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sexta-feira, 10 de abril de 2015

No Haiti, movimentos sociais querem invasores fora dali

No Haiti, movimentos sociais querem invasores fora dali


Foto: La Izquerda Diario Chile

A favela Fort National, em um morro de Porto Príncipe, oferece um perfeito exemplo do misto de ironia, agonia e luta que envolve o Haiti hoje.
10/04/2015
Por Kim Ives,
Sua superfície, rochosa como a da Lua, está coberta por pilhas de detritos, sujeira, lixo. Centenas de moradores morreram aqui quando o terremoto de 12 de janeiro de 2010 destruiu oito em cada dez casas de concreto que se apertavam – e ainda hoje se apertam – entre os corredores estreitos e escuros nos quais corre o esgoto. Moscas e ratos convivem nesse labirinto sombrio com famílias numerosas; as crianças se agacham como sapos e saem pulando quando um estranho passa pela entrada das residências (não raro protegidas apenas por uma cortina).
Observando-se o padrão de telhados de lata por Fort National, vergalhões enferrujados retorcidos escapam das paredes de concreto inacabadas, como dedos rogando aos céus pelo maná.
No alto dessa vizinhança empoleirada sobre a maior colina do centro da capital, há uma enorme placa que já ostentou a visão imaginada de um arborizado complexo de apartamentos com calçadas largas e pessoas bem-vestidas. Esse projeto, que seria levado a cabo por uma construtora dominicana sob um contestado contrato sem licitação, seria financiado por US$ 174 milhões dos US$ 13 bilhões da verba de ajuda internacional ao Haiti pós-terremoto. A placa, como a promessa, já se deteriorou há muito tempo, como tantos projetos anunciados no país depois da tragédia. Menos de metade dos US$ 13 bilhões já foi gasta, e, além de alguns hotéis de luxo e um parque gigante no norte, longe da região do terremoto, é difícil ver mudança na dura realidade do Haiti apesar do mutirão feito a seu favor pelo mundo inteiro.
Vista de Porto Príncipe, capital do Haiti. Foto: Eliza Capai
Para onde foram os US$ 174 milhões de Fort National?
“Nós fomos informados pelos assessores de [Michel] Martelly [atual presidente do Haiti] de que cerca de US$ 44 milhões supostamente foram destinados à construção de 3 mil pequenas casas em um deserto remoto [no projeto de] Morne à Cabri”, disse o ex-senador Moïse Jean-Charles. “Mas quando eu perguntei ao ministro das Finanças de Martelly, em uma audiência do Senado, para onde foi o dinheiro, ele apenas sorriu. Ao menos foi honesto, pensei.”
O bairro de Fort National é sede também de uma fortaleza homônima construída pelo fundador do Haiti, general Jean-Jacques Dessalines, para enfrentar represálias ou tentativas de recolonização francesas, inglesas ou espanholas após a independência do Haiti – a primeira a ser proclamada na América Latina –, em 1º de janeiro de 1804.

Hoje, contudo, esta histórica guarnição está ocupada por invasores: as tropas da odiada Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti (Minustah). Estabelecida no país desde 1º de junho de 2004, a força liderada pelo Brasil – agora com cerca de 7.500 militares – foi responsável por massacres, estupros, abusos sexuais e, mais notavelmente, a importação de cólera em outubro de 2010. Fezes infectadas de soldados nepaleses da ONU vazaram de banheiros externos para o maior rio do Haiti e deram origem à pior epidemia de cólera do mundo, que custou aproximadamente 9 mil vidas haitianas. Apesar da abertura de três processos judiciais em Nova York, a ONU nega qualquer responsabilidade pelo surto.
A placa desbotada anunciando o complexo jamais construído e as silhuetas de soldados da ONU com metralhadoras em punho sobre os muros das fortificações de Dessalines estão entre os “estímulos” para a militância da população de Fort National, uma das mais organizadas e mobilizadas de Porto Príncipe. A vizinhança é sede do Movimento para Liberdade, Igualdade e Fraternidade entre Haitianos (Moleghaf), uma organização popular com papel central no partido político Coordenação Dessalines (KOD), formado no último mês de fevereiro.
Terremoto em 2010 deixou centenas de milhares de mortos em Porto Príncipe. Foto: Eliza Capai
Reconhecido pelos moradores como prefeito do bairro, Oxygène David, 40, é o líder de ambas as organizações e vive em um casebre de um quarto, danificado pelo terremoto, localizado nas entranhas do labirinto de Fort National. Ex-emendador de fios de postes telefônicos para a companhia estatal Teleco, Oxygène perdeu seu emprego em 2008, quando a empresa foi privatizada pelo antigo presidente René Préval, e se tornou líder da mobilização anti-neoliberal no Haiti, organizando piquetes semanais em frente ao Ministério dos Assuntos Sociais para exigir pagamento retroativo e reparações. Por sua militância, acabou preso duas vezes por meses – sem julgamento – sob os presidentes Préval e Martelly.
Ao longo da noite de 11 de janeiro, até as 5 da manhã, centenas de moradores de Fort National se reuniram em volta de um palco erguido em um terreno baldio perto do topo da favela. O evento foi organizado por vários “baz” – pequenas associações de jovens – da região, sendo a “Baz Rezistans” (Base da Resistência) a principal delas, cujos membros são ligados ao Moleghaf. A maior parte da noite consistiu em músicos haitianos tocando rasin (ritmo tradicional) e rap com conteúdo claramente político. Mas também houve discursos políticos.
“Temos de seguir mobilizados para lutar contra as (s)eleições que eles tentaram impôr sobre nós”, discursou Oxygène. “Não são possíveis eleições livres, justas e soberanas a menos que Martelly renuncie e a Minustah deixe o país. A iminente febre eleitoral vai intoxicar e corromper muitas pessoas, preparando-as para aceitar qualquer coisa. Mas nós devemos nos manter firmes e não permitir outra eleição fictícia como a de 2011.”

“Seleições”

Movimentos sociais no Haiti agora utilizam frequentemente o termo “seleições”, indicando que os resultados eleitorais são decididos nos bastidores dos poderes estrangeiros, sobretudo Washington, e de elites locais através de artíficios nas urnas e contagem de votos. Ou seja, na visão de muitos haitianos, os candidatos são selecionados, e não eleitos.
Oficial da Minustah, missão da ONU liderada pelo Brasil no Haiti, conversa com haitiano e oficial do exército norte-americano em Porto Príncipe
Em 2011, Washington, a Organização de Estados Americanos (OEA) e a Minustah intervieram nas eleições soberanas do Haiti para tirar do pleito o presidente apoiado por Préval, Jude Céléstin, e substituí-lo pelo antigo cantor de compas (gênero musical do Haiti) e queridinho da direita, Martelly, que assumiu o poder. Como pontuou o então embaixador da OEA no Haiti Ricardo Seitenfus: “Washington e seus aliados não apenas derrubaram o Conselho Eleitoral do Haiti; eles derrubaram o eleitorado haitiano”. Ele chamou de “um golpe eleitoral” os resultados obtidos em 28 de novembro de 2010 e em 20 de março de 2011.
Após o primeiro turno da última eleição presidencial, em 28 de novembro de 2010, quase todos os candidatos deram uma entrevista coletiva no mesmo dia dizendo que a votação deveria ser anulada devido a irregularidades, fraude e caos. Naquela noite, porém, o chefe da Minustah, Edmond Mulet, ligou para Mirlande Manigat e Michel Martelly para convencê-los de que eles estavam na frente e deveriam continuar na corrida eleitoral. Eles continuaram.
A pedido de Washington, a OEA enviou uma equipe de supostos especialistas para analisar os resultados das eleições, empurrando o vice-líder Jude Célestin para o terceiro lugar, e Michel Martelly, terceiro, para a segunda colocação. Em um relatório de agosto de 2011, o Centro de Pesquisas Econômicas e Políticas (CEPR) mostrou que os cálculos da OEA eram completamente não científicos e, aparentemente, motivados politicamente.

Haitianos, em sua ampla maioria, também perceberam esse jogo de poder, mas, ainda se recuperando do terremoto, em geral se resignaram a dizer: “Vamos ver o que Martelly pode fazer”. O que ele fez nos três anos e meio após sua posse, de 14 de maio de 2011, foi estabelecer um regime neoduvalierista, cujas marcas registradas são corrupção flagrante, impunidade, repressão, intimidação, ineficiência e desperdício, tudo suavizado pela mais desavergonhada e custosa propaganda que proclama por todos os cantos que “o Haiti está avançando”. Eleições parlamentares e municipais, já marcadas, jamais se realizaram (diferentemente dos três carnavais por ano), resultando na extinção do Parlamento em 12 de janeiro. Enquanto manifestações cresceram em tamanho e frequência nos meses anteriores, também cresceu a repressão, engolindo a manifestação seguinte, e o Haiti entrou em um círculo vicioso político.
“De Ferguson ao Haiti, as vidas de negros importam”, diz cartaz de manifestante em protesto de fevereiro de 2015. Foto: San Francisco Bay View

A oposição

A oposição ao governo Martelly se divide em três correntes principais que, no entanto, permanecem basicamente unidas. Primeiro, há o Movimento Patriótico pela Oposição Democrática (Mopod), uma coalizão liderada majoritariamente por líderes tradicionais da “classe política”, como Tumeb Delpé, a adversária de Martelly em 2011, Mirlande Manigat, e o ex-deputado Serge Jean-Louis. Há também a Organização Política Família Lavalas, do ex-presidente Jean-Bertrand Aristide, cujo atual líder nominal, Dra. Maryse Narcisse, mais recentemente caracterizou o partido como “oposição moderada”. E a corrente dessalinita, composta pela KOD e pela Plataforma das Crianças de Dessalines (PPD), liderada pelo ex-senador Moïse Jean-Charles. (Recentemente o Mopod trocou seu “D” para significar Dessalines também.)
A revolta liderada pela oposição resultou na renúncia, em 13 de dezembro, do primeiro-ministro Laurent Lamothe (parceiro de negócios de longa data de Martelly), bem como na libertação de prisioneiros políticos, e também um “peão” de Martelly que liderava a Suprema Corte foi reposto, além de ter sido nomeado um novo conselho eleitoral.
Apesar dessas concessões, as manifestações semanais – às vezes diárias – de milhares continuaram, recebidas com gás lacrimogêneo, balas de borracha e canhões de água. Até as concessões que o governo é forçado a fazer parecem provocação, dado o estado de espírito de revolta no Haiti.
Apenas na primeira semana de fevereiro, nos dias 2 e 3, uma greve geral de transportes paralisou o país, deixando sinistramente vazias, com barricadas de pneus queimando, as principais ruas da capital. Nessa semana, um galão de gasolina no Haiti estava custando, 215 gourdes (US$ 4,58), conforme fixado pelo governo. A média de preço nos Estados Unidos é de US$ 2 o galão. Por isso, quando o novo primeiro-ministro do governo Martelly, Evans Paul, negociou um acordo com empresas de transporte na noite de 2 de fevereiro, diminuindo o preço da gasolina para 195 gourdes (US$ 4,15) por galão, a população ficou pulando de raiva.
“A greve nacional foi um completo sucesso, as ruas todas sem carros, e tudo que conseguimos foi uma redução de 43% no preço?”, disse um irado manifestante. “Isso é loucura. É exatamente por isso que Martelly deve sair.”

Os amigos de Martelly

Toda semana, uma nova delegação oficial chega da América do Norte ou da Europa para trazer apoio ao regime de Martelly. Houve visitas de delegações de congressistas dos EUA e de membros dos governos da França e do Canadá.
Michel Martelly, atual presidente do Haiti, cumprimenta o Secretário de Estado norte-americano John Kerry durante visita a Washington em fevereiro de 2014
No fim de janeiro, o Conselho de Segurança da ONU e a organização Clube de Madri fizeram visitas de três dias. Em 28 de janeiro, ao deixar o Haiti, o ex-presidente boliviano e vice-presidente do Clube de Madri, Jorge Quiroga, instou a Minustah a “reforçar sua presença no Haiti” e convidou ONU, OEA e União Europeia para enviar “missões in loco para observar o processo eleitoral”. O convite deixou uma porta aberta, porque as três instituições enviaram missões de observadores às eleições haitianas nas últimas duas décadas e meia.
No mesmo dia 28 de janeiro, cerca de 40 militantes do Moleghaf e o Movimento pelo Desenvolvimento Nacional (Modena) realizaram um piquete em frente à embaixada norte-americana em Tabarre, nos subúrbios da capital. Foi o primeiro de sete atos anti-imperialistas mensais planejados até 28 de julho de 2015, centenário da primeira ocupação do Haiti pela Marinha dos EUA, que durou até 1934. Os manifestantes não tinham dinheiro nem para pagar a tarifa de transporte até lá.
“A libertação do Haiti não virá da assim chamada comunidade internacional”, disse Henriot Dorcent, outro líder da Coordenação de Dessalines. “Na verdade, a libertação do Haiti da pobreza, injustiça e instabilidade política só virá quando o povo haitiano impedi-los de se intrometer em nossos assuntos internos. É para isso que nós na KOD e a maioria do povo haitiano estamos lutando hoje.”
Em fevereiro e março, os piquetes mensais do Moleghaf em frente da embaixada continuaram, mas a mobilização pela saída de Martelly arrefeceu quando o Conselho Eleitoral anunciou o calendário eleitoral deste ano: primeiro turno de eleições parlamentares e municipais em agosto e segundo turno junto com o primeiro turno das eleições presidenciais, em outubro; e segundo turno da eleição principal em dezembro. As Crianças de Dessalines, o Mopod e a Família Lavalas já anunciaram que terão candidatos, embora os dois primeiros grupos tenham dito previamente que não participariam de eleições comandadas por Martelly e supervisionadas pela Minustah. Apenas a KOD manteve sua posição e se recusou a concorrer nas futuras eleições, que considera um truque apenas para “seleições”.
“Nossa luta é como a de Jean-Jacques Dessalines há dois séculos ou [do líder guerrilheiro antiocupação] Charlemagne Péralte contra os americanos há um século”, disse Oxygène David. “O império pôs Martelly no poder como um fantoche para realizar sua agenda, cercado por um exército de ocupantes para protegê-lo. Mas, como nossos ancestrais, continuaremos lutando até que tanto o fantoche como seus protetores tenham ido embora. Esse é o tipo de determinação que o povo haitiano mostrou no passado, e é a mesma determinação que mostraremos novamente agora.
Reportagem traduzida e republicada do site da Agência Pública. Leia aqui o original, em inglês.
Fonte: http://www.brasildefato.com.br/node/31788

domingo, 5 de abril de 2015

Nova guerra fria começa a despontar no Ártico

Nova guerra fria começa a despontar no Ártico


Militarização e planos de industrialização da Rússia preocupam países limítrofes e esgarçam o consenso diplomático sobre essa região estratégica

 4 ABR 2015


A cooperação e a rivalidade coexistem em proporções variáveis no Círculo Polar Ártico, a região que pode se tornar a maior fonte de petróleo e gás do planeta e na qual a Rússia tem o grosso de suas reservas de hidrocarbonetos (exploráveis e potenciais), além de 20.000 quilômetros de fronteira marítima.
Em 2007, o político Artur Chilingárov fincou no leito marinho doPolo Norte uma bandeira russa feita de titânio. Moscou ratificava assim sua reivindicação sobre uma área submarina reclamada em 2001, a partir da Convenção Internacional sobre o Direito do Mar da ONU (1982). Depois da anexação da Crimeia, que representa uma violação de tratados internacionais assinados pela Rússia, o gesto teatral de Chilingárov ganhou novo significado, e a desconfiança vem ganhando terreno sobre a cooperação, cujo modelo é o Conselho do Ártico, organização que integra os oito Estados limítrofes (Rússia, Canadá, Dinamarca, Noruega, Suécia, Islândia, Finlândia e Estados Unidos), cinco deles membros da aliança militar OTAN.
Desde 2008, as empresas Rosneft e Gazprom, controladas pelo Estado russo, têm o monopólio da exploração de hidrocarbonetos no Ártico e são parceiros compulsórios para todos os projetos na região. Em 9 de agosto de 2014, Igor Sechin, chefe da petroleira russa Rosneft, e Glenn Waller, diretor da norte-americana ExxonMobil na Rússia, mostravam-se otimistas em relação aos planos conjuntos criados em 2011. Naquele dia, no mar de Kara, Sechin e Waller inauguraram a perfuração submarina de petróleo mais ao Norte feita pela Rússia. De Sochi, no mar Negro, o presidente Vladimir Putin deu o sinal de partida e elogiou a cooperação internacional como motor do “sucesso comercial”. Tratava-se do “acontecimento mais importante do ano para a indústria de petróleo e gás”, nas palavras de Sechin, e o poço recém-perfurado foi batizado como Pobeda (vitória), por ser uma “vitória conjunta” da Rússia e de um grupo de “amigos e parceiros” internacionais. De Pobeda jorrou o primeiro fluxo de petróleo, mas no final de setembro, devido às sanções norte-americanas, a ExxonMobil teve que selar o poço e abandonar seus projetos na Rússia.
A Rosneft quis continuar sozinha, mas as sanções ocidentais dificultaram os projetos russos no Ártico, ao restringir a venda de tecnologia para a perfuração submarina e limitar o acesso ao capital. Os políticos e analistas russos se dividem entre os que acreditam que seja preciso forçar a exploração do Ártico para quando o preço do petróleo subir e os que recomendam que se concentre na Sibéria Ocidental, onde já existe infraestrutura de exploração e transporte.

Moscou restabelece a rede de bases que a URSS tinha no Ártico e constrói novas
A exploração do Ártico é a locomotiva das regiões setentrionais, estimulando o desenvolvimento da produção inovadora e a infraestrutura de transporte, incluindo o Corredor Marítimo do Norte, e não deve ser interrompida, escreveu o jornal Rossískaia Gazeta. Para o Kremlin, o Ártico é uma região de interesse estratégico que pela primeira vez foi incorporada de forma explícita na nova concepção da doutrina militar da Rússia, estabelecida por Putin em dezembro. Com nuances, Moscou retomou a política da União Soviética no Ártico, depois da decadência dos anos noventa, o que se traduz em militarização, adaptada aos novos tempos, e industrialização, em grande parte ainda a ser definida.
Vilarejos abandonados por seus habitantes, submarinos nucleares convertidos em perigosos focos de radiação, equipamento militar enferrujado, docas erodidas pelo mar e pistas de pouco inutilizáveis são a herança dos anos noventa, que Putin quer deixar para trás, e também cenário de algumas impressionantes obras do cinema russo atual. “A região tem grande importância estratégica para os Estados possuidores de frota de submarinos nucleares. Das posições submarinas no Nordeste do mar de Barents é possível alcançar a maioria dos alvos mais importantes do mundo, porque por ali passa a trajetória mais curta para os mísseis balísticos em qualquer hemisfério da Terra”, destaca uma monografia do Instituto Russo de Pesquisas Estratégicas.
Navio quebra-gelo canadense navega pela baía Resolute, em Nunavut, território autônomo do Canadá. / REUTERS
A Rússia criou um novo comando militar para melhorar a coordenação e o alcance no Ártico e planeja a alocação de 6.000 soldados em duas brigadas de infantaria motorizada. Moscou está restabelecendo a rede de bases que a URSS tinha no Ártico, a região geográfica mais próxima aos EUA, mas também constrói novas bases, uma delas no arquipélago de Novosibirsk (ao Norte da Sibéria Oriental) e outra na ilha de Wrangler, uma reserva natural protegida pela Unesco. A pista de pouso do arquipélago de Nóvaia Zemliá foi reformada para poder receber caças de nova geração, além de ganhar novos sistemas de defesa antiaérea, e o Serviço Federal de Segurança aumenta o efetivo de vigilância das fronteiras.
Em março, a Rússia fez manobras militares para testar a capacidade de combate da frota do Norte, mobilizando cerca de 40.000 soldados, 41 navios e 15 submarinos, segundo a agência Ria-Novosti. O ministro da Defesa, Serguei Shoigú, afirmou então que os “novos desafios e ameaças militares exigem um aumento da capacidade das Forças Armadas”. Na semana passada, o Parlamento russo discutiu a necessidade de criar legislação sistemática sobre a região de interesse estratégico no Ártico. Viacheslav Shtyrov, presidente do conselho de especialistas em Ártico e Antártica, disse na ocasião que existe “uma grande possibilidade de que o Ártico russo seja a primeira linha de defesa em caso de um conflito militar global, porque essa é a direção mais provável de um ataque com mísseis nucleares do adversário”.

A geopolítica da região

  • A geografia: A área delimitada pelo Círculo Polar Ártico —o paralelo de latitude 66º 33' 46— não tem extensão definida, por não ser um continente propriamente dito. São parte dela as regiões setentrionais extremas da Europa, da Ásia e da América do Norte. A capa de gelo que cobre o oceano Ártico chegou a 14,54 milhões de quilômetros quadrados, sua maior amplitude, em 2015, no dia 25 de fevereiro. É a maior marca desde o início do monitoramento desse dado.
  • Reservas energéticas: O US Geological Survey calcula que o Ártico abrigue um quarto das reservas de petróleo e gás do mundo ainda não descobertas.
  • Conselho Ártico: O organismo que coordena as políticas regionais foi fundado em 1996 pelos oito países árticos: Noruega, Suécia, Finlândia, Rússia, EUA (Alaska), Canadá, Dinamarca (Groenlândia) e Islândia. Dele fazem parte também seis países membros observadores —como a China— e seis países observadores, que incluem a Espanha. O Brasil tenta ser admitido como membro observador.
  • Regulamentação: A Organização das Nações Unidas (ONU) criou um marco normativo em 1982 e estabeleceu que os países lindeiros têm direitos econômicos sobre 200 milhas náuticas (370 quilômetros) a partir de sua costa.
  • População: Há quatro milhões de habitantes no Ártico. Cerca de 10% são indígenas, que vivem na região há milênios. Sua economia é baseada principalmente em antigas técnicas de caça e pesca. A esse grupo se foram somando recentemente migrantes de outras regiões.

sábado, 4 de abril de 2015

O lixão pontocom da África

O lixão pontocom da África


Em Accra, capital de Gana, acumulam-se os detritos tecnológicos do mundo rico. Por Kauê Lopes

por Kauê Lopes — publicado 04/04/2015

Lixão
Os moradores vivem da coleta de computadores, DVDs, celulares etc. Ganham de 20 centavos a 10 dólares por dia
Andrew McConnell/Alamy/Latinstock

De Accra
Doze mil quilômetros separam Acra, a capital de Gana, do Vale do Silício, Califórnia, Estados Unidos, centro da revolução tecnológica do século XXI. Há, no entanto, outra distância maior do que a geográfica. Acra e o Vale do Silício estão no extremo de um ciclo de vida. Computadores, tablets e celulares nascem da cabeça de nerds sob o sol californiano e morrem e são descompostos no distrito de Agbogbloshie, periferia africana.
Densamente povoada por migrantes do norte do país e por imigrantes da Costa do Marfim, do Togo e de Burkina Fasso, Agbogbloshie carece de infraestrutura. Não há saneamento básico, pavimentação nas ruas ou áreas de lazer. Restos de madeira, plástico e metal formam a precária estrutura das casas. Nada mais parecido com qualquer favela de qualquer país pobre do mundo, não fosse um fato: um certo toque de ficção científica acrescentado à paisagem pelas montanhas de carcaças de computadores, tevês, fotocopiadoras, DVDs e celulares, como em uma aventura distópica de Philip K. Dick. Os “cadáveres” chegam diariamente em caminhões vindos da região portuária da cidade e transformam Agbogbloshie em um dos maiores lixões de eletroeletrônicos do planeta.
O cemitério permitiu o florescimento de um mercado paralelo e informal. Mais de 30 mil africanos de diferentes idades, crianças incluídas, ocupam-se de duas atividades, do conserto e venda de eletrônicos que ainda podem ser recuperados ou da extração de metais valiosos do entulho, entre eles prata, aço e cobre.
O rendimento do trabalho varia. Segundo Titi, taxista que durante três anos coletou minérios no lixão, o ganho médio diário oscila de 20 centavos a 10 dólares. A jornada de trabalho chega a 13 horas por dia, 7 dias por semana. No outro lado do mundo, no Vale do Silício, as fortunas acumulam-se em nanossegundos. De acordo com a revista Forbes, no último ano a fortuna de Bill Gates, fundador da Microsoft, aumentou em 3 bilhões de dólares, número que provavelmente os catadores do lixão ganense seriam incapazes de calcular.
Expostos a diversos tipos de riscos e doenças associadas ao lixo eletroeletrônico, os trabalhadores executam as atividades desprovidos de equipamentos de proteção, e muitos trabalham sem camisa e descalços. O maior risco vem da inalação de substâncias tóxicas que derivam da queima de fios de plástico, técnica utilizada para extrair o minério de cobre em seu interior. Além de interferir na saúde respiratória dos trabalhadores, a queima de lixo eletrônico contamina alimentos comercializados nos mercados da região, pois a fumaça carrega diferentes metais pesados, além do dióxido de carbono, facilmente depositados nas cascas de frutas e verduras expostas ao ar livre.
O cheiro de Agbogbloshie é indescritivelmente forte e ácido. O calor e a umidade não aliviam a sensação. Sem o menor sinal de vida, o Rio Odaw, que corta o lixão, lentamente carrega pedaços de plástico e de metal dispensados pelos trabalhadores, em uma versão piorada do Tietê paulistano. Cachorros e vacas famintos em busca das escassas gramas e de restos de comida dividem o espaço com os trabalhadores, enquanto as crianças jogam futebol com bolas improvisadas de isopor.
A maioria das carcaças eletrônicas de Agbogbloshie chega da Europa e da América do Norte. Sua liberação nos portos de Gana justifica-se por acordos comerciais cujo propósito, em tese, é ampliar o acesso da tecnologia aos desfavorecidos em países subdesenvolvidos. Em outras palavras, um europeu dono de um computador velho em casa, quebrado ou não, pode enviar o equipamento a algum país africano baseado no altruísta objetivo de propiciar acesso ao “mundo digital” a negros e mulatos pobres das periferias. É uma dupla limpeza: da casa propriamente dita e da consciência.
Apesar de veementemente condenado pela Convenção da Basileia, realizada em 1989, na Suíça, o fluxo de lixo eletrônico continua intenso, de modo que os lixões eletroeletrônicos se espalham por outros países africanos (Egito, Nigéria e Quênia já têm os seus) e na Ásia (incluídos os emergentes Índia e China).
O governo de Gana tenta organizar os trabalhadores em cooperativas, mas a miséria e a ignorância predominam no cemitério de Agbogbloshie e dificultam as iniciativas. O objetivo é sobreviver. Se esse fosse o texto de um programa do National Geographic Channel, o locutor encerraria: “E assim a vida se renova (no mundo digital)”.
*Reportagem publicada originalmente na edição 842 de CartaCapital, com o título "Lixão pontocom"
Fonte: http://www.cartacapital.com.br/revista/842/lixao-pontocom-4750.html

“Casa popular em áreas nobres, não!”

“Casa popular em áreas nobres, não!”


Moradores ricos de São Paulo se mobilizam para vetar a mudança de vizinhos pobres


 São Paulo 4 ABR 2015
Terreno na Vila Leopoldina (à dir.), vizinho de prédio nobre.

Na esquina oposta ao “maior lançamento imobiliário do ano”, um empreendimento na Vila Leopoldina, zona oeste de São Paulo, composto por duas torres de apartamentos com varanda gourmetque custam até 3 milhões de reais, quadras de tênis, um parque aquático e até um supermercado da rede Pão de Açúcar, um terreno virou motivo de discórdia.
A área de 30.000 metros quadrados, usada atualmente pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), foi demarcada peloPlano Diretor da cidade como um terreno destinado à construção de moradias populares, a contragosto dos vizinhos, que agora se mobilizam para tentar mudar a lei.
“O nosso pleito é que a área seja uma biblioteca parque, ou até um próprio parque mesmo”, explica Rafael Bernardes, diretor de planejamento da Associação Viva Leopoldina, uma das entidades mobilizadas para modificar a destinação da área.
O argumento da associação é que o terreno abrigou a garagem da antiga viação Âmbar e o solo estaria contaminado pelo óleo dos ônibus que estacionavam ali.
“A questão não é que o bairro não quer moradia popular, isso seria uma coisa higienista. O que a gente quer é deixar claro que aquilo é um terreno contaminado e que isso pode acabar adoecendo os moradores”, explica ele, que afirma que a instituição só descobriu sobre a contaminação depois de saber que o terreno havia sido considerado uma ZEIS (Zona Especial de Interesse Social) tipo 3 –que prevê que 60% da área vire habitação popular para famílias que ganham até três salários mínimos, 20% para os que ganham até seis e o restante pode ser usado para uso não residencial.
De fato, o terreno de número 928 da avenida Imperatriz Leopoldina funcionou como uma garagem de ônibus e está contaminado. A CET, entretanto, afirma que o trabalho de descontaminação do terreno já está em andamento -informação confirmada ao EL PAÍS por um funcionário que trabalhava no local na manhã da última quarta. “Nas amostragens realizadas não foram observados valores acima dos limites de intervenção da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb). Portanto, não existe risco às pessoas no local, sendo a única recomendação a de não utilizar poços para captação de água subterrânea”, explicou o órgão, por meio de uma nota. Não há, portanto, qualquer impedimento para que a área abrigue qualquer tipo de prédio.
Apesar de a associação ressaltar que seu pleito não tem viés higienista, há moradores que afirmam que a chegada de um imóvel voltado aos mais pobres “desvalorizaria a região”. Na área próxima ao terreno despontaram, nos últimos anos, uma série de imóveis como o lançamento descrito acima. Na rua paralela, a Carlos Weber, por exemplo, um prédio recém-construído, com três torres de apartamentos, tem imóveis vendidos a 2,7 milhões de reais. O terreno fica a cinco minutos de carro do shopping e do parque Villa-Lobos e da marginal Pinheiros, uma das principais vias de acesso da cidade.
“Como é que pode?”, pergunta à reportagem Olívia Bohn, 52, dona de um estacionamento na frente do terreno disputado, ao ser informada sobre as intenções da Prefeitura. “Vão tirar as pessoas da favela e colocar aqui? Não é discriminando todas as pessoas que virão, mas tem um monte de bandido no meio. Vai acabar com o sossego do bairro”, diz ela.
“É só você ver o Cingapura [conjunto de moradias populares] que fizeram ali atrás do Ceagesp. É uma sujeira. Cheio de bandidagem. Se fizerem um aqui vai acabar com a região. Todo mundo que mora aqui com certeza vai sair”, diz o morador Demércio Pacheco, 45.
“A região não comporta esse tipo de coisa. Tem muita gente de nível alto aqui. Só para você ter uma ideia: lembra do picadinho? Aquele dono da Yoki que a mulher matou e picou... Então, foi na Carlos Weber. E o cara da Friboi? Aquele que a mulher mandou matar... Foi ali também”, conta ele. “E teve aquele caso famoso daquela médica que matou o filho, a nora e se matou”, complementa Bohn.

Pressão social

O terreno na Vila Leopoldina não é o único contestado por associações de moradores da cidade.
O Plano Diretor, aprovado sob forte pressão dos movimentos sociais em julho do ano passado, aumentou em 117% o número de terrenos onde só poderão ser construídas habitações populares. Com isso, numa estimativa tímida, haverá área para a construção de 240.000 novas residências para os mais pobres nos próximos 16 anos. O déficit habitacional estimado na região metropolitana de São Paulo é de 670 mil casas.
Depois de aprovado, o Plano Diretor tem que ser regulamentado por meio da Lei de Parcelamento, Uso e Ocupação do Solo, que decide o que será feito em cada uma das 31 subprefeituras da cidade. Esse processo, que está em andamento, é aberto para a participação dos munícipes, que apontam sugestões de mudanças ao que foi aprovado no plano. Essas observações são avaliadas pelos técnicos, que podem fazer as alterações ou não, de acordo com a lei. O texto final, já com a contribuição popular, deve chegar à Câmara Municipal ainda neste semestre. Neste momento, os vereadores também poderão propor novas alterações.
Foto
Uma das mensagens de moradores deixada no site da Prefeitura.
“A gente está acompanhando esse processo e sabe que tem um movimento em São Paulo para diminuir o número de ZEIS”, conta Benedito Roberto Barbosa, dirigente da Central de Movimentos Populares, uma das entidades de luta pela moradia que atuam na cidade (são, ao menos, sete). Transformadas em ZEIS, essas áreas ficam congeladas e a construção de imóveis ou empreendimentos que não sejam para a população pobre fica proibida. “Há uma pressão muito grande do mercado imobiliário. Mas estamos preparados para uma verdadeira luta na Câmara", diz Barbosa.
Durante a discussão do Plano Diretor, no ano passado, os movimentos sociais chegaram a acampar na Câmara para pressionar pela aprovação da lei, que estabelece diretrizes para São Paulo até 2030. Mesmo assim, associações de moradores, em parceria com vereadores, conseguiram retirar áreas de habitação popular que estavam previstas em bairros nobres, como a Vila Nova Conceição, um dos metros quadrados mais caros de São Paulo, e Alto de Pinheiros.
No espaço destinado para a atual discussão da lei de zoneamento, há ainda queixas de moradores de bairros como Tatuapé, que também realizaram um abaixo-assinado para a modificação das áreas destinadas para as moradias populares, Jardim Vitória Régia (no Morumbi), e Parque Continental (próximo ao Jaguaré, também na zona oeste). O último grupo, inclusive, encaminhou aos vereadores uma “nota de repúdio” à ideia, em que afirma: “A lei sancionada pelo prefeito Fernando Haddad poderá invadir áreas nobres e de classe média (...) Os moradores indignados se mobilizam contra a criação de zonas para habitação popular e áreas de mais comércio por causa da desvalorização do bairro”. E pedem: “Casa popular e comércio em áreas nobres, não!”

"Não vejo motivos para a mudança, fora o preconceito"

T.B
O urbanista Nabil Bonduk, que foi o vereador relator do Plano Diretor e hoje é Secretário da Cultura da Prefeitura, afirma que não há motivos para a retirada do terreno da Vila Leopoldina das áreas de ZEIS.
Pergunta. É possível mudar a característica do terreno?
Resposta. Em tese, a Lei de Uso pode mudar isso. Mas o Plano Diretor estabeleceu diretrizes muito claras para destinar áreas para habitação popular. Neste caso, é um terreno municipal, subutilizado, num local que precisa de habitação popular. Não vejo motivos para a mudança, fora o preconceito.
P. Mas algumas áreas já foram tiradas antes da aprovação do plano, como a da Vila Nova Conceição.
R. Retiramos algumas ZEIS nas regiões do centro expandido porque eram terrenos particulares, em áreas muito caras. Era inviável financeiramente desapropriar para habitação popular.
P. Em quanto tempo vamos ver os efeitos do plano na cidade?
R. Depende muito da capacidade de implementação da Prefeitura. Os efeitos poderiam ser sentidos em três anos, mas isso também precisa de investimento do mercado, que está em baixa. Há coisas práticas que começaremos a ver mais rapidamente, como as ciclovias, as áreas culturais.

Fonte: http://brasil.elpais.com/brasil/2015/04/02/politica/1427938647_756022.html

Songdo é uma cidade em construção na Coreia do Norte que promete não agredir o meio ambiente

Já imaginou morar em uma cidade onde nada agride a natureza? Esse é o projeto de uma cidade que está sendo erguida na Coreia do Norte, chamada Songdo, à beira do Mar Amarelo, com o que há de mais moderno em tecnologia e conceitos de urbanismo. O projeto, orçado em US$ 35 bilhões, prevê a construção de 80 mil apartamentos, 46 milhões de metros quadrados de escritórios e pode abrigar até 40 mil habitantes. Construída sobre uma ilha artificial, a cidade promete ser a mais sustentável do planeta, contando com controle inteligente de tráfego, wireless, 40% de áreas verdes, programas de reciclagem e uso consciente de água e energia.
Existe um planejamento para evitar desperdícios e reutilizar a água através de um sistema de retenção da demanda pluvial. Até mesmo a água que foi usada para lavar pratos e roupas também pode ser armazenada e servir para a irrigação das praças e outras vegetações da cidade. Outra maneira para armazenar este recurso natural previsto pelo projeto é plantar vegetação no topo dos edifícios, o que pode reduzir a perda de água da chuva e contribuir com o crescimento das plantas.
Além de sustentável, Songdo conta com um sistema inteligentíssimo de tráfego, que evitará o trânsito. Haverá sensores colocados no asfalto que detectam a velocidade dos veículos e conseguem calcular o tempo de abertura dos semáforos. Assim, dependendo da velocidade dos carros, os faróis podem abrir em menor tempo para evitar engarrafamentos.
A cidade foi planejada em torno de um parque central, que é duas vezes maior que o Central Park de Nova York (Estados Unidos) e sua disposição permite que os moradores das áreas residenciais possam caminhar por essa área verde para trabalhar no centro comercial. As unidades das primeiras torres residenciais foram vendidas na planta e a cidade já oferece infraestrutura viária, transporte público, comunicação e entretenimento. A empreitada começou em 2000 e tem planos para ficar pronta em 2020.
Fonte: http://noticias.ambientebrasil.com.br/clipping/2015/04/04/114340-songdo-e-uma-cidade-em-construcao-na-coreia-do-norte-que-promete-nao-agredir-o-meio-ambiente.html

Como a Costa Rica conseguiu produzir toda sua eletricidade de forma limpa



Planta geotérmica usa vapor de vulcão dormente para gerar energia


Durante os primeiros 75 dias deste ano, a Costa Rica conseguiu uma marca inédita: usou apenas energia renovável para abastecer sua rede elétrica, em meio a esforços para "limpar" sua matriz energética até 2021.
O país se beneficiou de três represas cheias graças a um período excepcional de fortes chuvas, além da energia de fontes geotérmica - que usa o calor vindo do interior da Terra - , eólica, solar e biomassa, segundo o Instituto Costa-riquenho de Eletricidade.
Com isso, as usinas térmicas do país não precisaram ser usadas no período, "com consequente benefício ambiental e econômico, porque não houve necessidade de usar combustíveis (fósseis)", disse o instituto.
Por enquanto, só metade das fontes de energia primária da Costa Rica são renováveis. Neste ano, o país conseguiu avançar "limpando" a energia elétrica.
Especialistas consultados pela BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC, apontam que o país tem tentado obter rendimento máximo de seus recursos naturais para evitar ter de importar hidrocarbonetos.
Um dos elementos-chave foi a integração ao Programa de Energias Renováveis e Eficiência Energética Centro-americana (4E), implementado pelo escritório de cooperação internacional do governo alemão junto à Secretaria-Geral do Sistema de Integração da América Central (SG-SICA), que trabalha para fomentar uma matriz mais limpa na região.
O diretor regional do programa 4E, Manfred Haebig, explica à BBC Mundo que o país "sempre teve a matriz energética mais 'verde' da América Central".
A matriz é composta em 80% por hidrelétricas e só 20% das energias renováveis é eólica e geotérmica (uma usina no país é abastecida pelo vapor de um vulcão dormente).
O problema disso - além do impacto da construção de hidrelétricas - é que o modelo é bastante dependente do clima: se falta água, o fornecimento de energia fica comprometido.
"Hoje as represas estão cheias e pode-se falar de 100% de energia renovável. Mas isso é dinâmico e pode mudar ao longo do tempo", explica Haebig.
A novidade, no caso costa-riquenho, é que o país tem levado em consideração as mudanças climáticas, que alteram, por exemplo, a constância das chuvas, explica Tabaré Arroyo, autor do estudo "Líderes em Energia Limpa", produzido para a organização ambiental WWF.
País criou ambiente propício para investimentos em energia renovável

Arroyo explica que a Costa Rica tem investido não apenas em energia hidrelétrica, mas também eólica e geotérmica, para o caso de caírem os níveis de água acumulada nas represas.
"Obter 100% de eletricidade renovável é algo novo na América Latina", afirma.

'Líder regional'

Em seu relatório para a WWF, Arroyo explica que dois mecanismos ajudaram o país centro-americano a avançar nas energias renováveis.
O primeiro é um sistema de leilão para a compra adicional de energia limpa.
O segundo é um programa para promover a geração de energia pelos próprios consumidores - "que conectam seus sistemas solares, eólico, de biomassa e cogeração à rede", explica o especialista. Esses pequenos produtores podem vender os excedentes, o que vem ajudando a abastecer a rede energética.
"Graças a seu grande potencial e um marco jurídico favorável, a Costa Rica criou um ambiente atrativo para investimentos em energia renovável", diz o relatório.
Entre 2006 e 2013, o país atraiu mais de US$ 1,7 bilhão para financiar projetos energéticos limpos.
Com isso, a Costa Rica virou o "país latino-americano mais bem posicionado no Índice de Sustentabilidade Energética", diz a WWF.
Ao mesmo tempo, reportagem do jornal britânico The Guardian ressalta que a Costa Rica ainda enfrenta muitos obstáculos para cumprir suas metas energéticas: além de ter um padrão instável de chuvas, o país ainda depende do petróleo para o setor de transportes.
O combustível consumido por carros, ônibus e trens responde por quase 70% das emissões de carbono costa-riquenhas. E são poucos os carros híbridos disponíveis, disse o jornal.
Ainda assim, em um país dependente do turismo ecológico, "faz sentido buscar fontes de energia limpas e não contaminantes", diz Jake Richardson, especialista em energia renovável do site Clean Technica.
O objetivo é também economizar na importação de combustíveis fósseis e no próprio bolso: a Autoridade Reguladora de Serviços Públicos calcula que a tarifa de eletricidade ficou até 15% mais barata graças às mudanças energéticas.