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sábado, 10 de agosto de 2013

Mali: Eleições sob controle da França

Mali: Eleições sob controle da França
TONY BUSSELEN *
Numerosas personalidades malinesas haviam insistido sobre a necessidade de rever essas eleições pois era impossível distribuir cartas eleitorais a todos que a elas tinham direito em um país devastado pela guerra. O presidente francês François Hollande disse ser “intratável” qualquer questão a respeito em 28 de março último sobre a sustentação das eleições “antes do fim do mês de julho”. Um dos candidatos a presidente, Tiébilé Dramé, negociador dos acordos de Ouagadougou, se retirou da corrida presidencial acusando o chefe da diplomacia francesa, Laurent Fabius, de “ter se tornado o diretor das eleições no Mali”.
Consequência desse calendário imposto por Paris, numerosos malineses foram privados do seu direito de voto. 300.000 jovens com idades entre 18 e 21 anos não puderam participar visto que as listas de eleitores foram as mesmas das eleições de 2009 quando eles não tinham idade para exercer o direito de voto. Também os 200.000 refugiados da guerra residentes em campos nos países vizinhos foram excluídos dessas eleições. Sobre os 200.000 malineses com estadia regular na França, 81.000 foram registrados no consulado. Mas o consulado não recebeu para participar de escrutínio mais que 29.000 cartas eleitorais. O Partido Sadi, formação de esquerda, denuncia que mais de 400 locais foram descartados da distribuição de cartas de eleitor. Nesse contexto, é cínica a declaração de Louis Michel, chefe da missão de observação da União Europeia, de que “essas eleições foram uma importante mobilização”. Em torno de apenas 50% dos inscritos participaram das eleições.
Eleições pró-ocidente
O jornal francês L’Humanité encontrou em 28 de julho Moussa, um operário malinês aposentado que vive em Seine-Saint-Denis. Ele não pode votar, afirma o jornal. “De todo modo é uma eleição organizada a partir do exterior por François Hollande e Barak Obama, pela comunidade internacional. Nesta crise a todos nós foi imposta a guerra, as negociações, as eleições” suspira ele, para quem o presidente saído das urnas será uma escolha dos ocidentais.
Com efeito, a grande maioria dos 27 candidatos a essas eleições presidenciais fazem parte da mesma elite política próxima do ocidente que geriu o Mali nos últimos 20 anos. O favorito, Ibrahim Boubacar Kaïta, ou IBK, se declarou vitorioso antes do pleito, ele já foi primeiro-ministro entre 1994 e 2000, presidente da Assembleia Nacional de 2002 a 2007 e é também vice-presidente da Internacional Socialista. Seu principal opositor, Soumaïla Cissé, foi por longo tempo ministro das finanças e dirigiu a União Econômica Monetária do Oeste Africano entre 2004 e 2011.
Os candidatos não tiveram mais que 20 dias para fazer a campanha. Nestes 20 dias e diante da situação do país a grande maioria dos eleitores não puderam ver nem entender os candidatos. Como os eleitores poderiam escolher ? Que os antigos caciques do poder puderam adquirir dinheiro suficiente para através da corrupção comprar votos é evidente. Mas havia também as consignas ditadas pelo capitão Sanogo, autor do golpe de março de 2012, da associação “Sabati” (estabilidade) que ordenavam votar em IBK. Sabati é uma federação que reúne uma centena de associações islâmicas. O presidente de honra da Sabati é o imã Mahmoud Dicko, que é ao mesmo tempo presidente da Comissão Eleitoral Independente (CENI). No dia das eleições esse senhor que deveria mostrar-se neutro como membro da Comissão organizadora das eleições descreveu ao jornal Le Monde sua amizade de mais de 20 anos com IBK. Ele não escondia sua simpatia pelo favorito: “Nós partilhamos muitos valores. Se por infelicidade outra pessoa ganhar as eleições isso será o caos para o Mali”.
O que querem os malienses?
A organização da sociedade civil malinesa SOS Democracia (www.democratiemalie.org) fez uma enquete com eleitores de seis regiões do país e vários bairros da capital Bamako. Os eleitores malineses se preocupam sobretudo com a alta dos preços, o desemprego, a corrupção e a criminalidade, assim como questões do quotidiano como água e higiene. Em lugar da solução desses problemas as eleições doarão aos malineses e à região a ocupação militar por 12.600 capacetes azuis e sobretudo a presença permanente e paralela a essa força de vários contingentes de exércitos ocidentais. Inicialmente a França ficará com 1000 soldados no lugar. Outros países europeus como a Inglaterra (350 soldados), a Bélgica (45 soldados), a Alemanha (330 soldados) se manterão aí para apoiar os soldados africanos da missão da ONU e para “ajudar a treinar e reforçar o exército malinês”.
Nesse período o exército dos EUA instalou em fevereiro desse ano uma base de drones em Agadès ao norte do Níger, com 300 soldados. Em 20 de julho o jornal Le Matin anunciou que uma unidade de soldados americanos se instalou na base militar de Amchach situada perto de Tassali no extremo norte do Mali. O jornal relata que essas forças americanas se deslocariam durante o mês de julho para diferentes zonas do norte do Mali.
E o que se passou com os terroristas islâmicos que haviam provocado essa presença militar na antiga colônia francesa ? Um número importante se retirou com suas armas pesadas para a Líbia onde contribuem para a desestabilização desse país e de onde preparam novos ataques na Argélia e na Tunísia. Outros foram reforçar o movimento terrorista Boko Haram na Nigéria. Líbia, Tunísia, Argélia, Níger e Nigéria, todos candidatos potenciais para novas intervenções antiterroristas dos exércitos acidentais na África. Ou como o retorno do neocolonialismo vai de par em par com a militarização permanente do continente africano.

*Tony Busselen é especialista em África. Esse artigo foi publicado em Bruxelas no Jornal “Solidaire”, órgão do Partido do Trabalho da Bélgica – PTB.

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