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sábado, 15 de março de 2014

Ucrânia: a teoria do caos

Ucrânia: a teoria do caos


Ucrânia, Crimeia, mapa, Rússia

Os erros fatais das forças internas e externas que causaram a escalada das tensões na Ucrânia poderiam ser justificados se fosse um acontecimento único na história recente. Mas não é.

Nas últimas décadas, o Ocidente acumulou uma vasta experiência na facilitação da mudança de regimes “erradoS”. Por que é que então o apoio às forças da oposição ainda nunca levou a resultados positivos?
A resposta é a incompetência óbvia e negligência flagrante de todos os envolvidos. Todas as mudanças de regime na última década ocorreram sem exceção em países “difíceis”, com profundas convulsões econômicas, sociais, étnicas e religiosas. E os planos de ajuda a esses países eram elaborados por grupos de especialistas mais diversos, tanto oficiais – advogados, diplomatas e economistas, como não totalmente oficiais – espiões e militares. No entanto, os regimes mudavam mas os problemas não só não eram resolvidos, como pioravam.
Mas mesmo em caso de derrubada de ditaduras em países altamente instáveis, os erros de seus próprios planos não eram explicados de forma alguma. Assim, na quarta-feira o comandante do contingente ocidental no Afeganistão, general Joseph Dunford, disse que, se as forças internacionais se retirarem completamente do país no final de 2014, a Al-Qaeda poderá realizar desde lá outro ataque contra o Ocidente. Treze anos de ajuda e nenhum resultado!
Agora, tendo abandonado os “projetos” fracassados, o Ocidente está tentando ajudar a Ucrânia. Lá não há um conflito armado aberto nem um ditador agressivo. O alvo da derrubada, o presidente Yanukovich, seguia inquestionavelmente o conselho do vice-presidente dos EUA Joe Biden sobre “a necessidade de exercer a máxima contenção”. No final de contas, recusando-se a lutar contra a oposição, ele até deixou o país. Todo o poder ficou nas mãos do “governo” leal ao Ocidente. Para uma vitória final e estabilização é precisa apenas a ajuda política e financeira prometida e conselhos de especialistas ocidentais sobre que erros não se podem cometer, e que medidas são absolutamente necessárias.
Tudo, como sabemos, aconteceu absolutamente ao contrário. Em vez de uma declaração de unidade do oeste e leste do país foi decidido revogar a lei sobre o estatuto da língua russa como regional. Como consequência, em vez de estabilização surgiu agitação no Sudeste e na Crimeia.
Além disso, nenhum dos conselheiros ocidentais aconselhou Kiev a acalmar os receios de Moscou sobre o destino de suas bases navais na Crimeia, onde estão 70% de toda a infraestrutura da Frota russa do mar Negro. As preocupações eram fundadas: todos os atuais dirigentes da Ucrânia, incluindo o “presidente” Alexander Turchinov, têm constantemente afirmado que a presença da Frota do mar Negro da Rússia em território ucraniano é contrário aos seus interesses nacionais. A oposição que agora chegou ao poder, em tempos afirmou diretamente que esse acordo de baseamento da Frota é contrário à Constituição da Ucrânia.
Para a Rússia era suficiente ter uma base naval em Sevastopol e excelentes relações com a população da Crimeia. Mas era possível prever a reação de Moscou a uma clara ameaça aos seus interesses? Como disse em entrevista à MSNBC o adido do antigo secretário de estado norte-americano Colin Powell, Lawrence Wilkerson, “Se eu fosse Putin, eu teria feito exatamente o que Putin fez, e quem diz que não podia prever isso – ou é tolo ou está mentindo”.
Palavras rudes, mas compreensíveis. No entanto, podemos não resistir à tentação e supor a existência no Ocidente de estratégias secretas de longo prazo. Mas só reconhecemos que seu objetivo é o caos.

A opinião do autor pode não coincidir com a opinião da redação

O capitalismo global está destruindo a raça humana

O capitalismo global está destruindo a raça humana



Fora as armas nucleares, o capitalismo é a maior ameaça que a humanidade já enfrentou. Ele levou a ganância a um patamar de força determinante da história.


Paul Craig Roberts (*)

Arquivo



A teoria econômica ensina que os movimentos financeiros a preços e lucros livres garantem que o capitalismo produz o maior bem-estar para o maior número de pessoas. Perdas indicam atividade econômica em que os custos excedem o valor da produção, de modo que investimentos nestas áreas devem ser restritos. Lucros indicam atividades em que o valor de produção excede o custo, que fazem o investimento crescer. Os preços indicam a escassez relativa e o valor das entradas e saídas, servindo assim para organizar a produção mais eficientemente.



Essa teoria nao é o que funciona quando o governo dos EUA socializa custos e privatiza lucros, como vem sendo feito com o apoio do Banco Central aos bancos “grandes demais para quebrarem” e quando um punhado de instituições financeiras concentram tamanha atividade econômica. Bancos “privados” subsidiados não são diferentes das outrora publicamente subsidiadas indústrias da Grã Bretanha, França, Itália e dos países então países comunistas. Os bancos impuseram os custos de sua incompetência, ganância e corrupção sobre os contribuintes.
Na verdade, as empresas socializadas na Inglaterra e na França eram dirigidas mais eficientemente, e nunca ameaçavam as economias nacionais, menos ainda o mundo inteiro de ruína, como os bancos privados dos EUA, os “grande demais para quebrar” o fazem.  Os ingleses, franceses e os comunistas nunca tiveram 1 bilhão de dólares anuais, para salvar um punhado de empresas financeiras corruptas e incompetentes.



Isso só ocorre no “capitalismo de livre mercado”, em que capitalsitas, com a aprovação da corrupta Suprema Corte dos EUA, pode comprar o governo, que os representa, e não o eleitorado. Assim, a tributação e o poder de criação de dinheiro do governo são usados para bancar poucas instituições financeiras às custas do resto do país. É isso o que significa “mercados autorregulados”.



Há muitos anos, Ralhp Gomery alertou que os danos para os trabalhadores estadunidenses dos empregos no exterior seria superado pela robótica. Gomery me disse que a propriedade de patentes tecnológicas é altamente concentrada e que as inovações tornaram os robôs cada vez mais humanos em suas capacidades. Consequentemente, a perspectiva para o emprego humano é sombria.



As palavras de Gomory reverberam em mim quando leio o informe da RT, de 15 de fevereiro último, com especialistas de Harvard que construíram máquinas móveis programadas com com termos lógicos de auto-organização e capazes de executarem tarefas complexas sem direção central ou controle remoto.




A RT não entende as implicações. Em vez de levantar uma bandeira vermelha, a RT se entusiasma: “as possibilidades são vastas. As máquinas podem ser feitas para construir qualquer estrutura tri-dimensional por si sós, e com mínima instrução. Mas o que é realmente impressionante é a sua capacidade de adaptação ao seu ambiente de trabalho e a cada um deles; para calcular perdas, reorganizar esforços e fazer ajustes. Já está claro que o desenvolvimento fará maravilhas para a humanidade no espaço, e em lugares de difícil acesso e em outras situações difíceis”.



Do modo como o mundo está organizado, sob poucos e imensamente poderosos e gananciosos interesses privados, a tecnologia nada fará pela humanidade. A tecnologia significa que os humanos não serão mais requeridos na força de trabalho e que os exércitos de robôs sem emoção tomarão o lugar dos exércitos humanos e não há qualquer remorso quanto a destruir os humanos que os desenvolveram. O quadro que emerge é mais ameaçador que as previsões de Alex Jones. Diante da pequena demanda por trabalho humano, muito poucos pensadores preveem que os ricos pretendem aniquilar a raça humana e viver num ambiente dentre poucos, servidos por seus robôs. Se essa história ainda não foi escrita como ficção científica, alguém deveria se dedicar a fazê-lo, antes que se torne algo comum da realidade.



Os cientistas de Harvard estão orgulhosos de sua conquista, assim como sem dúvida estavam os participantes do Projeto Manhattan, em relação à conquista por terem produzido uma arma nuclear. Mas o sucesso dos cientistas do Projeto Manhattan não foi muito bom para os residentes de Hiroshima e Nagasaki, e a perspectiva de uma guerra nuclear continua a lançar uma nuvem negra sobre o mundo.



A tecnologia de Harvard provará que é inimiga da raça humana. Esse resultado não é necessário, mas os ideólogos do livre mercado pensam que qualquer planejamento ou antecipação é uma interferência no mercado, que sempre sabe melhor (daí a atual crise financeira e econômica). A ideologia do livre mercado alia-se ao controle social e serve a interesses de curto prazo de gananciosos grupos privados. Em vez de ser usada para a humanidade, a tecnologia será usada para o lucro de um punhado.



Essa é a intenção, mas qual é a realidade? Como pode haver uma economia de consumo se não há emprego? Não pode, que é o que estamos aprendendo gradativamente com a exportação de empregos pelas corporações globais, para o exterior. Por um período limitado uma economia pode continuar a funcionar na base de empregos de meio turno, rebaixamento de salários, cartões de benefícios sociais – de segurança alimentar e auxílio-desemprego.



Quando a poupança cai, no entanto, quando os políticos sem coração que demonizam os pobres cortam esses benefícios, a economia deixa de produzir mercado para consumir os bens importados que as corporações trazem para vender.



Aqui vemos o fracasso total da mão invisível de Adam Smith. Cada corporação em busca de vantagens gerenciais maiores, determinadas pelos lucros obtidos em parte pela produção da destruição do mercado consumidor dos EUA e da miséria maior de todos.



A economia smithiana aplica-se a economias nas quais os capitalistas têm algum sentido de vida comum com outros cidadãos do país, como o tinha Henry Ford.
Algum tipo de pertencimento a um país ou a uma cidade. A globalização destrói esse sentido. O capitalismo evoluiu ao ponto em que os interesses econômicos mais poderosos, os interesses que controlam o próprio governo, não têm sentido de obrigação com o país nos quais seus negócios estão registrados. Fora as armas nucleares, o capitalismo é a maior ameaça que a humanidade já teve diante de si.



O capitalismo internacional levou a ganância a um patamar de força determinante da história. O capitalismo desregulado e dirigido pela ganância está destruindo as perspectivas de emprego no mundo desenvolvido e no mundo em desenvolvimento, cujas agriculturas se tornaram monoculturas para exportação a serviço dos capitalistas globais, para alimentarem a si mesmos. Quando vier a quebradeira, os capitalistas deixarão “a outra” humanidade à míngua.



Enquanto isso, os capitalistas declaram, em seus encontros de cúpula, “que há muita gente no mundo”.
(**) Tradução: Louise Antônia León



sexta-feira, 14 de março de 2014

Análise: Ucrânia gostaria de ser um pouco mais como a Polônia

Análise: Ucrânia gostaria de ser um pouco mais como a Polônia


Donos de empresas de todos os tipos nesta cidade, agitado reduto pró-europeu situado perto da fronteira ucraniana com a Polônia, têm ideias de como fazer a Ucrânia se parecer mais com o país vizinho e mais próspero.
Para Yaroslav Rushchyshyn, fundador de uma confecção, seria preciso abolir os regulamentos bizarros que fazem fiscais ameaçar multá-lo pelo tratamento que ele dá aos resquícios de tecidos e por informar perdas financeiras em seus relatórios.
Para Andrew Pavliv, dono de uma firma de tecnologia, é preciso modernizar o sistema de ensino para ajudar a fomentar empreendedores.
No caso de Natalia Smutok, executiva de uma empresa que produz tabelas de cores de tintas e cosméticos, ela lançou uma campanha de combate às propinas, apesar de estar na 36ª semana de gestação.
Com o Ocidente preparado para injetar bilhões de dólares na Ucrânia, o dinheiro poderá não passar de um paliativo se o governo não atacar alguns dos desafios estruturais e regulatórios eternos do país.
O FMI, que vai concluir esta semana sua revisão em campo da Ucrânia, deve pedir a realização de reformas como pré-condição para a concessão de qualquer ajuda de longo prazo.
Os economistas destacam que os problemas são profundos na Ucrânia, país que, ao mesmo tempo em que procura abraçar oportunidades comerciais que vão além da Rússia, ainda enfrenta o legado de seu passado soviético.

Desde a fragmentação da União Soviética, o crescimento da Ucrânia ficou muito aquém do de outros países ex-comunistas.
E o país tem se saído especialmente mal em comparação com a Polônia, seu vizinho ao oeste, que, embora esteja longe da perfeição, não deixa de ser um exemplo da rapidez com que um país do antigo bloco soviético é capaz de avançar.
RUMOS DIFERENTES
Nas décadas passadas desde a queda do comunismo, Ucrânia e Polônia seguiram rumos nitidamente diferentes.
Como parte da União Soviética, a Ucrânia, sociedade em grande medida agrária que foi industrializada tardiamente, ficou atrelada a um sistema regulatório antigo no qual oligarcas e a corrupção generalizada se fortaleceram.
O presidente russo, Vladimir Putin, vem continuamente pressionando a Ucrânia, que descreveu recentemente como "nação irmã", a resistir ao Ocidente.
Enquanto isso, a Polônia, país do bloco leste que não sofreu a mesma influência da Rússia, deixou-se seu passado comunista para trás em pouco tempo, adotando uma abordagem de terapia de choque à regulamentação e privatização de estatais. Além disso, o país é visto pelo Banco Mundial como exemplo de reforma educacional na região.
Os resultados são nítidos.
A produção da Ucrânia, que tem o aço e produtos agrícolas entre suas principais exportações, caiu desde o final da União Soviética. Já a produção da Polônia subiu e hoje supera de longe a da Ucrânia, não obstante sua população menor.
O crescimento da Polônia diminuiu recentemente, mas seu PIB per capita, US$13 mil é aproximadamente 3,5 vezes maior que o da Ucrânia.
Em Lviv, a uma hora de carro a leste da fronteira polonesa, essas diferenças são visíveis, disse Natalia Smutok e sua segunda em comando, Iryna Bulyk.
"Rodovias melhores", disse Bulyk.
"Casas melhores", Smutok acrescentou.
Victor Halchynsky, ex-jornalista e hoje porta-voz da divisão ucraniana de um banco polonês, disse que a diferença entre os dois países é motivo de frustração.
"É doloroso porque sabemos que isso aconteceu apenas em função da política", comentou. Para ele, os dois países iniciaram o processo de reformas, mas a Polônia "o concluiu".
SUBSÍDIOS
A Ucrânia teve seu avanço freado por uma série de políticas. Os altos subsídios energéticos mantiveram o consumo alto e deixaram o país dependente do gás russo, drenando os cofres do Estado.
Pavliv disse que o sistema universitário estatal, que descreveu como "soviético puro", é inflexível demais para criar um programa de treinamento para gerentes de projetos ou para permitir que executivos que não possuam certificações específicas dêem aulas.
Um setor agrícola que no passado foi o celeiro soviético foi prejudicado por regras antiquadas, que incluem restrições à venda de terras. Uma polícia fiscal agressiva extorque dinheiro de empresas.
O risco mais imediato agora é a ameaça de guerra com a Rússia.
Smutok, cuja campanha contra as propinas levou empresários locais a enfrentar as autoridades alfandegárias, disse que a turbulência "acontece tão perto de minha casa que nem estou com medo de coisas pequenas, como a corrupção e o combate ao governo".
As negociações com autoridades globais estão focadas sobre os problemas de liquidez da Ucrânia. O ministro das Finanças do governo anterior disse que a Ucrânia precisava de US$35 bilhões para se endireitar, mas o novo governo sugere que a cifra necessária não é tão alta. Cerca de US$12 bilhões em dívidas vão vencer no fim de 2015, disse um alto funcionário, e as reservas de divisas estão minguando.
Com a Rússia tendo suspendido seu pacote de empréstimo à Ucrânia, as autoridades europeias prometeram US$15 bilhões; os EUA prometeram US$1 bilhão em garantias de empréstimos. O governo ucraniano também espera conseguir algo dos bolsos profundos do FMI.
Uma equipe do FMI está avaliando as necessidades do país e as condições que devem acompanhar qualquer ajuda que venha a ser dada. Analistas prevêem que o Fundo peça cortes orçamentários, incluindo uma redução nos subsídios energéticos. As autoridades europeias pedem iniciativas comerciais para ajudar a fortalecer as exportações ucranianas.
Executivos no país saúdam um potencial acordo de associação com a União Europeia para abrir fluxos de capital ocidental e mercados, mas não estão universalmente ansiosos por ingressar na UE. Alguns temem que fronteiras abertas possam ser prejudiciais, drenando o país de profissionais qualificados e permitindo que empresas concorrentes estrangeiras, mais consolidadas, roubem negócios das firmas ucranianas.
Pavlo Sheremeta, nascido em Lviv e o novo ministro do Desenvolvimento Econômico nacional, comentou: "O primeiro problema é o excesso de regulamentação; o segundo é que os mercados ucranianos são monopolizados por pessoas e grupos politicamente influentes. Essa é uma das razões pelas quais investidores estrangeiros não são bem recebidos, basicamente."
JUDICIÁRIO
O terceiro problema, segundo ele, é o sistema judiciário ucraniano, "que toma decisões políticas, não judiciais, algo que assustaria qualquer investidor".
Lviv aprendeu a ajustar-se às mudanças de governo, do Império Austro-Húngaro aos nazistas e depois aos soviéticos. Hoje suas ruas de pedra e igrejas grandiosas refletem uma fusão de estilos. Embora seja vista como a cidade mais europeia da Ucrânia, a mensagem nacionalista do partido de extrema-direita Svoboda agrada a muitos aqui, colocando de lado um histórico de antissemitismo.
Lviv foi palco de tensões antes da queda do governo de Yanukovich, mas seu prefeito, que é independente, foi elogiado por ter mantido a ordem.
Há um desejo enorme por mais estabilidade.

Pavliv, que tem 36 anos, comanda uma empresa de terceirização de informática, N-iX, que ocupa um antigo armazém soviético modernizado com toques à moda do Google. Há pufes e mesas de pingue-pongue.
Quadros de desenhos animados americanos como "South Park" e "Bob Esponja" enfeitam as portas.
Pavliv sempre teve espírito empreendedor.

Entre seus empreendimentos recentes está uma start-up chamada Thick Buttons, um app que engorda as teclas de um teclado, adivinhando quais serão digitadas em seguida.
Recentemente os clientes no exterior da N-iX, que emprega 150 pessoas em Lviv, ficaram nervosos.
"Nossos clientes queriam saber nossos planos de contingência para o negócio", Pavliv contou. "Criamos um plano com o qual poderíamos transferir profissionais chaves para a Polônia."
Sob o governo anterior, a empresa enfrentou desafios regulatórios importantes. Nos últimos anos o governo ameaçou implementar leis que, na prática, proibiriam empresas de tecnologia de empregar profissionais contratados por períodos limitados, algo que é comum entre empresas concorrentes estrangeiras.
Uma solução proposta pelo governo era ainda mais preocupante: criar uma associação especial de informática filiada a um filho de Yanukovich.
"Isso nos assustou um pouco", Pavliv contou.

Rushchyshyn, que opera nove fábricas de roupas, citou uma regra que exige que as empresas comerciais tenham lucros, algo que nem sempre é possível no mundo real.
"Houve dois anos de crise, e meus custos eram muito superiores à minha receita. Então eles podiam vir e me aplicar uma multa de alguns milhões. Ainda não tivemos reformas radicais em número suficiente. Pegamos as leis soviéticas e as melhoramos, melhoramos, melhoramos, mas isso não é o bastante."
O empresário disse que a relação da Ucrânia com o capitalismo ainda é intranquila.
"'Empresário' é visto como palavrão. Eu não me descrevo como empresário. Sou alguém que dá empregos. As pessoas não entendem que é a mesma coisa."


Tradução de CLARA ALLAIN

Com matriz elétrica ‘mais suja’, Brasil vive dilema para conter apagões

Com matriz elétrica ‘mais suja’, Brasil vive dilema para conter apagões


Atualizado em  13 de março, 2014
Protesto contra Belo Monte (ABr)
Construção de grandes hidrelétricas sofre grande resistência de ambientalistas e movimentos socias
O risco de haver um racionamento de energia neste ano subiu, embora continue baixo, avalia o governo. Em nota divulgada na quarta-feira, o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) disse que a probabilidade de desabastecimento passou de "baixíssima", no mês passado, para "baixa".
Apesar de ter voltado a chover nas últimas semanas, o volume foi insuficiente para recompor adequadamente os reservatórios, que estão com cerca de 35% da sua capacidade, em média, nível similar ao do mesmo período de 2001, ano do apagão.
Segundo especialistas, um sistema elétrico mais estável no Brasil terá de ser, necessariamente, mais "sujo" do que o atual, onde predomina o uso de usinas hidrelétricas. Eles dizem que, para reduzir os riscos de desabastecimento, inevitavelmente o país terá de continuar expandindo o uso de usinas térmicas, que geram energia mais cara e poluente.
A construção e o acionamento das térmicas se acelerou nos últimos anos, numa estratégia para evitar a repetição do racionamento de 2001, que se refletiu em baixo crescimento econômico e queda da popularidade do então presidente Fernando Henrique Cardoso.
Dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), estatal, mostram que a capacidade de geração de energia por termoelétricas cresceu 68% entre 2008 e 2013, passando de 22.999 megawatt para 38.529 megawatt. No mesmo período, a capacidade instalada das hidrelétricas teve expansão de 11%, para 86.019 megawatt.
Com isso, a participação das termoelétricas na matriz elétrica brasileira subiu de 22,3% para 30,4% no período, enquanto o peso das hidrelétricas caiu de 75,3% para 68% - ainda alto quando comparado internacionalmente.

Complemento

As térmicas servem como uma fonte complementar às hidrelétricas. Elas são acionadas para garantir o abastecimento quando os reservatórios de água estão baixos.
O problema é que dois fatores estão elevando a demanda por essa energia mais suja e cara: 1) as hidrelétricas construídas nos últimos anos têm reservatórios pequenos ou são a fio d’água (sem reservatório); 2) a estiagem prolongada e o calor recorde diminuem a disponibilidade de água nas hidrelétricas ao mesmo tempo que elevam a demanda por energia, por exemplo, com uso de ar-condicionado.
Um estudo da Firjan, federação que representa a indústria do Rio de Janeiro, mostra que houve uma redução gradual da capacidade das hidrelétricas em manter o abastecimento mesmo em período de chuvas.
Em 2001, as hidrelétricas, caso estivessem com os reservatórios completamente cheios, seriam capazes de atender a demanda por energia no Brasil por 6,27 meses, mesmo sem chuvas e sem o uso de outras fontes. Já em 2012, a capacidade de regularização do sistema havia caído para 4,91 meses. Considerando o crescimento esperado para o consumo de energia e que a ampliação do parque hidrelétrico será quase todo com usinas a fio d’agua, a Firjan projeta que, em 2021, essa capacidade recuará ainda mais, para 3,35 meses.
Vale ressaltar, porém, que os reservatórios nunca estão completamente cheios. Dessa forma, a capacidade de regularização de fato existente passou de 3,99 meses, em 2001, para 3,13 meses, em 2012, e deve chegar a 2,14 meses em 2021, caso se mantenha a média dos últimos anos do nível dos reservatórios (63,8%).

Dilema ambiental

A tendência, observa a Firjan, é que as térmicas passem a ser usadas constantemente, e não apenas como fonte complementar nos períodos de seca. Devido ao custo mais alto dessa fonte de energia, a federação e representantes do setor elétrico defendem a construção de reservatórios maiores. A questão é que há grande resistência de ambientalistas e movimentos sociais contra esses empreendimentos, por causa do impacto sobre a população ribeirinha, índios e o meio ambiente.
"O governo tem desistido das hidrelétricas com reservatórios por causa das questões ambientais. É um erro, pois ficamos mais dependentes das térmicas", afirma Alexei Macorin Vivan, diretor-presidente da Associação Brasileira de Companhias de Energia Elétrica (ABCE).
Obras de Belo Monte
Mesmo sem reservatório, obra de Belo Monte é controversa
Usinas antigas, como Sobradinho (BA), Tucuruí (PA) e Itaipu (PR), têm reservatórios gigantescos. As grandes hidrelétricas em construção, porém, são a fio d’água – Belo Monte, ainda em obras no Pará, e Jirau e Santo Antônio, em operação ainda parcial, em Rondônia.
A Região Norte do país é a que apresenta maior potencial de construção de novas hidrelétricas. Além dos impactos ambiental e social de se construir na floresta, porém, há a limitação topográfica, pois boa parte da área é planície, observa o diretor da Coppe (UFRJ) e ex-presidente da Eletrobras, Luiz Pinguelli Rosa.
"Acima de Belo Monte, tem onde fazer reservatório. Mas o laguinho pequeno já deu essa confusão toda", afirma. Se o governo quiser construir reservatórios gigantes na floresta, "teremos invasão dos fuzileiros navais (americanos), ataque à flechada", ironiza Pinguelli Rosa.
Apesar do tom jocoso, Rosa reconhece a importância do "compromisso ambiental" na construção das hidrelétricas. Para o diretor da Coppe, a saída é investir em térmicas mais eficientes (a gás e com ciclo combinado), que poluem menos que as a carvão e a diesel.
Segundo o presidente da EPE, Maurício Tolmasquim, construir grandes reservatórios na Amazônia é difícil e tem impacto ambiental alto. "Temos que ter térmicas", diz.
Se não fossem elas, diz, o país estaria vivendo um novo "2001". Segundo ele, a capacidade instalada de geração de energia do país cresceu a uma taxa 43% maior que o consumo entre 2000 e 2013. Ou seja, o cenário atual não deriva de falta de estrutura geradora, mas de insumo: água. Janeiro deste ano teve a pior hidrologia (chuvas) desde 1954, observa ele.
Questionado em fevereiro sobre a conveniência de se fazer uma campanha para promover a economia de energia, tentando reduzir o consumo que tem sido recorde, Tolmasquim ponderou que "estamos no meio do período de chuvas, isso (a seca atípica) pode mudar".

Dilemas do governo

Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura, acusa o governo de deixar de tomar medidas para estimular a economia de energia por causa do medo de que isso seja confundido com um racionamento.
"O governo deveria ter prorrogado o horário de verão até o Carnaval e precisa promover campanhas que estimulem a economia de energia. Em vez disso, continua apostando na chuva", afirma.
Outro dilema que vive o governo é como acomodar os custos bilionários do uso das térmicas.
Nesta quinta-feira, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou que esse aumento de custos será dividido entre Tesouro, consumidores e o próprio setor.
O governo fará um aporte extra de R$ 4 bilhões no setor, que também poderá captar mais R$ 8 bilhões em financiamento. Ao mesmo tempo, o governo indicou que haverá aumento nas tarifas - mas a medida provavelmente ficará para o ano que vem.
Se aumentar a conta de energia é uma medida impopular, ainda mais depois que o governo interveio no setor para reduzi-la no ano passado, por outro lado o governo sofre pressão para diminuir seus gastos e elevar a economia destinada ao pagamento da dívida pública.
O despacho das térmicas cresceu fortemente desde o final de 2012, quando as chuvas começaram a rarear no país. A média mensal de gigawatt/hora gerado pelas térmicas pulou de 2.165 em 2011 para 4.450 em 2012 e 7.758 no ano passado. Em 2013, o governo gastou mais de R$ 9 bilhões para cobrir o custo com as térmicas e evitar seu repasse total para a tarifa. Neste ano, os gastos devem ser ainda maiores.
Pinguelli Rosa e Pires dizem que, ainda assim, o governo poderia ter acionado mais térmicas ano passado, para preservar mais os reservatórios. De fato, as térmicas a óleo e diesel, mais caras, não ficaram ligadas durante todo 2013. Após acioná-las em outubro de 2012, o governo anunciou o desligamento da maioria delas (34 térmicas) no início de setembro de 2013, o que geraria uma economia mensal de R$ 1,4 bilhão. No fim do ano, porém, com a demora do início das chuvas, foi preciso religá-las.

Fontes menos poluentes

Os especialistas ouvidos pela BBC Brasil também destacaram a importância que a geração eólica tende a ganhar no país. Apesar de ainda ter um peso muito pequeno na matriz elétrica brasileira, de apenas 1,6%, o parque eólico do país cresceu 408% desde 2008 e hoje já tem capacidade de geração igual ao das usinas nucleares.
Essa fonte de energia tem a desvantagem de depender também de fatores climáticos, já que não é possível armazenar vento, observa Pinguelli. Por outro lado, destaca Tolmansquim, ela pode funcionar muito bem como complemento às hidrelétricas, pois o período de maior intensidade de ventos no país é exatamente entre maio e novembro, quando chove menos.
O país também tem grande potencial de geração de energia solar. O problema, por enquanto, é que essa fonte ainda é muito cara.

Eletricidade: produção x consumo

Capacidade instalada em 2013: 126.755 MW (alta de 23% ante 2008)
Consumo total em 2013: 463,47 GWh (alta de 19% ante 2008)

Geração de energia pelas térmicas

(média mensal de gigawatt/hora)


2.165 em 2011



4.450 em 2012



7.758 em 2013
7.938 em 2014*
*Apenas janeiro

quinta-feira, 13 de março de 2014

A nova cara do conservadorismo: com grupos neonazistas, a extrema-direita conquista espaço na Europa

A nova cara do conservadorismo: com grupos neonazistas, a extrema-direita conquista espaço na Europa



Quando a esquerda tem muito pouco a oferecer em alternativa ao escalpo de empregos e direitos sociais, o extremismo fascistoide fala grosso em seu lugar.


Daniella Cambaúva
wikimedia commons
As notícias sobre os distúrbios na Ucrânia no mês de fevereiro preocuparam não apenas pelo número de vítimas ou por questões geopolíticas, mas também por terem servido de alerta à obstinação de neonazistas entre a extrema-direita no segundo maior país da Europa. Manifestações antissemitas e xenófobas, aliadas a uma forte rejeição ao passado soviético: bandeiras da SS nazista foram, durante os protestos, colocadas sobre a estátua tombada de Lênin.
 
Em meio a pichações da suástica e explosões perto das sinagogas, rabinos alertaram sobre possíveis ataques à comunidade judaica, estimada em 200 mil judeus, a terceira maior da Europa.
 
 
O Right Setor e o Liberdade, membro da Aliança dos Movimentos Nacionais Europeus (AMNE), que reúne partidos nacionalistas conservadores daquele continente, não estão sozinhos. A ascensão da extrema-direita e de grupos neonazistas despertou o temor de que, com a crise econômica, a correlação de forças na Europa se iguale àquelas que sucederam a Primeira Guerra Mundial.
 
Há cada vez mais partidos de direita e de extrema-direita, além do crescimento de organizações neonazistas que conseguem se firmar como partido. Em sua mira, estão os jovens afetados pelo desemprego.
 
Leia mais:



O ninho da serpente, por Mauro Santayana.


Na Grécia, por exemplo, destacou-se depois da crise econômica o partido extremista conservador Aurora Dourada, fundado em 1985. Em 2012, ele conseguiu eleger 18 entre 300 Parlamentares. Seu principal discurso se baseia na xenofobia: se as fronteiras do país forem fechadas e se todos os imigrantes forem expulsos, os postos de trabalho serão retomados pelos gregos. Na Grécia, uma das principais portas de entrada dos imigrantes na União Europeia, já é possível contabilizar agressões a estrangeiros, e seus autores se proclamaram membros da Aurora Dourada.
 
Na França, Marine Le Pen, líder do partido Frente Nacional, é a cara da extrema direita no país. Membro do Parlamento Europeu desde 2004, obteve 18% dos votos no primeiro turno das últimas eleições presidenciais, em 2012. Marine segue os passos do pai, líder histórico da legenda, Jean-Marie Le Pen que, em 2002, chegou ao segundo turno com Jacques Chirac. Acompanhando o atual conservadorismo europeu, ela apoia seu discurso na xenofobia e tenta desvencilhar a imagem do partido como simpatizante do nazismo. Seu pai, em 1987, havia classificado as câmaras de gás de Hitler como um “detalhe da história”. Com a crise, sua tese é de que, com o desemprego, o país não pode mais receber estrangeiros, ainda que a situação deles seja dramática. É crítica também à presença de massiva de muçulmanos na sociedade francesa. Para ela, as orações realizadas nas ruas, provocadas pela falta de mesquitas, são como uma “nova forma de ocupação”, semelhante à dos alemães nazistas.
 
No Reino Unido, é a vez do Partido da Independência (UKIP), com a defesa de fechar as fronteiras e deixar a União Europeia. Com nove cadeiras no Parlamento Europeu, conquistadas nas eleições de 2009, não tem representação no Parlamento britânico, mas conseguiu aproximadamente 25% do total de votos municipais nas eleições de 2013, segundo estimativa feita pela BBC.
 
Na Alemanha, onde partidos neonazistas são proibidos, existem organizações que atuam clandestinamente, como a NSU (Clandestinidade Nacional-Socialista, na sigla em alemão).
 
O governo alemão já admitiu, em diversas ocasiões, dificuldade em controlar essas instituições. Recentemente, dados de uma pesquisa do Ministério do Interior divulgada emartigo publicado na Carta Maior (Racismo na Alemanha) revelam que um em cada sete adolescente alemães, 14,4% do total, se consideram “muito racistas diante dos estrangeiros”, e 30% responderam “sim” ao serem questionados se há estrangeiros em excesso no país. A pesquisa mostrou também que 5% dos 44.600 jovens de quinze anos são membros de algum grupo de extrema direita e que 6.4% dos adolescentes homens têm pontos de vista antissemita.
 
Em dezembro de 2013, um dos partidos da extrema-direita alemã, o Partido Nacional Democrático (NPD), fundado em 1964, enfrentou um processo judicial por denúncia de proximidade ideológica ao nazismo. Com xenofobia extrema, seu discurso se concentra em ciganos e muçulmanos. O partido promete não descansar até que seja fechado o último albergue para imigrantes, pois temem um dia se tornarem “estrangeiros” em seu próprio país. No contexto da crise, desde 2011 o número de imigrantes a ingressar no continente europeu por conta do conflito na Líbia e na Síria. Do continente africano, tentam entrar pela Espanha, França, Itália e Grécia principalmente.
 
Na Noruega, o neonazismo chamou atenção para um problema latente em 2011, quando o jovem Anders Behring Breivik cometeu um atentado que matou 77 pessoas. Autor de um manifesto, se autodenomina nazista e foi condenado a 21 anos de prisão. Na ocasião, se desculpou com os seguidores por não ter conseguido mais vítimas.
 
 
Atualmente, bem como no passado, o extremismo conservador mostra seu poder de apelo magnificado pela rendição de parte da esquerda, que se ofereceu ao capital como “gestora confiável da crise”.
 
A verdade é que na Europa, como no resto do paneta - e com raras exceções na América Latina – o programa da esquerda tem nada ou muito pouco a oferecer em ternos de alternativa ao escalpo de empregos, direitos sociais e conquistas trabalhistas com o qual as elites e organismos internacionais pretendem exorcizar o maior colapso do capitalismo desde 1929. Quem fala grosso em seu lugar é o extremismo fascistoide, cujo discurso oferece as soluções radicais de um cardápio histórico conhecido, sendo a “caça aos miseráveis que concorrem com os nossos miseráveis”, o prato de resistência mais popular. Já contra o grande capital, nada; ou melhor, parceria remunerada pela vigilância bélica da ordem.

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Daniella Cambaúva é jornalista. 



As consequências do uso excessivo do automóvel

As consequências do uso excessivo do automóvel



Em São Paulo, o uso do carro já atingiu o limite. Congestionamentos em qualquer dia e qualquer horário, não há mais onde estacionar, quatro pessoas morrem por dia em acidentes de trânsito e vinte outras por complicações resultantes da poluição dos carros.
Cada vez mais pessoas criticam o uso excessivo dos carros nas cidades, ainda que continuem dirigindo. E há críticas tão fortes que por vezes acabam sendo classificadas como uma “demonização do automóvel”, uma espécie de revanchismo. Mas por que tanta gente culpa o carro pela situação caótica das cidades? Vamos tentar esclarecer.

Os males do uso excessivo

Na cidade de São Paulo, 90% da poluição é causada pelos carros, dados da CETESB. Os paulistanos vivem em média dois anos a menos por causa dessa poluição, que mata quase 20 pessoas por dia, segundo o laboratório de poluição atmosférica da USP.
Há outros problemas além da poluição, sendo o congestionamento o mais óbvio deles. Crescendo a cada ano, os índices de congestionamento passaram a ser chamados de “filas”, para acalmar os motoristas, já que o problema não é resolvido. A medição oficial fica bem aquém da apresentada pelo Maplink, por exemplo. Em alguns lugares, há congestionamento já dentro da garagem do edifício.
Os espaços públicos são cada vez mais tomados pelo automóvel. Cada alargamento ou extensão de avenida, cada nova ponte e viaduto, cada túnel dedicado aos automóveis acaba por incentivar ainda mais o uso do carro, piorando o congestionamento depois de um curto período de alívio ilusório.
Esse congestionamento causa problemas diretos de saúde (e fechar a janela do carro e ligar o ar condicionado não adianta porque, mesmo filtrando o material particulado, ainda penetram no veículo gases como dióxido de nitrogênio) e com acidentes (quatro mortos por dia em são paulo – sendo um deles pedestre, que não tem nada a ver com carros ou motos – e 30 mil mortes no Brasil ao ano só nas estradas), indiretos (stress e ansiedade),econômicos (com trabalhadores que poderiam estar produzindo, vendendo, prestando serviços em vez de estar ali, com negócios que deixam de ser fechados, com reuniões adiadas, produtos não entregues, etc.) e sociais (pessoas que passam menos tempo com a família, convivem menos com os amigos, vêem menos os vizinhos, importam-se menos com as pessoas). E devo ter me esquecido de muita coisa.
O transporte coletivo por aqui tem perdido cada vez mais espaço para o uso individual: as antigas faixas exclusivas de ônibus agora são “preferenciais”, em horários específicos e dividindo espaço com táxis; os ônibus fretados, que substituíam muitos carros individuais, foram proibidos em boa parte da cidade, fazendo muita gente desistir e voltar a entupir as ruas com os carros.
O espaço público também é cada vez mais perdido para o tráfego e estacionamento de carros: praças hoje são cortadas por avenidas (exemplo emblemático é a “Praça” Panamericana, que nada mais é que uma rotatória gigante); atravessar duas quadras da Paulista leva mais tempo que fazer um retorno de carro, principalmente se o pedestre precisa cruzar a avenida; andar a pé passou a ser perigoso a cada rua que se precisa atravessar, tanto que as pessoas literalmente brigam por uma vaga *em frente* ao lugar onde precisam ir, para não terem que andar 100 metros; a área construída de muitos estabelecimentos comerciais, principalmente shoppings, costuma ter mais espaço para carros do que para pessoas; calçadas estreitas, que mal permitem a passagem de uma pessoa por vez, poderiam ser ampliadas, tomando o espaço de estacionamento, se não fosse mais importante a via asfaltada que o calçamento; calçadas “em degrau”, para facilitar a entrada de carros em garagens, impedem a passagem de cadeirantes em qualquer ladeira da cidade; as crianças têm de ficar confinadas aos muros do condomínio, ao ônibus escolar, ao carro dos pais e ao shopping center, fazendo um passeio em local aberto ser uma experiência de agorafobia e tendo que tomar cuidado até mesmo nas calçadas, porque nunca se sabe quando um carro pode emergir rapidamente de uma saída de garagem; faixas de pedestres se tornaram meramente decorativas – exceto em semáforos, onde funcionam como linha de largada.
E ainda temos as consequências sociais: o ritual de passagem para a vida adulta deixou de ser as mudanças no corpo e na voz para passar a ser a carteira de habilitação; dirigir bem passou a ser dirigir rápido e com agilidade; ter sucesso na vida passou a ser ter um carro bom, em vez de ser feliz ou ter sua própria casa (mesmo que esse carro seja financiado em quatrilhões de vezes e tenha três parcelas em atraso); a informação sobre ter um carro consta em fichas de emprego; ir de ônibus a uma festa é inadmissível; chique é a noiva chegar em carro bom, mesmo que o resto do ano ela ande a pé; trocar de carro é a meta de médio prazo de quem acabou de comprar um carro novo; manter o mesmo carro por muito tempo é sinal de estagnação; ter um carro bom é ser confiável e respeitado.

Então os carros em si são ruins?

Não, claro que não. O carro tem sim sua utilidade e é uma ótima invenção, principalmente se você precisa transportar coisas grandes ou pesadas, ou pessoas com restrições de mobilidade, bebês e idosos.
O problema está na idolatria ao carro, no excesso de veículos, na sociedade baseada no automóvel, no marketing automobilístico bombardeando incessantemente o “seu sonho” de ter um automóvel, no incentivo governamental contínuo à compra e ao uso do carro e da moto em vez de priorizar transporte de massa (trens, ônibus, metrô).
Os males causados pelo uso massificado dos automóveis constituem, sim, uma desgraça do mundo moderno. Não há como negar. E não adianta ignorar os fatos e tentar maquiar a discussão, relevante e importantíssima, como uma simples picuinha de “ciclochato”.