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quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Segue relato da coordenadora Rosa Cardoso na entrega dos autos das famílias Teles e Merlino à Comissão Nacional da Verdade, que este terrível Brasil jamais volte a ocorrer.

Fala da coordenadora Rosa Cardoso na entrega dos autos das famílias Teles e Merlino à
Comissão Nacional da Verdade

São Paulo, 19 de agosto de 2013

Teles/Merlino, Ustra e a Justiça
Quatro décadas depois de se tornarem vítimas de graves violações de Direitos Humanos, ou de passarem a ter um familiar nesta condição, as famílias Teles e Merlino vêm relatar à Comissão Nacional da Verdade os sequestros, torturas e assassinato que lhes foram impostos, em dependências do antigo DOI-Codi.
Entregam-nos, hoje, sobretudo, documentação processual comprobatória destes fatos e sentenças que responsabilizam pelos mesmos o coronel do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra.
A respeito do Comandante Ustra, não é possível dizer, precisamente, quando abandonou os princípios básicos da moralidade humana e passou a comportar-se como um agente robotizado dos objetivos e práticas da Doutrina de Segurança Nacional. Alinhava-se essa doutrina a posturas assumidas pelo império norte-americano durante a Guerra Fria, fundamentando-se em estratégias designadas como contrarrevolucionárias ou contrainsurgentes.
Nos anos 60 o Comandante Ustra incorporou os ideais da guerra contrarrevolucionária, assumindo o discurso conspiratório norte-americano, que acusava o comunismo soviético, e depois o cubano (que a rigor não foi comunismo) de ser responsável por um programa de destruição de significativas conquistas sociais: a civilização cristã, a democracia ocidental, o exercício das liberdades construídas no âmbito do Estado de Direito e os valores familiares tradicionais.
Ampliando o conceito de comunismo, Ustra hipostasiou na figura do inimigo interno, ou seja, no que, a seu juízo, aliou-se a ideologias exógenas e subversivas, o alvo do combate a ser travado. Ustra identificaria, então, o inimigo interno nos integrantes das organizações armadas de esquerda, nos membros de grupos desarmados da oposição, nos setores progressistas da Igreja, nos órgãos de classe, nos trabalhadores, nos estudantes, nos suspeitos e nos que poderiam ser considerados suspeitos.
Arauto desta visão totalitária, sob o pretexto preservar a segurança e a ordem, Ustra opor-se-á e combaterá o próprio sistema democrático, o Estado de Direito, as liberdades públicas, os direitos humanos. Na implementação da guerra interna que travou tornar-se-á o grande líder e o grande símbolo do Terror de Estado praticado no Brasil.
Consagrar-se-ia, por fim, como o inquestionável maestro da desfiguração e da destruição humana, processada no DOI-CODI e onde este comando estendeu os seus tentáculos.
Quase 50 anos depois de se ter imposto a ditadura, com a qual ele se confunde, em maio de 2013, depondo na Comissão Nacional da Verdade, em carta/discurso feita para os seus pais, Ustra defende anacronicamente os ideais da Guerra Fria. Insisto: Ustra, macabro herói tropical da Guerra Fria continua em 2013 a defendê-la. Afirma, então:
- Sim, nós atuávamos para preservar a democracia e contra o comunismo. Cumpri a minha missão. Não é o Cel. Carlos Alberto Brilhante Ustra que se encontra aqui, é o Exército Brasileiro. É o Exército que recebeu a ordem de combater o terrorista.
E continuando a exercitar a retórica da falsificação dos fatos, própria do Terror de Estado, prossegue:
- Agi com a consciência tranquila. Nunca ocultei cadáver, não cometi assassinato, tortura e sequestro. Nenhuma tortura foi cometida dentro das instalações do órgão de repressão do governo militar.
Hoje, entretanto, as famílias Teles e Merlino oferecem à Comissão Nacional da Verdade e à sociedade brasileira as provas de que Ustra sequestrou, torturou e assassinou como mandante ou em forma direta.

Quem o diz e o condena é o Poder Judiciário Brasileiro.

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