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domingo, 29 de dezembro de 2013

Mais de cem mil saem às ruas na Coreia do Sul contra privatização da malha ferroviária - Governo promove prisões de sindicalistas e ameaçando multar trabalhadores que participem de paralisações

Mais de cem mil saem às ruas na Coreia do Sul contra privatização da malha ferroviária



Governo promove prisões de sindicalistas e ameaçando multar trabalhadores que participem de paralisações

Cerca de cem mil pessoas participaram neste sábado (28/12) em Seul de uma manifestação contra a privatização da rede ferroviária e a repressão do governo contra os sindicalistas. As informações são do site esquerda.net e do jornal francês Le Monde.

O protesto foi promovido pela poderosa federação sindical KCTU. Uma paralisação parcial teve início em 9 de dezembro em razão de um anúncio do governo sobre a intenção de conceder a gestão de uma grande linha de trens de grande velocidade, que compreende Sueso-dong (ao sul de Seul) a Busan, principal vila portuária ao sudeste do país, à sociedade privada, e não à Korail, empresa pública ferroviária. Os sindicalistas acreditam que este é o primeiro passo para privatizar todo o setor. A própria Korail já foi alvo de dois estudos para privatização, em 2003 e 2009, impedidos pela intensiva ação dos sindicatos.

Agência Efe (22/12)
Polícia sul-coreana tenta invadir sede do principal sindicato do país; 148 sindicalistas foram presos 

A paralisação tem afetado as linhas de alta velocidade, bem como o metrô e o transporte de mercadorias. Os atrasos e cancelamentos de viagens têm sido uma constante e o serviço ferroviário tem funcionado a cerca de metade da sua capacidade nas últimas semanas.

O governo do premiê Chung Hong-won, que justificou o projeto  para “melhorar a competitividade da empresa” reagiu duramente à paralisação e deu início à perseguição dos sindicalistas. Cerca de 30 dirigentes foram acusados de desestabilizar a economia e são procurados pela polícia. A administração da Korail disse que irá penalizar 490 de seus  pedindo indenizações pelos prejuízos causados pela paralisação.

Depois das rusgas policiais às sedes do sindicato dos ferroviários, 600 policiais de choque tentaram, no último domingo (22), invadir a sede da KCTU com mandados de prisão, mas enfrentaram resistência dos sindicalistas, que conseguiram bloquear a entrada do edifício, mas não evitaram a prisão de 148 trabalhadores. Alguns deles conseguiram se refugiar em templos, onde a polícia raramente costuma entrar.
A oposição apela ao governo e à presidente Park Geun-Hye para que recuem no seu plano de desmembrar a empresa, tendo em vista sua privatização. Os trabalhadores afirmam que a luta irá continuar pelo menos até 25 de janeiro, data do primeiro aniversário da posse da presidente do país.

Flash-mobs

Para além da manifestação , muitos outros protestos foram realizados este sábado. O mais original terá sido o das flash-mobs em Seul, Gwangju, Daejeon and Daegu, onde centenas de pessoas, sobretudo jovens, se juntaram para cantar um hino revolucionário do musical "Os Miseráveis" (veja vídeo abaixo).


Advogados defensores dos direitos civis organizaram concentrações em prol da democracia sob o lema “Não há injustiça que vença a justiça” e grupos de estudantes em Seul, Daejeon, Changwon e Busan juntaram-se em tribunas livres para exporem as razões do descontentamento social que alastra no país, informa o portal Global Voices.

Além da tensão social causada pela greve dos ferroviários, a presidente do país também está envolvida em um escândalo sobre o envolvimento do serviço secreto a seu favor na campanha presidencial de 2012.


Fantasma do autoritarismo paira sobre o Egito

Fantasma do autoritarismo paira sobre o Egito


Atualizado em  28 de dezembro, 2013
General Sisi. Reuters

O general Sisi é o favorito para as eleições; muitos temem que ele não deixará o poder

Ahmad Harara raramente é visto sem seus óculos de sol da Ray-Ban. Mas para esse dentista egípcio de 33 anos, o acessório não é uma mera questão de estilo.

Quando ele tira os óculos, é para mostrar dois olhos que já não podem ver. O da esquerda é uma prótese e vem com uma pesquena inscrição: "hurriya", que em árabe significa liberdade.
A luta pela liberdade custou a visão de Harara. Ele perdeu cada um dos olhos em um momento diferente no ano de 2011. Nas duas vezes, recebeu tiros da polícia, segundo conta.
Os estilhaços de uma bala lhe roubaram a visão direita no dia 28 de janeiro, dias após o início dos protestos que culminaram na queda do ex-presidente Hosni Mubarak, um dos pontos altos da Primavera Árabe.
O segundo olho foi atingido por um fraco-atirador, em novembro, segundo ele.
“Eu nem sou a pessoa que está pagando o maior preço por tudo isso”, diz, enquanto fuma e se serve de café ao estilo turco no Cafe Riche, ponto de encontro de dissidentes políticos no Cairo há mais de meio século.
“Há outros com sequelas muito piores, e eles estão seguindo em frente”, diz.

Militares, intocáveis

Harara também segue em frente e não deixou de lutar contra o regime que o deixou às escuras e que, ele diz, ainda não foi derrubado.
“O sistema continua o mesmo”, diz. “O Exército mantém sua posição. Ninguém é responsabilizado por nada. Ninguém fiscaliza. Pelo contrário, eles conseguiram ainda mais privilégios”, diz.
“Os militares controlam o Egito desde 1952 e não vem razão para qualquer mudança apenas porque os jovens foram para as ruas”, afirma.
Os jovens ainda ocupam as ruas egípcias, ainda que em grupos menores que os vistos em 2011. Ele enfrentam gás de pimenta, canhões de água, sob o risco de pagar com a própria vida, desafiando a lei draconiana que agora proíbe manifestações no país.
Ativistas de direitos humanos dizem que a lei é uma tentativa de aplacar um dos principais ganhos da revolução - a liberdade de expressão.
Dezenas de ativistas foram presos ao desafiar a nova lei. O principal alvo são os simpatizantes do ex-presidente Mohammed Morsi, derrubado pelos militares, além de membros do seu movimento político, a Irmandande Muçulmana.

Detenções

A revolução que derrubou Mubarak abriu caminho para os islamistas chegarem ao poder, liderados por Morsi.
O líder da Irmandade Muçulmana ficou apenas um ano no poder, como o primeiro presidente civil eleito por voto livre.
Morsi acabou derrubado pelos militares em julho deste ano, em um movimento com forte apoio de setores seculares e outros descontentes com a crescente influência religiosa em seu governo. Antes do afastamento, milhares foram às ruas do Egito pedir a saída de Morsi.
Os islâmitas reagiram, e foram reprimidos. Em agosto, as autoridades disperaram com violência duas manifestações pró-Morsi, matando centenas de simpatizantes.
Desde então, milhares foram detidos, incluindo vários membros do alto escalão da Irmandade Muçulmana, incluindo o próprio Morsi, acusado de traição à pátria.

A resistência islamita

Tantos “irmãos” muçulmanos estão atrás da grade que a reportagem foi buscar as “irmãs”, membros do movimento.
Encontramos um trio no distrito de Nasr City, no Cairo. Uma delas é Wafaa Hefny, uma professora universitária, bastante expansiva.
“Nunca vou desistir”, diz ela. “Puxei o meu avô”.
Foi seu avô, Hassan al-Banna, quem fundou a Irmandade Muçulmana em 1928. Wafaa diz que o grupo está, na pior das hipóteses, em uma crise, mas está se adaptando à atual realidade.
“Toda a cúpula foi presa”, diz. “Em cada distrito, o primeiro, o segundo e até o terceiro grau de liderança foi preso. Mas nós já promovemos os substitutos. Não há lugar vago”, diz, com entusiasmo.

Sem divisão

A reportagem acompanhou Wafaa em uma visita a uma jovem viúva, Alshaimaa Abdallah, cujo marido foi morto em agosto.
Alshaimaa nos recebeu coberta com o hijab. Ela disse que seu marido não era um membro da Irmandade Muçulmana, era “apenas um devoto muçulmano, defendendo o Islã”.
Agora que ele está morto, Alshaimaa diz que ela e sua família estão prontos a se juntar à Irmandade Muçulmana.
Apesar da dura realidade, de ter de dizer ao filho de quatro anos que o pai morto “está viajando”, Alshaimaa se diz “otimista” com o futuro do Egito, dizendo que o país não vai se dividir.
“É muito difícil nos separar. Nos bairros, as pessoas são muito próximas às outras, mesmo se têm posições políticas diferentes”, diz.

Culto ao general Sisi

A realidade que se apresenta, no entanto, é de uma dolorosa e amedrontadora divisão na sociedade egípcia.
O que se vê, na terra dos faraós, é a busca por estabilidade e por um líder forte.
Quem tem se apresentado a assumir esse papel é o homem por trás da deposição de Morsi, o general Abdul Fattah al-Sisi, comandante do Exército.
Se Sisi se candidatar a presidente em 2014, e tudo indica que ele o fará, a previsão é que ganhe com folga.
Na praça Tahrir, onde a multidão derrubou o ex-presidente e líder militiar Hosni Mubarak, hoje outra pequena multidão clama para que outro militar seja conduzido ao poder.
“Te amamos, Sisi”, cantam os manifestantes, onde antes se ouviam gritos pedindo liberdade e democracia.
“Sisi é uma coroa na cabçea dos egípcios”, diz um velho homem na praça Tahrir. “Ele evitou um mar de sangue”.
No Egito, muitos dizem que Sisi evitou uma guerra civil ao depor Morsi. O culto ao general é tamanho que seu rosto estampa latas de óleo, pijamas, embalagens das mais variadas e até doces.
No Chocolate Lounge, um café popular entre os diplomatas, o rosto de Sisi enfeita cupcakes e macaroons. Segundo o dono do lugar, os produtos que homenageiam o general são os campeões de venda.

Menos esperança

Para quem lutou pela queda de Mubarak, todo esse culto a Sisi deixa um gosto amargo.
“O regime militar é a contrarrevolução”, diz Harara, o dentista que perdeu a visão.
“Eles ainda tentam controlar o país. O Exército nos enganou”, diz.
Há no Egito a sensação de que a revolução ainda não é uma obra acabada. Ainda que dois presidentes tenham sido derrubados em três anos, a velha ordem não foi demolida.
O Exército mantem o poder e a esperança de um novo Egito se dilui.
O país não está muito diferente de antes da revolução, segundo Tamara Alrifai, da ONG Human Rights Watch.
“A liberdade de expressão parece ter ficado pior que antes de 2011”, diz.
“Há pouco espaço para a oposição na imprensa e há uma onda de detenções e desaparecimentos de qualquer um que ouse desafiar a atual situação. É frustrante ver que quase voltamos ao ponto onde estávamos, três anos atrás”, diz.

‘Outro Mubarak’

No próximo ano, os egípcios vão votar por uma nova constituição, um novo presidente e um novo Parlamento.
À primeira vista, tudo parece dentro do rito democrático, mas essa não é a realidade, segundo analistas.
“Sisi controla a polícia, o Exército, o Judiciário e a imprensa”, me disse um analista independente, que não quis revelar o nome.
“Ele é popular e vai conseguir muitos votos. O temor é que, uma vez no poder, ele nunca vai querer sair. Sisi pode ser apenas um outro Mubarak”.

Morte e destruição em universidade

Incêndio em universidade no Cairo. AFP
Um estudante morreu depois após ativistas da Irmandade Muçulmana se enfrentarem com a polícia na Universidade al-Azhar. Mais de 60 pessoas foram presas.


Foi ateado fogo em prédios da universidade, durante um protesto de islamistas no local, que tentavam barrar a aplicação de um exame.



A polícia acusa a Irmandade Muçulmana pelo incêndio. O grupo diz que a polícia "está fabricando acusações".



O protesto de simpatizantes do presidente deposto Mohammed Morsi ocorre dias após o governo interino, imposto pelos militares, declarar a Irmandade Muçulmana um "grupo terrorista".


Ernst Bloch: “Viver o futuro no presente”

Ernst Bloch: “Viver o futuro no presente”



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Filósofo alemão do século XX é indispensável para compreender conceito contemporâneo de utopia: o “vir-a-ser” que convida a “astuciar o mundo”
Por Arlindenor Pedro
Às vezes me pego pensando no porquê de a língua alemã ter produzido uma gama tão grande de pensadores, artistas, e filósofos que contribuíram de forma tão expressiva para história da humanidade.
Desnecessário seria citar os nomes de Schiller, Kant, Hegel, Beethoven, Schopenhauer, Nietzsche, Marx,  Weber, Horkheimer, Adorno, Erich Fromm, Habermas, Walter Benjamim, e agora uma nova geração de marxistas como Robert Kurz, Anselm Jappe e tantos outros — gigantes nos seus objetos de estudo.
Alguém argumentou que isto se dá devido à estrutura da língua alemã, que se apresenta como extremamente prática e precisa na tradução de um pensamento, sendo para muitos uma ferramenta decisiva na criação e na “arte de filosofar”; concepção que tornou célebre a frase do filósofo Heidegger, quando disse que a filosofia só poderia ser escrita em duas línguas: o grego e o alemão.
Exageros à parte, pois sabemos que a produção cultural, artística e filosófica da humanidade vai muito além do que nos legaram os gregos e também o povo alemão, não deixo de me encantar com as ideias oriundas dos filósofos germânicos, notadamente  com o pensamento original do professor Ernst Bloch. Nascido em 1885, em Ludwigshafen, viveu 92 anos , encerrando sua vida em 4 de agosto de 1977, em Tubingen. Considerado um dos mais importantes pensadores marxistas alemães do século XX,  sua obra vastíssima incursionou por um vasto leque temas de relevantes.
Bloch conviveu com os maiores pensadores do século passado sendo por eles influenciado e certamente influenciando-os, por meio dos inúmeros estudos  que publicou: Entre estes, estão Lukács — com quem manteve uma relação de amizade, marcada por altos e baixos –, Simmel e Max Weber — os três participaram juntos de círculos de reflexão — e, mais tarde, Adorno, Walter Benjamin, Siegfried Kracauer, Bertolt Brecht, Hans Eisler, Kurt Weil e Otto Klemperer.
Durante sua vida, em vários momentos teve que se tornar refugiado, ora para fugir do alistamento militar na I Guerra Mundial, ora para fugir do nazismo, às vésperas da II Guerra,  ou mesmo para escapar, já no pós-guerra, escapar ao estalinismo da Alemanha Oriental, onde exercia importante cátedra  na  Universidade Karl Marx. Conheceu, portanto, picos de prestígio por seu valor acadêmico e o desprezo da intelectualidade do comunismo oficial, que o perseguiu por suas posições pouco ortodoxas no campo do marxismo.
O fato é que Ernst Bloch pouco se afinou com a visão economicista do marxismo oficial, desenvolvendo estudos em áreas por ela desprezadas , como a psicologia , arte e filosofia. Priorizou a visão de totalidade dos escritos  de Marx , colocada no esquecimento pela ortodoxia da Terceira Internacional. Para Bloch, a ação revolucionária, objetivo do marxismo, é justamente captar esses conteúdos e acioná-los em favor da liberdade. Vanguardas, para ele, são movimentos que conseguem explorar esses conteúdos, expressando-os antes que eles sejam confinados ao senso comum — tornando possível, assim, o exame  da ação adequada. Por isso é que, para ele, a utopia  é tão importante para o marxismo.
Nesse campo, sem dúvidas, sua obra mais importante é o  enciclopédico Príncipio Esperança, escrito em seu exílio nos Estados Unidos e publicado em 1956, quando já retornara à Alemanha.
Hoje, é impossível entendemos  o conceito moderno de utopia se não levarmos em consideração os estudos feitos nesta área por Ernst Bloch e  seu contemporâneo , o húngaro Karl Mannheim, notadamente com o clássico Ideologia e Utopia, onde se debruça sobre esses conceitos, tão presentes na vida moderna .
Mannheim entende que “as ideologias são idéias situacionalmente transcendentes que jamais conseguem de fato a realização de seus conteúdos pretendidos. Embora se tornem com frequência motivos bem intencionados para a conduta subjetiva do indivíduo, seus significados, quando incorporados efetivamente à  pratica, são, na maior parte, deformados.
A ideia do amor fraterno cristão, por exemplo, permanece, sob uma sociedade fundada na servidão, irrealizável. Nesse sentido, é uma ideia ideológica, mesmo quando o significado pretendido constitui, em boa fé, um motivo de conduta do indivíduo. E impossível viver harmoniosamente, à luz do amor fraterno cristão, em uma sociedade que não se acha organizada sob o mesmo princípio. O individuo se vê, em sua conduta pessoal, sempre forçado — à medida em que não ocorre a ruptura da estrutura social existente — a renunciar a seus motivos nobres.”  (in Ideologia e Utopia).
Devido a seu papel de incongruência — isto é, dissonância com a ordem estabelecida — as utopias passam então  a ter um relevante papel como motor do processo histórico, isto é, da busca por mudanças. Estariam elas, entendo, no campo das pulsões, conceito presente nas obras de Ernst Bloch principalmente em Principio Esperança.
Ali, ele nos propõe a visão da existência de um nexo entre as potencialidades “ainda-não-manifestas” e a atividade criadora da “consciência antecipadora”. Isto é, podemos equacionar problemas atuais em sintonia com as linhas que antecipam o futuro. O conceito blochiano de superação “do que-já-se-efetivou” pela esperança “do que ainda-não-veio-a-ser”, torna-se um importante elemento para entendermos o papel das utopias no desenvolvimento das sociedades.
O “ainda-não-ser” — categoria fundamental da filosofia blochiana da práxis — baseia-se na teoria das potencialidades imanentes do ser que ainda não foram exteriorizadas, mas que constituem uma força dinâmica que projeta o ente para futuro. Imaginando, os sujeitos “astuciam o mundo”. O futuro deixa de ser insondável para vincular-se à realidade como expectativa de libertação e desalienação.
Bloch nos diz que, ao contrário do que a psicanálise freudiana procura ensinar, não está no passado o único elemento de entendimento do comportamento humano no “presente-vivido”. Na verdade, no presente, o individuo vive já o futuro, que está presente nas suas ações e comportamentos — isto é, suas utopias. Quanto menos se tem utopias, menos se vive o futuro no presente, vivendo-se apenas no campo das ideologias, formatadas pela realidade social que nos cerca.
Mas,  é importante, porém, diferenciarmos o  que é imaginação e o que é fantasia: na primeira tendemos a criar um imaginário alternativo; já na segunda nos alienamos num conjunto de imagens exóticas em que procuramos compensar uma insatisfação vaga e difusa da realidade por outra imagem irreal. A imaginação é um elemento decisivo na luta contra a opressão. O ato de imaginar aclara os rumos e acelera as utopias. Eis aí, portanto, uma visão que vai além do conceito mecanicista  de luta de classes desenvolvido pelos teóricos de plantão da Terceira Internacional.
Princípio Esperança é uma obra instigante e apaixonante. Leva ao entendimento das diferenças entre o “sonho noturno” , objeto de estudo das importantes  descobertas de Freud,  e os “sonhos diurnos” , elementos transformadores , impulsionadores da história. Em alguns momentos, a obra de Bloch assemelha-se com outro importante livro, lançada em 1959. Trata-se de Visão do Paraíso – Os motivos edênicos no descobrimento e colonização do Brasil, de nosso Sérgio Buarque de Holanda. Aí ele analisa o imaginário das utopias, das lendas paradisíacas do século XVI na Europa, que impulsionaram subjetivamente as grandes navegações, levando-nos a fazer a pergunta: será que estes autores se conheceram? Suas obras são tão relevantes e se tocam em tantas questões!
Olhando para ambas, dificilmente deixamos de nos indagar:  não será a utopia o elemento impulsionador das navegações portuguesas? Se não assim, como entender que um país tão diminuto e frágil tenha se lançando em uma aventura de tamanha dimensão?
Fernando Pessoa  é um dos maiores poetas da língua portuguesa. Em sua obraMensagem, onde se destaca o poema O Quinto Império, ele retrata bem o espírito português, que vê na expansão para o ultramar um momento épico da nacionalidade, que se propôs levar ao mundo uma nova civilização, com os valores extraídos dos povos celtas, românicos, mouros e visigóticos. Isto também pode ser percebido em outro grande gigante da poesia épica lusitana — Camões –, que, nos Lusíadascompreendia  a Península Ibérica como o final da terra, onde começava o grandioso e misterioso mar: “Onde a terra se acaba e o mar começa” (Camões, in Lusíadas, III, 20)
Era inevitável, portanto, que surgisse naquele povo, no seu ideário, a necessidade de se lançar à mar, onde a terra terminava. Era o infinito que atraía coletivamente a todos — afinal, o que existiria além-mar?   Além dos interesses materiais envolvidos no processo de expansão, percebemos que, naquele momento, amalgamou-se no imaginário português a utopia do 5º Império que ajudou a unir o país — o povo e as elites — num sonho único, capaz de realizar tanto a nacionalidade quanto o indivíduo, dando-lhes condições para tão grandiosa empreitada. Foi um momento mágico, único. Aquele momento em que a nação como um todo é capaz de executar e tornar vitorioso um grande desafio. As pulsões do que nos fala Ernsth Bloch.
Enquanto esta utopia esteve viva — durante a dinastia de Aviz –, Portugal conseguiu unidade. Suponho, portanto,  que no período entre o início do reinado de D. João I e a morte precoce do jovem rei D. Sebastião, desenrole-se o profundo drama da nacionalidade lusitana. Referindo-se esses tempos, Oliveira Martins, na obra Os filhos de D. João I”, retrata esta dramaticidade, quando da decisão de D. João em invadir Ceuta:
“Estava o rei com os infantes em Sintra, talvez naquela pequena câmara forrada de azulejos também, que a tradição diz ter sido o lugar de D. Sebastião no Conselho decisivo na campanha de Alcacér Quibir. Nesta câmara devia ser, para que num mesmo lugar se resolvessem as duas expedições: a que abre e a que encerra o círculo mágico de nossa vida gloriosa. Desde os tempos misteriosos da Caldeia, esse berço de todas as adivinhações, o anel representado pela serpente devorando-se a si própria, foi a imagem simbólica da vida no seu ritmo fatal, voltando ao ponto de partida, acabando por onde começara…”( in Os filhos de D. João I, Oliveira Martins,1998) .
“Negar que durante os três séculos da dinastia de Avis a nação portuguesa viveu de um modo forte e positivo, animada por um sentimento arreigado da sua coesão interna, seria um absurdo. Essa coesão que fora ganha nas lutas e campanhas da primeira dinastia perde-se no XVI século, por causa das consequências do império oriental e da educação dos jesuítas. Portugal acaba: Os Lusíadas são um epitáfio.” (in Historia de Portugal, Oliveira Martins, 1972).
Na atualidade, vejo que as utopias  estão de volta no imaginário do mundo global e  elas ganham uma feição pós-capitalista — um novo mundo fora dos padrões da sociedade da mercadoria.
A crise que varre o mundo globalizado acelera estas utopias e cada vez mais arrasta pessoas para um “sonho diurno”, tirando-as do torpor da vida de autômatos-consumistas. Após as derrotas das utopias do século XX, do socialismo real, do nazismo e do fascismo, surgem propostas de um viver agora, já, neste momento, diferente do que nos impõem a sociedade erigida pela burguesia liberal. Nesse sentido os conceitos blochianos têm um imenso valor e são instrumentos importantes para a rebeldia que leva à revolução.
Desta forma, iniciativas que passam desde a formação de Zonas Autônomas, a encontros periódicos como os Rainbows, até a grandes ou pequenas manifestações que atingem a essência  do sistema como a proposta do Passe Livre, jogam um importante papel na busca dessa utopia, pois o desmoronamento desse mundo não se fará de uma única forma ou em um único momento. Ele é fruto da  ação de milhões de pessoas que, em rede, conectadas por um sentimento de mudanças  paralisarão o sistema. Tal processo já se torna visível com as crise do sistema financeiro, do sistema produtivo, no mundo do trabalho e de valores éticos que levam a sociedade para a barbárie e apontam para grandes colapsos energético e ambiental. Não queremos mais isto, é um grito que ecoa com grande intensidade em todo o planeta!
Como era de se esperar, prevalece o instinto de sobrevivência humana que impulsiona os escravos para a rebeldia.

O bagaço da terra - O gás de xisto permite aos Estados Unidos reduzir as importações de petróleo, mas pode ser um desastre. Por Antonio Luiz M. C. Costa

O bagaço da terra



O gás de xisto permite aos Estados Unidos reduzir as importações de petróleo, mas pode ser um desastre. Por Antonio Luiz M. C. Costa

por Antonio Luiz M. C. Costa — publicado 28/12/2013
Petróleo Estados Unidos
Plataforma de petróleo perto da cidade de Tioga, no Estado da Dakota do Norte. A produção de petróleo dos Estados Unidos vai bater seu próprio recorde em 2016  Karen Bleier / Arquivo / AFP


A produção de gás e petróleo de xisto pelo fracking, ou fratura hidráulica, foi recebida nos Estados Unidos, na Argentina e em alguns países europeus e asiáticos como uma panaceia contra o esgotamento das reservas de petróleo, a dependência das importações de energia e até o efeito estufa. Para muitos ambientalistas, porém, é uma catástrofe ecológica, o encerramento mais desastroso que se poderia imaginar para a era dos combustíveis fósseis. Talvez seja também uma ilusão, uma bolha especulativa destinada a estourar.
Trata-se de uma técnica para aproveitar gás ou petróleo de camadas de xisto, rocha impermeável à produção convencional.
Perfura-se um poço que na parte final é horizontal e por ele se injeta um fluido que amplia as fraturas do substrato rochoso para abrir caminho aos hidrocarbonetos nele encerrados. Usa-se geralmente uma mistura de água, areia e produtos químicos, trazida por caminhões-cisternas. A função dos grãos de areia é manter as rachaduras abertas e a dos aditivos inclui aumentar a viscosidade do líquido para transportar esses grãos com mais eficiência, reduzir a fricção e prevenir a corrosão e a multiplicação de bactérias. É como espremer o bagaço de um planeta que já deu suco.
O processo foi inventado em 1947 e usado comercialmente pela primeira vez em 1949, mas na maioria dos casos o procedimento só é lucrativo quando o petróleo está acima dos 70 dólares por barril. Foi no início do século XXI que a alta sustentada do preço do petróleo e a disponibilidade de redes de gasodutos estimularam seu uso nos Estados Unidos, onde saltou de 1% para 29% da produção. As importações, depois de terem atingido quase 14 milhões de barris/dia em 2006, declinaram para 10 milhões em meados de 2013. Segundo projeções da Agência Internacional de Energia, em 2014 o país superará a Rússia na produção de hidrocarbonetos e em 2020 ultrapassará a Arábia Saudita e retomará o primeiro lugar perdido em 1971, quando sua produção começou a declinar. Isso não faria dos EUA um exportador líquido, dado o consumo imenso, mas reduziria sua importação, que ficaria restrita ao Canadá e México. A América do Norte em conjunto poderá exportar petróleo por volta de 2030.
Em setembro de 2013, a China, desde 2009 a maior compradora do petróleo do Golfo Pérsico, provavelmente ultrapassou os EUA como maior importador líquido do mundo. Hoje, o envolvimento de Washington no Oriente Médio garante menos o seu próprio abastecimento do que o de Pequim – e, é claro, o dos aliados europeus e asiáticos dos EUA. Ao mesmo tempo, os defensores dofracking dizem ter contribuído para reduzir o efeito estufa, ao permitir a substituição de algumas termoelétricas a carvão por outras a gás, que emitem menos dióxido de carbono por megawatt-hora.
Desse ponto de vista, a exploração do gás de xisto parece um sucesso. Mas a que preço? Do ponto de vista ambiental, não sai de graça. Cada poço suporta, em média, 18 extrações, cada uma das quais requer de 4 mil a 30 mil metros cúbicos de água. É uma quantidade muito significativa, quando multiplicada pelo meio milhão de poços abertos nos EUA. Em áreas de reservas de água superexploradas, principalmente onde a mudança climática se combina com consumo excessivo, essa pode ser a gota que esvazia o copo. No Texas, 15 milhões vivem sob racionamento e 30 comunidades ficarão totalmente sem água até o fim de 2013, devido ao bombeamento de poços para abastecer a indústria petroleira. Fazendas de gado desapareceram, pomares morreram por falta de água para irrigá-los.
Mesmo onde a água não escasseia, ela pode ser contaminada. Os poços são normalmente revestidos de aço e cimento para evitar vazamentos, mas mesmo assim o subsolo é em muitos casos contaminado pelo gás e pelos aditivos. Isso torna a água inutilizável e inviabiliza a agropecuária na superfície. Além de liberar metano, um poderoso gás de efeito estufa. Em Dimock, na Pensilvânia, a água da torneira, impregnada de metano, pegava fogo, um poço de água explodiu e vários moradores tiveram problemas de saúde. Uma dessas famílias fez com a empresa responsável, a Range Resources, um acordo judicial pelo qual recebeu uma indenização de 750 mil dólares, mas foi proibida de falar sobre exploração de xisto pelo resto da vida, inclusive os filhos do casal, de 9 e 7 anos de idade.
Durante algum tempo, as famílias afetadas foram abastecidas por uma das empresas com água engarrafada, mas, no fim de 2011, o fornecimento foi interrompido e a Agência de Proteção Ambiental foi chamada a intervir. Constatou a contaminação da água da região com arsênico e impôs uma moratória na atividade do estado. O cinema abordou o problema no documentárioGasland, de Josh Fox (2010), e no drama Terra Prometida (Promised Land), de Gus Van Sant (2012).
Outra possível consequência negativa da exploração são os tremores de terra. Na Inglaterra, um tremor de 2,3 graus na escala Richter, produzido por um poço exploratório, levou a outra moratória no uso da técnica em 2011. No Canadá, ocorreu um tremor de 3,8 graus pelo mesmo motivo, no mesmo ano. São tremores relativamente pequenos, mas em grau um pouco superior poderiam produzir sérios danos em regiões onde as construções não previram risco sísmico.
Se isso é problema para áreas rurais de baixa densidade demográfica, pode ser muito pior onde a população é mais densa e a água e as terras agrícolas, mais escassas. Nova York, Ohio, Quebec (Canadá), Nova Gales do Sul (Austrália) e África do Sul proibiram temporariamente o fracking, assim como a França, a Bulgária e governos locais da Irlanda, Holanda, Espanha e Alemanha. A pressão em favor do processo é, porém, muito forte em países com reservas significativas e produção de gás e petróleo convencionais em declínio. Nos EUA e na Europa, os ambientalistas que o combatem são acusados de trabalhar para Vladimir Putin, crítico interessado dos riscos do método cujo uso tende a reduzir o preço do gás e a demanda europeia e chinesa pelas exportações da estatal russa Gazprom.
Na Argentina, dona da segunda maior reserva de gás de xisto do mundo (depois da China), 67 vezes maior que o que resta de gás convencional, o fracking promete recuperar a produção em queda da reestatizada YPF e restaurar a autossuficiência nacional em hidrocarbonetos, vital para um país com déficit crônico de divisas. Ali, manifestantes e governos locais contrários são tidos pelos governistas como aliados da direita. Essa discussão ainda mal começou no Brasil, que tem a décima maior reserva do gênero (17 vezes maior que a de gás convencional) e, apesar da prioridade ao pré-sal, da falta de uma rede de gasodutos e do risco de contaminação, serão leiloadas no fim de novembro concessões de gás de xisto nas bacias do Paraná, Parecis, Parnaíba, Recôncavo, Acre e São Francisco.
Outra questão: por quanto tempo a festa vai durar? A experiência é curta, mas, no início de 2012, geólogos começaram a alertar que a confiabilidade e a durabilidade das jazidas ficam aquém do esperado. O rendimento dos poços cai de 60% a 90% após um ano de exploração, enquanto a produção convencional cai 50% em dois anos e pode ser bombeada por mais de 20 anos. Além disso, os novos poços tendem a ser menos produtivos que os primeiros. Em oposição às previsões do setor, a Global Sustainability estimou que os EUA terão de perfurar 6 mil poços anuais, a um custo de 35 bilhões de dólares, para manter a produção, que mesmo assim atingirá o teto em 2017 e cairá rapidamente. Nesse caso, o fracking será uma ilusão dispendiosa, adiará investimentos indispensáveis em energia sustentável e deixará atrás de si apenas uma terra arrasada, no sentido tanto financeiro quanto literal.

sábado, 28 de dezembro de 2013

VENHA PARA O MUNDO DE MARLBORO - Por trás do maço de cigarros escondem-se histórias de agricultores explorados

VENHA PARA O MUNDO DE MARLBORO

China oficializa mudança na política de filho único

China oficializa mudança na política de filho único


Atualizado em  28 de dezembro, 2013
Chinesa com filho
Política do filho único foi adotada nos anos 1970 para conter crescimento populacional

O Congresso Nacional do Povo da China, órgão legislativo máximo do país, aprovou formalmente neste sábado a resolução que relaxa a política oficial de filho único.
A reforma, que já havia sido antecipada em um encontro do Partido Comunista em novembro, permite que casais possam ter até dois filhos se ao menos um dos pais for filho único.
Espera-se que a mudança ocorra de forma gradual em várias partes do país, já que as autoridades provinciais poderão tomar suas próprias decisões sobre quando implementar a mudança de acordo com a situação demográfica local.
A China, país mais populoso do mundo, com quase 1,4 bilhão de habutantes, tem hoje uma taxa de natalidade de apenas 1,5 criança por mulher em idade fértil - taxa de fato mais alta do que a de muitos de seus vizinhos regionais, como Taiwan, Japão e Coreia do Sul.
Níger, na África, tem a maior taxa de natalidade do mundo, com 7 filhos por mulher, enquanto a Índia, o segundo país mais populoso do mundo, tem uma taxa de 2,55 filhos por mulher. No Brasil, a taxa é de 1,81.

Envelhecimento

A China adotou sua política oficial de filho único nos anos 1970, com o objetivo de conter a rápida expansão populacional.
Mas a regra se tornou bastante impopular com o tempo. Além disso, as autoridades chinesas temem que o envelhecimento da população reduzirá a disponiblidade de mão de obra e poderá exacerbar os problemas para o cuidado com os idosos.
Até 2050, mais de um quarto da população chinesa terá mais de 65 anos.
A política de filho único tem sido aplicada com rigor, apesar de algumas exceções já existirem, incluindo uma que se aplica a minorias étnicas.
Reformas anteriores também permitiram que casais tivessem um segundo filho se ambos os pais fossem filhos únicos ou, em caso de moradores das áreas rurais, se o primeiro filho fosse uma menina.
A tradicional preferência por meninos criou um desequilíbrio entre o número de homens e mulheres, já que alguns casais optam por abortos seletivos de acordo com o sexo do bebê.
Até o final desta década, os demógrafos calculam que a China terá 24 milhões de homens a mais do que de mulheres em idade de reprodução.

Campos de trabalho

Além da mudança da política de filho único, o Congresso Nacional do Povo também aprovou neste sábado a decisão deechar os campos de trabalhos forçados para condenados. O sistema era alvo de fortes protestos por parte de grupos internacionais de defesa dos direitos humanos.
A mídia estatal chinesa afirmou que o desenvolvimento do sistema legal do país havia tornado os campos "supérfluos" e assinalou o final de sua "missão histórica".
A rede de campos de trabalhos forçados, criados nos anos 1950 inspirados pelo Gulag soviético, permitia à polícia chinesa enviar qualquer pessoa à prisão por até quatro anos sem um julgamento.
Uma condenação ao campo de trabalho forçado era quase impossível de ser revertida.
A China tinha 260 campos com cerca de 160 mil prisioneiros no total no início deste ano, segundo dados do Ministério da Justiça e da organização internacional Human Rights Watch.
A maioria dos detidos foram presos por crimes relacionados a drogas.

Menor bom é menor preso?

Menor bom é menor preso?



Nove em cada dez brasileiros são favoráveis à redução da maioridade penal, a despeito da oposição do governo federal, de juristas, da Igreja Católica e de organizações de direitos humanos

por Rodrigo Martins — publicado 27/12/2013
Maioridade
O que explica tanto clamor pelo encarceramento dos adolescentes infratores?  Marcelo Cipis

No início de abril, o universitário Victor Hugo Deppman, de 19 anos, foi abordado por um rapaz armado na porta de casa, em São Paulo. Mesmo após entregar o celular, sem esboçar qualquer reação, acabou executado com um tiro na cabeça. A morte brutal logo ganhou destaque na mídia e reacendeu um debate que se arrasta há mais de duas décadas no Brasil, sempre de volta à baila quando a classe média se vê vítima de novo ato de barbárie: a redução da maioridade penal. O assassino, soube-se mais tarde, era um adolescente infrator reincidente. Ele assumiu a autoria do crime, ocorrido três dias antes de completar 18 anos. Como não havia atingido a idade para a responsabilização criminal, voltou a cumprir medida socioeducativa na Fundação Casa. Antes dos 21 anos, deve estar solto, como determina o Estatuto da Criança e do Adolescente.
Diante da repercussão na mídia e em meio aos protestos convocados por amigos e familiares, o instituto Datafolha saiu às ruas para aferir a opinião da população quanto à possibilidade da redução da maioridade penal, prevista em mais de 50 projetos em tramitação no Congresso. O resultado: 93% dos paulistanos mostraram-se favoráveis à responsabilização criminal de jovens a partir dos 16 anos, e não mais aos 18, como determina a atual legislação. A adesão maciça à ideia poderia ser influenciada pelo calor dos acontecimentos. Mas, passados dois meses, o Vox Populi voltou às ruas com a mesma pergunta, dessa vez em uma pesquisa de abrangência nacional. A conclusão foi estarrecedora: 89% dos entrevistados acham necessário encarcerar os adolescentes infratores.
Um consenso popular que desafia as políticas públicas em voga na sociedade. O resultado das pesquisas contraria a posição defendida pelos governos Lula e Dilma, a opinião de juristas que enxergam na proposta um “populismo penal”, o entendimento da Igreja Católica e de incontáveis organizações de defesa dos direitos da criança e do adolescente, a vislumbrar na redução da maioridade penal mais malefícios que benefícios. Curiosamente, nenhum outro tema polêmico da agenda nacional mobiliza tamanha concordância da população. Segundo diferentes pesquisas, proposições como pena de morte e casamento gay, por exemplo, costumam dividir a população ao meio. Ao menos um quarto defende a legalização da maconha ou a descriminalização do usuário de drogas. O que explicaria, então, o aparente paradoxo lógico? Por que boa parte da população que se mostra liberal em temas igualmente polêmicos é tão taxativa quando se trata de prender adolescentes como bandidos comuns?
“Não se pode dizer que todos os que apoiam a redução da maioridade penal são conservadores ou reacionários. Dentro de um universo tão amplo, há seguramente cidadãos com posições progressistas em relação a direitos civis e individuais, mas que se sentem acuados pela violência e seduzidos por soluções mágicas”, avalia o cientista político Marcos Coimbra, diretor do Vox Populi. “No mundo todo, há uma predisposição da opinião pública a acreditar que a violência só vai reduzir com mais repressão, mais prisões e penas mais duras. E não há uma defesa enfática do argumento contrário. Com a espetacularização dos crimes cometidos por menores na televisão, quem se dispõe a dizer abertamente que a prisão para os adolescentes não é justa?”
Especialistas, ONGs de direitos humanos e organismos internacionais bem que tentam demonstrar as falácias da proposta. “Os adolescentes são mais vítimas que autores de violência. Em 2011, eles foram responsáveis por, aproximadamente, 1,8 mil homicídios, 8,4% do total. No mesmo ano, 4,3 mil jovens entre 12 e 18 anos incompletos foram assassinados. Mas quando um garoto negro é morto na periferia poucos dão atenção. A mídia costuma dar destaque apenas quando cidadãos de classe média ou alta são as vítimas”, critica Mário Volpi, coordenador do programa de Cidadania dos Adolescentes do Unicef, ligado às Nações Unidas. “Em 2011, os homicídios cometidos por menores representaram 3,7% do total de casos no Brasil. Nos EUA, onde diversos estados tratam adolescentes como adultos, inclusive na eventual aplicação de pena de morte ou prisão perpétua, eles foram responsáveis por 11% dos assassinatos.”

Na avaliação do advogado Rafael Custódio, da ONG Conectas, o que está em jogo é a política penal que o Brasil pretende adotar. Se o foco é punitivo, o País tende a seguir o exemplo americano de encarceramento em massa. Trata-se de uma abordagem distinta do direito restitutivo, que preconiza a recuperação dos infratores para a futura reinserção social. “É impossível de isso ser feito num presídio comum, ainda mais com a atual superlotação. Hoje, a população carcerária brasileira é superior a 550 mil detentos, e há um déficit de 200 mil vagas. O Estado não garante a segurança dos presos, eles são alvo de extorsões do crime organizado. Para sobreviver nesse ambiente hostil, muitos se associam a facções criminosas.”

De fato, não parece fazer sentido jogar os 60 mil jovens que cumprem medidas socioeducativas em presídios convencionais se o objetivo é tirá-los do crime. Ainda que 43,3% deles sejam infratores reincidentes, no encarceramento adulto a média é ainda pior. Sete em cada dez presos que deixam o sistema penitenciário voltam ao crime, uma das maiores taxas de reincidência do mundo. Mas não deixa de ser legítima a preocupação da população com sua própria segurança, afirma Renato Janine Ribeiro, professor de Ética e Filosofia da Universidade de São Paulo. “Se a redução da maioridade penal não é boa, qual é a melhor opção? Deixar tudo como está? Estamos perdendo tempo com esse sim ou não para a mesma proposta, e os chamados ‘setores progressistas’ não apresentam alternativas.”

O filósofo teme que a solução simplista de reduzir a idade penal apenas sirva para antecipar a prática delituosa entre os adolescentes. Caso a maioridade passe a valer a partir dos 16 anos, por exemplo, o que garantiria que o tráfico não passasse a aliciar jovens de 13 ou 14 anos, por exemplo? De toda forma, propõe uma alternativa: “Quando um adulto alicia um menor para praticar um roubo e o adolescente mata uma pessoa, o adulto deveria ser responsabilizado pelo homicídio. O mesmo deveria valer para qualquer outro crime”.

A busca por opções também levou o vereador paulistano Ari Friedenbach (PPS) a propor outra inovação. Em 2003, ele sofreu com o brutal assassinato de sua filha Liana, de 16 anos, caso em que houve a participação de um adolescente. Defensor ardoroso da redução da maioridade penal, mudou de opinião. “É ineficaz, pois estimula os criminosos a recrutar adolescentes ainda mais novos”, pondera. “Mas não posso conceber que um estuprador ou um homicida de 16 anos cumpra no máximo três anos de internação. Por isso, acho que para cinco crimes de maior potencial ofensivo (homicídio, latrocínio, estupro, roubo à mão armada e sequestro) o adolescente deve, sim, ser julgado e condenado. Permanece numa instituição como a Fundação Casa até completar 18 anos e depois termina de cumprir a sentença num presídio comum.”

A proposta livraria da cadeia adolescentes envolvidos com pequenos furtos ou com tráfico de drogas, por exemplo. Estes continuariam a cumprir medidas socioeducativas nos moldes atuais. Mas o texto proposto pelo vereador ainda espera alguém disposto a apresentá-lo no Congresso. E os mais conservadores insistem na punição ampla e irrestrita. “Criança é quem toma mamadeira, faz xixi no colo da mãe e dorme no berço. Quem rouba, mata e estupra é bandido e ponto”, esbraveja o senador Magno Malta, autor de um projeto que prevê a responsabilização criminal de qualquer cidadão, independentemente da idade. Da Assembleia Legislativa de São Paulo, o deputado estadual Campos Machado puxa um abaixo-assinado para tentar emplacar um plebiscito sobre o tema. “É uma forma de furar a blindagem do governo federal, que impede a discussão do tema no Congresso. Vamos deixar o povo decidir.”

Se a disputa política assemelha-se a uma briga de foice, no meio jurídico o cenário não é tão distinto. Ministros do Supremo Tribunal Federal, como Gilmar Mendes e Marco Aurélio Mello, já se manifestaram contra a alteração das regras. Mesma opinião tem o presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), Nelson Calandra. “O sistema carcerário está superlotado, não é possível botar mais gente.” Mas uma pesquisa feita pela entidade em 2006, com mais de 3 mil entrevistados, revelou que 61% dos juízes brasileiros são favoráveis à proposta. Entre os promotores, a divergência também é grande. “Jogá-los na cadeia não resolverá nada, precisamos recuperar esses jovens”, opina o promotor paulista Fernando Henrique de Moraes Araujo, com 14 anos de experiência na Vara de Infância e Juventude. “É chocante a legislação permitir a impunidade dos adolescentes enquanto a violência está grassando na sociedade”, rebate o colega Oswaldo Monteiro da Silva Netto.

E um equívoco dizer que os menores infratores estão impunes. Se o cumprimento das medidas socioeducativas não está surtindo o efeito esperado, devemos reavaliar o trabalho feito com os jovens, e não jogá-los numa cela”, avalia a defensora pública paulistana Juliana Ribeiro. “As instituições que abrigam os infratores não funcionam adequadamente. Os monitores portam-se como carcereiros.

A escola reúne em uma mesma sala adolescentes de diferentes níveis de aprendizado. Os psicólogos e assistentes sociais estão sempre sobrecarregados. E são corriqueiras as denúncias de agressão contra os internos. Cansei de ver garotos com sinais de espancamento, cabeça rachada... É esse tratamento que precisa ser revisto, e não a legislação.”