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terça-feira, 22 de setembro de 2015

“Carro mata mais que arma de fogo em São Paulo, mas não é mais notícia”

“Carro mata mais que arma de fogo em São Paulo, mas não é mais notícia”


Especialista diz que desafio de ampliar restrição a carros é "cultural, não é técnico"


O ativista Carlos Aranha. / VICTOR MORIYAMA


Uma pequena volta pelas ruas da maior metrópole da América Latina é suficiente para perceber que o automóvel continua sendo "o rei de São Paulo". Ainda que o prefeito Fernando Haddad tenha sido apelidado de "rei da tinta" por ter criado novos quilômetros de ciclovia pela cidade, as áreas destinadas às bicicletas representam menos de 1% do espaço público, explica Carlos Aranha, especialista em mobilidade urbana e integrante do Conselho Municipal de Política Urbana, coletivo ligado à Prefeitura com participação de integrantes do poder público e da sociedade civil para o debate do tema. Aranha também atua na Rede Nossa São Paulo, o conjunto de ONGs e instituições civis que tem acompanhado de perto e cobrado a gestão municipal. No momento em que se reacende o debate sobre ciclovias e segurança com a morte nesta sexta de uma ciclista em São Paulo, dias após o choque com um ônibus, ele rebate: "Questionar as ciclovias ou o uso da bicicleta diante de uma morte no trânsito é tão absurdo quanto culpar o comprimento da saia de uma vítima pelo seu estupro".
Pergunta. Quais as soluções para que os diversos modais de transporte possam conviver juntos ?
Resposta. Para todos os dilemas existem decisões técnicas e decisões políticas, embasamentos dos dois lados. Quando você fala que vai reduzir a velocidade nas marginais para melhorar o trânsito, isso é totalmente técnico. Já quando se fala nessa redução para evitar mortes, claro que há um embasamento técnico, - porque quanto menor a velocidade, menor o impacto em um acidente, isso é provado – mas tem também o político. Você pode dizer: não importo da cidade matar 600 pessoas atropeladas por ano, eu prefiro manter altas velocidades por um motivo X, já que não acredita no embasamento. Quando falo de motivação política, é no sentido de política pública, de pensar o que é melhor para o bem comum. Quando Nova York, por exemplo, lançou o programa Vision Zero, de zerar as mortes no trânsito, a decisão foi de política pública. Depois, também perceberam que a medida ajudou na fluidez do trânsito, no congestionamento. Se você comparar São Paulo com Nova York você percebe que a nossa cidade ainda está atrasada.
P. Que políticas ainda precisam ser implementadas aqui?
R. O Vision Zero têm 3 pilares: primeiro, a redução de velocidade máxima, segundo, a geometria das ruas, quanto elas se mostram convidativas para a velocidade. Por exemplo, no caso da marginais, as pessoas estranham tanto 50 km/h, porque ela tem cara de rodovia, ela te convida a correr mais. São muitas faixas, são largas, espaço livre grande, os raios das curvas foram feitos pensando na velocidade. Se você simplesmente reduz a velocidade, sem mudar a geografia da rua, (o chamado Traffic Calming- moderação do Tráfego) com elementos na rua que falam para os motoristas que é preciso andar mais devagar, as pessoas vão estranhar. Por isso digo que está correto o que está sendo feito aqui em São Paulo, mas ainda está incompleto. Por exemplo, a rua Avanhandava, no pé da Augusta, recebeu um tratamento de Traffic Calming. Todo mundo que entra nela reduz a velocidade.  Ela tem um piso de concreto intertravado que faz um barulho, tem a calçada no mesmo nível da rua, árvores 'entrando' no meio da rua, você sente que é um local para tomar cuidado, para baixar a velocidade, por isso é importante a geometria. Já o terceiro pilar usado em Nova York  é a fiscalização de trânsito constante. Eles realmente atuam com dureza na penalização das infrações de trânsito. Levam isso a sério todos os dias da semana, durante todos os horários. O que acontece hoje em São Paulo é que a fiscalização é feita principalmente em dias úteis no horário comercial. A Polícia Militar tem um efetivo muito pequeno e prioriza infrações que não necessariamente atentam contra a vida. É muito comum ver no relatório da CET multas de rodízio, de zona azul, já o desrespeito a faixa de pedestres há muito poucas infrações. Não é porque não acontece, mas porque não está sendo punido.
P. E os radares?
R. Eles são um grande problema no Brasil. As pessoas reduzem só para o radar, cumprem e depois voltam a acelerar o carro. Na prática não adianta nada, teríamos que ter fiscalização 24 horas por dia, para todas as infrações, em especial para as que atentam contra a vida. É preciso incluir também a lei seca aí, ela tem o mesmo problema do radar. Todo mundo sabe onde a Blitzs é montada, tem twitter e outras formas de descobrir. Mas nos locais onde ela realmente funciona, ela acontece de forma aleatória. Nos Estados Unidos, por exemplo, os policiais ficam escondidos. Como no Brasil há essa previsibilidade é fácil burlar. Dos três pontos do Vision Zero, estamos terríveis ainda na fiscalização, começando a discutir a geometria das ruas e estamos efetivos na redução de velocidade.
P. Alguns setores alegaram que essa redução tinha por trás um interesse na arrecadação de dinheiro com multas de alta velocidade...
R. Conceitualmente esse argumento é uma grande besteira. Afinal, dinheiro de multa não é arrecadação livre, ele já tem destino orçamentário previsto. Então ele já vai para um fundo que tem várias atribuições, entre elas investimento em educação de trânsito (que sentimos um pouco de falta de mais investimentos), não vão transferir para construir um hospital, e tudo isso é transparente. Acho que quem faz esse tipo de acusação precisa mostrar. E se realmente tivesse acontecendo algum desvio a sociedade teria que saber, porque seria gravíssimo, mas você falar da boca da fora, que é uma tentativa de arrecadação não faz sentido.
P. Nos últimos anos, a mobilidade melhorou?
R. Se for considerar que estamos entre as 5 maiores metrópoles do mundo e que São Paulo é a maior cidade do Brasil, cujo trânsito mais mata no mundo, não é difícil constatar que estamos vergonhosamente décadas atrasados. Por outro lado, se considerarmos, o tipo de individualismo e egoísmo que se manifesta na população e especial na mídia paulistana, no momento que você tenta colocar uma agenda mais progressista, eu diria que finalmente estamos conseguindo avançar. Estamos tentando compensar um atraso de décadas, de políticas erradas, que sempre privilegiaram o carro, o que é burro tanto do ponto de vista de política pública quanto do conceito técnico, porque você trava a cidade inteira. E foi sempre o que São Paulo fez, convidar a todos a usarem carros, a ter seu próprio carro. E criou também um trânsito muito perigoso, ruas perigosas, em que você não vê idosos, não vê crianças, nem deficientes. Você vê pessoas sempre com medo, acuadas, com cuidado para atravessar, para virar porque está todo mundo com sua pressa e seus motores ameaçando a vida. Não é à toa que temos 7.000 atropelamentos por ano. Agora a agenda que vem sido colocada pela atual gestão é progressista no sentido de proteção a vida e de equalizar os modos possíveis de transporte na cidade. Quando você começa a investir nos modos ativos de deslocamento, pedestre e bicicleta majoritariamente, e no transporte público, você começa a dizer que você vai usar o carro se você quiser, mas você tem ótimas opções. Pra fazer isso, inevitavelmente você precisa tirar espaço físico do carro.
P. E qual o maior desafio para realizar esse redesenho do espaço público?
R. Do ponto de vista técnico é muito fácil. O grande desafio é a questão da opinião pública de uma cultura que já está instaurada. Hoje temos 17.000 km de ruas asfaltadas na cidade de São Paulo, que há 20 anos atrás era para todos, você entupia de carros individuais, ônibus , bicicletas...Para que você consiga equalizar o transporte público é necessário dividir e fazer espaços exclusivos para que funcione melhor. O exemplo mais óbvio é o ônibus, é um veículo que poluí duas ou três vezes mais que um carro, só que ele carrega 100 vezes mais que um carro. Então você tem que dar uma faixa exclusiva, não só uma, mas duas, para permitir ultrapassagem. Começou, mas ainda estamos tímidos. O desafio é de opinião pública, cultural, não é técnico. E não é à toa que quem não leva a mobilidade urbana a sério apelida o atual prefeito de rei da tinta e suvinil, porque é tão simples redistribuir o espaço público, que chega a parecer errado. E não é. Quando você pinta uma faixa branca e diz aqui é só passa ônibus é o caminho correto. Pinta de vermelho para a bike, você está fazendo política pública. É tão simples que revolta as pessoas, elas acham que talvez tivessem que criar minhocões pela cidade inteira para resolver o trânsito e não vai. É só você ver qualquer iniciativa semelhante no mundo para ver que não dá certo. Los Angeles, por exemplo, passou décadas investindo em viadutos e túneis e não adiantou, o trânsito continua travado. Agora eles estão começando a ver que precisam investir em transporte coletivo público de qualidade. Não existe nenhuma cidade grande no mundo que tenha resolvido seu problema de mobilidade urbana investindo no transporte individual motorizado.
P. Apesar disso parte da população ainda desconfia sobre a eficácia das ciclovias e de um redesenho urbano. No mês passado, a morte de um pedestre em uma ciclovia gerou um debate grande...
R. Na escola de jornalismo, se aprende que um avião decolar e pousar não é notícia, já se explodir no ar, aí sim é. Hoje atropelamos e matamos 2 pessoas por dia com carro em SP. Isso não é notícia porque virou algo natural, não se indignam, e não é. Isso é uma carnificina urbana diária. Apesar da imensa violência urbana que temos na cidade, hoje carro mata mais que arma de fogo na cidade de SP. Só que já não é notícia. O código de trânsito é claro, há um artigo que diz que a hierarquia da rua prevê que o maior sempre será responsável pelo menor, da mesma forma que o caminhão precisa ter cuidado com os carros ao redor, o carro cuida da moto, a moto da bicicleta, a bicicleta do pedestre, todos juntos cuidam do pedestre. Isso resolve tudo, claro que o ciclista tem que tomar cuidado com o pedestre, não importa se ele está atravessando fora da faixa, nada justifica uma morte ou você ferir uma pessoa. O que temos hoje na cidade é uma inversão total disso, o automóvel é o rei da cidade e todos têm medo dele. Aí você tem um modo de deslocamento que sempre existiu, que antes de qualquer ciclovia, já havia um índice de 300 mil ciclistas na cidade por dia, e que agora começa a ganhar relevância porque é uma novidade pra cidade, vem gerando discussão. O plano da Prefeitura é implementar 400 km de ciclovia, isso significa menos de 2% dessas ruas, toda essa polêmica entorno de 2% de ruas que estão ganhando uma parte delas para criar uma infraestrutura dedicada aos ciclistas como um convite para que as pessoas usem a bicicleta como meio de transporte. Se você considera a área do espaço público, viário de muro a muro, tudo que está implementado de ciclovia representa menos de 1% desse espaço e, se você somar com todas as faixas exclusivas de ônibus e corredores, você não passa de 1% do espaço público da cidade. Não estou contando parques, estou falando de área viária. E se isso gera ainda tanta polêmica e grito é porque as pessoas ainda acreditam que nós ainda temos alguma solução possível na crença do transporte individual motorizado.
P. Nesta sexta, a morte de uma modelo que se chocou com um ônibus enquanto pedalava na av. Faria Lima voltou a reacender o debate sobre a segurança das ciclovias. Como avalia?
R. Questionar as ciclovias ou o uso da bicicleta diante de uma morte no trânsito é tão absurdo quanto culpar o comprimento da saia de uma vítima pelo seu estupro. Ciclovias existem justamente para dar segurança e conforto às pessoas. Nada priva o condutor do automóvel da sua obrigação prevista em lei: o cuidado irrestrito do maior pelo menor, sempre, em qualquer situação. Me preocupa bastante ver tanto alvoroço em torno das mortes que envolvem uma bicicleta (foram 3 casos este ano em São Paulo) e nenhuma menção às 30.000 ocorrências de trânsito, com 1.500 mortes, sempre causadas por automóveis, na mesma cidade, todo ano.
P. E qual a situação do metrô?
R. No sistema brasileiro temos um caso peculiar, já que o transporte ferroviário é responsabilidade estadual e o transporte sobre pneus dentro da cidade é responsabilidade do município. Com isso você fica dependendo da boa vontade do político eleito da cidade e do estado de terem um diálogo e ajudar. Mas dado essa ressalva dessa separação, o metrô de São Paulo é pífio, a evolução é muito lenta. O que temos na prática hoje é um sistema de ônibus carregando duas vezes mais o que o metrô carrega. As viagens de ônibus em SP chegam a 10 milhões por dia e o metrô mal chega a 4,5 milhões. Então, considerando as características do metrô de transporte de massa de altíssima capacidade e com mais espaço de carregar mais gente em menos tempos é claro que deveria carregar mais gente. Teríamos que ter uma rede muito maior do que ela hoje. Se você pega o planejamento dos anos 90 de SP, hoje teríamos que ter uma rede com o dobro de tamanho, e o que vemos atualmente é o contrário. Vemos estações serem inauguradas com 5, 7, 10 anos de atraso. Outra opção que considero errada é adesão do monotrilho suspensa, porque já nasce saturado, com a capacidade menor do que a demanda daqueles bairros sugerem. E também estão atrasados. O metrô é importante e todos defendem tanto sem muita ressalva porque ele não atrapalha tanto o carro.
Fonte: http://brasil.elpais.com/brasil/2015/09/02/politica/1441231171_842602.html?id_externo_rsoc=FB_CM

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Como Alemanha se beneficiará recebendo 800 mil refugiados



(EPA)

Quando a chanceler alemã, Angela Merkel, anunciou na semana passada que a Alemanha concederia asilo a 800 mil refugiados neste ano, muitos afirmaram que outros países da União Europeia deveriam seguir o exemplo da maior economia do bloco.
Desde que dezenas de milhares de imigrantes de Síria, África e Oriente Médio começaram a chegar às fronteiras da Europa, a narrativa política na Alemanha tem sido distinta.
Em seus discursos, Merkel vem destacando "o ideal europeu comum". Segundo ela, o continente como um todo tem de se envolver com o problema da crise humanitária na Síria.
"Se a Europa fracassar no assunto dos refugiados, sua estreita relação com os direitos civis universais serão destruídos", disse a chanceler alemã.
"Como um país financeiramente saudável e forte, temos a força para fazer o que é necessário", acrescentou.
Surpreendentemente, o posicionamento de Merkel quanto à crise humanitária na Síria gerou um inédito consenso no país. Tanto a maioria dos políticos de direita quanto de esquerda apoiam a iniciativa da chanceler.
Para muitos deles, aceitar refugiados é uma questão de solidariedade com aqueles que fogem de perseguições e guerras.
No entanto, há razões pragmáticas por trás do autopropalado altruísmo.
Efetivamente, a Alemanha possui uma das populações que envelhecem e diminuem mais rapidamente na Europa.
Segundo estimativas da Comissão Europeia, calcula-se que em 2060 a população do país encolherá em 10 milhões de pessoas, passando de 81,3 milhões em 2013 para 70,8 milhões.
Por essa razão, o país poderia beneficiar-se de um influxo de jovens trabalhadores.
Por outro lado, acredita-se que o Reino Unido se tornará o país mais populoso da União Europeia. Segundo o relatório da entidade, a população do país vai aumentar das atuais 64,1 milhões para 80,1 milhões de pessoas em 2060.
O crescimento da população britânica é resultado da taxa de fertilidade relativamente alta e de um dos maiores saldos líquidos de imigração entre todos os países que pertencem ao bloco comum.
Essa diferença pode ajudar a explicar por que Alemanha e Reino Unido mantêm posições diferentes sobre imigração.
No caso alemão, a crescente proporção de cidadãos dependentes antecipa um enorme fardo para os contribuintes.
Estima-se que a proporção de pessoas com 65 anos ou mais sobre a população entre 15 e 64 anos aumentará de 32% em 2013 para 59% em 2060.
Em outras palavras, isso significa que daqui a 45 anos haverá dois alemães com menos de 65 anos trabalhando e gerando impostos para cada alemão aposentado.
Segundo explica o editor de economia da BBC, Robert Peston, "considerando essas circunstâncias, seria particularmente útil para a Alemanha receber um influxo de famílias jovens da Síria ou de outras partes, que estão dispostas a trabalhar duro e se esforçar para reconstruir suas vidas e demonstrar a seus anfitriões que não são um fardo".
Mas nem tudo é boa notícia para a Alemanha.
A entrada maciça de imigrantes, como está acontecendo agora, cria enormes desafios para a sociedade.
(Getty)
Governos de muitas cidades dizem estar sobrecarregados pois não têm onde abrigar os refugiados, que chegam a dezenas de milhares de pessoas.
E os sistemas de segurança social e os orçamentos regionais vão ter de enfrentar crescentes custos adicionais.
Mas, como observou em sua edição internacional a revista Der Spiegel, a entrada sem precedentes de imigrantes na Alemanha "vai mudar fundamentalmente o país."
"(Os refugiados) representam um fardo, mas são também uma oportunidade para criar uma nova Alemanha, mais cosmopolita e generosa".
E a onda de imigração também é bem recebida pelos empresários. "Embora a taxa oficial de desemprego seja de quase 2,8 milhões no país, diz a Der Spiegel, a comunidade empresarial precisa urgentemente de trabalhadores."
"A economia alemã depende da imigração, tanto da Europa quanto de pessoas que entram no país devido aos direitos de asilo."
"Com uma população em queda, as empresas não podem preencher todos os postos de trabalho e trabalhadores qualificados são cada vez mais raros. Essa tendência será agravada nos próximos anos. Trata-se de uma realidade que ameaça a prosperidade do país", afirma a publicação.
Especialistas dizem que a Alemanha não vai conseguir satisfazer suas necessidades somente com o mercado de trabalho europeu, onde é permitida a livre circulação de trabalhadores na União Europeia.
Em meio ao acalorado debate sobre imigração, o governo alemão não está isento de críticas, muitas das quais partem de setores à extrema-direita tradicionalmente contrários a entrada de estrangeiros no país.
Mas economistas afirmam que a imigração promove crescimento e o país vive, atualmente, um momento em que a onda de imigrantes pode representar um benefício econômico e demográfico no futuro.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Ressentimento de classe

Ressentimento de classe

A segregação que antes se fazia a distância e sem afetação direta, conforme a assepsia impessoal que vigora na violência silenciosa dos condomínios, agora perdeu a vergonha e proclama abertamente seu mal-estar contra essa proximidade indesejável dos pobres.
por Christian Ingo Lenz Dunker


Em meu livro Mal-estar, sofrimento e sintoma (Boitempo, 2015) examinei a transformação das formas de sofrimento no que chamei de Brasil pós-inflacionário. Meu interesse inicial era sumamente psicanalítico. Queria saber por que o percurso do tratamento de meus pacientes diferia tanto desde que comecei a atender, por volta de 1991, sem recorrer apenas às hipóteses mais óbvias e genéricas acerca do avanço da globalização econômica e seus efeitos pós-modernizantes. Para tanto escolhi descrever e analisar um sintoma social datável e concreto na realidade brasileira, a partir dos anos 1970, a que chamei de vida em forma de condomínio. Forma de vida quer dizer aqui uma maneira específica de organizar o desejo, a linguagem e o trabalho em torno de um determinado mal-estar. No caso dos enclaves residenciais brasileiros, esse mal-estar é composto por uma determinada percepção social de que o espaço público torna-se crescentemente violento e perigoso. Como exemplo da realização de um ideal de consumo para as classes médias e da aquisição de uma propriedade, o imóvel é antes de tudo o signo de uma conquista econômica. Mas uma forma de vida é muito mais do que isso; ela compreende também um capital cultural, representado por certo estilo de vida e de consumo, bem como um capital social, representado pelos contatos, alianças e partilhas que uma vida comum regrada, planejada e administrada dessa maneira permite. Um condomínio, não nos esqueçamos, é definido por muros. E estes não têm apenas a função defensiva de nos proteger; eles criam um senso de exclusividade: essa é palavra recorrente nos anúncios e propagandas de tais empreendimentos residenciais. Aliás, “empreendimento” é uma palavra que combina admiravelmente com a exigência neoliberal de que todos devemos nos individualizar como “empreendedores” de nosso próprio “capital humano”.

Além de muros, um condomínio caracteriza-se pela figura do síndico, ou do gestor, que é uma espécie de encarregado por zelar pelas regras criadas no interior desse estado de exceção, entre o espaço público e o privado. Como protótipo da figura do “gestor”, o síndico mantém um tipo de relação com a lei ao exercer sua autoridade, dissociando perfeitamente meios e fins. Cinicamente, ele administra os recursos sem se importar com a, agora na moda, “atividade-fim”. Um bom gestor em educação ou saúde pode ser alguém que desconhece completamente a prática de ensinar alunos ou cuidar de pacientes. Ele entende de repasses, de caminhos fiscais, de segurança jurídica, de desenho de negócios.
Um condomínio é estruturalmente semelhante a outros redutos cercados, como a prisão, o shopping center e a favela. Em todos esses espaços, que passaram a dominar a paisagem de nosso cinema e de nossa literatura nos anos 2000, vemos surgir síndicos e muros, mas também uma hipertrofia de regras, regulamentos e estatutos que exigem um contínuo processo de autoadequação. Em menos de trinta anos, o Brasil tornou-se um país estruturado como uma rede de condomínios. Na política, na economia, na religião, na cultura, na produção, o condomínio passou a ser uma espécie de gramática geral de nossas relações.
Isso permitiu entender por que nossos modos de sofrimento se alteraram no sentido de duas narrativas fundamentais. A primeira organiza nosso sofrimento em torno da hipótese de que sua origem está em um objeto intrusivo. Ou seja, há algo ou alguém que está a mais em nossa forma de vida e que, uma vez excluído, reequilibrará nossa experiência, aproximando-a do bem estar. Esse objeto pode ser concreto como o álcool, as drogas, mas pode ser também identificado com um “tipo de pessoa”: negro, pobre, homossexual, delinquente, e assim por diante. A fantasia do condomínio projeta que, excluídos os perigosos e formada uma sociedade reduzida de “iguais”, a felicidade será realizada. A segunda narrativa fundamental de sofrimento que o condomínio favorece gira em torno da ideia de que sofremos porque há um pacto malfeito, ou porque alguém não está cumprindo o pacto, ou ainda que esse pacto precisa ser refeito em novas bases, para que então o sofrimento seja tratado. Toda narrativa de sofrimento implicitamente indica como alguém pode e deve ser reconhecido, carregando, portanto, uma espécie de política sobre sua própria transformação. A hipertrofia dessas narrativas, objeto intrusivoe reconvenção de pactos, nos levou a um acúmulo de políticas que só sabem demandar duas coisas: mais muros e mais leis (ou muros mais altos e leis mais duras). A expansão da vida em forma de condomínio tornou o medo, que justifica os muros, e a inveja, que é o gozo secundário dos que estão dentro e fantasiam que os de fora querem entrar, nossos afetos políticos dominantes. Isso acentuou nossos padrões de consumo ostentatório e nosso antigo costume de que governar é manipular as regras do jogo conforme a máxima moral do síndico: aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei. Isso é compatível com a proliferação dos chamados novos sintomas: depressão e pânico, drogadição e anorexia. Os dois primeiros dependem do medo como uma espécie de excesso de interiorização da lei (“se algo der errado, o único culpado é você mesmo”) e os dois seguintes ligam-se ao exagero da lei como forma de invertê-la (“se a lei geral é a do consumo e da imagem perfeita, por que não levar isso ao grau máximo?”). A mutação crucial que está em jogo aqui é que passamos de sintomas gerados pelo conflito entre o proibido e o desejável para modalidades de sofrimento que oscilam da impotência à obrigatoriedade.

O poder perdeu a vergonha
Esse estado de coisas passou por uma abrupta transformação a partir do segundo mandato de Dilma Rousseff. É como se chegássemos a uma espécie de crise do padrão hegemônico da lógica de condomínio. E é na crise que conseguimos ver melhor do que uma forma de vida é feita. Emerge uma cultura que não confia mais na geografia da exclusão administrada e que, por outro lado, não se contenta apenas com “sinais de riqueza aparente”, sem uma boa história que os justifique. Há uma revolta contra o excesso de síndicos, percebida pela direita como corrupção e pela esquerda como envelhecimento de nossos esquemas de representação. Chegamos ao ponto terminal de nossa demanda por novos pactos, ainda que indecentemente orientados para a proteção de antigos privilégios. A segregação que antes se fazia a distância e sem afetação direta, conforme a assepsia impessoal que vigora na violência silenciosa dos condomínios, agora perdeu a vergonha e proclama abertamente seu mal-estar contra essa proximidade indesejável dos pobres. A antiga tolerância benevolente, com ou sem democracia racial, tornou-se ódio explícito. O poder perdeu a vergonha, em nome do medo e da inveja. Desaprendemos a lidar com a diferença, maltratada por anos de identidade artificialmente produzida intramuros.

Tudo isso pode ser atribuído a um desencadeamento preciso, ainda que sua causa seja completamente imaginária: a percepção social de que as classes que detinham o poder foram derrotadas nas urnas. A própria natureza condominial do poder é posta em questão. Segundo o mito que lhe corresponde, o poder entregue a Lula anos atrás, pelas classes médias, para um determinado experimento político, não foi devolvido. Isso só foi possível graças a esse estranho fenômeno brasileiro, sem equivalente europeu (como notou Jessé de Souza), que é produzir uma classe média que se entende como radical e revolucionária. Não é por outro motivo que nossos epígonos da direita de ocasião passem seu tempo a denunciar o espírito falsário, hipócrita e traidor dos sequazes do partido de Dilma. De certa forma, isso é tudo verdade. Desse ponto de vista, “as coisas não saíram como nós combinamos”; na hora de devolver o patrimônio, o síndico (ou a síndica) se apossou dele contra a vontade dos que se acreditavam donos do poder.
Portanto, o ponto nevrálgico desse novo mal-estar não é a luta de classes, mas oressentimento de classe. A expressiva alteração de padrões de ganho e consumo que ocasionaram a passagem de milhões de pessoas da miséria faminta para a pobreza e da pobreza para a nova classe batalhadora não se fizeram acompanhar de uma alteração na distribuição dos bens simbólicos culturais e sociais. Lembremos que durante esses anos de crescimento, pela curva de Gini e confirmando a teoria de Thomas Piketty, os pobres ficaram mais ricos, mas os ricos ficaram ainda mais ricos. Lembremos que, para Karl Marx, a luta de classes traduz um antagonismo de interesses decorrente da divisão social do trabalho, entre os que possuem os meios de produção e os que vendem sua força de trabalho. O que temos no Brasil não é uma tensão entre capitalistas e proletários, ou uma rebelião dos desempregados pelo sistema, excluídos para fora dos muros das fábricas, mas uma espécie de ressentimento social generalizado. O raciocínio economicista tradicional considera que renda e padrão de consumo são suficientes para caracterizar a posição de classe. Segundo essa mesma simplificação, ascender de classe é diminuir sofrimento e no seu conjunto rumar para o estado de bem-estar social. Inversamente, cair de posição constitui o medo que rondará qualquer conquista de um indivíduo, grupo ou família. Ora, quando a nossa posição de classe se altera, ou é percebida como potencialmente alterável, isso é sempre uma ameaça ao nosso narcisismo, vale dizer, à nossa gramática de reconhecimento. Contra essa ameaça, mobilizamos formas mais simples de reasseguramento identitário, como que para confirmar que sabemos muito bem o que somos. Realizamos uma espécie de redução do tamanho do mundo, correlativa do engrandecimento do eu. Surgem assim dualismos simplificadores: negros ou brancos, ricos ou pobres, mulheres ou homens, nortistas ou sulistas, esquerdopatas ou coxinhas, inimigos necessários para nos lembrarmos, patologicamente, quem somos “nós” e onde estão “eles”.
Reencontramos aqui nosso par de afetos condominiais, o medo e a inveja. Mas agora eles podem ser pensados como motor para um ressentimento de classe, de gênero e de etnia. Essa segunda forma de ressentimento social decorre da percepção de que existem muros que não são solúveis por programas como Minha Casa, Minha Vida ou Bolsa Família. Existem muros que interiorizamos como condição de classe, diante dos quais a ascensão social pode trazer mais sofrimento, e não menos. Sigmund Freud descreveu esse estranho sofrimento daqueles que são arruinados pelo sucesso, ou seja, essa imperiosa força destruidora que se abate sobre aquele que alcança um êxito que ele mesmo não consegue reconhecer ou justificar como autêntico ou merecido. É assim que ele facilmente se cria situações, inconscientemente determinadas, para que a culpa por ter triunfado seja expiada por meio de autopunições. Dessa maneira, ele se reconcilia com os que ele teria deixado para trás em sua carreira de prosperidade, fazendo uma espécie de homenagem, imaginária e sintomática, às suas próprias origens.

Os iguais e o Outro
Uma terceira forma de ressentimento de classe acontece na vida em forma de condomínio. Nela, supostamente todos estão em condições de igualdade, ainda que artificialmente produzida, de tal maneira que as pequenas diferenças são insuportáveis. Por outro lado, as grandes diferenças são tornadas cada vez mais invisíveis, os funcionários entram pela porta dos fundos, usam uniformes, são substituíveis por empresas que administram e terceirizam os serviços domésticos de modo impessoal. Ora, para esses funcionários anônimos, é uma grande aspiração serem reconhecidos como “gente” e serem portadores de uma “dignidade moral” que está ligada ao tipo de sacrifício que a vida lhes impõe. Notemos que não está em jogo aqui apenas uma diferença de renda e capital entre patrões e empregados, mas a distância entre “ser alguém” que pode se dedicar ao autoenriquecimento, ao cultivo de si e ao bom gosto, em uma vida orientada pela busca do prazer, e a condição de “vida instrumental”, ou seja, daquele que deve se dedicar ao sacrifício em nome de uma aposta incerta em um futuro melhor, quiçá apenas para seus filhos. O ressentimento de classe avoluma-se dramaticamente quando os padrões de consumo, estimulados pelos governos lulistas, disseminam o acesso a bens simbólicos, antes marcas “exclusivas” da classe média, tais como viagens de avião, estudo universitário, aquisição de automóveis e moradia própria. A indeterminação relativa do valor distintivo de tais signos de classe inverte os polos condominiais da inveja e do medo. Aquele que pode viajar se ressente que não é realmente reconhecido como igual, e aqueles que garantiam suas identidades no clube restrito dos iguais se ressentem da perda do privilégio que antes tinham nos aeroportos, nas exposições de arte, nos círculos de consumo particular.
A quarta forma de ressentimento de classe, que podemos associar com a crise da lógica de condomínio, decorre da percepção, retrospectiva, de que nosso sacrifício se realizou em nome de algo em que não valia a pena acreditar. Ver o vizinho subir na vida pode ser tremendamente destruidor para os laços de classe que antes afirmavam a pertinência a uma mesma forma de vida. A tentação de interpretar que isso só foi possível porque de alguma maneira ele trapaceou as regras é muito grande. Uma classe e os grupos sociais que dela participam deveriam ser definidos também pelo tipo de sacrifício e pelas regras que tornam o merecimento de suas conquistas um fato legítimo ou iníquo. Diferentes políticas do sofrimento concorrem entre si quanto ao “em nome do que” vale a pena sofrer, e algumas são mais vitoriosas que outras. Estas adquirem força para estabelecer a fronteira entre o sofrimento que devemos aceitar, como um fato de natureza, e o sofrimento pelo qual é necessário lutar para transformar o mundo ou a nós mesmos. O ressentimento aparece aqui como uma patologia do reconhecimento que se baseia na suposição de que o Outro é mais poderoso e potente do que ele realmente é e que ele foi injusto conosco. Seguimos a lei e não fomos recompensados. O ressentido é no fundo alguém convicto de que a vida ou o destino lhe devem algo e que não foi em nome próprio que ele se engajou em uma rota de sacrifícios e sofrimentos, mas em nome de uma promessa que o Outro lhe fez. É basicamente pela exploração orquestrada desse tipo de ressentimento que se explica a força política da bancada da bala, reunida com a bancada da fé, agenciada por um síndico como Eduardo Cunha. Afinal, há uma longa história pela qual a teologia política determinou nossas narrativas de sofrimento.

Christian Ingo Lenz Dunker
Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo e autor de Mal-estar, sofrimento e sintoma (Boitempo).


Ilustração: Bruno Maron

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

CLIMA E CONFLITOS ARMADOS: COMO UMA SECA HISTÓRICA AJUDOU NA CONSOLIDAÇÃO DO ESTADO ISLÂMICO

Tanque do exército sírio destruído na cidade de Azaz, ao norte de Aleppo (foto: Christiaan Triebert/Flickr)
Tanque do exército sírio destruído na cidade de Azaz, ao norte de Aleppo (foto: Christiaan Triebert/Flickr)
Por Bruno Toledo
No tabuleiro estratégico do Oriente Médio atual, uma das peças mais recentes – e violentas – do ‘jogo geopolítico’ é o autointitulado Estado Islâmico (EI), um grupo jihadista salafista liderado por fundamentalistas islâmicos sunitas, que ocupa vastos territórios ao longo da fronteira entre o Iraque e a Síria, e que “governa” diretamente quase dez milhões de pessoas. Desde o começo de 2014, o EI vem ganhando terreno, aproveitando o vácuo de poder resultante do sangrento confronto civil que destrói a Síria desde 2011 e as dificuldades do governo iraquiano pós-ocupação norte-americana (2003-2012) em garantir controle sobre o seu próprio território.
Caracterizado pela extrema violência empregada na sua luta pela construção de um “califado global”, o EI é considerado uma das principais ameaças à segurança internacional, em especial nos Estados Unidos, na Europa e na África muçulmana. Grupos na Nigéria (em particular, o famigerado Boko Haram) e na Líbia se alinharam ao EI, expandindo sua influência efetiva para além dos territórios diretamente ocupados. Além disso, o EI tem avançado bastante na abordagem e cooptação de muçulmanos descontentes na Europa e nos EUA, particularmente os mais jovens, que acabam atraídos pela rigidez e pelos propósitos “grandiosos” do grupo junto ao Islã.
Em cinza, os territórios sob controle do Estado Islâmico na Síria e no Iraque, em meados de julho de 2015 (Wikimedia Commons)
Em cinza, os territórios sob controle do Estado Islâmico na Síria e no Iraque, em meados de julho de 2015 (Wikimedia Commons)
Os fatores que explicam a emergência desse grupo são complexos e ainda não existem teorias consolidadas que respondam a todas as perguntas sobre o surgimento, o crescimento e a consolidação recente do Estado Islâmico no Iraque e na Síria. Alguns motivos diretos são mais claros: o caos sírio resultante da guerra civil que se arrasta no país há quase cinco anos, que abriu espaço para a proliferação de grupos armados de diferentes matizes e motivações; e os desentendimentos históricos entre sunitas (minoria) e xiitas (maioria) no Iraque, catalisados pelas cicatrizes do regime sunita de Saddam Hussein (1979-2003) e pela falta de tato dos governos de maioria xiita que sucederam à administração provisória dos EUA no país, a partir de 2004. Junto com a violência decorrente das guerras locais, a situação securitária dramática desses países também piorou com as consequências econômicas de tais conflitos. Para alguns especialistas, os problemas econômicos vividos por essas populações (e o fracasso dos estados sírio e iraquiano em solucionar estes problemas) explicam em grande parte a grande aceitação que o EI possui nas comunidades sunitas.
No entanto, junto os problemas econômicos decorrente do conflito, um fator que pode nos ajudar a entender o cenário dramático que levou ao crescimento exponencial do EI nos últimos anos está distante das armas ou do petróleo que abundam na região: as mudanças climáticas. Ou melhor, a ocorrência de eventos climáticos extremos na região, que nos últimos anos reduziram dramaticamente a disponibilidade de água, um bem natural crucial numa região desértica como a do Iraque e da Síria.
Charles Strozier, professor de história da The City University of New York, e Kelly Berkell, pesquisadora do Center on Terrorism da John Jay College of Criminal Justice, foram os primeiros a destrinchar a relação entre clima e o crescimento massivo do Estado Islâmico nos últimos anos. Em artigopublicado em setembro passado no The Huffington Post, Strozier e Berkell lembram que a situação econômica na Síria começou a declinar a partir de 2006, com o começo de uma seca histórica que perdurou até meados de 2010. Na ocasião, a resposta do governo de Bashar Al-Asad foi bastante limitada, o que serviu para alimentar os primeiros descontentamentos.
Vista área do campo de refugiados sírios de Za'atri, na Jordânia (U.S. Department of State/Flickr)
Vista área do campo de refugiados sírios de Za’atri, na Jordânia (foto: U.S. Department of State/Flickr)
De acordo com eles, a seca que precedeu o conflito armado na Síria se insere num padrão recente de estiagem persistente observado por cientistas do clima no Oriente Médio nas últimas décadas. Apenas na Síria, mais de 60% de seu território foi diretamente afetado, em especial o nordeste, principal região produtora de alimentos no país. Consequentemente, mais de 800 mil agricultores tiveram perdas consideráveis de safra entre 2006 e 2010, colocando em risco a segurança alimentar de mais de três milhões de pessoas que acabaram jogadas na extrema pobreza. Muitas famílias procuraram refúgio em torno de cidades como Aleppo, Damasco, Hama, Homs e Daraa – foi nesta última cidade que as tensões civis eclodiram na Síria, no começo de 2011, exatamente por causa do desabastecimento de água para a população. A resposta violenta do governo Assad a estes primeiros protestos conduziram o país para a espiral de destruição que resultou na guerra civil que ainda aflige a Síria.
No Iraque, a trajetória foi bastante similar. Durante a grande seca de 2006-2010, o país viveu o auge da insurgência contra as tropas norte-americanas e o governo iraquiano. Aproveitando as dificuldades enfrentadas por Washington e Bagdá em absorver os impactos dessa seca ao longo da fronteira ocidental do país, diversas facções insurgentes ganharam terreno e jogaram o país numa guerra civil violenta. A estabilização política veio apenas em meados de 2010, junto com as chuvas na região afetada pela seca. No entanto, o pacto político entre sunitas e xiitas não resistiu à retirada dos Estados Unidos no país, completada em 2012. Com a ruína desse pacto, o Estado Islâmico ganhou terreno junto às comunidades sunitas que desconfiavam do governo central liderado por xiitas. Ao ganhar terreno, uma das primeiras preocupações do EI foi assegurar o controle sobre os recursos hídricos das regiões ocupadas, junto com os valiosíssimos poços petrolíferos.
Para Frank Femia, do think tank norte-americano Center for Climate and Security, o avanço do Estado Islâmico no Iraque e na Síria nos dá indícios sobre o papel difuso das mudanças climáticas como fator para a ocorrência ou acirramento de conflitos armados. Em entrevista ao portalSlate em junho do ano passado, Femia reconhece que a escassez de recursos naturais na região torna as coisas ainda piores. “Organizações terroristas podem tentar controlar estes recursos e ganhar influência e poder. Você não pode dizer que as mudanças climáticas estão causando o EI, mas elas certamente possuem um papel na região”.
A mesma matéria da Slate aponta para um estudo publicado na revista científica Science em 2013 que aponta uma correlação forte entre altas temperaturas e instabilidade política (como guerras civis, revoltas, violência étnica), ainda que não cite uma razão que explique essa conexão. Umestudo anterior já tinha associado desidratação com desempenho cognitivo reduzido e altos índices de ansiedade.
De acordo com o relatório Global Risks 2015, lançado pelo Fórum Econômico Mundial em seu encontro mais recente, a falta de água é o maior fator de desestabilização global atual se considerarmos o tamanho do impacto, e o 8º em termos de probabilidade. Seu impacto pode ser maior do que o da disseminação de doenças infecciosas (como o vírus ebola) e das armas de destruição em massa, explica Regina Scharf empost publicado em fevereiro passado.
Fuzileiros navais norte-americanos carregando caixas com garrafas de água para assistência humanitária durante a Operação Sweeney, na península de Al Faw, no Iraque (foto: U.S. Navy/Wikimedia Commons)
Fuzileiros navais norte-americanos carregando caixas com garrafas de água para assistência humanitária durante a Operação Sweeney, na península de Al Faw, no Iraque (foto: U.S. Navy/Wikimedia Commons)
Para os especialistas em segurança, a questão climática já não é mais alheia às análises sobre cenários e perspectivas de conflito armado ao redor do mundo. Um relatório do Departamento de Defesa dos EUA publicado no ano passado já lista os impactos das mudanças climáticas como “ameaças multiplicadoras” à segurança internacional.
Para o Pentágono, esses impactos climáticos podem aumentar a frequência, a escala e a complexidade de missões militares futuras. Nesse contexto, o governo norte-americano considera que as mudanças climáticas, associadas a outras dinâmicas globais, podem exacerbar a escassez de água e aumentar os preços dos alimentos em regiões já críticas, agravando a situação alimentar, a pobreza, a degradação ambiental, e tensões políticas e sociais – ingredientes mais do que perfeitos para alimentar formas de violência, em particular, o terrorismo.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Qual o segredo do Vietnã para melhorar tanto a qualidade de sua Educação?

Qual o segredo do Vietnã para melhorar tanto a qualidade de sua Educação?


O desempenho do Vietnã na última prova PISA - Programa para a Avaliação Internacional de Alunos - foi excelente.
Na primeira participação do país asiático nas provas organizadas pela OCDE, os jovens vietnamitas de 15 anos tiveram pontuações mais altas em leitura, Matemática e Ciências do que muitos estudantes de países desenvolvidos, incluindo Estados Unidos e Grã-Bretanha.
O feito surpreendeu as autoridades do Vietnã e os observadores externos.
Existem três fatores importantes que contribuíram para estes resultados incríveis: um governo comprometido, um plano de estudos bem pensado e um forte investimento nos professores.

Investimentos

O governo do Vietnã vem dedicando tempo e recursos para avaliar os desafios relativos à Educação.
O país criou um plano de Educação de longo prazo e parece estar disposto a destinar o financiamento que for necessário para atingir seus objetivos.
Quase 21% de todos os gastos públicos de 2010 foram dedicados à Educação, uma proporção muito maior do que em qualquer país membro da OCDE - o clube dos países mais desenvolvidos do mundo.
Os educadores do país também criaram um plano de estudos que busca fazer com que os alunos desenvolvam um conhecimento mais profundo de conceitos centrais das diversas disciplinas e um domínio das habilidades básicas.
É fácil entender a razão de muitos destes estudantes vietnamitas terem se sobressaído nos testes ao se comparar alunos da Europa e da América do Norte, onde as escolas costumam abordar muitos assuntos, mas aprofundando pouco.

Além da memorização

O modelo vietnamita de Educação espera que os estudantes, ao terminar os estudos, não apenas sejam capazes de recitar o que aprenderam, mas também aplicar estes conceitos e práticas em contextos que não sejam familiares.
Nas aulas ministradas no país há um nível impressionante de rigor, com professores que desafiam os estudantes com perguntas difíceis.
Os professores se concentram em ensinar poucas coisas bem e com uma grande coerência, algo que ajuda os estudantes a avançarem.
E os mestres vietnamitas são muito respeitados, tanto na sociedade como em sala de aula.
Isto pode ser um atributo cultural, mas também reflete o papel que é dado aos professores no sistema educativo, que vai mais além de dar lição na escola e também engloba funções de apoio ao estudante e preocupação com seu bem-estar.
No país é esperado que os mestres invistam em seu próprio desenvolvimento profissional. Eles também trabalham com um alto grau de autonomia.
Além disso, os professores de Matemática, especialmente os que trabalham em escolas desfavorecidas, recebem mais formação profissional que a média dos países da OCDE.

Alunos fora da escola

Estes professores sabem como criar um ambiente de aprendizagem positivo, fomentam a disciplina em aula e ajudam a construir atitudes positivas dos estudantes em relação à Educação.
E isto sem esquecer o estímulo aos pais, que geralmente têm grandes expectativas em relação aos filhos, e o fato de que a sociedade vietnamita dá muito valor à Educação e ao trabalho duro.
Mas, cerca de 37% dos vietnamitas de mais de 15 anos não estão escolarizados e o desafio agora é conseguir colocá-los na escola. Os resultados da prova PISA, baseados nos jovens que vão à escola e estão dentro do sistema educativo, não dizem nada sobre esses outros jovens não escolarizados.
O governo já estabeleceu como prioridade escolarizar todos os jovens e, até o momento, o sistema conseguiu absorver as crianças desfavorecidas e dar a elas acesso equitativo à Educação.

Quantidade X Qualidade

Mas, conseguir manter a qualidade é mais difícil que aumentar a quantidade, e o Vietnã terá que ter cuidado para não perder a qualidade conforme amplie o acesso à educação.
Assim como mostram os países que têm melhores desempenhos no setor, a excelência geralmente está associada à mais autonomia para as escolas, para que elas determinem seus planos de estudo e provas.
Para o Vietnã isto significa que o governo terá que encontrar uma forma de equilibrar uma gestão centralizada com um entorno flexível e autônomo para cada escola.
Para colher todos os frutos do investimento na Educação, o Vietnã precisa mudar não apenas a oferta de conhecimento, mas também a demanda.
Como sugere um informe recente, o Vietnã pode ganhar três vezes seu PIB atual até 2095 se todas as crianças comparecerem à escola secundária e todos eles adquirirem pelo menos conhecimentos básicos em Matemática e Ciências até 2030 - e se o mercado de trabalho do país for capaz de absorver e utilizar todo este talento.
Se o Vietnã não criar uma demanda para quem tem mais conhecimentos, o país corre o risco de que os mais qualificados escolham desenvolver seus talentos em outro lugar.
É necessário levar em conta uma possível liberalização do mercado de trabalho, ao mesmo tempo em que o país se esforça para construir uma força de trabalho mais capacitada.
Talvez seja muito pedir para um país e seus cidadãos, mas o Vietnã já demonstrou que está pronto e, o que é mais importante, está disposto e ansioso para aceitar o desafio e superá-lo.

Fonte: http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/06/150622_vietna_segredo_educacao_fn?ocid=socialflow_twitter

Entenda o problema da dívida da Grécia

Entenda o problema da dívida da Grécia

YOLANDA FORDELONE
20 Fevereiro 2015

bandeira-da-grécia
(Atualização em 22/6/2015)
Os termos do acordo que a Grécia tenta negociar remetem a um problema antigo. No passado, mais precisamente em 2010, o país aceitou cumprir um programa de reformas e de ajuste fiscal em troca de um empréstimo do Banco Central Europeu (BCE), da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional (FMI) para salvar as contas do governo grego, que estavam se tornando impagáveis. A ajuda, que totalizou € 240 bilhões (cerca de R$ 756 bilhões), veio, mas os ajustes estão sendo postergados pelo país. Entenda:
O que a Grécia tenta negociar? 
O país quer adiar o plano de ajuste fiscal, que tem como objetivo diminuir a relação dívida/PIB da Grécia, mas que implicará em cortes de gastos do governo e arrocho salarial.  Em abril, em meio à pressão pelo pagamento de uma das parcelas de sua dívida, a Grécia anunciou que a Alemanha lhe devia € 279 bilhões (quase R$ 1 trilhão) em indenização para reparar danos causados durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). O valor é superior à dívida grega com credores do BCE e do FMI. O país comandado por Angela Merkel não cedeu e afirmou que  indenizações já foram pagas nos anos 1960.
Qual o jogo político por trás da negociação?
Quando o empréstimo à Grécia foi concedido, em 2010, o governo era outro. O governo de coalizão atual, que assumiu o país em janeiro, argumenta que os termos da reforma acertados no passado levam o país para uma recessão. O governo foi eleito, inclusive, com uma plataforma que ia contra o plano de austeridade proposto no passado. Teme que, se aceitar seguir com as reformas, vá contra os eleitores que o escolheram.
O que acontece se a Grécia não chegar a um acordo?
Se não houver acordo entre a Grécia e os credores, a linha de financiamento ao governo grego e aos bancos será cortada, o que diminuirá o crédito do país e afundará a economia em uma recessão ainda mais forte. Além disso, quanto mais tempo a Grécia demorar para ajustar as contas da casa maior será a sua dívida. Jörg Asmussen, do Conselho de Administração do BCE, declarou que a demora no ajuste “faria a razão da dívida ante o PIB do país ultrapassar a meta dos 120% em 2020, que é o limite superior considerado viável para a Grécia”.  Em 2011, pouco depois do início dos empréstimos à Grécia, o endividamento chegou a 165,3% do PIB.
A Grécia irá sair da zona do euro?
Segundo especialistas, um movimento de corte de crédito a bancos gregos poderia forçar o país a deixar a zona do euro. Alguns acreditam que isso não seria de todo o mal para os dois lados – Grécia e zona do euro. Em fevereiro, o ex-presidente do Federal Reserve (Fed), o banco central dos EUA, Alan Greenspan, declarou que acha ser uma questão de tempo a Grécia sair do bloco. “Acredito que a Grécia abandonará a zona do euro. Não acho que permanecer no euro é vantajoso para os gregos ou para o resto da zona do euro. É só uma questão de tempo antes de todo mundo reconhecer que a saída (da Grécia) é a melhor estratégia”, disse.
Onde tudo começou?
Antes de a Grécia entrar na zona do euro em 2001, o governo local já tinha fama de gastar mais do que arrecadava. Os motivos eram diversos – a começar pelas contas públicas. O país, por exemplo, tem muitos aposentados, o que aumenta significativamente os gastos com pensão.
Além disso, os gregos são conhecidos por pagar pouco imposto.  Em 2012, a diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, foi dura nas críticas. Disse que os gregos deveriam pagar mais impostos se querem que suas crianças tenham acesso a uma boa saúde e educação.
Para conseguir a adesão ao bloco, a Grécia chegou a maquiar os dados da dívida. Depois de entrar na zona do euro, instaurou-se o otimismo. O risco dos títulos gregos diminuiu, fazendo com que o país vendesse diversos bônus no mercado e aumentasse ainda mais a sua dívida. O governo gastou mais nos primeiros anos na zona do euro e, ao mesmo tempo, não fez ajustes necessários.
A crise que assolou as principais economias do mundo em 2008 acabou com a “farra do boi” da Grécia. O mercado de títulos diminuiu a liquidez, investidores estrangeiros se tornaram mais seletivos a quem iam emprestar dinheiro.
Ao mesmo tempo, a crise fez a Grécia aumentar os gastos sociais à medida que cresceu o número de desempregados no país. A turbulência financeira abriu os olhos da Europa para o problema: a dívida grega, que já vinha de um histórico alto, caminhava para se tornar impagável. Foi então que os empréstimos do BCE, União Europeia e FMI ao país começaram.

Fonte: http://economia.estadao.com.br/blogs/descomplicador/entenda-o-problema-da-divida-grega/