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terça-feira, 10 de setembro de 2013

Setembro negro

Setembro negro



Vendo cenas daqui de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Fortaleza, Brasília, a única conclusão que se chega é que a desmilitarização da polícia é urgente

09/09/2013


Jéssica Souza

Na Paulista o clima era de revolta, os Black Blocs desmontaram a ciclofaixa jogando cones pela avenida e chegaram a correr em direção a alguns bancos. Eles foram acompanhados por outros manifestantes com diversas pautas e que carregavam seus cartazes observando os BBs.
As estações de metrô estavam com saídas controladas como podem ver nessa foto. E eu ia esquecendo da cena surreal que presenciamos, uma caixa de som da PM dando dicas de segurança e de etiqueta para manifestações. (vejam vídeo).
Nesta foto vemos o PM da esquerda protegendo o da direita que é oficial, o Tenente-Coronel Pignatari. Ele está com um fraco grande de gás pimenta.
A caminhada na 23 de Maio foi longa, mas sem grandes incidentes. Aproximando-se da Liberdade – ainda pela 23 de Maio – manifestantes fizeram um cordão humano bloqueando a via e gritando para os motoristas que eles não iriam passar. Desses, nenhum vestia preto. Ao ver todo o panorama de cima de um viaduto, parecia ter mais de 2 mil pessoas nesta hora. Do final da 23 até a rua Maria Paula, pegamos um atalho pela Sé. A esta altura, as muitas motos da ROCAM que estavam posicionadas lá, partiam em direção à Câmara de Vereadores. Aqui na Bela Vista de sábado o clima é bem de bairro, com famílias inteiras na frente de botecos. Quando as bombas começaram o pânico se instalou.
As ruas próximas a Câmara de Vereadores são estreitas e havia muita gente curtindo o final de semana. Vi inúmeros carros da Choque subindo em direção a Brigadeiro e outros indo para a Sé. Socorremos um rapaz que disse ter visto um PM mirar em seu rosto e atirar uma bala de borracha. Não havia sido no olho em si, mas bem próximo. Encaminhamos ele pro Pérola (Hospital Pérola Byington na Brigadeiro Luiz Antônio) e mais tarde ele nos avisou que estava na Santa Casa. O pai nos contou agora de manhã (08/09) que talvez ele tenha que fazer cirurgia, o médico não consegue avaliar já que o machucado está muito inchado. No momento do tiro acompanhava um colega que filmava para um trabalho de faculdade.
As cenas horrorosas da Sé só tomei contato bem mais tarde pelas fotos de colegas fotojornalistas e vídeos. Três pessoas foram atropeladas, dois por um carro de popular e um pela PM. No caso vemos em vídeo que o objetivo dos manifestantes era que a PM parasse pra prestar socorro aos dois manifestantes. Eles não pararam e ainda um dos meninos acabou em cima do capô do carro e depois praticamente voou batendo a cabeça no chão.
Entretanto, a cena mais impressionante é um ROCAM atirando com uma .40 no chão e em direção a fotojornalistas e manifestantes. O fotojornalista Tércio Teixeira acabou sendo acertado por um ricochete de bala de verdade no queixo, ele foi para o hospital e já está em casa. (Foto do policial atirando, foto do Tércio ferido)
Aqui estão alguns álbuns e vídeos que valem a pena para saber da truculência policial, mas aviso que são fortes. (Álbum G1, Fotos Agência BrazilPhotopress, vídeo do atropelamento, outro vídeo). Tem também essa reportagem do Vagner Magalhães do Terra que vale a pena ler.
Um outro menino foi ferido aparentemente por uma bomba de efeito moral. Relatos de colegas afirmam que a bomba quase estourou no rosto dele. Vi quando ele já estava esperando o SAMU com um cordão de isolamento da PM, o socorro demorou quase uma hora. A informação mais atual é que ele está internado no Hospital das Clínicas e tem 95% de chance de perder a visão do olho atingido (atualização domingo a noite).
Uma cena bem estranha foi um policial da Tática saindo do prédio Planalto, na esquina da Maria Paula com a Santo Amaro (o prédio é sempre usado em propagandas e até novelas da Globo). Descobri posteriormente que ele foi descobrir quem estava jogando ovos na PM pela janela. Quando saiu não estava acompanhado de ninguém.
ATUALIZAÇÃO (domingo 19h): PM soltou nota oficial sobre as manifestação. 40 pessoas foram levadas a distritos policiais para averiguação, eles também comentam sobre as depredações, falam até dos atropelamentos, mas só dão o número oficial de PMs feridos e não de manifestantes. Para ler completo clique aqui.
Vendo cenas daqui de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Fortaleza, Brasília, a única conclusão que se chega é que a desmilitarização da polícia é urgente e esses tantos policiais que quebraram protocolos, regras, agiram com violência desmedida e com risco de morte a população precisam ser punidos.

Jéssica Souza é jornalista.(com colaboração de Fabrício Lima. Fotos de Lucas Conejero, Fabrício Lima e Jéssica Santos de Souza).

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