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terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Chavismo completa 15 anos no poder neste domingo; relembre fatos mais marcantes

Chavismo completa 15 anos no poder neste domingo; relembre fatos mais marcantes





Com frases de efeito, medidas populares e forte resistência opositora, chegada de Hugo Chávez ao poder foi divisor de águas na Venezuela

1999

Eleito com 56% dos votos no ano anterior, Hugo Chávez assume a presidência no dia 2 de fevereiro de 1999 jurando sobre o que classificou como “moribunda Constituição”. Com aprovação popular, uma Assembleia Constituinte para a redação de nova Carta Magna é convocada. Em dezembro, os venezuelanos aprovam o teor da nova Constituição, que passa a substituir a de 1961. 



Wikicommons
Hugo Chávez durante visita ao Brasil, em 2003



2000
Segundo previsto na nova legislação, eleições são convocadas e, em 30 de julho, Chávez é ratificado na presidência com quase 60% dos votos.
2001

Com uma lei habilitante que permitia ao presidente ditar decretos com força de lei sem necessidade de aprovação do Legislativo, Chávez anuncia a Lei de Terras e a de Hidrocarbonetos. Esta última aumentava o controle do Estado sobre a atividade petroleira e os tributos ao setor privado. As medidas geram paralisações e fortes críticas dos opositores e do empresariado. 



2002
No dia 11 de abril, uma marcha opositora é realizada para pedir a renúncia do presidente. A manifestação é desviada em direção ao Palácio de Miraflores, onde apoiadores do governo se concentravam. Franco-atiradores disparam contra a concentração chavista, que responde com tiros. O confronto deixa 19 mortos e mais de 200 feridos. 


No dia 12 de abril, o inspetor geral da Força Armada afirma que Chávez aceitou renunciar. Pedro Carmona Estanga, presidente da Fedecámaras, se autojuramenta como presidente, dissolvendo a Constituição e poderes do Estado, como Parlamento, Supremo Tribunal de Justiça e Conselho Nacional Eleitoral. A população exige a volta de Chávez, que tinha sido sequestrado. 


Apoiado por parte das Forças Armadas, o presidente volta ao poder no dia 14 e é recebido por apoiadores ao canto de “voltou, voltou, voltou”. Em dezembro, a PDVSA e o setor empresarial convocam nova greve para exigir a renuncia de Chávez. Desta vez a paralisação se estendeu por 63 dias, gerando graves consequências econômicas e sociais para o país. 



2003
Após o fim da paralisação, em fevereiro é estabelecido um controle de câmbio no país para evitar a fuga de divisas. Em uma nova tentativa de acabar com o mandato de Chávez, a oposição coleta assinaturas para a realização de um referendo revocatório. Neste ano, o governo venezuelano dá início a programas sociais denominados como “missões”, para que a parcela da população com baixos recursos tenha acesso a saúde e educação, por meio de um convênio com Cuba. 



2004
O referendo revocatório é realizado em 15 de agosto. A população, no entanto, confirma o apoio a Chávez, que é ratificado no cargo com 59% dos votos. Em dezembro, a Venezuela assina novo acordo com Cuba, criando a Alba (Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América), visando a integração regional.



2005
Chávez lança a Petrocaribe, aliança de países do Caribe que compram petróleo do governo venezuelano em condições preferenciais de pagamento para fortalecer os mecanismos de integração regional. Em dezembro, eleições legislativas são realizadas na Venezuela. A oposição se retira do processo eleitoral e o chavismo domina os postos da Assembleia Nacional, em uma eleição marcada por 75% de abstenção. Neste ano, o projeto da Alca (Aliança de Livre Comércio das Américas) é enterrado em Mar del Plata, na Argentina, onde Chávez exclama: “Alca, Alca, al carajo”.



2006
Na Assembleia Geral da ONU, em setembro, Chávez diz a famosa frase sobre George W. Bush: “Ontem o diabo esteve aqui, neste mesmo lugar, ainda cheira enxofre”. Em dezembro o país vai novamente às urnas para eleições presidenciais. Chávez obtém 62,8% dos votos contra Manuel Rosales, para permanecer no posto até 2012. 



2007

Outra Lei Habilitante é aprovada pelo Legislativo para que o presidente possa governar por decretos. O Estado toma o controle de operações em campos petrolíferos na Faixa do Orinoco, que passam a ser realizadas por empresas mistas, com maioria acionária da PDVSA. Neste ano, também anunciou a nacionalização da maior empresa de telecomunicações do país e do setor elétrico. No fim de maio, a RCTV (Rádio Caracas TV) sai do ar como canal de TV aberto pela não renovação da concessão por, segundo o governo, descumprimento do regulamento local. Para oposicionistas, a decisão seria castigo pelo apoio da emissora ao golpe contra Chávez em 2002. Em dezembro, um referendo para uma nova reforma constitucional é realizado, mas a proposta é rechaçada nas urnas.
2008

O governista PSUV (Partido Socialista Unido da Venezuela) é criado. Por um conflito com o então presidente colombiano, Álvaro Uribe, Chávez ordena o fechamento da embaixada venezuelana em Bogotá e envia tropas à fronteira. O desentendimento se dá devido à operação militar do governo colombiano que mataria o segundo homem das FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), Raul Reyes, em território equatoriano. Em maio, o presidente nacionaliza a Sidor (Siderúrgica do Orinoco). Em setembro, Chávez expulsa o embaixador dos EUA do país. Washington responde com medida recíproca. Em novembro, eleições para governadores, prefeitos e vereadores são realizadas e o chavismo ganha com ampla maioria.



2009
Um referendo é convocado para 15 de fevereiro e, com quase 55% dos votos, é aprovada a emenda constitucional que previa reeleição ilimitada para cargos públicos.



2010
O governo venezuelano volta a romper relações diplomáticas com a Colômbia. Com a eleição de Juan Manuel Santos, o diálogo é reestabelecido. Em novas eleições legislativas, no mês de setembro, o governismo ganha a maioria dos postos na Assembleia Nacional, mas perde a maioria qualificada.



2011
Chávez é submetido a uma cirurgia em Havana por um abscesso pélvico.  Em junho, se submete a nova operação e anuncia que tem um tumor cancerígeno, razão pela qual regressa a Cuba para tratamento. Em outubro, afirma já não ter células malignas.



Com a aprovação do Legislativo, tem início a repatriação das reservas venezuelanas que estavam em bancos estrangeiros. Em dezembro, nasce a Celac (Comunidade de Estados Americanos e do Caribe), em Caracas, colocando em marcha o organismo de integração de 33 países da América, salvo Estados Unidos e Canadá. 



Wikicommons
Integração regional foi um dos principais objetivos da política externa da Venezuela nos últimos 15 anos



2012
Chávez anuncia que o câncer reapareceu e volta a Cuba em fevereiro para uma nova operação. O presidente venezuelano passa por tratamento de radioterapia em março e abril. No dia 30 de julho, viaja ao Brasil para participar da cúpula do Mercosul (Mercado Comum do Sul), na qual o país se tornamembro pleno do bloco



Em outubro, Chávez ganha uma nova eleição presidencial, com 55% dos votos, contra o governador do estado de Miranda, Henrique Capriles. No dia 8 de dezembro, o líder realiza seu último discurso público. Em uma histórica transmissão em rede nacional de rádio e TV, afirma que se submeterá a uma nova e delicada cirurgia. Pede que, no caso de não poder continuar na presidência, a população vote em seu vice-presidente, Nicolás Maduro



No dia 11, é operado em Havana. Em sua ausência, eleições a governadores são realizadas e ochavismo vence em 20 de 23 estados. Capriles obtém a reeleição em Miranda. 



2013
Após diversos boletins médicos transmitidos em rede nacional de rádio e televisão pelo governo, Maduro anuncia no dia 5 de março o falecimento do líder, que regressara ao país em meados de fevereiro. 



Durante nove dias, filas quilométricas foram formadas por venezuelanos que davam o último adeus ao presidente. No dia 15 de março, o corpo de Chávez foi levado ao Quartel da Montaña, no bairro popular de 23 de Enero. 



Novas eleições presidenciais são convocadas para 14 de abril, após curta campanha, conforme estava previsto na Constituição. Maduro vence Capriles com diferença de 1,49% dos votos. O opositor não reconhece a legitimidade do pleito e convoca seus seguidores a um panelaço. No dia 15 de abril, o país registra episódios de violência e mais de uma dezena de chavistas são mortos. Capriles solicita a anulação do pleito. 



Agência Efe
Aliança com Cuba é prioridade política do chavismo; Maduro durante última reunião da Celac



Ao longo dos meses, Maduro se consolida como chefe de Estado. Apesar de lidar com escassez de produtos alimentares e uma inflação galopante, que fechou o ano em 56%, o presidente iniciou umaofensiva econômica contra a especulação, com fiscalizações e intervenções a comércios. Em dezembro, o chavismo conquistou a maioria dos municípios nas eleições a prefeitos. Antes de terminar o ano, Maduro recebeu opositores em Miraflores e abriu portas para o diálogo político no país. 



2014
A comoção gerada pelo assassinato de uma ex-miss fez com que Maduro recebesse governadores para discutir segurança. Na reunião, ele e Capriles se cumprimentaram pela primeira vez em nove meses. Durante a iniciativa, anunciou que limitaria o lucro de empresários em 30%.


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Governo do Rio promete parque de ciclismo no Complexo do Alemão

Governo do Rio promete parque de ciclismo no Complexo do Alemão


Por Terra - 03/02/2014

Governo do Rio promete parque de ciclismo no Complexo do Alemão
Foto: Divulgação


Em 2010, a Pedra do Sapo, no Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio de Janeiro, ficou mundialmente conhecia quando as imagens de traficantes fugindo da polícia foram veiculadas na televisão. Quatro anos depois, o governo do estado promete para o local o primeiro parque de ciclismo do Brasil e o maior da modalidade na América Latina. Batizado de Bike Park do Alemão, com pistas seguindo os padrões internacionais para o downhill, freestyle e BMX, o complexo custará R$ 3 milhões, com 1.100 metros quadrados de área pavimentada e 4.500 metros quadrados de área construída. As obras começam segunda-feira e têm previsão de término no fim de março.
A recuperação de espaços como este é importante para a autoestima dos moradores das comunidades. O esporte, de maneira geral, não tem preconceitos, não escolhe classe social e é uma grande forma de integração - afirmou o secretário de Estado de Esporte e Lazer e presidente da Suderj, André Lazaroni.
O Bike Park será construído pela Secretaria de Estado Esporte e Lazer, em parceria com a Light, por meio da Lei de Incentivo ao Esporte. As obras fazem parte do Projeto Travessia, que tem orçamento de R$ 16,4 milhões em recuperação, recapeamento e construção de instalações esportivas em 13 comunidades pacificadas do Rio. O Travessia conta ainda com financiamento do BNDES.
Além do parque de ciclismo, o governo do estado promete outras obras na região do Complexo do Alemão: na Serrinha, serão instalados um novo campo de grama sintética, refletores e vestiários. Na quadra do Arará, serão feitas novas marcações e mais a construção da cobertura e de vestiários.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

O Brasil, EUA e o “Hemisfério Ocidental”

O Brasil, EUA e o “Hemisfério Ocidental”



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Washington deve sufocar militarmente ações comuns da América do Sul, propôs teórico geopolítico norte-americano mais influente dos no século XX. Em que medida proposição prevalece?

Por José Luis Fiori - 30/01/2014
As terras situadas ao sul do Rio Grande constituem

um mundo diferente do Canadá e dos Estados Unidos. 
E é uma coisa desafortunada que as partes de fala inglesa e latina
do continente tenham que ser chamadas igualmente de América, 
evocando similitudes entre as duas que de fato não existem

N. Spykman, “America´s Strategy in World Politics”
Tudo indica que os Estados Unidos serão o principal contraponto da política externa brasileira, dentro do Hemisfério Ocidental, durante o século XXI. E quase ninguém tem dúvida, também, de que os EUA seguirão sendo, por muito tempo, a principal potência militar, e uma das principais economias do mundo. Por isto é fundamental compreender as configurações geopolíticas da região, e a estratégia que orienta a política hemisférica norte-americana, deste início de século.
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Ao norte do continente, o poder americano foi, é, e seguirá sendo incontrastável, garantindo-lhe fronteiras continentais absolutamente seguras. Além disto, a assimetria de poder dentro da América do Norte é de tal ordem que o Canadá e o México tendem a convergir cada vez mais, atraídos pela força gravitacional do poder econômico e militar dos EUA. O que não significa, entretanto, que o Canadá e o México ocupem a mesma posição junto aos EUA e dentro do tabuleiro geopolítico e econômico regional, apesar dos três países participarem do “Tratado Norte-Americano de Livre Comercio” (NAFTA), desde 1993. O Canadá ocupa uma posição única, como ex-colônia e ex-domínio britânico, que depois da sua independência, e da II Guerra Mundial, transferiu-se para a órbita de influencia direta dos EUA, transformando-se em sócio comercial, aliado estratégico e membro do sistema de defesa e informação militar dos povos de “língua inglesa”, comandado pelos EUA, e composto pela Inglaterra, Austrália e a Nova Zelândia. Neste contexto, o México ocupa apenas a posição de enclave militar dos EUA, uma espécie de “primo pobre”, de “fala latina”, ao lado das potências anglo-saxônicas. Mais do que isto, o México é hoje um país dividido e conflagrado por uma verdadeira guerra civil que escapa cada vez mais ao controle do seu governo central, mesmo depois do acordo de colaboração militar assinado com os EUA, em 2010. E mesmo com relação ao NAFTA, a economia mexicana beneficiou-se em alguns poucos setores dominados pelo capital americano, como automobilístico e eletrônico, mas ao mesmo tempo, neste últimos vinte anos, o México foi o único dos grandes países latino-americanos em que a pobreza cresceu, atingindo agora 51,3% da sua população. Hoje a economia mexicana é inseparável da norte-americana, e a política externa do país tem escassíssimos graus de liberdade, atuando quase sempre como ponta de lança da política econômica internacional dos EUA, como no caso explícito da “Aliança do Pacífico”.
Do ponto de vista estritamente geográfico, a América do Norte inclui o istmo centro-americano, que Nicholas Spykman coloca ao lado dos países caribenhos, e da Colômbia e Venezuela, dentro de uma mesma zona de influência americana, “onde a supremacia dos EUA não pode ser questionada. Para todos os efeitos trata-se um mar fechado, cujas chaves pertencem aos EUA — o que significa que ficarão sempre numa posição de absoluta dependência dos EUA” (N.S, p: 60). O que explica as 15 bases militares dos EUA existentes na América Central e no Caribe. Foi uma região central na 2º Guerra Fria de Ronald Reagan, e será muito difícil que se altere a posição americana nas próximas décadas, muito além das “dissidências” cubana e venezuelana.
Por último, a política externa americana diferencia claramente os países situados ao sul da Colômbia e da Venezuela, onde seu principal objetivo estratégico foi sempre impedir que surgisse um polo alternativo de poder no Cone Sul do continente, capaz de questionar a sua hegemonia hemisférica. Com relação a estes países, os EUA sempre utilizaram a mesma linguagem, com duas tônicas complementares: a dos acordos militares bilaterais, e a das zonas de livre comércio. Os acordos militares começaram a ser assinados no fim do século XIX, e a primeira proposta de uma zona pan-americana de livre-comércio foi apresentada pelo presidente Grover Cleveland, em 1887, um século antes da ALCA — proposta em 1994 e rejeitada em 2005, pelos principais países sul-americanos. Não existe uma relação mecânica entre os fatos, mas chama atenção que pouco depois desta rejeição os EUA tenham reativado sua IV Frota Naval, com objetivo de proteger seus interesses no Atlântico Sul. A este propósito cabe lembrar o diagnóstico e a proposta de Nicholas Spykman (1893-1943), o teórico geopolítico que exerceu maior influência sobre a política externa dos EUA, no século XX: “fora da nossa zona imediata de supremacia norte-americana, os grandes estados da América do Sul (Argentina, Brasil e Chile) podem tentar contrabalançar nosso poder através de uma ação comum [...] e uma ameaça à hegemonia americana nesta região do hemisfério (a região do ABC) terá que ser respondida através da guerra”(N.S p: 62 e 64). Estes são os termos da equação, e a posição norte-americana foi sempre muito clara. O mesmo não se pode dizer da política externa brasileira.

População sem-teto cresce 50% nos últimos 12 anos na França

População sem-teto cresce 50% nos últimos 12 anos na França


Atualizado em  31 de janeiro, 2014
Sem-teto em Paris, em foto de arquivo (Reuters)

Aumento do desemprego e alto custo de moradia contribuem para crescimento da população sem-teto

O número de pessoas sem-teto cresceu 50% na França desde 2001, totalizando mais de 141 mil - incluindo 30 mil crianças -, segundo dados de um estudo divulgado nesta sexta-feira pela Fundação Abbé Pierre, que luta pela criação de moradias às populações carentes.

A situação atual na França "resulta do aumento do desemprego e do trabalho precário, associado à falta de moradias e à alta no preço dos aluguéis", afirma Christophe Robert, diretor-adjunto da Fundação Abbé Pierre, reconhecida como instituição de utilidade pública.
A fundação estima que 3,5 milhões de pessoas na França enfrentem problemas de moradia: além dos sem-teto, chamados de "sem domicílio fixo" (SDF), há pessoas que moram em condições difíceis (sem conforto, com banheiro e chuveiro fora do apartamento ou em locais superlotados) e precárias (em acampamentos, barracos, pequenos hotéis ou se hospedam esporadicamente na casa de amigos ou parentes).
"As soluções (de moradias) improvisadas, como acampamentos e barracos, estão ganhando espaço fora das cidades. Há também o ressurgimento de situações que imaginávamos ser coisa do passado, como barracos nas periferias das cidades e em terrenos baldios", afirma o relatório.
"Há pessoas em grande dificuldade, mas também há uma parte da população que se torna cada vez mais fragilizada em relação à moradia, mesmo no caso de quem trabalha", diz Robert, citando o exemplo de pessoas com emprego que são obrigadas a dormir em seus carros.

Dificuldades

Em Paris, por exemplo, as condições para se alugar um apartamento são cada vez mais rigorosas.
Os proprietários chegam a exigir que o inquilino ganhe o triplo do valor do aluguel, sendo que em Paris é raro o aluguel de um pequeno apartamento, de cerca de 30 metros quadrados, por menos de mil euros (cerca de R$ 3,3 mil).
Em Paris, é possível ver às vezes fileiras de pessoas dormindo em colchões na rua, sobretudo imigrantes romenos ou de origem roma, mesmo em áreas turísticas. Eles são posteriormente retirados do local pelas autoridades.
Ao mesmo tempo, a prefeitura de Paris vem instalando mobiliários urbanos (como bancos nas ruas e nos metrôs) projetados especialmente para que as pessoas não possam se deitar.

Aluguel mais caro

O estudo também aponta uma "alta não controlada do preço da moradia", ressaltando que os aluguéis subiram 55% em 13 anos. Enquanto isso, a situação econômica se deteriorou. O desemprego, por exemplo, aumentou 6% em 2013 e atinge 4,9 milhões de pessoas.
Os dados no relatório da Fundação Abbé Pierre sobre a população sem-teto são do Instituto Nacional de Estatísticas e Estudos Econômicos (INSEE, equivalente ao IBGE brasileiro).
Mas o estudo sobre a crise da moradia na França, realizado anualmente pela fundação, faz um panorama completo da situação no país.
De acordo com o relatório, apesar do aumento de 34% da oferta de moradias sociais entre 2000 e 2013, ela ainda é "insuficiente para atender à demanda".
Segundo o estudo, 1,7 milhão de pessoas estão na fila à espera de uma moradia social no país.
Moradores de mais de 91 mil lares estão ameaçados atualmente de expulsão por não pagar o aluguel. E 3,8 milhões de lares estão em situação de "precariedade energética" por não conseguir pagar as contas de luz e de gás.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

O futuro da energia renovável - De cabo a cabo numa e-bike

O futuro da energia renovável - De cabo a cabo numa e-bike

 

Gijs Stevers, pesquisador holandês de 26 anos, atravessou 23 países em 10 meses, cobrindo 20 mil quilômetros do extremo norte europeu, em Cabo Norte, Noruega, até o extremo sul da África, onde encerrou sua jornada em Cabo da Boa Esperança: tudo a bordo de uma bicicleta elétrica.

 

Revista Bicicleta por Anderson Ricardo Schörner

O futuro da  energia renovável - De cabo a cabo numa e-bike 

Foto: Gijs Stevers

A população da Holanda é conhecida mundialmente pelo amplo uso que faz da bicicleta. Com os recentes avanços de tecnologia e fabricação das bicicletas elétricas, muitos holandeses têm optado por esta versão com auxílio elétrico, inclusive para situações que tipicamente seriam encaradas com bicicletas convencionais. Uma jornada cicloturística de 20 mil quilômetros, por exemplo!
Gijs Stevers nasceu em 1987 em Eindhoven, na Holanda, e em 2009 começou o seu mestrado em Meio Ambiente e Economia dos Recursos Naturais, na Universidade de Copenhague. Com a intenção de explorar o futuro da energia renovável, ramo em que pretende trabalhar futuramente, ele planejou sua viagem para conhecer como as comunidades utilizavam suas fontes de energia. “Não quis apenas instalar painéis solares e dirigir um carro elétrico. Achei que viajar com uma bicicleta, conversar com as pessoas que estão trabalhando no futuro da energia renovável e compartilhar meus aprendizados ministrando oficinas em escolas secundárias seria mais proveitoso. O projeto da viagem veio em um momento perfeito, em que eu queria estar em forma, aberto para um mundo em mudanças e curioso como sempre”, conta Gijs.
O holandês disse que a sua paixão por mapas foi um dos motivos para a realização da expedição. “Quando eu era adolescente, tinha o hábito de ler atlas antes de dormir. Eu podia ficar horas vendo todos os tipos de mapas, sendo surpreendido com a quantidade de informações que podem ser armazenadas ali. Nos meus pensamentos, eu fazia mapas e viagens imaginárias. Eu percebi que o mundo inteiro já havia sido explorado por homens como Vasco da Gama e Cristóvão Colombo, então, eu pensei: o que eu gostaria de explorar? Meu plano inicial era partir de Copenhague até a Cidade do Cabo; mais tarde percebi que de Cabo a Cabo (Cape to Cape, como foi batizada a viagem do Cabo Norte até Cabo da Boa Esperança) soa muito melhor, além de a rota ficar mais agradável em um mapa”.
A viagem também foi um teste extremo para a sua bicicleta elétrica, considerada por Gijs, como bom holandês, o melhor meio de locomoção para a empreitada. “Ela saiu intacta, pronta para mais 20 mil quilômetros”, afirma. A cultura da bicicleta está impregnada no seu modo de vida. Isso é bem marcante quando ele conta sobre como o projeto o ajudaria a vencer outro duelo: “meu pai, quando era mais jovem, pedalou de Tilburg, na Holanda, até Roma, na Itália, e me desafiou a superar isso. Eu consegui superar ao completar o percurso”.
A bicicleta é um símbolo de aproveitamento inteligente de energia, e mesmo com o auxílio elétrico, o holandês acredita que tenha sido a melhor escolha. “Acho que a bicicleta elétrica se encaixa muito bem com o tema das energias renováveis. E, para esta viagem, acredito que a bicicleta elétrica foi uma opção melhor do que uma bicicleta comum, por poder contar com o motor quando eu subi as terras altas da Etiópia, por exemplo. Eu sei que uma bicicleta elétrica é menos sustentável do que uma bicicleta normal, e que eu não pude carregar minha e-bike apenas usando energia renovável ao longo de toda a rota. No entanto, ela ainda é mais sustentável do que qualquer outro meio de transporte. Eu poderia ter feito a viagem de moto, carro, transporte público, mas essas opções deixariam uma pegada maior no meio ambiente”, explica Gijs. Mesmo assim, após a viagem, ele instalou 16 painéis solares na casa de seus parentes. “Em duas semanas a instalação irá produzir a mesma quantidade de energia elétrica que consumi com a minha e-bike em 10 meses de viagem”, comemora.
A bicicleta utilizada no trajeto possui duas baterias de platina que permitiram uma grande autonomia, de 100 a 150 km. Estas baterias recarregam totalmente em três horas. O motor, acoplado na roda dianteira, tem potência de 250 W. A bicicleta foi levemente personalizada e ganhou raios da roda traseira mais fortes e garfo dianteiro também mais forte, para suportar os alforjes com a bagagem de cerca de 70 kg, ou mais. Um exagero para os cicloturistas, que Gijs diz poder ter se permitido por estar em uma e-bike. “Com o auxílio elétrico, pude levar uma bagagem mais pesada”, afirma.
Em meio à sua bagagem estavam os equipamentos de camping, já que o holandês preferiu economizar com estadias. Para isso, ele também ficou em casas de amigos e conhecidos, além de encontrar abrigo com pessoas cadastradas no Couchsurfing.org, um serviço de hospitalidade que busca ligar pessoas e lugares: o usuário anfitrião cadastra-se oferecendo alojamento, a priori, de maneira gratuita. 
Dos medos da viagem, como uma chuva de pedras lançadas por meninos etíopes, tempestades de areia, leões no Quênia ou regiões com conflitos, o que mais desafiou o viajante foi a solidão. “Parecia algo tão grande antes de começar a viagem, mas uma vez que eu estava na estrada, foi surpreendentemente fácil. O maior desafio foi o tédio; eu passei muito tempo sozinho, às vezes pedalava por 100 km sem cruzar com nenhum ser humano. Na próxima vez, uma coisa que eu faria diferente seria levar alguém comigo”, analisa.

Personagens e ideias do caminho

Gijs conheceu muitas pessoas e ideias pelo caminho, e afirma que a energia que mais lhe atraiu foi a humana. “Durante a viagem, aprendi que as pessoas que estão envolvidas com o futuro das energias renováveis têm um denominador comum: todas são positivas e cheias de energia. Elas parecem mais felizes por estarem contribuindo por um mundo mais sustentável”. Gijs diz que a humanidade, ao invés de explorar os recursos, deveria ser capaz de trabalhar em conjunto com a natureza. Acompanhe abaixo algumas das pessoas e das ideias que surgiram em seu caminho.
Parque eólico Havoygavlen, em Masoy, Noruega: o parque é o mais setentrional do mundo em funcionamento, onde se encontra ventos muito fortes e tempestades de neve. O francês Aurelien e o alemão Hans usaram a rica experiência que possuem com parques eólicos europeus para abastecer 7 mil domicílios com o Havoygavlen.
Energia que vem do mar, em Uppsala, Suécia: a Universidade de Uppsala utilizou turbinas com eixo vertical no fundo do mar para capturar as imensas forças naturais das correntes de água e transformar em energia. Anders, Stefan e Sandra receberam Gijs na estação onde estão construindo as turbinas.
EgenEI, paraíso da energia renovável, Suécia: trata-se de um centro construído por Johan, dono de uma revista, para mostrar que qualquer pessoa pode produzir energia e ganhar dinheiro com isso, ao invés de pagar para ter acesso à ela. Neste centro há várias formas de geração de eletricidade, como a solar e a eólica.
Hidrelétricas em pequena escala, Suécia: Jan-Ake mostrou ao cicloturista uma forma interessante de interação entre homem, máquina e natureza. Ele propaga o desenvolvimento de pequenas hidrelétricas, que ao contrário das grandes hidrelétricas, não altera a vazão do rio, sendo uma maneira mais sustentável de produzir eletricidade. Depois de 30 anos de monitoramento, Jan-Ake nota que o fluxo em “seu” rio só aumenta.
A ambiciosa Dinamarca: Gijs esteve com Martin, ministro dinamarquês do Clima, Energia e Construção, que possui a meta de substituir de 50 a 75% da energia gerada a carvão por energias renováveis nos próximos 20 anos. Cerca de 80% dos investimentos em nova capacidade de geração de energia na Europa são direcionados para formas de energia renovável.
A ilha das energias renováveis, Samso, Dinamarca: a população desta ilha foi incentivada, especialmente nos últimos 15 anos, a encontrar opções alternativas de geração de energia. Todas as emissões de CO2 são neutralizadas e projeta-se que a ilha esteja livre de combustível fóssil até 2030.
Plantas e bactérias geram energia em Wageningen, Holanda: na Universidade de Wageningen, pesquisadores produziram eletricidade a partir de plantas vivas e bactérias. Annemieke explicou a Gijs sobre a eletrólise microbiana, e David falou sobre a sua empresa de produção de eletricidade com a ajuda de plantas, que geram 0,2 W por metro quadrado.
Biodigestor em Klarenbeek, Holanda: Tonnie construiu um biodigestor em sua fazenda. O esterco, sob a ação de bactérias, produz gás que gera calor e eletricidade. Gijs brinca que essa “vaca de concreto” precisa ser alimentada como tal.
O brinquedo de infância que virou estação de energia, Holanda: a energia eólica é bastante efetiva naquele país, e há quem queira torná- la ainda mais barata e espetacular. A Siemens já está construindo aerogeradores de 100 metros de altura, mas o sonho de Robin, John, Melvin e Allert é ir muito mais alto. Para aproveitar a densidade de potência eólica, que é maior quanto maior for a altitude, o grupo está testando pipas. Conforme os ventos desenrolam a linha, geram eletricidade. Apesar dos testes já gerarem 20 kW, o sistema ainda não é eficiente e automático como os pesquisadores querem o tornar.
Energia solar na Alemanha: o país passou a incentivar o uso de painéis solares em empresas e residências, através da Lei da Energia Renovável. O resultado foi claramente visível na paisagem alemã, com mais da metade dos telhados virados para o sul cobertos com os painéis em várias comunidades.
Energia do morango, em Belgrado, Sérvia: não é a fruta que gera energia, o nome deve-se apenas à criatividade com que o sérvio Milos nomeou a sua start-up. A ideia é plantar miniestações de energia solar para recarregar gadgets, como o celular ou o Ipad. A “árvore” possui bancos e wi-fi, tornando-se um local de descanso e um ambiente sócio- educador sobre as formas de energia renovável.
Professor Venko, Bulgária: o professor de engenharia química e bioquímica recebeu Gijs e lhe explicou sobre duas formas de geração de energia bem peculiares. Uma delas é aproveitando a matéria orgânica depositada por milhares de anos no Mar Negro, por rios como o Danúbio, por exemplo. Essa matéria produziu um acúmulo de gás tóxico de sulfeto de hidrogênio abaixo dos 200 metros da superfície. O que era um incômodo passou a se tornar uma oportunidade para gerar energia há cerca de 20 anos, através das pesquisas do grupo de Venko, que encontrou uma forma de concentrar o gás e extrair o hidrogênio. Além disso, o professor falou sobre a pirólise a 3 mil graus, que transforma tudo em monóxido de carbono, hidrogênio e carvão em poucos segundos, podendo ser um ótimo método para gerar energia.
Energia Solar Concentrada, Cairo, Egito: a Usina Kuraymat mostra uma forma inovadora de aproveitar a grande quantidade de energia recebida pelos desertos. Os estudos de viabilidade começaram em 2009, e a ideia é que grandes espelhos consigam concentrar o sol e o calor em um ponto, e a partir daí ele seja utilizado para dessalinizar a água, gerar eletricidade ou como entrada para processos industriais. 
Energia do esterco para a produção de alimentos, Etiópia: sempre que Gijs passava por alguma aldeia na Etiópia, sentia o cheiro de fumaça. Para cozinhar, a maioria dos etíopes utiliza lenha e carvão vegetal. Mas em alguns dos locais foi possível perceber a presença de biodigestores, alimentados por excrementos de gado (e até de humanos) que resultam em biogás utilizado em fornos para o cozimento, além de compostos que podem ser usados no campo.
Solarkiosk, Etiópia: também conhecida como uma unidade de negócios autônoma, trata-se de um quiosque otimizado com painéis solares, planejado para ser instalado em áreas de países em desenvolvimento que não estão conectadas a uma rede elétrica. “Ali eu pude desfrutar de uma bebida fria e um chocolate não derretido”, diz Gijs. 
Olkaria, usina geotérmica no Quênia: quem conduziu a visitação foi Isaac, um engenheiro de perfuração. O potencial desta energia no Vale do Rift é enorme e tem alimentado o crescimento do país. A usina encontra-se no Hell's Gate National Park, um parque cheio de zebras, leões e outros animais selvagens pelo qual Gijs teve que cruzar com sua bicicleta. A energia térmica gerada pelo calor do interior da terra é transformada em energia elétrica. Atualmente, o Quênia depende fortemente de usinas hidrelétricas, e nas épocas de seca a geração de energia fica fortemente comprometida.
Módulos de painéis solares “made in Kenya”, Quênia: a Ubbink, inicialmente uma empresa de materiais de construção, é a primeira fábrica de módulos de painéis solares na África Oriental. Além de aproveitar uma boa oportunidade de negócio, a empresa é uma iniciativa empreendedora que auxilia no desenvolvimento da região. Enquanto Elizabeth mostrava a fábrica para Gijs, ela afirmou sentir orgulho de trabalhar lá. “Este trabalho está em sintonia com minha formação em Engenharia Elétrica. É fascinante ver como, a partir do zero, podemos conectar as partes e fazer os painéis que podem fazer tantas coisas para uma casa”, vibra Elizabeth.
Energia solar em Malaui: o jovem Makaiko comprou um painel solar que gera até 85 W para ter em sua loja. Ele percebeu uma oportunidade para gerar renda oferecendo o serviço de carregar telefones celulares das pessoas de sua aldeia por 40 kwacha, o que equivale a 0,10 euros. Parece pouco, mas ele conseguiu pagar o painel e já pensa em comprar uma bateria melhor.
ONG que auxilia pessoas afetadas pela Aids em Harare, no Zimbábue: a fundação Seta auxilia com alojamento e tratamento medicinal contribuindo a reintegração social de pessoas portadoras do vírus HIV. Localizada na Sociedade de Engenharia e Tecnologia na África, a fundação tem a meta de ensinar habilidades para reparar e até produzir os seus próprios gadgets, ao invés de importar tudo do Japão. Gijs pôde ver um conjunto de luzes de LED recarregáveis por painéis solares e um balde especial que pode ser utilizado para tomar um banho quente.

"Quando podemos colocar em prática o aproveitamento da energia naturalmente produzida pelo vento, a água ou o sol, sentimo-nos mais leves, mas felizes. É o mesmo princípio que nos leva a defender o uso da bicicleta para a mobilidade."

Essas e outras ideias e pessoas resultaram em uma rica experiência para Gijs, que agora colocará em andamento a sua própria empresa de energia renovável. O impacto da interferência humana no meio ambiente é um problema que pesa em nossa consciência, e quando podemos colocar em prática o aproveitamento da energia naturalmente produzida pelo vento, a água ou o sol, sentimo- nos mais leves, mais felizes. É o mesmo princípio que nos leva a defender o uso da bicicleta para a mobilidade. É uma integração entre nós, o suprimento de nossos desejos e necessidades, e o que de mais natural e sustentável está disponível no mundo. Inspirações não nos faltam.


Rolezinho ou Ocupa Shopping Center?

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