Vlad, a Marreta, versus Obama, o Bebê-chorão
Putin sabe exatamente o que está fazendo, enquanto Barack está com cara de alce atropelado de frente por uma locomotiva na Trans-Siberiana
19/08/2013
Pepe Escobar
Essa coisa já está ficando ridícula. O presidente dos Estados Unidos berrou e esperneou, porque queria que queria que queria de volta seu espião (Edward Snowden). Snowden, nos termos que determinam as leis russas, recebeu asilo temporário. A Casa Branca ficou “desapontada”. Então, Obama esnobou o encontro bilateral com o presidente da Rússia Vladimir Putin em Moscou, que coincidiria com o encontro do G20 em São Petersburgo no início de setembro. O Kremlin ficou também “desapontado”.
Putin telegrafou a George “Dábliu” Bush – com votos de pronta recuperação de cirurgia cardíaca. Já o presidente estadunidense foi a um programa de entrevistas em seu país e disse que a Rússia “escorregou para trás, de volta a ideias da Guerra Fria e a uma mentalidade de Guerra Fria.”
Adequado distanciamento brechtiano ensina que “ridículo” é pouco; que esse comentário não basta nem para dar a partida de alguma crítica. A mentalidade de Guerra Fria vive hoje impregnada nos genes do governo dos EUA em Washington – do Capitólio ao Pentágono. Quanto a Obama, falou como, no máximo, um diletante metido a diplomata. Yes, We Can [Sim, podemos] foi convertido em Yes, We Scan [Sim, espionamos]; e agora já está virando Yes, We Scorn [Sim, escarnecemos]. Aplica-se também àquele sortimento de poodles de sangue europeu. Mas não faz nem cócegas em Vlad, a Marreta.
Para justificar a decisão, a Casa Branca falou de “falta de progresso” em tudo, inclusive nos mísseis de defesa, controle de armas, relações comerciais e de troca, questões da segurança global, direitos humanos e sociedade civil. Bobagem e mais bobagem. Tratou-se exclusivamente de um presidente impotente impedido de avançar em sua guerra contra os sentinelas-vazadores [whistleblowers].
Yury Ushakov, assessor de Putin para assuntos internacionais, aproximou-se bem mais da verdade; disse que “os EUA são incapazes de construir relações sobre bases igualitárias.” Como um urso polar que caça sua foca, Vlad, a Marreta, sente que Obama manca, claudicação de proporções “carterescas” [referência ao ex-presidente estadunidense Jimmy Carter]. Foi um bater de olhos, e Putin avaliou o quanto o governo Obama estava reduzindo a cinzas sua já claudicante credibilidade, e simultaneamente em duas frentes: por causa da escala do complexo orwelliano/Panóptico que Snowden expôs ao mundo; e pela violência ensandecida com que Obama insiste em caçar Snowden pelo mundo.
Como mais meia dúzia de pregos no esquife da imprensa-empresa estadunidense, o New York Times publicou o editorial – há quem diga que teria sido ‘sugerido’ pela Casa Branca –, no qual tenta justificar o cancelamento do encontro: “O sr. Putin é líder repressivo e arrogante, que trata o próprio povo com desprezo.” É. E a Branca de Neve mora na Casa Branca.
Trans-Siberiana
O alarido adolescente de Obama nada tem a ver com a Guerra Fria. Para começar, os EUA e as Rússia dependem crucialmente um do outro em uma vasta lista de questões. Mas nesse fim de semana, alguns adultos estarão discutindo essas questões em Washington, pelo menos no plano teórico, quando o ministro de Relações Exteriores Sergei Lavrov e o Ministro da Defesa da Rússia, Sergei Shoigu, se reunirão com o secretário de Estado dos EUA John Kerry e Chuck Hagel, chefe do Pentágono. Basta que Vlad dê a ordem, e a já humilhante retirada do Afeganistão, dos exércitos de EUA/OTAN – postos para correr de lá, chutados no traseiro por um bando de pashtuns armados com fuzis Kalashnikovs falsos – será convertida em desastre cataclísmico.
Vlad pode calibrar com minúcia o apoio russo ao governo de Bashar al-Assad na Síria – especialmente depois que o chefe da inteligência saudita, príncipe Bandar “Bush” bin Sultan correu a visitá-lo em Moscou e, ao que se conta, ofereceu-se para comprar quantos carregamentos de armas a Rússia queira vender, desde que a Rússia desista de Assad. Putin não piscou. A verdade é que Bandar não teria empreendido a viagem nem tentado o negócio, sem “consultar” seus patrões estadunidenses.
Vlad pode oferecer abundante apoio diplomático extra ao novo governo do presidente Rouhani no Irã – inclusive, e crucialmente importantes, novos negócios de armas; e pode ajudar a firmar a posição de Teerã em possíveis futuras negociações com Washington.
No Cáucaso, Vlad navega com vento em popa. A Georgia é hoje muito menos adversária de Moscou. E no “Oleogasodutostão”, a Rússia influenciou a decisão do Azerbaijão de privilegiar o Oleogasoduto Trans-Adriático, em detrimento do permanentemente condenado Nabucco Oeste (gasoduto), que imediatamente mudou e passou a dar mais solidez à cooperação energética entre a empresa SOCAR do Azerbaijão e a Rosneft da Rússia. A Georgia e o Azerbaijão sempre foram considerados aliados “firmes” dos EUA.
Na Europa, todos os pilotos de navios de cruzeiro do rio Reno sabem sobre a parceria estratégica entre Rússia e Alemanha. Nas negociações de gás natural com Itália, França e Polônia, por exemplo, o jogo russo é garantir contratos de longa duração cheios de quebras de preços e esquemas de tributos.
Na Europa Central e do Leste, Vlad também navega – claro – com vento em popa, com a Rússia comprando montanhas de ativos estratégicos (fábricas, indústrias químicas e empresas de transporte).
E há também o crucial gambito [artimanha] Trans-Siberiano. Viajei duas vezes pela Trans-Siberiana, no inverno, no início dos anos de 1990 e, depois, no final da década; e que viagens! Naquele tempo, tratava-se quase exclusivamente de russos empobrecidos, comprando tudo que encontrassem na China e de chineses espertos vendendo tudo que pudessem vender na Rússia.
Atualmente, se trata só de carga pesada. A Trans-Siberiana movimenta nada menos que 120 milhões de toneladas de carga por ano – e aumentando; é pelo menos 13% do comércio de contêineres entre Europa e Ásia. A Rússia está investindo numa expansão de 17 bilhões de dólares e acrescentando 55 milhões de toneladas de capacidade de carga extra.
E acrescente-se a triplicação da capacidade dos terminais costeiros do Pacífico russo, até 2020; a expansão do porto de São Petersburgo; o fornecimento, pela empresa Siemens, de 675 locomotivas elétricas de carga, como parte de um negócio de 3,2 bilhões de dólares.
O jogo aqui é a Rússia cada vez mais exportando sua produção agrícola por todos os meios possíveis. Pelo menos, 250 mil barris de petróleo/dia – e aumentando – deslocam-se da Rússia para a Ásia. A ampliação da Trans-Siberiana operará maravilhas no comércio Europa-Ásia. Pela estrada Trans-Siberiana, produtos asiáticos chegam à Europa em 10 dias: por mar, da Coreia do Sul ou Japão, são pelo menos 28 dias até a Alemanha. Não surpreende que Japão e Coreia do Sul sejam grandes fãs da Trans-Siberiana. E de um ponto de vista europeu, nada bate a Trans-Siberiana, caminho mais barato e mais rápido para a Ásia.
Não faço nem ideia...
Guerra Fria? Só como parte do business da nostalgia. Com a Europa em coma; fricções múltiplas entre Europa e EUA; Pequim olhando mais para dentro que para fora e tentando resolver o enigma de como estimular seu modelo de desenvolvimento; e com o governo Obama paralisado-catatônico, Moscou identificou aí a abertura perfeita com que sonhava e embarcou sem meias medidas, numa expansão comercial estratégica.
O governo Obama não faz nem ideia – e a “think-tank-lândia”, então, menos ainda. A ignorância é absoluta, total. Ninguém em todo o ‘circo’ do governo na Beltway jamais conseguiu articular qualquer coisa que se aproximasse, que fosse, pelo menos, de uma sólida política para a Rússia; só ‘sabem’ demonizar Putin. É ótimo para Vlad, a Marreta, que tem atentamente se dedicado a construir uma nova realidade estratégica não só na periferia da Europa, mas também no centro. A Rússia voltou – e arrebentando!
Nesse esquema mais amplo de coisas, de uma deriva rumo a um ambiente pós-pós Guerra Fria, o affair Snowden é só uma das peças do quebra-cabeças. E é onde o pessoal é perfeita imagem especular do político. Vlad, a Marreta, sabe exatamente o que está fazendo – enquanto Obama, o Bebê-chorão, está com cara de alce atropelado de frente por uma locomotiva na Trans-Siberiana.
Publicado originalmente no Asia Times Online.
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