estado de alerta e o governo chegou a declarar estado de emergência em função da sequência de atentados e ações violentas, inclusive contra centros educacionais, já que eles acreditam ser a educação laica um grande mal. Até o ano passado, essa luta era considerada uma questão interna e não havia muita informação sobre o grupo. Mas, no início de 2014, o ataque a uma escola cristã, no qual os integrantes do Boko Haram queimaram vivas 60 crianças, colocou o problema em evidência nos jornais europeus. Pouco depois o grupo invadiria a cidade de Bama, num ataque violento deixando milhares de vítimas e famílias desalojadas.
O mês de abril trouxe mais uma notícia envolvendo o Boko Haram. Militantes invadiram outra escola, desta vem em Jibik, seguindo com a campanha contra a educação ocidental e sequestraram mais de 200 meninas, as quais o líder prometeu colocar à venda depois de convertê-las ao islã. Relatos de meninas que conseguiram escapar – divulgados nos jornais europeus - dão conta de violações sexuais e outras torturas, além da degola quando se recusavam a conversão.

Conheça o país

A Nigéria congrega atualmente quase um quarto da população do Oeste Africano. Embora menos de 25% estejam vivendo na zona urbana, existem cerca de 24 cidades com população de mais de 100.000 habitantes. O país tem uma grande taxa de fecundidade e um exponencial crescimento populacional. O Departamento de Recenseamento dos Estados Unidos, que está de olho no país, estima que a população da Nigéria atingirá 356 milhões em 2050 e 602 milhões em 2100, ultrapassando os próprios Estados Unidos como o terceiro país mais populoso do mundo.
A Nigéria está de frente para o oceano atlântico, na parte oeste do continente africano, bem na voltinha que se encaixaria no nordeste brasileiro na mítica Gaia. Faz divisa com Camarões, Benim, Níger e Chade. No seu território está parte do maciço de Adamawa, ou as Montanhas Gotel, com 2419 metros, em Chappal Waddi, o ponto mais elevado do país. Seu tamanho é um pouco maior do que o estado brasileiro do Mato Grosso e língua oficial  é o inglês.
Antes da dominação portuguesa e britânica o território era espaço do império Kanem-Bornu, que dominou a parte norte da Nigéria por mais de 600 anos. Era uma próspera rota de comércio entre os norte-africanos e o povo da floresta. Ao longo de sua história o povo daquele lugar constituiu sistemas de organização política muito bem elaborados, tanto que em 1471 quando os portugueses desceram pelo litoral africano encontraram uma corte próspera com a qual estabeleceram, em princípio, laços comerciais até o fim do século XVI, quando começou com mais intensidade o trafico de escravos.
Durante os séculos que se seguiram os portugueses e os britânicos dominaram a região estabelecendo entrepostos para a realização do melhor negócio daqueles tempos, que era o tráfico humano. No ano de 1886 foi criada a Companhia Real do Níger, sob o comando da Inglaterra e em 1900 esse país europeu já fincava suas garras no lugar, criando os protetorados. Em 1914 formaram a colônia da Nigéria, cujo nome surgiu da fusão entre as palavras Niger (do rio Níger) e area (palavra inglesa para "área"), e foi dado pela mulher do Barão Lugard, que administrava o território naqueles dias.
A independência veio no ano de 1960, no rastro de todo o processo de libertação que tomou conta do continente. Mas, de qualquer forma, a ascendência inglesa continuou, pois havia riqueza demais para ser deixada para trás. Internamente o país seguiu em convulsão e em 1966 grupos militares se enfrentam na disputa pelo poder. A etnia mais expressiva, a dos igbos, chegou a declarar independência em 1967, criando, a partir de uma sangrenta guerra civil, a República de Biafra. Mas, ao final foram derrotados. Desde aí o país vem passando por sucessivos golpes e alguns momentos de governo civil. Atualmente, o presidente é Goodluck Jonathan que, sendo vice, assumiu o cargo em função da morte de Umaru Yar´Adua, escolhido em eleições livres na chamada Quarta República iniciada em 1999, quando retomou-se democracia, o que no caso da Nigéria foi a retomada das eleições e o fim do segundo regime militar.
Nas análises recolhidas dos periódicos europeus – que dão maior cobertura à política dos países africanos – há uma generalizada crença de que o presidente Goodluck tem sido bastante fraco na ação contra o chamado “grupo radical”. E há que se levar em conta também a sistemática intervenção das potências ocidentais na região. Os britânicos seguem por lá. Os Estados Unidos tem uma base militar justamente na fronteira norte do país, a qual rastreia com seus drones. Há quem defenda que o Boko Haram tenha sido – tal qual o Al Kaeda – criado pela inteligência estadunidense para desestabilizar o país tornando-o alvo seguro para uma ocupação. Não nos esqueçamos que ali estão grandes reservas petrolíferas. Além disso, a Nigéria vem se destacando como uma grande potência regional. O seu PIB, em 2013, foi o maior do continente, 500 bilhões de dólares. O pequeno país é uma mina de ouro, enquanto a sua população vive entre a pobreza extrema e a ameaça de extermínio. O país tem os piores índices de qualidade de vida. Uma contradição só explicada pela voracidade da classe dirigente, sempre aliada aos interesses estrangeiros. Hoje, o rentismo petroleiro é prioritário. A economia tradicional, baseada no cultivo do cacau, café, banana e azeite de dendê está entregue às moscas e o país importa alimentos.
Recrudesce a ação do Boko Haram
Nas últimas semanas as ações do grupo islâmico fundamentalista voltaram a tomar conta das manchetes. Além de seguir com o rapto de crianças, o grupo as utiliza como bombas vivas nos ataques que realiza pelo norte e noroeste do país. Poucos jornais arriscam dizer o número seguro de vítimas provocadas pelo grupo, mas já passam de milhares. As técnicas são justamente o assassínio em massa, as ações suicidas, violações e o uso dos prisioneiros  - maioria meninas  - como escravos.
Os jornais europeus dão conta de que no último dia de 2014 mais 40 crianças foram raptadas no estado de Borno. E, na semana em que ocorria o atentado na França, o Boko Haram atacou a cidade de Baga, deixando mais de dois mil mortos. Conforme relato de testemunhas ouvidas pelo jornal português “O Público”, eles chegaram atirando a esmo, matando quem encontravam pela frente, e quem se escondeu dentro de casa foi queimado vivo. O Ministério da Defesa nigeriano nega que tenham sido duas mil pessoas mortas, diz que foram “apenas” 150. As Nações Unidas não confirmam o número de mortos, mas diz que existem mais de 150 mil pessoas desalojadas e em êxodo na região norte.
O fato é que os ataques do Boko Haram podem esconder interesses bem mais profanos do que a vontade de implantar o islã. Com o fim do bloco socialista e a impossibilidade de criar o inimigo “comunista”, agora as nações ricas já consolidaram um outro inimigo comum: o “terrorista”, que, inclusive, tem cara e nome árabe. É inegável que os grupos extremistas existem e atuam de maneira ultra violenta. Mas, também é preciso considerar que muitos deles são incentivados e financiados pelos países centrais para criar o caos. Isso já aconteceu no Afeganistão, no Iraque, na Síria. Depois, eles servem de argumento para missões de ocupação estrangeiras e toda a riqueza dos países invadidos escoa para fora.
A Nigéria está em processo eleitoral, o novo presidente será escolhido agora, em 14 de fevereiro. Assim, as ações, cada dia mais violentas, do Boko Haram estão mergulhadas nesse contexto. Na segunda-feira (12/01), o grupo atacou uma base militar no vizinho país, Camarões, o que o torna ainda mais perigoso. Segundo informações de jornais europeus, a batalha durou cinco horas e 150 pessoas morreram. Também se sabe que a França tem sido um país bastante atuante na Nigéria chegando inclusive a organizar uma conferência com os presidentes da Nigéria, Camarões e Benin para constituir um plano de defesa. Como convidados especiais da reunião compareceram também a Inglaterra e os Estados Unidos. Os argumentos para a presença dessas potências e o interesse da França são de que o Boko Haram teria ligações com a Al Kaeda e poderia ser um perigo para a Europa.

Então. Tudo está ligado. Há mais coisas aí do que pode sonhar nossa capacidade de conspiração. Enquanto isso, milhares de pessoas estão em fuga.


*Com informações dos jornais O Público, El País, Euronews
Fonte: http://www.brasildefato.com.br/node/30997

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Entenda o que é o ebola e como a doença mortal se espalha

Entenda o que é o ebola e como a doença mortal se espalha


Atualizado em  5 de agosto, 2014

Ebola | Crédito: AFP
Agentes de saúde pública estão entre os que mais correm risco de contrair o Ebola
A epidemia de ebola no oeste da África é a pior de que se tem registro na história. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), 887 pessoas morreram na região por causa da doença, levando autoridades de saúde da Guiné, Libéria e Serra Leoa a correr contra o tempo para tentar controlar o vírus.

O que é o ebola?


Ebola é uma doença causada por um vírus cujos sintomas iniciais incluem febre, fraqueza extrema, dores musculares e dor de garganta, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). À medida que a doença avança, o paciente pode sofrer de vômitos, diarreias e – em alguns casos – hemorragia interna e externa.
Humanos contraem a doença por meio do contato com animais - como chimpanzés, morcegos e antílopes - contaminados.
Entre humanos, o vírus pode se espalhar por meio do contato direto com sangue contaminado, fluidos corporais ou órgãos do doente, ou mesmo por meio do contato com ambientes contaminados. Até funerais de vítimas de ebola podem representar risco, se outras pessoas tiverem contato direto com o corpo do defunto.
O período de incubação pode demorar de dois dias a três semanas, e o diagnóstico é difícil. Em humanos, a doença está limitada majoritariamente à África, embora um caso tenha ocorrido nas Filipinas.
Agentes de saúde pública também correm risco caso tratem pacientes sem tomar as precauções adequadas para prevenir a contaminação.
As pessoas permanecem contaminadas enquanto seu sangue e suas secreções contiverem o vírus – em alguns casos, até sete semanas depois da recuperação.
Ebola | Crédito: Science Photo Library
Esse modelo molecular mostra partes dos vírus do Ebola que os cientistas 
estudam na tentativa de produzir medicamentos que reduzem a propagação da doença
Ebola | Crédito: BBC

Onde a doença ocorre?

Surtos de ebola têm ocorrido primariamente em vilarejos remotos da África Central e Ocidental, segundo a OMS.
A doença apareceu originalmente na República Democrática do Congo (quando se chamava Zaire), em 1976. Desde então, se espalhou para o leste, afetando países como Uganda e Sudão.
O surto atual tem a particularidade de ter se iniciado na Guiné, que nunca tinha registrado um caso antes, e de estar se espalhando por áreas urbanas.
De Nzerekore, uma área rural no sudeste da Guiné, o vírus chegou à capital, Conakry, e aos países vizinhos Libéria e Serra Leoa.
Um homem que viajou de avião entre a Libéria e Lagos (Nigéria) em julho foi mantido em quarentena ao desembarcar e depois morreu por causa do ebola - o primeiro caso na Nigéria.
Um dos médicos que o trataram foi infectado e oito pessoas com quem ele teve contato agora estão em isolamento.
A organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) qualifica o surto de "sem precedentes", pois os casos se distribuem por áreas separadas por centenas de quilômetros na Guiné.
A ONG diz que a tarefa de acompanhar pessoas que tiveram contato com pacientes de ebola é uma "corrida contra o relógio".

Que medidas estão sendo tomadas contra o ebola?

O Banco Mundial anunciou que destinará US$ 200 milhões em caráter de urgência para ajudar Guiné, Libéria e Serra Leoa a conter a epidemia de ebola.
Centenas de soldados na Libéria e em Serra Leoa foram mobilizados para conter o pânico nas comunidades afetadas e transportar equipes médicas de um vilarejo a outro.
A Libéria já fechou escolas e a maioria das suas fronteiras e colocou em quarentena as comunidades onde o vírus foi encontrado.
Em julho, a morte de um renomado médico liberiano, Samuel Brisbane, ajudou a propagar os esforços de comunicação do governo sobre o vírus.
Em Serra Leoa, o médico que liderava os esforços contra a doença também se converteu em uma de suas vítimas.
Ebola | Crédito: AP
Ainda não há cura para o Ebola
As companhias aéreas Asky e Arik Air, que operam no Oeste da África, suspenderam seus voos para Libéria e Serra Leoa. Testes mais rigorosos estão sendo realizados em aeroportos.
No início do surto atual, o Senegal fechou sua fronteira com a Guiné.
Países asiáticos, como China e Vietnã, também estão se mobilizando para evitar a entrada do vírus em seu território, com ações como o monitoramento mais criterioso de passageiros nos aeroportos.

Quais são as precauções a ser tomadas?

Segundo a OMS, evitar o contato com pacientes de ebola e seus fluidos corpóreos. Não tocar nada em ambientes públicos que possa carregar o vírus - por exemplo, toalhas de mão.
Quem estiver cuidando de pacientes de ebola precisa usar equipamento de proteção, como luvas e máscaras, e lavar bem as mãos regularmente.
Populações em áreas rurais estão sendo aconselhadas pela OMS a não consumir carnes cruas de animais selvagens e manter a distância de morcegos, macacos e primatas. Alguns tipos de morcegos são considerados iguarias na Guiné, onde o surto teve início.
Em março, o Ministério da Saúde da Libéria aconselhou as pessoas a evitar sexo; o vírus pode ser transmitido pelo sêmen, mesmo até sete semanas depois da eventual recuperação de um paciente, observa a OMS. As recomendações já eram de evitar apertos de mão e beijos.
Ebola | Crédito: Reuters
Carnes de animais contaminados trazem riscos à população no oeste da África
Ebola | Crédito: EPA
Lavar as mãos reduz as chances de contrair a doença

O que fazer quando se contrai o vírus?

Manter-se em isolamento e procurar ajuda médica profissional. A chance de sobrevivência aumenta se o paciente começar a receber tratamento imediatamente.
Não existe vacina para o vírus, embora algumas, assim como tratamentos clínicos, estejam em testes.
Como os pacientes ficam desidratados rapidamente, a recomendação é beber líquidos que contenham eletrólitos ou receber fluídos por via intravenosa.
Segundo a Médicos Sem Fronteiras, o atual surto é causado pela variedade mais agressiva do ebola, matando entre 50% e 60% das pessoas que infecta.
Não se sabe que fatores determinam que alguns pacientes se recuperem e outros sucumbam.

Mortes por Ebola

Guiné - 358, de um total de 485 casos
Libéria - 255, de um total de 468 casos
Serra Leoa - 273, de um total de 646 casos
Nigéria - 1 de quatro casos
* Número de casos inclui prováveis casos

sábado, 21 de junho de 2014

OS “MINERAIS DE CONFLITO” DO CONGO


OS “MINERAIS DE CONFLITO” DO CONGO



Os “minerais de conflito” do Congo
(Crédito da foto de Capa: Reprodução/Conflict Minerals 101)

O conflito no leste do Congo é o que mais matou desde a Segunda Guerra Mundial e um de seus grandes combustíveis é a luta pelo controle de recursos minerais da região – essenciais para a indústria eletrônica
Por Vinicius Gomes
Às vésperas do Natal do ano 2000, um ano após infundado pânico mundial a respeito do “bug do milênio”, uma nova onda de apreensão se espalhou por diversos cantos do planeta – ainda que até hoje não seja muito conhecida. De escritórios em arranha-céus corporativos de Tóquio a lojas de brinquedos na Europa e EUA, indo para quase inacessíveis florestas tropicais da República Democrática do Congo (ou apenas Congo) até aos lares de milhares de famílias com filhos adolescentes, a preocupação era a mesma: não haverá Sony Playstation 2 para todo mundo.
O motivo, que provavelmente teria sido muito difícil para os pais explicarem aos seus filhos de por que eles não ganhariam de Natal o mais aguardado videogame do ano, era um que nem eles mesmos tinham conhecimento: em dezembro daquele ano houve escassez de uma específica mistura mineral chamada columbita-tantalita, ou apenas “coltan”, essencial para a indústria de eletrônicos por ser resistente ao calor e capaz de armazenar energia, quando refinado em pó. Há poucos anos, o coltan, junto do tungstênio, estanho e ouro, veio a ser classificado como “mineral de conflito”.
Passados 14 anos desde o Natal sem Playstation 2, já não há segredo algum sobre a realidade de como a cadeia de suprimento que abastece os smartphones, laptops e outros eletrônicos é extremamente pavorosa. Desde as condições desumanas de trabalho e contaminação por benzeno em fábricas de montagem na China à degradação sem misericórdia do meio ambiente e uso de trabalho infantil na Indonésia. Todavia, foi no contexto de um conflito no leste do Congo, que dura quase 20 anos e já matou mais pessoas que o Holocausto, que veio a público o fenômeno conhecido como os “minerais de conflito”. Aqueles que, a um terrível custo humano, alimentam nosso consumo, enriquecem tal indústria e financiam milícias e Exércitos no coração da África.
A seção 1502
O leste do Congo possui hoje o maior contingente de soldados para operações de paz ONU e são lideradas por um general brasileiro (Reprodução)
O leste do Congo possui hoje o maior contingente de soldados para operações de paz da ONU e que são lideradas por um general brasileiro (Reprodução)

Visando quebrar o link entre a vasta riqueza mineral do Congo com os grupos armados que predam e lucram com o comércio desses minerais na região e assim continuam com o conflito no país, o congresso norte-americano aprovou a seção 1502 da Lei Dodd-Frank (por conta dos congressistas Chris Dodd e Barney Frank). A lei basicamente tratava da reforma na regulação financeira dos EUA após a bolha imobiliária que levou o planeta a um crise econômica em 2008. No entanto, a seção 1502 da lei exigia que todas as empresas deveriam verificar se utilizavam na manufatura de seus produtos os “minerais de conflito” – o que em grande parte atinge a indústria eletrônica, incluindo gigantes como Apple, Intel, LG, Microsoft e outras -, nesse caso, elas deveriam verificar se eles não tinham sua origem do Congo ou algum país vizinho (Tanzânia, Zâmbia, República do Congo, República Centro-Africana, Angola, Uganda, Ruanda, Burundi e Sudão do Sul), e se estavam ou não financiando a guerra e violações de direitos humanos na região.
A última segunda-feira (2) foi o prazo limite para todas essas empresas entregarem seu relatório à Comissão de Títulos e Câmbio dos EUA (SEC, sigla em inglês), de que estavam cumprindo as exigências da Dodd-Frank.  Ao todo, quase 6 mil empresas estavam sujeitas à lei e, para cumprir suas exigências, elas tiveram mais de um ano para verificar com pelos menos 250 mil fornecedores de onde eles obtinham seus minérios.
A missão de atender à seção 1502 da Lei de Proteção ao Consumidor e Reforma de Wall Street, de julho de 2010 (nome original da Dodd-Frank) pode parecer inglória, mas por anos a indústria fez vista grossa sobre o que de fato ocorria dentro de sua linha de suprimento. “Com seu relatório entregue ao SEC, elas já não podem mais fazer isso”’, disse John Prendergast, cofundador da Enough Project – uma das principais organizações que lutaram pela aprovação da lei. “De agora em diante, os consumidores podem olhar para as empresas e julgarem por eles próprios, se o fabricante de seu celular não está utilizando os minerais de sangue do Congo e fazer assim uma escolha consciente e informada quando forem às compras”, finalizou Prendergast.
As condições desumanas e a presença de milícias armadas nas minas artesanais do Congo são comuns (Enough Project)
As condições desumanas e a presença de milícias armadas nas minas artesanais do Congo são comuns (foto: Enough Project)
No entanto, a crise congolesa é complexa demais para essa medida ser considerada uma solução para o país. O leste do Congo é tomado por tensões a respeito de terras, direitos, identidades, lutas de poderes e a fraqueza inerente do governo em Kinshasa, capital do país, em lidar com todos os conflitos que fomentam na porção oriental de sua área. Os esforços para conter a exploração – legal e ilegal – dos minerais de conflito que financiam a crise do país são apenas um dos componentes de uma longa história de pilhagem que o Congo sofre.
Colonização, exploração, assassinatos, golpes e guerras
A história do Congo em muito se parece com qualquer outro país do chamado Terceiro Mundo que foi “descoberto”, colonizado, explorado para, depois que a pilhagem estivesse quase completa, receber a benção da independência política pelos antigos mestres do “civilizado” Primeiro Mundo.
O documentário abaixo pode proporcionar  um maior entendimento da história do país até o seu caos atual. Dentro do contexto dos “minerais de conflito”, tudo começou por uma tragédia ocorrida em um país vizinho, no genocídio em Ruanda, quando os genocidas Hutus atravessaram a fronteira do Congo para fugir do novo governo Tutsi, que tomou o controle do país após 100 dias de matança indiscriminada de mais de 800 mil pessoas.
No Congo, o período entre 1996-2009, que compreendeu guerra atrás de guerra, deixou um saldo de milhões de mortos – a maioria por efeitos colaterais da guerra, como doenças e fome; transformou o Congo no país mais perigoso do mundo para uma pessoa do sexo feminino, com estupros em massa sem discriminação de etnia, cidadania ou idade; além do fato de ser justamente entre esses anos que ocorreu oboom da telefonia celular e dos laptops e, atualmente dos aparelhos eletrônicos como BlackBerry, iPod, iPad entre outros, fazendo os minerais explorados na região dos Kivus (na fronteira com Ruanda, Uganda e Burundi) extremamente necessários para a indústria eletrônica.
Entretanto, como prova de que exploração baseada em interesses econômicos não é privilégio do Ocidente, alguns dos países que mais lucraram com o caos no leste do Congo são seus vizinhos imediatos. Ruanda, Uganda, Burundi e suas milícias mercenárias se tornaram os principais exploradores de coltan no Congo. Em um período de 18 meses, Ruanda fez 250 milhões de dólares como resultado de sua exploração no Congo. Apesar de Ruanda e Uganda possuírem pequenas reservas ou até mesmo nulas, suas exportações aumentaram exponencialmente.
Os residentes locais, cujo estilo de vida foi destruído por décadas de guerras civis, são forçados a procurar esses “minerais de conflitos” em condições desumanas. Em 2008, quando não existia muita pressão internacional sobre o caso, foi feita uma estimativa de que cerca de 2 milhões de mineradores eram crianças, trabalhando em regime de escravidão. O coltan, por exemplo, é extraído nas chamadas “minas artesanais”, onde as pessoas devem cavar com picaretas, pás e até mesmo com suas próprias mãos.
O lugar mais perigoso do mundo para uma mulher
Em 2008, foi dito por um general que era mais perigoso ser uma mulher do que um soldado no leste do Congo. Apesar de apenas existirem estimativas, devido ao difícil (quase impossível) processo de relatar o abuso, por razões que vão desde o estigma que a mulher carrega por ter sido estuprada até casos de serem renegadas por seus maridos e famílias, os números chegam a dezenas de milhares de mulheres violentadas no Congo. A brutalidade da violência sexual no país atinge de meninas com menos de 10 anos até mulheres idosas. O Congo Oriental é geralmente chamado de “o pior lugar no mundo para ser uma mulher”. A violência sexual é pandêmica: mais de 5.000 mulheres foram estupradas em 2009 (apenas na região de Kivu do Sul); foi constatado em um estudo de Maio de 2011 que 4 mulheres são estupradas no Congo a cada 5 minutos, ou seja, 48 mulheres violentadas por hora e 1.152 estupradas por dia.
O nível de violência sexual recebeu pouca cobertura internacional, apesar de o país conter o maior número de forças de paz da ONU no mundo. Outro extenso estudo com vítimas de estupro no Congo, comissionada pela Oxfam e conduzido pela Iniciativa Humanitária de Harvard, mostra que 60% das vítimas de estupro entrevistadas foram atacadas por gangues de homens armados e mais da metade dos ataques ocorreu em suas casas à noite, geralmente com a presença e testemunho dos filhos e maridos das vítimas.
No final de 2010, a região oriental do Congo recebeu o título de "capital do estupro" no mundo. Ainda hoje, é um dos lugares mais perigosos para mulheres (Enough Project)
No final de 2010, a região oriental do Congo recebeu o título de “capital do estupro” no mundo. Ainda hoje, é um dos lugares mais perigosos para mulheres (foto: Enough Project)
O estupro é usado como arma de guerra no sentido estratégico de envergonhar, desmoralizar e humilhar o inimigo. E as consequências para as sobreviventes incluem gravidez indesejada, infertilidade, mutilação genital, além de doenças sexualmente transmissíveis como HIV/Aids.
E esse é apenas o começo do pesadelo para as mulheres vítimas de estupro, pois muitas delas preferem carregar esse trauma em silêncio com medo de serem expulsas por suas famílias. Por isso muitas delas buscam ajuda em lugares como o Hospital Panzi, fundado pelo médico Denis Mukwege. Esse hospital é talvez a maior esperança para essas mulheres. O doutor Denis, que concorreu ao Prêmio Nobel da Paz em 2009 – perdendo para Barack Obama – veio ao Brasil em 2010 e falou um pouco sobre os problemas enfrentados pelas mulheres no Congo.
Rumo a um futuro de transparências 
A lei quando aprovada foi bem-recebida por diversos grupos internacionais de direitos humanos, como a Anistia Internacional e a Global Witness – assim como também por organizações da sociedade civil nos Kivus.
Entretanto, desde o seu início, a lei já vinha levantando polêmica – tanto no questionamento de sua eficácia, quanto a acabar piorando uma situação ruim. Em uma matéria de 2011 do Washington Times, intitulada “Como o Congresso devastou o Congo”, o jornalista David Aronson escreveu que a “Loi Obama” – Lei Obama, em francês, como a Dodd-Frank passou a ser conhecida na região – teve consequências desastrosas para a população local que passou a sofrer um verdadeiro “embargo comercial” pelo fato de nenhuma empresa querer mais estar ligada aos minerais congoleses. “É mais fácil simplesmente sair de cena do que ter que lidar com as complexidades políticas do Congo – especialmente quando já existem os mesmos minerais disponíveis em países mais seguros”, escreveu Aronson.
Todos os envolvidos, desde políticos a organizações, já disseram não estar promovendo um boicote aos minerais do Congo. A decisão pela implantação da lei é exigir uma maior transparência na cadeia de suprimento e clamando pelas empresas que façam as devidas diligências para garantir que elas não estejam contribuindo para o conflito. A legislação, de fato, não bane os minerais congoleses, a questão é a responsabilidade de saber de onde vêm os recursos necessários para a manufatura de seus produtos, como muitas vezes requeridos para diversos outros tipos de indústria.
A revista Forbes citou algumas recentemente, em uma matéria onde discorria a respeito da Dodd-Frank, como a indústria química, a indústria madeireira, a de diamantes e a de alimentos. E ainda apontou que, “além de tudo, há ainda o fator social que vem junto, incluindo a verificação se há trabalho escravo, subornos e corrupção e até tráfico humano”. E em um exercício raro de otimismo social, o texto da publicação neoliberal prevê “um futuro onde é possível imaginar as empresas tendo que prover as devidas evidências que elas estão de fato cumprindo com as regulações e normas sociais em tudo – desde a quantidade de água usada para fazer seus produtos até quanto de impostos elas estão pagando”.
De fato, já deveríamos estar vivendo em um mundo onde as corporações realmente prestassem contas de tudo o que envolve a montagem de seus produtos. No entanto, existe uma enorme pressão política e econômica para que tais medidas não aconteçam. Na ironia das ironias, foram exatamente os políticos que mais pressionaram pela implantação da Dodd-Frank e as empresas, cientes da má publicidade de estar ligada à compra de minerais vindas de uma zona de guerra, que também resolveram aderir – ainda que os resultados da entrega de relatórios ao SEC não tenha sido divulgada.
Mesmo assim, se existe a chance de verificar se nossos produtos não estão vindo carregados de sangue, trabalho escravo, estupros e mortes, o mínimo que todos podem fazer é apoiar a ação e exigir uma correta prestação de contas das empresas. A questão nunca foi sobre boicote e sim sobre transparência.
Em tempo: o norte-americano JD Stier, o assessor da Enough que ajudou a Fórum na realização da matéria, respondia nossos e-mails usando um iPhone.

domingo, 15 de junho de 2014

Ruanda 20 anos depois: o trágico depoimento dos filhos do estupro

Ruanda 20 anos depois: o trágico depoimento dos filhos do estupro



Duas décadas depois do genocídio, jornalista ouve o depoimento de mulheres que foram estupradas, e dos filhos que nasceram em consequência disso. The Observer

por The Observer — publicado 14/06/2014
Por Lindsey Hilsum
Ruanda
Levine Mukasakufu (à dir.) e sua filha, Josiane Nizumfura (à esq.). Hoje elas estão em paz

Quando Josiane Nizomfur fez 12 anos, ela quis conhecer seu pai, por isso escapou da escola e foi ao julgamento público onde sua mãe estava depondo contra ele por estupro.
Levine Mukasakufu nunca havia contado a Josiane as circunstâncias de seu nascimento. "Eu não podia enfrentar isso, e ela ficou sabendo pelos vizinhos", disse. Levine – uma mulher pequena e delicada, que parece um passarinho colorido em sua tradicional saia enrolada – é uma das 500 mil mulheres violentadas durante o genocídio em Ruanda em 1994, quando a etnia hutu do país, sob ordens de seus líderes, tentou eliminar a minoria tutsi.
Então com 21 anos, Levine e outras jovens de Kibilizi, a 130 quilômetros ao sul da capital, Kigali, foram obrigadas a se reunir no campo de futebol da cidade. Os Interahamwe, a milícia hutu que liderou os massacres dos tutsis, escolheram as que queriam, forçando-as até os campos de banana e milhete ao redor onde foram estupradas por grupos de homens. "O estupro era a recompensa que os líderes davam aos que matavam", disse Levine. "É por isso que eu não amava minha filha – seu pai foi quem matou minha família. Eu também queria matá-la."
Quando Levine descobriu que sua filha tinha visto seu depoimento, ela a espancou a noite toda. Foi um de muitos ataques. Depois que não conseguiu abortar o bebê, ela frequentemente batia em Josiane quando era criança. "Se ela fizesse qualquer travessura, eu dizia que era igual ao pai, uma Interahamwe. Eu a expulsava, dizendo: 'Esta é uma casa tutsi, e você não pertence aqui'", disse ela.
Esta semana, a Cúpula Global para o Fim da Violência Sexual em Conflitos, organizada pelo secretário das Relações Exteriores britânico, William Hague, e a atriz Angelina Jodie, pretende colocar vítimas como Levine e Josiane no centro das investigações de crimes de guerra. Os governos deverão assinar um novo protocolo para documentar ataques sexuais em tempo de guerra e adotar programas para ensinar a seus soldados que o estupro é um crime de guerra, e não uma consequência inevitável do conflito.
Apesar de o estupro ainda ocorrer em todas as guerras, ele foi especialmente disseminado em Ruanda e as consequências são sentidas até hoje. O Tribunal Penal Internacional para Ruanda concluiu que o estupro foi uma parte integral do genocídio. "A violência sexual foi um passo no processo de destruição do grupo tutsi... destruição do espírito, da vontade de viver e da própria vida", disse o veredicto sobre os líderes hutus que organizaram o genocídio na região de Butare, que inclui Kibilizi.
A ONU estimou inicialmente que 5 mil crianças nasceram de estupros no genocídio de 1994, mas o Fundo de Sobreviventes – uma instituição de caridade britânica que trabalha em Ruanda – acredita que o número pode chegar a 20 mil.
Diferentemente dos órfãos de genocídio, os filhos do estupro não se qualificam para ajuda governamental e muitos vivem na pobreza. Os programas de ajuda geralmente se concentraram na dificuldade das mulheres violentadas, dando pouca atenção às crianças, que cresceram sentindo-se rejeitadas por suas mães e estigmatizadas pela comunidade. Em Ruanda, a etnia vem pela linhagem paterna, por isso as sobreviventes tutsis chamam as crianças Interahamwe de "filho de uma cobra", enquanto os parentes dos estupradores hutus muitas vezes dizem às crianças que suas mães são malditas por deporem contra seus pais e colocá-los na cadeia.
Marie Josée Ukeye, uma terapeuta que aconselha 22 mulheres estupradas e 12 crianças em Kibilizi, diz que as crianças têm problemas de comportamento que só podem ser superados com anos de terapia em grupo. "As meninas adolescentes têm vergonha e muitas vezes assumem o sofrimento de suas mães, enquanto os meninos têm acessos de mau humor explosivos", disse ela. Como uma sobrevivente do genocídio, Ukeye vem realizando reuniões duas vezes por semana com as mulheres e as crianças há sete anos, ajudando-as a expressar-se e a superar sua raiva e sua dor.
No costume de Ruanda, uma criança recebe um nome cristão e um kinyarwanda. Epiphane Mukamakombe, que fez várias tentativas de abortar, chamou seu filho de Olivier Utabazi, que significa "ele pertence a eles". Ela se recusou a amamentá-lo e tentou matá-lo quando era bebê. De alguma forma ele sobreviveu.
Hoje com 19 anos, Olivier diz que compreende porque sua mãe era cruel com ele, mas continua assombrado pelo pai que não consegue odiar. "Por um lado eu o culpo porque ele estuprou minha mãe e não a ajudou a me criar", disse ele. "Mas por outro não sei se era realmente um homem mau."
Quando criança ele era retraído e agressivo. No ano passado sua mãe juntou todo o seu dinheiro para mandá-lo estudar construção. Ele sonha em ser engenheiro e tem esperanças de uma vida melhor, mas sua atitude em relação ao estupro é confusa. "Talvez eles fossem matar minha mãe e então meu pai disse: 'se você nos deixar fazer sexo com você, não mataremos', por isso mamãe teve de concordar", disse o jovem. O estupro é errado, diz Olivier, mas ele parece mais perturbado por sua própria identidade confusa, dizendo que sente vergonha e raiva toda vez que tem de preencher um formulário que pede o nome do pai.
Para sua mãe, os últimos 20 anos foram uma batalha simplesmente para aceitar a existência de Olivier. "Eu sentia que ele era um Interahamwe", disse Epiphane. Mas com o tempo ela percebeu que, como toda a sua família foi morta no genocídio, o menino era tudo o que ela tinha. Ela ainda teme os parentes do homem que a estuprou, acusando-os de atirar pedras contra sua casa e de envenenar sua vaca. Olivier fornece uma espécie de proteção, apesar de passar a maior parte do tempo na escola. "O amor veio depois, quando eu percebi que Deus me deu esse filho e ele é a única família que tenho", disse ela. "Não posso acusá-lo pelo modo como ele nasceu."
Uma vez por semana as mulheres se juntam para trabalhar em mutirão nos pequenos campos à beira da aldeia. Inclinadas para recolher os grãos para secar, elas riem enquanto trabalham, achando conforto na companhia das outras e no conhecimento de que não estão sozinhas. Como agricultoras de subsistência extremamente pobres, poucas podem pagar por mão-de-obra, e mesmo que pudessem elas dizem que os trabalhadores podem ser parentes dos estupradores presos e não querem interagir com eles. O estigma do estupro nunca desaparece, e elas dizem que seus vizinhos hutus às vezes ainda as chamam de prostitutas.
Algumas mulheres enlouqueceram com o sofrimento e passaram o trauma para seus filhos. Epiphanie Kanziga foi estuprada mais vezes do que ela consegue se lembrar e teve uma filha, Adeline Uwasi – nome que significa "do pai dela". As duas vivem em uma casa de um cômodo. O piso de terra fica alagado quando chove e um banco de ônibus velho, com as molas saltando através do plástico, serve de sofá. Quando Adeline tinha 3 anos, Epiphanie a deixou na floresta, acreditando que o genocídio continuava e ela precisava ser escondida. Em outra ocasião ela bateu em sua cabeça com um pau, ferindo-a tanto que a criança teve de ser hospitalizada. Frágil e chorosa, hoje Epiphanie conta com Adeline para cuidar dela durante a temporada anual de comemoração, quando os ruandenses marcam os cem dias de genocídio, a partir de 7 de abril.
Vestida em seu uniforme escolar azul-real, Adeline tem sonhos de ir à Europa ou de conseguir um emprego em um banco, mas está atrasada na escola e fala em monossílabos, tão baixo que quase não é escutada. Muito consciente de sua posição como forasteira, ela certa vez disse a sua mãe que não tinha importância que ela não tivesse mais filhos, pois ninguém da comunidade lhes traria presentes quando nasce um bebê, à maneira tradicional. Ela acha difícil confiar nos homens e os considera mentirosos. "Eu não acho que eles têm amor", disse, olhando para os pés.
Na última quinta-feira perto do escritório distrital de Kibilizi, onde 20 anos atrás líderes locais hutus e Interahamwe se reuniram para planejar o genocídio, os aldeões se preparavam para reenterrar os ossos dos que foram chacinados. Mais de 3 mil foram mortos nessa área, e todo o ano mais corpos são encontrados em covas coletivas e em fossas. Levine Mukasakufu estava no comando, usando luvas brancas de borracha para colocar cadáveres mumificados em caixões de madeira rústica pintados de branco, todos decorados com cruzes. Ela puxou uma lona azul e revelou dezenas de cadáveres, congelados na posição do momento da morte, um deles com as mãos para cima como se suplicasse por piedade. Um homem delicadamente puxou os restos de uma criança que devia ter 6 anos, com os joelhos dobrados como se ele ou ela estivesse dormindo.
Uma das mulheres não aguentou e começou a chorar, mas Levine se manteve forte, decidida a que os membros de sua família tivessem um enterro decente. Ao contrário de outras mulheres, ela teve mais cinco filhos. Josiane, que ela atacou por ter ido ver seu pai, tornou-se uma mulher truculenta e autoconfiante, duas vezes maior que sua mãe. Elas alcançaram um acordo, uma maneira de se tolerarem. Os dias de gritos e brigas terminaram.
"A violência sexual é um crime como nenhum outro", disse Marie Josée. "Ele afeta todos os aspectos da vida de uma pessoa – mental, físico, social. Destrói tudo." No entanto, ela acredita que as crianças têm uma chance de forjar suas próprias vidas se completarem os estudos. "Eu vi que grande tristeza é ser um filho do estupro", disse ela. "Mas também vi que os seres humanos, não importa pelo que eles tenham passado, podem progredir e melhorar."
Assombradas pela morte e o estupro, condenadas à pobreza, as mulheres têm pouca esperança de felicidade. Só os filhos têm alguma chance de deixar o passado para trás.
Leia mais em Guardian.co.uk