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quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Primavera ultraortodoxa? - Judias desafiam a tradição religiosa para se lançar na política. Por Marsílea Gombata, de Kfar Saba, Israel

Primavera ultraortodoxa?


Judias desafiam a tradição religiosa para se lançar na política. Por Marsílea Gombata, de Kfar Saba, Israel

por Marsílea Gombata — publicado 30/10/2013
De Kfar Saba, Israel
Ruth Israel
Ruth em um de seus atos políticos. Ela enfrenta resistência da família e da sociedade

Quando decidiu se lançar à política, a judia ultraortodoxa Ruth Colian teve de encontrar mais do que coragem para reunir forças contra as vozes contrárias dentro de sua própria religião. Foi preciso encarar também a oposição da família e dos amigos mais próximos. “‘Cuidado ao sair na rua' era o que eu mais ouvia”, conta. “Eles, na verdade, não gostaram muito e ficaram bastante preocupados.”
Aos 32 anos, Ruth é pioneira de um movimento que gosta de chamar de Haredi Spring – ou Primavera Ultraortodoxa – no qual as mulheres religiosas desafiam a tradição em nome de maior participação nas decisões políticas e na vida social. Nas últimas eleições municipais, na semana passada, ela esteve bem perto de realizar o sonho de se tornar a primeira ultraortodoxa a concorrer à Câmara Municipal da cidade de Petah Tikva, a pouco mais de 11 km de Tel Aviv. “As mulheres também são responsáveis por seu futuro e devem tomar as rédeas do rumo de suas vidas”, explicou. “Nós podemos e devemos estar na política.”
Ruth, que divide seu tempo entre o marido, os quatro filhos, seu trabalho e os estudos - cursa o segundo ano de direito no Ultra Orthodox (Haredi) Campus – é filha de iemenitas que deixaram o estilo de vida do judaísmo ultraortodoxo quando ela era criança. A tradição, no entanto, foi retomada mais tarde por ela mesma, quando tinha 19 anos.
A tentativa de se candidatar a partir de uma legenda ultraortodoxa – como Shas, Degel Ha Torah e Yadut Ha Torah – não foi, no entanto, a primeira manifestação de seu viés politizado. No início do ano, Ruth caminhou de Peth Tikva até o Knesset (Parlamento israelense) para protestar contra a decisão do governo de suspender uma lei que a teria beneficiado e permitido que comprasse seu apartamento. Além disso, desafiou publicamente autoridades religiosas em um episódio de suspeita de maus tratos de animais nos certificados kosher (de alimentos preparados segundo as leis judaicas).
Não foi a falta de empenho, no entanto, que a impediu de concorrer. Obstáculos diversos, como a falta de apoio dentro da comunidade religiosa e a verba escassa, deixaram-na a poucos passos de ser candidata de um partido haredi. “Não me permitiram concorrer pelo fato de eu ser mulher”, contou entre lágrimas. “Apesar de algumas mulheres se mostrarem contentes com a minha iniciativa de buscar igualdade de gênero e tomar posse dos meus direitos, a maior parte das pessoas me disseram para abandonar a ideia.”
De acordo com os dogmas ultraortodoxos, as mulheres são impedidas de participar da vida política e da vida social de forma tão ativa e protagonista como os homens. Como lembrou o rabino Idan Itzjak, também prefeito da cidade ultraortodoxa de El’ad, a 25 km de Tel Aviv, “às mulheres cabe a função na sociedade religiosa de cuidar dos filhos e da família”.
Na vida prática, Ruth disse ter sido hostilizada por seu ativismo. A pressão a levou a mudar seus filhos de uma escola tradicional para uma menos religiosa. “Sei que o que estou fazendo hoje é para o futuro dos meus filhos amanhã”, disse. “Não quero mudar o sistema, estou apenas buscando meus direitos. Espero que minha luta como uma haredi feminista seja um grande despertar para as mulheres se darem conta de que podem fazer mais.”
Corte. Sua batalha para entrar na vida política ainda não está perdida. Apesar de não ter conseguido alcançar todas as assinaturas necessárias e apoio para se candidatar a vereadora, Ruth agora tenta o Judiciário para pedir o fim da exclusão de candidatas mulheres nos partidos ultraortodoxos.
No dia 6, ela e seu advogado, Jonathan Ginat, têm uma audiência na Suprema Corte de Justiça, na qual se julgará a petição apresentada por Ruth. Ela pede que o Estado não provenha fundo para os partidos políticos que vetam candidatas mulheres, baseado no argumento principal de discriminação de gênero apoiada pelo Estado israelense.
“O principal objetivo de Ruth é um importante passo na direção da igualdade de gênero entre homens e mulheres. Por isso aceitei defendê-la nessa empreitada nada fácil”, explicou Ginat, que trabalha no escritório Galanti, Sudri & Datz, com sede em Haifa, no norte de Israel. “A sociedade haredi não vê a mulher como igual e não creio que esteja pronta para ter uma mulher em uma posição tão importante. Pedir por igualdade entre os ultraortodoxos é uma revolução bem grande.”
A sessão na Suprema Corte será aberta ao público. O caso será analisado por três juízes, sendo a presidente da mesa uma mulher. “Se tivermos êxito, a decisão da Corte forçará os partidos haredi a reconsiderar sua posição. Será o início de uma mudança, ainda que lenta.”

Perguntar não ofende - Qual policiamento queremos? Como reagir à agressão? Votar é inútil? Estamos condenados ao massacre? As perguntas levantadas pelo Brasil ao longo de 2013

Perguntar não ofende


Qual policiamento queremos? Como reagir à agressão? Votar é inútil? Estamos condenados ao massacre? As perguntas levantadas pelo Brasil ao longo de 2013

por Matheus Pichonelli — publicado 30/10/2013


Nunca antes na história deste país foram levantados tantos questionamentos sobre qualquer sentença – inclusive esta. Em um período em que tudo muda rapidamente e nada é feito para durar, o brasileiro em 2013 parece ter condensado no liquidificador uma espécie de espírito de desconfiança e vigilância sobre praticamente todas as respostas para o que funciona, o que não funciona, o que só supostamente funciona e o que nunca funcionará.
Contesta-se quem contesta, quem não contesta, quem contesta quem contesta, quem contesta quem não contesta quem contesta. Pelas ruas e pelas redes, ficou praticamente impossível caminhar sem tropeçar em qualquer forma de desconfiança. O que isso significa? Aprendemos a pensar? A operar pela lógica? Estamos ouvindo ou estamos só falando? Estamos argumentando ou estamos impondo ideias?
Quantos lados tem uma história? Onde a tese? Onde a antítese? Onde a síntese? Duas verdades ocupam o mesmo espaço? É certo falar em ação e reação? É certo falar no que é certo? A lei da física funciona para as ruas? Ou só funciona para as pedras?
A violência tem quantos lados? É este policiamento que queremos? A polícia que diz matar sem querer será devidamente punida? E a que mata por querer? Ela protege ou amedronta? Organiza ou intimida? Ela pergunta antes de atirar? Foi treinada para isso? Será sempre assim? Ela reconhece no algoz a vítima? E a humanidade da vítima? E na suposta vítima? E no suposto culpado? E no rendido? E em quem não se nega a se render? E no Beagle?
Este policiamento está satisfeito em atuar como bedel de faculdade? E em babá de torcedor? Em vigia de patrimônio sem carne e osso?
Quem é o vândalo? Quem bate ou quem apanha?
A violência à violência é sempre legítima? Existe violência legítima? A ação é sempre um ato de coragem? Ou ela pode também ser covarde? Estamos generalizando a generalização? Estamos hierarquizando a agressão? A generalização é uma agressão? Estamos ignorando a maioria? Perdemos o controle sobre a minoria?
A mídia só mostra uma versão? De que mídia estamos falando? A mídia legitima o massacre? Instrumentaliza? A culpa é só dela? O ódio explica tudo? O ódio é monopólio da direita? Que força tem a direita? O que simboliza a agressão? A catraca? A farda? O logotipo? Símbolos têm carne e osso? Sentem dor? Quem está sendo atacado? A PM ou o PM? O repórter ou a sua empresa?
Quem a polícia agride? Por que tantos detidos sem respaldo na lei? Por que miram a bala no olho de quem protesta? Por que miram a bala no olho de quem trabalha? Por que miram a bala de verdade no favelado? Porque é favelado? Ou porque não tem câmera da tevê na periferia? Por que a pronta-solidariedade da presidenta a uns e o silêncio para outros? Ela se importa? Quem realmente se importa?
Esse silêncio precede a guerra? A explosão levará à paz? Estamos em estado de guerra? Em algum momento houve paz? Qual história repetimos? A qual história recorremos? A qual história viramos as costas? Que história nos inspira? Luther King ou Malcom X? Gandhi ou Robespierre? Idi Amin ou Mandela? Goulart ou Lacerda? 1988 ou 1964? A ditadura acabou? A saudade da ditadura tem fim?
Por que lutamos pelo direito ao voto? O que o voto representa? O voto muda o sistema? O voto consolida o sistema? O sistema é agressivo? O serviço público é agressivo? O corredor de ônibus é paliativo? O metrô é sucateado? Quem financia o metrô? Quem financia o cartel do metrô? Quem investiga quem financia o cartel do metrô? Quem investiga quem não investiga quem financia o cartel do metrô? Por que as linhas são enxutas? Por que os vagões estão lotados? Por que não há linhas durante a noite? Por que a cidade é mal iluminada? Por que a catraca?
A agressão simbólica a um sistema agressivo sensibiliza o sistema? Cria outro sistema? Muda o sistema por dentro? Abre ou barbariza as portas de interlocução?
Político é tudo igual? Os partidos são todos iguais? Por que tantos partidos? Em que se diferenciam? Por que se unem? Por que não se unem? A coalizão é um mal necessário? Ou um bem desnecessário? É um trator? Ou é um estanque? Marina Silva sabe o que fala? Quem entende o que a Marina Silva fala?
Quem comanda as velhas legendas? Quem manda nos feudos? Quem deixa que se mandem nos feudos? O Estado está em xeque? De qual Estado falamos? Do que espanca ou do que salva vidas? Do que come os rendimentos ou do que estimula a geração do emprego? Do que pereniza ou do que combate a miséria? O que usa o cassetete ou o que universaliza a vacina?
Como se faz uma vacina? Quem regula os testes? O medicamento corta na carne? De onde vem a carne? Do que se alimentam os Beagles? Todos os cães merecem o céu? E as girafas? Merecem ser imolados por nós? Somos dignos de que entrem em nossa morada? Estamos dispostos a viver menos em troca da interrupção de outras vidas? Podemos interromper a nossa? Estamos só falando de bichos? Falar de bichos é pouco?
Todos temos alma? Até quem censura biografias? Por que os biografados têm medo de biografias? Por que aceitam dão a cara para a Caras e não aos seus biógrafos? Importa a sua individualidade? Importa a quem? Estão com medo ou estão cansados? Estamos com medo ou estamos censurados? Por que tanta desconfiança de quem nos define? Desconfiamos do acerto ou do erro? Quantos são os Roberto Carlos? Quantos são os Otávios Cabrais? José Dirceu teve meios de se defender? Merece direito a resposta ou uma errata? Merece ser condenado? Merece ser absolvido? Merece ser eliminado? Teve um julgamento justo de seu biografado? E de seus juízes?
Os juízes votam com a faca no pescoço? Apoiam-se na lei ou no ego? Por que não são unânimes? A câmera de tevê influencia? Transforma a Corte em palanque? O que é embargo infringente? É o mesmo que absolvição? Prendemos muito ou prendemos pouco? Prendemos mal? Devemos prender as crianças? Evitar o crime na nascente até que ninguém esteja autorizado a nascer? De quem é o seu corpo? Quem regula a sua decisão? O padre ou a igreja? A igreja e o Estado estão devidamente separados? O novo papa vai enterrar os esqueletos da velha Igreja? A nova velha Igreja manterá a influência sobre seus fieis? E sobre os infiéis? E sobre os governos? Serão o governo? Serão moderados? Serão fundamentalistas? Por que os fundamentalistas tomaram o poder?
Quantos Felicianos estão por vir? Quantos estão nas ruas? Por que tratam a homossexualidade como doença? A liberdade como maldição? Qual a doença do fundamentalista? Como ele virou deputado? Como se tornou líder da Comissão de Direitos Humanos? Alguém se importa com esta comissão? A expressão direitos humanos para humanos direitos cria humanos de segunda categoria? Existem animais de segunda categoria? O que seria dos Beagles se todos gostassem de ratos?
Alguém se lembra das crianças mortas na Síria? Quem autorizou o uso de gás sarin? O uso de armas químicas justifica a intervenção militar? Quem outorgou aos EUA o direito de intervir? Por que nos espionam? Por que perseguem quem divulga o que se espiona? Somos subservientes a Washington? Ao capital? Privatizamos ou aderimos ao sistema de partilha? O petróleo será nosso? Será só nosso? Será de todos? Vai entupir as ruas de carros comprados a crédito fácil? Seu excedente vai mudar os rumos da educação? De qual educação? Da saúde? De qual saúde?
Os médicos estrangeiros são necessários? Se não eles, quem? Os médicos brasileiros se afastaram do povo? Elitizaram-se? Agem corporativamente? Trabalho cubano é trabalho escravo? É lícito protestar contra a suposta escravidão cuspindo no rosto do suposto escravo? Boicote é protesto? Vaia é vergonha? É preconceito? A nação da geleia geral se tornou uma nação xenófoba? Boicote ao boicote é governismo? Rincão ganha voto? Salvar vidas é populismo?
Ficamos politicamente populistas? Politicamente cínicos? Politicamente corretos? Politicamente incorretos? Rindo corrigem-se os costumes? Ou ridiculariza quem não se enquadra no costume ancestral? Qual é a graça da desgraça do sorriso do banguela? Amamentar virou piada? Piada com quem amamenta dá audiência? Lobão dá audiência? Alavanca vendagem? Quem ainda ouve Lobão? Quem ainda lê a crítica? O Som ao Redor mostrou que a casa grande mudou de casa? É o melhor filme do ano? O filme da década? O filme escancarou nossa miséria? Luiz Ruffato escancarou nossa tragédia? Nossa tragédia é cultural? Nosso futebol é arte? Neymar será o craque da Copa? Precisamos de Copa? Precisamos de Neymar? Precisamos de Diego Costa? Precisamos de Emerson Sheik? Ele beijou o amigo por coragem ou por brincadeira? O que isso diz sobre nós? A torcida tolera homossexuais? Tolera homofobia? Precisamos de exemplos? Precisamos de ídolos? Precisamos de herois? Precisamos de mártires?
Faltam campos para tantas dúvidas? Caberão em nossos estádios? Ou elas serão dizimadas pelas velhas certezas?
Haverá respostas melhores às perguntas?
Haverá perguntas melhores às respostas?
Aprenderemos a pensar melhor?
A desconfiar de tudo o que se publica?
A argumentar?
A debater?
Não sei. Mas a panela de pressão que as redes e as ruas destamparam parece ter servido como um tiro no imobilismo. Somente pedras passaram imunes, ou indiferentes, a qualquer uma dessas questões. Quem passou as noites à procura de respostas amanheceu insone e atolado de perguntas. É custoso, mas é melhor assim. Antes a luz do debate permanente do que a letargia da janta-sobremesa-louça-sofá-e-novela-silêncio-escuridão. Quanto a isso não existem duvidas. Ou existem?

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Black Bloc e democracia

Black Bloc e democracia


Reduzir a conduta dos black blocs à ilicitude seria tratar toda desobediência civil como mero ato de bandidagem. Mas, no momento, seus resultados são fascistas e precisam ser repensados

por Pedro Estevam Serrano — publicado 30/10/2013 
Protestos
Reduzir a conduta dos black blocs à sua dimensão jurídica de ilicitude significa tratar toda desobediência civil como mero ato de bandidagem. Mas, no momento, seus resultados são fascistas e precisam ser repensados

Já tive oportunidade de escrever sobre o movimento black bloc nessa coluna em artigo passado. Volto ao tema pelo andar recente da carruagem, me dando a liberdade jornalística de não me alongar em argumentos acadêmicos e citações.
O Estado Democrático de Direito implica na disputa pacífica do poder político. O argumento como substituto da violência, a lei como substituta do poder soberano absolutista.
Nesse aspecto a legalidade é um valor essencial. A lei expressa a soberania popular e como tal tem de ser observada. A ordem democrática é um valor estruturante do regime político
Entretanto, não há como deixar de observar na história do regime democrático no mundo que este evoluiu em termos de ampliação da garantia de direitos, por meio de rupturas desta mesma ordem jurídica.
Do voto feminino e universal aos direitos sociais, todas foram conquistas obtidas por rupturas populares da ordem que fizeram evoluir a democracia burguesa do fim do século XVIII para a democracia universal, representativa e com elementos de democracia direta, do mundo ocidental contemporâneo.
De instrumento puro de dominação, a democracia transmutou-se em veículo possível de transformações libertárias e sociais.
Em verdade há de se constatar que a evolução democrática guarda com sua ordem jurídica uma relação complexa e contraditória. Demanda sua observância e sua não observância concomitantemente
Se a conduta humana de servidão à uma determinada ordem jurídica pode ser observada com relativa objetividade pela incidência da lei sobre o fato, o mesmo não ocorre com sua desobediência. Essa sempre é ilícita.
Se reduzida sua avaliação ao mero exame de sua legalidade, se perderá, no plano político, a exata compreensão de sua complexidade, cabendo lembrar que compreender não é aceitar.
No plano político, a desobediência civil pode sim ser avaliada sob o ponto de vista democrático. Será contributiva à evolução do regime democrático se implicar ampliação de direitos das pessoas, dos grupos sociais e da sociedade como um todo, difusamente considerada.
Como ocorre no âmbito politico, e não deôntico, a ação de desobediência deve ser tida em seu resultado concreto para a vida social e das pessoas.
Por evidente, o poder constituído sempre tenderá a tratar atos de desobediência civil como meros atos de banditismo comum, desconhecendo seu móvel, propósito e resultado político.
Se muitas vezes no plano jurídico a intenção política pouco influencia o juízo de legalidade da conduta, no plano ético-político influenciará muito o juízo de sua legitimidade.
O ato político, mesmo quando violento, mesmo quando inaceitável, é provido de uma pretensão de correção própria da crença política. Por mais equivocado que seja, pretende alguma forma que supõe ser de bem comum. Nesse sentido, se diferencia no plano ético-político do ato de bandidagem.
O poder constituído sempre busca subtrair do ato de desobediência o substrato político para esvaziar sua legitimidade. Muitas vezes logrará êxito pela ausência de legitimidade real e de apoio social a sua prática, ocorrente, às vezes, pela inobservância no ato de desobediência de valores morais universais caracterizadores de um dado processo civilizatório. Outras vezes, por perda da batalha comunicativa, outras ainda por repressão bruta, mas eficaz.
Assim ao avaliarmos os atos violentos de desobediência civil praticados pelo black bloc, não devemos nos ater à dimensão jurídica. Juridicamente, não há duvida. É crime depredar propriedade alheia e muito mais grave a ilicitude quando implica violência física contra agente policial.
O papel jurídico do poder constituído é reprimir tal conduta e submeter seus agentes ao devido processo legal para sua punição.
Na analise política da conduta e de sua legitimidade democrática, o tema é mais complexo. Ocorre que, no plano estritamente político, há em todo ato de desobediência um potencial constituinte, uma nova ordem no broto, que poderá florescer para o bem ou para o mal da sociedade e do regime democrático.
Será verdadeiramente constituinte na perspectiva democrática, se resultar na ampliação de direitos. Será autoritária, se objetivar e resultar na redução de direitos, implicando a realização de valores de exceção em detrimento de valores de direito.
Neste sentido, não há que se reduzir a análise política da conduta dos black blocs à sua dimensão jurídica de ilicitude. Isso significa tratar toda desobediência civil, “a priori” e sem qualquer juízo político mais complexo, como mero ato de bandidagem.
Tal análise reducionista tem como função fortalecer o elemento imperial do poder constituído, ressaltar a ordem em detrimento dos direitos das pessoas. Não é por aí que se deve criticar as condutas recentes dos black blocs.
No plano político, os atos de violência extrema dos black blocs se iniciaram por meros ataques a propriedades símbolos do sistema capitalista, mas acabaram se convertendo em atos de violência contra um ser humano especifico, que por mais que porte um uniforme não pode ser subtraído de sua condição humana.
Um movimento verdadeiramente libertário pode ter como inimigo o Estado, mas nunca um ser humano especifico, ainda que agente deste Estado. Se não agir assim, perde em termos de ganho civilizatório, pondo-se no mesmo papel do fascismo e outras formas de retrocesso da civilização democrática.
Quem adota valores democráticos repudia, no interior do jogo democrático, agressões a pessoas. A violência neste caso não pode ser tida como legítima defesa contra o Estado.
Se esse Estado tem estrutura de legalidade democrática, a violência contra pessoas não pode ser tida como forma de reação legitima, pois perde em proporcionalidade ética.
Quando esta violência extrema é praticada por um punhado de pessoas, comprometendo a imagem de um movimento social mais amplo face a maioria da população, estes atos servem mais ao poder constituído em sua sanha de criminalizar a oposição social do que a qualquer conquista libertária pretendida.
O risco do agente de um ato político de desobediência civil numa sociedade democrática é esse mesmo: ser julgado por seus resultados e não por suas intenções subjetivas. Esse é um juízo político legítimo, pois nem toda desobediência é libertaria. Em especial, quando praticada no interior de um sistema de legalidade minimamente democrática.
Como resultado da conduta recente dos black bloc, temos a ampliação da legitimidade social de atos de repressão contra o movimento social. Tratou-se portanto de um movimento de desobediência redutor de direitos e ampliador da potência repressiva do Estado.
Pouco importam as intenções políticas desse movimento de desobediência, se anarquista socialista, anarco-capitalista ou de direita. Seus resultados são fascistas. Assim se tornaram. Que seus agentes repensem criticamente seu caminho, em favor da cidadania, dos movimentos sociais e das liberdades humanas em nosso pais.

Túnel submarino liga Europa à Ásia no centro de Istambul

Túnel submarino liga Europa à Ásia no centro de Istambul



Perto de falha sísmica de alto risco, megaprojecto de Erdogan é afirmação de dez anos no poder a pensar em novos objectivos eleitorais.

O novo túnel ferroviário Marmaray fica a menos de 20 quilómetros de uma perigosa falha sísmica
AFP/OZAN KOSE

Erdogan nesta terça-feira na cabine de controlo dos novos comboios
AFP/OZAN KOSE

A primeira ligação ferroviária submarina intercontinental foi inaugurada nesta terça-feira em Istambul. Bastam quatro minutos a cerca de 60 metros de profundidade sob o Bósforo, o estreito que separa a Europa e a Ásia na grande metrópole que é Istambul, e cruza-se de um continente para outro.
“Foi um sonho durante 150 anos e finalmente tornou-se realidade”, afirmou o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, na inauguração do primeiro dos seus megaprojectos para a cidade de Istambul.
O novo túnel ferroviário Marmaray, que atravessa o esteito do Bósforo junto ao mar de Mármara, usa tecnologia japonesa resistente a sismos — que permite aos arranha-céus tremer sem quebrar. Essa é uma necessidade imperiosa, pois o túnel fica a menos de 20 quilómetros da falha sísmica onde se tem acumulado mais stress sísmico e onde os cientistas calculam existir 68% de probabilidade de que se venha a registar um sismo de magnitude 7 ou superior nos próximos 30 anos. Aliás, a Turquia, e em especial Istambul, é uma zona de grande risco sísmico.
A estrutura mais segura de Istambul?
A Câmara dos Arquitectos e Engenheiros turcos deu hoje uma conferência de imprensa chamando a atenção para a vulnerabilidade do túnel, que poderá transportar mais de um milhão de pessoas diariamente.

“Eu não viajaria nos comboios do Marmaray, e ninguém devia viajar”, afirmou Süleyman Solmaz, porta-voz da organização, citando um engenheiro que trabalhou no projecto durante anos.
Kadir Topbaç, presidente da Câmara de Istambul, adianta a edição em inglês do jornal turco Hurriyet, respondeu garantindo que “todas as possibilidades foram levadas seriamente em consideração”, depois de se ter encontrado com o primeiro-ministro japonês, que esteve de visita a Istambul, para ver a inauguração, em que há interesses japoneses em jogo — além da tecnologia nipónica, grande parte da obra foi financiada pelo Banco Japonês para a Cooperação Internacional.
O ministro dos Transportes turco, Binali Yildirim garantiu que o projecto Marmaray é “a estrutura mais segura de Istambul”, com portas estanques para isolar cada secção, e será capaz de suportar um sismo de magnitude 9.
As grandes obras de engenharia, como o túnel Marmaray, são encaradas como uma forma de comemoração da década do partido islamo-conservador de Erdogan no poder — e também de campanha para as eleições de 2014 (locais em Março e presidenciais em Junho) e 2015 (legislativas).
O movimento de contestação do Parque Gezi, em Istambul, foi desencadeado em resposta a um projecto descaracterizador para esta praça do centro da cidade. O espírito de contestação tem continuado — nos últimos dias, mais em Ancara, com protestos em torno das condições favoráveis dadas ao réu no julgamento de um polícia que matou um estudante nos protestos de Junho. Ainda este mês, foi também criado o Partido do Parque Gezi, fundado por artistas e intelectuais.

TAXA DE IRS NA UNIÃO EUROPÉIA

 TAXA DE IRS NA UNIÃO EUROPÉIA - (Infográfico)

FRANÇA: A CLAREZA OU A REVOLTA, HOLLANDE DEVE ESCOLHER

FRANÇA: A clareza ou a revolta, Hollande deve escolher



30 outubro 2013
SLATE.FR PARIS




Com uma fraca posição nas sondagens, criticado pela esquerda e pela direita e a enfrentar uma forte vaga de protestos sociais, o Presidente francês está encostado à parede. A sua única saída é “desmarxizar” finalmente a esquerda, considera um editorialista. Excertos.
Já aconteceu. Chegámos ao momento-chave do movimento estratégico iniciado por François Hollande. Este encontra-se sob fogo cruzado, vindo do seu próprio campo e da direita. Conseguirá sobreviver?
Penso que é tarefa de François Hollande reagir finalmente à conversão do socialismo francês à social-democracia. Deve desmarxizar a esquerda. Mas [Hollande] herdou um partido que, por culpa de todos os dirigentes socialistas – entre os quais ele próprio –, faz uma análise da crise invertendo os seus termos: uma análise que apela ao regresso da luta de classes! O trabalho “contra” o capital! O Partido Socialista (PS) não avançou para o século XXI: refugiou-se no século XIX. Para ele, a questão central é a desigualdade: é preciso tributar os ricos. O Hollande eleito está rodeado de conselheiros e ministros que pensam isso. Tem um Parlamento no qual muitos deputados pensam isso.
Como candidato, percebeu que a crise era sem dúvida mais complexa do que estes raciocínios ociosos. Fez poucas promessas. Ousou dizer que o começo do mandato seria duro e que os frutos só poderiam ser distribuídos depois, na segunda parte. Foi prudente; hesitante, diriam alguns.
O problema de François Hollande é não ser um intelectual. É esse o seu drama fundamental. Falta-lhe uma visão. Como é realista e pragmático, compreendeu rapidamente que o motor socialista está morto. Mas, para o substituir, não há nada além de um processo de tentativa e erro e o seu gosto pelos compromissos. Vai tateando as relações de força. Homem de sínteses modestas, falta-lhe uma grande Síntese entre socialismo e modernidade.

Vocabulário político do séc. XIX

É essa falta que explica que, apesar do seu programa prudente, tenha seguido em duas direções erradas. Rodeado por um aparelho socialista que clama contra as desigualdades, os bancos e o CAC40, não viu de imediato que o principal problema da França era a sua fraca competitividade. As empresas não ganham demasiado dinheiro: ganham demasiado pouco!
No entanto, emendou rapidamente a mão, no verão de 2013, com orelatório Gallois [sobre a competitividade da indústria francesa]. O PS engasgou-se! Muitos não se recompuseram e ainda encaram essa “política da oferta” como um “presente” que foi dado ao patronato. Um vocabulário do século XIX.
O outro erro é de ordem orçamental. No início, o mesmo motor PS levou a que se aumentassem os impostos, os dos ricos, para reduzir o défice. Tributar os ricos, dar aos outros e tudo iria correr melhor! Além disso, em matéria de redução das despesas, a outra possibilidade de uma política de austeridade, o Presidente tinha pouca margem de manobra. Sendo socialista, não queria atingir os seus eleitores funcionários. E, por outro lado, os economistas aconselhavam-no a agir delicadamente. Com um crescimento nulo em 2012, algumas considerações keynesianas justificadas preconizavam que não se reduzisse demasiado a despesa pública. A França correria o risco de, à semelhança da Itália, cair na recessão. O pedido de um prazo a Bruxelas para regressar às regras de Maastricht era legítimo e foi aceite.
Esta política, em que se misturam uma base de preconceito contra os ricos, uma ideologia keynesiana e eleitoralismo, produziu o “choque fiscal” de 2012: 30 mil milhões de impostos. Mas, num país com um recorde de taxas e impostos, acendeu-se a chama da revolta fiscal. Em 2013, um terço dos esforços incidiram sobre a redução das despesas, mas dois terços continuaram a dizer respeito à tributação e, desta vez, não apenas dos ricos, mas de toda a gente, incluindo a classe média.
Em 2014, o Governo espera a chegada da retoma, as considerações keynesianas terão menor peso e 80% dos esforços incidirão sobre as economias e 20% sobre os impostos. Em 2015, prometeu Hollande, 100% do rigor orçamental recairá sobre a despesa.

Ausência de pedagogia

A viragem seria total em três anos, mas é demasiado tempo. François Hollande acabaria por chegar a uma linha de política económica sã: a competitividade e a redução estrutural da despesa. Contudo, a “ambiguidade” teria durado demasiado tempo e a “pedagogia” estaria ausente. Temos, por um lado, uma maioria que protesta e vocifera, de manhã à noite, na televisão, contra um Presidente social-democrata, e, por outro, um clima de saturação fiscal que raia a insurreição.
Que pode fazer François Hollande? Com risco de atacar pelas costas o PS e a sua maioria, deveria acelerar no novo rumo tomado. Acompetitividade francesa não foi restabelecida, longe disso, e é preciso ir mais longe. A redução das despesas deveria constituir uma oportunidade de obter ganhos de eficácia nos serviços públicos.
Queria ser social-democrata? Que o seja abertamente. Os políticos e os contribuintes já não aguentam mais.

VISTO DA ALEMANHA

Um clima de revolta

A França “está na véspera de uma revolta”, adianta o Frankfurter Allgemeine Zeitung, que considera o país “ingovernável”:
Os socialistas no poder em Paris não conseguiram impor as suas decisões. Quer se trate da introdução de um imposto ecológico, a tributação dos seguros de vida e da poupança-habitação ou o aumento da fiscalidade das empresas, não foi preciso esperar muito até que uma onda de contestações abalasse o país e, poucos dias depois, o Governo renunciasse às suas medidas. Além de ser acusado de incompetência passou a transmitir uma imagem de fraqueza.
O diário alemão estima que o Presidente “François Hollande paga hoje em dia o preço de uma vitória presidencial obtida com a ajuda de um programa totalmente utópico, que prometia que a França iria superar a crise financeira e económica sem exigir sacrifícios aos seus cidadãos.” Existe o risco, acrescenta o FAZ, de
os socialistas, que estão na maioria das Câmaras Municipais das grandes cidades, serem esmagados [nas eleições municipais]. [E] nas eleições europeias, a Frente Nacional de Marine Le Pen corre o risco de ocupar a primeira posição, à frente do UMP, o partido de direita da oposição. Os socialistas só viriam depois, segundo as atuais previsões.

Desmilitarizar e unificar a polícia

Desmilitarizar e unificar a polícia

A  Polícia Militar brasileira é um modelo anacrônico de segurança pública que favorece abordagens policiais violentas, com desrespeito aos direitos fundamentais do cidadão 

Artigo publicado no site da Fórum em 09/01/2013
Por Túlio Vianna
Uma das heranças mais malditas que a ditadura militar nos deixou é a dificuldade que os brasileiros têm de distinguir entre as funções das nossas Forças de Segurança (polícias) e as das nossas Forças Armadas (exército, marinha, aeronáutica). A diferença é muito simples: as Forças de Segurança garantem a segurança interna do Estado, enquanto as Forças Armadas garantem a segurança externa. Polícias reprimem criminosos e forças armadas combatem exércitos estrangeiros nos casos de guerra.
Diante das desmensuradas diferenças de funções existentes entre as Forças de Segurança e as Forças Armadas, é natural que seus membros recebam treinamento completamente diferente. Os integrantes das Forças Armadas são treinados para enfrentar um inimigo externo em casos de guerra. Nessas circunstâncias, tudo que se espera dos militares é que matem os inimigos e protejam o território nacional. Na guerra, os prisioneiros são uma exceção e a morte é a regra.
As polícias, por outro lado, só deveriam matar nos casos extremos de legítima defesa própria ou de terceiro. Seu treinamento não é para combater um inimigo, mas para neutralizar ações criminosas praticadas por cidadãos brasileiros (ou por estrangeiros que estejam por aqui), que deverão ser julgados por um poder próprio da República: o Judiciário. Em suma: enquanto os exércitos são treinados para matar o inimigo, polícias são treinadas para prender cidadãos. Diferença nada sutil, mas que precisa sempre ser lembrada, pois muitas vezes é esquecida ou simplesmente ignorada, como na intervenção no Complexo do Alemão na cidade do Rio de Janeiro ou em tantas outras operações na qual o exército tem sido convocado para combater civis brasileiros.
O militarismo se justifica pelas circunstâncias extremas de uma guerra, quando a disciplina e a hierarquia militares são essenciais para manter a coesão da tropa. O foco do treinamento militar é centrado na obediência e na submissão, pois só com estas se convence um ser humano a enfrentar um exército inimigo, mesmo em circunstâncias adversas, sem abandonar o campo de batalha. Os recrutas são submetidos a constrangimentos e humilhações que acabam por destituí-los de seus próprios direitos fundamentais. E se o treinamento militar é capaz de convencer um soldado a se deixar tratar como um objeto na mão de seu comandante, é natural também que esse soldado trate seus inimigos como objetos cujas vidas podem ser sacrificadas impunemente em nome da sua bandeira.
A sociedade reclama do tratamento brutal da polícia, mas insiste em dar treinamento militar aos policiais, reforçando neles, a todo momento, os valores de disciplina e hierarquia, quando deveria ensiná-los a importância do respeito ao Direito e à cidadania. Se um policial militar foi condicionado a respeitar seus superiores sem contestá-los, como exigir dele que não prenda por “desacato à autoridade” um civil que “ousou” exigir seus direitos durante uma abordagem policial? Se queremos uma polícia que trate suspeitos e criminosos como cidadãos, é preciso que o policial também seja treinado e tratado como civil (que, ao pé da letra, significa justamente ser cidadão).
O treinamento militarizado da polícia brasileira se reflete em seu número de homicídios. A Polícia Militar de São Paulo mata quase nove vezes mais do que todas as polícias dos EUA, que são formadas exclusivamente por civis. Segundo levantamento do jornal Folha de S. Paulo divulgado em julho deste ano, “de 2006 a 2010, 2.262 pessoas foram mortas após supostos confrontos com PMs paulistas. Nos EUA, no mesmo período, conforme dados do FBI, foram 1.963 ‘homicídios justificados’, o equivalente às resistências seguidas de morte registradas no estado de São Paulo”.Neste estado, são 5,51 mortos pela polícia a cada 100 mil habitantes, enquanto o índice dos EUA é de 0,63 . Uma diferença bastante significativa, mas que, obviamente, não pode ser explicada exclusivamente pela militarização da nossa polícia. Não obstante outros fatores que precisam ser levados em conta, é certo, porém, que o treinamento e a filosofia militar da PM brasileira são responsáveis por boa parte desses homicídios.
Nossa Polícia Militar é uma distorção dos principais modelos de polícia do mundo. Muitos países europeus possuem gendarmarias, que são forças militares com funções de polícia no âmbito da população civil, como a Gendarmerie Nationale na França, os Carabinieri na Itália, a Guardia Civil na Espanha e a Guarda Nacional Republicana em Portugal. As gendarmarias, porém, são bem diferentes da nossa Polícia Militar, a começar pelo fato de serem nacionais, e não estaduais. Em geral, as atribuições de policiamento das gendarmarias europeias se restringem a áreas rurais, cabendo às polícias civis o policiamento, tanto ostensivo como investigativo, das áreas urbanas, o que restringe bastante o âmbito de atuação dos militares. As gendarmarias europeias também são polícias de ciclo completo, isto é, realizam não só o policiamento ostensivo, mas também são responsáveis pela investigação policial.
No Brasil, a Constituição da República estabeleceu no seu artigo 144 uma excêntrica divisão de tarefas, na qual cabe à Polícia Militar realizar o policiamento ostensivo, enquanto resta à Polícia Civil a investigação policial. Esta existência de duas polícias, por óbvio, não só aumenta em muito os custos para os cofres públicos que precisam manter uma dupla infraestrutura policial, mas também cria uma rivalidade desnecessária entre os colegas policiais que seguem duas carreiras completamente distintas. O jovem que deseja se tornar policial hoje precisa optar de antemão entre seguir a carreira de policial ostensivo (militar) ou investigativo (civil), criando um abismo entre cargos que seriam visivelmente de uma mesma carreira.
Nos EUA, na Inglaterra e em outros países que adotam o sistema anglo-saxão, as polícias são compostas exclusivamente por civis e são de ciclo completo, isto é, o policial ingressa na carreira para realizar funções de policiamento ostensivo e, com o passar do tempo, pode optar pela progressão para os setores de investigação na mesma polícia. Para que se tenha uma ideia de como esse sistema funciona, um policial no Departamento de Polícia de Nova York (NYPD) ingressa na carreira como agente policial (police officer) para exercer atividades de polícia ostensiva (uniformizado), tais como responder chamadas, patrulhar, perseguir criminosos etc. Depois de alguns anos, esse agente policial pode postular sua progressão na carreira para o cargo de detetive (detective) no qual passará a exercer funções investigativas e não mais usará uniformes. A carreira segue com os cargos de sargento (sergeant), que chefia outros policiais; de tenente (lieutenant), que coordena os sargentos; e de capitão (captain), que comanda o que chamaríamos de delegacia.
Apesar do que a semelhança dos nomes poderia sugerir, não se trata de patentes, mas de cargos, pois todos são funcionários públicos civis. Cada policial está subordinado apenas a seus superiores hierárquicos em linha direta, assim como um escrivão judicial brasileiro está subordinado ao juiz com o qual trabalha. Um agente policial estadunidense não está subordinado de qualquer forma às ordens de um capitão de uma unidade policial que não é a sua, assim como o escrivão judicial brasileiro não deve qualquer obediência a juízes de outras varas. Para se ter uma ideia da importância dessa diferença, basta imaginar a situação difícil em que fica um policial militar brasileiro ao parar, em uma blitz, um capitão a quem, para início de conversa, tem o dever de prestar continência. A hierarquia militar acaba funcionando, em casos como esse, como uma blindagem para os oficiais, em um nítido prejuízo para o princípio republicano da igualdade de tratamento nos serviços públicos.
As vantagens de uma polícia exclusivamente civil são muitas e, se somadas, a unificação das polícias ostensiva e investigativa em uma única corporação de ciclo completo só traz benefícios para os policiais, em termos de uma carreira mais atrativa, e aos cidadãos, com um policiamento único e mais funcional.
No Brasil, tramita no Senado da República a Proposta de Emenda à Constituição nº 102/2011, de autoria do senador Blairo Maggi (PR/MT), que, se aprovada, permitirá aos estados unificarem suas polícias em uma única corporação civil de âmbito estadual, representando um avanço imensurável na política de segurança pública brasileira, além de uma melhor aplicação do dinheiro público, que não mais terá que sustentar duas infraestruturas policiais distintas e, algumas vezes, até mesmo concorrentes.
A unificação das polícias também possibilitaria uma carreira policial bem mais racional do que a que temos hoje. O policiamento ostensivo é bastante desgastante e é comum que, à medida que o policial militar envelhece, ele acabe sendo designado para atividades que exijam menor vigor físico. Como atualmente existem duas polícias e, portanto, duas carreiras policiais distintas, os policiais militares acabam sendo designados para tarefas internas, típicas de auxiliar administrativo, mas permanecem recebendo a mesma remuneração de seus colegas que arriscam suas vidas nas ruas. Com a unificação, ocorreria o que acontece na maioria das polícias do mundo: ele seria promovido para o cargo de detetive e sua experiência como policial ostensivo seria muito bem aproveitada na fase de investigação. Para suprir os cargos administrativos meramente burocráticos, bastaria fazer concursos para auxiliares administrativos que requerem vocação, habilidades e treinamento bem mais simples daqueles exigidos de um policial.
Por outro lado, os policiais civis que realizam o trabalho de investigação atualmente são recrutados por meio de concursos públicos e começam a exercer suas atividades investigativas sem nunca terem tido experiência policial nas ruas. Com a unificação da polícia, o ingresso se daria sempre para o cargo de policiamento ostensivo, no qual o policial ganharia experiência e só então poderia ascender na carreira para os cargos de investigação. Um modelo que privilegia a experiência prática, e não o conhecimento técnico normalmente exigido em provas de concursos.
Finalmente, a unificação das polícias acabaria também com os julgamentos de policiais pela Justiça Militar. Pelo atual sistema, os crimes praticados por policiais militares em serviço (exceto crimes dolosos contra a vida de civis) são julgados não pelo juiz criminal comum, mas pela Justiça Militar, em uma clara violação do princípio republicano da isonomia. É como se as universidades federais tivessem uma Justiça Universitária para julgar os crimes praticados por professores durante as aulas; ou as indústrias tivessem uma Justiça Industrial para julgar os crimes praticados por metalúrgicos em serviço. Uma espécie de universo paralelo jurídico que só se explica pela força política dos militares quando da promulgação da Constituição de 1988.
Desmilitarizar e unificar as polícias estaduais brasileiras é uma necessidade urgente para que haja avanços reais na nossa política de segurança pública. Vê-se muito destaque na mídia para projetos legislativos que demagogicamente propõem o aumento de penas e outras alterações nos nossos códigos Penal e de Processo Penal como panaceia para o problema da criminalidade. Muito pouco se vê, porém, quanto a propostas que visem a repensar a polícia brasileira.
De nada adianta mudar a lei penal e processual penal se não se alterar a cultura militarista dos seus principais aplicadores. Treinem a polícia como militares e eles tratarão todo e qualquer suspeito como um militar inimigo. Treinem a polícia como cidadãos e eles reconhecerão o suspeito não como “o outro”, mas como alguém com os seus mesmos direitos e deveres. Nossa polícia só será verdadeiramente cidadã quando reconhecer e tratar seus próprios policiais como civis dotados dos mesmos direitos e deveres do povo para o qual trabalha.