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quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Detroit: mais de 78 mil casas e prédios serão postos abaixo

Detroit: mais de 78 mil casas e prédios serão postos abaixo


Cláudia Trevisan, enviada especial de O Estado de S.Paulo

DETROIT - Por um breve período na década de 20, o edifício Book foi o mais alto de Detroit, cidade que tem uma das mais importantes mostras de arquitetura pré-Depressão de 1929 dos Estados Unidos. Hoje, seus 38 andares estão vazios. A alguns quilômetros de distância, fica a estação de trem de Michigan, que serviu a cidade de 1913 até 1988, e atualmente é uma de suas milhares de estruturas abandonadas.
Por seu porte e relevância histórica, é provável que os dois prédios sobrevivam e encontrem uma nova vocação na onda de recuperação que se esboça na região central de Detroit. Mas dezenas de milhares de casas e edifícios vão desaparecer. A demolição em massa é considerada uma medida necessária para o renascimento da cidade, que deve passar por um processo de downsizing (termo em inglês que define redução de estrutura) para se adequar ao tamanho atual de sua população.
Mas destruir 78 mil locais abandonadas custa dinheiro e demanda tempo. Se cada uma tivesse uma média de quatro moradores, elas seriam suficientes para abrigar toda a população do Guarujá, no litoral de São Paulo. O preço da operação é estimado em US$ 1 bilhão por Matthew Cullen, presidente da Rock Ventures - holding que congrega várias empresas com sede em Detroit, entre as quais a líder americana na concessão de financiamentos imobiliários online.
Metade desse valor poderá vir do orçamento da cidade, nos termos do plano de reestruturação apresentado aos credores pelo interventor Kevin Orr. Outros US$ 150 milhões estão no pacote federal de socorro anunciado em setembro, que tem o valor total de US$ 300 milhões. O restante terá de vir de fundações e da iniciativa privada, que se movimenta para participar do processo, diz Cullen.
A Rock Ventures trabalha no mapeamento de todas as propriedades da cidade, que deverá mostrar quais são irrecuperáveis. Na avaliação do executivo, o ritmo atual de demolições de 3 mil estruturas por ano é demasiado lento. "O problema é que surgem novas a cada ano. É como um câncer que cresce mais rápido do que nós podemos demolir." Cullen e outros empresários de Detroit propõem uma ofensiva que leve à destruição de todas as estruturas irrecuperáveis em três anos.
A Pulte Capital Partners dedica-se a investimentos no setor imobiliário e diz ter sido responsável pela construção de 1 milhão de residências em vários locais do mundo. Mas em Detroit, o presidente da empresa, Bill Pulte, capta recursos para financiar as demolições, estimadas em US$ 10 mil por estrutura.
Pulte levantou US$ 750 mil em doações privadas e está usando os recursos para financiar a destruição de 700 unidades. "Estamos fazendo isso sem fins lucrativos, para nos livrarmos da criminalidade, do entulho e melhorar a qualidade de vida das comunidades", diz ele.
Mas as demolições criam outro problema: o que fazer com os poucos habitantes que permanecem nas casas sobreviventes, para os quais a cidade dificilmente conseguirá prover serviços públicos de maneira eficiente. O ideal seria que a população se concentrasse em áreas viáveis. A questão é como fazer isso, observa o demógrafo Kurt Metzger: "Não há como forçar as pessoas a deixarem suas casas." E desapropriá-las exigiria algo de que a cidade não dispõe: dinheiro.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Setor privado tenta se reerguer em meio 

à concordata de Detroit

Atualizado em  19 de julho, 2013

Centro de Detroit (Getty)
Publicidade convida à terceirização de empregos para Detroit; centro da cidade passa por revitalização
O setor privado de Detroit, a maior cidade americana a pedir concordata, ensaia um momento de renovação, apesar das elevadas dívidas da capital do Estado do Michigan - famosa por ser o berço da indústria automobilística do país.
Alguns empresários apoiaram abertamente a declaração do governador de Michigan, Rick Snyder, segundo quem a cidade se reerguerá "mais forte" após a concordata solicitada na quinta-feira.
O pedido, o último passo antes da falência, reflete a decadência da cidade, que soma dívidas de US$ 18 bilhões (cerca de R$ 40 bilhões).
Na última década, Detroit perdeu um terço de seus habitantes. Hoje, registra desemprego de 18,6% e tem cerca de 70 mil construções abandonadas, bem como um serviço público à beira do colapso.
Ao anunciar a crise, na quinta-feira, Snyder afirmou que a cidade está "basicamente quebrada" após "60 anos de declínio" - sobretudo de seu setor industrial.
Mas, ironicamente, tudo isso ocorre ao mesmo tempo em que o centro de Detroit vive um momento de ascensão - de melhorias, investimentos, novos empregos e aumento na ocupação residencial e comercial, relata o correspondente da BBC Jonny Dymond.

Revitalização

Aportes de empresas como a financeira QuickLoans levaram, segundo agências de notícias, cerca de 7 mil empregos ao centro da cidade, para negócios como os de TI e incubadoras de start-ups. Novos restaurantes e lojas também surgiram.
Segundo a Forbes, dois grandes hospitais locais investem cerca de US$ 1,5 bilhão (R$ 3,4 bilhões) para expandir suas instalações, e a vida universitária também injeta novo ânimo à cidade.

Foto: BBC










Abandono de moradores deixou rastro de casas e 
prédios vazios na cidade

"Detroit foi construída a partir da inovação e da criatividade", disse à BBC, no mês passado - quando os problemas da cidade já ameaçavam deixá-la na bancarrota - o pequeno empresário Michael Sharber, que comanda uma start-up de energia solar.
"A cidade está cheia de oportunidades. É como um Velho Oeste sendo reconstruído."
"O setor privado está prosperando, e empresários continuam a investir em Detroit", disse nesta quinta-feira à agência de notícias Reuters o diretor da câmara de comércio local, Sandy Baruah, que vê com bons olhos o pedido de concordata. "Enfrentar a instabilidade financeira da cidade é a última fronteira para recuperar seu crescimento."

Desafios

Mas os desafios administrativos de Detroit são gigantescos e exigirão mais do que espírito empreendedor para serem solucionados, relata Dymond.
Com dezenas de milhares de credores, Detroit já era ré em diversos processos judiciais mesmo antes da concordata.
O governo municipal terá de vender os bens da cidade para pagar dívidas e pensionistas, caso a Justiça federal americana aprove o pedido de proteção contra a falência. E, mesmo com a aprovação, analistas preveem que a batalha legal em torno das dívidas se arrastem ao longo de anos, a custos milionários.
No mês passado, parte da dívida da cidade deixou de ser paga, e Kevyn Orr, gerente emergencial encarregado das finanças municipais, propôs acordos com parte dos credores, mas nem todos aceitaram.
Há, também, os problemas e carências sociais. Só entre 2000 e 2010, cerca de 250 mil moradores abandonaram a cidade, em busca de melhores oportunidades de vida.
Nos últimos anos, a cidade foi palco de diversos escândalos de corrupção envolvendo seus governos municipais.
A taxa de homicídios chegou ao maior nível dos últimos 40 anos, e os serviços públicos não conseguem atender as demandas da população. No início deste ano, por exemplo, apenas um terço das ambulâncias da cidade mantinha-se em operação.

quinta-feira, 18 de julho de 2013


Detroit torna-se maior cidade dos EUA a pedir concordata



18/07/2013
DETROIT  -  Detroit, que já foi o símbolo da pujança industrial americana, tornou-se hoje a maior cidade dos Estados Unidos a pedir concordata. Suas finanças estão devastadas e seus bairros, assombrados por um longo e lento declínio da população e da indústria automobilística.
O pedido de concordata, que se temia há meses, coloca a cidade em um curso incerto que pode significar a demissão de funcionários municipais, a venda de ativos, aumento de impostos e o redimensionamento de serviços básicos, como coleta de lixo e limpeza de neve, que já sofreram cortes.













Detroit perdeu 250 mil habitantes entre 2000 e 2010. A população, que em 1950 chegou a 1,8 milhão, agora luta para ficar acima de 700 mil. Grande parte da classe média e dezenas de empresas fugiram de Detroit, levando seus impostos com eles. Nos últimos meses, a cidade contou com recursos subsidiados pelo estado para cobrir a folha de pagamento de seus 10 mil funcionários.
Kevin Orr, um especialista em falências contratado pelo governo em março, para conter a derrocada fiscal de Detroit, fez o pedido com base no Capítulo 9 da lei de Falências e o encaminhou a um tribunal federal. "Apenas um caminho viável oferece uma saída", escreveu o governador de Michigan, Rick Snyder, em uma carta aprovando a iniciativa.
Expert na recuperação de empresas, Kevin Orr representou a montadora Chrysler durante sua reestruturação. Em junho, ele se reuniu com os credores da cidade e avisou que havia uma chance de 50% de entrar com o pedido de concordata. Alguns credores foram convidados a subtrair cerca de 10 centavos de cada dólar que a cidade lhes devia. A equipe de Orr disse que Detroit estava inadimplente no pagamento de cerca de US$ 2,5 bilhões em dívidas para "economizar dinheiro" para os serviços de polícia, bombeiros e outros. A proposta, porém, não vingou.
"Apesar dos melhores esforços do Sr. Orr, ele não conseguiu chegar a um plano de reestruturação com os credores da cidade", escreveu o governador. "Concordo, portanto, que o único caminho viável para a Detroit estável e sólida é a de pedir concordata."
Calcula-se que o déficit orçamentário de Detroit ultrapasse US$ 380 milhões. Orr informou que a dívida de longo prazo era de mais de US$ 14 bilhões e poderia ficar entre US$ 17 bilhões e US$ 20 bilhões.
Michael Sweet, um advogado especializado em falências, avalia que a cidade deverá pagar os funcionários atuais. Mas, além disso, não há garantias. "Eles não têm de pagar qualquer um que não queiram", disse ele. "E ninguém pode processá-los."

(Associated Press)