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domingo, 4 de maio de 2014

O "sonho americano" virou um sonho

O "sonho americano" virou um sonho



Semana passada, um estudo de décadas de dados econômicos concluiu que os Estados Unidos ficaram atrás de outros países, isto é, dos super-ricos. The Observer

por The Observer — publicado 01/05/2014
Por Michael Cohen

Durante a eleição presidencial de 2012, o candidato republicano, Mitt Romney, gostava de dizer, brincando, que o presidente Obama queria que a economia americana se parecesse "mais com a Europa". No contexto da política americana moderna, poucos insultos são mais ferinos. Ser europeu é ser um pouco efeminado, indeciso e, talvez o pior de tudo, socialista. É o contrário do "sólido individualismo" e da "natureza excepcional" da experiência unicamente americana de autogoverno.
Mas, como deixou claro um artigo sério no New York Times na semana passada, os EUA podem ter muito a aprender olhando para a Europa. Segundo esse jornal, a classe média americana – o esteio do fenomenal crescimento econômico do país no pós-guerra – não pode mais chamar a si mesma de a mais rica do mundo. "Enquanto os americanos mais ricos superam muitos de seus pares globais", diz o NYT, "nas camadas inferiores e médias, cidadãos de outros países avançados receberam aumentos consideravelmente maiores nas últimas três décadas." Os cidadãos mais pobres dos EUA ficaram para trás de seus homólogos europeus; há 35 anos, o oposto era verdade.
Este foi mais um chamado de despertar sobre a realidade do constante mal-estar econômico dos Estados Unidos. Pergunte aos americanos se o país está no caminho certo – 60% dizem que não. Satisfeitos com o modo como estão as coisas? Só 25% respondem sim. Ainda acha que você é um membro da classe média? Só 44% sentem confiança; 40% se autoidentificam como classe baixa, um salto de 15 pontos percentuais desde 2008. Entre os jovens, os números são ainda mais deprimentes. Aqueles que situam a si mesmos na camada inferior duplicaram nos últimos seis anos.
Enquanto uma maioria de americanos continua tenazmente a defender o sonho americano –  aquele antigo ideal de que se você trabalhar duro tudo é possível –, cada vez mais pessoas relatam que a oportunidade de progresso social parece cada vez mais fora de seu alcance e de seus filhos. De fato, é difícil pensar em uma tendência mais perturbadora na sociedade americana do que o fato de as pessoas na faixa de 20 e 30 anos terem menor probabilidade de possuir um diploma colegial do que as de 55 a 64 anos.
Tudo isso deve parecer contraintuitivo para públicos estrangeiros. Os EUA se exibem no cenário mundial com uma certeza e um senso de objetivo moral com que nenhum outro país pode se equiparar. Abençoado com recursos nacionais praticamente ilimitados, uma população dinâmica e variada, um sistema político relativamente estável e capacidades tecnológicas e inovadoras com que outros só podem sonhar, como é possível que tantos americanos estejam ficando para trás – e como seus líderes podem deixar isso acontecer?
A resposta é tão simples que causa espanto: nós escolhemos esse caminho.
Sim, ninguém decidiu ativamente atacar a classe média dos EUA. Não houve algum plano maligno elaborado a portas fechadas para provocar o caos socioeconômico. Mas o declínio da classe média americana, a riqueza ostentatória do chamado 1% e a esmagadora ansiedade econômica do crescente número de americanos pobres aconteceram à plena vista.
É o resultado direto de um sistema político que durante mais de quatro décadas abdicou de suas responsabilidades – e inclinou a balança econômica para os mais afluentes e bem conectados na sociedade. A ideia de que o governo tem a obrigação de criar empregos, fazer a economia crescer, construir uma rede de segurança social, ou mesmo colocar os interesses dos mais vulneráveis da sociedade acima dos mais bem-sucedidos seguiu no caminho dos rádios transistores, máquinas de fax e videocassetes. Hoje os EUA estão pagando o preço da indiferença a esse colapso econômico em câmera lenta.
Nem sempre foi assim.
Um dia, os americanos viveram em um país onde não só os maiores barcos flutuavam no alto de uma maré econômica crescente. Nos anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, os EUA foram definidos por um período sem precedentes de prosperidade econômica. Os empregos eram abundantes e bem remunerados, com generosos benefícios de saúde e aposentadoria. Novos confortos, de geladeiras e máquinas de lavar a televisores e carros, de repente estavam disponíveis. Os americanos tornaram-se proprietários de casas e eventualmente, se tivessem sorte, moradores dos subúrbios. Talvez mais importante, os que estavam no fundo da escala econômica compartilhavam a bonança tanto quanto os que estavam no topo.
A vida na época não era tão idílica quanto poderiam sugerir alguns retratos nostálgicos dos Estados Unidos no pós-guerra (especialmente se você intregrasse uma minoria, ou fosse mulher). Mas também é verdade que os americanos desfrutavam o tipo de segurança econômica com que as atuais gerações só podem sonhar.
Parte do motivo eram os líderes políticos favoráveis a um governo federal que não podia apenas ficar sentado nas laterais. Das medidas de emergência do New Deal, que depositou as bases do moderno Estado do bem-estar social, às vastas ambições da Grande Sociedade, o governo ofereceu apoio aos idosos, tratamentos de saúde para os pobres, segurança no emprego para os trabalhadores, boas escolas para os jovens americanos e investiu em projetos de ciência e infraestrutura para criar novas oportunidades econômicas.
Nos anos 1970, porém, enquanto o boom econômico do pós-guerra começava a desinflar, o mesmo aconteceu com a ideia de que o governo tinha de exercer um papel na condução da economia ou proteger os trabalhadores das vicissitudes do livre mercado. Em vez disso, enquanto um populismo conservador antigoverno surgia dos excessos "liberais" percebidos nos anos 1960, uma nova disposição política ganhava destaque. Foi a promovida pelos republicanos (embora ocasionalmente articulada e endossada por democratas). O governo não era mais um amigo do trabalhador – era uma força maligna transferindo seus dólares duramente conquistados para os pobres e as minorias, via impostos.
Essas atitudes não eram necessariamente novas. Os americanos por muito tempo flertaram com correntes de anticentralismo e temores de poder concentrado. Mas desta reação viriam ideias políticas tóxicas que definiram a política americana pós-anos 60 – impostos mais baixos e até gastos federais mais baixos, menos regulamentação e até menos intervenção do governo na economia. Embora vendidas à população americana como um elixir mágico para o que acometia a economia do país, elas trouxeram a inquietação econômica que vemos florescer plenamente hoje.
O impacto da reação conservadora antigoverno foi significativo. Os benefícios aos desempregados tornaram-se menos generosos; o mesmo ocorreu com os cupons alimentares, as pensões e o salário mínimo. As proteções ao emprego enfraqueceram quando o antigo apoio aos sindicatos e à mão-de-obra organizada foi substituído por uma crescente hostilidade dos republicanos pró-empresas. Se antes um terço de todos os americanos no setor privado estavam sindicalizados, hoje o número fica em cerca de 11%.
As matrículas em faculdades dispararam enquanto o apoio às universidades públicas caiu. Isso acontecia ao mesmo tempo que um diploma universitário se tornava uma passagem essencial para o sucesso em uma economia competitiva global. A falta de educação na primeira infância e escolas de baixo desempenho, particularmente para os americanos mais pobres, significavam que, a menos que você estivesse entre os 10% no topo, a probabilidade era de que quando seu filho começasse o jardim da infância já estaria um passo atrás.
Essa desigualdade educacional é reflexo de uma tendência maior de crescentes disparidades de renda em toda a sociedade americana. Assim, enquanto os americanos viam seus salários estagnar, suas ansiedades econômicas crescerem, seus níveis de dívida dispararem, suas poupanças para a aposentadoria encolherem e suas perspectivas de futuro se toldarem, os muito ricos ficaram muito, muito mais ricos.
No entanto, o impacto mais pernicioso do conservadorismo não veio do que ele realizou. Não havia como recuar do Estado assistencialista ou da Grande Sociedade. O reverenciado salvador republicano conservador Ronald Reagan criticou o grande governo, mas como presidente se viu incapaz de eliminar um único grande programa de gastos.
Muito piores, porém, foram os pecados da omissão. O legado mais dúbio do conservadorismo foi o de deter o progresso. Não houve uma expansão do atendimento às crianças ou uma creche universal para enfrentar o influxo das mulheres no local de trabalho. Milhões não tinham cobertura de seguro-saúde, no entanto o Congresso mostrava pouca inclinação a fornecer o acesso universal a saúde. Novos programas de infraestrutura, como o trem de alta velocidade ou a maior penetração da banda larga, não deram em nada. Programas de obras públicas para criar empregos não estavam sobre a mesa. Quando novos programas sociais foram criados, como as licenças família e médica, foram pálidos substitutos do que a classe média europeia já tinha garantido.
Mas o Congresso se ocupou mais de deduções fiscais e subsídios para o 1% mais rico e cortou os regulamentos que protegiam trabalhadores e a rede de segurança social que impedia que caíssem na miséria econômica. Até a muito atrasada aprovação do Obamacare em 2010, a classe média se viu constantemente no lado mais frágil da balança.
Certamente, alguns discutirão quanta culpa o governo federal deve receber por essa crise econômica. Forças sistêmicas maiores, como a globalização, a mudança tecnológica e a crescente especialização da economia americana, que exigia mais trabalhadores formados, também tiveram papéis importantes. Ainda assim, mesmo que se aceite que esses fatores foram mais responsáveis, onde estavam o Congresso e o presidente para ajudar os trabalhadores a navegar por essas mudanças?
Infelizmente, é provável que estivessem levantando dinheiro do 1% para a próxima eleição. Não causa muita admiração que, segundo um recente relatório acadêmico, o mundo da política é tão "dominado por poderosas organizações empresariais e um pequeno número de americanos ricos" que os EUA estão em terreno instável mesmo para chamar a si mesmos de democracia.
Enquanto os americanos viram suas fortunas econômicas decaírem, os que tinham mais condições de ajudá-los demonstraram muito pouca disposição a dar uma mão, sobretudo os republicanos conservadores.
Nas palavras imortais de Ralph Waldo Emerson, "o conservadorismo não faz poesia, não sopra oração, não tem invenção". Seu sucesso vem de ficar no caminho da reforma e dizer não. Com o Partido Republicano atualmente no comando da Câmara dos Deputados (e sem probabilidade de perder esse controle na eleição de meio de mandato neste outono), há poucos motivos, infelizmente, para se acreditar que o declínio da situação financeira da população americana em quase quatro décadas se endireitará em breve. Em suma, a "opção" que os EUA fizeram de seguir o caminho do declínio continuará conosco por algum tempo ainda.
Isso quase faz olhar para a Europa não parecer uma ideia tão ruim.
Leia mais em guardian.co.uk

Ódio e tragédia na República Centro-Africana

Ódio e tragédia na República Centro-Africana




Conflito entre muçulmanos e cristãos choca pela barbárie, observada de perto pela psicóloga Vanessa Cardoso. "Crianças, idosos e grávidas não são poupados"

por Mariana Melo — última modificação 30/04/2014


Em dezembro de 2013, a instabilidade política provocada por um golpe de Estado na República Centro-Africana (RCA) desencadeou mais uma tragédia na África. Ataques violentos de milícias cristãs a minorias muçulmanas obrigaram quase 1 milhão de pessoas a sair de suas casas à procura de locais seguros para sobreviver. Segundo a estimativa da ONU, o confronto gerou 935 mil refugiados e deslocados até aqui, aproximadamente 20% da população do país, número que dá a medida do desastre.
Os centro-africanos, que fogem de estupros, incêndios e ataques de machete, refugiam-se tanto em países vizinhos, como Chade, República Democrática do Congo e Camarões, quanto em áreas para deslocados internos, como o campo criado no aeroporto de Bangui, capital do país. Este campo, que abriga sob condições precárias mais de 70 mil pessoas, recebeu no começo de abril a visita do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon. A reação de Ban, publicada em um artigo no site da ONU, demonstrou a sua desolação com a situação vivida pela população da RCA: "Nada poderia ter me preparado para a minha chegada em Bangui".
O choque de Ban Ki-moon foi experimentado pela psicóloga brasileira Vanessa Cardoso. Ela atuou na RCA como integrante do Médicos Sem Fronteiras (MSF), e permaneceu entre janeiro e fevereiro no campo de Don Bosco, também em Bangui, que serve de abrigo para mais de 30 mil refugiados. A psicóloga atendeu idosos, mulheres e crianças que testemunharam violências de guerra traumatizantes. "As pessoas que nos procuravam eram aquelas que tinham reações ou sintomas relativos às situações de violência, vividas diretamente ou sofridas como testemunha."
Relatos de dor de cabeça, dor de estômago e falta de sono que não recebiam diagnósticos conclusivos dos médicos eram encaminhados à psicóloga. Cardoso detectava danos psicológicos na população atendida. "Atendíamos casos de depressão, depressão severa, ansiedade, mas, principalmente, casos de estresse pós-traumático. Eram pessoas que tinham flashback das memórias que viveram recentemente, e por consequência, não dormiam bem e tinham pesadelos".
Ódio
As formas como os ataques acontecem no conflito da RCA chocam pela barbárie. O machete, espécie de faca grande e afiada utilizada por caçadores e pescadores, parecia ser a principal arma usada nos ataques dos quais Vanessa ficou sabendo. "Muitas pessoas falam de armas de fogo nesses conflitos, mas eu me surpreendi muito com o número de casos em que foi usado o machete", afirma. "Mesmo populações que a gente chama de mais vulneráveis, como crianças muito pequenas, idosos e mulheres grávidas, não foram poupadas. O tipo de ferimento causado pelo machete é devastador. Eu nunca tinha visto coisas do gênero."

Outro ponto que chamou atenção de Vanessa entre os casos que atendeu foi a violência sexual sofrida pelas mulheres. O estupro era utilizado como arma de intimidação, pois, muitas vezes, ocorria em frente às famílias das vítimas e em lugares públicos. "A gente teve muitos casos de mulheres que foram violentadas sexualmente. Algumas nos traziam um discurso de sofrimento psíquico, mas a principal preocupação daquelas mulheres era muito mais ‘será que contraí HIV?’ ou ‘será que contraí sífilis?'", conta a psicóloga. “Com o desenrolar das sessões, as vítimas já levantavam questões como ‘não tenho dormido’ ou ‘tenho pensado constantemente nessa violência'."
Testemunhar o assassinato de toda a sua família fez com que o adolescente Prince, de 15 anos, chegasse às sessões de atendimento ministradas por Vanessa com uma fisionomia dura e revoltada, carregando sempre uma mochila nas costas. “Quatro dias antes, a casa dele havia sido invadida, mataram todas as pessoas da família. Ele se fez de morto em algum cômodo da casa, mas escutou tudo. E quando conseguiu sair da casa foi obrigado a passar por cima dos corpos dos familiares e depois, testemunhar a casa pegando fogo”, conta Vanessa.
À medida que Prince foi contando sua história nas sessões de terapia de grupo e ouvindo o ocorrido com os outros pacientes, no entanto, sua fisionomia foi ficando menos dura. Finalmente, no dia da despedida, Vanessa aproveitou para perguntar, fora do contexto terapêutico, o que o jovem carregava em sua inseparável mochila. “Ele voltou à casa e pegou os pedaços que haviam sobrado da casa. Para ele, era muito importante carregar aquela mochila o tempo todo. Ele andava com o que sobrou da sua casa nas costas.”
Um dos focos da psicóloga era a ressocialização dessas pessoas. “Um cirurgião encaminhou para nós o caso de um jovem de 22 anos que havia passado por uma tentativa de degolamento. Foi uma situação extrema de violência, ele foi torturado, ameaçado, e sofreu golpes no corpo com o machete. Ele estava trabalhando, vendendo verduras na rua quando sofreu a tentativa de assassinato.” Esse jovem teve de caminhar com o corte feito pelo machete no pescoço até o hospital, sob risco de sofrer novo ataque. "Até a área próxima ao hospital que estávamos era bastante perigosa", conta a psicóloga. Neste caso, Vanessa tentou fazer com que essa vítima, bastante traumatizada, voltasse a trabalhar. "A família dele dependia desta renda."
Histórico
Os ataques que impulsionaram os centro-africanos a sair de suas casas tiveram início em 2012, quando os Séléka, milícia muçulmana antigoverno, tomou regiões no norte e nordeste do país. As ofensivas só tomaram atenção mundial, no entanto, em março de 2013, quando o presidente eleito, François Bozizé, foi retirado do poder pelos Séléka liderados por Michel Djotodia. O golpe fortaleceu as tensões político-religiosas no país, que tem maioria cristã (65% da população, ante 15% de muçulmanos).

Nove meses depois, em 5 de dezembro de 2013, milícias cristãs conhecidas como anti-balaka responderam à tomada de poder pelos muçulmanos e iniciaram uma série de ofensivas violentas contra a população dessa minoria. Desde então, o caos e o terror assolaram a República Centro-Africana, piorando o já trágico quadro social do país. A RCA, independente desde a década de 1960, foi um território colonizado por franceses e, como muitos dos países do continente, tem um dos mais baixos indicadores sociais do mundo. O PIB per capita é de 483 dólares, segundo o Banco Mundial. A expectativa de vida é de 48 anos e, de cada mil crianças, 129 morrem antes de completar 5 anos, principalmente de malária, desnutrição, meningite e diarreia.
A situação na RCA parece longe de uma melhora expressiva. A população dentro dos campos de deslocados encontra-se protegida por exércitos internacionais, mas à mercê da subnutrição, malária e falta de água potável. Os centro-africanos que não se mudaram estão expostos à guerra entre Sélékas e anti-balakas e continuam reféns das demonstrações de força covardes que as milícias infligem àqueles que são inocentes, mas que estão no meio do fogo cruzado. No começo de abril, a ONU criou uma missão de paz com 12 mil membros, sendo 10 mil militares, para proteger os civis na RCA. O número de centro-africanos que necessitam de ajuda humanitária já atingiu 2,2 milhões. Em seu relatório pós-visita, Ban Ki-moon relembrou o genocídio perpetrado em Ruanda, há 20 anos, movido por razões semelhantes às que movem as milícias inimigas na RCA. “Como eu vi em Ruanda, as comunidades que passaram por trauma nacional maciço podem aprender a viver juntas mais uma vez em relativa harmonia. Esse é o espírito que os líderes e o povo da RCA devem reacender. A comunidade internacional tem uma oportunidade de ajudar e uma obrigação de agir.”
No período em que esteve no país, Vanessa percebeu, nos testemunhos de seus pacientes, que os campos eram coabitados por cristão e muçulmanos e que, mesmo antes dos ataques e do golpe, essas populações coexistiam sem questionamentos. A psicóloga observou, entretanto, que os ataques fazem crescer o ódio e o revanchismo na população. "Hoje, existem duas populações, cada uma de um lado, que se odeiam, e por conta disso pensam e agem com revanchismo", diz. "Não há acordo de paz que dê conta disso, ao menos no curto e médio prazos".
Para acompanhar as ações da ONG MSF na República Centro-Africana, acesse este link.

Brics aumentam participação em PIB global, mas estão longe dos desenvolvidos, diz OCDE

Brics aumentam participação em PIB global, mas estão longe dos desenvolvidos, diz OCDE



Atualizado em  1 de maio, 2014
Um estudo da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), com base em dados do Banco Mundial, mostra que os países dos Brics aumentaram sua participação no PIB global, mas ainda estão longe de atingir o nível de renda por habitante das economias desenvolvidas.
"Os emergentes ainda têm um longo caminho a percorrer para atingir o nível de renda por habitante dos países ricos", disse à BBC Brasil Francette Koechlin, responsável da unidade de poder de compra da direção de estatísticas da OCDE.
O estudo leva em conta a paridade do poder de compra (PPP, na sigla em inglês) em nível mundial. Ela é considerada mais pertinente para fazer comparações internacionais da atividade econômica, segundo a OCDE, por excluir dos cálculos as taxas de câmbio, eliminando dessa forma as diferenças de preços entre os países.
"O tamanho da economia dos emergentes é cada vez maior em relação ao PIB mundial, mas quando levamos em conta a renda por habitante, baseada no poder de compra, vemos que há uma enorme diferença entre os países da OCDE (desenvolvidos) e os emergentes", diz Koechlin.
O PIB por habitante nos países da OCDE, levando-se em conta a paridade do poder de compra, representa duas vezes e meia a média mundial desse indicador.
Segundo os cálculos, que fixam a paridade do poder de compra igual a 100, o PIB por habitante nos países da OCDE atinge o índice de 266. Na China, segunda maior economia mundial, o índice de PIB por habitante é de apenas 75.
No Brasil, ele está levemente acima da média mundial, com 109 pontos. A Índia, com 35, a África do Sul (90) e a Indonésia (63), que também tiveram crescimento significativo de suas economias nos últimos anos, estão abaixo da média mundial em relação ao PIB por habitante.

Consumo por habitante

Outro indicador importante do estudo é o nível de "consumo individual efetivo", que segundo a OCDE representa uma melhor referência para comparações internacionais sobre o "bem-estar material" dos lares.
"Os dados sobre o consumo indicam se as pessoas têm um nível de vida razoável em relação ao PIB do país", ressalta Koechlin.
Também nesse critério, os emergentes continuam bem abaixo dos países ricos.
Nos Estados Unidos, primeira economia mundial, o índice de consumo individual efetivo por habitante é quatro vezes maior do que a média mundial.
Na China, segunda maior economia do planeta, esse índice de consumo individual representa apenas a metade da média mundial.
"O consumo individual efetivo por habitante nas grandes economias emergentes mostra variações importantes", afirma a OCDE.
Enquanto a China representa a metade e a Índia apenas cerca de um terço da média mundial de consumo, no Brasil e na Rússia os indicadores sobre o consumo efetivo por habitante estão ligeiramente acima da pontuação média.
Considerando-se a base de comparação igual a 100, o Brasil atinge 115 e, a Rússia, 175.
Na OCDE, o índice de consumo por habitante é de 295 e, nos Estados Unidos, de 432.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Irmão ciclista, irmão pedestre

Irmão ciclista, irmão pedestre



Revista Bicicleta por André Geraldo Soares

Irmão ciclista, irmão pedestre
Foto: Shutterstock


Como dizem os “pedestreativistas”, todo mundo é pedestre. E isto deve ser bem enfatizado não apenas aos motoristas, mas também aos ciclistas.
E por três razões. A razão óbvia é que desrespeitar um pedestre – seja em pensamentos, palavras, atos ou omissões – significa atingir a sua própria condição. Neste sentido, não existe “o pedestre”, falado em segunda ou em terceira pessoa. Quem deixa de conceder espaço e tempo para um pedestre ou, atingindo o cúmulo, o ameaça com seu veículo, fomenta uma cultura de trânsito que em algum momento poderá reverter sobre si próprio.
Depois, porque a ética da convivência comunitária nos lembra que os membros mais frágeis de um conjunto social devem ser protegidos por todos os demais membros. E este ensinamento está grafado, com justiça, no § 2º do Art. 29 do Código de Trânsito Brasileiro: “[...] os veículos de maior porte serão sempre responsáveis pela segurança dos menores, os motorizados pelos não motorizados e, juntos, pela incolumidade dos pedestres”. Portanto, o ciclista tem que estar atento também a quem ele pode machucar, e não apenas a quem pode lhe machucar.
E, por fim, mas não o menos importante, porque ciclistas e pedestres estão no mesmo pacote dos enjeitados. Ciclistas e pedestres, considerados estorvos do trânsito, são como penetras na festa da indústria automotiva, das petrolíferas e das empreiteiras. Não precisamos pesquisar relatórios de orçamentos públicos para comprovar que a esmagadora maior parte do dinheiro público beneficia e estimula a mobilidade motorizada individual, deixando migalhas para quem não pode ou não quer ter carro.
Nos meios politizados do ciclismo brasileiro é ponto consensual que os ciclistas devem respeitar a prioridade dos pedestres e não invadir os espaços a ele destinados. Mas no dia a dia do trânsito, apesar da situação já ter melhorado, a convivência ainda precisa ser bastante ajustada.
Basta ficar observando uma faixa de pedestres que cruza uma ciclovia para confirmar que os ciclistas, geralmente, nem diminuem a velocidade para esperar um pedestre atravessá-la. E bicicletas ainda são frequentemente avistadas sendo despreocupadamente conduzidas sobre passeios públicos e calçadões.
É claro, é preciso relativizar. Por exemplo: quem tem coragem de mandar uma criança inexperiente pedalar no leito de uma avenida? E, por outro lado, quem tem a cara de pau de mandar uma mãe sair da ciclovia e empurrar o seu carrinho de bebê em uma calçada arrebentada? Mas, embora seja defensável o bom senso tanto de “invasores” quanto de “invadidos” para avaliar como agir ou reagir a cada situação, o importante é não perder o foco: a cidade precisa mudar para evitar tais situações.
Disto tudo se podem concluir três coisas: uma, que ciclistas e pedestres precisam de educação viária tanto quanto os motoristas, pois eles demonstram ser todos legítimos filhos do trânsito brasileiro, educados mais para a competição do que para o compartilhamento. Duas, que o gestor público isenta-se – poderíamos dizer, criminosamente – de responsabilidade para com a segurança de ciclistas e pedestres e, com isso, joga uns contra os outros. E três, que a cultura brasileira está de tal maneira entorpecida pelo imaginário da supremacia automobilística que um motorista não consegue sequer entender que o desprestígio aos pedestres é uma ofensa à própria dignidade.
Embora o modo de deslocamento a pé seja o mais antigo e universal, a despeito dos benefícios da caminhada para a saúde, para a cidade e para a natureza, e apesar do atraso medieval das nossas cidades para acolher os pedestres, a modalidade ainda carece de mais pessoas e organizações especificamente envolvidas com a causa. Esta lacuna acaba sendo parcialmente preenchida com a incorporação de suas pautas pelas organizações de base comunitária, pelas organizações de ciclistas e, como não poderia deixar de ser, pelas organizações de pessoas com deficiência.
Falando pelos ciclistas organizados, eles já não se deixam reduzir ao “bicicentrismo”, ao “cicloexclusivismo”. Compreendem que a excelência da mobilidade urbana do ponto de vista social e ambiental só será alcançada com a priorização do transporte público em integração com as modalidades ativas de deslocamento. Mas ainda existe uma distância quantitativa e qualitativa entre tais agentes sociais e a massa que formiga nas ruas. Sejamos realistas, sem o incremento da intervenção política por parte dos próprios ciclistas, dos próprios pedestres e dos próprios passageiros coletivos, o modelo de desenvolvimento urbano aplicado pelas sucessivas gestões públicas ainda continuará desprezando-os.
As piores faltas que ciclistas e pedestres cometem não são aquelas cometidas no espaço público de circulação, mas aquelas cometidas no espaço público de participação política. Não que devam ser tolerados os desrespeitos recíprocos no trânsito, mas eles não diminuirão por si sem a alteração da cultura de convívio humano.

IPCC: entre a ciência de ponta e a inércia política

IPCC: entre a ciência de ponta e a inércia política



Novo relatório reafirma preocupações da comunidade científica em relação aos impactos das mudanças climáticas. O ‘grande vilão’ não é o petróleo, e sim o modelo de desenvolvimento adotado pelas sociedades contemporâneas.

Por: Henrique Kugler
Publicado em 30/04/2014 | Atualizado em 30/04/2014
IPCC: entre a ciência de ponta e a inércia política
Usina termelétrica movida a carvão em Ohio, nos Estados Unidos. O consumo de energia a partir de matrizes fósseis aumentou na última década. (foto: Wikimedia Commons/ Analogue Kid – CC BY 2.5)
Apesar dos esforços globais – insuficientes? – para se emitir cada vez menos gases que possam interferir em nosso sistema climático, medições atuais indicam cenário desolador. Algo parece estar dando errado: mesmo com tanto debate acerca do tema, e com cada vez mais iniciativas para atenuar os piores cenários climáticos visionados por cientistas, as emissões globais de gases-estufa entre 2000 e 2010 aumentaram em ritmo mais apressado do que nas três décadas precedentes.
Essa é uma das considerações apresentadas no recém-divulgado relatório do Grupo de Trabalho 3 (WGIII, na sigla em inglês) do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).
Relatório do grupo III do IPCC
“Somente em 2010, 49 gigatoneladas de carbono foram emitidas na atmosfera; foi o maior nível da história desde que se iniciaram as estimativas”, disse a engenheira Suzana Kahn, pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e membro do WGIII. Em evento realizado nesta semana no Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa em Engenharia (Coppe), na capital carioca, Kahn lembrou que ainda não foram feitos os cálculos para os anos de 2011, 2012 e 2013 – mas os níveis emitidos nestes anos foram, muito provavelmente, mais elevados.

Não é uma conversa nova. Relatórios e discussões têm há décadas indicado tendências similares. Mas na esfera política a letargia perdura.
Um dos temas mais caros aos autores do IPCC é a produção de energia. De acordo com Kahn, houve a partir de 2010 aumento significativo na produção energética baseada em carvão – o que intensificou as emissões de carbono no setor industrial.
E, quando o assunto é energia, comumente ao petróleo é reputado o papel de algoz. “Porém, entendemos que hoje o ‘vilão’ não é exatamente o petróleo, mas sim o modelo de desenvolvimento de nossas sociedades, que não é sustentável”, esclareceu Kahn durante o evento na Coppe.
São questões como essa que, segundo a pesquisadora, nutrem discussões intermináveis – que varam a madrugada – entre cientistas e representantes de Estado, quando se reúnem para dar a canetada final que resulta nos sumários executivos dos relatórios do IPCC.


Burocracia nada inocente

Aos menos familiarizados com o assunto, vale lembrar: os cientistas do IPCC produzem um longo relatório que é, em seguida, sintetizado em um pequeno sumário técnico. Adiante, com base nesse documento, pesquisadores e representantes de Estado reúnem-se para produzir outro texto – que é o sumário executivo, destinado aos tomadores de decisão da esfera política.
Singelo detalhe, entretanto, tende a embaçar o entendimento público da questão. “É que o sumário executivo é uma seleção que os governos fazem apenas com as informações que julgam politicamente relevantes”, revelou Kahn. Como conciliar interesses e conveniências de mais de 190 países a partir de um relatório científico que coloca o dedo na ferida da civilização e questiona as mazelas profundas de nosso modelo econômico?
“O sumário executivo, assim, tende a ser fraco, genérico, pouco enfático e sem grandes mensagens”, resumiu Kahn. É, para alguns, mais um documento diplomático do que propriamente científico. No entanto, esse é o texto que costuma ser amplamente divulgado; é essa versão – politizada – que acaba se disseminando. “As pessoas muitas vezes confundem”, ressaltou Kahn. “No meu entendimento, é exatamente o sumário técnico que deveria ser mais divulgado; pois nele não há interferência alguma dos governos.”


A velha história

“O trabalho desenvolvido pelo WGIII foi muito bom e levantou questões que ainda não tinham sido abordadas em relatórios anteriores do IPCC, como a insustentabilidade do atual padrão de consumo”, disse Kahn à CH On-line.
E os tecnocratas estão em baixa. “Uma das principais mensagens do último relatório é que será muito difícil, se não impossível, reduzir emissões simplesmente a partir de meras soluções tecnológicas; não basta a tecnologia se não houver mudança real de comportamento e modelos de consumo”, afirmou Kahn.
Aliás, se a sociedade contemporânea estivesse contaminada por uma grave doença, seu nome já seria bem conhecido: consumismo – termo assaz preocupante para a comunidade científica. Com estratégias conservadoras de mitigação, isto é, mantendo-se intacto o modelo vigente da economia global, estima-se que o consumo daqui em diante aumente entre 1,6% e 3% ao ano; enquanto se estratégias mais audazes forem implementadas, esse número ficaria em torno de 0,06%.
De acordo com os modelos climatológicos compilados pelo IPCC, o cenário mais temerário é que a temperatura média da Terra aumente mais de 8 ºC até o fim do século. Na melhor das hipóteses, deve aumentar apenas 2 ºC. Para que isso aconteça, teríamos de reduzir as emissões de gases-estufa em 40% a 70%, em relação aos níveis de 2010, até 2050; e deveriam ser reduzidas a patamares próximos de zero até 2100, reza o novo relatório.
O físico Paulo Artaxo, da Universidade de São Paulo e também membro do IPCC, acredita que os desafios climáticos já não mais são de natureza científica. “São de natureza política”, disse no evento da Coppe. “O grande problema, a partir de agora, é a construção de uma governança global eficiente, capaz de gerenciar os cenários climáticos de maneira responsável.” Segundo Artaxo, essa almejada estrutura institucional de governança não será resolvida em meia dúzia de reuniões. Levará décadas.
Entre a inércia e o pessimismo, entretanto, talvez haja luz no fim do túnel. Segundo os pesquisadores, espera-se que, nas próximas duas décadas, investimentos na geração de energia a partir de fontes renováveis aumentem cerca de 147 bilhões de dólares; ao passo que investimentos em energia fóssil devem cair 30 bilhões de dólares.
Parque eólico
Segundo pesquisadores, os investimentos em geração de energia a partir de fontes renováveis devem aumentar cerca de 147 bilhões de dólares nas duas próximas décadas e os investimentos em energia fóssil devem cair 30 bilhões de dólares. (foto: Emilio García/ Flickr – CC BY-SA 2.0)
Mas tênue é a diferença entre o otimismo e a ingenuidade. Para muitos cientistas, é ingênuo esperar mudanças efetivas enquanto as regras do jogo da economia global continuarem as mesmas. Necessária pergunta: há algum horizonte promissor para que as regras de fato mudem? “Não estou otimista”, respondeu Kahn.
O relatório, assinado por 235 cientistas oriundos de 58 países e aprovado na primeira quinzena de abril, na Alemanha, é a terceira e última etapa de um trabalho que vem sendo elaborado desde 2009. A primeira parte dessa empreitada, divulgada em setembro de 2013, foi a publicação do Grupo de Trabalho I (WGI) do IPCC, que apresentava o conhecimento atual sobre as bases físicas do sistema climático. Osegundo documento, publicado em março deste ano, ficou por conta do Grupo de Trabalho II (WGII), e versava sobre impactos, adaptação e vulnerabilidade. Somadas, as três partes formarão o tão esperado Quinto Relatório de Avaliação – ou, para os íntimos, AR5. A publicação é esperada para outubro de 2014.


Henrique Kugler
Ciência Hoje On-line

Mais Educação – Quando as grandes expectativas saem de cena

Mais Educação – Quando as grandes expectativas saem de cena



Os educadores que desejam se reinventar terão que intervir numa situação nova, em que os “discursos progressistas” são “práticas de dominação”. Por Danilo C. Nakamura
O presente texto é fruto da inquietação que atinge grande parte dos educadores vinculados à rede municipal de ensino de São Paulo. Afinal, a que veio essa atual reestruturação do ensino? Por que a ênfase na ideia do “direito de aprendizagem”? Como se deu a chamada consulta pública? A diversidade das vozes foi considerada? Longe de conseguir apresentar respostas consistentes para essas perguntas, o texto procura rememorar um momento histórico anterior em que a formulação da educação como direito, era uma “ideia-força” que projetava uma sociedade livre. Resgatar essa memória talvez nos permita apontar para o significado da noção de “direito de aprendizagem” apresentada pela atual gestão.
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mais-educaçãoNo dia 1° de fevereiro de 1989, foi publicado no Diário Oficial do Município de São Paulo o programa Aos que fazem educação conosco em São Paulo. Nele estava incluído o documento “Construindo a educação pública popular”, o “Regimento comum das escolas municipais” e mais alguns decretos. Na ocasião, a prefeita era Luiza Erundina e o secretário da educação, Paulo Freire. O documento partia de um diagnóstico dos problemas das escolas municipais: “40% dos professores exercendo suas funções precariamente em comissões”, “falta de carteiras para alunos e professores”, “conservação deficiente dos prédios”, “atendimento à demanda que deixa fora da escola muitas crianças, jovens e adultos”[1]. Como princípio, Paulo Freire afirmava que faria circular “todas as informações sobre a situação real de todos os setores da Secretaria” e, principalmente, que “não iria impor ideias, teorias ou métodos”, pois, junto com os educadores, “lutaria pacientemente impaciente por uma educação como prática da liberdade”[2].
Diante da falta de instâncias de participação dos professores, pais, alunos e comunidade, Paulo Freire defendia a implantação de Conselhos de Escola e Grêmios Estudantis, a reforma da Associação de Pais e Mestres e a substituição das burocráticas Delegacias Regionais do Ensino Municipal (DREMs) por Núcleos de Ação Educativa (NAEs), uma vez que era preciso romper “com a estrutura hierárquica da tomada de decisões sustentada de cima para baixo”[3]. Para ele, “a população organizada cumpre melhor a função fiscalizadora das DREMs”[4]. O secretário falava também na realização de “Plenárias Pedagógicas, uma espécie de embrião dos Conselhos Populares de Educação”[5], em todas as regiões da cidade, pois ele entendia que a mobilização que se manifestava deveria “ser mantida e estruturada por uma série de encontros em que a política educacional possa ser definida conjuntamente e não burocraticamente”[6].
Problemas como a evasão e a repetência, para além do conservadorismo, significavam uma “realidade de expulsão” de uma série de alunos do ensino público e “uma mostra clara da inadequação dos processos pedagógicos”[7]. Como contrapartida a isso, a escola deveria ser um espaço mais amplo do que uma instituição que é medida pela transmissão e assimilação de conteúdos, ela deveria ser um espaço em que o povo seria chamado para a construção do saber, para que este se torne “um instrumento de luta”. Seguindo o documento: “o filho do trabalhador deve encontrar na escola os meios de autoemancipação intelectual independente dos valores da classe dominante. A escola não é só um espaço físico. É um clima de trabalho, uma postura, um modo de ser”.[8]
mais educaçãoA educação é um direito, prosseguia o documento. Um direito integral que demanda a articulação com todas as secretarias (saúde, cultura, esporte, abastecimento, transporte etc.). A escola é pública e popular, não simplesmente porque todos podem utilizá-la, mas porque todos participam e constroem, porque nela a educação é uma prática que realmente atende aos interesses populares. Nesse sentido, o espaço escolar adquire uma nova qualidade, baseado no compromisso, na postura solidária, formando a consciência social e democrática. “Nela todos os agentes, e não só os professores, possuem papel ativo, dinâmico, experimentando novas formas de aprender, de participar, de ensinar, de trabalhar, de brincar e de festejar”.[9]
Vinte e quatro anos depois do programa “Construindo a educação pública popular”, redigido por Paulo Freire, temos o “Programa de Reorganização Curricular e Administrativa, Ampliação e Fortalecimento da Rede Municipal de Ensino de São Paulo”, lançado pelo secretário de educação César Callegari, na administração do prefeito Fernando Haddad. Tal programa visa “oferecer condições de melhorias da qualidade social da educação” e seu grande objetivo é “revisar os conceitos e metodologias dos atuais currículos e alterar a estrutura de funcionamento do Ensino Municipal”.[10]
Como todo programa bem redigido, ele também parte de um diagnóstico da situação dada. Depois, temos algumas proposições práticas, tais como a garantia de que serão respeitadas as jornadas dos professores, uma menção à possibilidade de redução do número de alunos por sala de aula, o comprometimento com a construção de novas unidades escolares, o anúncio do funcionamento de polos de apoio presencial da Universidade Aberta para a formação de professores e, como grande novidade, a apresentação detalhada da reorganização dos ciclos do ensino fundamental, além da listagem da retomada de antigas práticas, ou melhor, da ênfase em práticas que, segundo o documento, não apareciam para a população, tais como a possibilidade de reprovação em cinco dos nove anos de ensino, lição de casa, uso de notas de zero a dez, divulgação bimestral dos resultados e recuperação nos períodos de recesso e férias escolares. Tudo isso constituirá, afirma o documento, “espaços de novas e mais ricas aprendizagem”.[11]
Partindo de textos que legislam sobre os direitos humanos e delimitam a estrutura e a organização da sociedade[12], todas as mudanças propostas são justificadas a partir da premissa da aprendizagem como um direito. Segundo o programa: a aprovação automática é um desvirtuamento da correta concepção de que os alunos têm direito ao aprendizado contínuo e progressivo [13]. “A organização dos ciclos está diretamente relacionada aos direitos e objetivos de aprendizagem” [14]. A Educação de Jovens e Adultos é “a garantia do direito da escolarização ao longo da vida” [15]. A interdisciplinaridade “pressupõe um trabalho integrado com as áreas de conhecimento do currículo, na garantia dos direitos e objetivos de aprendizagem” [16]. A avaliação bimestral “deve ser empreendida como um direito do aluno e da família de participar na vida intelectual e na formação cidadã de seus filhos” [17]. Em resumo, todas as práticas visam o direito dos “sujeitos de direitos”.
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Como as administrações anteriores (Serra e Kassab) não sinalizaram nenhuma solução para a transição do ensino fundamental de oito para nove anos, podemos afirmar que a reestruturação dos ciclos do ensino fundamental transformou-se numa necessidade absoluta para a atual gestão. Embora não anuncie para a população, o que a Secretaria de Educação está fazendo é, antes de qualquer coisa, tentar minimizar um problema que repercutiria na jornada de milhares de professores. Como se sabe, hoje, somente os professores com vinte e cinco aulas atribuídas podem fazer parte da JEIF (Jornada Especial Integral de Formação). Com a mudança no ensino fundamental de oito para nove anos, uma grande quantidade de professores não alcançaria as vinte cinco aulas atribuídas e perderiam a possibilidade de optar por essa jornada. Uma série de dúvidas ainda paira no ar, mas a prefeitura afirma que as jornadas serão garantidas, pois os professores poderão ter aulas compartilhadas e participar de projetos para alcançar o número de aulas necessárias para participar da jornada de formação.
O programa de reestruturação é também expressão da cultura política do país. Um cidadão que estiver de acordo com a proposta pode dizer que o texto é a expressão de uma vontade política e o anúncio de diretrizes que visam efetivar um programa educacional que respeita os direitos humanos. Ele pode enxergar uma possibilidade de mudança e se apegar em algumas proposições “progressistas” que remetem à história do Partido dos Trabalhadores. Em sentido contrário, outro cidadão pode dizer que o programa é apenas uma repaginação de programas que são propostos toda vez que a administração de um partido é substituída por outra. Assim, resolvida a questão da jornada que mencionamos no parágrafo anterior, a reestruturação visaria somente reconhecer as demandas sociais através da linguagem da inclusão e da defesa de generalidades abstratas. Abstratas, porque a defesa da educação como um direito, nesse caso, não aponta para mudanças reais nas relações de distribuição de poder, renda e de reconhecimento social [18] e, desta maneira, apenas anuncia de forma publicitária e eleitoreira a reconfiguração superficial do trabalho dos educadores.
Essa opinião crítica parece ser mais plausível, principalmente quando pensamos na forma como a população foi chamada a opinar. No dia 15 de agosto de 2013, Fernando Haddad e César Callegari, em evento público, anunciaram a reestruturação do ensino, dando ênfase na divisão dos ciclos, na obrigatoriedade das provas bimestrais e das lições de casa, na atribuição de notas de zero a dez e, claro, na possibilidade de reprovação em cinco dos nove anos do ensino fundamental, divididos em três ciclos (alfabetização, interdisciplinar e autoral). Salta aos olhos como essas propostas respondem ao senso comum que afirma que “escola boa era a escola antiga”, em que “o professor tinha a autoridade” e os “alunos temiam a reprovação” e precisavam trabalhar muito na escola e em casa para passar nos exames. Mas chama ainda mais atenção como o trabalho do professor até então executado (antes da obrigatoriedade das provas e lição de casa, por exemplo) é posto em dúvida.
mais-educação4Nesse evento, eles também anunciaram que essa reestruturação ficaria aberta para consulta pública por um mês, para que os educadores e toda a população pudessem dar sugestões. Feita a consulta e analisada a devolutiva, podemos avaliar esse processo sobre diversos ângulos. Em todos eles, a única constatação possível é que a consulta foi um mecanismo de participação sem qualquer possibilidade de mudança, reivindicação ou contestação. Ao todo, foram recebidas 3.126 postagens, um número inexpressivo, seja considerando a população de São Paulo, seja apenas o número de gestores, professores e funcionários que fazem parte da rede municipal. Nenhuma grande pauta foi incluída e nenhuma grande modificação foi proposta. Será que a proposta do governo já dava conta de todos os anseios por mudança na educação? E, por fim, o que é no mínimo contraditório, quando pensamos numa participação efetiva da população, as diretrizes norteadoras do programa já constavam no documento Considerações sobre o currículo e os direitos de aprendizagem e desenvolvimento dos alunos na rede municipal de São Paulo, divulgado em 17 de abril de 2013 e no caderno do professor, Interfaces Curriculares, datado em 28 de julho de 2013.
Se alguém se der ao trabalho de ler os documentos que citamos acima perceberá rapidamente que o plano de educação para o Município de São Paulo é uma simples adequação às diretrizes do Ministério da Educação. Existe uma colaboração acordada entre o Ministério, os estados e as cidades. Há, por exemplo, metas em relação aos resultados do IDEB [Índice de Desenvolvimento da Educação Básica] que estão projetados até 2021. E nesse sentido, hoje, com uma política educacional de âmbito nacional, para o bem e para o mal, o espaço de atuação autônoma dos estados e municípios é mínimo, para não dizer inexistente.
O que podemos indagar é: se é a política nacional que está estruturando o ensino municipal, por que o recurso da consulta pública? As respostas são evidentes. Primeiro, o governo de um partido que nasceu nas classes populares precisa de uma publicidade que o diferencie dos demais. Segundo, porque, ao fazer questão de dialogar com os antigos programas do partido, eles se viram obrigados a encenar de forma trágica as antigas práticas democráticas.
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Uma comparação dos dois momentos históricos, a partir dos documentos elaborados respectivamente por Paulo Freire e César Callegari, é um exercício revelador para iniciarmos uma interpretação crítica sobre o atual estado de coisas. Para além da diferença temporal, essa comparação também parece revelar a enorme distância entre o que cada gestão pretendia ou pretende, quando fala em “participação”, “direito”, “sujeito” e “saber”. Tal comparação não é forçada, uma vez que é a própria gestão de Callegari a sugerir isso, ao retomar a formulação da educação como direito. Para não dizer, quando arrisca dar a interpretação “correta” sobre o que seriam os ciclos e a reprovação na teoria freireana. Ou quando reduz o processo de autoconsciência do ser social, articulado no processo ação-reflexão-ação, a uma discussão sobre avaliação escolar.
No documento de elaborado por Paulo Freire, a força das ideias vinha da movimentação social, que havia sido represada pela Ditadura Militar. O secretário não concebia outro modo de construir uma política educacional a não ser promovendo encontros públicos e aproveitando a mobilização social em curso[19]. Em entrevista dada dois anos antes para o Jornal do Campus, Freire esclarece a necessidade de se manter a sociedade mobilizada no processo de emancipação da sociedade. Perguntado se a educação formal refreava as possibilidades revolucionárias, ele responde: “Não é a educação sistemática, a rede de escolas do Estado, a que constitui a sociedade desta ou daquela forma, é a sociedade organizada de certa forma em função dos interesses de quem tem o poder, a que estabelece a escola. Isto significa haver uma expectativa das classes dirigentes em face de como a escola deve funcionar, no sentido de contribuir para a sua permanência no poder”[20]. Assim sendo, cabia aos educadores “progressistas” ocupar o espaço público, mesmo em condições adversas, “para contribuir no esclarecimento dessa realidade” e, por fim, “para lutar no sentido da mobilização e da organização das classes populares”[21].
mais-educação5Embora a premissa atual também seja a educação como direito, o documento está longe de se legitimar a partir de uma mobilização social. Ele não foi elaborado dando vozes à mobilização dos professores no mês de abril desse ano. Também não tem qualquer relação com as manifestações que desde junho vêm conferindo uma vitalidade nada trivial no sentido de repensar os serviços públicos. E, como já afirmamos acima, a estrutura do documento já estava formulada de antemão. Nesse documento também não há qualquer menção às relações de dominação no interior da sociedade, sendo que a diversidade de sujeitos é pensada de uma forma homogeneizadora e, portanto, a noção de “direito” não tem um sentido de emancipação ou alargamento da participação política, mas sim, se forçarmos um sentido, de reconhecimento dos interesses individuais, sem que o lugar que esse indivíduo ocupa na sociedade seja, porém, problematizado.
As definições desses sujeitos são interessantes, na medida em que são completamente indeterminadas. O aluno aparece como sujeito “no desenvolvimento das atividades que permitem a identificação e posterior superação dos obstáculos”[22] (Quais obstáculos? Os do dia-a-dia que aparecem de forma fragmentada ou aqueles que configuram a essência de nossa sociedade?). As crianças são “sujeitos de direitos socialmente competentes, com direito à voz e à participação nas escolhas, construindo seus saberes”[23] (Escolha dos seus saberes significa ir além da disposição das coisas já dadas e dispostas?). E, em contrapartida, a ideia de coletivo só aparece na formulação de “bancos de questões e formulação de avaliações”[24] e, principalmente, na participação de “projetos de intervenção e autoria”[25]. Os projetos aparecem com uma noção peculiar de “intervenção social”, muito distante dos objetivos de ruptura de vinte e cinco anos atrás.
A socióloga Regina Magalhães já havia percebido que a ideia de projeto já ocupava um lugar central nos Parâmetros Curriculares Nacionais do ensino médio de 2000, numa relação íntima com os documentos internacionais da ONU, UNESCO, e Banco Mundial e também com os programas de intervenção social das ONGs. Ele aparecia “como estratégia pedagógica ao ‘chamado ensino tradicional’, uma vez que estimularia a ‘reconstrução de conhecimento’, raciocínio, experimentação, solução de problemas e ‘outras competências cognitivas superiores’, e atenderia aos eixos da interdisciplinaridade e contextualização que devem presidir a organização curricular”. A “intervenção social” significava nada mais do que a reversão de uma situação negativa que afeta um grupo localizado de pessoas. E a ordem do dia era “fazer coisas”, ser “proativo”, “protagonista”, ou ainda, um “cidadão ativo”. Em resumo, um discurso que se colocava como sujeito e transformava os jovens em objetos de uma política que busca capturar uma energia social e um espírito de rebeldia, típica da juventude.[26]
Hoje, o projeto também já aparece nas Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação Básica e é o norteador do caderno Interfaces Curriculares. Nas Diretrizes Curriculares está sugerido “a destinação de 20% do total de carga horária anual ao conjunto de projetos interdisciplinares, de modo que os sujeitos do Ensino Fundamental possam escolher aqueles com que se identifiquem e que lhes permitam melhor lidar com o conhecimento e a experiência”[27]. Percebe-se, assim, que o que está em jogo no discurso organizado no caderno Interfaces, do “sujeito de direito”, da resolução de “problemas como eixo curricular”, do “saber que deriva da experiência” e do “projeto como atividade permanente das sequências didáticas” nada mais é do que uma adequação a uma política em que se incorpora a atuação dos indivíduos ao mesmo tempo em que a domina e controla.
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Concluindo de uma forma esquemática, a ideia de educação como direito proposta na abertura democrática do país tinha sua força nos movimentos sociais que lutavam por direitos sociais efetivos. Atualmente essa ideia volta ao cenário social amparada num discurso que prescreve aos “sujeitos de direito” uma participação enquadrada pelos mecanismos de manutenção das desigualdades sociais.
Se o encadeamento das proposições que apresentamos até aqui faz algum sentido, o direito de aprender ou o “aprender a aprender”, como conceitua o mais novo caderno professor é, pura e simplesmente, a consagração de uma viração popular de todos os dias (diante do trabalho ou da falta dele, da ineficiência dos serviços públicos ou das atividades que ficam entre o legal e o ilegal). Enfim, um marco de sucesso adaptativo do nosso sistema de ensino[28], numa sociedade em que o horizonte de expectativa emancipatório saiu de cena. Os educadores que desejam se reinventar e, dentre outras coisas, escapar da validação de uma seleção já consumada de ganhadores e perdedores, terão que intervir numa situação nova, em que os “discursos progressistas” são “práticas de dominação”. Para não partirmos do zero, talvez, o conselho de Paulo Freire sobre a escola pública e popular ainda signifique alguma coisa: “Não as abandonem e delas não se deixem expulsar”.[29]
Notas
1  Diário Oficial de 1° de fev. de 1989. Paulo Freire – Construindo a educação pública popular.

2 Idem, p. 5.
3 Idem, p. 6.
4 Idem, p. 7.
5 Idem.
6 Idem.
7 Idem, p. 8.
8 Idem, p. 9.
9 Idem, p. 10.
10 Programa de Reorganização Curricular e Administrativa, Ampliação e Fortalecimento da Rede Municipal de Ensino de São Paulo, p. 2.
11 Ver quadro resumido de todas as novidades do programa e da consulta pública em: http://maiseducacaosaopaulo.prefeitura.sp.gov.br/
12 “Constituição” e “Lei de Diretrizes Básicas” (LDB). Além das “Considerações sobre o currículo e os direitos de aprendizagem e desenvolvimento dos alunos na rede municipal de São Paulo: contexto e perspectivas”.
13 Idem, p. 17.
14 Idem, p. 25.
15 Idem.
16 Idem, p. 34.
17 Idem, p. 46.
18 Ver: Ver o recente livro de Marcos Nobre, Imobilismo em movimento, da abertura democrática ao governo Dilma. São Paulo: Cia das Letras, 2013.
19 Diário Oficial de 1° de fev. de 1989. Paulo Freire – Construindo a educação pública popular, p. 7.
20 Diálogo com Paulo Freire, Jornal do Campus, n° 50, 16 de jul. 1987.
21 Idem.
22 Programa de Reorganização Curricular e Administrativa, Ampliação e Fortalecimento da Rede Municipal de Ensino de São Paulo, p. 51.
23 Idem, p. 61.
24 Idem, p. 48
25 Idem, p. 42.
26 Ver: Regina Magalhães de Souza. O discurso do protagonismo juvenil.
27 Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Básica, p. 36.
28 Ver: Paulo Arantes. O MST recriou a escola.
29 Diário Oficial de 1° de fev. de 1989. Paulo Freire – Construindo a educação pública popular, p. 11.

Musgo milenar - Cientistas conseguem fazer crescer uma planta que tinha mais de 1.500 anos de idade

Musgo milenar



Cientistas conseguem fazer crescer uma planta que tinha mais de 1.500 anos de idade



O leitor mais atento já deve ter reparado que alguns ambientes naturais são repletos de musgos – aquelas plantinhas esverdeadas que parecem formar um tapete no chão das florestas, nos troncos das árvores ou mesmo nas rochas. Lembrou? Pois saiba que alguns cientistas estão debruçados sobre os musgos e descobriram coisas interessantíssimas sobre eles. Uma delas? Que essas plantas danadas podem viver mais de mil anos em estado de hibernação!
Musgos na ilha Signy, que fica mais ou menos entre a América do Sul e a Antártica. (foto: Peter Convey/British Antarctic Survey)
Musgos na ilha Signy, que fica mais ou menos entre a 
América do Sul e a Antártica. (foto: Peter Convey/British Antarctic Survey)
Até pouco tempo atrás, os pesquisadores pensavam que musgos poderiam viver por no máximo duas décadas. Recentemente, um experimento mostrou que o musgo da espécieChorisodontium aciphyllum pode ressurgir após muito tempo congelado. O estudo foi desenvolvido na ilha de Signy, perto da Antártica, pelo ecologista Peter Convey, do Serviço Antártico Britânico.
Naquele frio danado, a camada superficial do o solo é coberta por musgos bem verdes. No entanto, os musgos que ficam em camadas ligeiramente mais profundas, alguns palmos abaixo do chão, têm uma coloração mais escura: são musgos congelados.
Cientistas coletam amostras de musgo. (foto: Peter Boelen)
Cientistas coletam amostras de musgo. (foto: Peter Boelen)
Peter ficou com uma pulga atrás da orelha: será que os musgos congelados – e aparentemente mortos – poderiam voltar à vida se fossem expostos novamente a boas condições de luminosidade? A resposta foi surpreendente: sim.
O pesquisador levou algumas amostras de musgo congelado para o laboratório e deixou-as sob condições especiais que simulavam um ambiente de luz natural. Parece incrível, mas, após poucas semanas, os musgos voltaram a crescer.
Amostra de musgo coletada na ilha Signy. (foto: Esme Roads)
Amostra de musgo coletada na ilha Signy. (foto: Esme Roads)
Apesar de congelados, os musgos não estavam mortos, mas apenas em estado de hibernação, aguardando as boas condições do ambiente para se desenvolverem novamente. E o mais curioso é que, estudando a planta em detalhes, Peter descobriu que ela tinha nada menos que 1.500 anos de idade!
“As pessoas sempre se interessaram por saber coisas como quanto tempo um organismo pode viver”, conta o ecologista. “Tudo que sabíamos era que alguns seres podiam hibernar por 10 ou mesmo 20 anos, o que já é bem impressionante”.
Existem milhares de diferentes espécies de musgo no mundo todo. Eles são parte de um grupo de plantas que chamamos de briófitas. (foto: Wikimedia Commons)
Existem milhares de diferentes espécies de musgo no mundo todo. 
Eles são parte de um grupo de plantas que chamamos de briófitas. (foto: Wikimedia Commons)
A bióloga Andrea Ponzo, da Universidade Federal de Juiz de Fora, também ficou entusiasmada. “Há espécies de musgos capazes de sobreviver em condições extremas, mas até hoje não se tinha relatos de uma espécie capaz de tolerar o congelamento por tanto tempo”, disse ela à CHC.