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quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Quando se está no círculo fechado de informações, sabe-se de coisas não verdadeiras. Como na discussão sobre déficit público nos EUA. Por Paul Krugman

Mundo paralelo


Quando se está no círculo fechado de informações, sabe-se de coisas não verdadeiras. Como na discussão sobre déficit público nos EUA. Por Paul Krugman

Economia
Déficits baixam rapidamente, apesar de a economia continuar deprimida

por Paul Krugman, do The New York Times — publicado 22/08/2013 08:35, última modificação 22/08/2013

O blogueiro político Steve Benen, da MSNBC, apanhou o site de verificação de fatos políticos PolitiFact em falha, recentemente. Mas, na verdade, a coisa é ainda pior do que ele escreveu.
O que aconteceu foi o deputado republicano Eric Cantor, da Virgínia, ter falado em um programa de tevê em um domingo no início do mês sobre o “déficit crescente” dos Estados Unidos, quando, na verdade, o déficit está encolhendo rapidamente. Mas o PolitiFact conseguiu, de alguma maneira, declarar que a alegação de Cantor é “meio verdadeira”.
O ponto crucial aqui, porém, não é apenas Cantor ter dito algo inequivocamente falso. É ter colocado toda a história de ponta-cabeça.
O fato central em qualquer debate fiscal racional hoje é: os déficits baixam rapidamente, apesar de a economia continuar deprimida. O declínio acentuado dos déficits significa que a previsão da dívida para o médio prazo não é mais assustadora; na verdade, mesmo projetada para 2030 não parece muito ruim. Ao mesmo tempo, reduzir acentuadamente os déficits em uma economia deprimida, com taxas de juro perto do limite zero, parece uma política macroeconômica extremamente ruim.
Então é isso que deveríamos discutir: queremos que os déficits caiam tão depressa? Mas aqui temos uma alta autoridade do Partido Republicano falando como se vivêssemos em um universo alternativo, em que os déficits estivessem crescendo, e não diminuindo. E então o PolitiFact afirma que a declaração dele é meio verdadeira.
Claro, é o mesmo velho problema: as organizações noticiosas em geral, e o PolitiFact em particular, são criadas para lidar com um mundo em que os dois partidos geralmente respeitam a realidade, em que a desonestidade e a ilusão têm uma distribuição aproximadamente igual entre os partidos. Diante da realidade altamente assimétrica, essas organizações engasgam, tratando os exageros brandos dos democratas como se fossem equivalentes a completas falsidades, e tratando as representações absurdamente erradas dos republicanos como se fossem ligeiros enganos.
Isso deveria ser simples: o PolitiFact deveria decidir sobre os fatos, tentar ser apartidário, o que não é a mesma coisa que “não partidária”, com sua conotação de “equilíbrio”. Mas aparentemente não consegue fazer isso.
Em artigo online no início deste mês na revista New York, Jonathan Chait escreveu sobre o senador republicano Rand Paul, do Kentucky, que tem discutido os males de “administrar um déficit de 1 trilhão de dólares todo ano”, o que, aliás, não é de modo algum o que estamos fazendo. O déficit está em torno de 600 bilhões de dólares e cai rapidamente. Isso se segue ao discurso de Cantor sobre “déficits crescentes”.
Parece-me estar bastante claro Paul realmente não ter ideia de que o déficit está caindo. É muito possível Cantor também não a ter. Todo o incidente lembra-me 2011, quando candidatos supostamente bem informados como Tim Pawlenty falaram sobre o crescimento do emprego público em um período de cortes sem precedentes na folha de pagamento do Estado. Quando você está dentro do laço fechado de informação conservadora, sabe de muitas coisas que não são verdadeiras.
Mas me deixa curioso o que o público sabe. O cientista político e professor Larry Bartels gosta de citar uma pesquisa realizada em 1996, em que os eleitores foram indagados se o déficit havia aumentado ou diminuído sob o presidente Clinton (na verdade, havia caído acentuadamente). Uma pluralidade de eleitores (e uma grande maioria de republicanos) pensava que o déficit havia subido.
Por isso, adoraria ver uma pesquisa comparável hoje: perguntaria, digamos, o que aconteceu com o déficit desde 2009. (Na verdade, ele foi reduzido em mais de 50%.).
Aposto que ela seria parecida com aquela pesquisa de 1996.

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