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domingo, 29 de setembro de 2013

O que não se fala sobre a Síria

O que não se fala sobre a Síria


Vicenç Navarro - Adital - 23/09/203


Aconteça o que acontecer, se inicia uma nova etapa nos EUA em que a população, e muito em particular as classes populares, estão fartas das guerras e intervenções do governo norte-americano para defender o que Martin Luther King chamava o "rol imperial” da Corporate Class, que está perdendo muito rapidamente seu apoio popular. 
Por Vicenç Navarro
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Para entender o que está acontecendo na Síria temos que entender o que está acontecendo nos EUA, o que não é fácil na Espanha devido à insuficiente e/ou parcial cobertura por parte dos meios de informação espanhóis (com algumas exceções) da realidade daquele país. Hoje os EUA estão vivendo um momento de grandes conflitos cuja resolução marcará o país por muitos anos. Por um lado, estamos vendo a aplicação de algumas políticas de cortes de gasto público sem precedentes, cortes que estão se justificando pela suposta necessidade de reduzir o que se considera um excessivo nível de déficit público. A fim de alcançar a diminuição desse déficit, estão cortando de uma maneira radical serviços do escassamente financiado Estado de Bem-estar estadunidense, afetando especialmente os serviços e transferências públicas às populações mais vulneráveis, tais como o programa Food Stamps (vale alimentos) que os Estados provém em bases discricionais e assistenciais à população pobre que não tem fundos para comprar alimentos e que o próprio governo federal (seu Departamento de Agricultura) define como "food insecure”, que quer dizer, como afirma em linguagem mais acessível o The New York Times, "pessoas que têm fome” ("On the Edge of Poverty; at the Center of a Debate” 05.09.13. p. A3), e que são 49 milhões de cidadãos e residentes estadunidenses que representam nada menos que 16,4% da população dos EUA (ver o relatório Food Insecurity Survey. Department of Agriculture. US Federal Government. 2012).
Por outro lado, o Presidente Obama está pedindo a aprovação do Congresso dos EUA para levar a cabo um ato de intervenção militar contra o governo da Síria, aduzindo que dito governo cometeu um ato (a utilização de armas químicas em um conflito armado) que deveria ser penalizado. Não sancioná-lo implicaria - segundo o Presidente Obama - uma perda de credibilidade, não apenas dos EUA, mas da comunidade internacional, pois tanto o governo dos EUA como a comunidade internacional haviam se comprometido em vários tratados internacionais a não autorizar tais armas nas frentes de batalha. Na recente reunião do G-20, o Presidente Obama afirmou que "gasear gente inocente com armas químicas, inclusive contra crianças, é algo que nós não fazemos e que não devemos permitir” (Financial Times, 7 de setembro de 2013, p. 4)
Que credibilidade têm os argumentos pró-bombardeio?
Tais argumentos aduzidos pela Administração Obama, entretanto, têm escassa credibilidade. Na verdade, o governo federal dos EUA foi um dos governos que utilizou com mais frequência armamento químico (e biológico) nas frentes de batalha. O caso mais notório foi a utilização, por parte das Forças Armadas dos EUA no Vietnã, Laos e Camboja, de 45 milhões de litros do Agente Laranja (uma dioxina altamente tóxica), afetando mais de meio milhão de pessoas (matando-as ou ferindo-as e deformando-as) entre as populações bombardeadas no Vietnã, Camboja e Laos. Ainda hoje, e como sequela daqueles bombardeios, existe um grande número de nascimentos de crianças com enormes deformidades entre as populações daqueles países expostas a tal arma química, que continua no solo de mais de quatro milhões de acres desses territórios.
O governo federal dos EUA utilizou também, além de armas químicas, armas bacteriológicas (também proibidas nos tratados internacionais) contra vários países na América Latina (incluindo Cuba, causa da epidemia de dengue em 1981, que matou 188 pessoas, incluindo 88 crianças). E inclusive, mais recentemente, o caso mais notório de utilização massiva de armas químicas foi o que levou a cabo o governo iraquiano (liderado então por Saddam Hussein) contra o Irã, utilização com pleno conhecimento e apoio do governo federal dos EUA, que apoiava ao ditador iraquiano naquele conflito (ver Jeffrey St. Clair "Germ War: The U.S. Record”, CounterPunch. 03.09.13). E o mesmo governo federal dos EUA tem, entre seus aliados, alguns dos maiores violadores de direitos humanos hoje no mundo, tais como a Arábia Saudita, que tem um enorme arsenal de armas químicas que, segundo várias cadeias de informação, foram fornecidas aos extremistas islâmicos, na oposição ao ditador sírio (ver Eric Draitser "Debunking Obama’s Chemical Weapons Case Against the Syrian Government” CounterPunch Sept.02, 2013), os quais possuem esse tipo de armas como indicou também Carla del Ponte, membro da Comissão Internacional de Investigação das Nações Unidas para investigar casos anteriores de utilização de armas químicas na Síria, que afirmou que existiu a posse e utilização de tais armas no passado pelos rebeldes (ver David Lindorff "While House Document Proving Syria’s Guilt does not pass Small text” CounterPunch, Sep.3, 2013). Na verdade, ditas armas foram utilizadas pelos dois lados do conflito na Síria.
Nem precisa dizer que a utilização de tais armas deve ser denunciada e condenada, sem ser seletivos e discriminatórios em tal denúncia, como é o caso notório de Bernard Henri Levi, o filósofo francês que adquiriu grande notoriedade por seu oportunismo e seletiva denúncia da utilização dessas armas, sem nunca haver feito a denúncia de sua utilização por parte dos estados estadunidense ou europeus, incluindo o estado francês (tal como afirma Diana Johnstone em seu artigo "France’s Philosopher Bombardier: No War for Bernard Henri Levi”, Counter Punch, Sept. 3. 2013).
Por que agora e não antes?
Que tem que penalizar a utilização desse armamento em qualquer parte do mundo e por qualquer estado é um ponto sobre o qual existe bastante acordo internacional. Mas, por que agora e não antes? E por que os EUA e não outros países? E, por que não fazê-lo através de outros meios não militares ou inclusive, em caso de que fossem militares por que o governo federal dos EUA e não outros? Para responder essas perguntas, tem que entender, como disse antes, a situação dos EUA e dos momentos históricos que este país está vivendo, o que raramente se faz nos meios de comunicação. Vejamos os dados.
Hoje os EUA estão em um momento de profunda crise, tendo acentuado ainda mais a deslegitimação do establishment financeiro, econômico, e político daquele país a partir do período de imposição de medidas sumamente impopulares sem nenhum mandato popular. A enorme influência do establishment financeiro e econômico (o que nos EUA se chama Corporate Class) na vida política e midiática do país e o impacto sumamente impopular das políticas públicas realizadas pelas instituições chamadas representativas criaram um repúdio generalizado à esses establishments. Hoje, desde a Seguridade Social (o sistema de pensões públicas) até os serviços públicos do Estado do Bem-estar estão em perigo. Nunca antes o Estado do Bem-estar estadunidense havia estado tão ameaçado como agora (uma situação que também ocorre na União Europeia e que alcança dimensões extremas na Espanha). Os cortes nas áreas sociais são enormes e, tal como indiquei anteriormente, o Congresso acaba de aprovar um corte de 40 bilhões de dólares ao programa Food Stamps, que alimenta quase uma de cada três crianças nos EUA (20 milhões de crianças assistidas). Esses cortes vão acompanhados de intervenções públicas que beneficiam enormemente a Corporate Class e as rendas superiores do país, tendo alcançado níveis de desigualdade sem precedentes desde princípios do século XX, no início da Grande Depressão. Hoje, uma pessoa do decil superior de renda nos EUA vive quinze anos a mais que uma pessoa do decil inferior (na Espanha são dez anos e na média da União Europeia dos Quinze são sete anos).
A Corporate Class e seu complexo militar industrial
Um eixo central da Corporate Class, que é enormemente poderoso (tal como já alertou em seu dia o General Eisenhower, mais tarde Presidente do país), é o complexo militar industrial. A voz mais crítica desse complexo foi Martin Luther King, que o havia denunciado como o grande defensor da Corporate Class dos EUA e que, para realizar sua missão, consumia enormes recursos a custa de empobrecer o escassamente financiado estado de bem-estar do país. Consumiu 20% do orçamento federal (718 bilhões de dólares), dos quais 159 bilhões foram gastos nas guerras do Iraque e Afeganistão (esta cifra não inclui os benefícios sociais dos veteranos das guerras e outros serviços militares, cifra que alcança outros 127 bilhões). O governo federal dos EUA gasta mais em suas Forças Armadas que a soma em gastos militares dos 13 países que lhe seguem depois, por nível de gasto militar. É um investimento enorme, que se deve ao poder da indústria armamentista. Mais de 350 bilhões de dólares foram a contratos por equipamento e manutenção de material militar consumido no Iraque e no Afeganistão (estes dados procedem de Brad Plumer, "America’s staggering Defense Budget in Charts”, The Washingto n Post January 7, 2013). É um gasto público enorme que configura a economia dos EUA e grande parte de suas políticas públicas. Na verdade (segundo os cálculos de Dean Baker e David Rosnick, do Center for Economic and Policy Research de Washington), mais de 26% do déficit público do estado federal se deve ao gasto nas intervenções militares do Afeganistão e Iraque, assim como o pagamento de outras intervenções que estiveram acontecendo a uma frequência de um conflito a cada três anos nos últimos trinta anos.
E esse grande poder deriva de sua função que é a de defender global e mundialmente os interesses primordiais da Corporate Class daquele país. Todo esse gasto público se realiza as custas de um enorme sacrifício do bem-estar das próprias classes populares dos EUA (como denunciou Martin Luther King, tal como indico em meu artigo "Lo que no se dijo sobre Martin Luther King”, Público, 3 de setembro de 2013). Não existe plena consciência fora dos EUA de que as classes populares deste país são as primeiras vítimas de tal "sistema imperial”, tal e como o definiu Martin Luther King. Hoje, ao mesmo tempo em que se estão reduzindo os fundos alimentares para a população pobre, se estão fazendo preparativos militares que custarão mais de 1 bilhão de dólares.
A enorme crise de legitimidade do sistema político estadunidense
O enorme descrédito da Corporate Class, de suas instituições representativas (a maioria de fundos que os políticos gastam em suas campanhas, procedem de membros de tal classe social, situação legalizada pela Corte Suprema dos EUA), acentuado pela grande crise atual, onde o padrão de vida das famílias estadunidenses vem diminuindo nos últimos trinta anos (e muito marcadamente nestes anos de crises), explica a crescente insatisfação da população com as instituições políticas. Já antes de que aparecesse a Síria no horizonte, o Stimson Center publicou, em maio, uma pesquisa na qual se pedia a opinião dos cidadãos sobre sua percepção e desejos sobre o gasto militar. A grande maioria dos cidadãos queria uma redução radical do gasto militar muito mais acentuada que qualquer proposta feita no Congresso ou pela Casa Branca. Na verdade, já em resposta a este enfado generalizado e saturação de guerras, a Administração Obama havia feito propostas (consideradas muito insuficientes pela maioria da população) de baixar tal gasto, havendo-o reduzido nos últimos anos.
O bombardeio da Síria, entretanto, custará, segundo cálculos iniciais, mais de 1 bilhão de dólares (o qual incrementou imediatamente, tal como informou o Boston Herald de 31 Agosto 2013), o valor das ações – que estavam baixando – das empresas produtoras de material militar tais como General Dynamics, Boeing, BAE Systems, Raytheon e muitas outras). Enquanto isso, como indiquei no parágrafo anterior, o próprio governo federal está cortando fundos para alimentar crianças que passam fome.
A chamada à intervenção militar na Síria
O argumento utilizado pela Administração Obama para bombardear a Síria – a penalização ao governo Asaad pelo emprego de armas químicas - carece, como disse antes, de credibilidade, pois tais armas foram utilizadas anteriormente no conflito sírio por ambas as partes, tal como documentou a Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas em sua investigação da situação na Síria assim como em muitos outros conflitos levados a cabo pelos EUA (como no Vietnã), ou por seus aliados, como Israel em 2009, em sua repressão da população palestina de Gaza (tal como denunciou a Anistia Internacional e afirmou Chris Hedges, chefe do escritório do Middle East do The New York Times (ver a entrevista em meu blog www.vnavarro.org)), ou, como afirmei anteriormente, pelos aliados dos EUA, como o então aliado Saddam Hussein em sua luta contra o Irã em 1988. Na verdade, a história dos EUA está cheia de casos de utilização de armas biológicas e químicas, tanto por seu governo como por seus aliados.
Qual é, então, o motivo real para iniciar tal bombardeio da Síria? Há vários motivos, todos eles relacionados com a situação nos EUA. A perda de legitimidade do establishment daquele país é enorme e se encontra em uma situação muito defensiva, encurralada. Sente que tem que fazer algo, tanto no interior como no exterior do país. O Oriente Médio (de enorme importância estratégica para o establishment estadunidense e europeu) está em uma situação vulcânica, na qual os EUA está perdendo o controle. Hoje essa zona do mundo é um vulcão que está explodindo.
Para aquele establishment dos EUA e europeu, Irã é o centro do mal, que quer dizer que pode afetar mais negativamente seus interesses. A aliança Síria-Irã, apoiada pela Rússia, representa uma ameaça à hegemonia dos EUA naquela zona. E ultimamente pareceria que o ditador Asaad, em sua luta contra os rebeldes, poderia prevalecer e ganhar naquele conflito. Daí que se tente agora aproveitar o incidente das armas químicas para atacar e debilitar tal governo. Esse é o objetivo da intervenção: tentar recuperar a hegemonia que o governo federal dos EUA (e da Europa) está perdendo, tanto no exterior como no interior.
E uma das primeiras mobilizações contra essa recuperação do domínio procede precisamente das classes populares dos EUA. Para o Presidente Obama, tal decisão de bombardear a Síria significará um enorme custo político. Como muito bem afirmou aquele que foi Ministro de Trabalho do governo Clinton, Robert Reich (ver Robert Reich "Obama’s Political Capital And the Slippery Stone of Syria”), tal intervenção, que lhe cairia muito bem ao establishment estadunidense para desviar a atenção do país ao exterior, (em um momento de grandes tensões dentro do país), lhe debilitará enormemente, independentemente de que seja ou não aprovada pelo Congresso dos EUA (uma instituição que só goza de 15% de apoio popular, precisamente por perceber-se, por parte da população, estar instrumentalizada pela Corporate America).
É provável que a Câmara Baixa do Congresso (a menos afastada da população) vote contra devido ao enorme enfado que a população tem mostrado à maioria de congressistas em seus distritos. Tem sido precisamente as bases do Partido Democrata (o movimento sindical, o movimento de direitos civis, o movimento feminista e o ecológico progressista) as que vêm se opondo mais a tal bombardeio. E hoje, a mobilização popular contra tal intervenção (que está bombardeando o Congresso com chamadas e mensagens contra a intervenção militar) está generalizada. Mas o establishment estadunidense está mobilizando-se através dos meios de informação para que o Congresso autorize tal intervenção. Hoje, a população recebe constantemente mensagens que a credibilidade do país está em jogo, indicando que o repúdio se lerá como uma negação por parte do povo estadunidense a continuar liderando as forças que representam a democracia e a liberdade, uma mensagem que se repetiu continuamente para defender ditaduras e regimes feudais (e que vão da Arábia Saudita e Qatar à Honduras e antes Haiti) que estiveram oprimindo precisamente a liberdade e a democracia.
Aconteça o que acontecer, se inicia uma nova etapa nos EUA (inclusive em caso de que a Câmara Baixa apoiasse a intervenção), em que a população, e muito em particular as classes populares, estão fartas das guerras e intervenções do governo dos EUA para defender o que Martin Luther King chamava o "rol imperial” da Corporate Class, que está perdendo muito rapidamente seu apoio popular. E esse é o ponto chave que marcará claramente uma mudança importante na história dos EUA (e acho que também do mundo).


[Tradução: Liborio Júnior / Carta Maior

Fonte: Original em Coluna "Pensamiento Crítico” no jornal PÚBLICO, 10 de setembro de 2013].

Brasil entra na rota dos destinos de refugiados

Brasil entra na rota dos destinos de refugiados

Adital - 27/09/2013
Foto:unhcr.org
Depois dos haitianos, são os sírios que acabaram de descobrir no Brasil uma alternativa de refúgio com objetivos humanitários. Há cerca de 10 anos, era impensável para a sociedade brasileira que o país entrasse na rota dos destinos de estrangeiros que fogem de seus países de origem por motivos diversos, como a destruição por catástrofes naturais e conflitos armados. A estabilidade econômica e a posição política de destaque que o Brasil tem ganhado no cenário internacional parece ser um dos principais motivos para o crescimento dessa procura.

A organização não governamental Conectas Direitos Humanos alertou recentemente para a iminência de uma crise humanitária envolvendo os refugiados haitianos que chegam ao Brasil pelo Estado do Acre (região Norte), muito deles ilegais, o que provoca um questionamento: o país tem pernas para receber tantos refugiados? Para o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) e o Comitê Nacional para Refugiados (Conare) do Brasil parece que sim. Este último, que é um órgão do Ministério da Justiça, publicou esta semana no Diário Oficial da União uma norma que garante a concessão de visto especial a pessoas afetadas pelos conflitos armados na Síria e países vizinhos. O visto especial é estendido também à família das pessoas deslocadas.


"A decisão vai ajudar a acelerar a entrada dessas pessoas no Brasil e a resolução que permite esse procedimento especial seja válido por dois anos", disse em Genebra o porta-voz do Acnur, Adrian Edwards. De acordo com a medida, as embaixadas e consulados do Brasil nos países vizinhos à Síria serão responsáveis pela emissão de vistos. Os pedidos de refúgio deverão ser apresentados no momento da chegada ao Brasil, primeiro país na região das Américas a adotar essa abordagem em relação aos refugiados sírios. Estima-se que 3 milhões de brasileiros têm ascendência síria, tendo em vista uma onda de imigração que ocorreu no início do século 20.

Até agora, cerca de 280 sírios solicitaram refúgio ao Conare. Não há solicitações de refúgio pendentes, e o Brasil aprovou 100% dos pedidos apresentados. De acordo
com o Ministério da Justiça, o número tem aumentado gradualmente. No caso do Haiti, a Conectas também informou que o Brasil já havia parado de conceder vistos humanitários em abril deste ano, o que, de certa forma, vem estimulando travessias ilegais e arriscadas da fronteira brasileira. O governo brasileiro havia prometido autorizar 1.200 vistos humanitários por ano aos haitianos.


Atualmente, cerca de 3 mil solicitantes de refúgio e cerca de 4,3 mil refugiados vivem no Brasil. A maioria vem da Colômbia, da República Democrática do Congo e da Síria. O ACNUR tem feito um apelo para que os governos concedam admissões humanitárias para até 10 mil refugiados sírios este ano. Até o momento, a Alemanha ofereceu 5 mil vagas e a Áustria ofereceu 500. Outros países propuseram o reassentamento, incluindo Austrália, Canadá, Dinamarca, Finlândia, Países Baixos, Nova Zelândia, Noruega, Espanha, Suécia e Suíça. 


A crise humanitária causada pela guerra civil síria já expulsou cerca de 2 milhões de pessoas.

Glaciais dos Alpes devem sumir em 100 anos

Glaciais dos Alpes devem sumir em 100 anos


O Aletsch, na Suíça, já perdeu 3,5 km e teve espessura reduzida em 300 metros


29 de setembro de 2013
Jamil Chade / ENVIADO ESPECIAL / FIESCH, SUÍÇA - O Estado de S.Paulo

Em 1678, os habitantes do pequeno vilarejo de Fiesch fizeram uma promessa solene de rezar todos os anos contra a expansão do glacial de Aletsch, um dos maiores do mundo. Com 21 km de extensão, a geleira aumentava a cada ano a sombra sobre a pequena cidade.
Trezentos e trinta e cinco anos depois, os habitantes do povoado alpino mudaram o tom da oração: rezam para que a geleira não derreta, o que significaria o fim de Fiesch em decorrência de uma inundação de proporções bíblicas.
Desde o século 15, Aletsch já perdeu mais de 3,5 km e a cobertura de gelo foi reduzida em 300 metros de espessura. O caso dessa geleira não é o único. Espalhados pelos Alpes nos territórios da Suíça, da Áustria, da França e da Itália, locais conhecidos pela presença de neves eternas e geleiras monumentais começam a sofrer uma dura transformação.
Na sexta-feira, os cientistas do IPCC confirmaram que o homem é o principal responsável pelo aquecimento da Terra e que, se nada mudar, até 2100 a temperatura média do planeta pode aumentar em até 4,8 °C.
Longe das conferências da ONU, os habitantes não têm dúvidas de que a paisagem mudou e que o aquecimento global é uma realidade incontestável. "Não precisamos medir nada. É só olhar", disse Hans Muller, dono da única padaria local, apontando para fora de sua loja. O negócio é da família desde 1830.
O que se vê a olho nu é reforçado pelos últimos informes sobre o clima. Para cientistas, existe o sério risco de que até 2100 o volume total de glaciais do planeta diminua de 15% a 55%, num cenário mais otimista, chegando a 85% num mais pessimista.
Martine Rebetez, especialista em mudanças climáticas nos Alpes e membro do Instituto Suíço de Pesquisa da Université de Neuchâtel, afirma não ter dúvidas sobre o que está ocorrendo. "Nos Alpes, todos os glaciais estão retrocedendo."
Do lado francês dos Alpes, a história não é muito diferente. As paróquias francesas também apelaram às forças divinas para frear o avanço de geleiras que ameaçavam há quase 400 anos engolir vilarejos. Em 1643, os habitantes de Chamonix organizaram um procissão depois que uma parte da geleira local destruiu um ponto da cidade. No ano seguinte, o bispo de Genebra assumiu a tarefa de lutar contra o gelo e passou a benzer o glacial a cada ano.
Agora, o Mer de Glace – o maior glacial da França, com uma superfície de 30 km2 – perde a cada ano entre 4 e 6 metros de espessura e cerca de 30 metros de tamanho. Entre 1905 e 2005, o Mar de Gelo perdeu 120 metros de espessura. O local que serviu de cenário para romances como Frankenstein, de Mary Shelley, sofreu uma contração desde 1850 de 2,5 quilômetros. O recuo do "mar" deixou em seu lugar pedra.
Esqui. As mudanças também afetam os bolsos e orçamentos de cidades inteiras nos Alpes. Nos próximos 20 anos, metade das estações de esqui da Suíça poderá ser obrigada a fechar. Motivo: a falta de neve. O resultado pode ser um desastre financeiro para regiões que dependem do turismo de inverno.

O Catar e a escravidão moderna na Copa de 2022

O Catar e a escravidão moderna na Copa de 2022


Entidade estima que 4 mil trabalhadores irão morrer na construção de estádios e infraestrutura do país se a legislação trabalhista continuar a ser ignorada

por Gabriel Bonis — publicado 29/09/2013
De Londres
Catar
Um dos futuros estádios do Catar para a Copa de 2022
O Catar, sede da Copa do Mundo de futebol de 2022, voltou a ser alvo de críticas devido ao mundial da Fifa. Após a revistaFrance Football, tradicional publicação esportiva francesa, afirmar em janeiro deste ano que o país comprou o direito de hospedar o evento esportivo, a Confederação Sindical Internacional (ITUC, sigla em inglês) denunciou nesta semana que mais de 4 mil trabalhadores podem morrer no Catar antes mesmo de a competição começar, devido a precárias condições de trabalho.
No país, dono da maior renda per capita do mundo, é comum que empresas relacionadas a obras da Copa - e outras construções em geral - não respeitem leis trabalhistas internacionais, como as que estipulam a carga horária diária do funcionário e o uso de equipamentos de segurança. Com as regras de lado, acumulam-se casos de acidentes no setor de construção do país e de mortes de trabalhadores, em sua grande maioria imigrantes de países pobres da Ásia e da África.
Segundo a Confederação Sindical Internacional, que representa representa 178 milhões de filiados em 156 países, o número de trabalhadores imigrantes mortos no Catar chega a 400 por ano. A maioria deles vem do Nepal e Índia, em meio a uma população de 1,2 milhão de funcionários estrangeiros no país.
Em uma carta aberta, Sharan Burrow, secretária-geral da Confederação, destacou que as autoridades do Catar esperam trazer até mais 1 milhão de trabalhadores estrangeiros para concluir toda a infraestrutura necessária à Copa. Mas se não houver reformas trabalhistas, o número de mortes aumentará concomitantemente à quantidade de novos trabalhadores. "Mais de 4 mil vidas de trabalhadores correm risco nos próximos sete anos conforme a construção das obras da Copa do Mundo comece, se nada for feito para dar direitos trabalhistas aos imigrantes", disse Burrow.
Segundo a sindicalista, após dois anos de conversas com a Fifa e o Catar nada foi feito para mudar o cenário no país que tem nível de fatalidades no setor de construção oito vezes maior que o registrado em países ricos. A carta ainda pede que o governo do Catar assuma a responsabilidade pelos trabalhadores imigrantes, associando-se a empresas de recrutamento responsáveis para garantir uma escolha ética de funcionários para as obras da Copa.
O Catar, destaca a ONG, não coleta ou publica dados relacionados a morte ou ferimentos de imigrantes.
Os casos de violações trabalhistas no país ganharam grande destaque nesta semana, após uma reportagem do jornal britânico The Guardian revelar dezenas de casos de imigrantes em condições de escravidão moderna nos canteiros de obras da Copa. Segundo as apurações, ao menos 44 nepaleses morreram entre 4 de junho e 8 de agosto deste ano, cerca de 50% deles em acidentes de trabalho ou por problemas no coração, acredita-se, causados pelas péssimas condições de trabalho e pelo calor que costuma chegar a 50 graus no verão. Muitos eram jovens com cerca de 20 anos.
A reportagem do jornal colheu relatos de imigrantes obrigados a trabalhar no calor elevado, pessoas com salários retidos por diversos meses e passaportes presos para que não pudessem fugir. Além disso, eles não teriam acesso à água potável gratuita e muitos passavam fome.
As fatalidades também atingem os indianos: ao menos 82 morreram nos primeiros cinco meses do ano. Entre 2010 e 2012, foram mais de 700.
Com as denúncias, a organização da Copa no Catar se disse preocupada com os casos de escravidão moderna, mas ressaltou que a construção dos estádios ainda não começou. As obras com irregularidades, no entanto, fazem parte dos projetos de infraestrutura para o mundial. A Fifa comentou apenas que vai contatar a organização do evento para discutir as denúncias do jornal.

A linha do Equador

A linha do Equador



O Equador não existia para nós. No máximo a linha – imaginária – do Equador, que nós nem assimilávamos bem a um pais. E na pergunta reiterada nas provas do colégio:

- Quais os dois países da America do Sul que não tem fronteira com o Brasil?

Pergunta que por si só buscava reduzir a importância desses dois "paisinhos" que sequer fronteira tinham com um país continente como o nosso.

Às vezes algum time de futebol, algum jogador que se destacava por um tempo. Nada mais do que isso era o Equador para nós.

Nem a pintura extraordinária de Guayasamin era conhecida por nós, nem a literatura, nem a música. O Equador era um espaço em branco na nossas cabeça. Ninguem vinha ao Equador. Se fosse perguntado sobre o país, no máximo saberiamos o nome da sua capital.

Hoje a personagem equatoriana mais conhecida no mundo – a ponto de nós também sermos obrigados a conhece-lo – é Rafael Correa, o presidente e líder do formidável processo de transformações que o Equador vive já por seis anos e que seguirá, dado que Correa foi eleito no primeiro turno, com uma enorme maioria de votos este ano, para seguir dirigindo o país.

Não sabíamos que o Equador é um país muito bonito, que Quito, com seu centro belamente restaurado, é uma das cidades mais bonitas da América Latina. Que o Guayasamin é um dos pintores mais importantes do continente.

Mas agora saber do Equador, conhecer o país, acompanhar o processo que, junto com o boliviano, é o que de mais avançado temos hoje na America Latina. 

A linha do Equador agora deixa de ser imaginária para nós. Vai dando o compasso de como se constrói alternativas conscretas ao neoliberalismo, enfrentando a feroz oposição da direita – em torno da velha mídia – e da ultra esquerda – derrotados fragorosamente nas eleições -, com Rafael Correa com apoio superior a 70%.

Postado por Emir Sader às 04:58

Jornadas de junho: jovens, trabalhadores e descrentes da ascenção social

Jornadas de junho: jovens, trabalhadores e descrentes da ascenção social


É o que diz a pesquisa sobre as manifestações populares de junho, coordenada pelo professor Marcelo Ridenti, da Universidade de Campinas (Unicamp), apresentada em mesa do encontro da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs).


Os manifestantes das jornadas de junho deste ano eram sobretudo jovens trabalhadores e descrentes da ascenção social . Essa é uma das conclusões da pesquisa coordenada pelo professor Marcelo Ridenti, da Universidade de Campinas (Unicamp), apresentada em mesa do encontro da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs).

Segundo Ridenti, os manifestantes souberam se expressar nos moldes da sociedade do espetáculo e da cultura da celebridade, disse fazendo referência a Guy Debord (1931-1994) e sua obra, "A Sociedade do Espetáculo" (DEBORD, Guy. La société du spetacle. Paris, Buchet-Chastel, 1967).

O professor destaca a diferença essencial dos protestos ocorridos no Brasil em relação a outros países. Por aqui, são jovens com emprego. A maioria trabalha, são recém-formados e nem sempre encontram, no trabalho, a possibilidade de manter o mesmo padrão de vida familiar ao qual estavam acostumados em suas famílias de classe média. Desconfiam de suas próprias possibilidades de ascensão social pelo estudo.

Uma pesquisa anterior, feita pelo Ibope, trouxe dados similares ao do perfil encontrado pelos pesquisadores da Unicamp. Cerca de 63% dos manifestantes tinham entre 14 a 29 anos, enquanto 18% tinham entre 30 a 29 anos. Cerca de 93% tinham o ensino fundamental completo e nível superior incompleto ou já completo. Em torno de 76% trabalham. A maioria ganha entre 2 a 5 salários mínimos, sendo que 26% estão na faixa de remuneração de 5 a 10 salários mínimos.

É uma contradição da própria melhoria das condições sociais do país na última década. Hoje, conforme lembra Ridenti, existem quase 7 milhões de universitários, o dobro do que era, uma década atrás.

As chances de ascensão, nesse sentido, exigem mais dos jovens de classe média, hoje, do que no passado. Seu futuro é incerto. A única coisa segura é que eles vieram para ficar.

Antonio Lassance é cientista político e pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente opiniões do Instituto.

Não é surpresa que a Índia tenha virado alvo tão importante de vigilância, diz Greenwald

Não é surpresa que a Índia tenha virado alvo tão importante de vigilância, diz Greenwald


"Quanto mais os EUA souberem sobre o que os outros países estão fazendo – não só seus governos, mas suas empresas e sua população – mais poder os EUA têm sobre aquele país." De acordo com o jornalista norte-americano, é por isso que os EUA investigam a emergente Índia e "eliminam a privacidade do mundo".


Já faz algum tempo que as pessoas no mundo todo suspeitam que seus emails são lidos e seus telefones estão grampeados por agências governamentais. Os piores medos de todo mundo se tornaram realidade em junho quando Edward Snowden, um administrador de sistema daNational Security Agency dos EUA, revelou informações sobre programas de vigilância eletrônica em massa feitos pela agência desde 2007. Glenn Greewald deu o furo da história no The Guardian.


Desde então, o jornalista norte-americano, que vive no Rio de Janeiro, fez uma série de histórias bombásticas, que expuseram até onde ia o alcance das operações secretas de vigilância da NSA. A revelação feita por ele de que a NSA espionou telefonemas e emails da presidenta Dilma Rousseff fizeram com que fosse cancelada uma viagem dela aos EUA em que ela visitaria a Casa Branca.



Agora colaborando com o The Hindu em uma série de matérias sobre a espionagem da NSA na Índia, o sr. Greenwald conversou com Shobhan Saxena durante encontros em lobbies de hotéis e em sua casa, que ele divide com seu companheiro, David Miranda, dez cachorros e um gato, no meio da Floresta da Tijuca, no Rio. Veja alguns trechos da conversa:



Qual você acha que foi o impacto mais importante que suas histórias trouxeram?



É que não só os norte-americanos, mas pessoas do mundo todo, agora sabem os verdadeiros objetivos do sistema de vigilância dos EUA: coletar e armazenar toda forma de comunicação entre seres humanos. Em outras palavras, o objetivo é, por definição, eliminar a privacidade no mundo. E essa percepção tem produzido debates intensos e profundos em todos os continentes sobre o valor da privacidade e da liberdade da internet, os perigos representados pela vigilância secreta dos EUA, e mais amplamente, o papel que os EUA desempenham no mundo.

Sua matérias revelaram que os EUA são um enorme estado de vigilância. Essa é uma imagem bem diferente dos que os EUA tem de si mesmo, de um farol da liberdade individual e protetor da liberdade e privacidade. Como essas revelações afetaram a imagem dos EUA no mundo?



No começo, as pessoas presumiram que o foco das nossas matérias seria no que a National Security Agency estava fazendo e no que é a política de vigilância dos EUA, e o que mudaria seria como os norteamericanos pensavam na espionagem e como as pessoas no mundo viam a questão da privacidade. Mas o que mais mudou a partir dessas histórias é como as pessoas veem os EUA – exatamente do jeito que você falou na sua pergunta.



Essas histórias revelaram um programa de vigilância que funcionava não apenas sem o conhecimento das pessoas ao redor do mundo mas dos próprios americanos, que supostamente têm poder sobre seu governo eleito democraticamente; está claro que os EUA não respeita nenhum limite ético ou legal em sua busca por poder. É completamente contrário à imagem que eles mostram para o mundo.



Como republicanos e democratas falam a mesma língua no que diz respeito às questões de segurança nacional, será esse processo irreversível? Pelo jeito como a administração Obama reagiu às matérias, parece não haver nenhuma vontade de se refletir sobre tudo isso internamente.



Eu não acho que nada seja irreversível quando se fala de tendências políticas. Nós vimos como nos últimos três ou quatro anos como as tiranias mais enraizadas do mundo árabe se enfraqueceram, foram subvertidas e até mesmo destronadas. Há todo tipo de exemplo na história de mudanças radicais que as pessoas sequer esperavam. Então não acho que seja irreversível. Eu acho que é muito difícil mudar por causa dessa incorporação dos dois partidos não só dos assuntos de segurança nacional em geral mas também do papel dos EUA no mundo como um império. Mas uma das coisas que já se pode ver é que nas cinco a seis semanas que nós temos publicado essas matérias tem havido uma confusão na divisão partidária. Então, metade dos apoios mais contundentes a essas histórias vem dos republicanos, tanto os mais conservadores quanto os mais liberais; a outra metade vem de liberais e de pessoas de esquerda. 



Isso realmente embaralhou as categorias normais de ideologia de uma maneira nunca vista; também se pode ver nas pesquisas de opinião pública que há um aumento no número de pessoas seriamente preocupadas com os excessos do estado de vigilância, os abusos das liberdades civis e os ataques à privacidade. Tudo isso sugere que mudanças serão inevitáveis.



Seu companheiro David Miranda foi detido em Londres por conta de uma lei antiterrorismo. Você acha que eles estavam mesmo atrás dos documentos que ele tinha com ele ou eles queriam intimidar você?



Não há dúvidas de que o principal objetivo deles era intimidar. Se eles quisessem confiscar o que ele estava levando, eles poderiam tê-lo detido por nove minutos. Mas eles o detiveram por nove horas, o máximo permitido pela lei. E eles não só o detiveram, fizeram isso usando-se de uma lei “antiterrorismo”. Especialmente para quem não é cidadão nem dos EUA nem da Inglaterra, é muito aterrorizante ouvir que você está sendo detido por conta de uma investigação de “terrorismo”, devido aos péssimos registros no que diz respeito aos direitos humanos no país nos últimos dez anos.



Um membro do governo dos EUA disse à Reuters que o propósito da detenção de David era de “mandar uma mensagem” para nós, que falávamos dessas histórias, pararmos. Foi um ataque bruto contra a liberdade de imprensa.

Tem havido tentativas, nos EUA, de criminalizar o jornalismo, como aconteceu no caso da Fox News e da AP? Isso não te incomoda?



Eles têm tido sucesso em criar um clima de medo entre denunciantes e fontes. Por isso alguns advogados federais me disseram, pelo menos por enquanto, que eu não deveria voltar para os EUA, eu não devo tentar entrar no país. É algo muito extraordinário para um advogado norteamericano falar para um jornalista norteamericano que ele não deve tentar entrar de novo no seu próprio país, pois eles podem tentar prender você.



Então você não foi mais aos EUA desde que começou a publicar essas matérias?



Não, não fui. Eu fui para Hong Kong e voltei para o Brasil por Dubai. Não estou dizendo que eu vou ser preso, mas o fato de ser motivo de discussão, e muita gente se sentir livre para defender isso publicamente sem perder sua posição ou sua credibilidade, já fazem disso uma possibilidade real. Quando se fala de ser processado pelos EUA por espionagem, não é um risco que você pode lidar com leveza.



Por que você acha que a NSA mirou na missão diplomática e em interesses da Índia, um país com quem os EUA tem laços de amizade estreitos?



A Índia é um país com cada vez mais importância em diversas áreas: econômica, política, diplomática e militar. O objetivo dos EUA é submeter virtualmente todo mundo a vigilância em massa, mas não é nenhuma surpresa que a Índia tenha se tornado um alvo tão importante dessa vigilância. Em última instância, é uma questão de poder: quanto mais os EUA souberem sobre o que os outros países estão fazendo – não só seus governos, mas suas empresas e sua população – mais poder os EUA têm sobre aquele país.

Uma das revelações mais chocantes de suas matérias foi o envolvimento de diversas democracias ocidentais, como Inglaterra e Alemanha, nos programas secretos de vigilância. Parece que há bem poucos países dispostos a enfrentar os EUA. 



Acho que o mundo pode ser dividido, de maneira muito ampla, no que diz respeito às relações com os EUA, em três categorias. Uma é de países extremamente subservientes aos EUA, que sempre capitulam aos seus ditames. Uma segunda categoria é de países que são abertamente hostis aos EUA, então há uma grande maioria que fica no meio, de países independentes. Eles se aliam aos EUA se eles têm interesse, e ficam contra se acham que devem.



A maioria dos países europeus fica bem posicionada na primeira categoria, de governos que capitulam sem nenhuma força, de maneira subserviente, aos ditames dos EUA. Então se viu muita raiva fingida e indignação artificial quando essas revelações vieram à tona, porque os cidadãos europeus foram alvo e eles se importam com a privacidade. Então seus governos precisavam fingir que estavam bravos, mas pode-se ver suas verdadeiras cores quando os EUA mandaram que eles negassem passagem pelo espaço aéreo ao presidente da Bolívia, Evo Morales. Eles obedeceram direitinho, ao extremo, negando passagem ao presidente de um país soberano. Eles fizeram isso porque são cúmplices, virtualmente todos esses governos europeus. Ao passo que na América Latina e em alguma medida na Ásia, e certamente em alguns países do Oriente Médio, há muito mais independência. Então a raiva expressa é, em alguma medida, falsa, mas também é mais genuína.



Para não haver quase nenhuma indignação com empresas de tecnologia como Facebook, Skype, Google, que praticamente colaboraram com o governo dos EUA na coleta de informações sobre pessoas no mundo todo. Agora essas empresas dizem que não tiveram escolha. Elas podiam ter dito “não” para a NSA?



Há enquadramentos legais que exigem que elas colaborem com os programas de vigilância do governo dos EUA mas elas fizeram muito mais do que a lei exigia, como as empresas de telecomunicação fizeram na era Bush. O motivo é que elas se beneficiam de todas as formas possíveis por terem boas relações com o governo dos EUA. Só os benefícios dessa colaboração com o governo dos EUA nos termos desse programa de vigilância massiva compensam de longe o que eles consideram como custo das relações com o consumidor ou da imagem deles no mundo. Uma das razões que fez com que eles chegassem a essas contas é que eles pensaram que tudo isso seria feito secretamente; ninguém sabia que eles colaboravam tanto, e um dos benefícios de se revelar o que eles têm feito é que isso altera o cálculo deles, se as pessoas começam a perceber que eles são tão cúmplices do governo e que suas comunicações não são assim tão seguras, e elas podem começar a buscar alternativas.



O problema agora é que Facebook, Skype e Google são tão gigantes que é quase impossível não usar nenhuma delas. Se você tem 22 anos, você pode até se incomodar com o fato de o Facebook invadir sua privacidade, mas quando todos os seus amigos, todo mundo que você conhece, seus patrões estão no Facebook e exigem que você esteja, é muito difícil seguir os seus princípios e dizer “não uso mais o Facebook e o Skype”.

Suas matérias expuseram também o que se pode chamar de grande mídia, como o New York Times e a CNN, que publicaram muito mais histórias sobre a vida pessoa de Snowden do que sobre os programas de vigilância. Até você foi atacado em algumas colunas. Você acha que o espaço para o jornalismo bom e investigativo está diminuindo na mídia global?



Sim e não. Acho que era completamente previsível o que eles fariam. Mesmo antes de revelarmos a identidade de Snowden, eu escrevi um artigo predizendo que eles tentariam tirar a atenção das denúncias, porque servir ao governo é sua função. Eles iriam demonizá-lo, bem como a qualquer pessoa, incluindo jornalistas, que trabalhassem com ele por transparência. Foi isso que eles fizeram em cada um dos casos. Eles fizeram isso com Daniel Ellsberg 30,40 anos atrás. Fizeram com o Wikileaks, com Bradley Manning. Nós sabíamos que eles fariam isso com Snowden e, eventualmente, comigo.



Mas não importou muito. De alguma forma o espaço para o jornalismo investigativo diminuiu por causa do que a mídia corporativa de massa virou, mas como a internet abriu espaço para todo tipo de mídia alternativa, o espaço para um jornalismo investigativo está maior do que nunca. Eu sou uma criatura da internet. Eu comecei meu próprio blog sete anos atrás e mesmo hoje, trabalhando para o Guardian, eu topei exigindo total liberdade editorial. Eu tenho minha própria voz e eu não estou preocupado. Minha carreira não depende de favores dos poderosos. Eu pude desenvolver esse modelo alternativo por causa do poder da internet, de encontrar meus próprios leitores e não depender dessas grandes instituições. Há várias pessoas fazendo esse tipo de coisa em diversas áreas, em todas as culturas, em todo canto do planeta e isso mudou definitivamente o jornalismo. Há muita auto-reflexão acontecendo agora dentro do New York Times e outros veículos sobre por que eles ficaram completamente de fora de um dos maiores – se não o maior – escândalo da mídia em muitos anos. E o motivo é que Snowden não confiava neles para contar a história de verdade. Ele não confiava que eles fossem resistir às exigências do governo, assim como Bradley Manning não confiou no New York Times e noWashington Post e foi para o Wikileaks. Então vamos ver cada vez mais isso acontecendo à medida que mais histórias vão parar em gente como eu, ou como o Wikileaks, e não nas mãos do New York Times ou do Washington Post. O modelo de jornalismo dele vai perder cada vez mais a credibilidade. Isso já está acontecendo.



Você está trabalhando num livro sobre todo esse caso. O livro é sobre Edward Snowden?



Só uma parte do livro vai falar sobre mim, sobre como eu me envolvi nessa história, e como eu desenvolvi uma relação de fonte com Snowden, como eu consegui os documentos, como eu escrevi as matérias, minha experiência em Hong Kong e depois disso. Mas o grosso do livro vai ser sobre como os EUA construíram esse estado de vigilância e quais são as consequências e os riscos disso. Vai haver também novas revelações, baseadas nos documentos.



Algumas pessoas sugeriram que Snowden poderia ainda ser um agente disfarçado. Naomi Wolf até escreveu um artigo dizendo que poderia ser tudo um grande esquema. Você teve alguma dúvida sobre Snowden ou sobre a autenticidade dos documentos antes de sentar para escrever suas matérias?



Não, cair nessa teoria seria tão imbecil que eu não gastei um segundo do meu tempo nisso. Parte do que fazemos como seres humanos se baseia na intuição. Você precisa julgar quem está mentindo para você e quem está contando a verdade, quem não merece crédito, quem está enganando você e quem está sendo verdadeiro. Quando eu fui para Hong Kong, meu primeiro objetivo nos primeiros quatro ou cindo dias era entender tudo que eu poderia sobre Edward Snowden e me certificar que ele não estava escondendo nada e que ele era sincero nas alegações dele. Como eu nunca havia encontrado com ele, eu passei horas e horas sozinho com ele na primeira semana. Falando frente a frente com ele – a dois metros dele, olhando nos meus olhos – e eu não tive dúvidas sobre quem ele era e do que ele estava falando. Eu prefiro que as pessoas sejam céticas em excesso do que ingênuas em excesso, mas essa teoria em particular não merece nenhuma atenção.



Você mora no Rio de Janeiro há oito anos. Como se sente morando no Brasil?



Eu amo o Brasil. Por isso que eu moro aqui há tanto tempo. Claro, eu vim para cá por causa da lei de imigração discriminatória dos EUA, que impede que meu parceiro vá para lá, ainda que eu pudesse emigrar para cá. 



Mas há uma forte presença da CIA no Rio de Janeiro; a polícia do Rio e de todo o Brasil é notoriamente muito agressiva em seus métodos. Então eu presumo que eu tenha sido espionado e monitorado. Tivemos um incidente, quando o laptop do meu companheiro sumiu de casa. Mas eu me sinto tão seguro aqui quanto em qualquer outro lugar. Não me sinto especialmente inseguro aqui. Você não tem como estar muito seguro carregando dez mil documentos altamente secretos da agência mais secreta do governo mais poderoso do mundo. Não há segurança completo, mas não me sinto muito inseguro também.



Fotos: EBC