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domingo, 9 de novembro de 2014

O CAPITAL NO SÉCULO 21. AS NOVAS IDEIAS DO ECONOMISTA THOMAS PIKETTY

O CAPITAL NO SÉCULO 21. AS NOVAS IDEIAS DO ECONOMISTA THOMAS PIKETTY


:
A economia global estará se acelerando em direção a um futuro que se mostra incompatível com a democracia? Nesta palestra provocadora e instigante, o economista francês Thomas Piketty oferece um novo contexto para uma melhor compreensão de seu livro “O capital no século 21”, bestseller em 2014
5 DE NOVEMBRO DE 2014
Vídeo: TED – Ideas Worth Spreading
Tradução: Andrea Mussap. Revisão: Mário Curiki
O economista francês Thomas Piketty causou sensação no início de 2014, através de seu livro com uma fórmula simples e brutal para explicar a desigualdade econômica: r > g (o que significa que o retorno sobre o capital é geralmente maior do que o crescimento econômico). Aqui, ele fala com base em um conjunto de dados em massa que o levou a concluir que a desigualdade econômica não é nova, mas está ficando pior, com possíveis impactos radicais.
Thomas Piketty é economista e professor na Escola de Economia de Paris. Seu livro “O capital  no século 21”, publicado no início deste ano, teve enorme sucesso em todo o mundo.
 Vídeo:

Tradução integral da conferência de Thomas Piketty:

É muito bom estar aqui hoje.
Eu tenho trabalhado na história da distribuição de renda e riqueza nos últimos 15 anos, e uma das lições interessantes que vem dessa evidência histórica de fato é que, no longo prazo, há uma tendência de que a taxa de retorno do capital exceda a taxa de crescimento da economia, e isso tende a levar a uma alta concentração da riqueza. Não uma concentração infinita, mas quanto maior a diferença entre r e g, maior o nível de desigualdade de riqueza para onde a sociedade tende a convergir.
Portanto, esta é uma força fundamental de que falarei hoje, mas deixem-me dizer logo que esta não é a única força importante na dinâmica da distribuição de renda e riqueza, e há muitas outras forças que desempenham um papel importante na dinâmica de longo prazo da distribuição de renda e riqueza.Também há muitos dados que ainda precisam ser coletados. Hoje sabemos um pouco mais do que sabíamos, mas ainda é muito pouco, e certamente há muitos processos diferentes - econômicos, sociais, políticos - que precisam ser mais estudados. Então eu vou focar nesta força simples, mas não significa que outras forças importantes não existam.
A maioria dos dados que apresentarei vem dessa base de dados disponível online: a Base de Dados das Maiores Rendas. Esta é a maior base histórica existente sobre a desigualdade, e ela vem do esforço de mais de 30 estudiosos de várias dezenas de países. Deixem-me mostrar-lhes alguns fatos desse banco de dados, e depois retornaremos ao r maior do que g. 
O fato número um é que tem havido uma grande inversão na ordem da desigualdade de renda entre os Estados Unidos e a Europa ao longo do século passado. Em 1900, 1910, a desigualdade de renda era realmente bem maior na Europa do que nos Estados Unidos, enquanto hoje, é muito maior nos Estados Unidos. Então, deixe-me ser muito claro: A principal explicação para isso não é r maior do que g. Tem mais a ver com a mudança de oferta e demanda por competências, a corrida entre a educação e tecnologia, globalização, provavelmente um acesso mais desigual ao aprendizado nos EUA, onde você tem ótimas universidades mas onde a base do sistema de ensino não é tão boa, uma grande desigualdade no acesso às competências e também um aumento sem precedentes do salário de gerentes nos Estados Unidos, que é difícil de explicar apenas com base na educação. Tem mais coisa acontecendo aqui, mas não falarei muito sobre isso hoje porque quero focar a desigualdade de riqueza.

O economista francês Thomas Piketty, bestseller em 2014 com seu livro 'O capital no século 21'
O economista francês Thomas Piketty, bestseller em 2014 com seu livro 'O capital no século 21'

Deixem-me mostrar-lhes um indicador muito simples sobre a parte da desigualdade de renda. Esta é a parte do rendimento total indo para os 10% no topo. Vocês podem ver que um século atrás estava entre 45 e 50% na Europa e um pouco acima de 40% nos EUA, então havia mais desigualdade na Europa. Então houve uma queda acentuada durante a primeira metade do século 20, e na última década, vocês podem ver que nos EUA ficou mais desigual do que a Europa, e este é o primeiro fato que acabo de falar. O segundo é mais sobre a desigualdade de riqueza, e aqui o fato central é que a desigualdade de riqueza é sempre muito maior do que a desigualdade de renda, e também que a desigualdade de riqueza, embora também tenha aumentado nas últimas décadas, ainda é menos radical hoje do que era há um século, embora a quantidade total de riqueza em relação à renda se recuperou dos grandes choques da Primeira Guerra Mundial, da Grande Depressão, da Segunda Guerra Mundial.
Então, deixem-me mostrar-lhes dois gráficos que ilustram os fatos número dois e três. Primeiro, se olharem o nível de desigualdade de riqueza, esta é a parcela da riqueza total indo para os 10% maiores detentores da riqueza, dá para ver o mesmo tipo de inversão entre os EUA e a Europa, que tínhamos antes de desigualdade de renda. A concentração de riqueza era maior na Europa do que nos EUA há um século, e agora é o oposto. Mas também dá para ver duas coisas: Primeiro, o nível geral de desigualdade de riqueza é sempre maior que a desigualdade de renda. Então lembrem-se, para a desigualdade de renda, a parcela que ia para os 10% no topo era entre 30 e 50% da renda total,enquanto que para a riqueza, a participação é sempre entre 60 e 90%. Esse é o fato número um, e é muito importante para o que segue. Concentração de riqueza é sempre bem maior do que concentração de renda.


Fato número dois é que o aumento da desigualdade de riqueza nas últimas décadas ainda não é suficiente para nos levar de volta a 1910. Assim, a grande diferença hoje, a desigualdade de riqueza ainda é grande, com 60, 70% da riqueza total para os 10 mais ricos, mas a boa notícia é que isso é melhor do que um século atrás, onde você tinha 90% na Europa indo para os 10 mais ricos. Então, hoje o que temos é o que eu chamo de meio 40%, pessoas que não estão dentre os 10 mais e nem entre os 50 menos ricos, e o que vocês podem ver como classe média rica, que possui de 20 a 30% da riqueza total, riqueza nacional, considerando que costumavam ser pobres há um século, quando basicamente não havia classe média rica. Esta é uma mudança importante e é interessante ver que a desigualdade de riqueza não se recuperou totalmente dos níveis anteriores à Primeira Guerra Mundial, embora a quantidade total de riqueza foi recuperada. Portanto, este é o valor total da riqueza em relação à renda, e veja que particularmente na Europa estamos quase de volta ao nível de antes da Primeira Guerra Mundial. Portanto, há realmente duas partes diferentes da história aqui. Uma tem a ver com a quantidade total de riquezas que acumulamos, e não há nada de mau com isso, em acumular muita riqueza e particularmente, se é mais difusa e menos concentrada. O que nós realmente queremos focar é na evolução da desigualdade de riqueza, e o que vai acontecer no futuro. Como podemos explicar o fato de que até a Primeira Guerra Mundial, a desigualdade de riqueza era tão alta e, se algo estava subindo a níveis tão elevados, como podemos pensar no futuro?
Deixem-me trazer algumas das explicações e especulações sobre o futuro. Primeiro deixem-me dizer que acho que o melhor modelo para explicar por que a riqueza é muito mais concentrada do que a renda é um modelo dinâmico, dinástico onde os indivíduos têm um longo horizonte e acumulam riqueza por várias razões. Se as pessoas estivessem acumulando riqueza apenas por razões de ciclo de vida, sabe, para poderem usufruir quando estivessem velhas, o nível de desigualdade de riqueza estaria mais ou menos alinhado com o nível de desigualdade de renda. Mas será muito difícil de explicar porque se tem bem mais desigualdade de riqueza do que desigualdade de renda pelo modelo de ciclo de vida então você precisa de uma história onde as pessoas também se preocupam em acumular riqueza por outros motivos. Normalmente, eles querem passar a riqueza para a próxima geração, para seus filhos, ou às vezes querem acumular riqueza por causa do prestígio, do poder que vem com a ela. Deve haver outras razões para o acúmulo, além do ciclo de vida, para explicar o que vemos nos dados. Em uma grande classe de modelos dinâmicos de acúmulo de riqueza com tal motivo dinástico para a acumulação de riqueza, teremos todos os tipos de choques aleatórios e multiplicativos. Por exemplo, algumas famílias têm muitos filhos, de modo que a riqueza será dividida. Algumas famílias têm menos filhos. Também há choques de taxas de retorno. Certas famílias têm grandes ganhos de capital. Algumas fizeram investimentos ruins. Assim, sempre haverá alguma mobilidade no processo de riqueza. Algumas pessoas subirão, outras descerão. O ponto importante é que em tal modelo, para uma determinada variação de tais choques, o equilíbrio da desigualdade de riqueza será uma função vertiginosamente crescente de r menos g. E intuitivamente, a razão pela qual a diferença entre a taxa de retorno da riqueza e a taxa crescimento é importante, é que as desigualdades de riqueza iniciais serão ampliadas em um ritmo mais rápido com um maior r menos g. Tome um exemplo simples, com r igual a 5% e g igual a 1%, os donos de riqueza só precisam reinvestir um quinto do seu rendimento de capital para garantir que a sua riqueza suba tão rápido quanto o tamanho da economia. Isso torna mais fácil construir e manter grandes fortunas porque você pode consumir quatro quintos, assumindo imposto zero e você pode reinvestir um quinto. É claro que algumas famílias consumirão mais que isso, outras menos, por isso haverá alguma mobilidade na distribuição, mas em média, eles só precisam reinvestir um quinto, e isso sustenta a alta desigualdade de riqueza.


Vocês não devem se surpreender com a afirmação de que r pode ser maior do que g para sempre, pois foi isso o que aconteceu na maior parte da história da humanidade. E isso foi muito evidente para todos pelo fato de que o crescimento estava perto de 0% na maior parte da história humana. O crescimento era talvez 0,1; 0,2; 0,3%, mas o crescimento da população e da produção per capita era lento, enquanto a taxa de retorno do capital é claro, não era 0%. Era para bens de terra, que eram a forma tradicional de ativos nas sociedades pré-industriais, era tipicamente 5%. Qualquer leitor de Jane Austen sabe disso. Se você quiser uma renda anual de mil libras, você deve ter um valor de capital de 20 mil libras, de modo que 5% de 20 mil é mil. E de certa forma, este era o próprio fundamento da sociedade, porque r maior do que g foi o que permitiu detentores de riqueza e de ativos viverem as custas de seus rendimentos de capital e fazerem outra coisa na vida além de apenas se preocuparem com a sobrevivência.
Agora, uma conclusão importante da minha pesquisa histórica é que o crescimento industrial moderno não alterou este fato básico, tanto quanto se poderia esperar. É claro que a taxa de crescimento após a Revolução Industrial aumentou, tipicamente entre zero e 1 a 2%, mas ao mesmo tempo, a taxa de retorno do capital também cresceu de modo que a diferença entre os dois realmente não mudou.Durante o século 20 houve uma combinação única de eventos. Primeiro, uma taxa de retorno muito baixa devido aos choques das guerras de 1914 e 1945, destruição da riqueza, inflação, falência durante a Grande Depressão, e tudo isso reduziu a taxa de retorno privada de riqueza para níveis anormalmente baixos entre 1914 e 1945. E depois, no período pós-guerra, houve um elevada taxa de crescimento incomum em parte devido à reconstrução. Na Alemanha, França, Japão, a taxa de crescimento era de 5% entre 1950 e 1980 largamente devido à reconstrução, e também ao grande crescimento demográfico, o efeito do grupo Baby Boom.


Aparentemente, isso não vai durar por muito tempo, ao menos o crescimento populacional deve diminuir no futuro, e as melhores projeções que temos é que o crescimento a longo prazo será próximo a 1 ou 2% em vez de 4 ou 5%. Então, se você for ver, estas são as melhores estimativas que temos de crescimento do PIB mundial e da taxa de retorno de capital, taxas médias de retorno sobre o capital, dá para ver na maior parte da história da humanidade, que a taxa de crescimento era baixa, bem menor do que a taxa de retorno, e então, durante o século 20, dá-se o real crescimento da população, muito elevado no período pós-guerra e o processo de reconstrução que trouxe crescimento a uma lacuna menor com a taxa de retorno. 
Aqui eu uso as projeções de população das Nações Unidas, então é claro que eles são incertos. Talvez no futuro, todos nós começaremos a ter um monte de filhos, e as taxas de crescimento serão maiores, mas por enquanto essas são as melhores projeções que temos, e isso fará o crescimento global cair e a lacuna entre a taxa de retorno subir.
Outro evento incomum durante o século 20 foi, como eu disse, a destruição, a tributação do capital, então essa é a taxa de retorno pré-impostos. Essa é a taxa de retorno pós-impostos, e pós destruição, e isto é o que deixou a taxa média de retorno pós impostos, pós destruição, abaixo da taxa de crescimento por um longo tempo. Mas sem a destruição, sem a tributação, isso não teria acontecido.Então deixem-me dizer que o equilíbrio entre o retorno sobre o capital e o crescimento depende de muitos fatores diferentes que são muito difíceis de prever: tecnologia e desenvolvimento de técnicas de capital intensivo. Neste momento, a maioria dos setores de capital intensivo na economia são o imobiliário, habitação, o setor de energia, mas poderia ser num futuro em que temos muito mais robôs em vários setores e esta seria uma fatia maior do total do capital social que é hoje. Bem, estamos muito longe disso e no momento, o que está acontecendo no setor imobiliário, no de energia, é mais importante para o capital social e o capital de ações.


A outra questão importante são os efeitos de escala na gestão de carteiras em conjunto com a complexidade e desregulamentação financeira, que facilitam obter maiores taxas de retorno de um portfólio grande, e isso parece ser particularmente forte para bilionários, com grandes capitais. Só para dar um exemplo, este é dos rankings dos bilionários da Forbes entre 1987-2013, e dá para ver que os maiores detentores de riqueza foram subindo em seis, sete por cento ao ano em termos reais, acima da inflação, ao passo que a renda média no mundo, a riqueza média no mundo, só aumentou 2% ao ano. E vocês veem o mesmo nas grandes universidades quanto maior sua posse inicial maior a taxa de retorno.
O que poderia ser feito? Primeiro, eu acho que nós precisamos de mais transparência financeira.Sabemos muito pouco sobre a dinâmica de riqueza global, então precisamos de cessão internacional das informações bancárias. Precisamos de um registro global de ativos financeiros, maior coordenação na tributação de riqueza, e até mesmo tarifar a fortuna com uma pequena taxa será uma forma de produzir informação para então, adaptarmos nossas políticas para o que quer que observemos. E, até certo ponto, a luta contra os paraísos fiscais e a cessão automática de informações nos empurra nessa direção. Há outras formas de redistribuir a riqueza, que pode ser tentador usar. Inflação: é mais fácil imprimir dinheiro a escrever um código tributário, é tentador, mas você pode não saber o que fazer com o dinheiro. Isso é um problema. Expropriação é muito tentador. Se algumas pessoas ficaram muito ricas você as expropria. Esse não é um modo muito eficiente de organizar a regulação da dinâmica de riqueza.A guerra é uma forma ainda menos eficiente, por isso eu prefiro a tributação progressiva, mas é claro, a história - (Risos) - inventará suas melhores formas, e provavelmente envolverá uma combinação de todos estes.
Obrigado.


Thomas Piketty: Obrigado.
Bruno Giussani: Thomas, quero te fazer umas perguntas, porque é impressionante como você domina seus dados, é claro, mas, basicamente, o que você sugere é que o crescente acúmulo de riqueza é uma tendência natural do capitalismo, e se deixarmos isso à própria sorte pode ameaçar o sistema em si. Então você diz que precisamos agir para implementar políticas de redistribuição de riqueza, incluindo as que acabamos de ver: tributação progressiva, etc. No contexto político atual, quão realista isso é? Qual você acha que é a probabilidade de elas serem implementadas?
Thomas Piketty: Eu acho, se você olhar para o passado, a história da renda, riqueza e tributação é cheia de surpresas. Então, eu não estou terrivelmente impressionado com quem sabe com antecedência o que vai ou não acontecer. Eu acho que há um século, muitas pessoas diriam que a tributação progressiva nunca aconteceria e então aconteceu. E mesmo há cinco anos, muitos diriam que o sigilo bancário estaria conosco para sempre, na Suíça, que a Suíça era muito poderosa para o resto do mundo, e então, de repente, bastou algumas sanções dos EUA contra os bancos suíços para que a mudança acontecesse, e estamos indo em direção a uma maior transparência financeira. Então eu acho que não é tão difícil coordenar melhor politicamente. Nós teremos um acordo com a metade do PIB mundial ao redor da mesa, com os EUA e a União Europeia, se metade do PIB mundial não é suficiente para fazer progressos na transparência financeira e na taxa mínima sobre os lucros de empresas multinacionais, o que será preciso? Eu acho que essas não são dificuldades técnicas. Acho que podemos progredir se tivermos uma abordagem mais pragmática a essas perguntas e se tivermos as sanções adequadas sobre os que se beneficiam da opacidade financeira.
BG: Um dos argumentos contra o seu ponto de vista é que a desigualdade econômica não é apenas uma característica do capitalismo, mas um de seus motores. Então, tomamos medidas para reduzir a desigualdade e também reduzimos potencialmente o crescimento. O que você responde a isso?
TP: Sim, eu acho que a desigualdade não é um problema por si só. Eu acho que a desigualdade até certo ponto pode ser realmente útil à inovação e o crescimento. O problema é que é uma questão de grau. Quando a desigualdade fica muito extrema, ela se torna inútil ao crescimento e pode até virar algo ruim pois tende a levar a uma alta perpetuação da desigualdade ao longo do tempo e à baixa mobilidade. E, por exemplo, o tipo de concentração de riqueza que tivemos no século 19 e praticamente até a Primeira Guerra Mundial em todos os países europeus foi, penso eu, inútil ao crescimento. Ela foi destruída por uma combinação de acontecimentos trágicos e mudanças políticas, e isso não impediu o crescimento de acontecer. E também, a extrema desigualdade pode ser ruim para as nossas instituições democráticas se cria um acesso muito desigual à voz política, e a influência do dinheiro privado na política dos EUA, eu acho, é um motivo de preocupação no momento. Por isso, não queremos voltar a esse tipo de extremo, à desigualdade anterior à Primeira Guerra Mundial. Ter uma parte decente da riqueza nacional para a classe média não é ruim para o crescimento. Na verdade, é útil tanto por equidade quanto eficiência.
BG: Eu disse no início que seu livro foi criticado. Seus dados foram criticados. Algumas de suas escolhas de dados foram criticadas. Você foi acusado de escolher certos dados para construir seu estudo. O que você responde a isso?
TP: Bem, eu estou muito feliz por este livro estimular o debate. Isso é parte de seu objetivo. A razão pela qual eu coloquei todos os dados online com todo o cálculo detalhado é para que possamos ter um debate aberto e transparente sobre isso. Eu respondi ponto a ponto a cada preocupação. Deixe-me dizer que se eu fosse reescrever o livro hoje, eu realmente concluiria que o aumento da desigualdade de riqueza, particularmente nos Estados Unidos, é de fato maior do que eu relato no livro. Há um estudo recente do Saez e do Zucman mostrando, com os novos dados que eu não tinha na época do livro, que a concentração de riqueza nos EUA aumentou ainda mais do que eu relato. E haverá outros dados no futuro. Alguns irão em direções diferentes. Quase toda semana nós disponibilizamos on-line dados atuais na Base de Dados das Maiores Rendas Mundiais, e continuaremos fazendo isso no futuro, em particular nos países emergentes, e dou boas-vindas a todos que queiram contribuir com esse processo de coleta de dados. Na verdade, eu certamente concordo que não há transparência suficiente sobre a dinâmica de riqueza, e uma boa forma de ter dados melhores seria tributar a riqueza primeiro com uma taxa pequena, de modo que todos possamos concordar sobre esta importante evolução e adaptar nossas políticas ao que quer que observemos. A tributação é uma fonte de conhecimento, isso é o que mais precisamos agora.
Thomas Piketty: Merci beaucoup.

Fonte: http://www.brasil247.com/+99lz4

domingo, 17 de agosto de 2014

Entrevistas históricas: Georges Simenon entrevista Leon Trótski em 1933

Entrevistas históricas: Georges Simenon entrevista Leon Trótski em 1933

trotskiprinkipo
(Leon Trótski em seu escritório em Prinkipo, Turquia, ao redor de 1930. Foto: David King Collection)
Publicado em 12 de agosto de 2014
“O fascismo não é provocado por uma psicose ou ‘histeria’, mas por uma crise econômica e social profunda que devora o corpo da Europa sem piedade”. Pronunciadas em 1933, as palavras de Leon Trótski (1879-1940) soam mais atuais do que nunca diante do recrudescimento dos partidos neonazistas na Europa novamente em crise. O revolucionário russo estava em seu desterro de quatro anos na Turquia quando foi entrevistado pelo então jovem escritor belga Georges Simenon (1903-1989).
Simenon tinha acabado de criar seu mais célebre personagem, o inspetor Maigret, que marcaria presença em mais de 70 romances e 30 contos do escritor. Atuava como correspondente para o jornal Paris-Soir e corria o mundo escrevendo reportagens, uma hora na África, outra na União Soviética, ou nas ilhas Príncipe (Prinkipo), onde vai encontrar Trótski vivendo uma tranquila vida de aposentado que não duraria muito: em seguida partiria para a França e de lá para a Noruega, de onde seguiria para o México encontrar a morte, encomendada pelo rival Stalin.
As análises de Trótski, judeu, sobre raça, e a previsão, seis anos antes, de que a Alemanha de Hitler iria levar a Europa à guerra demonstram sua profunda visão estratégica e o desprezo dos comunistas pelos conceitos e “ideias” nazistas. O texto de Simenon, é claro, flui deliciosamente, como as águas azuis e tranquilas que cercam a ilha e que ele, amante do mar, faz questão de destacar. Quanto o jornalismo de hoje tem a aprender com o passado… Eu traduzi para vocês (originalaqui). De bônus, um documentário feito na Turquia sobre a passagem de Trótski por lá, narrado pela atriz Vanessa Redgrave. Espero que desfrutem.
***
Com Trótski
Por Georges Simenon
(publicado pelo Paris-Soir nos dias 16 e 17 de junho de 1933)
Encontrei Hitler dez vezes no Kaiserhof quando, tenso e febril, já chanceler, fazia sua campanha eleitoral. Vi Mussolini contemplar incansavelmente um desfile de milhares de jovens. E uma tarde em Montparnasse reconheci Gandhi em uma silhueta branca que caminhava colada ao muro, seguido por jovenzinhas fanáticas.
Para entrevistar Trótski eu me vi na ponte que conecta a velha e a nova Constantinopla, Istambul e Gálata, uma ponte mais cheia de gente que a Pont-Neuf em Paris. Por que tenho a sensação de um bonito domingo no Sena perto de St. Cloud, Bougival ou Poissy? Não sei.
Todos os barcos ao redor dos piers emaranhados me lembram bateaux-mouches. Eles são maiores? Certamente. Há inclusive um ar marinho, e as hélices batem contra a água salgada. Mas é uma questão de proporção. O cenário inteiro é mais vasto, o próprio céu é mais distante.
Aqui uma margem é chamada Europa e a outra, Ásia. No lugar dos rebocadores e barcaças do Sena há muitos navios de carga e de passageiros com bandeiras de todos os países do mundo que saem para o Mar Negro ou navegam através do Dardanelos.
Qual a importância disso? Eu mantenho minha impressão de um domingo bonito, de subúrbios, de tabernas. Há amantes na ponte de embarque do navio, camponeses transportando galinhas e frangos em gaiolas, marinheiros de folga que sorriem adivinhando os prazeres que irão oferecer a si mesmos.
Trótski? Escrevi para ele anteontem para pedir uma entrevista. Ontem pela manhã já acordei com o timbre do telefone.
“Monsieur Simenon? Aqui é o secretário de Monsieur Trótski. M. Trótski irá recebê-lo amanhã às 4 da tarde. Antes disso eu preciso lhe dizer que M. Trótski, cujas declarações têm sido frequentemente deturpadas, gostaria de receber suas perguntas por escrito antecipadamente. Ele irá respondê-las por escrito…”
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(O escritor Georges Simenon à época da entrevista)
Fiz três perguntas. O céu é azul, o ar tão límpido como as águas profundas onde se podem ver os movimentos das algas verde-escuras. Abaixo, no Mar de Mármara, a uma hora de Constantinopla, quatro ilhas emergem, as “Ilhas”, como elas são chamadas aqui, e já estamos tocando o ancoradouro da primeira delas.
Meudon ou St. Cloud, com as cores da Côte d’Azur. As encostas são suaves e verdes, sombreadas por pinheiros. Mas isto são os subúrbios. Lá estão as datilógrafas sonhadoras e as balconistas dentro dos barquinhos remados pelos namorados. Vende-se chocolate e sorvete, e fotógrafos param os passantes enquanto uma mulher plácida cuida de uma tenda de tiro-ao-alvo.
A distância entre as ilhas é pouco maior do que entre as margens do Sena. O verde é polvilhado de vilas brancas erguidas nas encostas. Uma outra parada. Mais uma. Quase todos os casais já deixaram o barco.
E eis Prinkipo (Príncipe), a ilha onde, em algum lugar, está a casa de Trótski.
Falou-se de um retiro suntuoso, uma vila de luxo, uma propriedade paradisíaca.
Também ao longo do Sena, à medida que saímos de Paris, o nível social sobe, mansões substituem os cafés e barcos a motor substituem os barquinhos a remo alugados.
O ancoradouro em Prinkipo é mais elegante e rodeado por restaurantes cujas toalhas de mesa brancas reluzem ao sol. Carroças com dois cavalos estão à espera, cobertas com um toldo de lona, que enfrentam a concorrência de burros selados que aguardam sem impaciência. Há 50, talvez uma centena na pequena praça.
Sexta-feira, dia de descanso na Turquia, eles estarão sobrecarregados. E em qualquer lugar onde houver sombra e grama, no pequenino riacho, atrás dos arbustos, nos morros, a multidão irá se reunir, espalhar seus alimentos, e se embriagar em risadas, música e amor.
Trótski? Uma carroça me leva por um caminho ladeado de casas. Muitas estão à venda ou para alugar, porque a crise está brava na Turquia, também. As cortinas estão fechadas, mas os jardins estão cheios de rosas tão gordas que parecem obesas. Do outro lado, se vê o tranquilo mar azul. O cocheiro estende seu braço. Tudo que tenho a fazer é descer por um beco. Tudo é tão calmo, tão imóvel, o ar, a água, as folhas, o céu, que ao passar se tem a impressão de romper os raios do sol.
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(A casa de Trótski em Prinkipo. Foto: James Hughes)
Há um homem detrás da grade. Sua túnica de policial turco está aberta sobre uma camiseta branca e, como um pacífico aposentado em seu jardim, ele está usando pantufas.
Outro policial se aproxima, este à paisana, ou melhor, em mangas de camisa, pois acaba de se lavar e está secando suas orelhas com a ponta da toalha.
“Monsieur Simenon?”
Estou em um jardim de luxo que tem somente 100 metros por 50. Um cãozinho rola na poeira. Um jovem desgrenhado, em uma rede, lê um panfleto inglês sem nem mesmo levantar o olhar em minha direção.
E lá, na varanda, há um outro jovem. Ele também está de chinelos e em mangas de camisa. E dois outros tomam café na primeira sala, que está mobiliada apenas com uma mesa e algumas cadeiras.
Tudo isso acontece em slow-motion. Acho que é por causa do ar. Estou em slow-motion também, sem nenhuma pressa; ia dizer sem curiosidade.
“Monsieur Simenon?”
Um dos jovens se aproxima, sua mão estendida, e logo estamos ambos sentados no terraço enquanto na outra ponta do jardim o policial termina sua toalete.
Pode-se estar ali por horas fazendo nada, dizendo nada, talvez pensando nada.
“Se você não se importa, primeiro nós dois falamos. E então você verá M. Trótski.”
O secretário não é russo. Ele é um jovem do norte, cheio de saúde, as bochechas rosadas, com olhos claros. Ele fala francês como se tivesse nascido em Paris.
“Estou bastante surpreso que M. Trótski tenha aceitado recebê-lo. Normalmente ele evita jornalistas.”
“Você sabe por que recebi esta distinção?”
“Não faço ideia.”
Nem eu. E continuarei sem saber. Talvez minhas questões coincidam com o desejo de Trótski de fazer uma declaração sobre determinado assunto?
Conversamos, e ao redor de nós tudo está quieto na imobilidade do ar. Os dois jovens no jardim são convidados; um inglês e um sueco. Eles irão embora após uma semana ou um mês e então outros virão, de outras partes do globo, amigos ou discípulos, que irão viver durante um tempo na intimidade da casa em Prinkipo. Uma verdadeira intimidade, quase a intimidade total de uma caserna.
Lá em cima, na estrada, carroças passam.
“Nunca houve um ataque?”
“Nunca. Como você vê, a vida é simples. Os dois policiais vivem neste barraco, ao fundo do jardim. M. Trótski raramente vai a Constantinopla, somente para ver seu médico ou dentista. Ele toma o barco que trouxe você aqui e o policial o acompanha.”
Esta é mais ou menos a inteira vida externa da casa. Trótski e Mme. Trótski vão ao médico.
No demais eles nem mesmo descem para o vilarejo. Que bem isto iria fazer? As pessoas precisam estar lá para entender, naquele terraço com vista para o jardim e para o mar, com, como horizonte próximo, a Ásia de um lado e a Europa do outro.
“Quer vê-lo agora?”
As paredes estão nuas nos quartos, brancas, e há apenas estantes de livros para quebrar a monotonia. Há livros em todos os idiomas, e eu distingo um Viagem ao Fim da Noite (de Céline) com a capa desgastada.
“M. Trótski acaba de lê-lo e ficou profundamente emocionado. A propósito, quando se trata de literatura é a francesa que ele conhece melhor…”
Trótski se levanta para me dar a mão, então se senta em sua escrivaninha, pesando docemente seu olhar sobre minha pessoa.
Ele foi descrito um milhão de vezes, e eu não gostaria de tentar fazer o mesmo. O que eu gostaria de fazer é transmitir a mesma impressão de calma e serenidade que tive, a mesma calma, a mesma serenidade que há no jardim, na casa, no cenário.
Trótski, simples e cordial, me estende as páginas datilografadas que contêm as respostas às minhas questões.
“Eu as ditei em russo e meu secretário as traduziu esta manhã. Eu gostaria apenas de perguntar se você assinaria uma segunda cópia que ficará comigo.”
Há jornais de todo o mundo sobre sua mesa, e o Paris-Soir está no topo da pilha. Será que Trótski o folheou antes da minha chegada?
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Através da janela aberta para a baía vejo um minúsculo cais no final do jardim onde dois barcos flutuam: um pequeno caiaque turco e um bote a motor.
“Veja”, Trótski sorriu, “estive pescando desde as seis horas da manhã”.
Ele não me diz que é forçado a levar um dos policiais, mas eu sei disso.
Com um gesto ele aponta as montanhas da Ásia Menor, que estão a pouco mais de 5 quilômetros dali.
“Lá há caça no inverno…”
Sobre a mesa, perto dos jornais, há um artigo que ele começou a escrever.
Esta é toda a vida da casa. Uma, às vezes duas vezes ao dia, Trótski joga a sua linha nas águas calmas do Mar de Mármara.
O resto do tempo ele fica no escritório, ao mesmo tempo tão longe e tão perto do mundo.
“Infelizmente, eu recebo os jornais somente muitos dias depois.”
Ele sorri. Seu rosto está relaxado, o olhar tranquilo. Mas não é graças a um esforço? Ele não é forçado a guardar suas forças? Para continuar sua obra, ele não se força a levar esta vida prudente, que lembra os gestos hesitantes de um convalescente?
Mas talvez não seja nada além de sabedoria.
“Você pode me fazer perguntas.”
É verdade. Mas o que será dito agora eu prometi não publicar. Trótski comenta sobre as declarações que me deu. Sua voz, seus gestos, em uníssono com a paz ambiente.
Conversamos longamente sobre Hitler. O assunto o preocupa. Pode-se sentir quanto. Repito para ele as opiniões contraditórias que ouvi ao redor da Europa, não sobre a atuação de Hitler, mas sobre sua personalidade, seu valor próprio.
Não acho que esteja traindo minha promessa ao repetir algumas das frases que me impressionaram na casa em Prinkipo, tão longe de Berlim.
“Pouco a pouco Hitler construiu a si mesmo ao mesmo tempo que fazia seu trabalho. Ele aprendeu passo a passo, etapa por etapa, ao longo da luta.”
As respostas às minhas perguntas? Nós as leremos juntos.
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(Simenon, ao centro com a cantora Josephine Baker, em 1927)
II
Perguntei a Trótski:
“O senhor acha que a questão racial irá predominar na evolução que virá da turbulência atual? Ou será a questão social? Ou a econômica? Ou a militar?”
Trótski responde:
“Não, eu não acho que a raça será um fator decisivo na evolução da próxima era. Raça é um assunto estritamente antropológico – heterogêneo, impuro, misturado (mixtum compositum) –, um assunto a partir do qual o desenvolvimento histórico criou produtos semi-acabados que são as nações… Classes e agrupamentos sociais e as correntes políticas que nascerão desta base decidirão o destino da nova era. Não nego, obviamente, o significado e as qualidades distintivas e características das raças; mas, no processo evolutivo, elas estão em segundo plano, atrás das técnicas do trabalho e do pensamento. Raça é um elemento estático e passivo, e a historia é dinâmica. Como um elemento imóvel em si mesmo pode determinar movimento e desenvolvimento? Todos os traços distintivos entre as raças se desvanecem diante do motor de combustão interna, para não mencionar a metralhadora.
“Quando Hitler se preparou para estabelecer um regime de Estado adequado à pura raça germano-nórdica ele não fez nada mais que plagiar a raça latina do Sul. Em seu tempo, durante a luta pelo poder, Mussolini utilizou claro, virando de ponta-cabeça– a doutrina social de um alemão, ou melhor, um judeu alemão, Marx, a quem, um ou dois anos antes, chamou de “o professor imortal de todos nós’. Se hoje, no século 20, os nazistas propõem virar as costas para a história, para a dinâmica social, para a civilização, para retornar à ‘raça’, por que não ir mais atrás? Antropologia não é verdade? é só uma parte da zoologia. Quem sabe talvez no reino dos anthropopithecus os racistas irão achar a maior e mais incontestável inspiração para sua atividade criativa?”
Ditaduras e democracias
Pergunta:
“O agrupamento de ditaduras pode ser considerado um embrião do reagrupamento de povos ou isso é só uma fase passageira?”
Resposta de Trotsky:
“Não acho que o agrupamento de países acontecerá, por um lado, sob o signo da ditadura e por outro, da democracia.
“Com a exceção de uma pequena parte de políticos profissionais, nações, povos e classes não vivem da política. Formas de estado são só um meio diante de determinadas tarefas, especialmente as econômicas. Obviamente uma certa similitude entre regimes de Estado predispõe à aproximação e torna isso mais fácil. Mas em última instância são as considerações materiais que decidem: interesses econômicos e cálculos militares.
“Se eu considero o grupo de ditaduras fascistas (Itália, Alemanha) e as quase-bonapartistas (Polônia, Iugoslávia, Áustria) episódicas e temporárias? Por desgraça, eu não posso fazer uma previsão tão otimista. O fascismo não é provocado por uma psicose ou “histeria” (é assim que se consolam os teóricos de salão como o conde Sforza), mas por uma crise econômica e social profunda que devora o corpo da Europa sem piedade. A atual crise cíclica só fez mais agudos os processos orgânicos mórbidos. A crise cíclica irá inevitavelmente ceder seu lugar a uma reanimação conjuntural, apesar de que será em um grau menor do que o esperado. Mas a situação geral da Europa não ficará muito melhor. Após cada crise, as empresas pequenas e fracas ficarão ainda mais fracas ou irão morrer completamente. As empresas fortes irão ficar ainda mais fortes. Perto do gigante econômico dos Estados Unidos, a Europa rota em pedaços representa uma combinação de pequenas empresas hostis umas às outras. A situação atual da América é muito difícil: o próprio dólar está de joelhos. No entanto, após a crise atual as relações de forças irão mudar a favor da América e em detrimento da Europa.
“O fato que o velho continente como um todo está perdendo a situação privilegiada que teve no passado leva a uma excessiva exacerbação de antagonismos entre os Estados europeus e entre as classes dentro dos Estados. Naturalmente, nos diferentes países estes processos levam a um diferente nível de tensão. Mas eu falo de uma tendência histórica geral. O crescimento de contradições sociais e nacionais explica, no meu ponto de vista, a origem e a relativa estabilidade das ditaduras.
“Para explicar meu pensamento permita que me refira ao que tive ocasião de dizer anos atrás sobre esta questão: por que democracias dão lugar a ditaduras e isso dura tanto? Vou lhe dar uma citação literal do artigo escrito em 25 de fevereiro de 1929:
“Costuma-se dizer neste caso que estamos lidando com nações retrógradas ou imaturas. Esta explicação se aplica apenas à Itália. Mas mesmo nos casos em que esta explicação é correta, isto não esclarece nada. No século 19 era quase uma lei que países atrasados alcançassem a democracia. Por que então o século 20 os empurra no caminho da ditadura? As instituições democráticas mostram que não suportam a pressão das contradições contemporâneas, ora externas, ora internas, mas mais frequentemente ambas ao mesmo tempo. Isto é bom? Isto é ruim? Em todo caso, é um fato.
“Por analogia com a eletricidade, a democracia pode ser definida como um sistema de interruptores e isolantes contra correntes muito fortes da luta nacional ou social. Nenhuma era na história humana foi tão saturada de antagonismos como a nossa. Um excesso de corrente é crescentemente sentido em diferentes pontos da rede européia. Sob uma grande pressão de contradições de classe e internacionais os interruptores da democracia vão derreter ou explodir. São os curto-circuitos das ditaduras. Os interruptores mais fracos são obviamente os primeiros a falhar.
“Quando escrevi estas linhas, a Alemanha ainda tinha um social-democrata no comando do governo. Está claro que a subsequente marcha de acontecimentos na Alemanha – um país que ninguém pode considerar atrasado – não foi capaz de modificar minha apreciação da situação.
“É verdade que durante este tempo o movimento revolucionário na Espanha varreu não só a ditadura de Primo de Rivera, mas também a monarquia. Correntes contrárias deste tipo são inevitáveis no processo histórico. Mas o equilíbrio interno está longe de acontecer na Península mais além dos Pirineus. O novo regime espanhol ainda não demonstrou sua estabilidade.”
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(Trotski indo para o exílio na Turquia em 1928)
Guerra ou paz?
Pergunta:
“O senhor acredita em uma possível evolução gradual ou considera um choque violento necessário? Por quanto tempo a indecisão atual pode ser prolongada?”
Resposta:
“O fascismo, particularmente o nacional-socialismo alemão, coloca a Europa em um indiscutível perigo de um choque bélico. E, talvez eu esteja errado, mas parece que não estamos suficientemente conscientes do perigo. Como temos à vista uma perspectiva não de um mês, mas de anos e certamente não dezenas de anos, considero absolutamente inevitável uma explosão bélica da Alemanha fascista. É precisamente esta questão que poderá se tornar decisiva para o destino da Europa. Espero muito em breve escrever mais sobre isso na imprensa.
“Talvez você ache minha apreciação da situação muito sombria. Estou só tentando desenhar conclusões a partir de fatos, tomando como guia não a lógica de simpatias e antipatias, mas a lógica do processo objetivo. Espero que não seja necessário provar que nossa era não é uma era de prosperidade calma e pacífica e de conforto político. Mas minha apreciação da situação só pode parecer pessimista para quem mede a marcha da história com uma régua curta. De perto, todas as grandes eras pareciam sombrias. O mecanismo do progresso, deve-se reconhecer, é bastante imperfeito. Mas não há razão para pensar que Hitler, ou uma combinação de Hitlers, irão ter sucesso sempre ou talvez por alguns anosfazendo este mecanismo ir para trás. Eles irão quebrar muitos dentes da engrenagem, vão torcer muitas alavancas, irão fazer a Europa ir para trás por alguns anos. Mas não tenho dúvida que no final, a humanidade irá achar seu caminho. Todo o passado é uma garantia disto.”
“Você tem outras questões a fazer?” Trótski pergunta pacientemente.
“Só uma, mas temo que possa parecer indiscreta.”
Ele sorri e, com um gesto, me encoraja a prosseguir.
“Os jornais dizem que o senhor recebeu recentemente emissários de Moscou com a missão de chamá-lo para retornar à Rússia.”
O sorriso se acentua.
“Não é verdade, mas eu sei a fonte desta história. Um artigo de minha autoria que apareceu dois meses atrás na imprensa norte-americana. Eu disse, entre outras coisas, que dadas as políticas atuais na Rússia eu estaria pronto a servir de novo se algum perigo ameaçasse o país.”
Ele está calmo e tranquilo.
“O senhor poderia voltar à ativa?”
Ele diz sim com a cabeça, enquanto um dos jovens, sem dúvida para a pesca da tarde, instala redes no barco.
De volta a Saint-Cloud, quer dizer, Prinkipo, e bateau-mouche.
Naquela noite eu jantei no Régence. O prospecto dizia: “O elegante restaurante onde você será bem recebido por damas da aristocracia russa…”
Há ainda um milhar de emigrantes russos em Constantinopla e como em Paris, Berlim e outras partes, a noite tem a nostalgia das balalaikas, piroyoks, vodca echachliks.
Naquela hora, em sua ilha que as balconistas e os ambulantes desertaram, Trótski dorme.
Assista também ao documentário sobre o exílio de Trótski na Turquia narrado por Vanessa Redgrave

sábado, 14 de junho de 2014

Venezuela: para que haja paz, poder ao povo

Venezuela: para que haja paz, poder ao povo



Nos últimos doze meses, mais de 630 comunas foram registradas pelo Estado em transição. Muitas outras se encontram em construção na Venezuela.



Fernando Vicente Prieto (*)
Arquivo


















Créditos da foto: Arquivo


Há um ano, diferentes ações impulsionadas por amplos setores do povo e acompanhadas por Maduro vêm a confirmar o rumo estratégico assumido pela Revolução Bolivariana. No marco de uma conjuntura complexa – caracterizada pela intenção golpista da ultradireita –, milhões de pessoas se propõem a continuar o legado de Chávez, em um momento chave para a América Latina e o Caribe. É Comuna ou nada.


Não apenas a Venezuela está pendente quanto às circunstâncias enfrentadas abertamente pelos dois projetos em disputa: o de construção do socialismo bolivariano, baseado na democracia participativa e incentivadora do protagonismo; ou o de restauração de um capitalismo completamente subordinado às transnacionais, que implica ao mesmo tempo a volta ao poder dos setores dominantes durante o Pacto de Punto Fijo. E o resultado desse jogo terá impacto em todo o continente.



Um triunfo do chavismo empurrará com mais força a integração entre os povos. Os Estados Unidos, pelo contrário, tentam garantir as maiores reservas de petróleo do mundo, mas terminam com o mal exemplo para um povo que se organiza e percebe que há crescentes cotas de poder político na sociedade. Paradoxalmente, esse é um dos elementos mais desconhecidos fora do país, embora leve maior radicalidade ao processo venezuelano.



Um ouvido junto ao povo, para entender o processo



Acostumados a olhar exclusivamente para cima, a direita ou esquerda fazem análises da situação na Venezuela em que o grande ausente é o protagonista, aquele que “cresce nas dificuldades”, como mostra a história recente do país – ao menos desde o contragolpe popular em abril de 2002.



Apesar desse menosprezo internacional, é aí que está a causa da resistência prolongada diante de uma ofensiva que inclui ataques de todo tipo, desde o uso de franco atiradores como “apoio” a manifestantes identificados com a etiqueta de estudantes pacíficos – que, no entanto, assassinam pessoas com arames e incendiam ônibus e universidades – até a agressiva diplomacia do Departamento de Estado. Tudo suficientemente coberto pelas matrizes dos meios hegemônicos, capazes de penetrar em escala planetária na maioria das consciências, inclusive na de pessoas que acreditam estar informadas porque leem as capas dos grandes jornais. Nesse contexto, não é por acaso que a construção das Comunas não entre “na agenda”, que condiciona o que pode ser dito sobre a Revolução Bolivariana.



Por isso, o tema tampouco é assumido por meios progressistas ou de esquerda, que na maioria dos casos reduzem o processo revolucionário ao que ocorre no nível do governo, sem observar a profundidade de algumas propostas que envolvem o Estado, mas em interação dialética com as organizações de base.



Esse processo funde suas raízes no programa de governo vigente (o Plano da Pátria 2013-2019) e no Golpe de Timão de Chávez, que estabelece a necessidade de avançar em direção ao Estado comunal, com o objetivo de superar o Estado liberal burguês.



Nos últimos doze meses, mais de 630 comunas foram registradas pelo Estado em transição. Muitas outras se encontram em construção, com o horizonte de consolidar 3 mil nos próximos seis anos. Essa nova forma jurídico-política traz a teimosa aspiração do povo de avançar para o autogoverno vinculado com organismos do governo central, e não poucas vezes com indiferença – ou com surda oposição – em relação aos níveis médios, governos ou prefeituras, inclusive as chavistas.



Dessa forma, em meio às “guarimbas”, que tanta atenção da mídia conseguiram em nível internacional, distintos acontecimentos indicam que, desde baixo, cresce o poder popular. Por isso, esse é um dado inevitável para compreender o que está acontecendo. E também para projetar a serventia de os povos que a heterodoxa experiência bolivariana continuarem resistindo.



Organizar-se para ser livres



Em março, enquanto o governo impulsionada Conferências de Paz com distintos setores, cerca de 300 delegadas e delegados das comunas se reuniram em Las Casitas, estado de Zulia, para debater um plano de ação a fim de aprofundar a organização popular.



Dois meses depois, em 17 de maio, cerca de 20 mil pessoas encheram o Poliedro de Caracas para se encontrar com o ministro das Comunas, Reinaldo iturriza, e com o presidente Nicolás Maduro. Ali apresentaram os acordos de Las Casitas, que incluíram propostas sobre temas políticos, econômicos e comunicacionais quanto à paz e a convivência.



A jornada levou o nome de “Comunas produtivas para a ofensiva econômica, pela paz e pela vida” e insistiu no aporte que a organização comunal pode fazer para a superação do modelo rentista petroleiro. Um modelo caracterizado por importar a maioria dos bens básicos – entre eles, os alimentos – e, portanto, débil diante da guerra econômica. É a arma mais importante dos setores interessados em derrubar o governo. 



Os moradores e moradoras das comunas destacaram o trabalho realizado pelo ministro Iturriza e se propuseram a “avançar o encadeamento produtivo mediante a construção de redes sócio-produtivas a partir da unidade nacional das comunas”.



Também pediram a Maduro para que continue apostando nas comunas e celebraram a resistência diante dos protestos violentos, que são inexistentes nos bairros populares. “Esse povo das comunas se faz respeitar com organização, ética e alegria”, disseram, para falar da ofensiva midiática contra a Revolução Bolivariana. “As empresas privadas de comunicação se encarregaram de potencializar uma matriz alheia à nossa realidade (…) Meios de comunicação: venham a nossas comunidades e digam a verdade”.



Seguindo Chávez, lembraram que “para que haja paz, deve-se dar poder ao povo. Nem nessa Pátria nem em uma outra haverá paz se o sistema capitalista se mantiver”.



Potencializar a unidade comunal



Além da anunciar a transferência de recursos para a economia comunitária, Maduro aumentou a aposta e propôs criar um Conselho de Governo Comunal que agrupe os organismos de autogoverno em nível nacional e tenha interlocução direta com a Presidência.



“Vocês me fazem propostas, eu as articulo com as políticas e me fazem chegar as críticas das falhas que o Governo Bolivariano tem. Viva a crítica popular! Aprendamos a nos alimentar da crítica. Não tenhamos medo da verdade, esse é o método de Hugo Chávez”, disse o presidente entre muitos aplausos.



Entre este mês que se inicia – e que se anuncia como se suma importância diante de outros cenários de estabilização –, novos encontros serão realizados. Um deles será “A festa dos saberes comunais”, que está sendo desenvolvida por estes dias em Caracas para promover intercâmbios e mostrar o conhecimento presente na organização social. De acordo com o que foi expressado pelo ministro Iturriza, o desafio é “criar as condições para que não dependamos em nenhum momento do ciclo produtivo do capitalismo”. Um grande desafio. É aí que estão os debates do povo venezuelano – à espreita, mas insistindo na construção do socialismo.



(*) Fernando Vicente Prieto, de Caracas – @FVicentePrieto