Palestina: “Precisamos voltar a acreditar na liberdade”
12 de Agosto de 2014 by mairakubik
“Eu vou te mostrar algo”. Abdul Rahman Katanani pega uma caixa de madeira e coloca-a em frente à câmera do computador para que eu possa enxergá-la melhor enquanto conversamos via internet. Com cuidado, tira de dentro uma chave. “Essa é uma daquelas chaves míticas das quais sempre ouvimos falar?”, pergunto. “Sim”, diz ele. “Essa era da casa do meu avô, na Palestina. Guardamos ela desde que saímos de lá, em 1948. Nos disseram que voltaríamos em uma semana, mas nunca mais voltamos”.
“As Nações Unidas”, lembra, “nos deram uma resolução, a 194, de 1948, que dizia que todos os palestinos refugiados poderiam voltar para a sua terra natal. E desde então, deste ano, nada aconteceu. O Estado de Israel foi declarado em parte da Palestina e houve mais de 6 milhões de refugiados”.
Katanani é um deles. Nasceu no campo de refugiados de Sabra e Chatila, no Líbano, e nunca pode visitar Gaza ou a Cisjordânia. É o sonho de voltar para a casa que ele nunca conheceu que o move como artista plástico.
O material vem do próprio campo de refugiados. Arames farpados, placas de metal e emoções. “O nosso povo está esperando uma solução há mais de 60 anos, então a nossa habilidade de mudar está no nível zero. Estou tentando mostrar aos palestinos que podemos mudar. E eu escolho esses materiais para mostrar que nós podemos mudar com lixo. Não digam que nós não temos dinheiro, que ninguém nos apoia. Nós podemos passar nossa mensagem para o mundo inteiro”.
Nas peças que ele produz, crianças brincando se destacam: suas figuras em metal empinam pipa e jogam bola. “As crianças no campo não têm playground, não têm nada. Mas com a sua imaginação e a energia de mudança elas podem criar qualquer coisa e simplesmente esquecem tudo sobre o meio ambiente e as circunstâncias. Eu queria dizer isso às pessoas.”
Reconhecido internacionalmente, Katanani, que está terminando uma residência artística em Paris, França, conversou com o blog sobre a situação na Faixa de Gaza e sobre seu trabalho, que segundo ele mesmo busca devolver “a habilidade de mudança” ao povo palestino. “Nós vivemos em campos de refugiados há mais de 60 anos e não podemos fazer nada. Só esperamos. E esse é o problema. O que está acontecendo em Gaza é que Israel sempre diz que tem algo ameaçando-os e agora é o Hamas. E estão bloqueando Gaza. Só que Gaza não é só o Hamas”.
Leia abaixo a entrevista:
Blog: Sabra e Chatila é onde aconteceu o massacre nos anos 1980, não?
Sim, 1982. Deixe-me contar um pouco a história dos refugiados. A história começa com a colonização do Reino Unido na Palestina, em 1917. Os outros países do entorno que foram colonizados pelos franceses, italianos, portugueses, receberam a independência. Mas não os britânicos. Em 1936 acontece a primeira revolução palestina porque eles não haviam cumprido sua promessa de garantir nossa independência e a declaração do Estado Palestino, como ocorrera com Líbano, Síria, Jordânia, Egito e Líbia. O que aconteceu é que alguns grupos gangues de judeus vindos da Europa, financiados pelos britânicos, começaram a promover um genocídio dos palestinos. Eles queriam consolidar o discurso de que tinham vindo para uma terra sem povo. “Um povo sem terra para uma terra sem povo”, ou seja, os judeus. Mas na verdade essa terra não estava vazia. Era o país mais próspero do Oriente Médio. Judeus, cristãos e muçulmanos estavam vivendo lá há mais de 400 anos sem nenhum conflito. Os árabes resolveram fazer uma guerra contra os britânicos e as gangues judaicas. Nós levamos as chaves conosco porque disseram que a guerra ia terminar em uma semana e que voltaríamos para casa. Vou te mostrar a chave. Ela é muito antiga, era da casa do meu avô, tem cerca de 20 cm. É muito grande. Eles levaram as chaves com eles porque os árabes disseram que eles voltariam para casa logo depois. Mas não foi assim. As Nações Unidas nos deram uma resolução, a 194, de 1948, que dizia que todos os palestinos refugiados poderiam voltar para a sua terra natal. E desde então, deste ano, nada aconteceu. O Estado de Israel foi declarado em parte da Palestina e houve mais de 6 milhões de refugiados. A maioria deles na Jordânia, na Síria, no Líbano e no Egito, no Sinai. Agora Israel diz que não há refugiados de 1948, apenas da guerra de 1967. Eles dizem que nós não existimos porque se eles reconhecerem que existimos, o ditado do “povo sem terra para uma terra sem povo” não vai mais funcionar.
Nós vivemos em campos de refugiados há mais de 60 anos e não podemos fazer nada. Só esperamos. E esse é o problema. O que está acontecendo em Gaza é que Israel sempre diz que tem algo ameaçando-os e agora é o Hamas. E estão bloqueando Gaza. Só que Gaza não é só o Hamas. Têm seis grupos políticos que estão combatendo Israel. E eles são diferentes entre si. Há aqueles que não acreditam em Deus, há os comunistas, há os muçulmanos, há liberais. Hamas é o partido maior, que ganhou as eleições. Israel começou a guerra em Gaza baseado em mentiras responsabilizando os palestinos sobre sequestros de crianças na Cisjordânia, o que depois veio à tona na imprensa israelense. Mas eles acharam que a guerra em Gaza seria fácil. Os israelenses e os americanos sempre têm a mesma tática: a de criar inimigos para que a opinião pública fique ao seu lado. Agora é o Hamas e seus foguetes. A cada par de anos eles fazem uma guerra para destruir a infraestrutura de Gaza porque láé o lugar mais duro dos israelenses controlarem, diferentemente da Cisjordânia. A última guerra foi por causa da reunião palestina, quando o Fatah, por meio de Mahmoud Abbas, entrou em acordo com o Hamas. Eles tinham combinado de fazer uma eleição na Cisjordânia. Só para lembrar: o que aconteceu em Gaza em 2006 é que o Hamas ganhou as eleições. E o mundo inteiro se surpreendeu e chamou-os de terroristas. Imagine se a mesma coisa acontece na Cisjordânia. Isso seria uma catástrofe para Israel. Na Cisjordânia Israel têm o controle. Faz check-points, assentamentos, separa as cidades. Mas na Cisjordânia há também resistência. Então Israel começou prender todos os apoiadores do Hamas na Cisjordânia. Essa guerra começou na Cisjordânia.
Blog: Como toda essa situação influencia seu trabalho?
Ela está no coração da minha arte. Eu trabalho com a emoção e com o sentimento das pessoas. Eu caminho pelas ruas apertadas do campo e sento para beber chá. Em pequenas esquinas. E eu vejo as pessoas. Vejo como interagem e é possível ler suas emoções mesmo sem falar, em especial por causa da guerra e do que está acontecendo. Essa guerra nos deixa mais passionais, mais emotivos, com raiva. E sentimos que temos que fazer algo, mas não podemos. Então eu sento na sombra e assisto a essas pessoas passarem com seus sentimentos. Em seguida, tento transformar essas emoções em materiais que vem do campo, como pedaços ou folhas de metais.
Paris me permitiu olhar o lugar de onde eu vim de longe. Foi inspirador para realocar a criatividade e me questionar se eu estou me esforçando o suficiente. Mas na verdade eu penso sempre que eu tenho que fazer melhor e melhor porque a nossa causa é muito dura. Há muito tempo estamos lutando por ela. Lutamos pela liberdade. Liberdade e ocupação estão em contradição. Para mim, a liberdade começa individualmente. E o inimigo sempre tenta destruir ou quebrar algo dentro de nós, quebrar a habilidade da mudança. A ocupação começa no coração das pessoas. Israel é um país que nos ocupa, é verdade. Mas o mais difícil é dizer ao povo que podemos fazer algo. O nosso povo está esperando uma solução há mais de 60 anos, então a nossa habilidade de mudar está no nível zero. Quando digo que a Palestina pode ser livre e que poderíamos voltar para a nossa casa, olham para mim e me perguntam: “do que você está falando, cara?”
Mas o que eu tento dizer é que nós podemos ser bem educados, criativos e que nós podemos romper barreiras. Depois disso a Palestina será livre. Mas precisamos primeiro acreditar na mudança. É por isso que estou ensinando crianças. Elas têm a habilidade de mudar. Elas têm, por exemplo, vontade de brincar. É algo pequeno, mas para as crianças é tudo. Essas crianças no campo não têm playground, não têm nada. Mas com a sua imaginação e a energia de mudança elas podem criar qualquer coisa e simplesmente esquecem tudo sobre o meio ambiente e as circunstâncias. Eu queria dizer isso às pessoas. No campo de refugiados temos uma alta percentagem de pessoas com bom nível educacional, mas que não conseguem achar trabalho. E eu quero mostrar a elas a energia das crianças para dizer que precisamos nos conectar com nós mesmos, com os nossos sonhos. Estou tentando mostrar aos palestinos que podemos mudar. E eu escolho esses materiais para mostrar que nós podemos mudar com lixo. Não digam que nós não temos dinheiro, que ninguém nos apoia. Nós podemos passar nossa mensagem para o mundo inteiro. Depois de Paris, comecei a pensar mais profundamente em como podemos mudar o pensamento das pessoas para coisas positivas, não negativas. Quando você começa a acreditar nas suas ideias, outras novas surgem, como um fluxo. É só o primeiro passo. Depois você conquista muitas coisas.
Eu sempre trabalho com crianças porque eu acho que essa geração pode mudar tudo. Eu sempre digo que eles têm que acreditar neles primeiro e que depois tudo será mais fácil. Ao trabalhar com eles em meu estúdio ou pintando muros eu mostro que trabalhar é fácil, é divertido, é criativo. Não tenha medo, se expresse. É tão simples.
Blog: Como você vê o uso da tecnologia para divulgar informações nessa guerra? Há um diferencial em relação às anteriores?
Sim, estamos usando a tecnologia como armas. Nas guerras anteriores, não conseguimos mostrar as imagens do que estava acontecendo com o nosso povo. Agora, nós podemos fazer pequenos vídeos e subir eles na internet, no Facebook, no YouTube, no Skype etc. Nós sabemos que Israel está matando crianças e mulheres porque não conseguem atingir a resistência. Agora mesmo vocês, no Brasil, que estão tão longe, podem ver as imagens do que está acontecendo. E para nós chega que muitos lugares do mundo estão se manifestando contra Israel.
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