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quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Nuvem de metano de 4000km2 está pairando sobre o oeste dos EUA

Nuvem de metano de 4000km2 está pairando sobre o oeste dos EUA


O legado das perfurações em busca de combustíveis fósseis é uma nuvem gigantesca, composta por poderosos gases estufa, que pode ser vista do espaço.

Jon Queally - Common Dreams
Faces of Fracking / Flickr
Uma monstruosa nuvem de metano acumulado - um potente gás estufa - agora paira sobre uma grande porção do oeste dos Estados Unidos, de acordo com imagens de satélite analisadas pela NASA e noticiadas pelo Washington Post.

Criada por causa de anos e anos de vazamentos intencionais de gás natural durante as operações de perfuração do solo em busca de combustíveis fósseis, a nuvem - invisível ao olho humano mas capturada por tecnologias avançadas de imagens de satélite - está centrada sobre o noroeste do Novo México e é descrita pelo Post como ''uma nuvem de metano do tamanho do estado de Delaware, tão vasta que os cientistas questionaram seus dados quando a estudaram há três anos.''

Alarmado pelo tamanho da nuvem, o pesquisador da NASA Christian Frankenberg declarou ao Post, ''não podíamos ter certeza de que o sinal era real.''

Apesar do fato de que, ano a ano, o metano é cada vez menos lançado na atmosfera, o gás é vinte vezes mais poderoso enquanto gás estufa do que o dióxido de carbono (CO2)

A acumulação de metano não é um problema novo, mas algo que parece ter piorado a partir da perfuração hidráulica do solo (ou fracking) e outras operações intensas de extração de combustíveis fósseis que continuam aumentando no sudoeste do país. A última análise da NASA sobre o fenômeno descobriu que a nuvem possui aproximadamente ''uma extensão de 400 quiômetros quadrados.'' Frankenberg apontou que esta estimativa foi feita antes do aumento mais recente da extração de gás e petróleo no sudeste americano.

Apesar da indústria ignorar os perigos da 'queima de gás' - na qual o excesso de metano é simplesmente queimado durante o processo de perfuração em busca de gás e petróleo - ambientalistas e cientistas do clima já há muito tempo acionaram o alarme sobre o impacto do metano quanto ao aquecimento global e aos danos ambientais. E apesar do gás natural ser apresentado como uma opção mais limpa do que o carvão, muitos estudos mostraram que ainda que isso seja verdade, o fato de muito do gás escapar durante a extração e o transporte faz com que o impacto cumulativo de seu efeito estufa seja igual ou pior que o do carvão.


O gráfico abaixo foi criado pelo Washinton Post a partir dos dados disponíveis:

plume_full.jpg
  
Tradução de Roberto Brilhante


Fonte: http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Meio-Ambiente/Nuvem-de-metano-de-4000km2-esta-pairando-sobre-o-oeste-dos-EUA/3/32537

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

O problema racial

O problema racial



Os distúrbios de Ferguson confirmam a necessidade de políticas de igualdade nos EUA


 19 AGO 2014

Os protestos e distúrbios que ocorreram depois da morte de um jovem negro por disparos de um policial da localidade norte-americana de Ferguson, no Estado do Missouri, trouxeram à luz novamente as tensões raciais nos Estados Unidos, que, embora teoricamente tenham resultado em leis, continua sendo uma das grandes matérias pendentes na principal potência mundial.
Os seis tiros que atingiram Michael Brown, um jovem negro de 18 anos – dois deles na cabeça, segundo a autópsia encomendada pela família–, disparados por um oficial de polícia branco há 11 dias, foram o fato que desencadeou uma onda de manifestações e protestos que até agora resultaram em dezenas de detidos, o deslocamento da Guarda nacional e a intervenção em duas ocasiões do presidente Barack Obama, pedindo calma e lembrando a cada lado suas obrigações: aos manifestantes, a de respeitar a lei, e à polícia, a de utilizar a força com proporcionalidade.
Já está muito longe 2008, quando Obama se tornou o primeiro presidente negro na história dos EUA e acadêmicos, sociólogos e jornalistas abusaram da expressão América pós-racial como um reflexo de que o país da América do Norte tinha deixado para trás uma era de discriminação e preconceitos. O microcosmo de Ferguson serve, no entanto, como exemplo de que há uma desproporção suspeita nas atuações contra a comunidade negra. Enquanto 65% da localidade de pouco mais de 21.000 habitantes é negra, 94% dos policiais são brancos. No total, 84% dos automóveis que esses agentes param para pedirem a documentação são conduzidos por negros, e 92% dos detidos são negros. A esses dados é preciso somar 21% de famílias que vivem abaixo do nível de pobreza e uma comunidade na qual não é incomum que se criem obstáculos à integração negra por um sentimento de discriminação que vem de muito longe. Essa situação, com variáveis, se repete desigualmente em toda a geografia dos EUA.
A essas condições é preciso acrescentar o comportamento policial que em muitas ocasiões é objeto de críticas justificadas pelo excessivo uso da força, a presença entre o material que utilizam os agentes –especialmente em momentos de tensão– de armas e veículos cujo destino anterior tinha sido a guerra do Iraque, e a falta de iniciativa política na hora de abordar as políticas raciais, que o atual inquilino da Casa Branca evitou escrupulosamente como bandeira.
Os Estados Unidos demonstraram que podem ser o país mais poderoso do mundo, e uma das maiores democracias, com uma sociedade multirracial baseada na imigração e um ordenamento legal que garante a plena igualdade de seus cidadãos. Mas explosões como a De Ferguson mostram que ainda há muito por fazer e que os problemas que são ignorados não só não desaparecem, como tendem a aumentar, às vezes desproporcionalmente.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

A militarização da polícia: o espelho de Ferguson

A militarização da polícia: o espelho de Ferguson


A brutalidade dos policiais na cidade norte-americana mostra que a simples desmilitarização pode não ser suficiente para conter abusos

por Antonio Luiz M. C. Costa — publicado 18/08/2014

Polícia em Ferguson, no Missouri, EUA
Com máscaras e armamentos pesado, policiais observam manifestante em Ferguson, nos Estados Unidos. A militarização da polícia local preocupa


Não bastaram meio século da Lei dos Direitos Civis, 46 anos da morte de Martin Luther King e cinco anos de governo de um presidente negro. As manifestações em Ferguson, município da região metropolitana de Saint Louis, Missouri, mostram que a questão racial continua vivíssima nos Estados Unidos. Foram deflagradas em 9 de agosto pela execução com seis tiros de Michael Brown, negro de 18 anos, desarmado, cujo crime foi discutir com um policial que lhe exigiu andar pela calçada e não na rua. Mais tarde, a polícia alegou que Brown era suspeito de roubar um pacote de cigarros de uma loja, mas o policial que o matou não sabia disso.
Mas além de evidenciar a persistência desse problema tão antigo, a crise trouxe à consciência do público e da mídia um fato até aqui pouco notado, embora já anunciado por episódios que foram do policiamento armado de pátios escolares e uso de armas de eletrochoque em crianças rebeldes ou civis inofensivos à caçada aos irmãos Tsarnaev após o atentado à Maratona de Boston de 15 de abril de 2013: a militarização da polícia nos EUA.
Tanto a execução sumária de Brown como a escala da violência que se abateu sobre a população negra nos dias seguintes mostram uma mentalidade de exército de ocupação, que trata cidadãos desprivilegiados como um povo inimigo, com as consequências que isso implica. Disparar sobre civis é aceitável e execuções arbitrárias desculpáveis. Quando um soldado abate um inimigo, não se questiona se a vítima fazia algo ameaçador o suficiente para justificar tal tratamento. O simples fato de estar do outro lado a torna um perigo a ser eliminado.
O jornal Washington Post, insuspeito de radicalismo, listou pelo menos quatro violações flagrantes da Constituição em Ferguson: 1) instituição de um toque de recolher, que o governo municipal não tem autoridade para impor; 2) proibição de filmar a repressão e prisão dos que a desobedeceram, quando a lei garante o direito dos cidadãos de documentar as ações policiais; 3) uso abusivo de balas de borracha, gás lacrimogêneo e canhões de som contra manifestantes pacíficos; e 4) clara discriminação racial nos critérios para deter e revistar suspeitos. Poderia citar também a recusa dos policiais a usar tarja de identificação – alguns chegam mesmo a se cobrir com máscaras, como se fossem black blocs. Práticas frequentes na ação da Polícia Militar brasileira, mas que na polícia civil dos EUA ainda causam estranheza suficiente para despertar polêmica.
O espetáculo de policiais armados com tropas de choque ou a bordo de blindados, apontando armas para manifestantes, tornou o debate inevitável. Apontou-se a tendência, crescente desde o 11 de Setembro, de o Pentágono fornecer às forças policiais armas de guerra e treinamento antiterrorista – às vezes, como no caso do chefe de polícia de Ferguson, incluindo uma passagem por Israel para aprender com seus métodos de repressão nos territórios palestinos ocupados.
Como teria dito Talleyrand a Napoleão, pode-se fazer qualquer coisa com baionetas, menos sentar-se nelas. Se policiais recebem armas sofisticadas, vão querer exibi-las e usá-las para afirmar sua autoridade e desencorajar desafios, se recebem treinamento antiterrorista, passam a encarar cada cidadão descontente como um terrorista em potencial, mesmo se atentados dessa natureza são excepcionais. Aprofunda-se uma cultura antidemocrática, de desconfiança mútua entre a população e a polícia que supostamente a protege e mantém a ordem em seu nome.
Vale ressaltar: até o dia 17, quando o governador do Missouri pediu a mobilização da paramilitar Guarda Nacional, toda essa repressão extremamente militarizada foi executada por uma polícia que, no papel, é estritamente civil. O que deveria levar ativistas brasileiros a questionar se a desmilitarização da Polícia Militar que têm reivindicado com ênfase desde os protestos de junho de 2013 é realmente o suficiente. Mentalidade, métodos e equipamento contam mais do que hierarquia e uniformes.
A polícia deveria ser recrutada de forma a refletir a diversidade da população e treinada em primeiro lugar quanto à sensibilidade para com as minorias e direito à liberdade de expressão e reunião e com programas de diálogo entre a polícia e comunidades locais, com reuniões regulares para discutir os problemas comuns e os métodos para manter a paz e a segurança.
Pode haver ocasiões, tais como saques, vandalismo e ação de grupos armados, que justifiquem uma repressão mais agressiva, mas as armas para esse fim devem ser guardadas a sete chaves para serem usados apenas por forças especialmente treinadas e autorizadas, com ordem expressa do governador ou outra autoridade civil eleita disposta a assumir a responsabilidade e impor limites explícitos a seu uso.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

A revolta dos povos autóctones do Canadá

A revolta dos povos autóctones do Canadá
“Idle no more!” (“Basta de apatia!”): desde dezembro de 2012, essas palavras de ordem aglutinam, da Colúmbia Britânica a Nova Brunswick, as comunidades autóctones canadenses. Elas exigem justiça social, igualdade entre os sexos e respeito aos direitos territoriais

por Philippe Pataud Célérier
"Alimentem aqueles que têm fome! Comam os ricos.” Com esse cartaz em riste, cerca de quinze pessoas desfilam diante da entrada do Pidgin, um restaurante novo em folha em Downtown Eastside, “o código postal1 mais pobre do Canadá”, como dizem por aqui. Esse velho bairro central de Vancouver é atravessado por duas grandes artérias, as ruas Main e Hastings: “pain and wastings” (“dor e desolação”), ironizam os habitantes, entre os quais muitos autóctones. Habitualmente, cerca de quase mil sem-teto – com olhos assustados e passos mecânicos atrás das rodas de suas carroças – perambulam por esses quarteirões encravados entre os bairros turísticos de Gastown e Chinatown. Toxicômanos, alcoólatras, traficantes, prostitutas: a miséria social dos ameríndios é patente no centro da maioria das grandes cidades do décimo país mais rico do mundo.
“Idle no more!” (“Basta de apatia!”), gritam os manifestantes nesse dia. De um oceano a outro, essas palavras de ordem fazem ressoar o levante contra o governo do primeiro-ministro ultraconservador Stephen Harper e contra a violação dos acordos ancestrais. “Ontem, eles estavam tomando nossas terras; hoje, nos expropriam. E amanhã?”, questiona Karen, uma habitante de origem salish, ou seja, descendente de uma das “primeiras nações” que povoaram a Colúmbia Britânica antes da chegada dos europeus. A lei constitucional de 1982 reconhece três grandes grupos de autóctones: as “primeiras nações” (ou índios da América do Norte), os métis e os inuítes. Em 2011, essas etnias representavam respectivamente 61%, 32% e 4% – aos quais se acrescentam 3% de “outros” – dos 1,4 milhão de aborígenes, que por sua vez somam 4,3% da população total do Canadá.2
O movimento “Basta de apatia!” foi lançado no fim de 2012 por quatro mulheres de Saskatchewan, uma província das Pradarias (centro-oeste). Sylvia McAdam, Jessica Gordon, Nina Wilson e Sheelah McLean denunciaram a adoção, pelo Parlamento canadense, das leis C-45 e C-38. Votados a toque de caixa, sem possibilidade de debate, esses dois textos, com quatrocentas páginas cada um, possuem implicações consideráveis. O primeiro modifica a lei sobre os índios, que data de 1876: o Estado pode agora alugar ou comprar as terras de uma reserva indígena sem a anuência da maioria dos eleitores do Conselho Grupal – órgão decisório das reservas –, com apenas a maioria dos presentes. O segundo texto limita a lei sobre a proteção das águas navegáveis a 97 lagos e 62 rios, menos de 1% das águas doces do país.
Essas medidas visam garantir aos investidores estrangeiros o acesso às terras e às importantes reservas de petróleo já identificadas (o Canadá possui a terceira maior reserva do mundo) em areias betuminosas.3 Ironia da história, essas reservas estão no Médio e Alto Norte do Canadá, onde se refugiou a maioria dos autóctones após terem sido caçados no sul pelos colonos europeus. A questão dos direitos territoriais se agudiza, na medida em que crescem apostas econômicas colossais.
Até os anos 1920, a questão podia ser evitada: “Os acordos tinham como objetivo, principalmente, fazer que as nações autóctones abandonassem seus direitos territoriais. Em troca, o Estado outorgava às comunidades indígenas minúsculas reservas cujo funcionamento estava estritamente enquadrado na lei sobre os índios”, lembra Jean Leclair, professor de Direito da Universidade de Montreal.4 Mas hoje esses direitos territoriais não podem mais ser ignorados. Progressivamente, a jurisprudência, depois a Constituinte de 1982, garantiram aos autóctones “direitos ancestrais” – uma noção tão fluida que precisa ser discutida pelos tribunais em cada conflito territorial.
Desde 1990, a crise de Oka mostrou os limites dessa garantia jurídica. Durante 78 dias, os policiais da Segurança do Quebec e em seguida o Exército do Canadá enfrentaram as comunidades mohawks, nessa municipalidade vizinha a Montreal. Sem sequer consultá-los, o prefeito havia decidido ampliar um campo de golfe sobre as terras reivindicadas por esse povo – onde existe um cemitério ancestral –, o que desencadeou uma revolta e a repressão armada.

Desaparecimentos na Estrada das Lágrimas
Um mesmo sentimento de injustiça anima hoje o movimento “Basta de apatia!”, cujas reivindicações vão muito além da questão territorial. Chefe da reserva Attawapiskat (situada ao norte de Ontário), da etnia cri, Theresa Spence, uma das figuras que está à frente do movimento, entrou em greve de fome em 11 de dezembro de 2012. Com o gesto, pretendia denunciar a catástrofe social que ameaça os 1.700 membros de sua comunidade. Moradias insalubres, desemprego, salas de aula depredadas, pontos de água limitados: tudo isso a menos de 100 km da mina Victor, situada em território cri. Com alto índice de veios de gemas, essas terras vêm sendo exploradas desde 2008 pela empresa De Beers, a maior comerciante de diamantes do mundo. Dos US$ 6,7 bilhões de receitas previstas, a reserva não chegou, até agora, a US$ 90 milhões.
Simbólica e midiática, a greve de fome de Theresa conferiu uma amplitude nacional a esse movimento, que desde então não para de se estender por piquetes e manifestações. E suscitou um processo de conscientização. Entre os autóctones, a taxa de desemprego é duas vezes mais elevada que a média do Canadá (15%), e a expectativa de vida é bastante inferior à do país: nove anos a menos para os homens e cinco para as mulheres (respectivamente, 68,9 anos e 76,6 anos).5 É notável o fato de o movimento ser lançado, levado adiante e defendido por mulheres, e não por chefes da Assembleia das Primeiras Nações (APN), que representa as 617 nações indígenas no Canadá.
“Isso não é surpresa. As mulheres viveram tantas injustiças que agora querem fazer valer seus direitos. Elas são tão ativas e militantes que mantêm distância dos canais diplomáticos que limitam a margem de manobra dos chefes tradicionais. Ser mulher e autóctone significa, em geral, ser duplamente discriminada”, pontua Viviane Michel, de origem inuíte e presidente das Mulheres Autóctones do Quebec (FAQ). “Somos sempre super-representadas nas estatísticas negativas. Mas Deus sabe que quiseram nos eliminar! Robert Pickton, isso diz algo a você?”, vai mais longe Karen.
Preso desde 2002, esse assassino em série tornou-se símbolo da violência que atinge as mulheres autóctones. Condenado em 2007 por seis homicídios não premeditados, ele confessou 49 mortes, antes de se retratar. Suas vítimas, em geral prostitutas, eram as habitantes mais vulneráveis do centro de Vancouver, “abandonadas duas vezes: pela sociedade e pela polícia”, segundo o ex-procurador-geral Wally Oppal. Encarregada desse caso, a comissão de investigação sobre mulheres desaparecidas dirigida por Oppal entre 2010 e 2013 acusa a polícia de demonstrar “preconceitos depreciativos generalizados”.6
Apesar de o caso ser excepcional, não é único. Dezenas de mulheres e filhas de autóctones foram assassinadas na Colúmbia Britânica ao longo da Estrada 16, apelidada de “Estrada das Lágrimas”. Maryanne Pearce, pesquisadora em Direito da Universidade de Ottawa, documentou 824 desaparições ao longo dos últimos quarenta anos.7 Alguns avaliam que esse número está subestimado, mas, por outro lado, não para de crescer vertiginosamente: “Se as mulheres da população em geral tivessem desaparecido ou sido assassinadas na mesma proporção, o país teria perdido 18 mil mulheres desde os anos 1970!”, lança Michèle Audette, presidente da Associação de Mulheres Autóctones do Canadá.

Acusados de financiar o próprio ócio
A condição de inferioridade das mulheres autóctones possui sólidas raízeshistóricas. Durante décadas, a lei sobre os índios excluía de seu estatuto legal aquelas que se casassem com homens não índios. Essas mulheres eram expulsas de sua comunidade e destituídas de seus direitos ancestrais garantidos por esses acordos. Também não podiam herdar, assim como seus filhos, bens familiares. Essa discriminação, imposta pelo sistema patriarcal das sociedades coloniais, constituiu um fator de assimilação poderoso, já que as sociedades autóctones eram então matriarcais e matrilineares. “Não podemos esquecer que antes da chegada dos europeus as mulheres tinham um lugar importante na palavra e nas decisões”, sublinha Carole Lévesque, antropóloga do Instituto Nacional da Pesquisa Científica (INRS, na sigla em francês) de Montreal.
Entre as vítimas dessa injustiça, abandonadas, isoladas, várias migraram em direção às cidades nos anos 1970. “Muitas encontraram refúgio nos Centros de Amizade Autóctones, criados nos anos 1950. Incubadoras de programas e serviços destinados a oferecer auxílio em diferentes âmbitos (saúde, educação, trabalho etc.), tais centros permitiram que essas mulheres se apoiassem, se lançassem no espaço público, para as mais militantes, e conquistassem ferramentas para lutar contra as discriminações sistemáticas”, complementa Carole.
Em 1985, a lei C-31 estendeu seus direitos a essas mulheres; retroativa, a lei também permitiu que recuperassem a identidade indígena. Contudo, a situação não melhorou nas reservas. “Escassez de terras, superpopulação, desemprego, ausência de capital, alcoolismo, suicídios: as condições de vida são difíceis para as mulheres. Aquelas que podem buscam cada vez mais um futuro fora das reservas indígenas”, testemunha Alanis Obomsawin, membro da nação abenaki e que figura entre as documentaristas mais proeminentes do Canadá. Atualmente, Alanis está fazendo um filme sobre o movimentoIdle no more.8
“O grande desafio do movimento é sensibilizar os não autóctones para a situação que vivemos”, declara Viviane. Muitos canadenses ainda interpretam a condição do autóctone como um regime de privilégios fiscais e auxílios sociais superdimensionados. Pouco importa o fato de as “primeiras nações” que vivem em reservas serem isentas de impostos e taxas: o preconceito é mais fundo. Por exemplo, no dia 18 de outubro de 2013, no Huffington Post, o ensaísta François L. Paradis acusou os autóctones de querer “financiar sua ociosidade ao tomar os recursos naturais como moeda de troca para a isenção de impostos”. E afirmou que o alcoolismo endêmico não tem causas sociais.

“Matar o índio dentro da criança”
Alguns esperam que o caso chamado de “pensionatos indígenas” ajudará a mudar a mentalidade a respeito dos indígenas. “Ao levantar o véu de um dos capítulos mais sombrios da história do país, a Comissão da Verdade e Reconciliação sobre os pensionatos indígenas deveria permitir que a sociedade compreendesse melhor as dificuldades a que somos confrontados”, explica Viviane. De 1880 a 1996, 150 mil crianças entre 6 e 16 anos foram arrancadas da família e enviadas à força para 139 pensionatos administrados pelas igrejas com fundos federais. O objetivo expresso dessas instituições: “matar o índio dentro da criança”, segundo as palavras usadas em 2008 por Harper quando apresentava seus argumentos em nome do povo canadense.
Pelo menos 4.200 crianças morreram de frio, privações ou maus-tratos; algumas serviram até de cobaia para experiências científicas. Hoje, alguns dos 70 mil ex-pensionários ainda vivos estão sendo interrogados. Os testemunhos, que devem ser coletados até junho de 2015, já se amontoam. Várias crianças – às vezes 100% dos estudantes de um pensionato – foram submetidas a abusos ou violações sexuais. Bem diferente das elucubrações de um Paradis, foi estabelecida uma relação direta entre o internato nesses pensionatos – principalmente quando acompanhado de violências físicas e sexuais – e os problemas de alcoolismo ou toxicomania que assolam os autóctones. Esses traumas também podem ajudar a explicar a taxa de suicídio cinco vezes mais alta que a média do país, e onze vezes mais se levarmos em conta o povo inuíte.9
“Devolver aos autóctones a autoestima do que são e de onde vêm é um dos grandes méritos desse movimento”, considera Alanis. Mas essa revolta permanecerá ativa? Poderá sobreviver às eleições federais de 2015 e superar a oposição ao governo Harper, cuja linha política é o ponto de convergência e coesão de múltiplas reivindicações? Muitos duvidam ao sublinhar a grande complexidade da realidade dos autóctones: 617 comunidades com interesses divergentes e situações jurídicas diferentes. “Esse movimento de contestação precisa agora se transformar em movimento de transformação social”, acrescenta Carole. “No momento, nos fazemos escutar para muito além do Canadá. E, se recebemos tantos apoios, não é um sinal de que já existe uma mudança em curso na sociedade?”, questiona Viviane. 

Philippe Pataud Célérier é jornalista.


Ilustração: Reuters/ Andy Clark



1  Nas cidades canadenses, há um código postal por bairro ou por blocos de moradia.
2  “Les peuples autochtones au Canada: Premières Nations, Métis et Inuits. Enquête nationale auprès des ménages” [Os povos autóctones no Canadá: primeiras nações, métis e inuítes. Pesquisa nacional domiciliar], Estatística oficial do Canadá, Ottawa, 8 maio 2013.
3  Ler Emmanuel Raoul, “Sous les sables bitumineux de l’Alberta” [Sob as areias betuminosas de Alberta], Le Monde Diplomatique, abr. 2010.
4  Cf. Irène Bellier (org.), Peuples autochtones dans le monde. Les enjeux de la reconnaissance[Povos autóctones no mundo. Os desafios do reconhecimento], L’Harmattan, Paris, 2013.
5  “Santé des premières nations au Canada” [Saúde das primeiras nações no Canadá], Universidade de Ottawa, 11 set. 2013. Disponível em: .
6  Emmanuelle Walter, Sœurs volées. Une tragédie canadienne [Irmãs roubadas. Uma tragédia canadense], Lux, Montreal, 2014.
7  Maryanne Pearce, “An awkward silence: missing and murdered vulnerable women and the Canadian justice system” [Silêncio incômodo: mulheres vulneráveis mortas e desaparecidas e o sistema de justiça canadense], Faculdade de Direito de Ottawa, 2013.
8  Produzidos pelo Escritório Nacional do Filme (ONF, na sigla em francês), seus filmes estão disponíveis em: .
9 “Santé des Premières nations et des Inuits: prévention du suicide” [Saúde das primeiras nações e dos inuítes: prevenção do suicídio], Ministério da Saúde, Ottawa, 8 nov. 2013. 

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Guerra contra os dutos no Canadá

Guerra contra os dutos no Canadá



Parte da população declara que o governo canadense decidiu negligenciar o povo e o meio ambiente em favor dos grandes negócios energéticos.


Lauren McCauley, para o CommonDreams
Brent Patterson / Twitter

















Créditos da foto: Brent Patterson / Twitter

“É oficial, a guerra está posta,” foi o que Stewart Philip disse à multidão que inundou as ruas de Vancouver na última terça-feira, logo após o anúncio de que o Primeiro Ministro Stephen Harper havia aprovado o duto nas areias betuminosas de Enbridge Northern Gateway.
 
Philip, que é o presidente do sindicato de chefes indígenas do estado da Colúmbia Britânica, disse aos repórteres que o povo estava preparado para ir para cadeia por essa luta, “porque isso será necessário.”
 
A declaração de Philip exemplificou o tamanho da reprovação e votos de resistência que rapidamente se seguiram à notícia de que o governo canadense havia dado luz verde para tal projeto.
 
O duto de 1.177km transportará 200 milhões de barris de areias de alcatrão brutas por ano, de Alberta ao terminal em Kitimat, Colúmbia Britânica, onde serão colocadas em petroleiros.
 
Ao bloquear uma rodovia principal, os manifestantes de Vancouver empunharam cartazes e entoaram: “não aos dutos!”, “não aos petroleiros!” e “defendam nossa costa!”
 
“A única coisa que podemos fazer agora é levantar nossa voz com manifestações pacíficas, para mostrarmos de maneira contundente que isso não está certo,” foi o que declarou Mona Woodward, diretora executiva da Aboriginal Front Door Society.
 
Uma multidão se reuniu em frente à sede da CBC News para dar voz a sua raiva contra o governo, que declaram ter escolhido negligenciar o povo e o meio ambiente em favor dos grandes negócios.
 
“É mais do que desrespeitoso [...] é o fim da segurança da água potável, é também o fim da Mãe Terra,” continuou Woodward.
 
Oponentes do duto também inundaram as mídias sociais com votos de resistência e fotos dos protestos de terça-feira.
 
Grupos indígenas canadenses, que lutaram durante muito tempo contra o duto, estão prometendo defender suas terras e sua soberania “sem rendição.”
 
Em uma demonstração de unidade sem precedentes, 31 conselhos de nativos assinaram uma carta anunciando sua intenção de “procurar todos os meios legais possíveis para parar o projeto Enbridge.”
 
“Nós governamos nossas terras de acordo com nossas leis indígenas desde tempos imemoriais,” lia-se na declaração distribuída pelo sindicato dos Chefes Indígenas da Colúmbia Britânica. “Nunca desistimos de nossos títulos e direitos intrínsecos e nossa autoridade legal sobre nossos territórios.”
 
“Este projeto, e o processo federal para aprová-lo, violaram nossos direitos e nossas leis. Nós estamos unidos para defender nossas terras e nossas águas,” continuava a declaração. “Vamos defender nossos territórios custe o que custar.”
 
Mesmo com o projeto amarrado em tribunais, os organizadores estão preparando mais ações e manifestações.
 
Quarta-feira, o grupo de nativos Kootenays Por Uma Colúmbia Britânica Livre de Dutos fizeram uma reunião sob o banner “Ocupem o Duto em todos os lugares!” no shopping Chahko Mika, em Ottawa.
 
Mulheres da Aliança Yinka Dene, uma coalizão das seis primeiras nações que vivem no percurso do duto estão fazendo votos de que “farão tudo para proteger nossas águas,” como declarou ao Tyee a coordenadora Geraldine Thomas Flurer.
 
As mulheres do grupo nativo Gitga’at estão planejando colocar uma “corrente de esperança” de tricô sobre mais de 3.5km do Douglas Channel esta sexta-feira, no que elas descrevem como um bloqueio simbólico aos petroleiros.
 
Ao ecoar o sentimento de muitos que estão direcionando especificamente sua raiva contra o Duto sobre o primeiro-ministro Stephen Harper, o Chefe Philip declarou durante a reunião em Vancouver: “Harper declarou guerra contra os moradores da Colúmbia Britânica e aos nativos, ele com certeza não será bem-vindo na província no futuro.”
 
Considerando a oposição que tem se formado, muitos acreditam que o projeto está destinado ao fracasso. Como notou o ambientalista David Suzuki, “Esta conversa está distante do fim.”
 
Suzuki complementou: “ao aprovar um projeto como esse, o governo está empurrando violentamente um projeto não desejado pelo público. Eu não creio que ele será construído.”

 
Tradução de Roberto Brilhante



sexta-feira, 13 de junho de 2014

Turma Fênix, segue mais um pouco do nosso continente americano - Mapa que divide o continente americano em: América Latina e Anglo-Saxônica

Mapa que divide o continente americano em: América Latina e Anglo-Saxônica




Foto: Mapa que divide o continente americano em: América Latina e Anglo-Saxônica
Mapa que divide o continente americano em: América Latina e Anglo-Saxônica

O continente americano foi colonizado por povos de várias nações europeias, dentre eles: portugueses, espanhóis, franceses, ingleses e holandeses. Esses povos passaram a explorar toda a América e a impor sua cultura de maneira forçada aos povos nativos do continente.

Essa influência cultural oriunda de diferentes nacionalidades produziu distinções entre os países do continente, especialmente no que se refere ao idioma. Diante desse fator, o continente é regionalizado em América Latina e América Anglo-Saxônica.

Essa distinção é proveniente da língua falada nos países do continente. Desse modo, são considerados países latinos todos aqueles que possuem línguas derivadas do latim, como por exemplo, espanhol, francês e português. Já as nações que falam língua de origem anglo-saxônica, como o inglês, formam a América Anglo-saxônica.

O critério usado para essa regionalização não é muito rigoroso, tendo em vista que existem países localizados na América Latina que falam o inglês, dentre os quais podemos citar Guiana, Trinidad e Tobago, além do holandês, falado no Suriname. Sem contar países que preservam suas línguas nativas, como o Paraguai que, além do espanhol, fala o guarani.


O continente americano foi colonizado por povos de várias nações europeias, dentre eles: portugueses, espanhóis, franceses, ingleses e holandeses. Esses povos passaram a explorar toda a América e a impor sua cultura de maneira forçada aos povos nativos do continente.

Essa influência cultural oriunda de diferentes nacionalidades produziu distinções entre os países do continente, especialmente no que se refere ao idioma. Diante desse fator, o continente é regionalizado em América Latina e América Anglo-Saxônica.

Essa distinção é proveniente da língua falada nos países do continente. Desse modo, são considerados países latinos todos aqueles que possuem línguas derivadas do latim, como por exemplo, espanhol, francês e português. Já as nações que falam língua de origem anglo-saxônica, como o inglês, formam a América Anglo-saxônica.

O critério usado para essa regionalização não é muito rigoroso, tendo em vista que existem países localizados na América Latina que falam o inglês, dentre os quais podemos citar Guiana, Trinidad e Tobago, além do holandês, falado no Suriname. Sem contar países que preservam suas línguas nativas, como o Paraguai que, além do espanhol, fala o guarani.


domingo, 4 de maio de 2014

O "sonho americano" virou um sonho

O "sonho americano" virou um sonho



Semana passada, um estudo de décadas de dados econômicos concluiu que os Estados Unidos ficaram atrás de outros países, isto é, dos super-ricos. The Observer

por The Observer — publicado 01/05/2014
Por Michael Cohen

Durante a eleição presidencial de 2012, o candidato republicano, Mitt Romney, gostava de dizer, brincando, que o presidente Obama queria que a economia americana se parecesse "mais com a Europa". No contexto da política americana moderna, poucos insultos são mais ferinos. Ser europeu é ser um pouco efeminado, indeciso e, talvez o pior de tudo, socialista. É o contrário do "sólido individualismo" e da "natureza excepcional" da experiência unicamente americana de autogoverno.
Mas, como deixou claro um artigo sério no New York Times na semana passada, os EUA podem ter muito a aprender olhando para a Europa. Segundo esse jornal, a classe média americana – o esteio do fenomenal crescimento econômico do país no pós-guerra – não pode mais chamar a si mesma de a mais rica do mundo. "Enquanto os americanos mais ricos superam muitos de seus pares globais", diz o NYT, "nas camadas inferiores e médias, cidadãos de outros países avançados receberam aumentos consideravelmente maiores nas últimas três décadas." Os cidadãos mais pobres dos EUA ficaram para trás de seus homólogos europeus; há 35 anos, o oposto era verdade.
Este foi mais um chamado de despertar sobre a realidade do constante mal-estar econômico dos Estados Unidos. Pergunte aos americanos se o país está no caminho certo – 60% dizem que não. Satisfeitos com o modo como estão as coisas? Só 25% respondem sim. Ainda acha que você é um membro da classe média? Só 44% sentem confiança; 40% se autoidentificam como classe baixa, um salto de 15 pontos percentuais desde 2008. Entre os jovens, os números são ainda mais deprimentes. Aqueles que situam a si mesmos na camada inferior duplicaram nos últimos seis anos.
Enquanto uma maioria de americanos continua tenazmente a defender o sonho americano –  aquele antigo ideal de que se você trabalhar duro tudo é possível –, cada vez mais pessoas relatam que a oportunidade de progresso social parece cada vez mais fora de seu alcance e de seus filhos. De fato, é difícil pensar em uma tendência mais perturbadora na sociedade americana do que o fato de as pessoas na faixa de 20 e 30 anos terem menor probabilidade de possuir um diploma colegial do que as de 55 a 64 anos.
Tudo isso deve parecer contraintuitivo para públicos estrangeiros. Os EUA se exibem no cenário mundial com uma certeza e um senso de objetivo moral com que nenhum outro país pode se equiparar. Abençoado com recursos nacionais praticamente ilimitados, uma população dinâmica e variada, um sistema político relativamente estável e capacidades tecnológicas e inovadoras com que outros só podem sonhar, como é possível que tantos americanos estejam ficando para trás – e como seus líderes podem deixar isso acontecer?
A resposta é tão simples que causa espanto: nós escolhemos esse caminho.
Sim, ninguém decidiu ativamente atacar a classe média dos EUA. Não houve algum plano maligno elaborado a portas fechadas para provocar o caos socioeconômico. Mas o declínio da classe média americana, a riqueza ostentatória do chamado 1% e a esmagadora ansiedade econômica do crescente número de americanos pobres aconteceram à plena vista.
É o resultado direto de um sistema político que durante mais de quatro décadas abdicou de suas responsabilidades – e inclinou a balança econômica para os mais afluentes e bem conectados na sociedade. A ideia de que o governo tem a obrigação de criar empregos, fazer a economia crescer, construir uma rede de segurança social, ou mesmo colocar os interesses dos mais vulneráveis da sociedade acima dos mais bem-sucedidos seguiu no caminho dos rádios transistores, máquinas de fax e videocassetes. Hoje os EUA estão pagando o preço da indiferença a esse colapso econômico em câmera lenta.
Nem sempre foi assim.
Um dia, os americanos viveram em um país onde não só os maiores barcos flutuavam no alto de uma maré econômica crescente. Nos anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, os EUA foram definidos por um período sem precedentes de prosperidade econômica. Os empregos eram abundantes e bem remunerados, com generosos benefícios de saúde e aposentadoria. Novos confortos, de geladeiras e máquinas de lavar a televisores e carros, de repente estavam disponíveis. Os americanos tornaram-se proprietários de casas e eventualmente, se tivessem sorte, moradores dos subúrbios. Talvez mais importante, os que estavam no fundo da escala econômica compartilhavam a bonança tanto quanto os que estavam no topo.
A vida na época não era tão idílica quanto poderiam sugerir alguns retratos nostálgicos dos Estados Unidos no pós-guerra (especialmente se você intregrasse uma minoria, ou fosse mulher). Mas também é verdade que os americanos desfrutavam o tipo de segurança econômica com que as atuais gerações só podem sonhar.
Parte do motivo eram os líderes políticos favoráveis a um governo federal que não podia apenas ficar sentado nas laterais. Das medidas de emergência do New Deal, que depositou as bases do moderno Estado do bem-estar social, às vastas ambições da Grande Sociedade, o governo ofereceu apoio aos idosos, tratamentos de saúde para os pobres, segurança no emprego para os trabalhadores, boas escolas para os jovens americanos e investiu em projetos de ciência e infraestrutura para criar novas oportunidades econômicas.
Nos anos 1970, porém, enquanto o boom econômico do pós-guerra começava a desinflar, o mesmo aconteceu com a ideia de que o governo tinha de exercer um papel na condução da economia ou proteger os trabalhadores das vicissitudes do livre mercado. Em vez disso, enquanto um populismo conservador antigoverno surgia dos excessos "liberais" percebidos nos anos 1960, uma nova disposição política ganhava destaque. Foi a promovida pelos republicanos (embora ocasionalmente articulada e endossada por democratas). O governo não era mais um amigo do trabalhador – era uma força maligna transferindo seus dólares duramente conquistados para os pobres e as minorias, via impostos.
Essas atitudes não eram necessariamente novas. Os americanos por muito tempo flertaram com correntes de anticentralismo e temores de poder concentrado. Mas desta reação viriam ideias políticas tóxicas que definiram a política americana pós-anos 60 – impostos mais baixos e até gastos federais mais baixos, menos regulamentação e até menos intervenção do governo na economia. Embora vendidas à população americana como um elixir mágico para o que acometia a economia do país, elas trouxeram a inquietação econômica que vemos florescer plenamente hoje.
O impacto da reação conservadora antigoverno foi significativo. Os benefícios aos desempregados tornaram-se menos generosos; o mesmo ocorreu com os cupons alimentares, as pensões e o salário mínimo. As proteções ao emprego enfraqueceram quando o antigo apoio aos sindicatos e à mão-de-obra organizada foi substituído por uma crescente hostilidade dos republicanos pró-empresas. Se antes um terço de todos os americanos no setor privado estavam sindicalizados, hoje o número fica em cerca de 11%.
As matrículas em faculdades dispararam enquanto o apoio às universidades públicas caiu. Isso acontecia ao mesmo tempo que um diploma universitário se tornava uma passagem essencial para o sucesso em uma economia competitiva global. A falta de educação na primeira infância e escolas de baixo desempenho, particularmente para os americanos mais pobres, significavam que, a menos que você estivesse entre os 10% no topo, a probabilidade era de que quando seu filho começasse o jardim da infância já estaria um passo atrás.
Essa desigualdade educacional é reflexo de uma tendência maior de crescentes disparidades de renda em toda a sociedade americana. Assim, enquanto os americanos viam seus salários estagnar, suas ansiedades econômicas crescerem, seus níveis de dívida dispararem, suas poupanças para a aposentadoria encolherem e suas perspectivas de futuro se toldarem, os muito ricos ficaram muito, muito mais ricos.
No entanto, o impacto mais pernicioso do conservadorismo não veio do que ele realizou. Não havia como recuar do Estado assistencialista ou da Grande Sociedade. O reverenciado salvador republicano conservador Ronald Reagan criticou o grande governo, mas como presidente se viu incapaz de eliminar um único grande programa de gastos.
Muito piores, porém, foram os pecados da omissão. O legado mais dúbio do conservadorismo foi o de deter o progresso. Não houve uma expansão do atendimento às crianças ou uma creche universal para enfrentar o influxo das mulheres no local de trabalho. Milhões não tinham cobertura de seguro-saúde, no entanto o Congresso mostrava pouca inclinação a fornecer o acesso universal a saúde. Novos programas de infraestrutura, como o trem de alta velocidade ou a maior penetração da banda larga, não deram em nada. Programas de obras públicas para criar empregos não estavam sobre a mesa. Quando novos programas sociais foram criados, como as licenças família e médica, foram pálidos substitutos do que a classe média europeia já tinha garantido.
Mas o Congresso se ocupou mais de deduções fiscais e subsídios para o 1% mais rico e cortou os regulamentos que protegiam trabalhadores e a rede de segurança social que impedia que caíssem na miséria econômica. Até a muito atrasada aprovação do Obamacare em 2010, a classe média se viu constantemente no lado mais frágil da balança.
Certamente, alguns discutirão quanta culpa o governo federal deve receber por essa crise econômica. Forças sistêmicas maiores, como a globalização, a mudança tecnológica e a crescente especialização da economia americana, que exigia mais trabalhadores formados, também tiveram papéis importantes. Ainda assim, mesmo que se aceite que esses fatores foram mais responsáveis, onde estavam o Congresso e o presidente para ajudar os trabalhadores a navegar por essas mudanças?
Infelizmente, é provável que estivessem levantando dinheiro do 1% para a próxima eleição. Não causa muita admiração que, segundo um recente relatório acadêmico, o mundo da política é tão "dominado por poderosas organizações empresariais e um pequeno número de americanos ricos" que os EUA estão em terreno instável mesmo para chamar a si mesmos de democracia.
Enquanto os americanos viram suas fortunas econômicas decaírem, os que tinham mais condições de ajudá-los demonstraram muito pouca disposição a dar uma mão, sobretudo os republicanos conservadores.
Nas palavras imortais de Ralph Waldo Emerson, "o conservadorismo não faz poesia, não sopra oração, não tem invenção". Seu sucesso vem de ficar no caminho da reforma e dizer não. Com o Partido Republicano atualmente no comando da Câmara dos Deputados (e sem probabilidade de perder esse controle na eleição de meio de mandato neste outono), há poucos motivos, infelizmente, para se acreditar que o declínio da situação financeira da população americana em quase quatro décadas se endireitará em breve. Em suma, a "opção" que os EUA fizeram de seguir o caminho do declínio continuará conosco por algum tempo ainda.
Isso quase faz olhar para a Europa não parecer uma ideia tão ruim.
Leia mais em guardian.co.uk

sábado, 5 de abril de 2014

INDEPENDÊNCIA ENERGÉTICA DOS EUA TEM POTENCIAL PARA MUDAR O MUNDO

INDEPENDÊNCIA ENERGÉTICA DOS EUA TEM POTENCIAL PARA MUDAR O MUNDO



Com a produção de gás e petróleo de xisto, os Estados Unidos podem se tornar autosuficientes até 2035
O Santo Graal dos presidentes americanos ao longo das últimas quatro décadas, de Richard Nixon a Barack Obama, têm sido a independência energética - e, graças ao gás e petróleo de xisto, esse sonho pode se tornar realidade em breve.
A Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês) e a petrolífera BP acreditam nisso e prevêem que os Estados Unidos obterá essa independência em 2035.

Obama também faz essa aposta. "Depois de falarmos nisso durante anos, finalmente estamos preparados para controlar o nosso futuro energético", disse ele em um discurso no ano passado.
O país não parará de importar energia da noite para o dia, mas ser autossuficiente gera grandes implicações não só para os Estados Unidos, mas também para o resto do mundo. Veja a seguir quais seriam algumas dessas implicações.

Economia americana

No ano passado, os Estados Unidos gastaram US$ 300 bilhões na importação de petróleo. Isso representa quase dois terços de todo o déficit comercial anual do país. Essas importações estão sugando centenas de bilhões de dólares por ano da economia americana.
Como diz a IEA, um déficit persistente pode desacelerar o crescimento econômico, da manufatura e do emprego.
Se forem independentes nessa questão, os Estados Unidos não só gastariam bem menos com energia mais barata que é gerada no próprio país, como também usaria o dinheiro gasto atualmente com produtores americanos.

Indústria americana

A independência viria apenas com o gás e petróleo de xistos em abundância e baratos. Isso pode levar os Estados Unidos a uma era de ouro na manufatura.
Os preços da energia americana são menores que os da Europa e do Japão. Isso, junto com os salários em alta na China e o aumento da produtividade de fábricas dos Estados Unidos, faz com que empresas americanas estejam analisando trazer - algumas já o fazem - sua produção de volta ao país.
Entre 2010 e março de 2013, foram anunciados quase cem projetos da indústria química no país, avaliados em US$ 72 bilhões, de acordo com o Conselho Americano de Química.

Várias companhias, como Dow Chemical, General Electric, Ford, BASF e Caterpillar, anunciaram investimentos de centenas de milhões de dólares em novas fábricas ou na reabertura de instalações que haviam sido fechadas. Até a Apple anunciou uma nova fábrica no Estado do Arizona uma década depois de ter fechado sua última fábrica no país.
Um estudo da consultoria PricewaterhouseCoopers estima que um milhão de postos de trabalho podem ser criados até 2025 graças à energia mais barata e a demanda por gás e petróleo de xisto. Uma análise feita pelo Boston Consulting Group aponta um grande aumento das exportações de produtos manufaturados.
Qualquer aumento da manufatura levaria obviamente a um crescimento econômico ainda maior. Na verdade, os benefícios já podem ser sentidos - muitos economistas dizem que a energia mais barata foi um dos motivos pelos quais o desempenho da economia americana superou as expectativas nos últimos anos.

Indústria europeia

Há quatro anos, os preços de gás na Europa eram quase os mesmos do que nos Estados Unidos. Hoje, estão três vezes mais altos, e a IEA prevê que ainda serão duas vezes mais caros em 2035.
Para o próximo ano, o Boston Consulting Group espera que os Estados Unidos tenha uma vantagem no custo de exportação entre 5% e 25% em comparação com Alemanha, Itália, França, Reino Unido e Japão em uma série de indústrias, inclusive de plástico e borracha.
Algumas empresas europeias estão até mesmo pensando em investir pesado nos Estados Unidos. A anglo-holandesa Shell anunciou uma nova fábrica na Appalachia, uma região rica em gás. A francesa Vallourec investiu recentemente mais de US$ 1 bilhão em uma nova fábrica em Ohio, enquanto o grupo alemão de aço Voestalpine está investindo US$ 750 milhões em uma nova fábrica no Texas.
Isso não passou despercebido pelos políticos europeus.
No ano passado, o presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, anunciou que "todos os líderes estão cientes de que energia acessível e sustentável é muito importante para manter indústrias e empregos na Europa".
"A indústria encontra dificuldades para competir com empresas estrangeiras que pagam a metade do preço pela eletricidade, como nos Estados Unidos", disse Van Rompuy.
A Comissão Europeia falou até mesmo na "desindustrialização da Europa" por causa dos altos preços da energia.

Exportadores de petróleo

Vários países exportam grandes quantidades de petróleo para os Estados Unidos. Essas exportações desapareceriam com a independência energética americana. O impacto nessas economias, especialmente nas da América do Sul, da África e do Oriente Médio, seriam significativos.
Em 2011, por exemplo, as exportações de petróleo do Equador para os Estados Unidos foram de cerca de US$ 6,5 bilhões, ou 8% do PIB do país. Na Colômbia, chega a 7%.
Até mesmo o Canadá, membro do G7, sentiria o golpe. É válido ressaltar de novo, no entanto, que essa perda não viria de uma hora para outra.
Mas não é só a exportação para os Estados Unidos que seriam prejudicadas. O país é hoje o maior importador de petróleo, então, se não mais o comprasse, o seu preço inevitavelmente cairia. Isso prejudicaria produtores de petróleo.

Geopolítica e o Oriente Médio

Com a independência energética assegurada, o interesse americano no petróleo do Oriente Médio seria reduzido.
Muito disso depende do quanto a importação de petróleo é importante para a política externa dos Estados Unidos, mas alguns analistas têm comparado a política americana na Síria, um produtor de petróleo relativamente pequeno, com a sua política no Iraque, um dos maiores produtores do mundo.
Basta olhar a reação da Europa à movimentação russa na Crimeia para ver o quanto a segurança energética está interligada à política externa.
Com a Rússia provendo cerca de um terço da energia da Europa, as mãos dos líderes europeus estão, em grande parte, atadas.

Meio ambiente

As emissões de carbono nos Estados Unidos vêm caindo desde 2008, com exceção de 2010, quando houve um pequeno aumento, e agora voltaram aos níveis de meados dos anos 1990.

A razão é o grande aumento no uso de xisto, que responde por um terço da produção de gás americana e quase um quarto da produção de petróleo - isso leva a um menor uso de carvão, que é considerado mais poluente.
Isso pode ser bom para os Estados Unidos, mas não para a Europa, que tem aumento sua importação do carvão barato dos Estados Unidos.
Ambientalistas tem uma outra razão para estarem preocupados com o aumento do uso dos derivados de xisto: eles podem ser menos poluentes que o carvão, mas são mais poluentes que fontes renováveis como vento e energia solar.
Se a dependência americana do xisto continuar a aumentar e o investimento em energia renovável for reduzido como resultado disso, as emissões a longo prazo serão maiores do que se previa.
Também é importante lembrar que o petróleo e gás de xisto são combustíveis fósseis que se esgotarão. Se os Estados Unidos pretende perpetuar sua independência em energia, será preciso usar energia renovável para esse objetivo.