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quinta-feira, 1 de maio de 2014

IPCC: entre a ciência de ponta e a inércia política

IPCC: entre a ciência de ponta e a inércia política



Novo relatório reafirma preocupações da comunidade científica em relação aos impactos das mudanças climáticas. O ‘grande vilão’ não é o petróleo, e sim o modelo de desenvolvimento adotado pelas sociedades contemporâneas.

Por: Henrique Kugler
Publicado em 30/04/2014 | Atualizado em 30/04/2014
IPCC: entre a ciência de ponta e a inércia política
Usina termelétrica movida a carvão em Ohio, nos Estados Unidos. O consumo de energia a partir de matrizes fósseis aumentou na última década. (foto: Wikimedia Commons/ Analogue Kid – CC BY 2.5)
Apesar dos esforços globais – insuficientes? – para se emitir cada vez menos gases que possam interferir em nosso sistema climático, medições atuais indicam cenário desolador. Algo parece estar dando errado: mesmo com tanto debate acerca do tema, e com cada vez mais iniciativas para atenuar os piores cenários climáticos visionados por cientistas, as emissões globais de gases-estufa entre 2000 e 2010 aumentaram em ritmo mais apressado do que nas três décadas precedentes.
Essa é uma das considerações apresentadas no recém-divulgado relatório do Grupo de Trabalho 3 (WGIII, na sigla em inglês) do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).
Relatório do grupo III do IPCC
“Somente em 2010, 49 gigatoneladas de carbono foram emitidas na atmosfera; foi o maior nível da história desde que se iniciaram as estimativas”, disse a engenheira Suzana Kahn, pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e membro do WGIII. Em evento realizado nesta semana no Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa em Engenharia (Coppe), na capital carioca, Kahn lembrou que ainda não foram feitos os cálculos para os anos de 2011, 2012 e 2013 – mas os níveis emitidos nestes anos foram, muito provavelmente, mais elevados.

Não é uma conversa nova. Relatórios e discussões têm há décadas indicado tendências similares. Mas na esfera política a letargia perdura.
Um dos temas mais caros aos autores do IPCC é a produção de energia. De acordo com Kahn, houve a partir de 2010 aumento significativo na produção energética baseada em carvão – o que intensificou as emissões de carbono no setor industrial.
E, quando o assunto é energia, comumente ao petróleo é reputado o papel de algoz. “Porém, entendemos que hoje o ‘vilão’ não é exatamente o petróleo, mas sim o modelo de desenvolvimento de nossas sociedades, que não é sustentável”, esclareceu Kahn durante o evento na Coppe.
São questões como essa que, segundo a pesquisadora, nutrem discussões intermináveis – que varam a madrugada – entre cientistas e representantes de Estado, quando se reúnem para dar a canetada final que resulta nos sumários executivos dos relatórios do IPCC.


Burocracia nada inocente

Aos menos familiarizados com o assunto, vale lembrar: os cientistas do IPCC produzem um longo relatório que é, em seguida, sintetizado em um pequeno sumário técnico. Adiante, com base nesse documento, pesquisadores e representantes de Estado reúnem-se para produzir outro texto – que é o sumário executivo, destinado aos tomadores de decisão da esfera política.
Singelo detalhe, entretanto, tende a embaçar o entendimento público da questão. “É que o sumário executivo é uma seleção que os governos fazem apenas com as informações que julgam politicamente relevantes”, revelou Kahn. Como conciliar interesses e conveniências de mais de 190 países a partir de um relatório científico que coloca o dedo na ferida da civilização e questiona as mazelas profundas de nosso modelo econômico?
“O sumário executivo, assim, tende a ser fraco, genérico, pouco enfático e sem grandes mensagens”, resumiu Kahn. É, para alguns, mais um documento diplomático do que propriamente científico. No entanto, esse é o texto que costuma ser amplamente divulgado; é essa versão – politizada – que acaba se disseminando. “As pessoas muitas vezes confundem”, ressaltou Kahn. “No meu entendimento, é exatamente o sumário técnico que deveria ser mais divulgado; pois nele não há interferência alguma dos governos.”


A velha história

“O trabalho desenvolvido pelo WGIII foi muito bom e levantou questões que ainda não tinham sido abordadas em relatórios anteriores do IPCC, como a insustentabilidade do atual padrão de consumo”, disse Kahn à CH On-line.
E os tecnocratas estão em baixa. “Uma das principais mensagens do último relatório é que será muito difícil, se não impossível, reduzir emissões simplesmente a partir de meras soluções tecnológicas; não basta a tecnologia se não houver mudança real de comportamento e modelos de consumo”, afirmou Kahn.
Aliás, se a sociedade contemporânea estivesse contaminada por uma grave doença, seu nome já seria bem conhecido: consumismo – termo assaz preocupante para a comunidade científica. Com estratégias conservadoras de mitigação, isto é, mantendo-se intacto o modelo vigente da economia global, estima-se que o consumo daqui em diante aumente entre 1,6% e 3% ao ano; enquanto se estratégias mais audazes forem implementadas, esse número ficaria em torno de 0,06%.
De acordo com os modelos climatológicos compilados pelo IPCC, o cenário mais temerário é que a temperatura média da Terra aumente mais de 8 ºC até o fim do século. Na melhor das hipóteses, deve aumentar apenas 2 ºC. Para que isso aconteça, teríamos de reduzir as emissões de gases-estufa em 40% a 70%, em relação aos níveis de 2010, até 2050; e deveriam ser reduzidas a patamares próximos de zero até 2100, reza o novo relatório.
O físico Paulo Artaxo, da Universidade de São Paulo e também membro do IPCC, acredita que os desafios climáticos já não mais são de natureza científica. “São de natureza política”, disse no evento da Coppe. “O grande problema, a partir de agora, é a construção de uma governança global eficiente, capaz de gerenciar os cenários climáticos de maneira responsável.” Segundo Artaxo, essa almejada estrutura institucional de governança não será resolvida em meia dúzia de reuniões. Levará décadas.
Entre a inércia e o pessimismo, entretanto, talvez haja luz no fim do túnel. Segundo os pesquisadores, espera-se que, nas próximas duas décadas, investimentos na geração de energia a partir de fontes renováveis aumentem cerca de 147 bilhões de dólares; ao passo que investimentos em energia fóssil devem cair 30 bilhões de dólares.
Parque eólico
Segundo pesquisadores, os investimentos em geração de energia a partir de fontes renováveis devem aumentar cerca de 147 bilhões de dólares nas duas próximas décadas e os investimentos em energia fóssil devem cair 30 bilhões de dólares. (foto: Emilio García/ Flickr – CC BY-SA 2.0)
Mas tênue é a diferença entre o otimismo e a ingenuidade. Para muitos cientistas, é ingênuo esperar mudanças efetivas enquanto as regras do jogo da economia global continuarem as mesmas. Necessária pergunta: há algum horizonte promissor para que as regras de fato mudem? “Não estou otimista”, respondeu Kahn.
O relatório, assinado por 235 cientistas oriundos de 58 países e aprovado na primeira quinzena de abril, na Alemanha, é a terceira e última etapa de um trabalho que vem sendo elaborado desde 2009. A primeira parte dessa empreitada, divulgada em setembro de 2013, foi a publicação do Grupo de Trabalho I (WGI) do IPCC, que apresentava o conhecimento atual sobre as bases físicas do sistema climático. Osegundo documento, publicado em março deste ano, ficou por conta do Grupo de Trabalho II (WGII), e versava sobre impactos, adaptação e vulnerabilidade. Somadas, as três partes formarão o tão esperado Quinto Relatório de Avaliação – ou, para os íntimos, AR5. A publicação é esperada para outubro de 2014.


Henrique Kugler
Ciência Hoje On-line

Mais Educação – Quando as grandes expectativas saem de cena

Mais Educação – Quando as grandes expectativas saem de cena



Os educadores que desejam se reinventar terão que intervir numa situação nova, em que os “discursos progressistas” são “práticas de dominação”. Por Danilo C. Nakamura
O presente texto é fruto da inquietação que atinge grande parte dos educadores vinculados à rede municipal de ensino de São Paulo. Afinal, a que veio essa atual reestruturação do ensino? Por que a ênfase na ideia do “direito de aprendizagem”? Como se deu a chamada consulta pública? A diversidade das vozes foi considerada? Longe de conseguir apresentar respostas consistentes para essas perguntas, o texto procura rememorar um momento histórico anterior em que a formulação da educação como direito, era uma “ideia-força” que projetava uma sociedade livre. Resgatar essa memória talvez nos permita apontar para o significado da noção de “direito de aprendizagem” apresentada pela atual gestão.
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mais-educaçãoNo dia 1° de fevereiro de 1989, foi publicado no Diário Oficial do Município de São Paulo o programa Aos que fazem educação conosco em São Paulo. Nele estava incluído o documento “Construindo a educação pública popular”, o “Regimento comum das escolas municipais” e mais alguns decretos. Na ocasião, a prefeita era Luiza Erundina e o secretário da educação, Paulo Freire. O documento partia de um diagnóstico dos problemas das escolas municipais: “40% dos professores exercendo suas funções precariamente em comissões”, “falta de carteiras para alunos e professores”, “conservação deficiente dos prédios”, “atendimento à demanda que deixa fora da escola muitas crianças, jovens e adultos”[1]. Como princípio, Paulo Freire afirmava que faria circular “todas as informações sobre a situação real de todos os setores da Secretaria” e, principalmente, que “não iria impor ideias, teorias ou métodos”, pois, junto com os educadores, “lutaria pacientemente impaciente por uma educação como prática da liberdade”[2].
Diante da falta de instâncias de participação dos professores, pais, alunos e comunidade, Paulo Freire defendia a implantação de Conselhos de Escola e Grêmios Estudantis, a reforma da Associação de Pais e Mestres e a substituição das burocráticas Delegacias Regionais do Ensino Municipal (DREMs) por Núcleos de Ação Educativa (NAEs), uma vez que era preciso romper “com a estrutura hierárquica da tomada de decisões sustentada de cima para baixo”[3]. Para ele, “a população organizada cumpre melhor a função fiscalizadora das DREMs”[4]. O secretário falava também na realização de “Plenárias Pedagógicas, uma espécie de embrião dos Conselhos Populares de Educação”[5], em todas as regiões da cidade, pois ele entendia que a mobilização que se manifestava deveria “ser mantida e estruturada por uma série de encontros em que a política educacional possa ser definida conjuntamente e não burocraticamente”[6].
Problemas como a evasão e a repetência, para além do conservadorismo, significavam uma “realidade de expulsão” de uma série de alunos do ensino público e “uma mostra clara da inadequação dos processos pedagógicos”[7]. Como contrapartida a isso, a escola deveria ser um espaço mais amplo do que uma instituição que é medida pela transmissão e assimilação de conteúdos, ela deveria ser um espaço em que o povo seria chamado para a construção do saber, para que este se torne “um instrumento de luta”. Seguindo o documento: “o filho do trabalhador deve encontrar na escola os meios de autoemancipação intelectual independente dos valores da classe dominante. A escola não é só um espaço físico. É um clima de trabalho, uma postura, um modo de ser”.[8]
mais educaçãoA educação é um direito, prosseguia o documento. Um direito integral que demanda a articulação com todas as secretarias (saúde, cultura, esporte, abastecimento, transporte etc.). A escola é pública e popular, não simplesmente porque todos podem utilizá-la, mas porque todos participam e constroem, porque nela a educação é uma prática que realmente atende aos interesses populares. Nesse sentido, o espaço escolar adquire uma nova qualidade, baseado no compromisso, na postura solidária, formando a consciência social e democrática. “Nela todos os agentes, e não só os professores, possuem papel ativo, dinâmico, experimentando novas formas de aprender, de participar, de ensinar, de trabalhar, de brincar e de festejar”.[9]
Vinte e quatro anos depois do programa “Construindo a educação pública popular”, redigido por Paulo Freire, temos o “Programa de Reorganização Curricular e Administrativa, Ampliação e Fortalecimento da Rede Municipal de Ensino de São Paulo”, lançado pelo secretário de educação César Callegari, na administração do prefeito Fernando Haddad. Tal programa visa “oferecer condições de melhorias da qualidade social da educação” e seu grande objetivo é “revisar os conceitos e metodologias dos atuais currículos e alterar a estrutura de funcionamento do Ensino Municipal”.[10]
Como todo programa bem redigido, ele também parte de um diagnóstico da situação dada. Depois, temos algumas proposições práticas, tais como a garantia de que serão respeitadas as jornadas dos professores, uma menção à possibilidade de redução do número de alunos por sala de aula, o comprometimento com a construção de novas unidades escolares, o anúncio do funcionamento de polos de apoio presencial da Universidade Aberta para a formação de professores e, como grande novidade, a apresentação detalhada da reorganização dos ciclos do ensino fundamental, além da listagem da retomada de antigas práticas, ou melhor, da ênfase em práticas que, segundo o documento, não apareciam para a população, tais como a possibilidade de reprovação em cinco dos nove anos de ensino, lição de casa, uso de notas de zero a dez, divulgação bimestral dos resultados e recuperação nos períodos de recesso e férias escolares. Tudo isso constituirá, afirma o documento, “espaços de novas e mais ricas aprendizagem”.[11]
Partindo de textos que legislam sobre os direitos humanos e delimitam a estrutura e a organização da sociedade[12], todas as mudanças propostas são justificadas a partir da premissa da aprendizagem como um direito. Segundo o programa: a aprovação automática é um desvirtuamento da correta concepção de que os alunos têm direito ao aprendizado contínuo e progressivo [13]. “A organização dos ciclos está diretamente relacionada aos direitos e objetivos de aprendizagem” [14]. A Educação de Jovens e Adultos é “a garantia do direito da escolarização ao longo da vida” [15]. A interdisciplinaridade “pressupõe um trabalho integrado com as áreas de conhecimento do currículo, na garantia dos direitos e objetivos de aprendizagem” [16]. A avaliação bimestral “deve ser empreendida como um direito do aluno e da família de participar na vida intelectual e na formação cidadã de seus filhos” [17]. Em resumo, todas as práticas visam o direito dos “sujeitos de direitos”.
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Como as administrações anteriores (Serra e Kassab) não sinalizaram nenhuma solução para a transição do ensino fundamental de oito para nove anos, podemos afirmar que a reestruturação dos ciclos do ensino fundamental transformou-se numa necessidade absoluta para a atual gestão. Embora não anuncie para a população, o que a Secretaria de Educação está fazendo é, antes de qualquer coisa, tentar minimizar um problema que repercutiria na jornada de milhares de professores. Como se sabe, hoje, somente os professores com vinte e cinco aulas atribuídas podem fazer parte da JEIF (Jornada Especial Integral de Formação). Com a mudança no ensino fundamental de oito para nove anos, uma grande quantidade de professores não alcançaria as vinte cinco aulas atribuídas e perderiam a possibilidade de optar por essa jornada. Uma série de dúvidas ainda paira no ar, mas a prefeitura afirma que as jornadas serão garantidas, pois os professores poderão ter aulas compartilhadas e participar de projetos para alcançar o número de aulas necessárias para participar da jornada de formação.
O programa de reestruturação é também expressão da cultura política do país. Um cidadão que estiver de acordo com a proposta pode dizer que o texto é a expressão de uma vontade política e o anúncio de diretrizes que visam efetivar um programa educacional que respeita os direitos humanos. Ele pode enxergar uma possibilidade de mudança e se apegar em algumas proposições “progressistas” que remetem à história do Partido dos Trabalhadores. Em sentido contrário, outro cidadão pode dizer que o programa é apenas uma repaginação de programas que são propostos toda vez que a administração de um partido é substituída por outra. Assim, resolvida a questão da jornada que mencionamos no parágrafo anterior, a reestruturação visaria somente reconhecer as demandas sociais através da linguagem da inclusão e da defesa de generalidades abstratas. Abstratas, porque a defesa da educação como um direito, nesse caso, não aponta para mudanças reais nas relações de distribuição de poder, renda e de reconhecimento social [18] e, desta maneira, apenas anuncia de forma publicitária e eleitoreira a reconfiguração superficial do trabalho dos educadores.
Essa opinião crítica parece ser mais plausível, principalmente quando pensamos na forma como a população foi chamada a opinar. No dia 15 de agosto de 2013, Fernando Haddad e César Callegari, em evento público, anunciaram a reestruturação do ensino, dando ênfase na divisão dos ciclos, na obrigatoriedade das provas bimestrais e das lições de casa, na atribuição de notas de zero a dez e, claro, na possibilidade de reprovação em cinco dos nove anos do ensino fundamental, divididos em três ciclos (alfabetização, interdisciplinar e autoral). Salta aos olhos como essas propostas respondem ao senso comum que afirma que “escola boa era a escola antiga”, em que “o professor tinha a autoridade” e os “alunos temiam a reprovação” e precisavam trabalhar muito na escola e em casa para passar nos exames. Mas chama ainda mais atenção como o trabalho do professor até então executado (antes da obrigatoriedade das provas e lição de casa, por exemplo) é posto em dúvida.
mais-educação4Nesse evento, eles também anunciaram que essa reestruturação ficaria aberta para consulta pública por um mês, para que os educadores e toda a população pudessem dar sugestões. Feita a consulta e analisada a devolutiva, podemos avaliar esse processo sobre diversos ângulos. Em todos eles, a única constatação possível é que a consulta foi um mecanismo de participação sem qualquer possibilidade de mudança, reivindicação ou contestação. Ao todo, foram recebidas 3.126 postagens, um número inexpressivo, seja considerando a população de São Paulo, seja apenas o número de gestores, professores e funcionários que fazem parte da rede municipal. Nenhuma grande pauta foi incluída e nenhuma grande modificação foi proposta. Será que a proposta do governo já dava conta de todos os anseios por mudança na educação? E, por fim, o que é no mínimo contraditório, quando pensamos numa participação efetiva da população, as diretrizes norteadoras do programa já constavam no documento Considerações sobre o currículo e os direitos de aprendizagem e desenvolvimento dos alunos na rede municipal de São Paulo, divulgado em 17 de abril de 2013 e no caderno do professor, Interfaces Curriculares, datado em 28 de julho de 2013.
Se alguém se der ao trabalho de ler os documentos que citamos acima perceberá rapidamente que o plano de educação para o Município de São Paulo é uma simples adequação às diretrizes do Ministério da Educação. Existe uma colaboração acordada entre o Ministério, os estados e as cidades. Há, por exemplo, metas em relação aos resultados do IDEB [Índice de Desenvolvimento da Educação Básica] que estão projetados até 2021. E nesse sentido, hoje, com uma política educacional de âmbito nacional, para o bem e para o mal, o espaço de atuação autônoma dos estados e municípios é mínimo, para não dizer inexistente.
O que podemos indagar é: se é a política nacional que está estruturando o ensino municipal, por que o recurso da consulta pública? As respostas são evidentes. Primeiro, o governo de um partido que nasceu nas classes populares precisa de uma publicidade que o diferencie dos demais. Segundo, porque, ao fazer questão de dialogar com os antigos programas do partido, eles se viram obrigados a encenar de forma trágica as antigas práticas democráticas.
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Uma comparação dos dois momentos históricos, a partir dos documentos elaborados respectivamente por Paulo Freire e César Callegari, é um exercício revelador para iniciarmos uma interpretação crítica sobre o atual estado de coisas. Para além da diferença temporal, essa comparação também parece revelar a enorme distância entre o que cada gestão pretendia ou pretende, quando fala em “participação”, “direito”, “sujeito” e “saber”. Tal comparação não é forçada, uma vez que é a própria gestão de Callegari a sugerir isso, ao retomar a formulação da educação como direito. Para não dizer, quando arrisca dar a interpretação “correta” sobre o que seriam os ciclos e a reprovação na teoria freireana. Ou quando reduz o processo de autoconsciência do ser social, articulado no processo ação-reflexão-ação, a uma discussão sobre avaliação escolar.
No documento de elaborado por Paulo Freire, a força das ideias vinha da movimentação social, que havia sido represada pela Ditadura Militar. O secretário não concebia outro modo de construir uma política educacional a não ser promovendo encontros públicos e aproveitando a mobilização social em curso[19]. Em entrevista dada dois anos antes para o Jornal do Campus, Freire esclarece a necessidade de se manter a sociedade mobilizada no processo de emancipação da sociedade. Perguntado se a educação formal refreava as possibilidades revolucionárias, ele responde: “Não é a educação sistemática, a rede de escolas do Estado, a que constitui a sociedade desta ou daquela forma, é a sociedade organizada de certa forma em função dos interesses de quem tem o poder, a que estabelece a escola. Isto significa haver uma expectativa das classes dirigentes em face de como a escola deve funcionar, no sentido de contribuir para a sua permanência no poder”[20]. Assim sendo, cabia aos educadores “progressistas” ocupar o espaço público, mesmo em condições adversas, “para contribuir no esclarecimento dessa realidade” e, por fim, “para lutar no sentido da mobilização e da organização das classes populares”[21].
mais-educação5Embora a premissa atual também seja a educação como direito, o documento está longe de se legitimar a partir de uma mobilização social. Ele não foi elaborado dando vozes à mobilização dos professores no mês de abril desse ano. Também não tem qualquer relação com as manifestações que desde junho vêm conferindo uma vitalidade nada trivial no sentido de repensar os serviços públicos. E, como já afirmamos acima, a estrutura do documento já estava formulada de antemão. Nesse documento também não há qualquer menção às relações de dominação no interior da sociedade, sendo que a diversidade de sujeitos é pensada de uma forma homogeneizadora e, portanto, a noção de “direito” não tem um sentido de emancipação ou alargamento da participação política, mas sim, se forçarmos um sentido, de reconhecimento dos interesses individuais, sem que o lugar que esse indivíduo ocupa na sociedade seja, porém, problematizado.
As definições desses sujeitos são interessantes, na medida em que são completamente indeterminadas. O aluno aparece como sujeito “no desenvolvimento das atividades que permitem a identificação e posterior superação dos obstáculos”[22] (Quais obstáculos? Os do dia-a-dia que aparecem de forma fragmentada ou aqueles que configuram a essência de nossa sociedade?). As crianças são “sujeitos de direitos socialmente competentes, com direito à voz e à participação nas escolhas, construindo seus saberes”[23] (Escolha dos seus saberes significa ir além da disposição das coisas já dadas e dispostas?). E, em contrapartida, a ideia de coletivo só aparece na formulação de “bancos de questões e formulação de avaliações”[24] e, principalmente, na participação de “projetos de intervenção e autoria”[25]. Os projetos aparecem com uma noção peculiar de “intervenção social”, muito distante dos objetivos de ruptura de vinte e cinco anos atrás.
A socióloga Regina Magalhães já havia percebido que a ideia de projeto já ocupava um lugar central nos Parâmetros Curriculares Nacionais do ensino médio de 2000, numa relação íntima com os documentos internacionais da ONU, UNESCO, e Banco Mundial e também com os programas de intervenção social das ONGs. Ele aparecia “como estratégia pedagógica ao ‘chamado ensino tradicional’, uma vez que estimularia a ‘reconstrução de conhecimento’, raciocínio, experimentação, solução de problemas e ‘outras competências cognitivas superiores’, e atenderia aos eixos da interdisciplinaridade e contextualização que devem presidir a organização curricular”. A “intervenção social” significava nada mais do que a reversão de uma situação negativa que afeta um grupo localizado de pessoas. E a ordem do dia era “fazer coisas”, ser “proativo”, “protagonista”, ou ainda, um “cidadão ativo”. Em resumo, um discurso que se colocava como sujeito e transformava os jovens em objetos de uma política que busca capturar uma energia social e um espírito de rebeldia, típica da juventude.[26]
Hoje, o projeto também já aparece nas Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação Básica e é o norteador do caderno Interfaces Curriculares. Nas Diretrizes Curriculares está sugerido “a destinação de 20% do total de carga horária anual ao conjunto de projetos interdisciplinares, de modo que os sujeitos do Ensino Fundamental possam escolher aqueles com que se identifiquem e que lhes permitam melhor lidar com o conhecimento e a experiência”[27]. Percebe-se, assim, que o que está em jogo no discurso organizado no caderno Interfaces, do “sujeito de direito”, da resolução de “problemas como eixo curricular”, do “saber que deriva da experiência” e do “projeto como atividade permanente das sequências didáticas” nada mais é do que uma adequação a uma política em que se incorpora a atuação dos indivíduos ao mesmo tempo em que a domina e controla.
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Concluindo de uma forma esquemática, a ideia de educação como direito proposta na abertura democrática do país tinha sua força nos movimentos sociais que lutavam por direitos sociais efetivos. Atualmente essa ideia volta ao cenário social amparada num discurso que prescreve aos “sujeitos de direito” uma participação enquadrada pelos mecanismos de manutenção das desigualdades sociais.
Se o encadeamento das proposições que apresentamos até aqui faz algum sentido, o direito de aprender ou o “aprender a aprender”, como conceitua o mais novo caderno professor é, pura e simplesmente, a consagração de uma viração popular de todos os dias (diante do trabalho ou da falta dele, da ineficiência dos serviços públicos ou das atividades que ficam entre o legal e o ilegal). Enfim, um marco de sucesso adaptativo do nosso sistema de ensino[28], numa sociedade em que o horizonte de expectativa emancipatório saiu de cena. Os educadores que desejam se reinventar e, dentre outras coisas, escapar da validação de uma seleção já consumada de ganhadores e perdedores, terão que intervir numa situação nova, em que os “discursos progressistas” são “práticas de dominação”. Para não partirmos do zero, talvez, o conselho de Paulo Freire sobre a escola pública e popular ainda signifique alguma coisa: “Não as abandonem e delas não se deixem expulsar”.[29]
Notas
1  Diário Oficial de 1° de fev. de 1989. Paulo Freire – Construindo a educação pública popular.

2 Idem, p. 5.
3 Idem, p. 6.
4 Idem, p. 7.
5 Idem.
6 Idem.
7 Idem, p. 8.
8 Idem, p. 9.
9 Idem, p. 10.
10 Programa de Reorganização Curricular e Administrativa, Ampliação e Fortalecimento da Rede Municipal de Ensino de São Paulo, p. 2.
11 Ver quadro resumido de todas as novidades do programa e da consulta pública em: http://maiseducacaosaopaulo.prefeitura.sp.gov.br/
12 “Constituição” e “Lei de Diretrizes Básicas” (LDB). Além das “Considerações sobre o currículo e os direitos de aprendizagem e desenvolvimento dos alunos na rede municipal de São Paulo: contexto e perspectivas”.
13 Idem, p. 17.
14 Idem, p. 25.
15 Idem.
16 Idem, p. 34.
17 Idem, p. 46.
18 Ver: Ver o recente livro de Marcos Nobre, Imobilismo em movimento, da abertura democrática ao governo Dilma. São Paulo: Cia das Letras, 2013.
19 Diário Oficial de 1° de fev. de 1989. Paulo Freire – Construindo a educação pública popular, p. 7.
20 Diálogo com Paulo Freire, Jornal do Campus, n° 50, 16 de jul. 1987.
21 Idem.
22 Programa de Reorganização Curricular e Administrativa, Ampliação e Fortalecimento da Rede Municipal de Ensino de São Paulo, p. 51.
23 Idem, p. 61.
24 Idem, p. 48
25 Idem, p. 42.
26 Ver: Regina Magalhães de Souza. O discurso do protagonismo juvenil.
27 Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Básica, p. 36.
28 Ver: Paulo Arantes. O MST recriou a escola.
29 Diário Oficial de 1° de fev. de 1989. Paulo Freire – Construindo a educação pública popular, p. 11.

Musgo milenar - Cientistas conseguem fazer crescer uma planta que tinha mais de 1.500 anos de idade

Musgo milenar



Cientistas conseguem fazer crescer uma planta que tinha mais de 1.500 anos de idade



O leitor mais atento já deve ter reparado que alguns ambientes naturais são repletos de musgos – aquelas plantinhas esverdeadas que parecem formar um tapete no chão das florestas, nos troncos das árvores ou mesmo nas rochas. Lembrou? Pois saiba que alguns cientistas estão debruçados sobre os musgos e descobriram coisas interessantíssimas sobre eles. Uma delas? Que essas plantas danadas podem viver mais de mil anos em estado de hibernação!
Musgos na ilha Signy, que fica mais ou menos entre a América do Sul e a Antártica. (foto: Peter Convey/British Antarctic Survey)
Musgos na ilha Signy, que fica mais ou menos entre a 
América do Sul e a Antártica. (foto: Peter Convey/British Antarctic Survey)
Até pouco tempo atrás, os pesquisadores pensavam que musgos poderiam viver por no máximo duas décadas. Recentemente, um experimento mostrou que o musgo da espécieChorisodontium aciphyllum pode ressurgir após muito tempo congelado. O estudo foi desenvolvido na ilha de Signy, perto da Antártica, pelo ecologista Peter Convey, do Serviço Antártico Britânico.
Naquele frio danado, a camada superficial do o solo é coberta por musgos bem verdes. No entanto, os musgos que ficam em camadas ligeiramente mais profundas, alguns palmos abaixo do chão, têm uma coloração mais escura: são musgos congelados.
Cientistas coletam amostras de musgo. (foto: Peter Boelen)
Cientistas coletam amostras de musgo. (foto: Peter Boelen)
Peter ficou com uma pulga atrás da orelha: será que os musgos congelados – e aparentemente mortos – poderiam voltar à vida se fossem expostos novamente a boas condições de luminosidade? A resposta foi surpreendente: sim.
O pesquisador levou algumas amostras de musgo congelado para o laboratório e deixou-as sob condições especiais que simulavam um ambiente de luz natural. Parece incrível, mas, após poucas semanas, os musgos voltaram a crescer.
Amostra de musgo coletada na ilha Signy. (foto: Esme Roads)
Amostra de musgo coletada na ilha Signy. (foto: Esme Roads)
Apesar de congelados, os musgos não estavam mortos, mas apenas em estado de hibernação, aguardando as boas condições do ambiente para se desenvolverem novamente. E o mais curioso é que, estudando a planta em detalhes, Peter descobriu que ela tinha nada menos que 1.500 anos de idade!
“As pessoas sempre se interessaram por saber coisas como quanto tempo um organismo pode viver”, conta o ecologista. “Tudo que sabíamos era que alguns seres podiam hibernar por 10 ou mesmo 20 anos, o que já é bem impressionante”.
Existem milhares de diferentes espécies de musgo no mundo todo. Eles são parte de um grupo de plantas que chamamos de briófitas. (foto: Wikimedia Commons)
Existem milhares de diferentes espécies de musgo no mundo todo. 
Eles são parte de um grupo de plantas que chamamos de briófitas. (foto: Wikimedia Commons)
A bióloga Andrea Ponzo, da Universidade Federal de Juiz de Fora, também ficou entusiasmada. “Há espécies de musgos capazes de sobreviver em condições extremas, mas até hoje não se tinha relatos de uma espécie capaz de tolerar o congelamento por tanto tempo”, disse ela à CHC.

terça-feira, 29 de abril de 2014

Assim o Ocidente ressuscita a Guerra Fria

Assim o Ocidente ressuscita a Guerra Fria



Além de não representar ameaça militar ou econômica, Rússia suportou provocações em série. Mas militares, petroleiras e mídia querem fabricar um demônio. Por Roberto Sávio | Tradução: Antonio Martins

por Roberto Sávio — publicado 28/04/2014

Faz várias semanas, agora, que toda a mídia mainstream está engajada em denunciar primeiro a suposta ação de Putin na Crimeia – e em seguida, na Ucrânia. A última capa de The Economist mosta um urso engolindo a Ucrânia, sob o título “Insaciável”. A unanimidade na mídia é sempre constrangedora, porque significa algum ato de dobrar joelhos. Será possível que os quarenta anos de Guerra Fria estejam sendo ressuscitados?
A inércia desta guerra, na verdade, nunca foi rompida. Diga “o presidente comunista de Cuba, Raúl Castro”, e ninguém ficará chocado. Use a mesma lógica, e chame o presidente Obama de “capitalista” e repare nas reações. Na Itália, Sílvio Berlusconi foi capaz, durante vinte anos, de ganhar as eleições contra a “ameaça” do comunismo – representada, segundo ele, pelo partido à esquerda, agora no poder, sob Matteo Renzi, um católico devoto.
No caso da Ucrânia, há pelo menos quatro pontos fulcrais de análise que estão sendo ocultados pelo coro de mídia. O primeiro é que nunca se mencionam as responsabilidades do Ocidente no caso. Deveríamos lembrar que Mikhail Gorbachev, presidente russo ao final dos anos 1990, negociou com os chefes de Estado dos EUA (Ronald Reagan), Grã-Bretanha (Margareth Thatcher), Alemanha (Helmut Kohl) e França (François Mitterrand) que aceitaria a reunificação da Alemanha; mas que que o Ocidente, em contrapartida, não deveria tentar invadir a área de influência da Rússia. Sobre isso, há grande quantidade de documentos.
Mas assim que Gorbachev foi eliminado, o jogo foi reaberto. A total docilidade de Boris Yeltsin, seu sucessor, diante dos Estados Unidos, é bastante conhecida. Muito menos debatido é o fato de o Fundo Monetário Internacional ter oferecido um empréstimo de 3,5 bilhões de dólares, para sustantar o rublo. O empréstimo, porém, foi dirigido ao Bank of America, que o distribuiu entre várias contas russas. Nenhum centavo chegou ao Banco Central russo. O dinheiro desembarcou nas contas de oligarcas, que puderam comprar praticamente todas as empresas públicas russas. Em seu livro Farewell Russia,Gioulietto Chiesa explica o processo em detalhes. E o FMI jamais sequer balbuciou um protesto. Quando um desconhecido Vladimir Putin foi levado ao poder por Yeltsin, ele foi obrigado a aceitar um acordo de proteção aos oligarcas.
Depois de Yeltsin, Putin apoiou a invasão iminente do Afeganistão por Washington, de uma forma que teria sido inimaginável durante a Guerra Fria. Aceitou que aviões norte-americanos sobrevoassem o espaço aéreo da Rússia, que os EUA usassem as bases militares nas repúblicas da ex-União Soviética na Ásia Central, e ordenou aos militares que compatilhassem sua experiênia no Afeganistão. Então, em novembro de 2001, Putin visitou George Bush em seu rancho no Texas, em meio a declarações amistosas (“Putin é um novo líder que ajuda a paz mundial… trabalhando em proximidade com os Estados Unidos”). Poucas semanas depois, Bush anunciou que os EUA estavam abandonando o Tratado de Mísseis Anti-balísticos, para poder construir um sistema de guerra no espaço destinado, em palavras a proteger a OTAN do… Irã. Era uma ação claramente voltada, na prática, contra a Rússia, para espanto de Putin.
Na sequência, em 2002, Bush convidou sete nações da ex-União Soviética – entre elas, Estônia, Lituânia e Letônia – a somar-se à OTAN, o que se concretizou em 2004. Em 2003, a invasão do Iraque, sem consentimento da França, Alemanha e Rússia, transformou Putin num cítico aberto dos Estados Unidos e de sua proposta de promover a democracia passando por cima do direito internacional. No mesmo ano, na Geórgia, a Revolução Rosa levou Saakashvili, um pró-ocidental, ao poder. Quatro meses depois, na Ucrânia, a Revolução Laranja empoderou outro presidente pró-ocidental, Yushcenko. Em 2006, a Casa Banca pediu permissão para reabastecer o avião de Bush em Moscou, mas deixou claro que Bush não teria tempo para saudar Putin. E em 2008, houve a declaração unilateral de independência de Kososo da Sérvia, com o apoio dos Estados Unidos e contra as posições da Rússia. Então, Bush pediu à OTAN para incorporar a Ucrânia e a Geórgia – um tapa na cara de Moscou. Em face disso, não deveria ter causado surpresa o gesto de Putin, que interveio militarmente na Geórgia em 2008, quando este país tentou incorporar as regiões da Ossétia do sul e Abkhazia, de maioria russa. Ainda assim, é fácil lembrar que a mídia tratou o movimento como ação sem motivos.
Obama tentou reparar os danos provocados por Bush nas relações internacionais dos EUA. Ele propôs uma retomada (“reset”) nas relações com a Rússia, que foi, de início, bem sucedida. Moscou aceitou oferecer seu espaço aéreo para transporte de suprimentos militares norte-americanos destinados ao Afeganistão. Em 2010, a Rússia e os Estados Unidos assinaram um novo tratado Start, reduzindo seu arsenal nuclear. E a Rússia apoiou as sanções aprovadas pela ONU contra o Irã, desistindo de vender seis mísseis terra-ar S/300 ao Teerã.
Mas logo a seguir, em 2011, tornou-se claro que os Estados Unidos tentaram intervir nas eleições parlamentares russas. Toda a mídia ocidental colocou-se contra Putin, que acusou os EUA de financiarem, com centenas de milhões de dólares, grupos oposicionistas. O embaixador norte-americano, McFaul, afirmou tratar-se de um grande exagero, e acrescentou que apenas algumas dezenas de milhões de dólares haviam sido doados a grupos da sociedade civil. Putin foi eleito novamente para a presidência em 2012 [após quatro anos como primeiro-ministro], já então obcecado com as ameaças ocidentais a seu poder. Em 2013, ele deu asilo ao ex-agente norte-americano Edward Snowden. Em represália, Obama cancelou um encontro bilateral – a primeira vez em que uma reunião de cúpula entre Washington e Moscou foi desmarcada, em cinquanta anos.
Em meio a tudo isso, houve a Primavera Árabe. A Rússia autorizou ação militar na Líbia, mas apenas para garantir ajuda humanitária. Ela foi utilizada para provocar mudança de regime, e Moscou sentiu-se enganada. Protestou, inutilmente. Então, surgiu a crise na Síria e o Ocidente tentou obter novamente o apoio da Rússia para uma mudança de regime – irritando-se com a recusa de Putin. Finalmente, agora, houve a bem conhecida intervenção na Ucrânia, para colocar o país na União Europeia e distante do bloco econômico eurasiano que a Rússia tenta criar.
O segundo ponto é que nenhuma ação política, exceto uma guerra, pode reduzir a Rússia à condição de um poder apenas local. É o maior país do mundo, em território. Estende-se das fronteiras da União Europeia até o Extremo Oriente. É, ao mesmo tempo, Europa e Ásia. Mantém rivalidade com a China na Ásia, tem conflitos territoriais com o Japão e está diante dos EUA no Estreito de Behring. É um produtor destacado de petróleo, membro permanente do Conselho de Segurança da ONU e tem um arsenal nuclear. Qualquer esforço para cercá-la ou enfraquecê-la, agora que o confronto ideológico ficou para trás, só pode ser visto como parte da velha política imperial.
A Rússia não é uma ameça, ao contrário da União Soviética. Seu PIB é 15% da Europa – que tem 500 milhões de habitantes e 16% das exportações mundiais. A China tem 1,3 bilhão de habitantes, e 9% do comércio mundial. A Rússia, apenas 145 milhões e 2,5% das exportações mundiais. Tem poucas indústrias, também porque Putin não está interessado na modernização do país, que inevitávelmente produziria um crescimento da classe de profissionais instruídos, que já se opõe a ele.
O terceiro ponto é que, portanto, a crise ucraniana deveria ser examinada melhor. É um Estado muito frágil, em que a corrupção controla a política e que vive problemas econômicos estruturais. Seu Oeste é mais rural; o Leste, mais industrializado. Os trabalhadores desta região sabem que um ingresso na Europa representaria o fim de muitas fábricas. No Oeste, muitos colocaram-se ao lado dos nazistas na II Guerra Mundial e há um movimento nacionalista forte, próximo ao fascismo. A Ucrânia é um problema muito caro e complicado.
É evidente que intervir apenas para desafiar Putin, e oferecer dinheiro (basicamente, o que fez a União Europeia) parece um pensamento muito tacanho. Estaria a UE preparada para mudar os critérios de pertencimento ao bloco, para aceitar um país que claramente não se adequa a eles; e a assumir um enorme peso, para aparecer como vencedora, na disputa contra um “homem forte”?
Isso finalmente nos leva ao quarto ponto. Putin é um ex dirigente da KGB, para quem a Rússia foi tratada injustamente, na dissolução da União Soviética. Todos os esforços para chegar a um entendimento com o Ocidente foram traídos, com sucessivas ampliações da OTAN, uma rede de bases militares cercando o país, um claro apoio do Ocidente a todas as oposições, um tratamento comercial medíocre. Ele sabe que estas opiniões sobre o declínio russo são compartilhadas por uma ampla maioria de cidadãos. Mas ele também é um autocrata arrogante, para dizer o menos, que nada tem feito para promover modernização econômica – porque, ao manter a produção e o comércio em suas mãos, conserva seu controle.
Para ele, a Ucrânia foi politicamente inaceitável. Ele está apresentando-se como defensor dos cidadãos russos, algo que lhe permite atuar em todos os lugares onde há minorias russas. A questão é: se Putin se for, haverá uma Rússia democrática, participatória, limpa, incorrompida? Aqueles que conhecem bem o país não acreditam nesta hipótese. Há inúmeros exemplos de que a remoção de autocratas não conduz à democracia por si mesma.
Portanto, haveria lógica em continua a cercar Putin, em nome da democracia? Isso não fortaleceria o próprio jogo do presidente, que associa sua imagem à de defensor dos russos? Eles também sofrem com a inércia da Guerra Fria e não veem o Ocidente exatamente como um aliado. Putin é hoje a única força de coesão na Rússia. Se ele se fosse, haveria, muito provavelmente, um longo período de caos. Isso certamente não interessa aos cidadãos russos… e é sempre perigoso praticar jogos de poder sem levar em conta a estabilidade da Europa… Claro, este não é o cálculo dos estrategistas ocidentais, que adorariam eliminar qualquer outro poder…
Como escreve Naomi Klein, o único vencedor, nesta disputa, são as empresas de energia. Elas estão fazendo campanha para que o mundo torne-se independente do petróleo russo. Portanto, vamos acelerar a produção petroleira nos EUA, a despeito dos notórios prejuízos ao ambiente. E vamos torcer para que a Europa deixe de usar gás russo – “nós exportaremos para eles”. Na verdade, não há estruturas para fazê-lo e seriam necessários muitos anos para criá-las… Mas exatamente no momento em que o mundo debate como controlar a mudança climática, e reduzir o uso de combustíveis fósseis, uma contra-estratégia importante é colocar o tema em segundo plano… Tarzi Vittach, um autor do Sri Lanka, disse, certa vez: “no fundo de tudo, há outra coisa”. Não há muitos exemplos de petróleo e democracia caminhando lado a lado…

Vestibulandos, atentem para o fato dos 20 anos do fim deste regime, vale a pena reforçar conhecimentos sobre o tema, postem comentários - África do Sul: 20 anos pós-apartheid

África do Sul: 20 anos pós-apartheid




A África do Sul vai às urnas dia 7 de maio. O contraste não poderia ser maior entre o período do fim do apartheid e o descontentamento com a situação atual.



por Emir Sader em 25/04/2014

Ao mesmo tempo em que comemora os 20 anos da eleição de Nelson Mandela como presidente e o fim do apartheid (24/4/1994), a África do Sul se prepara para sua quinta eleição presidencial, dia 7 de maio. O contraste não poderia ser maior entre a gestão final do regime de apartheid – simbolizado pela figura do Mandela, mais engrandecida ainda com as cerimônias da sua morte – e o descontentamento e o desânimo com as novas eleições presidenciais. 


O contraste é claro entre o consenso obtido pelo fim do apartheid e a sociedade que é a Africa do Sul hoje. A falta de interesse pela quinta eleição presidencial é um reflexo do que é hoje a sociedade sul-africana, convivendo com a miséria, a injustiça e a desigualdade. 


Os governos da ANC (Congresso Nacional Africano) aumentaram substancialmernte os investimentos sociais, o Estado pós apartheid criou mecanismos de participação popular.


No entanto, a promessa de que o fim do apartheid significaria “uma vida melhor para todos”, está longe de acontecer. Há uma diferença enorme entre a transformação política do fim do regime de apartheid e a manutenção das condições sociais herdadas do antigo regime.
    
É possivel compreender esse paradoxo a partir do próprio pacto político de transição para a África do Sul pos apartheid. As negociações de paz foram possíveis pela luta do povo sul-africano e pela solidariedade internacional, mas não foram suficientes para simplesmente derrubar o regime de apartheid, que contava com superioridade militar e com o apoio dos Estados Unidos. Os acordos representaram o fim do regime de apartheid, mas não trouxeram ao país a transformação democrática de suas estrututras econômicas.



Não significa que tudo seguiu igual. Os governos da ANC incrementaram os gastos em políticas sociais, se ampliou uma classe média negra e, sobretudo, aluns setores negros foram anexados à elite do pais. Mas a grande massa da população continua vivendo em condições miseráveis, com um desemprego que chegou já a superar os 20%, com índices que dobram essa cifra para a população negra.


Desde o começo do fim do apartheid, os governos sulafricanos fizeram acordos com o FMI, com todas as consequências que conhecemos. O momento do fim do apartheid coincidiu também com o fim da União Soviética e o clima do Consenso de Washington. O certo é que esses acordos entregaram aos negros - através de seu partido, o Congresso Nacional Africano - o controle da política, mas deixaram o controle da economia nas mãos dos brancos.


Os controles sobre a circulação de capitais foram afrouxados, empresas estatais foram privatizadas, não houve prioridade nas políticas sociais. A economia cresceu até a crise internacional iniciada em 2008, frente à qual a África do Sul não apresentou mecanismos de defesa, desarticulados por políticas econômicas neoliberais.



Como resultado do clima de desânimo e de desinteresse, Zuma deve se reeleger em maio para um segundo mandato, mas com muitos setores populares votando por pequenos partidos, alguns pelo DA – o principal partido opositor, liberal, com predomínio dos brancos – e com setores descontentes da própria ANC fazendo campanha por “Não votar”.


Depois do fim do apartheid a África do Sul teve um governo de Nelson Mandela, dois de Thabo Mbeki e um de Jacobo Zuma. Este pode pode ser o último da ANC, caso setores da oposição – liberais por um lado, agrupações  menores da esquerda por outro – consigam capitalizar o enorme descontentamento no país, a 20 anos  do regime pós-apartheid.