Obama cover de Bush
LUIZ EÇA - 9 de Setembro de 2013
Esperava-se que o governo Obama fosse uma antítese do governo Bush.
Para a frustração de muitos, ele tem sido um continuador fiel das políticas do seu antecessor.
Claro, houve algumas poucas diferenças a favor do atual presidente
como a Reforma da Saúde; os esforços para eliminar a redução de taxas
dos mais ricos e manter certos programas sociais; a proibição das
torturas, além de uma ou outra realização de menor importância.
Nas áreas fundamentais da política de segurança, direitos humanos e
política externa, Obama imitou o republicano, algumas vezes para melhor,
outras até para pior.
A saída das tropas americanas do Iraque é apontada pela propaganda oficial como uma grande mudança de Obama.
Não é bem assim: Bush já havia acertado com os iraquianos a data para o fim daquela desastrosa invasão.
Obama ainda tentou negociar a permanência de uns 10 a 20 mil
"assessores" militares, mas não deu certo porque o governo de Bagdá
exigiu que eles se submetessem à lei iraquiana.
O que o orgulho americano jamais aceitaria.
Já na guerra do Afeganistão, iniciada por Bush, Obama não fez por
merecer seu Nobel da Paz. Aumentou as tropas americanas em mais 30 mil
soldados, deu maior importância às forças especiais – não à toa, odiadas
e temidas pelo povo afegão - e, agora, com a retirada marcada para
2014, quer manter um número não especificado de soldados americanos
(fala-se em 20 mil).
Com a permanência dessa tropa não dá para pensar que os EUA estarão fora do Afeganistão em 2014.
Agora, Obama está em vias de lançar os EUA em uma terceira guerra, a guerra da Síria.
Como se sabe, o governo e os rebeldes se acusam mutuamente da autoria de um ataque químico nos arredores de Damasco.
Antes de apontar o dedo para um deles, a ONU enviou uma equipe de especialistas para analisar in loco o incidente.
Obama não se tocou. Ele diz que seus serviços de inteligência teriam
provas de que Assad era o culpado e, portanto, a investigação da ONU
seria desnecessária. Os EUA iriam dar uma lição ao ditador, lançar
ataques para que ele nunca mais repetisse seu ato desumano.
Antes de autorizar o lançamento de mísseis, Obama busca o apoio do Congresso.
Se for rejeitado, não importa, ele vai atacar do mesmo jeito.
Claro, é um desrespeito às normas da ONU e ao direito internacional,
que vetam ataques militares contra nações soberanas, a não ser em defesa
própria ou com aprovação do Conselho de Segurança.
Também aqui Obama imita Bush, agindo de forma unilateral, ao intervir
quase sozinho na Síria (apenas a França prometeu ajuda militar).
Em certos casos, Obama supera Bush.
Cabe ao presidente republicano a duvidosa primazia de inaugurar o
assassínio de suspeitos no Paquistão, através dos drones, os impiedosos
aviões sem piloto.
Mas, enquanto Bush realizava um ataque por mês, com Obama eram 4 por semana, nos anos mais explosivos.
Como os drones não se desviam de civis, nem são infalíveis, a
mortandade de inocentes tem sido grande – muito maior com Obama, que tem
enviado muito mais ataques.
E não vamos esquecer que os drones voam e matam também no Yemen e na Somália sob o patrocínio do governo Obama.
Esta violação dos direitos humanos, comum aos dois presidentes, aconteceu em outros casos.
Nas renditions do governo Bush, a CIA raptava suspeitos no exterior e
levava-os clandestinamente para serem interrogados em países onde se
podia torturar secretamente.
Aliás, como se sabe, Bush não tinha muita ojeriza por torturas,
inclusive aprovava o waterboarding, que reproduz a sensação de
afogamento.
Aqui, Obama até que se saiu bem.
Proibiu as torturas e as renditions, pôs o waterboarding no índex.
Pena que protegeu os torturadores dos tempos de Bush.
Vamos esquecer o passado, Obama disse, afinal os agentes estavam obedecendo ordens e as regras vigentes.
Foi o que os nazistas alegaram no tribunal de Nuremberg.
E deu no que deu.
Atrás de Bush no quesito "torturas", Obama registra em sua folha corrida algo muito próximo: os assassinatos selecionados.
A CIA elabora listas de terroristas e suspeitos a serem mortos em qualquer parte do mundo, por drones ou forças especiais.
Obama autoriza e os indigitados levam chumbo. Eles e quem estiver por perto, mesmo não tendo qualquer ligação com o terror.
Tudo para garantir a segurança dos EUA, para que não se repitam atentados como o das Torres Gêmeas.
Foi por esse motivo que Bush propôs e o Congresso aprovou a "Lei
Patriota", que torna sem efeito uma série de direitos individuais, para
que os agentes possam investigar suspeitos de terrorismo sem maiores
problemas.
Esta lei foi prorrogada no governo Obama, com plena aprovação do presidente.
Nesta troca de direitos por segurança, Obama foi além de Bush.
Em dezembro de 2011, Obama recebeu do congresso o "Ato de Autorização
de Defesa Nacional", que, nas seções 1021 e 1022 permite ao presidente
deter suspeitos em prisão militar indefinidamente e sem julgamento.
Ele assinou, promulgou essa lei que lhe dá poderes acima do Direito e
da Justiça. Normal somente em regimes como os de Hitler, Stalin,
Pinochet e Trujillo.
Foi uma violência contra a Constituição dos EUA, referência histórica nas legislações em defesa dos direitos individuais.
Ela é desrespeitada também no caso da espionagem eletrônica.
Bush começou tudo, autorizando o NSA (Agência Nacional de Segurança) a
realizar sem mandado judicial, escutas telefônicas nas investigações de
terrorismo.
Quando, em 2007, o New York Times denunciou, Bush desistiu, passou a
ser exigida a aprovação de uma corte criada especialmente para julgar
mandados assim: a FISA.
E daí? A FISA era da turma, basta dizer que funciona no próprio
prédio do Departamento de Estado. Ela quase nunca recusa pedidos de
mandados.
Obama não mudou nada. Pelo contrário: multiplicou as ações de
espionagem das comunicações, abrangendo também tudo que as pessoas fazem
nos computadores, não só nos EUA, como também em outros países.
Claro, com esse acúmulo de trabalho, foi necessário ampliar consideravelmente o aparelho da NSA.
Hoje, ela está instalada num enorme edifício nos subúrbios de
Washington e em outras unidades na Georgia, Texas, Japão, Alemanha e
Reino Unido. E constrói um novo centro de vigilância em Utah, a um custo
estimado de 2 bilhões de dólares.
A NSA é um estado dentro do estado, praticamente sem controle do
Congresso, empregando entre 35 e 55 mil pessoas. Seu orçamento é
secreto. Sabe-se que, em 2009, era de 8 bilhões de dólares, hoje deve
ser muito mais.
As atividades da NSA foram reveladas publicamente por Edward Snowden,
deixando cidadãos americanos e países aliados indignados com a
bisbilhotice oficial.
Atiçado pelos serviços de inteligência, Obama vem perseguindo
ferozmente Snowden e outras pessoas que ousaram revelar podres ocultos
do governo.
Bradley Manning é um bom exemplo.
Passou 11 meses preso em condições que o representante da ONU
classificou como equivalentes a tortura. Por fim, foi condenado a uma
pena cruel e desmedida.
A lei que justificou sua condenação, o Espionage Act – criado em 1917 para punir espiões – só foi aplicada 9 vezes.
Nada menos de 6 vezes, Obama usou essa lei para processar jornalistas
e funcionários que revelaram fatos que o governo queria esconder do
povo.
Como os escândalos de Guantánamo, por exemplo.
Foi Bush quem criou a prisão, enchendo-a com suspeitos de terrorismo, recolhidos principalmente no Oriente Médio.
Inicialmente, Obama jurou que iria acabar com "essa vergonha", mas pouco fez.
Chegou a liberar alguns prisioneiros – comprovadamente inocentes –
para suspender as liberações, depois que foi preso um nigeriano
planejando atentado contra um avião comercial.
Neste ano, mais promessas de fechar Guantánamo.
Como primeira medida, foi anunciada nova liberação de inocentes, a maioria yemenitas.
Mas foi só as ações terroristas no Yemen aumentarem para a proibição voltar.
Há ainda o caso especial de 50 ou 60 detidos, carimbados como perigosos pela CIA e o Pentágono.
Eles seriam absolvidos num julgamento porque as provas contra eles foram conseguidos por torturas.
Solução do governo: jamais serão julgados e ficarão presos indefinidamente.
No campo de prisioneiros de Bagram, no Afeganistão, acontece algo semelhante.
Bush fez o trabalho sujo, concentrando ali gente do talibã e
suspeitos, que foram submetidos a maus tratos piores do que em Abu
Ghraib.
Com Obama, uma parte desse pessoal foi solta.
Mas ficaram dezenas, presos sem julgamento, por quanto tempo ninguém sabe.
E agora chegamos à política internacional.
No histórico discurso do Cairo, Obama prometeu amizade e justiça para
os povos islâmicos – uma guinada de 180 graus na postura de Bush.
Em relação à independência da Palestina, parecia que Obama iria
realizar o prometido: ele exigiu que os israelenses parassem de
construir novos assentamentos para que se pudesse negociar a paz com os
palestinos.
Netanyahu concedeu uma moratória de 6 meses. Por ser apenas parcial,
os palestinos protestaram. E o prazo passou em meio a discussões.
Nada acontecendo, Netanyahu voltou a expandir seu programa de assentamentos.
Depois disso, Obama se rendeu e passou a defender os interesses
israelenses intransigentemente, doa a quem doer, e que se danem os
árabes! Igual a Bush.
Na ONU, os EUA impediram condenações aos assentamentos – ilegais
segundo o direito internacional; à anexação das colinas de Golã; aos
crimes de guerra do exército israelense no ataque a Gaza; aos
assassinatos de pessoas na Flotilha da Liberdade.
Bloquearam o reconhecimento da Palestina como membro efetivo da ONU
no Conselho de Segurança e votaram contra o ingresso da Palestina na
UNICEF e na ONU como país não- membro.
Vem fornecendo a Israel as mais avançadas e devastadoras armas produzidas nos EUA.
Sem falar num sem número de declarações e ações do governo americano
em defesa de Israel nos mais diversos organismos. Mesmo quando Telaviv
não tem razão.
Agora, a propaganda da Casa Branca proclama que, graças aos esforços
dos EUA, palestinos e israelenses negociam a paz e a criação de uma
Palestina livre e soberana.
Esquece que, em sua visita a Ramallah, Obama pressionou o presidente
palestino Abbas para que desistisse de exigir moratória nos
assentamentos.
E Abbas renunciou a esta legítima pré-condição, que há muitos anos era defendida pelos palestinos.
As negociações começaram, mas seu futuro não é nada promissor, pois
Bibi, desafiadoramente, continua com novos assentamentos. 3.000 foram
aprovados recentemente, provocando a indignação dos palestinos.
Uma ameaça de Ahmadinejad de tirar Israel do mapa (ele desmentiu,
depois) levou os EUA e parceiros a exigirem o fim de um suposto programa
nuclear militar iraniano.
Teerã negou, como os próprios serviços de inteligência americanos confirmaram.
Não adiantou nada. Sanções foram impostas pela ONU.
Descontente com elas, os EUA e a União Europeia vieram com sanções ainda mais duras, que estão destruindo a economia iraniana.
Várias reuniões para negociar a questão nuclear foram realizadas
entre o Irã e os EUA, mais seus parceiros da Europa, a China e a Rússia.
Na última, as grandes potências exigiram que o Irã parasse de
enriquecer urânio, entregasse seu estoque desse material e fechasse a
usina de Fordow.
Em troca permitiriam que os iranianos comerciassem usando ouro e lhes
exportariam partes sobressalentes de aviões. Um negócio pra lá de
leonino.
Bush começou a campanha anti-Irã. Obama deu continuidade, fielmente.
De um modo geral, no governo dos dois, os EUA suprimiram alguns dos principais direitos individuais em favor da segurança.
Bush dizia que o país estava em guerra com o terror, o que
justificaria violações da Constituição americana e dos direitos humanos.
Neste ano, Obama declarou que era tempo de terminar esse estado de guerra.
Mas, em nome da defesa nacional, pinta e borda com assassinatos de
suspeitos, prisões com prazo indefinido sem julgamento, espionagem
eletrônica, permanência de Guantánamo e da Lei Patriota. Numa análise
fria, se conclui que Bush passou, mas suas políticas continuam vivas.
Obama foi eleito com a promessa de mudar tudo nos EUA pós-Bush.
Quem mudou foi ele.
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