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domingo, 9 de novembro de 2014

O CAPITAL NO SÉCULO 21. AS NOVAS IDEIAS DO ECONOMISTA THOMAS PIKETTY

O CAPITAL NO SÉCULO 21. AS NOVAS IDEIAS DO ECONOMISTA THOMAS PIKETTY


:
A economia global estará se acelerando em direção a um futuro que se mostra incompatível com a democracia? Nesta palestra provocadora e instigante, o economista francês Thomas Piketty oferece um novo contexto para uma melhor compreensão de seu livro “O capital no século 21”, bestseller em 2014
5 DE NOVEMBRO DE 2014
Vídeo: TED – Ideas Worth Spreading
Tradução: Andrea Mussap. Revisão: Mário Curiki
O economista francês Thomas Piketty causou sensação no início de 2014, através de seu livro com uma fórmula simples e brutal para explicar a desigualdade econômica: r > g (o que significa que o retorno sobre o capital é geralmente maior do que o crescimento econômico). Aqui, ele fala com base em um conjunto de dados em massa que o levou a concluir que a desigualdade econômica não é nova, mas está ficando pior, com possíveis impactos radicais.
Thomas Piketty é economista e professor na Escola de Economia de Paris. Seu livro “O capital  no século 21”, publicado no início deste ano, teve enorme sucesso em todo o mundo.
 Vídeo:

Tradução integral da conferência de Thomas Piketty:

É muito bom estar aqui hoje.
Eu tenho trabalhado na história da distribuição de renda e riqueza nos últimos 15 anos, e uma das lições interessantes que vem dessa evidência histórica de fato é que, no longo prazo, há uma tendência de que a taxa de retorno do capital exceda a taxa de crescimento da economia, e isso tende a levar a uma alta concentração da riqueza. Não uma concentração infinita, mas quanto maior a diferença entre r e g, maior o nível de desigualdade de riqueza para onde a sociedade tende a convergir.
Portanto, esta é uma força fundamental de que falarei hoje, mas deixem-me dizer logo que esta não é a única força importante na dinâmica da distribuição de renda e riqueza, e há muitas outras forças que desempenham um papel importante na dinâmica de longo prazo da distribuição de renda e riqueza.Também há muitos dados que ainda precisam ser coletados. Hoje sabemos um pouco mais do que sabíamos, mas ainda é muito pouco, e certamente há muitos processos diferentes - econômicos, sociais, políticos - que precisam ser mais estudados. Então eu vou focar nesta força simples, mas não significa que outras forças importantes não existam.
A maioria dos dados que apresentarei vem dessa base de dados disponível online: a Base de Dados das Maiores Rendas. Esta é a maior base histórica existente sobre a desigualdade, e ela vem do esforço de mais de 30 estudiosos de várias dezenas de países. Deixem-me mostrar-lhes alguns fatos desse banco de dados, e depois retornaremos ao r maior do que g. 
O fato número um é que tem havido uma grande inversão na ordem da desigualdade de renda entre os Estados Unidos e a Europa ao longo do século passado. Em 1900, 1910, a desigualdade de renda era realmente bem maior na Europa do que nos Estados Unidos, enquanto hoje, é muito maior nos Estados Unidos. Então, deixe-me ser muito claro: A principal explicação para isso não é r maior do que g. Tem mais a ver com a mudança de oferta e demanda por competências, a corrida entre a educação e tecnologia, globalização, provavelmente um acesso mais desigual ao aprendizado nos EUA, onde você tem ótimas universidades mas onde a base do sistema de ensino não é tão boa, uma grande desigualdade no acesso às competências e também um aumento sem precedentes do salário de gerentes nos Estados Unidos, que é difícil de explicar apenas com base na educação. Tem mais coisa acontecendo aqui, mas não falarei muito sobre isso hoje porque quero focar a desigualdade de riqueza.

O economista francês Thomas Piketty, bestseller em 2014 com seu livro 'O capital no século 21'
O economista francês Thomas Piketty, bestseller em 2014 com seu livro 'O capital no século 21'

Deixem-me mostrar-lhes um indicador muito simples sobre a parte da desigualdade de renda. Esta é a parte do rendimento total indo para os 10% no topo. Vocês podem ver que um século atrás estava entre 45 e 50% na Europa e um pouco acima de 40% nos EUA, então havia mais desigualdade na Europa. Então houve uma queda acentuada durante a primeira metade do século 20, e na última década, vocês podem ver que nos EUA ficou mais desigual do que a Europa, e este é o primeiro fato que acabo de falar. O segundo é mais sobre a desigualdade de riqueza, e aqui o fato central é que a desigualdade de riqueza é sempre muito maior do que a desigualdade de renda, e também que a desigualdade de riqueza, embora também tenha aumentado nas últimas décadas, ainda é menos radical hoje do que era há um século, embora a quantidade total de riqueza em relação à renda se recuperou dos grandes choques da Primeira Guerra Mundial, da Grande Depressão, da Segunda Guerra Mundial.
Então, deixem-me mostrar-lhes dois gráficos que ilustram os fatos número dois e três. Primeiro, se olharem o nível de desigualdade de riqueza, esta é a parcela da riqueza total indo para os 10% maiores detentores da riqueza, dá para ver o mesmo tipo de inversão entre os EUA e a Europa, que tínhamos antes de desigualdade de renda. A concentração de riqueza era maior na Europa do que nos EUA há um século, e agora é o oposto. Mas também dá para ver duas coisas: Primeiro, o nível geral de desigualdade de riqueza é sempre maior que a desigualdade de renda. Então lembrem-se, para a desigualdade de renda, a parcela que ia para os 10% no topo era entre 30 e 50% da renda total,enquanto que para a riqueza, a participação é sempre entre 60 e 90%. Esse é o fato número um, e é muito importante para o que segue. Concentração de riqueza é sempre bem maior do que concentração de renda.


Fato número dois é que o aumento da desigualdade de riqueza nas últimas décadas ainda não é suficiente para nos levar de volta a 1910. Assim, a grande diferença hoje, a desigualdade de riqueza ainda é grande, com 60, 70% da riqueza total para os 10 mais ricos, mas a boa notícia é que isso é melhor do que um século atrás, onde você tinha 90% na Europa indo para os 10 mais ricos. Então, hoje o que temos é o que eu chamo de meio 40%, pessoas que não estão dentre os 10 mais e nem entre os 50 menos ricos, e o que vocês podem ver como classe média rica, que possui de 20 a 30% da riqueza total, riqueza nacional, considerando que costumavam ser pobres há um século, quando basicamente não havia classe média rica. Esta é uma mudança importante e é interessante ver que a desigualdade de riqueza não se recuperou totalmente dos níveis anteriores à Primeira Guerra Mundial, embora a quantidade total de riqueza foi recuperada. Portanto, este é o valor total da riqueza em relação à renda, e veja que particularmente na Europa estamos quase de volta ao nível de antes da Primeira Guerra Mundial. Portanto, há realmente duas partes diferentes da história aqui. Uma tem a ver com a quantidade total de riquezas que acumulamos, e não há nada de mau com isso, em acumular muita riqueza e particularmente, se é mais difusa e menos concentrada. O que nós realmente queremos focar é na evolução da desigualdade de riqueza, e o que vai acontecer no futuro. Como podemos explicar o fato de que até a Primeira Guerra Mundial, a desigualdade de riqueza era tão alta e, se algo estava subindo a níveis tão elevados, como podemos pensar no futuro?
Deixem-me trazer algumas das explicações e especulações sobre o futuro. Primeiro deixem-me dizer que acho que o melhor modelo para explicar por que a riqueza é muito mais concentrada do que a renda é um modelo dinâmico, dinástico onde os indivíduos têm um longo horizonte e acumulam riqueza por várias razões. Se as pessoas estivessem acumulando riqueza apenas por razões de ciclo de vida, sabe, para poderem usufruir quando estivessem velhas, o nível de desigualdade de riqueza estaria mais ou menos alinhado com o nível de desigualdade de renda. Mas será muito difícil de explicar porque se tem bem mais desigualdade de riqueza do que desigualdade de renda pelo modelo de ciclo de vida então você precisa de uma história onde as pessoas também se preocupam em acumular riqueza por outros motivos. Normalmente, eles querem passar a riqueza para a próxima geração, para seus filhos, ou às vezes querem acumular riqueza por causa do prestígio, do poder que vem com a ela. Deve haver outras razões para o acúmulo, além do ciclo de vida, para explicar o que vemos nos dados. Em uma grande classe de modelos dinâmicos de acúmulo de riqueza com tal motivo dinástico para a acumulação de riqueza, teremos todos os tipos de choques aleatórios e multiplicativos. Por exemplo, algumas famílias têm muitos filhos, de modo que a riqueza será dividida. Algumas famílias têm menos filhos. Também há choques de taxas de retorno. Certas famílias têm grandes ganhos de capital. Algumas fizeram investimentos ruins. Assim, sempre haverá alguma mobilidade no processo de riqueza. Algumas pessoas subirão, outras descerão. O ponto importante é que em tal modelo, para uma determinada variação de tais choques, o equilíbrio da desigualdade de riqueza será uma função vertiginosamente crescente de r menos g. E intuitivamente, a razão pela qual a diferença entre a taxa de retorno da riqueza e a taxa crescimento é importante, é que as desigualdades de riqueza iniciais serão ampliadas em um ritmo mais rápido com um maior r menos g. Tome um exemplo simples, com r igual a 5% e g igual a 1%, os donos de riqueza só precisam reinvestir um quinto do seu rendimento de capital para garantir que a sua riqueza suba tão rápido quanto o tamanho da economia. Isso torna mais fácil construir e manter grandes fortunas porque você pode consumir quatro quintos, assumindo imposto zero e você pode reinvestir um quinto. É claro que algumas famílias consumirão mais que isso, outras menos, por isso haverá alguma mobilidade na distribuição, mas em média, eles só precisam reinvestir um quinto, e isso sustenta a alta desigualdade de riqueza.


Vocês não devem se surpreender com a afirmação de que r pode ser maior do que g para sempre, pois foi isso o que aconteceu na maior parte da história da humanidade. E isso foi muito evidente para todos pelo fato de que o crescimento estava perto de 0% na maior parte da história humana. O crescimento era talvez 0,1; 0,2; 0,3%, mas o crescimento da população e da produção per capita era lento, enquanto a taxa de retorno do capital é claro, não era 0%. Era para bens de terra, que eram a forma tradicional de ativos nas sociedades pré-industriais, era tipicamente 5%. Qualquer leitor de Jane Austen sabe disso. Se você quiser uma renda anual de mil libras, você deve ter um valor de capital de 20 mil libras, de modo que 5% de 20 mil é mil. E de certa forma, este era o próprio fundamento da sociedade, porque r maior do que g foi o que permitiu detentores de riqueza e de ativos viverem as custas de seus rendimentos de capital e fazerem outra coisa na vida além de apenas se preocuparem com a sobrevivência.
Agora, uma conclusão importante da minha pesquisa histórica é que o crescimento industrial moderno não alterou este fato básico, tanto quanto se poderia esperar. É claro que a taxa de crescimento após a Revolução Industrial aumentou, tipicamente entre zero e 1 a 2%, mas ao mesmo tempo, a taxa de retorno do capital também cresceu de modo que a diferença entre os dois realmente não mudou.Durante o século 20 houve uma combinação única de eventos. Primeiro, uma taxa de retorno muito baixa devido aos choques das guerras de 1914 e 1945, destruição da riqueza, inflação, falência durante a Grande Depressão, e tudo isso reduziu a taxa de retorno privada de riqueza para níveis anormalmente baixos entre 1914 e 1945. E depois, no período pós-guerra, houve um elevada taxa de crescimento incomum em parte devido à reconstrução. Na Alemanha, França, Japão, a taxa de crescimento era de 5% entre 1950 e 1980 largamente devido à reconstrução, e também ao grande crescimento demográfico, o efeito do grupo Baby Boom.


Aparentemente, isso não vai durar por muito tempo, ao menos o crescimento populacional deve diminuir no futuro, e as melhores projeções que temos é que o crescimento a longo prazo será próximo a 1 ou 2% em vez de 4 ou 5%. Então, se você for ver, estas são as melhores estimativas que temos de crescimento do PIB mundial e da taxa de retorno de capital, taxas médias de retorno sobre o capital, dá para ver na maior parte da história da humanidade, que a taxa de crescimento era baixa, bem menor do que a taxa de retorno, e então, durante o século 20, dá-se o real crescimento da população, muito elevado no período pós-guerra e o processo de reconstrução que trouxe crescimento a uma lacuna menor com a taxa de retorno. 
Aqui eu uso as projeções de população das Nações Unidas, então é claro que eles são incertos. Talvez no futuro, todos nós começaremos a ter um monte de filhos, e as taxas de crescimento serão maiores, mas por enquanto essas são as melhores projeções que temos, e isso fará o crescimento global cair e a lacuna entre a taxa de retorno subir.
Outro evento incomum durante o século 20 foi, como eu disse, a destruição, a tributação do capital, então essa é a taxa de retorno pré-impostos. Essa é a taxa de retorno pós-impostos, e pós destruição, e isto é o que deixou a taxa média de retorno pós impostos, pós destruição, abaixo da taxa de crescimento por um longo tempo. Mas sem a destruição, sem a tributação, isso não teria acontecido.Então deixem-me dizer que o equilíbrio entre o retorno sobre o capital e o crescimento depende de muitos fatores diferentes que são muito difíceis de prever: tecnologia e desenvolvimento de técnicas de capital intensivo. Neste momento, a maioria dos setores de capital intensivo na economia são o imobiliário, habitação, o setor de energia, mas poderia ser num futuro em que temos muito mais robôs em vários setores e esta seria uma fatia maior do total do capital social que é hoje. Bem, estamos muito longe disso e no momento, o que está acontecendo no setor imobiliário, no de energia, é mais importante para o capital social e o capital de ações.


A outra questão importante são os efeitos de escala na gestão de carteiras em conjunto com a complexidade e desregulamentação financeira, que facilitam obter maiores taxas de retorno de um portfólio grande, e isso parece ser particularmente forte para bilionários, com grandes capitais. Só para dar um exemplo, este é dos rankings dos bilionários da Forbes entre 1987-2013, e dá para ver que os maiores detentores de riqueza foram subindo em seis, sete por cento ao ano em termos reais, acima da inflação, ao passo que a renda média no mundo, a riqueza média no mundo, só aumentou 2% ao ano. E vocês veem o mesmo nas grandes universidades quanto maior sua posse inicial maior a taxa de retorno.
O que poderia ser feito? Primeiro, eu acho que nós precisamos de mais transparência financeira.Sabemos muito pouco sobre a dinâmica de riqueza global, então precisamos de cessão internacional das informações bancárias. Precisamos de um registro global de ativos financeiros, maior coordenação na tributação de riqueza, e até mesmo tarifar a fortuna com uma pequena taxa será uma forma de produzir informação para então, adaptarmos nossas políticas para o que quer que observemos. E, até certo ponto, a luta contra os paraísos fiscais e a cessão automática de informações nos empurra nessa direção. Há outras formas de redistribuir a riqueza, que pode ser tentador usar. Inflação: é mais fácil imprimir dinheiro a escrever um código tributário, é tentador, mas você pode não saber o que fazer com o dinheiro. Isso é um problema. Expropriação é muito tentador. Se algumas pessoas ficaram muito ricas você as expropria. Esse não é um modo muito eficiente de organizar a regulação da dinâmica de riqueza.A guerra é uma forma ainda menos eficiente, por isso eu prefiro a tributação progressiva, mas é claro, a história - (Risos) - inventará suas melhores formas, e provavelmente envolverá uma combinação de todos estes.
Obrigado.


Thomas Piketty: Obrigado.
Bruno Giussani: Thomas, quero te fazer umas perguntas, porque é impressionante como você domina seus dados, é claro, mas, basicamente, o que você sugere é que o crescente acúmulo de riqueza é uma tendência natural do capitalismo, e se deixarmos isso à própria sorte pode ameaçar o sistema em si. Então você diz que precisamos agir para implementar políticas de redistribuição de riqueza, incluindo as que acabamos de ver: tributação progressiva, etc. No contexto político atual, quão realista isso é? Qual você acha que é a probabilidade de elas serem implementadas?
Thomas Piketty: Eu acho, se você olhar para o passado, a história da renda, riqueza e tributação é cheia de surpresas. Então, eu não estou terrivelmente impressionado com quem sabe com antecedência o que vai ou não acontecer. Eu acho que há um século, muitas pessoas diriam que a tributação progressiva nunca aconteceria e então aconteceu. E mesmo há cinco anos, muitos diriam que o sigilo bancário estaria conosco para sempre, na Suíça, que a Suíça era muito poderosa para o resto do mundo, e então, de repente, bastou algumas sanções dos EUA contra os bancos suíços para que a mudança acontecesse, e estamos indo em direção a uma maior transparência financeira. Então eu acho que não é tão difícil coordenar melhor politicamente. Nós teremos um acordo com a metade do PIB mundial ao redor da mesa, com os EUA e a União Europeia, se metade do PIB mundial não é suficiente para fazer progressos na transparência financeira e na taxa mínima sobre os lucros de empresas multinacionais, o que será preciso? Eu acho que essas não são dificuldades técnicas. Acho que podemos progredir se tivermos uma abordagem mais pragmática a essas perguntas e se tivermos as sanções adequadas sobre os que se beneficiam da opacidade financeira.
BG: Um dos argumentos contra o seu ponto de vista é que a desigualdade econômica não é apenas uma característica do capitalismo, mas um de seus motores. Então, tomamos medidas para reduzir a desigualdade e também reduzimos potencialmente o crescimento. O que você responde a isso?
TP: Sim, eu acho que a desigualdade não é um problema por si só. Eu acho que a desigualdade até certo ponto pode ser realmente útil à inovação e o crescimento. O problema é que é uma questão de grau. Quando a desigualdade fica muito extrema, ela se torna inútil ao crescimento e pode até virar algo ruim pois tende a levar a uma alta perpetuação da desigualdade ao longo do tempo e à baixa mobilidade. E, por exemplo, o tipo de concentração de riqueza que tivemos no século 19 e praticamente até a Primeira Guerra Mundial em todos os países europeus foi, penso eu, inútil ao crescimento. Ela foi destruída por uma combinação de acontecimentos trágicos e mudanças políticas, e isso não impediu o crescimento de acontecer. E também, a extrema desigualdade pode ser ruim para as nossas instituições democráticas se cria um acesso muito desigual à voz política, e a influência do dinheiro privado na política dos EUA, eu acho, é um motivo de preocupação no momento. Por isso, não queremos voltar a esse tipo de extremo, à desigualdade anterior à Primeira Guerra Mundial. Ter uma parte decente da riqueza nacional para a classe média não é ruim para o crescimento. Na verdade, é útil tanto por equidade quanto eficiência.
BG: Eu disse no início que seu livro foi criticado. Seus dados foram criticados. Algumas de suas escolhas de dados foram criticadas. Você foi acusado de escolher certos dados para construir seu estudo. O que você responde a isso?
TP: Bem, eu estou muito feliz por este livro estimular o debate. Isso é parte de seu objetivo. A razão pela qual eu coloquei todos os dados online com todo o cálculo detalhado é para que possamos ter um debate aberto e transparente sobre isso. Eu respondi ponto a ponto a cada preocupação. Deixe-me dizer que se eu fosse reescrever o livro hoje, eu realmente concluiria que o aumento da desigualdade de riqueza, particularmente nos Estados Unidos, é de fato maior do que eu relato no livro. Há um estudo recente do Saez e do Zucman mostrando, com os novos dados que eu não tinha na época do livro, que a concentração de riqueza nos EUA aumentou ainda mais do que eu relato. E haverá outros dados no futuro. Alguns irão em direções diferentes. Quase toda semana nós disponibilizamos on-line dados atuais na Base de Dados das Maiores Rendas Mundiais, e continuaremos fazendo isso no futuro, em particular nos países emergentes, e dou boas-vindas a todos que queiram contribuir com esse processo de coleta de dados. Na verdade, eu certamente concordo que não há transparência suficiente sobre a dinâmica de riqueza, e uma boa forma de ter dados melhores seria tributar a riqueza primeiro com uma taxa pequena, de modo que todos possamos concordar sobre esta importante evolução e adaptar nossas políticas ao que quer que observemos. A tributação é uma fonte de conhecimento, isso é o que mais precisamos agora.
Thomas Piketty: Merci beaucoup.

Fonte: http://www.brasil247.com/+99lz4

sexta-feira, 18 de abril de 2014

O contador de histórias que inventou o realismo mágico - Uma singela homenagem para um dos maiores autores da literatura mundial.


O contador de histórias que inventou o realismo mágico





Gabriel García Márquez escreveu o romance mais popular da língua espanhola desde Quixote. Achava que Cem Anos de Solidão não era a sua melhor obra.

O romancista colombiano Gabriel García Márquez, autor de Cem Anos de Solidão , morreu esta quinta-feira na Cidade do México, aos 87 anos. A causa da morte de "Gabo", como os amigos lhe chamavam, não foi divulgada, mas o escritor tinha estado internado há poucos dias, com infecções nos pulmões e no tracto urinário.
Com a sua morte, anunciada à imprensa por uma fonte próxima da família, desaparece um dos maiores ficcionistas contemporâneos, autor de um romance — Cem Anos de Solidão (1967) — que vendeu mais de 30 milhões de exemplares, está traduzido em dezenas de línguas, e cuja popularidade provavelmente só é ultrapassada, na literatura de língua espanhola, pelo Dom Quixote, de Cervantes.
Nobel da Literatura em 1982, García Márquez assumia-se, sobretudo, como um contador de histórias, vocação que herdou da sua avó Tranquilina, que na infância o fascinava e aterrorizava com histórias de almas penadas e premonições, ao mesmo tempo que o avô coronel Nicolás Márquez, um espírito nada fantasioso, lhe narrava episódios da sangrenta guerra civil, na qual participara ao lado dos liberais.
É provável que essa influência cruzada — a de um avô militar, que carregava o remorso de ter matado um homem em duelo, e a de uma avó supersticiosa e com jeito para contar histórias — tenha influenciado o modo como virá depois a misturar de forma tão natural, nos seus livros, o real e o maravilhoso. Uma arte a que se chamou "realismo mágico", expressão que a crítica literária já cunhara antes de García Márquez publicar os primeiros livros, mas que teve de esperar por Cem Anos de Solidão para encontrar o seu verdadeiro objecto. O próprio autor tinha consciência de que a expressão era potencialmente equívoca e fazia questão de avisar: “Não há nos meus romances uma só linha que não se baseie na realidade.” Por muito longe que a deixasse ir, a imaginação era sempre, para García Márquez, um modo de mostrar a realidade.
Nascido a 6 de Março de 1927 em Aracataca, na Colômbia, era filho de Gabriel Eligio García e de Luisa Santiaga Márquez Iguarán, filha do já referido coronel Márquez, que começou por se opor veementemente ao enlace, quer por causa da reputação de mulherengo do genro, quer pelas suas convicções políticas conservadoras. Mas a persistência de Gabriel Eligio, que era então telegrafista e que veio a tornar-se farmacêutico, acabou por demover o velho militar. O escritor aproveitaria muito mais tarde a história simultaneamente épica e cómica do atribulado namoro dos pais para escrever Amor nos Tempos de Cólera (1985).
O pequeno Gabriel, o mais velho de 11 irmãos, ficou a cargo dos avós em Aracataca, mas em 1936 acompanha os país na mudança para Sincé, na região colombiana de Sucre, onde o seu pai prosperará como farmacêutico. Não voltará a ver o avô, que morre em 1937.
Tinha já 22 anos, e acabara de abandonar os estudos de Direito, quando regressa à Aracataca da sua infância. Conta na sua autobiografia, Viver para Contar (2002, ed. D. Quixote), que a mãe lhe apareceu um dia em Barranquilla, no litoral caraíba, onde então levava uma vida boémia sustentada no pouco que ganhava num jornal local, e que por momentos não reconheceu. Luisa vinha pedir-lhe que a acompanhasse a Aracataca para vender a casa dos avós. Referir-se-á muitas vezes a esta viagem como um momento determinante da sua vida, já que percebeu, nesse reencontro com a terra natal e com as memórias de infância, o extraordinário manancial que ali estava à espera de um escritor de talento.
E García Márquez não tinha apenas talento, mas também determinação. Garantirá em várias entrevistas que nunca concebeu outro modo de vida que não passasse por escrever, e que esteve sempre disposto a passar fome, se necessário fosse, para cumprir a sua vocação. Leitor compulsivo desde muito novo, começou por publicar poemas em revistas, ainda enquanto estudante liceal. Mas é já enquanto estudante universitário, em Bogotá, que descobre um autor que o influenciará decisivamente: Franz Kafka. Uma afinidade inesperada, já que nada parece aproximar o angustiado judeu checo do energético e bem-humorado colombiano. Mas García Márquez conta que quando pegou em A Metamorfose e leu a passagem inicial, na qual Gregor Samsa, ao acordar, vê que se transformara num monstruoso insecto, disse a si próprio “Então isto pode fazer-se?”. Para quem já sonhava traduzir em literatura o modo como os relatos orais da sua avó integravam episódios extraordinários e implausíveis como se estes fizessem naturalmente parte do quotidiano, a leitura de Kafka foi sentida como um encorajamento.

domingo, 6 de abril de 2014

A revolução burguesa no Brasil

A revolução burguesa no Brasil

Em 1974, em meio à ditadura e dez anos após o golpe militar, Florestan Fernandes publicou A revolução burguesa no Brasil. Recebido à época como uma tentativa de explicação das origens e fundamentos do Estado autoritário, o livro tornou-se, com o decorrer do tempo, um dos clássicos da sociologia histórica brasileira, uma linhagem que possui seus momentos altos em Casa-grande & senzala (1933), de Gilberto Freyre; Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de Holanda e Os donos do poder (1958), de Raymundo Faoro.

Ricardo Musse

14.03.28_Ricardo Musse_A revolução burguesa no Brasil

Florestan emprega o conceito de “revolução burguesa” como “tipo ideal”, isto é, como princípio heurístico e fio investigativo da origem, natureza e desdobramentos do capitalismo no Brasil. Não se trata de um estudo empírico ou mesmo de comparar as vicissitudes do processo brasileiro com os modelos de revolução francês, inglês ou norte-americano.
A ausência de uma sucessão de acontecimentos de impacto, de uma revolução propriamente dita, não impediu o desenvolvimento do capitalismo no Brasil, mas ditou-lhe um ritmo próprio e uma condição particular. A idéia de revolução burguesa presta-se assim como uma luva para determinar as etapas do processo e, sobretudo, para compreender a modalidade de capitalismo predominante no país.
O livro foi redigido em momentos distintos: as duas partes iniciais (“As Origens da Revolução Burguesa” e “A Formação da Ordem Social Competitiva”) em 1966, e, a terceira parte (“Revolução Burguesa e Capitalismo Dependente”), em 1974. Esse último ensaio complementa os demais blocos, avançando o acompanhamento histórico anterior – que se detinha na época da abolição da escravatura – até o presente. Mas traz também alterações relevantes no que tange à atribuição de sentido ao processo histórico.
Os ensaios de 1966 seguem a periodização tradicional. A Independência abre caminho para a emergência da sociabilidade burguesa – seja como tipo de personalidade ou como formação social –, bloqueada até então pela conjugação de estatuto colonial, escravismo e grande lavoura exportadora. O simples rompimento com a condição colonial, a autonomia política engendra uma “situação nacional” que desenvolve o comércio e a vida urbana, alicerça o Estado e prepara a modernização.
A manutenção do sistema escravista, no entanto, polariza o país entre uma estrutura heteronômica (cujo protótipo é a grande lavoura de exportação) e uma dinâmica autonomizante (centrada no mercado interno). Socialmente, os agentes burgueses, em simbiose com o quadro vigente, organizam-se antes como estamento do que como classe, uma situação que só será rompida com o surgimento do imigrante e do fazendeiro do café na fronteira agrícola.
A introdução do trabalho assalariado e a consolidação da “ordem econômica competitiva”, no final do século XIX, não liberaram completamente as potencialidades da racionalidade burguesa. Antes promoveram a acomodação de formas econômicas opostas, gerando uma sociedade híbrida e uma formação social, o “capitalismo dependente”, marcada pela coexistência e interconexão do arcaico e do moderno.
No último ensaio, redigido em 1974, o conceito de “capitalismo dependente” passa a ser determinado pela associação da burguesia com o capital internacional. Com isso, altera-se o peso da dinâmica do sistema capitalista mundial e a própria periodização, marcada pela emergência e expansão de três tipos de capitalismo: o moderno (1808-1860), o competitivo (1860-1950) e o monopolista (1950-…).
A revolução burguesa teria conduzido o Brasil, portanto, à transformação capitalista, mas não à esperada revolução nacional e democrática. Na ausência de uma ruptura enfática com o passado, este cobra seu preço a cada momento do processo, em geral na chave de uma conciliação que se apresenta como negação ou neutralização da reforma. A monopolização do Estado pela burguesia – tanto econômica, como social e política – estaria na raiz do modelo autocrático, da “democracia restrita” que marca o século XX brasileiro.
Seria um erro grave, no entanto, atribuir a esse diagnóstico alguma forma de determinismo. O duplo caráter dos conceitos, as contradições que Florestan detecta a cada passo, em suma, a dialética como método deixa o campo livre para a ação histórica dos agentes e das classes sociais.
O livro A revolução burguesa no Brasil encerra o ciclo de interpretações gerais do país. Mas, forneceu, ao mesmo tempo, as balizas para uma série de estudos pontuais posteriores que abordaram tópicos decisivos como a resistência dos “de baixo” antes e durante a emergência das classes, as alterações do estatuto das nações no sistema-mundo ou as rupturas no padrão de acumulação no capitalismo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
FERNANDES, Florestan. A revolução burguesa no Brasil. São Paulo: Globo, 2005.
Ricardo Musse é professor no departamento de sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo. Doutor em filosofia pela USP (1998) e mestre em filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1992). Atualmente, integra o Laboratório de Estudos Marxistas da USP (LEMARX-USP) e colabora para a revista Margem Esquerda: ensaios marxistas, publicação da Boitempo Editorial.

domingo, 5 de janeiro de 2014

Kafka, um Autor Traído

Kafka, um Autor Traído




em 05/01/2014


Existem vários mitos sobre Kafka. Um deles é que ele nunca publicou nada em vida e o outro, que pediu ao seu melhor amigo que queimasse toda sua obra.
Errado e errado.
a metamorfose
Algumas das melhores obras de Kafka foram publicadas ainda em vida, como A Metamorfose, Um Médico Rural, O Veredito e Na Colônia Penal. Sua outra obra-prima, Um Artista da Fome, teve suas provas revisadas por ele em seu leito de morte e saiu pouco depois.
E ele pediu ao seu melhor amigo, Max Brod, que queimasse apenas seus papeis pessoais e obras incompletas, que não estavam à altura do seu padrão de qualidade, como O Processo, O Castelo e O Desaparecido (Amerika).
Pessoalmente, acho Max Brod um canalha que deveria arder no mármore do inferno, mas há discordâncias. Argumentam alguns: será que somente a obra publicada de Kafka teria sido o bastante para impulsionar seu nome? Em outras palavras, estaríamos falando de Kafka, se não fosse a traição de Brod?
A minha pergunta é outra: e daí? Então quer dizer que o sucesso da traição perdoa o traidor? Max Brod é menos canalha porque sua traição foi abençoada pela posteridade?
Só Na Colônia Penal, Um Artista da Fome e Um Médico Rural já seriam mais que suficientes para garantir o nome de Kafka.
max brod.

A Traição de Max Brod

Max Brod se defendeu das acusações de traição dizendo o seguinte: Franz sabia que eu idolatrava qualquer palavra que saísse dele, que eu jamais poderia queimar nada que tivesse escrito. Eu lhe disse isso diversas vezes. Se ele quisesse realmente queimar tudo, teria pedido a outra pessoa, não à única que ele sabia que não iria atender seus pedidos.
Na verdade, a defesa mais aceita de Max Brod é a seguinte: ele traiu seu melhor amigo em nosso nome. A humanidade merecia ler O Castelo e O Processo. Ele já conhecia ambos os livros – Kafka costumava lê-los para seus conhecidos – e não suportou a idéia de essas obras morrerem com seu autor. Em troca de uma perigosa abstração – a humanidade – traiu algo real e concreto, o último desejo de seu melhor amigo.
Já eu acredito que todo o mal do mundo emana de pessoas que querem salvar a humanidade, que colocam seus ideais abstratos e fugazes sobre realidades concretas como nosso amor por nossa família nossos amigos, nosso bairro.
Posturas como a de Brod possibilitaram os maiores massacres e genocídios da história: o padeiro francês que entregou o amigo aristocrata aos jacobinos, o menino que denunciou que sua família criticou o füher, o marxista que admite que o paredón cubano é necessário para a consolidação do regime, todos são Max Brods.
Para salvar a humanidade, todos entregariam seu amigo ao carrasco.
kafka.
O que mais me assusta é que a maioria das pessoas apóia Max Brod sem reservas. Dizem: como poderíamos viver sem O Castelo e O Processo? Viveríamos muito bem, obrigado.
Max Brod não conhecia a humanidade. A humanidade é grande demais pra se conhecer. Mas Max Brod conhecia Franz Kafka. Max Brod tinha olhado nos olhos de Kafka, pego em sua mão, conhecido sua família. Max Brod sabia da timidez patológica de Kafka.
O Castelo e O Processo quase dá pra engolir. Afinal, são realmente obras fundamentais, que mudaram a literatura pra sempre, blá blá blá – não que Max Brod pudessem quantificar isso naquele momento, claro.
Mas nada justifica a publicação de papéis pessoais, como Carta ao Pai, por exemplo, uma carta que Kafka escreveu ao seu pai mas, de tão tímido que era, nunca teve coragem de enviar, uma carta que hoje qualquer um compra no Submarino por R$19,50 na edição da Companhia das Letras.
Kafka não pediu a destruição de suas cartas e romances inacabados para que não fossem publicados. Provavelmente, isso nem passava por sua cabeça. Kafka pediu que fossem destruídos porque eram documentos pessoais seus, que não diziam respeito à mais ninguém – e, com certeza, não à humanidade como um todo.
Se um autor não tiver direito de queimar um romance inacabado com o qual ele não está satisfeito, quem tem? Não será essa a prerrogativa mínima do artista? Decidir quando, onde e como divulgar sua obra? Ou não divulgar?
Não acredito em inferno mas, se houver, Max Brod está lá.
estátua de franz kafka na entrada do bairro judeu de praga

“E por que Kafka não queimou tudo ele mesmo?”

Pensem na dinâmica concreta da situação.
Era pra ele ter feito o que? Ficar carregando nas costas todos os manuscritos que quisesse destruir, mantendo-os sempre a mão, com um isqueiro de prontidão para quando ele sentisse a morte chegando? Como é que se adivinha a hora da morte?
Kafka não queria destruir seus trabalhos porque eram ruins, mas porque estavam incompletos, disformes e ainda não revisados. Ele ainda não tinha desistido deles e, periodicamente, retrabalhava O Processo, O Castelo e O Desaparecido (Amerika). Não faria sentido destruí-los nem se tivesse certeza da morte iminente. Jamais arriscaria voltar do coma e descobrir que tinha queimado O Processo à toa.
Que se entenda: Kafka não queria simplesmente destruir seus trabalhos. Se fosse só isso, ele realmente os teria destruído. Mas o que ele não queria era que fossem lidos em sua forma incompleta e abaixo do seu padrão de qualidade.
Enquanto fosse vivo, poderia sempre trabalhar neles. A partir do momento em que morresse, não haveria mais como melhorá-los seu senso estético preferia que não fossem vistos jamais a serem vistos incompletos. Não há decisão artística mais íntegra que essa.
Kafka morreu no exterior, em um hospital alemão, bem longe de sua mesa de trabalho em Praga, sem acesso aos seus papéis. Podia contar apenas com a lealdade de seu melhor amigo, Max Brod, para cumprir seu último desejo.
E foi traído por Brod, que publicou até suas cartas pessoais.
milan kundera.

A opinião de Milan Kundera

Sobre as violências cometidas contra Kafka, não posso recomendar outra coisa se não o excelente livro de Milan Kundera, Os Testamentos Traídos. Acho que vocês já sabem qual foi o testamento que foi traído, não é?
Em outro livro, A Arte do Romance, Kundera escreveu:
O romancista é aquele que, segundo Flaubert, quer desaparecer atrás de sua obra, (…) renunciar ao papel de homem público. Não é fácil hoje, quando tudo o que é muito ou pouco importante deve passar pelo palco insuportavelmente iluminado dos mass media que, contrariamente à intenção de Flaubert, fazem desaparecer a obra atrás da imagem de seu autor. Nessa situação, da qual ninguém pode escapar inteiramente, a observação de Flaubert me parece quase uma advertência: prestando-se ao papel de homem público, o romancista põe em perigo sua obra que corre o risco de ser considerada como um simples apêndice de seus gestos, de suas declarações, de seus pontos de vista. O romancista desfaz a casa de sua vida para, com as pedras, construir a casa do seu romance. Os biógrafos de um romancista desfazem portanto o que o romancista fez, refazem o que ele desfez. O trabalho deles não pode esclarecer nem o valor nem o sentido de um romance, apenas identificar alguns tijolos. No momento em que Kafka atrai mais atenção do que Joseph K., o processo de morte póstuma de Kafka se iniciou.
Concordo com Kundera e percebo que acabei de escrever um longo texto sobre a vida de Kafka, sem nem tocar nas obras em si.
Faça o que eu digo mas não faça o que eu faço.


Alex Castro

alex castro é. por enquanto. em breve, 
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ficcionais. // se gostou, mande um email, me 
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sábado, 23 de novembro de 2013

Ramonet: “Inevitável Mundo Novo”?

Ramonet: “Inevitável Mundo Novo”?


Cinquenta anos após morte de Aldous Huxley, sua obra alerta: avanço científico pode ser, em sociedades desiguais e mercantilizadas, caminho para barbárie

por Por Ignacio Ramonet | Tradução: Teresa Van Acker — publicado 22/11/2013

Foto
Um manifesto humanista, uma crítica corrosiva à sociedade stalinista, da utopia soviética construída com mão de aço. Mas também uma sátira à nova sociedade mecanizada, padronizada, automatizada que se instalava nos Estados Unidos


(Publicado originalmente no “Le Monde Diplomatique Brasil”, edição internet, setembro de 2000)
Seria pertinente reler, hoje, Admirável Mundo Novo? Seria pertinente retomar um livro escrito há aproximadamente 70 anos, numa época tão distante que nem sequer a televisão havia sido inventada? Seria essa obra algo além de uma curiosidade sociológica, um best seller comum e efêmero que, no ano de sua publicação, 1932, vendeu mais de um milhão de exemplares?
Essas questões parecem ainda mais pertinentes porque o gênero da obra — a fábula premonitória, a utopia tecno-científica, a ficção científica social — possui um alto grau de obsolescência. Nada envelhece tão rápido quanto o futuro. Ainda mais na literatura.
E, entretanto, quem superar essas reticências e novamente mergulhar nas páginas do Admirável Mundo Novo certamente ficará chocado com sua atualidade surpreendente. E irá constatar que o presente alcançou o passado, pelo menos por uma vez.
O romance, que se tornou um grande clássico do século 20, narra uma história que se passa num futuro distante, por volta de 2500, ou mais precisamente, “por volta do ano 600 da era fordista”. Satírica homenagem a Henry Ford (1863-1947), pioneiro norte-americano da indústria automobilística (e ainda hoje uma das famosas marcas do ramo), inventor de um método de organização do trabalho para a produção em série e da padronização das peças.
Essa técnica, pensada por Ford na década de 20, transformou, por assim dizer, os trabalhadores em autômatos, em robôs repetindo o mesmo gesto o dia inteiro. Apesar de seu caráter desumano, foi uma verdadeira revolução no universo industrial e rapidamente adotada, da Alemanha à União Soviética, por todas as grandes indústrias mecânicas do mundo. No mundo sindical e operário, e também entre os intelectuais, o fordismo suscitou críticas violentas, que artistas e criadores da época muitas vezes abordaram com indiscutível talento cáustico. Pensemos, por exemplo, em Metropolis, de Fritz Lang (1926), ou Tempos modernos(1935), de Charles Chaplin.
O autor de Admirável Mundo Novo, Aldous Leonard Huxley (1894-1963), era um homem afeiçoado à cultura, particularmente à cultura científica. O tipo do intelectual onisciente, sedutor e com opinião sobre quase tudo.
Nascido numa família inglesa à qual pertenceram numerosas personalidades célebres, Aldous Huxley era parente, por parte de mãe, do escritor Matthew Arnold (1822-1888), autor dramático, crítico, humanista, viajante e professor de poesia na Universidade de Oxford. Seu avô, Thomas Henry Huxley (1825-1895), era um conhecido naturalista, defensor das teorias evolucionistas de Darwin e autor de uma obra famosa sobre a origem da espécie humana (O lugar do homem na natureza, 1863). Finalmente, seu irmão Julian Huxley (1887-1975) era biólogo e filósofo, e também partidário das teorias da evolução. Especialista em genética, criticava, com muita pertinência, as teorias fantasistas do geneticista soviético Lyssenko. No período de 1946 a 1948, foi o primeiro diretor geral da Unesco.
Como não poderia deixar de ser, Aldous Huxley estudou em Eton e Oxford, os grandes “centros de condicionamento” das elites britânicas. Também ele havia pensado em estudar ciência, mas foi impedido devido a uma grave doença na visão. Aos vinte anos, quase cego, só conseguia ler com o auxílio de uma grossa lupa e aprendeu braille, como todos os cegos. Apesar da dolorosa deficiência que o acompanhou por toda a vida, Huxley começou a publicar seus primeiros livros de poemas aos vinte e cinco anos e, depois dos horrores da primeira guerra mundial (1914-1918), passou a manifestar uma visão do mundo irônica e desencantada.
Ao retornar de uma viagem à India, travou grande amizade com o escritor D.H. Lawrence (autor do conhecido romance O Amante de Lady Chatterley, 1928), que, já tuberculoso e às vésperas de sua morte — em 1930, em Veneza — iria exercer sobre si uma importante e duradoura influência.
Em seus primeiros romances (Crome Yellow, 1921; Antic Hay, 1923;Those Barrens Leaves, 1925; Point Counter Point, 1928), Aldous Huxley apresenta um universo no qual a cultura e o humanismo são ameaçados por aqueles que mais os deveriam proteger. Escritos com uma sinceridade cruel, esses livros são sátiras de uma inteligência aguçada e exprimem as fraquezas e desilusões da “geração perdida”. Ele mostra um humor frio, cortante, paradoxal, à moda de Jonathan Swift, ao evocar, com ceticismo, a sociedade da década de 20.
Nesse sentido, Admirável Mundo Novo, que é o livro mais representativo desse período, seria mais um conto filosófico à maneira de Voltaire, no qual o talento do escritor, ainda sendo grande, é ultrapassado pelo temperamento do moralista.
Essa visão pessimista do futuro e crítica feroz do culto positivista da ciência foi escrita no momento em que as conseqüências sociais da grande crise de 1929 castigavam as sociedades ocidentais e quando a credibilidade dos regimes democráticos capitalistas parecia vacilar. Antes da subida ao poder de Adolf Hitler, em 1933, o Admirável Mundo Novo denuncia a perspectiva aterrorizante de uma sociedade totalitária fascinada pelo progresso científico e convencida de poder oferecer uma felicidade obrigatória a seus cidadãos. Apresenta uma visão alucinante de uma humanidade desumanizada pelo acondicionamento à Pavlov [1] e pelo prazer ao alcance da pílula (o “soma”). Num mundo horrivelmente perfeito, a sociedade dissocia a sexualidade da procriação — por motivos eugênicos e produtivistas.
Em Admirável Mundo Novo, a americanização do planeta está completa: tudo padronizado e fordizado, tanto a produção de seres humanos, resultantes de manipulações genético-químicas, quanto a identidade das pessoas, produzida por hipnose auditiva, durante o sono — a hipnopedia, qualificada por um personagem do livro como a “maior força socializadora e moralizadora de todos os tempos”.
Os seres humanos são, portanto, “produzidos”, no sentido industrial do termo, em indústrias especializadas — os “centros de incubação e acondicionamento” — segundo modelos variados, de acordo com tarefas bem especializadas atribuídas a cada indivíduo e indispensáveis numa sociedade obcecada pela estabilidade.
No momento de sua fabricação num frasco de vidro, graças ao “método Bokanovsky” (que permite produzir até noventa e seis seres humanos quando, no passado, só era possível obter um único), cada óvulo — e depois cada embrião — recebe doses mais ou menos importantes de estímulos físicos e ingredientes químicos. Essas doses irão condicionar, de forma definitiva, a capacidade intelectual, e determinarão a que categoria e casta pertencerão, em ordem decrescente, esses seres humanos: Alfa, Beta, Delta, Gama, Ipsilon… segundo o grau de complexidade da atividade profissional a que estarão destinados.
Além do mais, cada ser humano é educado, desde nascença, nesses “Centros de acondicionamento do Estado” em função de valores específicos do seu grupo, recorrendo-se sistematicamente à hipnopedia para manipular seu espírito, para criar nele “reflexos condicionados definitivos” e fazer com que aceite seu destino. “Cem repetições três noites por semana, durante quatro anos, declara um especialista em hipnopedia. Sessenta e duas mil repetições criam a verdade.”
Dessa forma Aldous Huxley ilustrava, no livro, os riscos contidos em teses formuladas desde 1924 por John Watson, o pai do “behaviorismo”, “ciência da observação e controle do comportamento” Watson afirmava, friamente, que poderia pegar na rua, ao acaso, uma criança saudável, e fazer dela, conforme sua escolha, um médico, um advogado, um artista, um mendigo ou um ladrão, não importando para isso seu talento, suas preferências, suas tendências, suas capacidades, seus gostos ou a origem de seus antepassados.
Em Admirável Mundo Novo, que é fundamentalmente um manifesto humanista, é possível perceber, e com razão, uma crítica corrosiva à sociedade stalinista, da utopia soviética construída com mão de aço. Mas há também uma sátira clara à nova sociedade mecanizada, padronizada, automatizada que se instalava nos Estados Unidos em nome da modernidade tecnicista.
Huxley, excessivamente inteligente e admirador da ciência, exprime, nesse romance, no entanto, um profundo ceticismo em relação à idéia do progresso, uma desconfiança em relação à razão. Diante da invasão do materialismo, deixa uma das mais profundas peças de acusação às ameaças do cientificismo, da mecanização e do desprezo pela dignidade individual. No fundo, avalia com um desespero lúcido, a técnica que assegurará aos seres humanos um conforto exterior total, um aperfeiçoamento notável. Qualquer desejo, na medida em que puder ser manifestado e sentido, será satisfeito. Porém os homens terão perdido sua razão de ser. Irão tornar-se, eles mesmos, máquinas. Não será mais possível falar em condição humana, no sentido próprio.
O título original — Brave New World — é tomado emprestado de uma das últimas peças de William Shakespeare, The Tempest (1611). Miranda vê os príncipes de Nápoles desembarcarem de um navio naufragado e exclama: “Esplêndida humanidade, maravilhoso mundo novo, quem pode nutrir seres tão perfeitos!”
No espírito de Huxley, esse título é uma antífrase, pois o mundo que descreve nada tem de maravilhoso. É uma sociedade de castas, imutável, perene, onde tudo é programado e não há mais lugar para o acaso. Faz-se tábula rasa do passado, como recomenda A Internacional, o que, de fato, a cultura de massa realiza. Os monumentos clássicos de todas as civilizações foram derrubados, a literatura foi queimada, os museus destruídos, a história apagada.
Excesso de pessimismo ou simples lucidez? Sabemos que Huxley demonstrou, nesse livro, um senso excepcional de antecipação. A história recente demonstrou que suas profecias mais sombrias estavam em vias de se realizar, assim como, em matéria de manipulação, ele soube prever o surgimento de novas ameaças.
Pessimista e sombrio, o futuro visto por Aldous Huxley nos serve de advertência e nos incentiva, numa época de manipulações genéticas, de clonagem e da revolução do ser vivo, a acompanhar de perto os atuais progressos científicos e seus potenciais efeitos destrutivos.Admirável Mundo Novo ajuda a compreender o alcance dos riscos e os perigos com os quais nos deparamos, quando, por todos os lados, novamente, os “avanços científicos e técnicos” nos confrontam com desafios que põem em perigo o futuro de nosso planeta. E o futuro da espécie humana.
Ignácio Ramonet é jornalista, editor do Le Monde Diplomatique, edição espanhola, e presidente da rede Memória das Lutas – Medelu. Seus livros pode ser encontrado em nossa livraria virtual.