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sexta-feira, 16 de maio de 2014

A marcha à ré da “civilização do automóvel”

A marcha à ré da “civilização do automóvel”




“Ao contrário do que diz, há crise no setor, sim, e estrutural. “A civilização do automóvel” tem cada vez menos espaço e não será o carro elétrico ou outra fonte “limpa” que reabrirá suas portas.”
1.050 metros do elevado da perimetral demolidos, parte da revitalização do porto do Rio de Janeiro. Foto: Beth Santos – AFP.









Continuo hoje a série sobre a decisiva questão da jornada de trabalho, detalhando-a um pouco mais sob a ótica do setor automobilístico.
O artigo de Míriam Leitão, “Ponto morto”, do último dia 3 ajuda a ilustrar a situação, mesmo que sob a ótica invertida de privilegiar o crescimento econômico independentemente de sua qualidade. Diz ela:
Não há uma crise no setor automobilístico. Aconteceu o previsto. A redução de impostos provocou antecipação de compras e agora as montadoras estão tendo um ano mais fraco. Além disso, a queda é principalmente nas exportações.
E, ainda:
As vendas caíram 1,68% no primeiro trimestre e a produção recuou 8%, pela perda de fôlego da demanda interna e pelos problemas da Argentina. Com isso, outros setores da economia sentem os efeitos indiretos, como as siderúrgicas, que produzem aço, e os fabricantes de vidro e borracha.
E completando, sem querer, a descrição das imposições da “civilização do automóvel” , diz:
O número de carros nas ruas subiu muito, nos últimos anos. A venda anual de veículos saltou de 1,3 milhão, em 2002, para 3,6 milhões, em 2013. Quase triplicou. Poucas foram as obras de infraestrutura, nesse período, para melhorar as condições de tráfego e estacionamentos.
Ao contrário do que diz, há crise no setor, sim, e estrutural. “A civilização do automóvel” tem cada vez menos espaço e não será o carro elétrico ou outra fonte “limpa” que reabrirá suas portas.
Seu fim é inevitável, e com ele, o de tudo o que foi é feito em torno do automóvel, em especial a suburbanização. Mas, imagine o leitor, por um instante, uma cidade ou o meio rural sem automóveis. Nem de longe estamos preparados para isto, mesmo levando em conta que a maioria dos brasileiros não usam automóveis (mas querem, diga-se de passagem, assim como a população dos países emergentes, bilhões de pessoas). E a economia medida pelo PIB, como fica? Não fica, desaba.
Também sem a intenção de enfrentar a crise estrutural, o governo brasileiro acabou por propor medidas que estão no cerne de uma nova economia capaz de absorver a inevitável mudança. A radical flexibilização da jornada de trabalho.
Infelizmente, a proposta de flexibilização é transitória e destinada a atender, de fato, às montadoras. O Programa Nacional de Proteção de Emprego (PPE) parece até bem concebido. Por ele, os empregados poderão ter a jornada reduzida pela metade e receberem metade do salário. Além disto, o governo utiliza recursos do FGTS para garantir uma complementação inversamente proporcional ao valor do salário, sendo integral, para quem recebe salário mínimo.
Se fosse permanente, inicialmente para as montadoras, a medida poderia iniciar um ciclo de soluções favoráveis ao meio ambiente, à redução da desigualdade e ao bem estar.
Seria possível pensar em evitar o crescimento da frota retirando de circulação, gradualmente, os veículos sem condições de uso, o que seria um tremendo ganho.
Acabaria também a pressão pela ampliação da infraestrutura rodoviária tanto nas cidades quanto entre elas, convergindo recursos escassos para a manutenção ou reforma da existente e principalmente, ampliação do transporte público e do transporte eficiente da produção agrícola e industrial.
E, entre outros benefícios, maior tempo livre, facilitando o uso do potencial criativo das pessoas em prol de outros seres humanos e da própria família.

É, claro, quanto mais a flexibilização da jornada se espalhar pela atividade econômica, maiores as barreiras a serem enfrentadas, o que será visto no próximo post.

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