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terça-feira, 29 de abril de 2014

Está no ar - Os dias enfumaçados numa das cidades mais poluídas do planeta

Está no ar

Os dias enfumaçados numa das cidades mais poluídas do planeta

por IAN JOHNSON

Na arquitetura tradicional chinesa, os princípios do feng shui recomendam que as casas sejam guarnecidas de um pequeno muro a poucos metros da entrada, como proteção contra energias maléficas. Mas na cidade de Handan essas muretas passaram a servir de anteparo para as nuvens da fumaça acre e malcheirosa que exala das fábricas. Numa noite de verão em Sihoupo, bairro de 300 habitantes na Zona Oeste de Handan, as labaredas amarelas de uma fábrica de coque – derivado de carvão empregado na produção do aço – irrompiam no céu, saturando o ar com o cheiro de ovo podre. Para se obter o coque, concentra-se carvão betuminoso em tijolos, que então são usados como combustível dos fornos em que o ferro é fundido em aço. O processo também lança partículas cancerígenas na atmosfera. “Não podemos abrir as janelas à noite”, disse Hu Xuhui, um homem de 60 e tantos anos que mora em frente à fábrica. “Se os dias já são ruins, as noites são piores ainda.”
Handan, situada a 400 quilômetros a sudoeste de Pequim, tem um núcleo urbano de 1,4 milhão de habitantes e um vasto cinturão rural que conta com mais 8 milhões de pessoas. Fica ao lado das montanhas de Taihang, um maciço escarpado com picos pontiagudos que se espraia dos arredores de Pequim, no norte, até as bacias hidrográficas da fértil região sul do país. Durante milênios essas montanhas foram cenário de lendas e da história. Na mitologia chinesa, elas são a morada da deusa Nüwa, a criadora dos seres humanos; na história, com seus desfiladeiros estreitos, sempre estiveram nos cálculos de estrategistas militares. Hoje, graças às ricas jazidas de carvão e minério de ferro, as montanhas constituem importante centro da siderurgia no cenário global. Uma das províncias que fazem fronteira com o maciço de Taihang é Hebei, onde se estende Handan; só essa região responde por 10% da produção de aço em todo o planeta.
Embora a poluição em Pequim tenha atraído a atenção do mundo todo nos últimos anos, o dano ambiental é muito pior nas cidades industriais de menor porte. Segundo dados do governo, das dez cidades mais poluídas da China, sete ficam na província de Hebei, e Handan é uma delas. Nos dias ruins, não se consegue enxergar o outro lado de uma estrada de quatro pistas.
Ativistas e economistas vêm alertando, há décadas, que o boom econômico da China está arruinando o meio ambiente e criando sérios riscos à saúde. Um estudo recente relatou que em 2010 a poluição do ar contribuiu para 1,2 milhão de mortes prematuras no país – quase o dobro do número de baixas por malária em todo o mundo. Outro relatório observou que a poluição causada pelo processamento de carvão reduz em cinco anos e meio a expectativa média de vida no norte do país.
Não obstante as restrições impostas pelo governo à organização independente dos cidadãos, com o propósito de dificultar a formação de grupos de pressão, os moradores de Handan e das aldeias vizinhas estão falando mais livremente dos problemas que enfrentam. Mães contam que os filhos sofrem de doenças respiratórias crônicas. Idosos se queixam de problemas digestivos, que atribuem aos alimentos cultivados na região. E muita gente menciona vizinhos que estão morrendo de câncer. Até mesmo o governo reconheceu a existência de “aldeias do câncer”, que militantes identificaram em centenas de lugares, inclusive em Handan.
Sentada em sua sala, Song Lingdi, moradora de Sihoupo, segura uma foto plastificada do marido, um homem corpulento de 44 anos, o cabelo cortado à escovinha, que há três anos morreu de câncer de pulmão. Contou que já pediu indenização ao governo, mas teve sua petição negada. Moradores mais abastados erguem telhados de zinco no quintal, e é debaixo desse abrigo que as crianças devem ficar. Todos os dias as mulheres varrem a fuligem cinza, suficiente para encher vários baldes.

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esde o século III, quando pela primeira vez se extraiu enxofre da região, Handan se destaca por ser um polo industrial. Posicionada no cruzamento de duas importantes rotas comerciais, a cidade também se sobressaiu como centro cultural, berço de centenas de expressões idiomáticas enraizadas no folclore e na história do país. Uma das mais conhecidas é Handan xue bu (Aprendendo a andar em Handan), referência à anedota de um rapaz do interior que ouve dizer que os moradores de Handan são tão sofisticados que andam de um modo especial. Ele vai à cidade para aprender o trejeito, em vão. Abatido, anos depois ele volta para casa e descobre que não se lembra mais de como ele mesmo caminhava. Só lhe resta engatinhar. Moral da história: se imitar os outros, você pode perder a si mesmo.

As origens modernas do poderio industrial de Handan remontam ao século XIX, quando Li Hongzhang, um dos administradores mais competentes da China, abriu uma mina de carvão nas cercanias. Ao assumir o poder, em 1949, o Partido Comunista viu na indústria pesada, e especialmente no aço, o caminho para a modernização do país. Em 1958, o governo fundou em Handan a siderúrgica Hansteel. No ano seguinte, durante o Grande Salto para a Frente, o camarada Mao foi até lá e vaticinou que a cidade, com seu “infindável tesouro em jazidas de ferro”, seria um pujante polo do aço. Soldados e civis trabalharam em turnos ininterruptos, transportando tijolos para os canteiros de obras, em bicicletas ou em carrinhos de mão.
No início a usina produzia apenas ferro de baixa qualidade. Em 1965, conseguiu gerar as temperaturas necessárias para o fabrico de aço, mas mesmo assim a escala da produção era pequena: em 1978, a Hansteel tirava menos de 200 mil toneladas de aço anuais. Naquele ano, porém, Deng Xiaoping assumiu o poder e promoveu reformas econômicas. A iniciativa privada, praticamente banida sob o governo de Mao, foi liberada. Em 1979, a China produziu 34,5 milhões de toneladas de aço; em 1996, a cifra ultrapassava os 100 milhões de toneladas.
À medida que a siderúrgica se expandia, ia engolindo as aldeias vizinhas ou deixava-as praticamente inabitáveis, tamanha a poluição. Muitos ainda se lembram das manifestações nos anos 80 e 90, quando as pessoas se deitavam nos trilhos das ferrovias para impedir a chegada de vagões carregados de carvão. A Hansteel começou a pagar à população do entorno uma “taxa anual de poluição” de algumas centenas de dólares, que os moradores dizem ainda receber.
A maior liberalização da economia nos anos 90 acelerou o crescimento, criando uma insaciável demanda por aço. Os fabricantes compravam do Ocidente, a um custo mínimo, siderúrgicas desativadas que eram remontadas na China. Em 2012, o país gerou 716 milhões de toneladas de aço, quase a metade do total mundial. A Hebei Steel, conglomerado do qual a Hansteel agora faz parte, é o maior fornecedor do país.
Mas a produção de aço segue o esquema comum a toda a economia chinesa: enquanto os empreendimentos bem-sucedidos atraem imitadores, raramente os ineficientes são eliminados. Protegidos pelos governos locais, os produtores em desvantagem perseguem obstinadamente uma participação de mercado, mesmo quando os lucros são pequenos. A implementação de técnicas de controle da poluição é outro problema. Ainda que o Ministério de Proteção Ambiental tenha mais poder hoje, as autoridades locais muitas vezes ignoram suas diretrizes. A prioridade delas é o crescimento econômico, há tempos o segundo fator determinante para a carreira de um funcionário público (evitar a agitação social é o primeiro). O avanço da indústria siderúrgica fez de Handan um lugar estratégico para políticos ambiciosos, que são rapidamente promovidos e logo assumem outros cargos.

Q
uando tentei agendar uma visita à Hansteel, as autoridades locais me avisaram que era proibido divulgar dados sobre a poluição na cidade. Se eu me demorava perto de uma fábrica, era logo enxotado por um funcionário do Partido, que alertava as pessoas para não falar comigo. Um conhecido, porém, concordou em me acompanhar numa visita. Fui de carro até lá com outro metalúrgico, um homem de 39 anos, magro e cheio de energia, chamado Han Zhigang.

Han era um operário de segunda geração; seus pais, originalmente agricultores de uma aldeia próxima, haviam se mudado para Handan durante a expansão da Hansteel, na era maoista. Eles tinham o que então era chamado de “tigela de arroz de ferro” – um emprego vitalício, com todas as vantagens proporcionadas por uma grande empresa estatal num sistema comunista: creche, escola e assistência médica gratuitas, além de subsídios para moradia e alimentação.
Vimos um teatro novo, parques públicos amplos e ruas agradáveis no centro da cidade, margeadas pelas frondosas árvores de Ginkgo biloba. No entanto, conforme nos aproximávamos de Hansteel, a estrada ia ficando esburacada, em decorrência do pesado tráfego de caminhões que transportam carvão para as usinas de lavagem. Uma dessas fábricas, à nossa esquerda, estava temporariamente fechada, graças a uma iniciativa antipoluição do governo central. Passamos sob uma ferrovia por onde transitam composições de cinquenta vagões abarrotados de carvão, destinados à Hansteel.
Vinte anos atrás, quando cursava a escola técnica, Han conseguiu uma colocação como vendedor de mapas numa firma no sul da China. Naquela época, havia muita oferta de novos empregos no setor privado, com salários muito mais altos que os oferecidos pelas empresas estatais. Os pais de Han, porém, não concebiam nada mais seguro do que um emprego na Hansteel, e pediram que ele voltasse. Han, por seu lado, temia que sua geração tivesse sido muito poupada. “Eu achava que não seria capaz de dar duro”, disse ele. “Por isso pleiteei um emprego bem na frente do alto-forno. Queria experimentar a vida numa siderúrgica.” Depois de quatro anos despejando ferro fundido, ele obteve uma vaga no departamento de logística da fábrica.

O
complexo da Hansteel abrange cerca de 600 hectares, um terço da área de Handan. Percorremos de carro sua divisa meridional, uma rua que exibia apenas restaurantes fechados com tabiques e outros prédios dilapidados. A estrada era inteiramente negra, com o pó de carvão entranhado no solo. Estacionamos diante dos portões da fábrica. Saí do carro de Han e passei para o carro do meu contato, a quem chamarei de Teng. Superamos os últimos dois postos de controle e entramos na Hansteel.

As ruas no interior do complexo eram ladeadas de choupos recém-plantados e arbustos com flores vermelhas, roxas e amarelas. Viam-se gramados bem cuidados, cercas vivas perfeitamente aparadas, irrigadores automáticos. Mulheres com chapéus de palha tratavam do jardim. Uma grande faixa dizia: “Espalhe o espírito da Hansteel. Juntos forjaremos o sonho da China.”
Teng explicou que a fábrica havia instalado um novo equipamento para recolher o pó de carvão nos altos-fornos, e vedara o depósito de minério de ferro, antes a céu aberto, de modo a impedir que o vento espalhasse a fuligem. Caminhões patrulhavam as ruas, aspirando sujeira e cinzas, lavando o chão. Antigamente, diziam que uma pessoa perdia trinta anos de vida no momento em que cruzasse os portões da siderúrgica; hoje, a siderúrgica era o local mais limpo da cidade. A Hansteel seria o sonho de consumo de qualquer inspetor de Pequim.
Embora a fábrica de coque do complexo fosse bem maior do que a de Sihoupo, era mais limpa, porém mais intensamente se sentia o fedor de enxofre. Alguns homens empurravam carrinhos cheios de equipamentos e de lixo. Outros, sentados no meio-fio, com a aparência exausta, fumavam. Teng me disse que essa seção, aberta em 2008, era moderna e muito lucrativa, e contava com apenas 4 mil empregados. Numa unidade vizinha, mais antiga, com equipamentos antiquados e menor controle de poluição – e operando no vermelho –, trabalhavam 20 mil pessoas. Se a Hansteel, de longe o maior empregador da região, fechasse aquela unidade, seria uma empresa mais ecológica e ainda mais lucrativa, mas precisaria demitir milhares de trabalhadores. “Acho que não se pode fazer isso em nenhum país do mundo, não é mesmo?”, perguntou Teng, retórico. A produção em grande escala e também o emprego em grande escala fazem parte da responsabilidade social da empresa, acrescentou.
Saí da fábrica e caminhei pelas redondezas. Num bairro chamado Mengwu, conversei com Yang Xiu-ying, uma mulher de seus 50 anos que trabalha algumas horas por dia varrendo o pó de carvão de uma das avenidas da Hansteel. Como muitos moradores, ela ainda externava amargura ao falar das terras apropriadas pela siderúrgica em suas várias expansões. E descreveu a poluição de anos piores: “Caía uma chuva negra”, disse ela. “Não dava para vestir roupas brancas.”
A fuligem negra já não domina o centro urbano de Handan, mas as casas em Mengwu e outros bairros são sacudidas a cada poucos minutos pelos trens que transportam carvão. Algumas apresentam rachaduras nas paredes. Os moradores pediram indenização ao governo, e nada. Tal como a maioria das pessoas que mora perto de fábricas, Yang não tinha nenhuma expectativa de mudança. “Não se pode lutar contra a Hansteel. A cidade de Handan é a Hansteel”, disse ela, me dando as costas.

D
urante décadas, o governo chinês ignorou a poluição, ou pelo menos tentou acobertá-la. Em 2007, temendo agitação social, Pequim pressionou o Banco Mundial a censurar um relatório sobre as mortes provocadas pela poluição no país. Depois de um vazamento de anilina numa fábrica de produtos químicos em Jilin, 1 200 pessoas sofreram de convulsões, náusea, dificuldade respiratória e paralisia temporária.

A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos classifica a anilina como provável agente cancerígeno; na Europa, desde o século XIX essa substância tem sido associada a surtos de câncer em cidades industriais ao longo do Reno. As autoridades sanitárias de Pequim, porém, atribuíram os sintomas a uma “histeria coletiva”; no hospital onde estavam sendo medicadas, as vítimas foram aconselhadas a se controlar. Em 2009, depois que a embaixada americana em Pequim passou a divulgar pelo Twitter os índices de poluição aferidos pelo monitor instalado em seu telhado, uma autoridade do Ministério de Relações Exteriores da China se queixou de que os Estados Unidos estavam se intrometendo nos assuntos internos do país.
Contudo, no início de 2013 o governo chinês resolveu tornar públicos dados da poluição atmosférica em 74 cidades – registros de leituras, de hora em hora, das estações de monitoramento em cada uma das cidades (Handan tem quatro), com base numa escala chamada Índice de Qualidade do Ar. A escala adota uma medida conhecida como MP2,5 – ou Material Particulado 2,5 –, que quantifica a concentração de partículas menores que 2,5 micrômetros. Quando inaladas, essas partículas podem aumentar o risco de ataques cardíacos, câncer e infecções respiratórias agudas, sobretudo em crianças e idosos.
Ativistas ambientais na China acreditam que a divulgação de dados pode ser uma tática do Ministério de Proteção Ambiental para criar uma pressão pública que obrigue as alas pró-indústria do governo a aceitar controles de poluição mais rigorosos. Outros sinais de mudança nas atitudes oficiais vêm ocorrendo. Em maio de 2013, Xi Jinping, o novo líder da China, declarou que a proteção ambiental seria um dos fatores para avaliar o desempenho de funcionários administrativos candidatos a promoção. Em julho, o governo noticiou que, para melhorar a qualidade do ar, nos próximos cinco anos iria gastar uma verba de 270 bilhões de dólares, grande parte dela destinada à região em torno de Handan.

A
s ações do governo refletem a conjectura de que a poluição é uma das poucas questões capazes de suscitar o desagrado de setores amplos da população, de todas as classes e etnias. Como o Partido fez da elevação dos padrões de vida seu parâmetro de sucesso, a poluição ambiental e os problemas de saúde que ela provoca minam a sua credibilidade. Em Pequim, Li Bo, veterano do movimento ambientalista chinês, me disse que a poluição “põe em questão a legitimidade do Partido, e o Partido sabe disso”.

Li trabalhou vinte de seus 43 anos em causas ambientais, e hoje é membro do conselho da mais antiga ONG ambientalista da China, Amigos da Natureza. As leis chinesas fazem de tudo para impedir que as ONGs se organizem em nível nacional, mas a Amigos da Natureza, com sede em Pequim, tem filiais em todo o país. Desde o final da década de 90, a ONG conseguiu questionar um projeto de hidrelétrica no rio Yang-tze e impedir a derrubada da floresta virgem na província de Yun-Nan, além de lutar pela preservação do antílope tibetano. No momento, sua campanha mais intensa está voltada para uma “aldeia do câncer” em Yun-Nan, onde durante anos uma fábrica de produtos químicos despejou dejetos tóxicos que escoaram para os reservatórios de água. A Amigos da Natureza vem ajudando os moradores a entrar com uma ação judicial com vistas a uma indenização: é a primeira vez que uma organização ambiental consegue levar ao tribunaluma indústria de produtos químicos.
As novas liberdades, segundo Li, vêm acompanhadas de limites claros. “Todo mundo fala da poluição, mas aquele que resolver seguir o curso de um determinado agente poluente até chegar ao poluidor corre o risco de acabar em apuros”, disse ele. “As autoridades locais podem alegar que o sujeito está prejudicando o progresso.”
Em Pequim também conheci Wang Jun e Zhang Bin, engenheiros de software que desenvolveram um aplicativo para smartphone chamado Índice de Qualidade do Ar da China. O aplicativo teve tanto sucesso que eles estavam pensando em alugar um escritório, em vez de trabalhar em seus apartamentos. O programa é capaz de calcular os níveis de poluição atmosférica do bairro, com atualizações de hora em hora e dados que remontam a meses. Pode-se passar horas acompanhando o rastro da poluição, observando a trajetória das nuvens de ar poluído pelas cidades e províncias.
Por vezes o índice registrado numa determinada estação salta de 100 ou 200 – marca que já é de dez a vinte vezes maior que a meta da Organização Mundial de Saúde – para algo como 800. A razão dessas flutuações não é clara: podem ser erros de aferição, pode ser que o equipamento de medição esteja no meiode um rolo de fumaça lançado de uma fábrica vizinha. Ninguém sabe responder com precisão. Mais importante que essas flutuações momentâneas são os dados diários e mensais, que refletem os efeitos de longo prazo sobre a saúde da população. A média do MP2,5 em Handan no primeiro semestre de 2013 foi de 130,5. A de Pequim foi 101,3 e a de Manhattan foi de 8,3. As diretrizes da OMS dizem que qualquer partícula é potencialmente prejudicial, mas estabelece uma meta de MP2,5 no nível 10. Em outras palavras, a concentração em Handan era treze vezes pior do que a meta da OMS.
Zhang e Wang abraçaram a causa ambientalista por acaso. “Na verdade, antes não prestávamos atenção à poluição, mas em 2011 houve um período de péssima qualidade do ar”, disse Zhang. “E então nos perguntamos se não haveria uma maneira mais fácil de acompanhar os índices.” No início, o aplicativo só contava com informações vindas dos tuítes da embaixada e do Consulado dos Estados Unidos, mas no início de 2013 os dois atualizaram o software de modo a incluir novos dados do governo, informações históricas, comparações entre cidades, e ainda a capacidade de localizar qualquer estação de monitoramento. O aplicativo já foi baixado 2 milhões e meio de vezes – das quais 58 mil ocorreram depois de um infame dia de janeiro de 2013, quando uma nuvem de poluição em Pequim provocou o cancelamento de ​​voos e levou firmas estrangeiras a distribuir máscaras para seus funcionários. Agora, Zhang e Wang contabilizam em média 4 mil downloads por dia, e estão pensando em expandir o negócio para outros países. Disseram que, embora o governo não tenha interferido em seu trabalho, a vigorosa resposta do público deixou as autoridades nervosas.

N
um sábado de manhã, em um cume silencioso das Montanhas Taihang, participei de um encontro no Clube de Montanhismo Luz do Sol. A associação foi fundada por Han, o metalúrgico que me conduziu até a fábrica. No final dos anos 90, ele começou a organizar excursões para as montanhas. “Eu não tinha um objetivo; queria apenas caminhar com amigos”, disse ele. “Trabalhava na siderúrgica, e talvez inconscientemente sentisse que precisava do contato com a natureza.”

Depois de casar e ter uma filha, ele levou a menina para as montanhas, para fazê-la sentir o ar puro. Em 2008, o clube já tinha tomado forma. Através dele, Han conheceu outras pessoas que não trabalhavam na siderurgia – eram funcionários do governo, profissionais liberais e empresários. Nesses contatos, descobriu que havia uma insatisfação generalizada com a forma pela qual a China, em nome do crescimento econômico, desprezara outros fatores.
Anos atrás, Han arrendou 10 hectares nas montanhas, um lote no qual membros do clube poderiam plantar verduras orgânicas. Com a ajuda de agricultores locais, ele espera, no futuro, abrir um restaurante orgânico e também cultivar hortas que possam oferecer verduras frescas. “As pessoas não confiam nos legumes vendidos na cidade”, disse ele, enquanto atravessávamos campos recém-arados. “Acham que está tudo envenenado.”
Han nos guiou até um terreno baldio repleto de aipo-silvestre. O dia estava claro, tanto quanto podem ser claros os dias em Handan, ou seja, o ar estava umas cinco vezes mais poluído que em Manhattan. De vez em quando se vislumbrava um pequeno retalho de azul no céu. Enquanto os adultos colhiam aipo em sacos plásticos, as crianças correram para uma fazenda abandonada e subiram no telhado da sede. Han tinha esperanças de reformar a casa e transformá-la num clube.
Nossas sacolas acabaram abarrotadas de brotos verdes; planejamos preparar guiozas para o almoço. Um dos amigos de Han, um ex-metalúrgico de cabeça raspada que atende pelo apelido de Macaco, veio nos buscar num jipe Cherokee roxo, “envenenado” com enormes pneus, luzes na capota e um barulhento motor a diesel retirado de um ônibus. Descemos as colinas em zigue-zague, parando numa cidadezinha para comprar carne de porco. De repente fomos engolfados por uma nuvem de poeira. Han gritou “As janelas!”, e Macaco fechou os vidros imediatamente.
Na casa de outro amigo de Han, recheamos os guiozas com aipo e carne de porco, jogando conversa fora. Contaram que as mulheres haviam começado a usar máscaras de algodão emendadas em echarpes, para proteger a garganta e o peito contra a fuligem. (Algumas semanas depois notei essas mesmas echarpes em Pequim.)
Uma funcionária do Partido Comunista que treina trabalhadores das indústrias de base fazia parte do grupo. Seria natural esperar que a jovem, um quadro em ascensão no Partido, ficasse na defensiva em relação à política ambiental do governo, mas ela foi direta. “Todo mundo está ciente do problema, e há o desejo explícito de melhorar a situação”, disse ela. “Estamos treinando gerentes de controle da poluição. As coisas não podem continuar assim.” Ela entrou para o clube porque se preocupava com a saúde da filha.
Em geral, operários e funcionários burocráticos do governo não se encontram socialmente, mas Han animou a conversa com piadas descontraídas. “Conhecem aquela do sujeito de Handan que foi para a Suíça? Lá o ar era tão puro que ele começou a se sentir mal. Tiveram que arranjar um tubo e ligar no cano de escapamento de um carro, para ele respirar um pouco até se sentir melhor."

P
ouco antes de partir, fui até um braço do rio Zhuozhang com Wang Xiaohong, ex-funcionário público que é diretor do Clube de Natação de Inverno da cidade, uma agremiação bastante parecida com a dos excursionistas. Wang – que, junto com a mulher, tem uma loja de chá – reúne o grupo há vários anos, em locais onde o rio forma piscinas próprias para a natação. Depois do vazamento químico de 2013, o clube entrou com um processo contra a fábrica, mas abandonou o caso, ao que tudo indica sob pressão do governo. Mesmo assim, os membros estavam decididos a continuar dando suas braçadas.

Wang é adepto do taoismo, a religião nativa da China, que valoriza a proximidade com a natureza. Durante boa parte dos últimos dois milênios, o taoismo foi eclipsado politicamente pelo confucionismo, mais voltado para a família e a sociedade. Mark Elvin, professor emérito de história chinesa na Universidade Nacional da Austrália, já argumentou que o descaso da China pelo meio ambiente tem raízes nessa tradição. O governante ideal, segundo Confúcio, vê o domínio sobre a natureza como parte do triunfo da humanidade sobre a barbárie. Os filósofos taoistas ficaram em minoria.
Han, a julgar pelo pouco tempo que convivemos, me pareceu mais confucionista do que taoista. Seu clube nas montanhas proporciona um refúgio contra a poluição, mas também confere reconhecimento social ao metalúrgico. Já o interesse de Wang pelo meio ambiente está perfeitamente integrado a suas outras atividades – meditar, praticar a caligrafia chinesa e distribuir exemplares do texto clássico Tao Te Ching:O Livro do Caminho e da Virtude, uma das bases filosóficas do taoismo.
Quando chegamos à margem do rio, Wang perguntou se eu me importaria de nadar nu. Cerca de vinte homens tinham aparecido naquele dia e já estavam se despindo. Fiz o mesmo, pensando que pelo menos minha sunga seria poupada daquela água tóxica (mas não abri mão dos meus óculos de proteção). A água estava fria e refrescante. Wang foi o primeiro a mergulhar – um homem de 46 anos, de ombros largos, cabelo à escovinha e uma barba triangular destacada pelas costeletas finas.
Começamos num ritmo acelerado. Virei-me para o nado de costas, e alguém chegou nadando de peito, espanando água com braçadas irregulares. Engoli um bocado de água: tinha um gosto azedo, como uma piscina suja que acabasse de receber uma vasta dose de cloro.
“Essa água é limpa?”, perguntei.
“Não é potável”, disse Wang. “Mas o que não mata engorda.”
“Por que aqui só nadam homens?”
“Alguns anos atrás a qualidade da água era tão ruim que nossas associadas não queriam entrar no rio”, disse ele. “Os homens não se importavam. Depois de algum tempo, já que não havia mais mulheres, decidimos que tudo bem tirar a roupa e nadar nu.”
O produto químico que vazou no rio Zhuozhang era anilina. Se tivesse sido o único derramamento, estaríamos livres de perigo, pois ocorrera havia seis meses – e produtos químicos se dissolvem na água. Mas a julgar pelo número de fábricas nas margens do rio, seria difícil identificar a composição daquela água. “Vamos voltar”, gritei, e a corrente nos levou de volta para a orla.
Fomos até a loja de chá de Wang, forrada de prateleiras de aço onde se empilham tijolinhos de chá envelhecido tipo pu’er e bules de louça de Yixing, cidade famosa pela cerâmica. Há também saletas onde se pode meditar e tomar chá. Wang me disse que entre os membros do clube de natação havia muitos diretores de empresas. “O PIB”, e aqui ele usou a sigla em inglês, GDP, “não significa nada se uma pessoa não curte a vida.”
Nós nos despedimos, e saí em busca de alguma coisa para o jantar. Dei uma olhada no aplicativo do Índice de Qualidade do Ar, e meu smartphone mostrou que, naquele momento, Handan era a cidade mais poluída de toda a China. Dava para enxergar o foge respirar a fumaça. As diretrizes do governo pregavam que em dias assim as pessoas deveriam usar máscaras e não sair de casa. Passei por um parque onde havia um grupo de idosos que dançava ao som de uma música que saía dos alto-falantes. Naquele nevoeiro amarelo, eles pareciam flutuar.
Conversei com uma dançarina aposentada que estava tocando uma espécie de flauta feita com uma cabaça e três tubos de bambu. Segundo ela, é melhor ficar no parque do que em casa, pois há mais oxigênio perto das plantas. Encontrei uma barraquinha de kebab, com uma mesinha e cadeiras, ao lado de um antigo canal, agora seco e cheio de lixo. Do outro lado, uma estátua imortalizava a historieta do homem que tentou imitar os habitantes locais. Seu corpo estava todo desconjuntado e os joelhos meio dobrados. Ele ainda não tinha dominado o jeito de andar de Handan. 

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Os escândalos que assombram a canonização de João Paulo II

Os escândalos que assombram a canonização de João Paulo II



João Paulo II, o papa que promoveu e encobriu pedófilos e violadores da Igreja, recebeu, ao mesmo tempo em que João XXIII, a canonização.


Eduardo Febbro




Créditos da foto: Arquivo

Arquivo


Vítimas, que vítimas? – perguntou o cardeal Velasio de Paolis. E acrescentou: “Não são apenas estas vítimas”. Depois houve um silêncio de corpo e alma e o olhar um tanto perdido do superior geral dos Legionários de Cristo, nomeado em 2010 para esse cargo pelo então papa Joseph Ratzinger. À pergunta de de Paolis se seguiu uma resposta: as vítimas não eram só os milhares de menores que sofreram com os apetites sexuais das batinas hipócritas, mas também o próprio Vaticano. As vítimas não eram unicamente os menores ou adultos abusados e violentados pelo padre Marcial Maciel, o fundador dessa indústria dos atentados sexuais que foi, durante seu mandato, o grupo dos Legionários de Cristo. A vítima era a Santa Sé, que foi “enganada”.



João Paulo II, o papa que, entre outros horrores, promoveu e encobriu pedófilos e violadores da Igreja, recebeu, ao mesmo tempo em que João XXIII, a canonização. Para além do espetáculo obsceno montado para esta ocasião, dos milhares de fieis na Praça de São Pedro, dos três satélites suplementares para transmitir o ato, para além da fé de muita gente, a canonização do papa polonês é uma aberração e um ultraje para qualquer cristão do planeta. Declarar santo a Karol Wojtyla é se esquecer do escandaloso catálogo de pecados terrestres que pesam sobre este papa: amparo dos pedófilos, pactos e acordos com ditaduras assassinas, corrupção, suicídios jamais esclarecidos, associações com a máfia, montagem de um sistema bancário paralelo para financiar as obsessões políticas de João Paulo II – a luta contra o comunismo -, perseguição implacável das correntes progressistas da Igreja, em especial a da América Latina, ou seja, a frondosa e renovadora Teologia da Libertação.



O “vítimas, que vítimas?” pronunciado em Roma pelo cardeal Velasio de Paolis encobre toda a impunidade e a continuidade ainda arraigada no seio da Igreja. Jurista e especialista em Direito Canônico, De Paolis fazia parte da Congregação para a Doutrina da Fé na época em que – anos 80 – se acumulavam as denúncias contra Marcial Maciel. No entanto, foi ele quem firmou a segunda absolvição do sacerdote mexicano. O ex-padre mexicano Alberto Athié contou à Carta Maior como Maciel sabia distribuir dinheiro e favores para comprar o silêncio das hierarquias. Athié renunciou em 2000 ao sacerdócio e se dedicou à investigação e denúncia dos abusos sexuais cometidos por clérigos e organizações.



O destino de Maciel foi selado por Bento XVI a partir de 2005. Em 2004, antes da morte de Karol Wojtyla, Maciel foi honrado no Vaticano. Neste mesmo ano, Ratzinger reabriu as investigações contra os Legionários. O dossiê Maciel havia sido bloqueado em 1999 por João Paulo II e mantido invisível por outra das figuras mais soturnas da cúria romana, Angelo Sodano, o ex-secretário de Estado de Giovanni Paolo. Sodano é uma pérola digna de figurar em um curso de manobras sujas. Decano do Colégio de Cardeais, ele tinha negócios com os Legionários de Cristo. Um sobrinho dele foi um dos assessores nomeados por Maciel para construir a universidade que os legionários de Cristo têm em Roma, a Universidade Pontífica Regina Apostolorum.



Sodano, que foi o número dois de Juan Paulo II durante quase 15 anos, tinha um inimigo interno, Joseph Ratzinger, um clube de simpatias exteriores cujos dois membros mais eminentes eram o ditador Augusto Pinochet e o violador Marcial Maciel. Sodano e Ratzinger travaram uma batalha sem tréguas: o primeiro para proteger os pedófilos, o segundo para condená-los. Em 2004, Ratzinger obrigou Maciel a se demitir e a se retirar da vida pública. Dois anos depois, já como Bento XVI, o papa o suspendeu “a divinis”. As investigações reabertas por Ratzinger demonstraram que Maciel era um pederasta, tinha duas mulheres, três filhos, várias identidades diferentes e manejava fundos milionários.
As denúncias prévias nunca haviam passado o paredão levantado por Sodano e o hoje Santo João Paulo. A carreira de Sodano é uma síntese do Papado de Karol Wojtyla, onde se mesclam os interesses políticos, as visões ideológicas ultraconservadoras, a corrupção e as manipulações. Angelo Sodano foi Núncio no Chile durante a ditadura de Pinochet. Manteve uma relação amistosa com o ditador e isso permitiu que organizasse a visita que João Paulo II fez ao Chile em 1987. Seu irmão Alessandro foi condenado por corrupção após a operação Mãos Limpas. Seu sobrinho Andrea teve a mesma sorte nos Estados Unidos. O FBI descobriu que Andrea e um sócio se dedicavam a comprar – mediante informação privilegiada – por um punhado de dólares as propriedades imobiliárias das dioceses dos Estados Unidos que estavam em bancarrota devido aos escândalos de pedofilia.



Mas o mundo sucumbiu ao grito de “santo súbito” que reclamava a canonização de um homem que presidiu os destinos da Igreja em seu momento mais infame e corrupto. O papa “viajante”, o papa “amável”, o papa “dos jovens”, era um impostor ortodoxo que deixou desprotegidas as vítimas dos abusos sexuais e os próprios pastores da Igreja quando estes estiveram com suas vidas ameaçadas.
Sua visão e suas necessidades estratégicas sempre se opuseram às humanas. Na trama desta história também há muito sangue, e não só de banqueiros mafiosos como Roberto Calvi ou Michele Sindona, com quem João Paulo II se associou para alimentar com fundos secretos os cofres do IOR (Banco do Vaticano), fundos que serviram para financiar a luta contra o comunismo no leste europeu e contra  a Teologia da Libertação na América Latina.



João Paulo II deixou desprotegidos os padres que encarnavam, na América Latina, a opção pelos pobres frente às ditaduras criminosas e seus aliados das burguesias nacionais. Em 2011, cinquenta destacados teólogos da Alemanha assinaram uma carta contra a beatificação de João Paulo II por não ter apoiado o arcebispo salvadorenho Óscar Arnulfo Romero, assassinado em 24 de março de 1980 por um comando paramilitar da extrema-direita salvadorenha, enquanto celebrava uma missa. Romero sim que é e será um santo. O arcebispo enfrentou os militares para pedir-lhes que não assassinassem seu povo, percorreu bairros, zonas castigadas pela repressão e pela violência, defendeu os direitos humanos e os pobres. Em resumo, não esperou que Bergoglio chegasse a Roma para falar de “uma Igreja pobre para os pobres”. Não. Ele a encarnou em sua figura e pagou com sua vida, como tantos outros padres aos quais o Vaticano taxava de marxistas ou comunistas só porque se envolviam em causas sociais.



João Paulo II é um santo impostor que traiu a América Latina e aqueles que, a partir de uma igreja modesta, ousaram dizer não aos assassinos de seus povos. Se, no leste europeu, João Paulo II contribuiu para a queda do bloco comunista, na América Latina favoreceu a queda da democracia e a permanência nefasta de ditaduras e sua ideologia apocalíptica. Um detalhe atroz se soma à já incontável dívida que o Vaticano tem com a justiça e a verdade: o expediente de beatificação de Óscar Romero segue bloqueado nos meandros políticos da Santa Sé. João Paulo II beatificou Josemaría Escrivá, o polêmico fundador da Opus Dei e um de seus protegidos. Mas deixou Romero de fora, inclusive quando estava com sua vida ameaçada. “Cada vez mais sou um pastor de um país de cadáveres”, costumava dizer Romero.



João Paulo II foi eleito em 1978. No ano seguinte, Monsenhor Romero entregou a ele um informe sobre a espantosa violação dos Direitos Humanos em El Salvador. O papa ignorou o informe e recomendou a Romero que trabalhasse “mais estreitamente com o governo”. Como lembrou à Carta Maior Giacomo Galeazzi, vaticanista de La Stampa e autor de uma magistral investigação, “Wojtyla Secreto”, em “seus 25 anos de pontificado nenhum bispo latinoamericanao ligado à ação social ou à Teologia da Libertação foi nomeado cardeal por João Paulo II”. A resposta está em uma frase de outro dos mais dignos representantes da “Igreja dos Pobres”, o falecido arcebispo brasileiro Hélder Câmara. “Quando alimentei os pobres me chamaram de santo; mas quando perguntei por que há gente pobre me chamaram de comunista”.



O show universal da canonização já foi lançado. A imprensa branca da Europa tem a memória muito curta e sua cultura do outro é estreita como um corredor de hospital. Todos celebram o grande papa. Ela promoveu à categoria de santo um homem que tem as mãos sujas, que cometeu a infâmia de encobrir violadores de crianças, de beijar ditadores e legitimar com isso o rastro de mortos que deixavam pelo caminho, de negociar benefícios para a máfia, que sacrificou em nome dos interesses de uma parte da Europa a misericórdia e a justiça de outros, entre eles os da América Latina. Estão canonizando um trapaceiro. O cúmulo da esperteza, do erro imemorial.
Em que altar se ajoelharão as vítimas dos abusadores sexuais e das ditaduras? Podemos levantar todos juntos um lugar aprazível e justo na memória com as imagens do padre Múgica ou do Monsenhor Romero para nos reencontrarmos com a beatitude o sentido de quem, por um ideal de justiça e igualdade, enfrentou a morte sem pensar nunca em si mesmo, ou em baixas vantagens humanas.




Tradução: Marco Aurélio Weissheimer



De namorados a sabonete de leite materno: 10 itens incomuns à venda online na China

De namorados a sabonete de leite materno: 10 itens incomuns à venda online na China



Atualizado em  27 de abril, 2014

O Taobao é um dos maiores sites de comércio online do mundo, uma espécie de combinação do site de leilões eBay com o de vendas Amazon. Gigantesco, seus 500 milhões de usuários registrados vendem, em média, quase 50 mil produtos por minuto.
O site tem duas áreas distintas: o TMall, onde donos de marcas conhecidas vendem diretamente para consumidores, e o Taobao Marketplace, onde companhias menores montam suas "bancas" virtuais.
No dia 11 de novembro de 2013, quando o Taobao fez sua liquidação anual, vendas totalizando 1 bilhão de yuan (US$ 161 milhões) foram realizadas em apenas seis minutos. O total de vendas no dia ultrapassou os 35 bilhões de yuan (US$ 5,6 bilhões).
Com mais de 800 milhões de itens anunciados, existe tudo que é tipo de produto no Taobao, inclusive alguns bastante inusitados.
Confira alguns dos produtos que estão disponíveis no site.

1. Drone

Em novembro, rebeldes sírios anunciaram que haviam derrubado um drone operado por forças do governo.
Assim que as fotos do drone apareceram na internet, o aparelho foi identificado como um produto vendido no Taobao por uma companhia chinesa.
O DJI Phantom 2 Quadcopter é um aparelho voador acoplado de uma câmera embutida e controlado remotamente.
O Quadcopter atingido pelos rebeldes sírios é vendido na loja da DJI Innovations no TMall por cerca de US$ 800.
Números publicados pelo site mostram que a loja DJI vendeu 134 modelos Phantom 2, 80 destes, no mês passado. Não dá para saber se a publicidade gerada pelo conflito sírio contribuiu para um aumento nas vendas.

2. Namorado de Aluguel

Assim como o Natal no Ocidente, o Ano Novo Chinês é uma ocasião para reuniões familiares. Para muitos homens e mulheres solteiros, esses encontros podem ser estressantes, especialmente quando os parentes começam a fazer perguntas incômodas.
No período que antecedeu as comemorações do Ano Novo chinês, houve uma explosão de anúncios por homens oferecendo seus serviços de "namorados de faz de conta".
Um dos anunciantes oferecia uma lista de opções e preços:
  • Para viagens para visitar a família em outras cidades, 800 yuan por dia (US$ 129).
  • Para acompanhar a cliente durante as compras, 150 yuan por hora (US$ 24).
  • Para ouvir reclamações ou xingamentos, ajudando a cliente a se livrar de energias negativas, 50 yuan por 20 minutos (US$ 8).
Com o fim das festas do Ano Novo, os anúncios foram retirados. Portanto, não se sabe que tipo de retorno financeiro eles produziram.

3. Escorpiões Vivos

No Taobao, escorpiões vivos são um produto muito procurado. Mais de 800 lojas virtuais oferecem variedades diversas, do imperador africano, vendido como bicho de estimação, ao escorpião chinês com cauda de armadura, vendido vivo, porém usado como alimento.
Os escorpiões são vendidos por cerca de US$ 1,60 a dúzia.
Uma das lojas - que alega ser uma das maiores fornecedoras de escorpiões do site - publicou fotos das embalagens para assegurar aos consumidores de que os escorpiões são embalados de forma segura.
A loja também esclarece que as embalagens contêm instruções para que clientes desempacotem os escorpiões em segurança ao recebê-los.
Os consumidores mais delicados podem optar por comprar o produto já fervido ou frito.

4. Sabonete de Leite Materno

Um produto que se tornou bastante popular no Taobao são sabonetes feitos - supostamente - à base de leite materno.
Uma vendedora explica em sua página que usa seu próprio leite para fabricar seu sabonete, porque seu filho não consegue tomar tudo.
"Eu costumava jogar tudo no ralo, mas achava um desperdício", ela escreve.
A vendedora publicou uma foto de si própria segurando o bebê ao lado de fotos dos sabonetes, pequenos, em formato de flor ou de coração. Os sabonetes de leite materno seriam suaves, podendo ser usados por adultos e bebês, diz a vendedora.

5. Produto para Embranquecer a Pele

Wang Xiafeng, de 32 anos, é conhecido por milhares de consumidores do Taobao como Irmão Terra.
Três anos após ter abandonado uma bem sucedida carreira em marketing, Wang comanda uma das mais conhecidas marcas de alimentos "da fazenda" do Taobao.
"Meus pais ficaram muito preocupados quando larguei meu emprego em Xangai", disse Wang. "Mas consegui meu primeiro freguês dois dias depois de abrir (a loja virtual) e nunca mais olhei para trás".
Hoje, Wang vende mais de 20 variedades de produtos em sua loja, de sementes de lótus a salsichas caseiras.
Entre os mais vendidos de sua loja virtual está um produto à base do legume conhecido como buchinha do norte ou cabacinha (Luffa Operculata). Muitos acreditam que esse legume tem propriedades amaciadoras e embranquecedoras da pele.

6. Talismãs Taoístas

O Taoísmo é uma filosofia e religião milenar profundamente arraigada na cultura chinesa.
Dezenas de lojas no Taobao são administradas pelos Daoshi, o clero taoísta, e oferecem um talismã conhecido como Fu. O talismã, acredita-se, tem o poder de trazer sorte e de afastar infortúnios na vida do comprador.
Um tipo bastante popular de Fu é usado para acalmar bebês que choram. Os preços de Fus variam bastante: de menos de um centavo de dólar até US$ 26 mil.

7. Marmite

Iguarias de diversas partes do mundo podem ser encontradas na China.
No entanto, o Marmite - tradicional pasta à base de levedura de cerveja, típica da Grã-Bretanha, normalmente comida no pão, com um pouquinho de manteiga ou margarina - não está disponível em qualquer supermercado chinês.
Adeptos do alimento podem recorrer ao Taobao, onde lojas oferecem diferentes variedades do produto, inclusive de outras marcas (por exemplo, uma versão produzida na Nova Zelândia e mais consumida no Hemisfério Sul).
Um consumidor satisfeito deixou o seguinte comentário em uma das lojas: "O mesmo sabor gostoso que eu que eu sentia na Inglaterra".

8. Poesia para a Alma

A Tristeza de um Poeta de 50 Centavos é o nome de uma loja que vende nada mais do que poemas no Taobao.
A loja oferece 45 poemas curtos escritos por quatro poetas. A mensagem, em forma de poema (em tradução livre), é direta:
"Nos tempos de hoje, poetas passam fome
Nossos poemas são gratuitos
Se você achar que são bons
Não recusaremos uma doação de 50 centavos"
Segundo os números publicados pelo Taobao, a loja foi aberta em agosto do ano passado. Até agora, recebeu duas doações.

9. O Prato do Presidente

Em dezembro último, quando o presidente chinês Xi Jinping parou para comer no restaurante Qingfeng, no coração de Pequim, provavelmente não tinha ideia de que a refeição escolhida por ele se tornaria a opção mais popular da casa.
O restaurante é hoje uma atração turística na cidade. Visitantes escolhem o "Prato do Presidente", que consiste de seis bolinhos de porco com alho poró, duas opções de verdura como acompanhamento e um cozido de fígado e intestino de porco.
No entanto, se você não pode ir até Pequim, pode se deliciar com o Prato do Presidente - agora disponível no Taobao.
A refeição, que custou ao presidente Xi cerca de US$ 3,40, sai por US$ 70 no Taobao.

10. Créditos de Games Online

A indústria dos jogos online é hoje um negócio bilionário na China. Segundo estatísticas oficiais, em 2012 havia 190 milhões de jogadores de games no país. A renda total do setor naquele ano foi de US$ 11 bilhões.
O Taobao é uma importante plataforma de comércio para os jogadores, que podem comprar crédito virtual de operadores de games ou pagar outros jogadores por itens que existem apenas em games.
Alguns jogadores, sem tempo ou paciência, preferem pagar para evitar tarefas repetitivas. O site oferece dezenas de lojas que fazem esse tipo de serviço. Funcionários dessa lojas tendem a ser jogadores que trabalham em horário integral.

Sudeste deixa de responder por mais da metade do consumo brasileiro

Sudeste deixa de responder por mais da metade do consumo brasileiro




Pesquisa mostra que, pela primeira vez, a participação do Sudeste no mercado nacional ficará abaixo de 50%, enquanto o Nordeste avançará para uma fatia recorde de 19,48% e o Norte para 6,04%, impulsionados pelo aumento da renda




27 de abril de 2014
Luiz Guilherme Gerbelli - O Estado de S. Paulo

A geografia do consumo brasileiro vai mudar neste ano. Pela primeira vez, a fatia da Região Sudeste no potencial de consumo do País ficará abaixo de 50%. Um estudo feito pela consultoria IPC Marketing mostra que São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo responderão por 49,21% de tudo o que será consumido no País este ano.
A perda de participação do Sudeste tem sido lenta, mas contínua ao longo dos anos. Em 2013, o peso da região foi de 50,53%. Há dez anos, ela representava 55,79%. A estimativa da IPC Marketing é de que o consumo atinja R$ 3,262 trilhões neste ano, acima do verificado em 2012 (R$ 3,011 trilhões).
A menor participação do Sudeste pode ser explicada pela melhora econômica das demais regiões brasileiras. A fatia do Nordeste no consumo será recorde em 2014 e vai chegar a 19,48%. Haverá ainda um forte crescimento do Norte, cuja participação também será a maior da história (6,04%).
"Em 2008, o Nordeste atingiu o segundo lugar no ranking do potencial de consumo e a diferença para a Região Sul vem aumentando nos últimos anos", afirma Marcos Pazzini, diretor da IPC Marketing.
As economias do Norte e principalmente as do Nordeste foram impulsionadas nos dois últimos anos por dois grandes fatores: programas de transferência de renda e política de reajuste real do salário mínimo.
No caso da economia nordestina, quase 20% da origem da renda familiar vem do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) - boa parte do pagamento é atrelada ao salário mínimo. O Bolsa Família representa 3%. O restante é dividido entre trabalho (71,9%) e outras fontes (5,4%), como aluguel.
"Há dez anos, não existia uma classe média, principalmente no Nordeste. Quando o governo fez chegar dinheiro no bolso da população de mais baixa renda, ele fez com que essa parte da população tivesse uma condição melhor de vida e obviamente de consumo", afirma Pazzini.
Ciclo virtuoso. As duas economias passaram, então, a viver o chamado ciclo virtuoso. O aumento do consumo atraiu a chegada de novas empresas, que foram responsáveis por ampliar o mercado de trabalho e renda, estimulando novamente o consumo.
Os indicadores macroeconômicos de cada região podem explicar parte da mudança na geografia do consumo nacional. As economias do Norte e do Nordeste vão crescer acima da média nacional em 2014. A projeção do cenário regional feita pela Tendências Consultoria mostra que o Produto Interno Bruto (PIB) do Norte deve ter o maior avanço do País este ano, com alta de 2,9%, e o do Nordeste terá o segundo maior, com crescimento de 2,7%. Para efeito de comparação, o desempenho esperado para o PIB brasileiro será de 1,9%.
"Uma atividade econômica mais forte impacta na renda da população. Com o PIB crescendo mais no Nordeste e Norte, a massa de renda também vai ser influenciada positivamente, o que estimula o emprego formal e traz todos os efeitos multiplicadores na economia", afirma Camila Saito, economista da Tendências e responsável pelo cenários regionais.
O crescimento econômico das Regiões Norte e Nordeste deve permanecer acima da média nacional nos próximos anos.
De acordo com a projeção da consultoria Tendências, de 2015 a 2018, a média de crescimento do PIB da Região Norte deve ser de 3,8%. A economia nordestina deve avançar 3,5%. No período, o crescimento brasileiro será de 2,9%.
"Uma coisa interessante de se observar no Nordeste é que vai haver uma mudança no padrão do consumo. Daqui para a frente, não deve haver mais esse impacto do Bolsa Família na economia local, porque o programa já está praticamente universalizado. O impacto da renda desse programa na região vai diminuir, e o motor para o crescimento da massa no Nordeste nos próximos anos vai vir do trabalho", afirma Saito.

Enem será usado como critério para universidade em Portugal

Enem será usado como critério para universidade em Portugal
Alunos brasileiros poderão se candidatar para Universidade de Coimbra usando a nota no exame do MECJC e-mail 4940, de 25 de abril de 2014


Os estudantes brasileiros poderão se candidatar a vagas na Universidade de Coimbra, em Portugal, usando sua nota no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), sem a necessidade de avaliações oficiais portuguesas. Com isso, a partir de agora, os alunos que quiserem estudar na mais antiga universidade de Língua Portuguesa podem pleitear uma vaga.já para seu primeiro ano de graduação. Serão aceitos os exames de 2011, 2012 e 2013.

Esta é a primeira faculdade no exterior a aceitar o Enem como critério de avaliação. A medida tem por objetivo facilitar o acesso de brasileiros na instituição. A universidade criou um site especialmente dirigido a estudantes e pesquisadores brasileiros, onde se encontram todas as informações úteis, como os cursos oferecidos, as linhas de pesquisa realizadas, o financiamento e as informações práticas para preparação de uma mudança para Coimbra.

A decisão da universidade de aceitar as notas do Enem como critério de seleção para o ingresso no primeiro ano dos seus cursos resulta da nova legislação portuguesa, aprovada no último dia 10 de março, que permite às instituições de ensino superior do país criarem sistemas de ingresso próprios para estudantes internacionais. Em Coimbra, a mensalidade de todos os cursos custa 700 euros (cerca de R$ 2.100).

- Até este ano, não era possível que alunos não-portugueses entrassem no primeiro ano das graduações. Eles tinham que fazer o ensino médio português e concorrer nas provas de acesso realizadas no país. Com a decisão da nova lei do governo português, que busca a internacionalização do acesso, surge a chance de termos novos canais de acesso. A condição imposta é que possamos garantir que os alunos tenham preparação equivalente à realidade local - explica o vice-reitor da instituição Joaquim Ramos de Carvalho.

Segundo o professor, o cenário para ingresso dos brasileiros é favorável já que o Enem mostra proximidades nos critérios de avaliação do ensino entre os dois países. A nota mínima para que um estudante brasileiro seja considerado é de 600 pontos. O vice-reitor esclarece que, em caso de haver mais procura do que vagas disponíveis, as notas mais altas terão prioridade.

O número de vagas para brasileiros ainda não pode ser mensurado. Tudo vai depender da procura e da disponibilidade de cada curso. Joaquim Ramos esclarece que os cursos com mais vagas geralmente são os de Engenharia Civil, Odontologia e Direito.

- Recebemos gerações de estudantes brasileiros que aqui sempre encontraram um ambiente acolhedor, impregnado de história e modernidade, e que fazem parte integrante da nossa história comum - afirma.

Dois mil brasileiros matriculados
A Universidade de Coimbra tem atualmente em seus quadros, 23 mil alunos, sendo que 20% são estrangeiros.

- O estudante brasileiro vai poder conviver com estudantes de cerca de 90 países - destaca o vice-reitor.

A Universidade de Coimbra foi classificada pela Unesco como Patrimônio Mundial em 2013 e oferece qualificação em quase todas as áreas do conhecimento, além de diversas linhas de investigação, das quais muitas premiadas. Na UC, os alunos também têm a possibilidade conviver com outras culturas e línguas, participar de programas de mobilidade pela Europa e ter uma experiência de vida diferenciada, com qualidade e tranquilidade.

Contudo, apesar de todo seu prestígio internacional, a Universidade de Coimbra ficou em 358º lugar no ranking feito pela consultoria QS, especializada em avaliação de instituições de ensino superior do mundo todo. A colocação deixa a universidade atrás de instituições brasileiras como USP, Unicamp e UFRJ. O ranking leva em conta o quadro de professores, instalações de ensino, publicação de pesquisas e a internacionalização.

O vice-reitor minimiza a posição da universidade e diz que todo ranking é questionável. Segundo Joaquim Ramos, os critérios são relativos e geralmente levam em conta o porte das universidades avaliadas. Ele argumenta que em cursos como Engenharia Civil, Meio Ambiente e Direito a Universidade de Coimbra está entre as 200 melhores do mundo.

Reação estrangeira
O representante da Universidade diz que a instituição está preparada para barrar possíveis respostas negativas ao ingresso de estudantes estrangeiros no dia a dia acadêmico. Ele acredita que casos de xenofobia não serão um problema.

- Acabou de acontecer aqui um ótimo evento promovido pelos estudantes brasileiros aqui. Eles são muito ligados às organizações estudantis de Coimbra e se sentem muito bem na universidade. Mas, claro, estamos sempre atentos a isso. O primeiro estudante brasileiro chegou aqui foi em 1576, hoje ele é nome de um programa da universidade, o Manoel Cabral. Coimbra não seria o que é sem o contributo dos brasileiros.

(Juliana Prado / O Globo)

Vestibulandos, acompanhem a movimentação interna no Reino Unido - REINO UNIDO ACIRRA CAMPANHA CONTRA A INDEPENDÊNCIA DA ESCÓCIA

REINO UNIDO ACIRRA CAMPANHA 

CONTRA A INDEPENDÊNCIA DA ESCÓCIA



Após mais de 300 anos de união, escoceses vão votar sobre separação do Reino Unido em referendo marcado para setembro. Governo em Londres faz campanha para reverter o avanço nacionalista entre o eleitorado escocês.
Foto: picture-alliance / dpa.
Foto: picture-alliance / dpa.

Reino Unido acirra campanha contra a independência da Escócia

DW – 27/04/2014
O governo britânico decidiu intensificar a campanha contra o referendo sobre a independência da Escócia, marcado para o dia 18 de setembro. Nesta semana, o secretário-chefe do Tesouro britânico, Danny Alexander, irá Edimburgo tentar “desfazer mitos” que cercam as reivindicações feitas pelos defensores da separação.
Em nota divulgada neste domingo (27/04), o Tesouro britânico declarou que Alexander dirá que as suposições do governo escocês sobre as receitas do petróleo são demasiado otimistas e acusará o governo em Edimburgo de falhar na avaliação do impacto do envelhecimento da população escocesa sobre as finanças do país.
Diante do referendo sobre a independência em setembro, a campanha do governo britânico para manter intacta a união de 307 anos com a Escócia luta para assegurar a vantagem que tem sobre os nacionalistas escoceses. Essa vantagem, no entanto, vem caindo nos últimos meses. Para os grupos pró-separação, a independência daria mais liberdade à Escócia para criar uma nação mais justa e próspera.
Entrada na UE
Os nacionalistas acusam Londres e seus apoiadores escoceses de empreender uma campanha de medo em torno da moeda, da adesão à União Europeia e das finanças públicas a fim de forçar os 5,3 milhões de escoceses a permanecer no Reino Unido. O Tesouro britânico afirmou que seus funcionários passaram meses analisando o possível impacto da independência da Escócia sobre a economia e que publicará os resultados nas próximas semanas.
Caso decidam pela independência, o governo da Escócia anunciou querer entrar na União Europeia. No entanto, o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barrosos, afirmou no início do ano que a dificuldade de acesso de um novo Estado ao bloco, como pode vir a ser o caso da Escócia, está relacionada com a aprovação da adesão por parte de todos os países-membros da UE.
O governo escocês já declarou também que a UE não poderá obrigar a Escócia – no caso de uma adesão ao bloco europeu – a adotar o euro, sublinhando que seria viável à possível nova nação manter a libra esterlina, uma opção que já foi negada por Londres.
Maioria ainda contra separação
Pesquisas mostram que o apoio à independência escocesa está crescendo. Em meados de abril, uma pesquisa do instituto de opinião pública TNS apontou que 29% dos escoceses têm a intenção de dizer “sim” à separação da Escócia do Reino Unido no referendo de 18 de setembro. O índice representa um aumento de um ponto percentual em relação ao mês anterior.
No entanto, a mesma pesquisa registrou que 41% dos entrevistados devem dizer “não” à separação, enquanto 30% ainda estão indecisos. Desde que a primeira pesquisa foi realizada, em setembro do ano passado, a diferença entre os votos contrários e favoráveis à independência diminuiu em sete pontos percentuais, com registro de avanço dos nacionalistas.
O número de escoceses dispostos a votar cresceu desde então – de 65% contra 74% na atual pesquisa. Segundo o diretor do Instituto TNS na Escócia, Tom Costley, isso demonstra a “tomada de consciência sobre a importância do referendo.” Costley sublinhou ainda que “grande parte dos indecisos declarou ter intenção de votar e que a campanha deverá ter bastante influência sobre o resultado final.”
Prós e contras
Cinco meses antes do referendo, Londres e Edimburgo empreenderam uma ofensiva pelos votos dos escoceses. Neste mês, em Aberdeen, bastião da indústria petroleira na Escócia, o chefe de Governo escocês, Alex Salmond, fez campanha pelos votos dos eleitores do Partido Trabalhista, no congresso do seu Partido Nacional Escocês (SNP, na sigla em inglês).
O Partido Trabalhista britânico, da oposição, assim como a coalizão de governo formada por conservadores e liberal-democratas do Reino Unido, rejeita uma separação da Escócia.
Na última quarta-feira, o primeiro-ministro britânico, David Cameron, marcou o Dia de São Jorge, comemorado nacionalmente em 23 de abril, com um apelo aos escoceses para continuar a fazer parte da “maior família de nações do mundo.”
“Em apenas cinco meses, o povo da Escócia irá às urnas decidir se querem continuar a fazer parte desta história de sucesso global. Então, vamos provar que podemos ser orgulhosos de nossos distintos países e assumir o compromisso pela união das nações”, disse Cameron.
História centenária
Atualmente, a Escócia possui o seu próprio Parlamento com sede em Edimburgo. Isso remonta a uma história de mais de 400 anos. Em 1603, após a morte de Elizabeth 1°, James 6° da Escócia sucedeu ao trono inglês como James 1°. Em 1707, as Leis de União uniram formalmente a Escócia com a Inglaterra e o País de Gales em Grã-Bretanha. Em consequência, o Parlamento da Escócia se fundiu com o Parlamento inglês, sediado em Londres.
Durante a Revolução Industrial, a Escócia transformou-se numa das potências comerciais e industriais da Europa. Após a Segunda Guerra Mundial, porém, a economia escocesa entrou em declínio.
Nos últimos anos, o país vem passando por um renascimento econômico através do setor de serviços e do dinheiro proveniente do petróleo e gás do Mar do Norte. Após um referendo em 1997, o Parlamento da Escócia foi restaurado por meio da Lei da Escócia de 1998, que devolveu algumas competências legislativas ao país.