Crise síria faz EUA assumirem papel de polícia do mundo
BBCBrasil - 09/09/2013
Barack Obama tenta a todo custo convencer
o Congresso americano a aprovar uma intervenção na Síria. O presidente
diz que o voto dos parlamentares é vital para a credibilidade dos
Estados Unidos perante o mundo.
A decisão de atacar vem na esteira da
declaração feita por Obama meses atrás, garantindo que usaria a força se
o regime de Bashar al-Assad cruzasse a “linha vermelha”, no caso, se
usasse armas químicas.
A grande pergunta, no entanto, está nos detalhes do debate sobre uma internvenção na Síria. Essencialmente, a questão é se o mundo precisa de uma polícia e se os Estados Unidos deveriam simplesmente assumir esse papel.
A grande pergunta, no entanto, está nos detalhes do debate sobre uma internvenção na Síria. Essencialmente, a questão é se o mundo precisa de uma polícia e se os Estados Unidos deveriam simplesmente assumir esse papel.
Obama, assim como o ex-presidente Bush,
tem dois grandes argumentos. O primeiro é o interesse nacional. Obama
afirma que a Síria não é uma ameaça imediata aos Estados Unidos, mas sim
aos países aliados e às bases americanas na região, caso Assad use
armas químicas.
Os Estados Unidos também temem que armas possam cair nas mãos de terroristas, que poderiam usá-las contra os americanos.
Uma coisa é óbvia: quanto mais poderosa
for uma potência, será mais provável que ela tenha de se preocupar com
crises em territórios distantes de casa. No caso, trata-se do Oriente
Médio, mas não seria diferente se fosse no Paraguai ou na Letônia.
Relutante intervenção
Se o argumento do interesse nacional é
muito claro, a ideia de intervir por “razões morais” é muito mais
obscura. Esse é o segundo argumento.
Obama e o secretário de Estado, John Kerry, têm dito que o mundo não pode ficar parado assistindo tamanho sofrimento.
Nota-se que são americanos, franceses e
britânicos os que defendem o argumento de um intevencionismo
liberalizante. Mas não são apenas os russos os que são contra. A China
também não concorda.
Acadêmicos e o cidadão comum acham desconcertante o fato de os Estados Unidos querem impor os seus valores ao resto do mundo.
A China reafirma com frequência que quer o
fim do programa nuclear da Coreia do Norte, ainda assim é relutante em
forçar uma solução.
E não são apenas russos e chineses que
pensam assim. É raro ouvir vozes a favor de uma intervenção militar
vindas da Índia ou do Brasil, da Nigéria ou do Japão.
Países na vizinhança do Oriente Médio
podem até querer que alguém tome uma atitude, mas eles mesmos são
relutantes com a ideia de tomarem essa dianteira.
Legitimidade
Um país com a função de polícia poderia
até ter alguma autoridade moral se não tivesse sido, no passado, uma
potência imperialista. Ou se não for os Estados Unidos que, apesar de
nunca terem tido um império, já deixaram suas pegadas em boa parte do
mundo.
Eu perguntei ao ex-primeiro ministro
britânico Tony Blair, um dos líderes da intervenção no Iraque em 2003,
se o ataque ao território iraquiano não teria mais legitimidade se fosse
liderado na época pela Suécia. Ele foi certeiro na resposta.
“Bem… eles (suecos) não conseguiriam fazer isso. Conseguiriam?”, disse.
A questão é que os britânicos formaram
suas forças armadas para defender um antigo império ao redor do mundo.
Já os Estados Unidos se desenvolveram militarmente primeiro para atuar
na Europa e, no pós-guerra, para confrontar seu antigo inimigo, a União
Soviética.
Se a proposta original desse aparato já não existe, o instinto de intervenção permanece vivo.
Tarefa americana
Talvez o termo “imperialismo” o faça
pensar em coisas como: “isso tem a ver com petróleo”. Mas os antigos
imperialistas vitorianos realmente pensavam que estavam levando a outros
povos a civilização e o cristianismo, a ordem e o estado de direito
àqueles que não conseguiriam chegar a tal ponto sozinhos.
A crença dos Estados Unidos na sua missão
é mais universal e não é inspirada em valores raciais. Ainda assim, há
um entusiasmo similiar, o de refazer o mundo à sua própria imagem.
Claro que lutar contra o horror das armas químicas não é a mesma coisa que introduzir a democracia com a força de um rifle.
Mesmo assim, emerge a questão sobre quem
tem a autoridade para julgar se normas internacionais foram violadas e
quem decide qual será a punição.
A ONU é em tese o órgão que pode ordenar
que a “polícia global” entre em ação. Diante da relutância da Rússia em
aprovar uma intervenção contra a Síria (os russos têm direito de veto no
Conselho de Segurança), os americanos dizem que a ONU não está
funcionando.
Mesmo que a posição russa possa parecer
cínica, a posição dos Estados Unidos parece a de um promotor que diz que
o sistema não funciona apenas porque o juri acolheu a sua acusação.
Obama sabe como uma intervenção
repercutiria no mundo. Pela mesma razão ele relutou em liderar a
operação na Líbia. Isso também explica a lentidão diante da crise na
Síria.
Mas agora Obama decidiu. Mesmo que nenhum
outro país (com exceção da França, que já deu seu apoio aos americanos)
apoie a intervenção, essa é uma tarefa que os Estados Unidos têm de
desempenhar. Pouca gente nos Estados Unidos no resto do mundo concorda
com ele, mas ninguém tem outra opção sobre a mesa.
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