PEDALADAS COM CAUSA
Para o cicloativista André Pasqualini, as bicicletas merecem mais espaço porque são sustentáveis e aproximam as pessoas. Por isso, ele fez dessa bandeira seu ramo de negócios
Desrespeito de motoristas, falta de sinalização e vias inadequadas. Pedalar em São Paulo não é simples, mas já foi pior. No início dos anos 1990, quando automóveis circulavam a uma velocidade média de 27 quilômetros por hora, ciclistas precisavam andar mais rápido para serem notados. Um deles é o ex-programador André Pasqualini, 39 anos, que fez do cicloativismo seu projeto de vida. “Naquela época, quase ninguém pedalava. Hoje, com a classe média adotando a bike, ela voltou a ter importância, porque é um contraponto ao estilo de vida atual”, observa.
Pasqualini ganhou a primeira bicicleta aos seis anos e a usou até quebrar. Sem dinheiro para o conserto, só voltou a pedalar em 1993, quando começou a trabalhar em uma estatal. Lá, ele conheceu o auxiliar administrativo Adelmo Moreira Leite, que fazia passeios ciclísticos nos fins de semana. Empolgado, comprou uma bicicleta nova para acompanhar o amigo. No primeiro dia, a dupla pedalou cinco quilômetros. “Quase desmaiei”, conta. Na semana seguinte, fez 100 quilômetros.
Um ano depois, com calça de moletom e mala nas costas, Pasqualini desceu sozinho a Estrada Velha de Santos, rumo ao litoral sul, para depois seguir até Cananeia (SP). Logo vieram trajetos maiores, como uma viagem de 15 dias – e 1.200 quilômetros – sobre os pedais até o Rio Paraná, entre os municípios de Itapura e Castilho, onde está localizada a foz do rio Tietê.
Levou cinco anos até Pasqualini se entregar de vez ao esporte. Em 1999, ele deixou o serviço público para se tornar programador freelancer e, assim, poder viajar de bicicleta sempre que quisesse. Já cruzou, por exemplo, a Mata Atlântica, o Cerrado, o Pantanal e a Floresta Amazônica em uma jornada de 6,9 mil quilômetros. Em outubro, vai percorrer 9 mil quilômetros da rodovia Transamazônica e relatar tudo em seu blog, O Bicicreteiro, por um smartphone conectado à internet via satélite. “É muito bom quando você percebe que não precisa mais do que cabe em cima de uma bicicleta para sobreviver”, observa.
“É muito bom quando você percebe que não precisa mais do que cabe em cima de uma bicicleta para sobreviver”
Do esporte à militância
Com a experiência, Pasqualini percebeu que as dificuldades que o ciclista urbano enfrenta diminuiriam apenas se mais pessoas passassem a pedalar. Entre as iniciativas para mudar a realidade, ele deu treinamentos a motoristas de ônibus e ingressou no grupo de trabalho da Agência Nacional de Transportes Públicos (ANTP). Sua atuação ganhou significado maior quando a ciclista Márcia Prado foi atropelada enquanto pedalava na Avenida Paulista, em janeiro de 2009. Dias antes, ela havia percorrido 120 quilômetros entre São Paulo e Santos com Pasqualini e outros 400 ciclistas. Sete meses depois, ele fundou o Instituto Ciclo BR, com o objetivo de difundir a mobilidade sustentável.
Desde então, Pasqualini abraçou a causa em tempo integral: passou a escrever uma coluna semanal para o jornal Destak, já extinta, que o tornou uma referência para a imprensa quando se fala em cicloativismo. Há dois anos, abandonou a antiga profissão para prestar consultorias a grandes empresas, como a Caloi, e à Prefeitura de São Paulo, além de desenvolver um trabalho para promover passeios ciclísticos para o setor privado.
“Se o cara se descobre capaz de pedalar 100 quilômetros até a praia, ele vai pensar duas vezes antes de ir de carro à padaria”
Ele também é o idealizador do Desafio Bicicletas ao Mar (DBM), iniciativa que consiste no treinamento de iniciantes que desejam ir de São Paulo ao canal de Santos (o trajeto é de 120 quilômetros) pedalando e que teve a participação de 800 pessoas em três edições, realizadas desde abril do ano passado. A ideia, segundo Pasqualini, é mudar a mentalidade dos cidadãos quanto ao uso do transporte. “Se o cara se descobre capaz de pedalar 100 quilômetros até a praia, ele vai pensar duas vezes antes de ir de carro à padaria”, explica.
Reflexos na saúde
Um dos maiores entusiastas do DBM é o analista de sistemas Luís Gomes Rodrigues, 47, que em 2011 reabilitou o antigo hábito, após duas décadas sem subir em uma bicicleta. Entre aventuras de fim de semana e a viagem até o trabalho, ele faz ao menos 200 quilômetros de percurso por semana. Como resultado, emagreceu 20 quilos, fez novos amigos e está menos individualista. “Pedalar faz você aprender a dividir espaço com motoqueiro, pedestre e motorista, e isso se reflete psicologicamente”, observa Rodrigues. Hoje, ele é um dos responsáveis por ajudar os iniciantes que buscam participar do desafio.
Uma delas é Maria Lívia de Queiroz Venezi, bancária aposentada de 50 anos que comprou uma bicicleta em maio do ano passado para passear nas ciclofaixas de lazer. Em agosto, Lívia participou do segundo desafio. “Saí de onde trabalhava em uma fase ruim, com depressão e tomando remédios. Hoje meu medicamento é a bicicleta”, diz ela, que desde então percorreu mais de 4 mil quilômetros sobre duas rodas.
Pelo seu poder de integração e de promoção da qualidade de vida, Pasqualini reconhece que a “magrela” não é a solução para todos os problemas, mas uma saída. “Com o carro, você não vê o lixo espalhado na cidade nem o mendigo na rua. A bicicleta é uma ferramenta que aproxima as pessoas”, conclui.
Mais espaço nas ruas
Com 6,7 milhões de veículos motorizados, a velocidade média atual do tráfego de São Paulo, de 13 quilômetros por hora, facilita a adesão de novos ciclistas. Até 2016, a infraestrutura cicloviária da cidade vai passar dos atuais 250 para 400 quilômetros.
Esse crescimento acompanha o número de novos ciclistas na capital: entre 1997 e 2010, a média de viagens sobre duas rodas saltou de 162 mil por dia para 350 mil, de acordo com a Abraciclo (associação que representa as indústrias do setor).
Vídeo
Clique para ver as dicas de André Pasqualini para quem quer pedalar:
por Thiago Borges | fotos Gustavo Epifanio
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