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sábado, 23 de agosto de 2014

São Paulo é cidade mais influente da América Latina em ranking global

São Paulo é cidade mais influente da América Latina em ranking global


Atualizado em  19 de agosto, 2014

São Paulo (Reuters)
São Paulo foi a cidade latino-americana mais bem posicionada em ranking de cidades globais

As cidades globais

1. Londres
2. Nova York
3. Paris
4. Cingapura
5. Tóquio
6. Hong Kong
7. Dubai
8. Pequim
9. Sydney
10. Los Angeles/Orange County
10. Área de São Francisco
10. Toronto
13. Zurique
14. Frankfurt
15. Houston
16. Amsterdã/Randstad
16. Seul
16. Área de Washington
19. Xangai
20. Abu Dhabi
20. Chicago
20. Moscou
23. Boston
23. Bruxelas
23. Dallas-Fort Worth
23. Madri
23. Melbourne 
23. São Paulo
29. Istanbul
29. Miami
31. Johanesburgo
31. Kuala Lumpur
31. Mumbai
34. Bangkok
34. Nova Délhi
34. Genebra
37. Atlanta
37. Berlim
37. Seattle
37. Tel Aviv
41. Cidade do México
41. Milão
41. Montreal
44. Buenos Aires
44. Jacarta
44. Filadélfia
47. Cairo
47. Guangzhou
47. Ho Chi Minh City
47. Lagos
47. Osaka

São Paulo foi considerada a cidade mais influente da América Latina em um ranking que avaliou 50 metrópoles globais.
A lista é liderada por Londres, Nova York, Paris, Cingapura e Tóquio. A capital paulista aparece na 23ª posição - a cidade latino-americana mais bem posicionada.
O estudo foi elaborado pela Civil Service College de Cingapura e a Chapman University.
As cidades foram avaliadas em oito categorias, que consideraram conectividade aérea, diversidade, investimento estrangeiro direto, sedes de empresas, produção de serviços, serviços financeiros, tecnologia e mídia, e dominação industrial.
Nenhuma outra cidade brasileira apareceu no ranking.
"São Paulo é o coração econômico da maior economia da América do Sul, e tem a maior bolsa de valores (da região). A maior cidade e a capital comercial do Brasil se tornou sede da operação de várias empresas para a América Latina, apesar da língua, crime e outros problemas", disse o estudo.
A publicação destacou que São Paulo é a que tem a maior diversidade racial no país - "e talvez de toda a América Latina" - e possui a maior comunidade japonesa do mundo, com 600 mil imigrantes.
Mas disse que apesar disso a comunidade de estrangeiros ainda é "extremamente pequena" - menos de 1% da sua população de mais de 20 milhões de habitantes.
São Paulo está acima de Miami - que aparece em 29º lugar e é citada no relatório como "capital da América Latina", por atrair muitos negócios de toda a região.

'Prisioneira da geografia'

O estudo diz que as cidades globais não se destacam primariamente pelo seu tamanho, mas pela eficiência que têm. Elas ainda lucram com a relação que têm com a língua inglesa, o que impõe "preocupações" para grandes outros polos, como os localizados na Rússia e na China.
"Muitas megacidades no mundo em desenvolvimento estão crescendo cerca de três vezes mais rapidamente do que aquelas em países de alta renda. Certamente, a maioria das maiores cidades do mundo está no mundo em desenvolvimento", diz o estudo.
"Mas apesar do grande tamanho que têm, estas cidades, em grande parte, não são centros importantes para serviços globais de tecnologia, finanças e negócios."
Os autores dizem que a América Latina possui diversas megacidades, mas nenhuma está perto das dez melhores.
Cidade do México e Buenos Aires também foram incluídas no ranking, nas posições 41 e 44, respectivamente.
"Um dos maiores problemas para todas as cidades da região (América Latina) é a conexão física, particularmente ao leste da Ásia, que segue inatingível por voos diretos", disse o estudo.
"Em parte prisioneira da geografia, a América Latina está geralmente muito distante dos centros econômicos do leste da Ásia e Europa e, com exceção a Cidade do México, também não está nem perto da América do Norte".
São Paulo ficou atrás de cidades de outros grandes países emergentes, como Pequim e Xangai, na China, e Moscou, na Rússia, mas à frente de Mumbai e Nova Déli, na Índia.

Incubadora de empresas

A cidade brasileira também aparece em um outro ranking citado no relatório, elaborado por um projeto chamado Startup Genome, que avalia os melhores lugares para se começar um negócio no ramo da tecnologia.
Neste ranking de 20 cidades da Startup Genome, São Paulo aparece como 13ª cidade com melhor ambiente para surgimento de novas empresas de tecnologia.
As primeiras regiões e cidades são o Vale do Silício, Tel Aviv, Los Angeles, Seattle e Nova York.

A única outra cidade latino-americana nesta lista é a capital chilena, Santiago, em 20º lugar.

Fenda misteriosa surge no México e intriga cientistas

Fenda misteriosa surge no México e intriga cientistas






Fenda no México

Uma incrível fenda surgiu em uma fazenda no noroeste do México. O buraco de oito metros de profundidade e um quilômetro de extensão despertou a curiosidade dos moradores locais.
Segundo o The Independent, a fenda apareceu na semana passada e chegou a cortar a Rodovia 26, que fica entre Hermosillo e o litoral mexicano. Motoristas tiveram que mudar as rotas de viagem para desviar do local.
Um vídeo publicado no YouTube mostra a fenda. As imagens foram feitas por uma câmera instalada em um drone. É possível ver os carros parados diante da cratera e algumas pessoas em volta observando a fenda misteriosa. Veja o vídeo abaixo:



Geólogos trabalham na tentativa de explicar o que causou a fenda. Autoridades acreditam que a fissura pode ter surgido por causa de um terremoto que sacudiu a região recentemente. 
No entanto, pesquisadores da Universidade de Sonora descobriram que os fazendeiros da região construíram diques para conter a água da chuva. Especialistas acreditam que isso pode ter causado uma corrente subterrânea que suavizou a terra até colapsar e formar a fenda.
Crateras na Sibéria - Em julho, uma cratera misteriosa foi encontrada na Sibéria, na Rússia. As causas ainda são investigadas, mas uma equipe de cientistas afirmou que o metano liberado com o derretimento do permafrost (solo gelado encontrado na região do Ártico) foi o responsável pelo surgimento do buraco.
Pesquisadores afirmam que o aquecimento global pode ser o culpado. Um degelo lento e constante na região pode ter sido o suficiente para liberar uma explosão de metano e criar uma grande cratera.
Em seguida, moradores locais relataram a existência de outros dois buracos semelhantes, mas menores, nas proximidades. Os cientistas temem que a liberação de metano aprisionado possa intensificar o surgimento de buracos na região.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

O paradoxo da educação no Chile

O paradoxo da educação no Chile



O país quer ser desenvolvido e não se satisfaz em ser comparado apenas a seus vizinhos; sua referência são os membros da OCDE


 /  19 AGO 2014


Uma estranha sensação de surpresa e confusão atinge o mundo da política educacional na América Latina. O Chile, país que por muitos anos vimos como o paladino do progresso educativo está hoje imerso em um debate profundo sobre o futuro de seu sistema educacional. A intensidade do debate no faz questionar se estivemos enganados em nossa admiração e se não estamos, subitamente, acordando para uma realidade muito mais negativa.
Felizmente, não se trata de tal pesadelo. O sistema educativo chileno obteve conquistas muito importantes, muito maiores que as do resto de nosso continente. Por exemplo, hoje a maioria das crianças chilenas pode ter certeza de que vai concluir pelo menos 12 anos de educação, muito mais do que a média do restante da região. Na prova PISA 2012 da OCDE, os estudantes chilenos se destacaram entre os demais latino-americanos, conseguindo pontuações mais altas do que as de seus colegas dos outros sete países que participaram. Além disso, os resultados do Chile na PISA vêm melhorando desde 2000, principalmente até 2009.

No Chile há escolas frequentadas apenas por ricos e outras frequentadas apenas por pobres
Mas o Chile quer ser um país desenvolvido e não se satisfaz em ser comparado apenas com seus vizinhos. Sua referência são os países mais desenvolvidos, membros da OCDE, da qual também faz parte. E nesse grupo, o sistema educacional chileno deixa muito a desejar. De fato, dos 65 países que participaram da avaliação PISA 2012, o Chile ficou em 51º lugar. Além disso, anos de um sistema de mercado educativo, onde os subsídios estatais são destinados igualmente a provedores particulares e públicos levaram a uma enorme segregação do ponto de vista socioeconômico. Hoje, no Chile, há escolas (públicas e particulares) frequentadas por ricos e outras frequentadas por pobres. Poucas escolas (públicas e particulares) reúnem alunos de famílias ricas e pobres.
Essa mistura de resultados muito superiores aos de seus vizinhos, mas muito inferiores aos países com os quais o Chile aspira se parecer, fica evidente nas fortes demandas de todos os setores sociais por melhoras substantivas na qualidade e na igualdade de oportunidades educativas. Os chilenos sabem que a educação é uma ferramenta poderosa para o progresso individual e coletivo.
E à medida que atingem níveis mais altos na educação, mais insatisfeitos estão com as diferenças entre ricos e pobres, e entre chilenos e pessoas de países que conseguiram níveis de desenvolvimento que permitem que todos os seus cidadãos vivam vidas dignas e produtivas.
Neste momento de fortes demandas por mudança, é importante manter a cabeça fria e revisar a evidência internacional acerca de quais políticas mostraram resultados positivos sobre a qualidade e equidade da educação.
Em primeiro lugar, recordemos a importância de manter metas ambiciosas de aprendizagem como norte para todos e todas, e utilizá-las para definir o currículo e os materiais de ensino, assim como também os sistemas de avaliação – não somente para usá-los na prestação de contas, mas, especialmente, para apoiar todos os atores do sistema a buscar formas de melhoramento contínuo que consigam melhores resultados de aprendizagem estudantil. Isso requer um sistema de gestão da educação muito diferente do que até agora prevaleceu no Chile, onde quem pode gerir melhor o faz e os demais são deixados para trás.
Uma segunda lição da experiência internacional é a importância de assegurar que todas as crianças entrem no sistema escolar prontos para aprender. Isso requer expandir e fortalecer os serviços de desenvolvimento infantil inicial, desde o jardim da infância, programa de nutrição e estimulação prematura, até os pré-escolares de alta qualidade para todos os meninos e meninas. Mesmo com o Chile tendo avançado nessa direção, ainda falta muito o que fazer.
Em terceiro lugar, recordemos que os docentes são a chave do processo educativo. No Chile, como no resto da região, a profissão docente foi progressivamente sendo menos e menos atrativa para os mais talentosos. Simultaneamente, o mundo foi mudando a passos acelerados, e as escolas foram muito lentas em inovar e se adaptar às formas sobre como as crianças interagem e aprendem hoje. Apoiar os mestres e professores que temos, e atrair os mais talentosos para o sistema educativo, é o grande desafio para o Chile, assim como para o resto da região. Isso requererá condições de trabalho atrativas, mas sobretudo de oportunidades de crescimento profissional que impliquem a satisfação de ter impacto no mais importante: as vidas das crianças e dos jovens.
Em quarto lugar, não existe sistema educativo excelente que não conte com os investimentos necessários para garantir ambientes educativos atrativos para que os melhores profissionais entrem e permaneçam na docência e as crianças e jovens queiram ir diariamente para a escola. Assim como a tecnologia mudou a experiência diária das crianças e jovens em todo o mundo, também no Chile pode-se aproveitar melhor para fomentar as aptidões relevantes para o século XXI.
Por último, para que se materializar o potencial da educação como ferramenta de desenvolvimento individual e coletivo, é necessária uma maior aproximação do sistema educativo do mundo produtivo, e assim garantir que o que se aprende no sistema escolar é valorizado pelo mundo de trabalho. Muito chilenos que são da primeira geração formada no secundário e pós-secundário estão descobrindo que suas oportunidades no mundo de trabalho não são as que imaginavam. Somente quando a educação implica melhores oportunidades de trabalho – maiores probabilidades de emprego, melhores salários e condições de trabalho – também resulta em uma maior produtividade, inovação e igualdade socioeconômica para todo um país.
Nessas, e em outras áreas, sabemos que existem desafios que demandaram mudanças e inovação. Nós que admiramos os esforços do Chile em melhorar seu sistema educativo nas últimas duas décadas estaremos observando de perto essa nova etapa de mudança e transformação.
Ariel Fiszbein é Diretor do Programa de Educação no Inter-American Dialogue eEmiliana Vegas é Chefa da Divisão de Educação do Banco Inter-Americano de Desenvolvimento.

O problema racial

O problema racial



Os distúrbios de Ferguson confirmam a necessidade de políticas de igualdade nos EUA


 19 AGO 2014

Os protestos e distúrbios que ocorreram depois da morte de um jovem negro por disparos de um policial da localidade norte-americana de Ferguson, no Estado do Missouri, trouxeram à luz novamente as tensões raciais nos Estados Unidos, que, embora teoricamente tenham resultado em leis, continua sendo uma das grandes matérias pendentes na principal potência mundial.
Os seis tiros que atingiram Michael Brown, um jovem negro de 18 anos – dois deles na cabeça, segundo a autópsia encomendada pela família–, disparados por um oficial de polícia branco há 11 dias, foram o fato que desencadeou uma onda de manifestações e protestos que até agora resultaram em dezenas de detidos, o deslocamento da Guarda nacional e a intervenção em duas ocasiões do presidente Barack Obama, pedindo calma e lembrando a cada lado suas obrigações: aos manifestantes, a de respeitar a lei, e à polícia, a de utilizar a força com proporcionalidade.
Já está muito longe 2008, quando Obama se tornou o primeiro presidente negro na história dos EUA e acadêmicos, sociólogos e jornalistas abusaram da expressão América pós-racial como um reflexo de que o país da América do Norte tinha deixado para trás uma era de discriminação e preconceitos. O microcosmo de Ferguson serve, no entanto, como exemplo de que há uma desproporção suspeita nas atuações contra a comunidade negra. Enquanto 65% da localidade de pouco mais de 21.000 habitantes é negra, 94% dos policiais são brancos. No total, 84% dos automóveis que esses agentes param para pedirem a documentação são conduzidos por negros, e 92% dos detidos são negros. A esses dados é preciso somar 21% de famílias que vivem abaixo do nível de pobreza e uma comunidade na qual não é incomum que se criem obstáculos à integração negra por um sentimento de discriminação que vem de muito longe. Essa situação, com variáveis, se repete desigualmente em toda a geografia dos EUA.
A essas condições é preciso acrescentar o comportamento policial que em muitas ocasiões é objeto de críticas justificadas pelo excessivo uso da força, a presença entre o material que utilizam os agentes –especialmente em momentos de tensão– de armas e veículos cujo destino anterior tinha sido a guerra do Iraque, e a falta de iniciativa política na hora de abordar as políticas raciais, que o atual inquilino da Casa Branca evitou escrupulosamente como bandeira.
Os Estados Unidos demonstraram que podem ser o país mais poderoso do mundo, e uma das maiores democracias, com uma sociedade multirracial baseada na imigração e um ordenamento legal que garante a plena igualdade de seus cidadãos. Mas explosões como a De Ferguson mostram que ainda há muito por fazer e que os problemas que são ignorados não só não desaparecem, como tendem a aumentar, às vezes desproporcionalmente.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

“Nossos vizinhos árabes se uniram ao Estado Islâmico”

“Nossos vizinhos árabes se uniram ao Estado Islâmico”



A ofensiva jihadista reaviva as tensões entre curdos e árabes no Iraque


 Makhmur (Iraque) 18 AGO 2014


Makhmur é um povoado fantasma. O calor do meio-dia faz pensar que seus habitantes estão fazendo a sesta. Mas não somente as portas estão fechadas, como não existem carros nas ruas, nem se ouvem as crianças. Ainda que há uma semana as forças curdas (peshmergas) recuperaram a localidade das mãos do Estado Islâmico (EI), a maioria de seus habitantes não se atreveu a regressar.
O atual conflito reavivou as tensões entre curdos e árabes iraquianos, e os jihadistas ainda estão a vinte quilômetros de distância.
“Como vou trazer minha família nestas condições?”, pergunta Ismail Husein, mostrando o buraco causado por um morteiro no teto do segundo andar de sua casa, uma modesta construção de paredes e chão de concreto.
Nem Husein nem sua família estavam ali quando o projétil caiu. Como o resto dos 13.000 habitantes da comarca, escaparam na noite do dia 6 de agosto diante da proximidade dos milicianos do EI. “Quando ouvimos os bombardeios, fomos para Erbil, para a casa de minha irmã”, explica esse aposentado que voltou para verificar a situação.
A capital da região autônoma doCurdistão se encontra a 54 quilômetros ao nordeste. Daí o pânico que se abateu nos dirigentes curdos por ter os jihadistas em suas portas. Entretanto, também os peshmergas se retiraram inicialmente. Talvez isso explique que, com exceção do bazar, aonde os radicais do EI se fortificaram, apenas existam rastros de combates e predominem os impactos de artilharia.
“Nos retiramos porque no oeste existem numerosas aldeias árabes das quais desconfiamos; temíamos que nos atacassem pelas costas”, explica um combatente curdo que não se identifica, enquanto desenha no mapa da jornalista uma meia lua ao redor de Makhmur.
O ocorrido somente alimenta o receio que a população curda sente de seus vizinhos árabes. Makhmur, como outras regiões nos limites do Curdistão iraquiano, foi objeto de um processo de arabização sob a ditadura de Saddam Hussein. Muitos de seus habitantes se viram obrigados a mudar. Para complicar mais a história, durante a guerra civil curda (1994-1997), Saddam ajudou o Partido Democrático (PDK) contra a União Patriótica (UPK) e em troca, incorporou esta comarca na província vizinha de Nínive.

Até que em 2003, a Operação Liberdade para o Iraque permitiu que os curdos regressassem para suas casas, e causou a expulsão de numerosos árabes. Aos olhos destes, também converteu os curdos em colaboracionistas dos norte-americanos.
No centro de operações militares de Makhmur, um contêiner no pátio da sede local do PDK, seu responsável, Nazad Ali Fatem, assegura que não têm “nada contra os árabes” e que sua luta é “contra os terroristas”. Entretanto, para muitos de seus homens não há dúvida de que os moradores árabes simpatizam com os jihadistas e se venderam para eles.
Muitos curdos temem que os árabes formem células dormentes dentro do Curdistão após a contraofensiva para expulsar o EI. Por agora, as autoridades conseguiram conter o mal-estar. A polícia se apressou em dissolver pequenas manifestações antiárabes tanto em Erbil como em Gwer, um povoado misto a meio caminho entre a capital e Makhmur, que também foi tomado brevemente pelos radicais.
“Apoiam o EI. Pessoas que conheço e que com as quais mantinha boas relações se uniram a este grupo. São hipócritas”, assegura Tawfiq Fars, um enfermeiro que se alistou como voluntário para defender seu povo. “Não acreditam na coexistência”, intervém outro peshmerga que não dá seu nome.
Como prova, mencionam que nenhuma das 25 famílias árabes que ficaram em Makhmur foi embora quando os extremistas entraram, e entretanto já não estavam no povoado quando estes foram expulsos. A ideia de que, como em Gwer, escaparam por temer as represálias depois dos invasores terem saqueados as casas não os convence. “Um deles foi nomeado prefeito pelo EI”, diz Tawfiq.
Mais tarde, um soldado mostrou a casa do efêmero regente, a única claramente vandalizada entre todas as da rua. Quando pergunto quem havia feito isso, me responde que “as pessoas”. Mas não existem pessoas em Makhmur. Ainda não. Mesmo que ‘kaka’ Nazad, como todos chamam respeitosamente o comandante local, estime em 25% o número de retornados, à primeira vista não são tantos. Somente os peshmerga se movem com confiança pelas ruas desertas. Todos estão armados.

A militarização da polícia: o espelho de Ferguson

A militarização da polícia: o espelho de Ferguson


A brutalidade dos policiais na cidade norte-americana mostra que a simples desmilitarização pode não ser suficiente para conter abusos

por Antonio Luiz M. C. Costa — publicado 18/08/2014

Polícia em Ferguson, no Missouri, EUA
Com máscaras e armamentos pesado, policiais observam manifestante em Ferguson, nos Estados Unidos. A militarização da polícia local preocupa


Não bastaram meio século da Lei dos Direitos Civis, 46 anos da morte de Martin Luther King e cinco anos de governo de um presidente negro. As manifestações em Ferguson, município da região metropolitana de Saint Louis, Missouri, mostram que a questão racial continua vivíssima nos Estados Unidos. Foram deflagradas em 9 de agosto pela execução com seis tiros de Michael Brown, negro de 18 anos, desarmado, cujo crime foi discutir com um policial que lhe exigiu andar pela calçada e não na rua. Mais tarde, a polícia alegou que Brown era suspeito de roubar um pacote de cigarros de uma loja, mas o policial que o matou não sabia disso.
Mas além de evidenciar a persistência desse problema tão antigo, a crise trouxe à consciência do público e da mídia um fato até aqui pouco notado, embora já anunciado por episódios que foram do policiamento armado de pátios escolares e uso de armas de eletrochoque em crianças rebeldes ou civis inofensivos à caçada aos irmãos Tsarnaev após o atentado à Maratona de Boston de 15 de abril de 2013: a militarização da polícia nos EUA.
Tanto a execução sumária de Brown como a escala da violência que se abateu sobre a população negra nos dias seguintes mostram uma mentalidade de exército de ocupação, que trata cidadãos desprivilegiados como um povo inimigo, com as consequências que isso implica. Disparar sobre civis é aceitável e execuções arbitrárias desculpáveis. Quando um soldado abate um inimigo, não se questiona se a vítima fazia algo ameaçador o suficiente para justificar tal tratamento. O simples fato de estar do outro lado a torna um perigo a ser eliminado.
O jornal Washington Post, insuspeito de radicalismo, listou pelo menos quatro violações flagrantes da Constituição em Ferguson: 1) instituição de um toque de recolher, que o governo municipal não tem autoridade para impor; 2) proibição de filmar a repressão e prisão dos que a desobedeceram, quando a lei garante o direito dos cidadãos de documentar as ações policiais; 3) uso abusivo de balas de borracha, gás lacrimogêneo e canhões de som contra manifestantes pacíficos; e 4) clara discriminação racial nos critérios para deter e revistar suspeitos. Poderia citar também a recusa dos policiais a usar tarja de identificação – alguns chegam mesmo a se cobrir com máscaras, como se fossem black blocs. Práticas frequentes na ação da Polícia Militar brasileira, mas que na polícia civil dos EUA ainda causam estranheza suficiente para despertar polêmica.
O espetáculo de policiais armados com tropas de choque ou a bordo de blindados, apontando armas para manifestantes, tornou o debate inevitável. Apontou-se a tendência, crescente desde o 11 de Setembro, de o Pentágono fornecer às forças policiais armas de guerra e treinamento antiterrorista – às vezes, como no caso do chefe de polícia de Ferguson, incluindo uma passagem por Israel para aprender com seus métodos de repressão nos territórios palestinos ocupados.
Como teria dito Talleyrand a Napoleão, pode-se fazer qualquer coisa com baionetas, menos sentar-se nelas. Se policiais recebem armas sofisticadas, vão querer exibi-las e usá-las para afirmar sua autoridade e desencorajar desafios, se recebem treinamento antiterrorista, passam a encarar cada cidadão descontente como um terrorista em potencial, mesmo se atentados dessa natureza são excepcionais. Aprofunda-se uma cultura antidemocrática, de desconfiança mútua entre a população e a polícia que supostamente a protege e mantém a ordem em seu nome.
Vale ressaltar: até o dia 17, quando o governador do Missouri pediu a mobilização da paramilitar Guarda Nacional, toda essa repressão extremamente militarizada foi executada por uma polícia que, no papel, é estritamente civil. O que deveria levar ativistas brasileiros a questionar se a desmilitarização da Polícia Militar que têm reivindicado com ênfase desde os protestos de junho de 2013 é realmente o suficiente. Mentalidade, métodos e equipamento contam mais do que hierarquia e uniformes.
A polícia deveria ser recrutada de forma a refletir a diversidade da população e treinada em primeiro lugar quanto à sensibilidade para com as minorias e direito à liberdade de expressão e reunião e com programas de diálogo entre a polícia e comunidades locais, com reuniões regulares para discutir os problemas comuns e os métodos para manter a paz e a segurança.
Pode haver ocasiões, tais como saques, vandalismo e ação de grupos armados, que justifiquem uma repressão mais agressiva, mas as armas para esse fim devem ser guardadas a sete chaves para serem usados apenas por forças especialmente treinadas e autorizadas, com ordem expressa do governador ou outra autoridade civil eleita disposta a assumir a responsabilidade e impor limites explícitos a seu uso.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Premiê de Tuvalu compara mudanças climáticas a armas de destruição em massa

Premiê de Tuvalu compara mudanças climáticas a armas de destruição em massa


O primeiro-ministro de Tuvalu, Enele Sopoaga, vinculou o impacto das mudanças climáticas nos países insulares do Pacífico a “uma arma de destruição em massa”, ao ressaltar, na sexta-feira (15) a necessidade de uma forte liderança global sobre esse tema.
Sopoaga afirmou que uma cúpula promovida pela ONU sobre mudanças climáticas, prevista para o mês que vem em Nova York, seria uma oportunidade de criar as condições para um progresso real na busca de consolidar um pacto global sobre emissões de gases de causadores do efeito estufa até o fim de 2015.
Caso contrário, alertou ele, as pessoas desse país de terras baixas podem ser deixadas para morrer enquanto os países continuam a discutir qual deve ser o curso a seguir.
“Efetivamente, fomos pegos no meio do caminho em Tuvalu. Ficamos muito, muito preocupados”, disse Sopoaga à rede Australian Broadcasting Corporation.
“Já estamos sofrendo. É como uma arma de destruição em massa, e todos os indícios estão aqui. Nós só precisamos juntar uma forte liderança coletiva para lidar com isso”, acrescentou.
“O povo de Tuvalu vai reforçar novamente (em Nova York) a mensagem de que estamos morrendo”, continuou.
Tuvalu, um conjunto de nove atóis de coral onde vivem cerca de 11 mil pessoas, é uma das nações do Pacífico ameaçadas pela elevação do nível dos mares, relacionada ao aquecimento global.
Muitas mal têm um metro acima do nível do mar, e cientistas alertam que nações como Tuvalu, Kiribati e Tokelau podem desaparecer sob as ondas, se as mudanças climáticas continuarem sua escalada.
O secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, convocou uma conferência para 23 de setembro para tentar criar força para a mudança, antes das negociações em Paris, no ano que vem, com vistas a forjar um acordo climático histórico que entrará em vigor em 2020.
Sopoaga, que Ban convidou para copresidir um dos maiores encontros da cúpula de Nova York, disse que encontros climáticos anteriores, como a cúpula da ONU em Copenhague, em 2009, falharam por falta de ambição.
“Temos de ir a Paris com um compromisso de concluir o acordo, nada menos que isso”, afirmou.
Sopoaga disse que países como Austrália, cujo premiê conservador Tony Abbott aboliu uma tarifa de carbono sobre emissões de gases estufa, não deveriam tentar obstruir um acordo. Ele insistiu em que chegou a hora de os líderes colocarem seus interesses nacionais de lado e agirem pelo bem da humanidade.
“Não tem mais a ver com soberania política. Isso está ameaçando seres humanos”, acrescentou. “Estamos lidando com o salvamento de vidas humanas”, frisou.