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sábado, 11 de abril de 2015

'Lei da terceirização é a maior derrota popular desde o golpe de 64'

'Lei da terceirização é a maior derrota popular desde o golpe de 64'


Para Ruy Braga, professor da USP especializado em sociologia do trabalho, Projeto de Lei 4330 completa desmonte iniciado por FHC e sela "início do governo do PMDB"

por Wanderley Preite Sobrinho — publicado 10/04/2015

Ruy Braga
Contratados com idade entre 18 e 25 anos devem ser os maiores afetados, afirma Ruy Braga

Especialista em sociologia do trabalho, Ruy Braga traça um cenário delicado para os próximos quatro anos: salários 30% mais baixos para 18 milhões de pessoas. Até 2020, a arrecadação federal despencaria, afetando o consumo e os programas de distribuição de renda. De um lado, estaria o desemprego. De outro, lucros desvinculados do aumento das vendas. Para o professor da Universidade de São Paulo (USP), a aprovação do texto base do Projeto de Lei 4330/04, que facilita a terceirização de trabalhadores, completa o desmonte dos direitos trabalhistas iniciado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso na década de 90. “Será a maior derrota popular desde o golpe de 64”, avalia o professor em entrevista a CartaCapital.
Embora o projeto não seja do governo, Braga não poupa a presidenta e o PT pelo cenário político que propiciou sua aprovação. Ele cita as restrições ao Seguro Desemprego, sancionadas pelo governo no final de 2014, como o combustível usado pelo PMDB para engatar outras propostas desfavoráveis ao trabalhador, e ironiza: “Esse projeto sela o fim do governo do PT e o início do governo do PMDB. Dilma está terceirizando seu mandato”.
Leia a entrevista completa:
CartaCapital: Uma lei para regular o setor é mesmo necessária?
Ruy Braga: Não. A Súmula do TST [Tribunal Superior do Trabalho] pacificou na Justiça o consenso de que não se pode terceirizar as atividades-fim. O que acontece é que as empresas não se conformam com esse fato. Não há um problema legal. Já há regulamentação. O que existe são interesses de empresas que desejam aumentar seus lucros.
CC: Qual a diferença entre atividade-meio e atividade-fim?
RB: Uma empresa é composta por diferentes grupos de trabalhadores. Alguns cuidam do produto ou serviço vendido pela companhia, enquanto outros gravitam em torno dessa finalidade empresarial. Em uma escola, a finalidade é educar. O professor é um trabalhador-fim. Quem mexe com segurança, limpeza e informática, por exemplo, trabalha com atividades-meio.
CC: O desemprego cai ou aumenta com as terceirizações?
RB: O desemprego aumenta. Basta dizer que um trabalhador terceirizado trabalha em média três horas a mais. Isso significa que menos funcionários são necessários: deve haver redução nas contratações e prováveis demissões.
CC: Quantas pessoas devem perder a estabilidade?
RB: Hoje o mercado formal de trabalho tem 50 milhões de pessoas com carteira assinada. Dessas, 12 milhões são terceirizadas. Se o projeto for transformado em lei, esse número deve chegar a 30 milhões em quatro ou cinco anos. Estou descontando dessa conta a massa de trabalhadores no serviço público, cuja terceirização é menor, as categorias que de fato obtêm representação sindical forte, que podem minimizar os efeitos da terceirização, e os trabalhadores qualificados.
CC: Por que os trabalhadores pouco qualificados correm maior risco?
RB: O mercado de trabalho no Brasil se especializou em mão de obra semiqualificada, que paga até 1,5 salário mínimo. Quando as empresas terceirizam, elas começam por esses funcionários. Quando for permitido à companhia terceirizar todas as suas atividades, quem for pouco qualificado mudará de status profissional.
CC: Como se saíram os países que facilitaram as terceirizações?
RB: Portugal é um exemplo típico. O Banco de Portugal publicou no final de 2014 um estudo informando que, de cada dez postos criados após a flexibilização, seis eram voltados para estagiários ou trabalho precário. O resultado é um aumento exponencial de portugueses imigrando. Ao contrário do que dizem as empresas, essa medida fecha postos, diminui a remuneração, prejudica a sindicalização de trabalhadores, bloqueia o acesso a direitos trabalhistas e aumenta o número de mortes e acidentes no trabalho porque a rigidez da fiscalização também é menor por empresas subcontratadas.
CC: E não há ganhos?
RB: Há, o das empresas. Não há outro beneficiário. Elas diminuem encargos e aumentam seus lucros.
CC: A arrecadação de impostos pode ser afetada?
RB: No Brasil, o trabalhador terceirizado recebe 30% menos do que aquele diretamente contratado. Com o avanço das terceirizações, o Estado naturalmente arrecadará menos. O recolhimento de PIS, Cofins e do FGTS também vão reduzir porque as terceirizadas são reconhecidas por recolher do trabalhador mas não repassar para a União. O Estado também terá mais dificuldade em fiscalizar a quantidade de empresas que passará a subcontratar empregados. O governo sabe disso.
CC: Por que a terceirização aumenta a rotatividade de trabalhadores?
RB: As empresas contratam jovens, aproveitam a motivação inicial e aos poucos aumentam as exigências. Quando a rotina derruba a produtividade, esses funcionários são demitidos e outros são contratados. Essa prática pressiona a massa salarial porque a cada demissão alguém é contratado por um salário menor. A rotatividade vem aumentando ano após ano. Hoje, ela está em torno de 57%, mas alcança 76% no setor de serviços. O Projeto de Lei 4330 prevê a chamada "flexibilização global", um incentivo a essa rotatividade.
CC: Qual o perfil do trabalhador que deve ser terceirizado?
RB: Nos últimos 12 anos, o público que entrou no mercado de trabalho é composto por: mulheres (63%), não brancos (70%) e jovens. Houve um avanço de contratados com idade entre 18 e 25 anos. Serão esses os maiores afetados. Embora os últimos anos tenham sido um período de inclusão, a estrutura econômica e social brasileira não exige qualificações raras. O perfil dos empregos na agroindústria, comércio e indústria pesada, por exemplo, é menos qualificado e deve sofrer com a nova lei porque as empresas terceirizam menos seus trabalhadores qualificados.
CC: O consumo alavancou a economia nos últimos anos. Ele não pode ser afetado?
RB: Essa mudança é danosa para o consumo, o que inevitavelmente afetará a economia e a arrecadação. Com menos impostos é provável que o dinheiro para transferência de renda também diminua.
CC: Qual a responsabilidade do PT e do governo Dilma por essa derrota na Câmara?
RB: O governo inaugurou essa nova fase de restrição aos direitos trabalhistas. No final de 2014, o governo editou as medidas provisórias 664 e 665, que endureceram o acesso ao Seguro Desemprego, por exemplo. Evidentemente que a base governista - com PMDB e PP - iria se sentir mais à vontade em avançar sobre mais direitos. Foi então que [o presidente da Câmara] Eduardo Cunha resgatou o PL 4330 do Sandro Mabel, que nem é mais deputado.
CC: Para um partido de esquerda, essa derrota na Câmara pode ser considerada a maior que o PT já sofreu?
RB: Eu diria que, se esse projeto se tornar lei, será a maior derrota popular desde o golpe de 64 e o maior retrocesso em leis trabalhistas desde que o FGTS foi criado, em 1966. Essa é a grande derrota dos trabalhadores nos últimos anos. Ela sela o fim do governo do PT e marca o início do governo do PMDB. A Dilma está terceirizando seu mandato.
CC: A pressão do mercado era mesmo incontornável?
RB: Dilma deixou de ser neodesenvolvimentista a partir do segundo ano de seu primeiro mandato. Seu governo privatizou portos, aeroportos, intensificou a liberação de crédito para projetos duvidosos e agora está fazendo de tudo para desonerar o custo do trabalho. O governo se voltou contra interesses históricos dos trabalhadores. O que eu vejo é a intensificação de um processo e não uma mudança de rota. Se havia alguma dúvida, as pessoas agora se dão conta de que o governo está rendido ao mercado financeiro.
CC: A terceirização era um dos assuntos preferidos nos anos 90, mas não passou. Não é contraditório que isso aconteça agora?
RB: O Fernando Henrique tentou acabar com a CLT [Consolidação das Leis do Trabalho] por meio de uma reforma trabalhista que não foi totalmente aprovada. Ele conseguiu passar a reforma previdenciária do setor privado e a regulamentação de contratos por tempo determinado. O governo Lula aprovou a reforma previdenciária do setor público e agora, com anos de atraso, o segundo governo Dilma conclui a reforma iniciada por FHC.
CC: Mas a CLT não protege também o trabalhador terceirizado?
RB: A proteção da CLT é formal, mas não acontece no mundo real. Quem é terceirizado, além de receber menos, tem dificuldade em se organizar sindicalmente porque 98% dos sindicatos que representam essa classe protegem as empresas em prejuízo dos trabalhadores. Um simples dado exemplifica: segundo o Ministério Público do Trabalho, das 36 principais libertações de trabalhadores em situação análoga a de escravos em 2014, 35 eram funcionários terceirizados.
CC: A bancada patronal tem 221 parlamentares, segundo o Diap (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar). Existe alguma relação entre o tão falado fim do financiamento privado de campanha e a aprovação desse projeto?
RB: Não há a menor dúvida. Hoje em dia é muito simples perceber o que acontece no País. Para eleger um vereador em São Paulo paga-se 4 milhões de reais. Para se eleger deputado estadual, são 10 milhões. Quem banca? Quem financia cobra seus interesses, e essa hora chegou. Enquanto o presidente da Fiesp [Federação das Indústrias do Estado de São Paulo], Paulo Skaf, ficou circulando no Congresso durante os últimos dois dias, dando entrevista, conversando com deputados e defendendo o projeto, sindicalistas levavam borrachada da polícia. Esse é o retrato do Congresso brasileiro hoje: conservador, feito de empresários, evangélicos radicais e bancada da bala.
Fonte: http://www.cartacapital.com.br/economia/lei-da-terceirizacao-e-a-maior-derrota-popular-desde-o-golpe-de-64-2867.html

domingo, 9 de novembro de 2014

Mapa Demográfico Eleitoral Brasileiro

Mapa Demográfico Eleitoral Brasileiro



November 1st, 2014 | Filed under PolíticaSociedade.

Mapa Demográfico Eleitoral Brasileiro
O Brasil não tem voto distrital para o Executivo como os mapas que foram confeccionados após as eleições presidenciais pareciam indicar. Ganhar no Rio Grande do Sul não significa ganhar o Rio Grande do Sul.  É uma diferença e tanto. Um voto vale rigorosamente um voto em qualquer lugar do Brasil com sua eleição majoritária, o que não acontece nos EUA com a sua distrital. Essa questão já me deixou encucado em olhar os mapas, porque ganhar em SP no modelo norte-americano seria uma coisa, no modelo brasileiro outra completamente diferente; perder por pouco em MG do Brasil não é catastrófico como perder por um voto na MG norte-americana.
Afligiu-me sobremaneira, entretanto, as representações do mapa eleitoral do Brasil no mapa territorial brasileiro. Associado à cartografia, os mapas territoriais desenvolvidos para localização atingiram estúpida popularidade, contudo trazem informações limitadas. Tais mapas contém tão somente as localizações e dimensões territoriais dos locais, excepcionais para medir distâncias, definir localizações, climas, vegetações e condicionantes geográficas, mas insuficientes em análises sociológicas. Um mapa de perfil eleitoral precisa apontar eleitores e não territórios.
O Amazonas vermelho não tem grande relevância eleitoral, é de conhecimento comum que o número de eleitores nesse Estado é bastante reduzido apesar de suas dimensões territoriais imensas. Por que ele é o maior destaque em todos os mapas utilizados em todos os jornais e por que acatamos esse erro tão candidamente? Por que o Nordeste aparece tão mais relevante que São Paulo nos mapas e não apenas acatamos esse erro como no caso amazonense como ainda nos colocamos a nos aprofundar no erro elaborando teses e mais teses a partir dessa informação gráfica equivocada?
O mapa cartográfico aplicado aos colégios eleitorais é inadequado por não refletir exatamente o número de eleitores, que é a principal informação. Sendo um mapa uma escala, resolvi adequá-lo a uma escala reconhecida, a tradicional representação cartográfica do País Brasil e distribuir nessa escala as unidades federativas brasileiras proporcionalmente aos seus colégios eleitorais(*). Como a intenção de um mapa é apresentar uma simplificação de informações, essas áreas foram adequadamente distribuídas de modo a coincidir com suas localizações territoriais, o que também é um dado importante, mas não único.
O Mapa da miscigenação eleitoral de Thomas Conti
A utilização dos mapas cartográficos para representação eleitoral não é inútil. Longe de mim passar qualquer impressão à esse respeito, mas ele pode ser aprimorado às necessidades de informações que se deseja passar. Inquieto em outro aspecto, Thomas Conti teve cóleras viscerais ao observar as representações dicotômicas de Estados puramente Dilmistas e Estados puramente Aecistas, um erro mais grave ainda que a distorcida representação dos colégios eleitorais.
Thomas Conti para rechaçar a dicotomia de ódio xenófobo que se instaurava (ou instaura-se, sei lá) teve a simples (e genial) ideia de apresentar ao público uma escala cromática denotando a miscigenação das preferências do eleitorado no 2º turno das eleições presidenciais brasileiras em 2014 . Humildemente, eu oferto ao público a mesma escala cromática, adequada aos colégios eleitorais brasileiros em 2014.
Mapa Demográfico Eleitoral Brasileiro na escala Thomas Conti
Metodologia e Interpretações
A metodologia consistiu em demarcar a fração de cada federação no mapa territorial brasileiro a partir das razões entre os votos válidos no 2º turno na eleição presidencial de 2014. Para facilitar visualmente, essas frações foram distribuídas de modo a se assemelhar ao mapa geográfico do Brasil.
Uma interpretação simples é entender que se cada eleitor ocupasse o mesmo espaço (a mesma metragem quadrada) e fosse distribuído pelo Brasil, as áreas necessárias para que eles se espalhassem seriam as mostradas no mapa.
Adotei o que chamei de colégio eleitoral desprezando-se abstenções. Esse colégio eleitoral teve como base dados de eleitores e por isso chamei de Mapa Demográfico Eleitoral Brasileiro. Naturalmente, poderia confeccionar o mapa a partir das populações de cada Estado e o resultado seria bastante similar uma vez que o colégio eleitoral está intrinsecamente ligado à população. Um mapa puramente demográfico ao meu ver seria formalmente mais adequado para aplicações mais gerais em outros campos de pesquisa e poderia sem qualquer ressalva ser chamado de Mapa Demográfico Brasileiro, porém eu comecei por esse e fiquei com preguiça de ajustá-lo. Meu amadorismo preguiçoso mandou eu tascar um “eleitoral” no título e publicar logo o artigo. O pesquisador profissional que quiser desenvolver tal mapa, terá minha benção, até ensino como fazê-lo, basta me procurar. O único compromisso é quando tiver show do The Who no Brasil comprar um ingresso para mim. Oportunidade de ouro.

Fonte: http://www.acasum.com.br/mapa-demografico-eleitoral-brasileiro/

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Terrorismo econômico

Terrorismo econômico


Leda Maria Paulani
Professora Titular do Departamento de Economia da FEA-USP e
Secretária de Planejamento, Orçamento e Gestão da Prefeitura de São Paulo

 Há exatamente 12 anos, o país vivia um clima muito semelhante ao de hoje, no que concerne às avaliações sobre o desempenho da economia e às suas perspectivas. Como é sabido, naquelas alturas colocava-se claramente a possibilidade de Lula chegar à presidência da República, na disputa com José Serra, do PSDB. Como isso não era do agrado das forças financeiras que protagonizaram e dominaram os dois mandatos de FHC, instalou-se um clima de terror que operava em todas as frentes, da mídia aos agentes do mercado, das análises “científicas” dos doutores das universidades às peripécias internas do próprio Banco Central. E tudo isso acontecia mesmo depois da Carta aos Brasileiros, em que Lula se rendia às pressões do mercado e prometia continuar ipsis litteris a política econômica em curso, garantindo a predominância do rentismo e os juros elevados que irrigavam os ativos dos credores. A ideia de que a economia iria se desfazer como gelatina, derreter como manteiga e sair do “controle” na hipótese de Lula vencer foi se disseminando despudoradamente e sendo “confirmada”, num claro movimento de profecia que se autorrealiza, pela queda das bolsas, subida do dólar e consequentes impactos sobre o nível de preços.
Nada disso encontrava muito respaldo nos dados, a não ser a marola provocada pelo próprio terrorismo. Apesar de um nível de reservas muitíssimo mais baixo que o de hoje e das três idas ao FMI em menos de quatro anos, os indicadores macroeconômicos usuais não estavam em colapso e não se verificava qualquer movimento parecido a uma fuga de capitais como a que ocorrera entre setembro de 1998 e janeiro de 1999 (esta sim, por sinal, indicadora de uma grave crise, pois ocorria mesmo com a garantia da permanência do capataz, reeleito em primeiro turno contra Lula nas eleições presidenciais de 1998).    
A situação hoje é muito parecida. Basta girar o dial das rádios, virar as páginas da grande mídia impressa ou zapear pelos comentaristas econômicos da TV para ler e ouvir à exaustão que a inflação está fora de controle, que os gastos do governo passaram de todas as medidas, que o país perdeu sua credibilidade, que a economia brasileira, enfim, está à beira do abismo. Mas mais uma vez os dados desmentem esse coro histérico. Muito melhores do que em 2002, os parâmetros macroeconômicos estão absolutamente dentro do previsto, a inflação segue a trajetória de normalidade inaugurada em 2003 e não há vislumbre de fuga de capitais ou perda de investimentos externos. A desvalorização do dólar e queda das bolsas que acontecem em uníssono, se dão ao mero sabor da divulgação das pesquisas eleitorais.
Para não cansar o leitor vejamos apenas 3 desses parâmetros. Os investimentos externos diretos, a única parcela “saudável” dos fluxos internacionais de capital, apresentam-se, nos valores acumulados em 12 meses até junho, no mesmo nível histórico recorde dos últimos quatro anos, em torno de 64 bilhões de dólares anuais, muito mais elevado, por sinal, do que a média do quadriênio 2007-2010 (35,5 bilhões), é bem verdade que afetada pela crise internacional, mas igualmente bem mais elevada do que a média do quadriênio 2003-2006 (15,5 bilhões), ou 1999-2002 (25,1 bilhões), ou ainda 1994-1998 (18,7 bilhões), os dois últimos, além de tudo, beneficiados pela avalanche de privatizações executadas nos dois mandatos de FHC.  As reservas internacionais do país também se encontram em nível recorde, cerca de 380 bilhões de dólares. Como falar então de perda de credibilidade?
Consideremos agora a questão do déficit público. O atual governo é sistematicamente acusado de descontrole nas contas públicas, de estar gastando em demasia, sem preocupação com o resultado primário positivo que tem de produzir. Sem entrar no mérito de tal exigência, vejamos os dados. É verdade que o superávit primário vem apresentando uma trajetória de queda nos últimos quatro anos, mas, em média (2,2% do PIB), ele não é substantivamente inferior ao dos quatro anos anteriores (2,9% do PIB), ainda que relativamente menor do que os dos quadriênios 2002-2007 (4,3%) e 1999-2002 (3,5%). Mas, no que tange ao resultado nominal, que constitui de fato o resultado final das contas públicas, ainda que não valha nada para a ortodoxia econômica, pois o que interessa a ela é a sobra de recursos públicos (superávit primário) para o pagamento dos juros da dívida, os resultados são diferentes. Extrapolando dados de junho, chegamos a um déficit de 3% do PIB na média do quadriênio 2011-2014, um pouquinho maior do que o do quadriênio 2007-2010 (2,6%), mas bem menor do que os dos quadriênios 2003-2007 (3,6%) e 1999-2002 (5,7%). Só para efeitos de comparação, nos quatro anos findos em 2013, enquanto o déficit nominal brasileiro atingiu média de 2,7%, o déficit nominal da área do euro atingiu 4,1%, o dos Estados Unidos, 9,2%, o do Reino Unido, 8%, e o do Japão, 9,4% do PIB.  Não parece um tanto exagerado falar em total descontrole dos gastos públicos?
Finalmente a inflação. A histeria pelo fato de o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo, calculado pelo IBGE) ter atingido o teto da meta (6,5% ao ano) e de poder vir a ultrapassá-lo em 0,25% encobre o fato de que mesmo com o valor de 6,75% para este ano, a média do quadriênio 2011-2014 será de 6,2%, pouco acima da média do quadriênio anterior (5,2%), mas abaixo da média do quadriênio 2002-2006 (6,5%), e muitíssimo menor que as médias dos dois quadriênios anteriores (8,7% em 1999-2002 e 9,4% em 1995-1998). Que outro nome encontrar senão terrorismo econômico para a reiterada acusação de que a inflação está fora de controle?
Qual a razão da histeria? A resposta não é difícil de adivinhar. A presidenta Dilma não conta com o apreço dos mercados financeiros. Ao longo de sua trajetória na cadeira de presidente, ela foi se afastando da cartilha ortodoxa que detinha ainda grande peso no governo (daí a inexistência de terrorismo econômico nas duas eleições seguintes) e tomando decisões pouco palatáveis para os interesses representados por esses mercados. A começar pela troca de comando do Banco Central, a presidenta teve a coragem de enfrentar o lobby bancário-financeiro, não só reduzindo a Selic, como utilizando os bancos públicos para forçar a queda dos vergonhosos spreads bancários, que ainda assim continuam muito altos. A heterodoxia econômica, que havia ficado completamente escanteada no início do período de 12 anos de gestão do governo federal sob o comando do PT, foi ganhando espaço no governo da presidenta, para horror dos mercados financeiros, que agora escutam estarrecidos pela voz do atual ministro chefe da Casa Civil, Aloísio Mercadante, que não será dada nenhuma guinada ortodoxa no segundo mandato da presidenta.
Sem saída, os mercados implantam o terror. Contam para isso com a preciosa ajuda da grande mídia impressa e rádio-televisiva e dos doutos pensadores da universidade, onde a cartilha ortodoxa tem domínio quase absoluto. Seu poder de influência é efetivo, pois, em parte, eles podem “produzir” os resultados mentirosos que alardeiam e difundem. Já vimos esse filme em 2002 e vimos também que consequências danosas ele teve, pois o terrorismo econômico foi funcional mesmo após as eleições, levando um governo supostamente de esquerda a ser mais realista que o rei e a “beijar a cruz” do neoliberalismo. Esperemos que agora esse trunfo ideológico a serviço do projeto conservador e reacionário encarnado na candidatura de Aécio Neves não seja suficiente para instalá-lo no poder e que, sendo vitoriosa a candidatura da presidenta, a política econômica se liberte de vez dos ditames da ortodoxia e retome o enfrentamento dos interesses financeiros, seguramente dos mais lesivos ao País. 

domingo, 7 de setembro de 2014

Diminuição da pobreza

Diminuição da pobreza



 O ESTADO DE S.PAULO - 07 Setembro 2014

 A economia nacional vai mal. E o País continua com graves problemas sociais que precisam ser urgentemente enfrentados. Mas reconhecer esses fatos não impede que se veja que o Brasil reduziu a pobreza, como mostra um estudo do Banco Mundial. De 1999 a 2011, houve uma significativa redução da parcela da população que vive em estado de pobreza. Antes, 35% dos brasileiros eram pobres. Agora, são 17%. O estudo utilizou uma nova metodologia para analisar a pobreza no Brasil. Dividiu a população pobre em quatro segmentos, com base não apenas na renda, mas também em sete fatores multidimensionais: se as crianças e os adolescentes frequentam a escola, o grau de escolaridade dos adultos, o acesso a água potável, saneamento e luz elétrica, a qualidade da moradia e o acesso a bens, como telefone, fogão e geladeira. A ideia é diferenciar pobreza transitória de pobreza crônica, que se caracteriza pela ausência de pelo menos quatro dos sete fatores e cuja porta de saída é muito mais difícil de ser ultrapassada. De acordo com um dos responsáveis pelo estudo, Luis Felipe López-Calva, "é preciso atacar de maneira diferente cada tipo de pobreza". O Banco Mundial reconhece que a atuação do governo brasileiro não se baseou na distinção entre pobres transitórios e pobres crônicos. No entanto, o estudo mostra que o País conseguiu reduzir a pobreza em todos os grupos definidos pela nova metodologia. Segundo López-Calva, isso foi possível graças à diversidade de estratégias de redução da pobreza, ao se utilizar de diferentes programas sociais, sem concentrar os esforços apenas no programa Bolsa Família, por exemplo. Em sua opinião, é impossível que uma sociedade consiga zerar a população pobre, mas deve batalhar pelo objetivo de eliminar a pobreza crônica. Em situação de pobreza extrema - categoria que engloba as famílias que vivem com menos de R$ 70 mensais por pessoa e que não estão sob uma rede de proteção social (formada pelos componentes multidimensionais) -, o Brasil tinha 7% da população em 1999. Em 2011, o porcentual caiu para 2%. Queda similar foi observada no grupo "pobreza moderada", formado por quem tem uma situação monetária bastante precária, mas conta com o acesso aos fatores multidimensionais. Como reflexo da queda da pobreza, em 2011, o porcentual da população brasileira nesse grupo foi também de 2%. O terceiro grupo é formado pelos "vulneráveis". É a situação inversa ao grupo "pobreza moderada", pois eles têm renda um pouco acima da linha de pobreza, mas não têm acesso aos componentes multidimensionais. Em 2011, 4% da população brasileira estava nesse grupo, metade do índice de 1999. Já "pobreza transitória" é a situação das pessoas que estão sem renda (desempregados temporários, por exemplo), mas continuam com acesso aos fatores multidimensionais, o que lhes permite sair mais facilmente da pobreza. Segundo o estudo, esse grupo teve uma redução de 25% nos 12 anos analisados. Atualmente, são 9% da população. Como causas para essa redução expressiva da pobreza, o estudo lista o crescimento econômico, o aumento do emprego e da renda, bem como a expansão dos programas sociais. Alerta o governo brasileiro, no entanto, para a necessidade de não se contentar com o patamar alcançado. Para avançar, é necessário ter um conjunto de políticas públicas que enfrentem de maneira específica as vulnerabilidades dos diversos grupos da população pobre. Para tanto, não se deve confundir a ideia de que todo mundo deve ter direito a benefícios universais, que é correta, com a necessidade de que todos recebam as mesmas políticas. Todos os que estiverem na mesma situação devem ser tratados igualmente, mas é preciso distinguir cada situação. Para López-Calva, o principal instrumento é a educação. E, se o passo do aumento da escolaridade já foi dado, agora é preciso melhorar a qualidade das escolas. "Isso é bem mais difícil", pondera. Reconhecer os acertos é uma questão de justiça. E também de prudência. Seja para avançar ainda mais, seja para não estragar o que já foi feito.

terça-feira, 24 de junho de 2014

Amazônia Legal estará toda mapeada até 2017, informa órgão

Amazônia Legal estará toda mapeada até 2017, informa órgão

O projeto de mapeamento da Amazônia Legal está em andamento e deve ser concluído até 2017, segundo o Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), que coordena as operações. Cerca de 55 mil quilômetros quadrados (km²) de hidrovias navegáveis e 1,2 milhão de km² terrestres já foram cartografados.
O Projeto Cartografia da Amazônia foi lançado em 2008 e visa a atualizar e concluir as cartografias terrestre, geológica e náutica dos 35% da Região da Amazônia sem informações na escala de 1:100.000, que são mais detalhadas. Dos 5,2 milhões de km² da Amazônia Legal, 1,8 milhão de km² não tinham informações cartográficas nessa escala.
Mais importante que a base estruturante da cartografia são os desdobramentos temáticos para as instituições, órgãos e municípios da região, avalia o diretor de Produtos do Censipam, Péricles Cardim. “Traduzir as informações dos mapas e pegar todo o montante desse conhecimento para subsidiar o poder decisório de outros órgãos era o que faltava na Amazônia”, disse.
As cartografias auxiliam o planejamento e a execução de projetos de infraestrutura, como rodovias e hidrelétricas, regularização fundiária, segurança territorial e desenvolvimento regional.
Os 55 mil km² de hidrovias já cartografados correspondem a 90 cartas náuticas produzidas ou atualizadas até 2013. Neste ano serão mapeadas mais cerca de 9,5 mil km², em 19 cartas náuticas, sendo que sete foram finalizadas até o último mês de maio. O objetivo é ampliar a segurança da navegação nos rios dos estados do Amapá, Amazonas, parte do Acre, Maranhão, de Mato Grosso, do Pará e de Roraima.
Até 2008, dois navios se dedicavam a mapear a Região Amazônica, mas, segundo Cardim, não conseguiam atingir afluentes mais distantes. Então, dentro do projeto, a Marinha recebeu cerca de R$ 43 milhões, sendo que 90% dos recursos foram para a construção de quatro navios menores, hidroceanográficos, e um de maior porte, oceanográfico. “A partir dessa capacidade, a Marinha amplia a cobertura, ano a ano, nos locais sem mapas ou que precisam de revisita.”
Mais de 95% de todo o transporte comercial da região ocorre por meio dos rios. Além disso, o transporte fluvial de passageiros movimenta anualmente 8,9 milhões de pessoas. A segurança de navegação também interfere no cálculo do seguro do frete comercial, influenciando diretamente no preço dos produtos transportados e afetando toda a economia regional.
Além dos navios, o projeto destinou recursos para investimentos como modernização dos sistemas de aquisição e processamento de dados de aeronaves especializadas em sensoriamento remoto, software e hardware para o tratamento e processamento dos dados e imagens, bem como da capacitação de recursos humanos.
Segundo Péricles Cardim, o mapeamento geológico foi o que alavancou o projeto todo, levando também a parte mais substancial dos recursos: R$ 176 milhões. “É um mapeamento que vai delimitar com qualidade a real riqueza mineral que temos na Amazônia”, disse o diretor.
Entretanto, segundo ele, são informações que dependem de aprovação e regulamentação do novo Marco Regulatório da Mineração. “É uma informação importante para ordenar como serão exploradas as riquezas”, explicou o diretor do Censipam.
O Projeto Cartografia da Amazônia tem como executores a Marinha, o Exército, a Aeronáutica e o Serviço Geológico do Brasil (CPRM). O orçamento total é de R$ 350 milhões. (Fonte: Agência Brasil)

segunda-feira, 16 de junho de 2014

País precisa abrir mercado ferroviário, diz especialista

País precisa abrir mercado ferroviário, diz especialista



A opinião do especialista está inspirada na experiência do próprio Reino Unido na formação do modelo ferroviário que vigora desde os anos 1990


Wladimir D'Andrade, do Estadão

Ponte em obra inacabada da ferrovia Transnordestina
Ponte em obra inacabada da ferrovia Transnordestina
São Paulo - A reforma na modelagem do sistema ferroviário brasileiro tem que rumar na direção da abertura de mercado para facilitar a entrada de um grande número de empresas e, assim, garantir preços competitivos para usuários deste meio de transporte.
A opinião é do especialista em ferrovias Jake Rudham, que faz parte da agência do governo britânico responsável por negócios em outros países, a UK Trade Investment.
O especialista, que está no Brasil para garimpar as oportunidades do setor, falou com exclusividade ao Broadcast, serviço de notícias em tempo real da Agência Estado.
"O Brasil necessita de um direcionamento para a abertura do mercado ferroviário", disse o representante. De acordo com ele, as companhias britânicas procuram por oportunidades internacionais e vislumbram possibilidade de investimentos tanto em países com grande desenvolvimento ferroviário, como Estados Unidos e Austrália, quanto em mercados carentes, a exemplo de nações africanas e do Oriente Médio.
"Se o Brasil quiser se tornar um dos lugares visados pelos investidores, ele precisa encontrar uma maneira de tornar o ambiente mais fácil e aberto para os negócios", afirmou Rudham.
A opinião do especialista está inspirada na experiência do próprio Reino Unido na formação do modelo ferroviário que vigora desde os anos 1990, quando o país realizou as privatizações do setor. Os britânicos adotaram o modelo open access, o mesmo que o Brasil vai implementar a partir das próximas concessões ferroviárias.
Este sistema mantém uma separação entre construtor e operadores dos trens. A capacidade da ferrovia é disponibilizada para as empresas especializadas no transporte de carga. O gerenciamento da capacidade é feita por um órgão ligado ao governo, a Valec no caso brasileiro e a Network Rail no Reino Unido.
Atualmente, sete empresas operam frete nas linhas que cortam o Reino Unido. Os preços são livres e, segundo o especialista britânico, são competitivos a ponto de o sistema recuperar parte do mercado perdido para o modal rodoviário anos antes - apenas no transporte ferroviário de passageiros há uma intervenção governamental, que oferece subsídios.
"Em um mercado em que qualquer empresa pode operar frete, não necessita de controle de preços", afirmou Rudham. "A economia inglesa é historicamente aberta e levamos esse princípio ao sistema ferroviário", disse. Na última década, o transporte de carga realizado pelas ferrovias britânicas cresceu em torno de 50%.
Brasil
Rudham veio a São Paulo pela primeira vez nesta semana para entender as intenções do governo brasileiro no setor ferroviário e encontrar possíveis investimentos no País para companhias britânicas. Por isso, ele não menciona projetos específicos que estão no radar de investidores do mercado brasileiro.
O representante do governo britânico fala do Brasil com entusiasmo em relação a oportunidade de negócios, mas faz ressalvas quanto ao ambiente de negócios.
"Cinco anos atrás, o investidor estrangeiro olhava o Brasil com grande entusiasmo, mas a realidade é que não é o lugar mais fácil para fazer negócios", afirmou Rudham.
Ele disse que muitos projetos para o País ainda estão na mesa e que o investidor estrangeiro necessita de tempo para entender como os negócios são conduzidos no Brasil. "Mas o País definitivamente tem um grande potencial e é reconhecido como um lugar de grandes oportunidades", disse o especialista.

sábado, 14 de junho de 2014

Prefeituras deixam planos de mobilidade para última hora

Prefeituras deixam planos de mobilidade para última hora



Cidades têm de concluir estudos até abril de 2015 para poderem receber recursos federais

Por Paulo Cappelli

Daqui a dez meses, municípios que não apresentarem um plano de mobilidade urbana alinhado com as diretrizes nacionais ficarão impedidos de captar recursos do governo federal para investimentos no setor. Mas, apesar de a lei ter sido sancionada no Palácio do Planalto em janeiro de 2012, das 21 prefeituras da Região Metropolitana do Rio, 17 ainda não possuem análises e levantamentos para começar a elaborar o plano.
De acordo com a Política Nacional de Mobilidade Urbana (PNMU), gestores devem priorizar obras que favoreçam o uso de transportes não motorizados e do transporte público. Municípios com mais de 20 mil habitantes devem entregar o projeto até 15 de abril.
“A lei apresenta uma série de exigências aos gestores e é essencial para melhorar o caos que se tornou a locomoção por diversas cidades do país. O automóvel hoje está universalizado como política de Estado. A calçada e o transporte público se tornaram reféns, e o carro ocupa 80% das vias, mesmo transportando apenas 30% das pessoas”, aponta Nazareno Stanislau Affonso, coordenador do Movimento Nacional pelo Direito ao Transporte Público (MDT).
“A PNMU define que os carros devem ocupar só 30% das vias e, para isso, os municípios têm muito a fazer: desde a elaboração até a execução dos projetos. Se eu fosse gestor de uma cidade, correria para entregar um plano de mobilidade coeso com a política nacional o quanto antes. É de interesse público e do próprio governante”, explica.
Na Região Metropolitana do Rio, onde todos os municípios têm mais de 20 mil habitantes, Belford Roxo, Maricá e Seropédica já levantaram dados e começaram a elaborar projetos. A Secretaria Municipal de Transportes do Rio informou apenas que o processo para a elaboração do Plano foi iniciado, mas não respondeu quais levantamentos de dados de transporte já foram feitos. 
Já as populosas cidades de Duque de Caxias, Nova Iguaçu e Niterói estão contratando as empresas que ficarão encarregadas da tarefa. Em São Gonçalo, segunda maior população do estado, o projeto ainda engatinha.
“Por sermos um município que envia e recebe uma grande população flutuante de municípios vizinhos, como Itaboraí e Niterói, há a necessidade de se pensar o PMU de forma regional, e não apenas municipal. Precisamos pensar em todos os aspectos da mobilidade. Não apenas as vias, mas as ciclovias, os pedestres e a Linha 3 do Metrô e do BRT, cujo projeto está em vias de ser aprovado pelo governo federal”, diz o secretário de Transportes Daelson Viana.
Estudo deve seguir PNMU 
Entre os municípios que já começaram os planos está Seropédica, onde já há obras seguindo a PNMU. “Estudamos a vocação dos bairros para implantação de projetos de desenvolvimento sustentável, gerando trabalho próximo de casa e evitando o uso de veículos no transporte”, afirmou a prefeitura. 
Belford Roxo está elaborando estudo, sob a orientação do Ministério das Cidades, que visa à concepção de projeto destinado à construção de faixas preferenciais para o transporte público. Em Maricá, a inclusão das diretrizes da PNMU no Plano Diretor da cidade foi aprovada pelos moradores em audiências públicas em 2013. A Secretaria de Trânsito e Transportes está elaborando o Plano Municipal de Mobilidade Urbana e informou que irá incluir as diretrizes da PNMU no documento ainda este ano.
Matéria originalmente publicada no jornal O Dia

domingo, 25 de maio de 2014

Brasil cumpre meta da ONU de reduzir mortalidade de crianças de até 5 anos

Brasil cumpre meta da ONU de reduzir mortalidade de crianças de até 5 anos



País, porém, não teve o mesmo sucesso no compromisso de diminuir morte materna


23 de maio de 2014 - Lígia Formenti - O Estado de S. Paulo

O Brasil atingiu a meta assumida no compromisso Objetivos de Desenvolvimento do Milênio de reduzir em dois terços os indicadores de mortalidade de crianças de até 5 anos. O índice, que era de 53,7 mortes por mil nascidos vivos em 1990, passou para 17,7 em 2011. Os números integram o 5.°Relatório Nacional de Acompanhamento, divulgado nesta sexta-feira, 23, em Brasília.
A meta foi atingida antes do prazo estipulado, 2015. A redução de morte materna, no entanto, não teve o mesmo sucesso. O documento admite que o Brasil dificilmente vai cumprir o compromisso de chegar em 2015 com no máximo 35 óbitos maternos a cada 100 mil nascimentos. Para isso, seria necessário praticamente reduzir pela metade os indicadores de 2011. Naquele ano, o número de mortes de mulheres durante a gravidez, o parto ou até 42 dias após o nascimento do bebê era de 63,9 a cada 100 mil nascidos.
Embora ainda muito superior ao compromisso assumido, os índices de mortalidade materna já foram significativamente maiores. Em 1990, eram 143 por 100 mil nascimentos. "Os números melhoraram. Mas há ainda muito a ser feito. Mortes no parto e por complicações dele são evitáveis", observou a representante da Rede Feminista de Saúde, Santinha Tavares.
Ela afirma que o combate ao problema é possível com a melhoria na qualidade da assistência, sobretudo durante o pré-natal. "De nada adianta a mulher fazer sete consultas durante a gestação se elas não forem de qualidade."
Santinha defende maior participação de profissionais enfermeiros especializados no parto. "Há uma resistência por parte dos médicos. Há uma luta de poder, e quem sai perdendo é a gestante." Outro ponto considerado fundamental por ela é a redução de cesáreas no País. "Elas aumentam o risco de infecção, tanto do bebê quanto da mãe."
Os Objetivos do Milênio são metas estabelecidas em 2000 pela Organização das Nações Unidas (ONU) e apoiadas por 192 países para serem alcançadas até 2015. Ao todo, são oito pontos: acabar com a fome e a miséria; universalização da educação primária; promoção da igualdade de gênero e autonomia das mulheres; reduzir a mortalidade na infância; reduzir a mortalidade materna; interromper a propagação e diminuir a incidência de HIV/aids, universalizar o tratamento da doença e reduzir a incidência de malária, tuberculose e outras doenças; qualidade de vida e respeito ao meio ambiente, incluindo reduzir pela metade a proporção da população sem acesso permanente e sustentável à água potável; e uma parceria mundial para o desenvolvimento.
Mortalidade na infância. O relatório preparado pelo governo mostra que a queda mais significativa registrada na mortalidade na infância ocorreu na faixa entre um e quatro anos de idade. Atualmente, o problema está concentrado sobretudo nos primeiros 27 dias de vida do bebê, o período neonatal.
Embora o documento ressalte que o Brasil conseguiu cumprir a meta à frente de uma série de países, o texto admite que o nível de mortalidade até os cinco anos ainda é elevado. A desigualdade regional sofreu uma redução, no entanto, Norte e Nordeste ainda apresentam taxas superiores a 20 óbitos de crianças com menos de cinco anos por mil nascidos vivos. Na Região Sul, são 13 por mil nascidos vivos.
Acesso à água. O relatório também ressalta o alcance integral da meta de reduzir à metade o porcentual da população sem acesso a saneamento. A meta foi atingida em 2012. De acordo com o trabalho, em 1990 53% da população vivia em moradias com rede coletora de esgoto ou com fossa séptica. Em 2012, o porcentual subiu para 77%. O acesso à água também melhorou nesse intervalo, de 70% para 85,5%.
Pobreza extrema. A meta brasileira para essa área é mais ambiciosa que a mundial. O compromisso era reduzir a pobreza extrema a um quarto do nível de 1990 até 2015. De acordo com o relatório, em 2012, o nível da pobreza extrema era menos de um sétimo do nível de 1990. Pelos cálculos do governo, 3,6% da população vive com menos de R$ 70 mensais.
De acordo com o trabalho, a pobreza extrema entre idosos está praticamente erradicada, graças à inclusão em programas sociais e à política de valorização real do salário mínimo.
Já a desigualdade racial persiste, embora em menor grau. Em 2012, a probabilidade da extrema pobreza entre negros era o dobro da verificada na população branca. Um em cada 20 negros era extremamente pobre. Entre brancos, o risco é de um entre 46.
Educação primária. Em 2012, 23,2% dos jovens de 15 a 24 anos não haviam completado o ensino fundamental. Embora o porcentual ainda seja expressivo, o relatório argumenta que os números brasileiros já foram muito piores. Em 1990, 66,4% dos jovens não haviam completado os anos de estudo. O porcentual de crianças de 7 a 14 anos frequentando o ensino fundamental passou de 81,2% para 97,7%.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

“O maior legado da Copa foi a especulação imobiliária”

“O maior legado da Copa foi a especulação imobiliária”



O coordenador nacional do MTST, Guilherme Boulos, expõe as razões que levaram o movimento a tornar-se um dos protagonistas dos protestos contra o Mundial.

por Miguel Martins — publicado 15/05/2014


Desde o início das obras da Arena Corinthians, há três anos, os apartamentos no bairro de Itaquera, na zona leste de São Paulo, apresentaram uma valorização de 50%, segundo o índice Finpe/Zap. Entre 2008 e 2011, o aumento dos preços não passou de 10%. Não há como negar a relação entre o advento da estrutura para a Copa do Mundo na região e a disparada da especulação imobiliária. Nesse cenário, o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) tem assumido um protagonismo maior nos protestos contra o megaevento. Em 2 de junho, o grupo liderou a ocupação de um terreno em frente ao Parque do Carmo, em Itaquera, a quatro quilômetros do palco de abertura do Mundial. Mais de 2 mil famílias montaram barracões na chamada “Copa do Povo”. Na quinta-feira 8, o coletivo Resistência Urbana, capitaneado pelo MTST, organizou três frentes de protestos em São Paulo. Os alvos foram as sedes das construtoras OAS, Odebrecht e Andrade Gutierrez, responsáveis por erguer mais de metade das arenas para a Copa.
Nesta quinta-feira 15 o grupo volta às ruas para participar do Dia Internacional da Luta contra a Copa do Mundo. Articulada pelos Comitês Populares da Copa, a série de atos deve ocorrer em 50 cidades brasileiras e outras 15 no exterior. Embora crítico do processo de especulação imobiliária desencadeado pelas obras dos estádios, Guilherme Boulos, coordenador nacional do MTST, não encara o Mundial como o “cerne do problema”. Em entrevista a CartaCapital, o ativista descreve as tratativas para tornar o terreno ocupado em Itaquera uma Zona Especial de Interesse Social e seu encontro com Dilma Rousseff (PT) e Fernando Haddad (PT) na quinta-feira 8, após os protestos realizados em São Paulo, no qual foram abordadas a elaboração de uma nova lei do inquilinato e uma política federal de prevenção de despejos forçados.
CartaCapital: Como foi planejada a ocupação do terreno em frente ao Parque do Carmo, batizada de “Copa do Povo”?
Guilherme Boulos: A ocupação de Itaquera resultou do aumento da demanda por moradia na região. O MTST foi procurado por grupos de moradores e associações locais por conta do aumento no custo do aluguel, resultante da especulação imobiliária. A partir daí fizemos reuniões com as famílias e organizamos a ocupação. O nome foi aprovado em assembleia. Há uma indignação em relação as contradições proporcionadas pelos investimentos da Copa. Sabemos que este não é o cerne do problema. Temos uma crítica muito mais focada no pagamento da dívida pública aos rentistas internacionais, que consome muito mais dinheiro público do que a Copa. Mas há uma indignação popular.
CC: O MTST critica em especial a alta da especulação imobiliária em Itaquera. A Copa é o principal motivo para a elevação dos preços aluguéis e dos imóveis?
GB: A especulação imobiliária em São Paulo e nas grandes metrópoles do país foi violenta nos últimos anos. Isso foi resultado dos incentivos para o setor imobiliário e da construção, associados à facilitação do crédito para o consumo. A demanda aumentou e com isso os preços. O mercado passou a colonizar regiões que antes eram apenas periféricas. Com isso houve uma expulsão de moradores que dependem do aluguel para regiões mais distantes, a periferia da periferia. Não foi a Copa que causou este processo, mas ela agravou o problema. Os investimentos associados ao Mundial potencializaram a valorização imobiliária. Isso não é novidade. Onde há megaevento, há especulação imobiliária pesada. A Relatoria de Moradia da ONU demonstrou isso detalhadamente.
CC: Você foi à Câmara Municipal tentar convencer vereadores a assinarem uma emenda no Plano Diretor que inclua o terreno ocupado entre as chamadas Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS). Qual foi o resultado das negociações?
GB: Entendemos que o terreno da Ocupação Copa do Povo tem todas as condições de ser demarcado como ZEIS. É uma zona urbana, com infraestrutura, com alto déficit habitacional e não está na Área de Proteção Ambiental do Carmo. Ela está como Zona Especial de Desenvolvimento Econômico desde o último Plano Diretor. Conversamos com o relator Nabil Bonduki (PT) e os vereadores Paulo Fiorilo (PT) e Juliana Cardoso (PT), que são da região. Acreditamos que será possível reverter o zoneamento.
CC: A Viver incorporadora e construtora pediu a reintegração de posse...
GB: A Incorporadora pedir o despejo é algo esperado. Surpresa seria o contrário. O problema é o Judiciário deferir o pedido mesmo com todas as irregularidades que há na área.
CC: O prefeito Fernando Haddad mencionou que a área poderia se tornar uma ZEIS, caso a empresa tivesse dívidas com o município. A Viver, no entanto, garante que não há inadimplência nos impostos. Isso pode facilitar a reintegração de posse?
GB: De fato não há débito, diferente da informação inicial que tínhamos, mas o problema é muito pior. A área está classificada fraudulentamente como área rural e por isso não está sujeita a IPTU. Paga Imposto sobre a Propriedade Territorial. O valor anual é 57 reais! Por isso, não há débito. Temos desconfiança que esta manobra possa ter ligação com as práticas da máfia do ISS que atuou nos bastidores da Prefeitura em gestões anteriores. A área está marcada como industrial há 10 anos. Paga ITR por fraude. É sonegação evidente.
CC: Como foi o encontro com a presidenta Dilma Rousseff e Haddad?
GB: No encontro com a presidenta apresentamos nossa pauta, que não incluía apenas a desapropriação do terreno da ocupação Copa do Povo. Incluía centralmente nossas pautas nacionais, com destaque para a elaboração de uma nova lei do inquilinato, com controle social do reajuste do valor de aluguéis, e para uma política federal de prevenção de despejos forçados. A inclusão no Minha Casa, Minha Vida não basta. É preciso modificar pontos importantes do programa: revogar a Portaria 595 (segundo o MTST, a medida impede as prefeituras de indicar as demandas dos movimentos de moradia), fortalecer a modalidade do programa via entidades e acabar com o valor fixo de cada faixa, que induz a construção de conjuntos em regiões mais periféricas e com pior qualidade.
CC: Qual é a posição do MTST sobre a realização do Mundial?
Não achamos que a realização da Copa tenha trazido benefícios para os trabalhadores do país. O maior legado da Copa foi transferência de recursos para as grandes empreiteiras e especulação imobiliária urbana. Há contradições claras entre o discurso oficial e os fatos. Por isso o MTST tem se mobilizado em relação ao tema e lançou, junto com a Resistência Urbana, a campanha "Copa Sem Povo, Tô na Rua de Novo". No entanto, sabemos que a direita mais atrasada, que se alicerça na grande mídia, usa a Copa para fortalecer eleitoralmente os candidatos da oposição. O MTST não compartilha com isso e busca pautar suas ações numa perspectiva classista e combativa, que impeça a utilização oportunista de nossas lutas por estes setores. Embora o governo do PT esteja longe de ser hegemônico quanto aos interesses populares, Aécio [Neves-PSDB] e [Eduardo] Campos [PSB] representam um retrocesso. Ambos não têm pudor em recorrer ao discurso neoliberal fracassado para definir seus programas. Não nos representam. Estão do outro lado da trincheira.
CC: Os protestos contra as grandes construtoras na semana passada estavam previstos para serem realizados simultaneamente à ocupação do terreno em Itaquera?
GB: As ações da Resistência Urbana já estavam previstas desde o início do ano, com o lançamento da Campanha “Copa Sem Povo, tô na rua de novo”. Ocupamos as grandes construtoras para apontar os maiores responsáveis pela especulação imobiliária e pela apropriação privada de recursos públicos. As grandes empreiteiras são um câncer nacional. Precisam ser denunciadas por seu patrimonialismo, superexploração de trabalhadores e captura do Estado pelos interesses privados.
CC: O MTST participará também do ato de 15 de maio, o chamado Dia Internacional de Lutas contra a Copa?
GB: O MTST estará nas lutas do dia 15, realizando uma série de mobilizações entorno da pauta da Campanha Copa Sem povo. Não só no dia 15, mas também no 22 e outras datas de luta até a Copa.