Conflito na Síria pode impactar crescimento do Brasil
Atualizado em 10 de setembro, 2013
Alta do petróleo pode ser consequência de ação militar na Síria
Apesar de a Síria não figurar entre os principais
parceiros comerciais do Brasil, uma eventual intervenção militar no
país, liderada pelos Estados Unidos, poderia ter um impacto negativo
sobre a economia brasileira, adiando a retomada esperada pelo governo.
A opinião é de especialistas ouvidos pela BBC
Brasil. Eles ressalvam, entretanto, que a intensidade desse revés
dependerá da duração e da extensão do ataque ao país do Oriente Médio.
Em 2011, quando teve início o levante contra o presidente Bashar
al-Assad, a Síria era apenas o 41º maior parceiro comercial do Brasil.
Ainda assim, segundo os especialistas, a
economia brasileira não ficaria imune a um possível contágio de um
conflito no país, que viria, principalmente, de um aumento na cotação
internacional do petróleo.
Embora não seja um grande produtor da
matéria-prima (ocupa a 32º posição, segundo um ranking global produzido
pela Agência de Energia Internacional), a Síria possui uma localização
geopolítica importante no Oriente Médio.
"A Síria está muito próxima de grandes
produtores de petróleo, como a Arábia Saudita, o Irã e o Iraque. Uma
intervenção militar no país poderia evoluir para um conflito regional",
diz à BBC Brasil Creomar de Souza, professor de Relações Internacionais
da Universidade Católica de Brasília.
"A escalada do confronto poderia reduzir a
oferta dessa matéria-prima e isso se refletiria em um aumento dos preços
em nível internacional", acrescenta.
Souza ressalta que tal quadro tenderia a se
agravar com a proximidade do inverno no Hemisfério Norte, no final do
ano, quando a demanda por petróleo para calefação costuma aumentar.
Custos maiores
"Com o petróleo mais caro, o custo da energia sobe, o que prejudica
diversos setores da economia", avalia Heni Ozi Cukier, da Escola
Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) de São Paulo.
"Se o combustível para o transporte de mercadorias aumenta, por exemplo, os produtos também ficam mais caros", acrescenta.
Cukier lembra ainda que o aumento da cotação
internacional do petróleo reduziria a competitividade da economia
chinesa, essencialmente exportadora. Uma retração na atividade econômica
da China, por sua vez, ameaçaria a incipiente recuperação da economia
mundial.
"Para o Brasil, os efeitos seriam mais nocivos porque a China é o nosso principal parceiro comercial", afirma Cukier.
De acordo com os especialistas, um eventual
aumento na cotação internacional do petróleo também elevaria a pressão
por um reajuste no preço dos combustíveis no Brasil, atualmente
controlado pela Petrobras.
Hoje, para suprir a demanda interna, a estatal importa petróleo a preços de mercado e vende mais barato localmente.
O adiamento do repasse aos consumidores vem
causando um rombo nas contas da empresa, que poderia ser ampliado caso
um conflito na Síria estoure, lembram os especialistas.
Por outro lado, destacam eles, um reajuste no
preço dos combustíveis, se concretizado, poderia impactar negativamente o
controle da inflação, que já está próxima da meta determinada pelo
governo (6,5%).
"Mas para garantir a saúde financeira da
empresa, essa conta terá de ser paga pelo consumidor, mais cedo ou mais
tarde", diz Souza.
Efeito rebote
Além de pagar mais pelo petróleo, o Brasil
também poderia sofrer "um efeito rebote" por causa de uma nova incursão
militar dos EUA no Oriente Médio.
"Um novo confronto armado agravaria o
endividamento público dos Estados Unidos, o que restringiria ainda mais
os gastos do governo. Essa limitação seria prejudicial em um momento em
que a atividade econômica dos EUA começa a dar os primeiros sinais de
recuperação", afirma Creomar de Souza, da Universidade Católica de
Brasília.
Neste sentido, uma retração da economia nos EUA
poderia contaminar o restante do mundo, ameaçando a retomada da
atividade econômica global, destacam os especialistas.
Em última instância, poderia haver ainda uma intensificação da
migração de recursos do Brasil – bem como de outros emergentes - para
ativos mais seguros, como o dólar ou o ouro.
"Essa saída de investimentos já vem ocorrendo
diante da perspectiva de que o Federal Reserve (Fed, o banco central
americano) reduza os estímulos à economia e tende a se fortalecer caso o
conflito se agrave", diz Cukier, da ESPM.
Investidores são avessos a riscos e costumam, em
momentos de grande instabilidade internacional, buscar investimentos
mais seguros, como títulos de dívida do Tesouro americano, em detrimento
de aplicações em bolsa de valores, especialmente dos emergentes.
Uma eventual fuga maciça de recursos valorizaria
ainda mais a moeda americana frente ao real, o que encareceria os
importados e impactaria negativamente a inflação.
"Diante de tal cenário, a economia brasileira poderia crescer menos", avalia Cukier.
Cenário internacional
Na segunda-feira, em entrevista à rede de TV
americana NBC, o presidente dos EUA, Barack Obama, descreveu como um
"avanço" a proposta de que o governo de Bashar al-Assad coloque as
supostas armas químicas sob controle internacional para serem
destruídas.
A sugestão havia sido dada pelo secretário de
Estado americano, John Kerry, e posteriormente endossada pelo chanceler
russo, Sergei Lavrov, para evitar uma intervenção militar dos EUA no
país.
No mesmo dia, o Senado americano adiou para quarta-feira a votação sobre a intervenção militar na Síria.
Obama já havia demonstrado ser a favor de uma
ação no país, inicialmente sem o uso de forças terrestres. Ele aguarda,
no entanto, o aval do Congresso para dar sinal verde à ofensiva.
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