Brasileiro sinaliza reformas na OMC e vê ‘momento crucial’ pós-crise
Atualizado em 9 de setembro, 2013
Roberto Azevêdo indicou que OMC pode se tornar irrelevante se não mudar
Em seu primeiro pronunciamento após assumir o comando
da OMC (Organização Mundial do Comércio), o brasileiro Roberto Azevêdo
disse nesta segunda-feira que o mundo vive um “momento crucial”, em
referência à economia global, e sinalizou reformas no órgão para que ele
possa cumprir melhor seu desafio de estimular o livre comércio.
"Muitas economias ainda estão lutando para se
recuperar dos efeitos da crise financeira. Enquanto isso, outras
continuam emergindo, formando novas relações de comércio e
fundamentalmente mudando o panorama da economia mundial", disse Azevêdo.
Em um apelo por disposição política aos 159 Estados-membros da OMC,
Azevêdo disse que "o mundo não vai esperar pela OMC e vai seguir adiante
sem a entidade".
O alerta foi seguido por promessas de reformas e
de diálogo. Nenhuma detalhada. "Não posso elaborar mais agora, faremos
isso no momento apropriado. Agora temos que focar em Bali", acrescentou
Azevêdo, mencionando a próxima reunião ministerial da OMC, marcada para
dezembro na Ilha de Bali, na Indonésia.
Segundo ele, alternativas e propostas serão
apresentadas, primeiro, para consultas dos Estados-membros. "Temos que
ser cuidadosos, muitas vezes uma boa ideia morre devido à maneira como
ela foi dirigida", explicou.
Doha
O “momento crucial” ao qual se referiu Azevêdo
remete ao futuro da própria OMC. A organização enfrenta um momento em
que cresce o número de países que buscam alternativas próprias de
comércio, geralmente na forma de acordos bilaterais fora do âmbito da
instituição.
Além disso, as negociações da rodada Doha de
liberalização do comércio global (que começou em 2001 e tinha término
original previsto para 2006) continuam travadas.
Existe grande expectativa de que a reunião em
Bali em dezembro mude esse cenário. O debate sobre subsídios agrícolas,
porém, emperra os acordos entre países desenvolvidos e em
desenvolvimento.
Azevêdo defendeu que a solução está no diálogo e
na aliança entre os países. "Se você quer lutar contra o protecionismo,
você tem que negociar, dialogar. Temos que trabalhar juntos para mudar
este cenário."
Para tanto, o chefe da OMC indicou que iniciará
“imediatamente” um diálogo com os países-membros com o objetivo de criar
condições para um acordo em Bali.
"O tempo é curto. Nosso trabalho precisa começar aqui e agora. É por
isso que vou dar início a consultas intensas com os países-membros
imediatamente, começando nesta semana. Elas acontecerão em vários
formatos e configurações no nível de embaixadores. Vamos ter como foco
as três áreas-chave, as de facilitação de comércio, desenvolvimento e
agricultura."
Em agosto, o ex-chefe da OMC Pascal Lamy fez um
alerta sobre o que está em jogo na reunião de dezembro. "Um fracasso em
Bali teria um efeito duradouro na OMC", avaliou.
Azevêdo adotou tom semelhante. "Os riscos não
poderiam ser maiores. Temos que mostrar resultados", afirmou, sem entrar
em detalhes sobre um plano ou estratégia de negociação.
Fontes diplomáticas em Genebra asseguram que
estão sendo cogitadas hipóteses de um acordo simplificado ou de acordos
parciais em Bali.
"Não se pode apagar tudo o que foi feito até
aqui. As negociações têm 12 anos, vamos usar tudo isso para construir
novos caminhos. Não acho que tenhamos explorado todas as alternativas,
outras ideiais podem ser tentadas", disse Azevêdo.
Apoio brasileiro
Em maio, Azevêdo foi eleito diretor-geral da
OMC, após derrotar o ex-ministro do Comércio mexicano Hermínio Blanc. O
diplomata brasileiro se tornou o primeiro latino-amerciano a chefiar a
entidade desde sua criação em 1995.
O Brasil, no entanto, mantém a política de o
governo ter um forte papel na regulação do comércio, o que já provocou
queixas de países ricos, como os EUA e o Japão, e de companheiros
emergentes, como a China e a Coreia do Sul.
Também nesta segunda-feira, a presidente Dilma
Rousseff prometeu ajudar o novo diretor-geral da OMC, Roberto Azevêdo, a
destravar a rodada Doha.
Em mensagem lida pelo chanceler brasileiro, Luiz
Alberto Figueiredo, em Genebra, ela afirmou "forte compromisso" do
Brasil para conseguir avanços na conferência de Bali.
"O desafio de pôr as negociações de volta nos trilhos e de revigorar a OMC é importante", afirmou Dilma em sua mensagem.
Azevêdo, em uma coletiva após o pronunciamento,
agradeceu o apoio do governo brasileiro e afirmou já ter recebido
respaldo de outros países também para o sucesso de Bali.
"O grande desafio à frente é transformar estes apoios em mudanças e ações aqui em Genebra", afirmou.
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