Fala da coordenadora Rosa Cardoso na entrega dos autos das famílias
Teles e Merlino à
Comissão Nacional da Verdade
São Paulo, 19 de agosto de 2013
Teles/Merlino, Ustra e a Justiça
Quatro décadas depois de se
tornarem vítimas de graves violações de Direitos Humanos, ou de passarem a ter
um familiar nesta condição, as famílias Teles e Merlino vêm relatar à Comissão
Nacional da Verdade os sequestros, torturas e assassinato que lhes foram
impostos, em dependências do antigo DOI-Codi.
Entregam-nos, hoje, sobretudo,
documentação processual comprobatória destes fatos e sentenças que
responsabilizam pelos mesmos o coronel do Exército Carlos Alberto Brilhante
Ustra.
A respeito do Comandante Ustra,
não é possível dizer, precisamente, quando abandonou os princípios básicos da
moralidade humana e passou a comportar-se como um agente robotizado dos
objetivos e práticas da Doutrina de Segurança Nacional. Alinhava-se essa
doutrina a posturas assumidas pelo império norte-americano durante a Guerra
Fria, fundamentando-se em estratégias designadas como contrarrevolucionárias ou
contrainsurgentes.
Nos anos 60 o Comandante Ustra
incorporou os ideais da guerra contrarrevolucionária, assumindo o discurso
conspiratório norte-americano, que acusava o comunismo soviético, e depois o
cubano (que a rigor não foi comunismo) de ser responsável por um programa de
destruição de significativas conquistas sociais: a civilização cristã, a
democracia ocidental, o exercício das liberdades construídas no âmbito do
Estado de Direito e os valores familiares tradicionais.
Ampliando o conceito de
comunismo, Ustra hipostasiou na figura do inimigo interno, ou seja, no que, a
seu juízo, aliou-se a ideologias exógenas e subversivas, o alvo do combate a
ser travado. Ustra identificaria, então, o inimigo interno nos integrantes das organizações
armadas de esquerda, nos membros de grupos desarmados da oposição, nos setores
progressistas da Igreja, nos órgãos de classe, nos trabalhadores, nos estudantes,
nos suspeitos e nos que poderiam ser considerados suspeitos.
Arauto desta visão totalitária,
sob o pretexto preservar a segurança e a ordem, Ustra opor-se-á e combaterá o
próprio sistema democrático, o Estado de Direito, as liberdades públicas, os
direitos humanos. Na implementação da guerra interna que travou tornar-se-á o
grande líder e o grande símbolo do Terror de Estado praticado no Brasil.
Consagrar-se-ia, por fim, como o
inquestionável maestro da desfiguração e da destruição humana, processada no
DOI-CODI e onde este comando estendeu os seus tentáculos.
Quase 50 anos depois de se ter
imposto a ditadura, com a qual ele se confunde, em maio de 2013, depondo na
Comissão Nacional da Verdade, em carta/discurso feita para os seus pais, Ustra
defende anacronicamente os ideais da Guerra Fria. Insisto: Ustra, macabro herói
tropical da Guerra Fria continua em 2013 a defendê-la. Afirma, então:
- Sim, nós atuávamos para
preservar a democracia e contra o comunismo. Cumpri a minha missão. Não é o
Cel. Carlos Alberto Brilhante Ustra que se encontra aqui, é o Exército
Brasileiro. É o Exército que recebeu a ordem de combater o terrorista.
E continuando a exercitar a
retórica da falsificação dos fatos, própria do Terror de Estado, prossegue:
- Agi com a consciência
tranquila. Nunca ocultei cadáver, não cometi assassinato, tortura e sequestro.
Nenhuma tortura foi cometida dentro das instalações do órgão de repressão do
governo militar.
Hoje, entretanto, as famílias
Teles e Merlino oferecem à Comissão Nacional da Verdade e à sociedade
brasileira as provas de que Ustra sequestrou, torturou e assassinou como
mandante ou em forma direta.
Quem o diz e o condena é o Poder
Judiciário Brasileiro.
Nenhum comentário:
Postar um comentário