Páginas

terça-feira, 11 de março de 2014

Eles querem desossar a reeleição

Eles querem desossar a reeleição



Processada nos EUA por cumplicidade com fraudes que precipitaram a crise, a agência de risco S&P desembarca no Brasil para dizer se o governo é ou não confiável


por: Saul Leblon 


Incapaz de criar fatos que o resgatem da irrelevância propositiva, o conservadorismo salta de um lado a outro à  procura de um galho que lhe dê alguma luz.


O resultado desanima até a condescendência da mídia amiga.



Entre a toga colérica, que rasgou a fantasia ética com a própria boca,  e as máscaras incendiárias, que mais assustam do que contagiam, o saldo aderna.



A oito meses das eleições, uma  nova esperança está prestes a entrar em campo.



Com poderes para dizer se o Brasil vai ou não ‘cumprir suas obrigações fiscais’, se o ‘governo é ou não confiável’, ‘se a política econômica está ou não no caminho certo’, a ilustre visita atende pelo nome de Standard & Poor’s.



Fosse um bicho, teria a morfologia de um cão farejador.



Sendo uma  agência de risco, desembarca seu focinho tecnocrático para vasculhar até que ponto as contas do governo garantem o pagamento de juros aos rentistas da dívida pública (leia mais sobre a questão fiscal  na coluna de Jaciara Itaim; nesta pág)



É nessa condição de quem ostenta uma coleira conduzida por poderosas mãos invisíveis  –que também costumam asfixiar o pescoço de governos--  que os emissários da  ‘S&P’ terão acesso às contas brasileiras.



Reuniões em Brasília já estão agendadas para essa finalidade.



O gênero dos  economistas de bancos, tão previsível quanto seus power points,  também será ouvido, a exemplo das consultorias afinadas pelo diapasão do Brasil aos cacos.



A semelhança com as missões do FMI, ou os atuais comitês interventores da Troika, na Europa,  não é coincidência.



O espírito é o mesmo.



Métodos e métrica, idem. E por uma razão muito simples.



Os interesses que movem os  ternos negros em todo o mundo são os mesmos.



O apetite do capital  rentista utiliza regularmente a matilha carimbadora de ‘ratings’ para devolver governos e nações à disciplina dos bons supridores de juros ao capital financeiro.



O capital pode ser volátil; as políticas fiscais, não.



Não importa a que custo para a sociedade.



É com base nessa tradição que o conservadorismo e seus jornalistas isentos  esperam que a S&P reforce o  seu palanque espetando um downgrade no coração da candidatura Dilma.



Ou seja, rebaixando a nota de risco que mede a capacidade de um Estado honrar os títulos que financiam sua dívida.



A mídia isenta não concebe a hipótese de a ‘S&P’ decepcionar.



Em junho do ano passado, quase em sintonia com os protestos,  a agencia, com escritórios em 23 paíss  já havia  revisado a perspectiva  do país de "estável" para "negativa".



Não importa que as justificativas tenham sido desmentidas pelos fatos.



O PIB de 2013 cresceu mais do que estimava a torcida que agora aposta em um novo empurrão par abaixo.



A taxa de expansão da economia brasileira, de 2,3%, foi o dobro daquela do México, por  exemplo, cuja nota de risco foi elevada no mês passado por outra agencia, a Moody’s.



A do Brasil, ao contrário, caiu dois graus abaixo da classificação festejada pelo ‘amigável’ presidente mexicano, Enrique Peña Nieto  --  comprometido com as ‘reformas’, explica o jornalismo comprometido com os interesses que delas se beneficiam.



O descontrole fiscal, ‘a gastança’ –o voluntarismo petista, diria FHC--  outra justificativa para o rebaixamento brasileiro, tampouco se confirmou.



 O Brasil mantém  uma relação dívida bruta/PIB estável;  exibe ademais  uma das menores proporções de endividamento líquido (descontadas as reservas internacionais) do mundo.



No ano passado ela caiu para 35% do PIB.



Era superior a 60% há dez anos; um legado de FHC que os festejos dos 20 anos do  Real omitiram distraidamente.



A elevada expectativa conservadora, bem como  a tensão dentro do governo, com a chegada dos paletós pretos, não encontra lastro na respeitabilidade intrínseca da ‘S&P’.



No início de 2013, o Departamento de Justiça norte-americano abriu um processo por fraude contra ela.



Foi o primeiro grande processo contra uma agência de risco por sua cumplicidade com as práticas de mercado que resultaram na explosão da bolha imobiliário nos EUA, em 2008, e que acionaria o gatilho da maior crise mundial do capitalismo desde 1929.



A ‘S&P’, que ora vem cobrar rigor nas contas brasileiras e arguir as autoridades quanto a consistência das metas fiscais para 2014, enfrenta acusações por agir de forma algo discrepante em  seu país.



Entre elas a de  blindar com a nota mais alta (o almejado triplo-A)  papéis e investimentos financeiros congenitamente insolventes, como era o caso das subprimes e seus derivativos de fragilidade ainda superior.



Investidores e fundos previdenciários que se orientam pelos parâmetros supostamente ‘técnicos’  dos ratings emitidos pela ‘S&P’ empanturraram-se de material tóxico, imaginando-se a salvo da tempestade que já se desenhava no céu.



 ‘(...) “[A S&P] conscientemente e com a intenção de defraudar, participou e executou um esquema para enganar os investidores’ (...)  [passou a falsa ideia de que as suas classificações] “eram objetivas, independentes e não influenciadas por conflitos de interesses”, acusa o documento levado aos tribunais pelo Departamento de Justiça dos EUA, segundo noticiou o New York Times.



Um grupo de 13 municípios australianos abriu processo idêntico  contra a  agencia alegando prejuízos milionários pelas mesmas razões.



Estima-se que se uma única dessas ações fosse consumada, o precedente poderia despejar na ‘S&P’, sobre cujas sentenças recai boa parte das esperanças eleitorais do conservadorismo  brasileiro, ajuizamentos da ordem de US$ 200 bi.



Em 2011, na tentativa algo caricata de recuperar uma credibilidade rastejante, a agencia rebaixou a nota de risco dos EUA.



O tiro saiu pela culatra.



Não faltou quem lembrasse que o rigor de seus técnicos foi muito inferior ao concederem nota A –elevada segurança--  ao banco Lehman Brothers, cuja falência, em setembro de 2008, rompeu o dique da crise mundial.



O endosso da ‘S&P”  à instituição símbolo da ruinosa supremacia das finanças desreguladas foi concedida em agosto, um mês antes da bancarrota.



Desconfia-se que já como parte da desesperada tentativa de continuar empurrando títulos do Lehman na goela dos incautos, como forma de mitigar as perdas dos grandes acionistas, diante da quebra inevitável.



Como corolário da impoluta trajetória ética e técnica recorde-se que o governo norte-americano encontrou um erro de cálculo de ‘apenas’ US$ 2 trilhões nas contas que orientaram a Standard & Poor’s  a rebaixar o rating do país.



Esse é a folha corrida por trás da  missão reverenciada com ansiedade pelo colunismo isento e as candidaturas pró-mercados.



A participação involuntária do governo Dilma  nesse teatro de marionetes merece reflexão à parte.



Não é um problema do economicismo latente do governo –ou da complacência petista com o mercado, como se pode carimbar.



É mais grave que isso.



Decorre da paradoxal restauração de uma ordem iníqua apoiada nas ruínas de seus  próprias dogmas e promessas.



É como se o Muro de Berlim desabasse e nenhuma sola de sapato consumasse a travessia, de um lado e outro.



O dique trincou, mas as águas congelaram diante da fenda.



A autoridade da ‘S&P’ emana dessa correlação de forças inercial cristalizada desde 2008.



Seu poder de chantagem agora se amplia, com a reabertura das  rotas de fuga para as economias ricas, em ziguezagueante processo de recuperação.



De onde vem essa paralisia capaz de transformar a água em sua própria parede?



Vem da impotência anterior da democracia, que a tornou incapaz de renovar a sociedade e o desenvolvimento mesmo em meio a uma crise sistêmica da ordem neoliberal.



Desarmada pelas derrotas anteriores da esquerda, e a adesão de uma parte dela ao cuore neoliberal, o sistema representativo deparou-se com a fenda do dique sem dispor de canais de debate e organização para não só acolher como estruturar um  jorro de vontade  mudancista.



As ruas se encheram de indignação na Espanha, por exemplo.



Mas as urnas elegeriam  Mariano Rajoy, herdeiro da cepa franquista, que calafetou a muralha com uma  taxa de desemprego de 60%  entre a juventude espanhola.



A prostração democrática não é uma fatalidade diante de uma crise sistêmica.



Ela é um produto histórico. De decisões políticas. E  rendições ideológicas.



O campo progressista brasileiro tem nas eleições de outubro um poderoso instrumento para demonstrar que não é necessário que seja assim.



A ‘Standard & Poor’s  desembarca com respaldo dos mercados, da mídia e do conservadorismo não apenas para chantagear o final do governo Dilma.



Mas para engessá-la no palanque de outubro.



No limite,  desossar sua eventual reeleição.



 O que significa frustrar  o desejo mudancista do eleitor brasileiro, majoritariamente associado à sua condução do processo.



Se  a uma organização com os atributos da  ‘S&P’ é facultado o acesso a todas as informações de governo, ademais do tempo requerido de seus principais técnicos e assessores, algo equivalente deve ser feito na direção oposta.



Aquela que fortaleça a democracia, abrindo canais suplementares de participação da sociedade na discussão do passo seguinte do seu desenvolvimento.



O programa de governo da candidata Dilma Rousseff é a ponte entre a prostração democrática que favorece a chantagem dos mercados, e uma repactuação consistente do futuro, feita  de prazos e metas críveis  para a construção da cidadania plena no país.



O programa de governo da reeleição pode e deve ser construído em debate aberto com a sociedade através da rede já existente de sites e blogs progressistas.



O casamento da democracia com o desenvolvimento não acontecerá à margem do poder.



E não há nada mais poderoso do que uma plataforma de governo sedimentada em debate amplo, convergindo para círculos  e conferencias  presenciais da militância progressista.



Ilusão não é erguer pontes que materializem o horizonte de uma democracia social.



Ilusão é achar que ela pode ser construída sem essas pontes.



Ou escorada exclusivamente na busca de anuência da  ‘Standard & Poor’s’  para as contas do país.


segunda-feira, 10 de março de 2014

O ato unificado contra o golpe diante do prédio do DOI-CODI

O ato unificado contra o golpe diante do prédio do DOI-CODI

Unesp e Unicamp economizam para evitar colapso financeiro igual ao da USP

Unesp e Unicamp economizam para evitar colapso financeiro igual ao da USP



A previsão das duas instituições é manter a parcela dos gastos dedicada à folha de pagamentos abaixo dos 90% neste ano. Na Universidade de São Paulo, esse gasto já consome 100% do orçamento da instituição, motivando as reduções anunciadas para este ano



10 de março de 2014
Paulo Saldaña e Victor Vieira - O Estado de S.Paulo

Ao mesmo tempo em que a Universidade de São Paulo (USP) enfrenta uma crise financeira, provocando cortes de 30% nos gastos com custeio e investimentos neste ano, as outras duas estaduais paulistas também já se antecipam a um colapso financeiro e começam a economizar. A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Universidade Estadual Paulista (Unesp) também cortaram gastos em 2014.
A previsão das duas instituições é manter a parcela dos gastos dedicada à folha de pagamentos abaixo dos 90% neste ano. Na USP, esse gasto já consome 100% do orçamento, motivando as reduções para 2014. Apesar de as medidas de contenção terem sido tomadas somente neste ano, a USP já extrapola seu orçamento desde 2011, como revelou o Estado em fevereiro O comprometimento dos gastos com pessoal foi motivado por mudanças no plano de carreira e contratações dos funcionários na última gestão.
A Unicamp já diminuiu os recursos destinados a obras e outros investimentos. Para custeio das unidades e manutenção predial, não houve avanço, como de costume, e foi mantido o mesmo orçamento de 2013. Segundo a reitoria, também não foram previstos recursos para reposição de vagas de funcionários aposentados e para novas vagas certificadas. Ainda não foram usados recursos das reservas da instituição, mas no ano passado os valores pagos com salários já bateram 92,29% dos repasses do tesouro estadual que financiam a universidade. Para o exercício de 2014, a previsão é de que a folha consuma 89,56% do orçamento, mas não foi considerada a hipótese de reajuste salarial no ano.
Já a Unesp reduziu em 50% os valores reservados a contratação de professores e funcionários na comparação com o ano passado. Os cortes com o Plano de Desenvolvimento Institucional, que inclui atividades de pesquisa e extensão, chegaram a 35%. Entre as três estaduais, a Unesp é que apresenta a situação mais controlada. Fechou 2013 com 88,85% do orçamento comprometido com pagamento de funcionários e a previsão deste ano é que esse porcentual fique em 86,5%. Essa previsão para o ano, segundo a assessoria de imprensa da universidade, depende "do comportamento do ICMS ao longo do ano" e da possibilidade de "dissídio coletivo em maio".
Em relação aos aumentos salariais para professores e funcionários nos últimos anos, a USP esteve à frente das outras. O Conselho dos Reitores das Universidades Estaduais de São Paulo decidiu por um reajuste de 30% entre 2009 e 2013 para professores e servidores, na média. No caso da USP, no entanto, os reajustes foram maiores: de 43,19% para docentes e 74,85% para servidores.
Além de gastos mais altos com pessoal, um dos motivos apontados para as dificuldades orçamentárias é a desaceleração da arrecadação do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). A previsão para 2014 é o que o recolhimento salte 6,8%, o menor aumento dos últimos anos.
Independência. Desde 1989 as universidades estaduais de São Paulo têm autonomia financeira e recebem parcela fixa de 9,57% do arrecadado pelo ICMS. Os recursos são divididos pelas três instituições. Assim, o orçamento varia a cada ano. O decreto que estabelece a autonomia recomenda que as despesas com a folha de pagamento sejam inferiores a 75% do total, mas não prevê sanções em caso de descumprimento.
Segundo o especialista em gestão na área de educação Roberto Lobo, o Estado deve ser responsável pelas verbas de manutenção e pela folha de pagamentos, e os gastos com salários não devem superar os 80% sobre o total de repasses. "Se a verba é usada somente com o pessoal, a instituição fica sem dinheiro para transportes, consertos, etc", afirma ele, que também é ex-reitor da USP. Para Lobo, a independência financeira é um dos requisitos para o desenvolvimento das instituições, principalmente na pesquisa. "É a autonomia que permite o sucesso de boas universidades no mundo. Esse modelo traz mais vantagens do que problemas", aponta. 

Unasul: a areia na engrenagem do golpe

Unasul: a areia na engrenagem do golpe


Algo de singular importância acontece na AL. O software do golpe não roda mais tão facilmente. A reunião da Unasul desta 4ª feira é parte da areia em ação.


por: Saul Leblon


A reunião da Unasul  desta 4ª feira, que acontece no Chile, em seguida à posse da Presidenta Bachelet, redime a força da política num momento em que os ventos da economia mundial sopram desfavoravelmente sobre a região.

Argentina, Brasil, Venezuela e outros  manejam uma delicada transição cambial. 
Não é uma operação contábil:  mudanças no câmbio alteram o poder de compra dos salários; definem antecipadamente  ganhadores e perdedores de um novo ciclo; estabelecem o fôlego das exportações; devolvem ou não espaço à indústria  local.

A recuperação das economias ricas, e a queda nas cotações das commodities, inverteu a dinâmica das contas externas que impulsionou o crescimento regional por uma década.

O financiamento encareceu. As receitas com exportação caíram.

Déficits em conta corrente se avolumam, dificultando atender o avanço da demanda com mais importações. Pressões inflacionárias robustecem.  Quem não tem reservas, o  Brasil é uma exceção de quase US$  400 bi, enfrenta escassez de dólares e incerteza no abastecimento.

Não por acaso, os escrutínios eleitorais apontam resultados cada vez mais apertados: a eleição de Maduro decidiu-se em casas decimais; Correa perdeu a capital, Quito, para a direita; Cristina sofre corrosão parlamentar na Argentina; o favoritismo da esquerda no 2º turno deste domingo em El Salvador deu lugar a uma vitória por diferença mínima para a Frente Farabundo Martí.

As oposições conservadoras lambem os beiços e esfregam as mãos: é a hora do abate, cogitam.

A ferocidade com que se lançam às ruas na Venezuela é  a expressão desabrida de um apetite mais geral.

A contrapelo do fatalismo mecanicista, que ignora as mediações específicas no interior das grandes transições de ciclo econômico, algo  de singular importância  acontece, porém,  na América Latina.

Há uma resistência política articulada à investida conservadora.

O  software da ‘crise’  não roda mais tão facilmente na máquina regional.

A saber: à crispação golpista interna sucede-se o isolamento internacional dos governantes progressistas.

Seguem-se sanções econômicas e políticas desfechadas pelos EUA, com apoio da briosa gente do jornalismo isento.

Tudo em nome da democracia.

Contra a desordem econômica, o desgoverno, o desabastecimento e as ameaças  à família e à propriedade  –como denunciariam as ‘marchas’ brasileiras de 1964, a primeira delas realizada em 19 de março, seis dias depois do histórico comício da Central do Brasil, que completa 50 anos nesta 5ª feira.

Na tradição  latino-americano, o desfecho golpista invariavelmente ganharia o selo de legitimidade da OEA –braço direito do Departamento de Estado no manejo dos interesses do grande  capital na região.

Desde que foi criada, em 1948, a OEA  notabilizou-se por ser esse cartório complacente de reconhecimento de firma do golpismo.

Foi sua (dos EUA) a iniciativa de expulsar Cuba do organismo, na reunião de  Punta del Este, em 31 de janeiro de 1962, pelas seguintes alegadas razões: a) declaração do caráter socialista da revolução -- incompatível com o sistema interamericano; b) alinhamento com o bloco comunista, quebrando a unidade e a solidariedade do continente; c) adesão ao marxismo-leninismo, incompatível  com os princípios e objetivos do sistema interamericano.

Dois anos depois, a entidade guardiã  do capital e dos bons princípios daria, pelas mesmas razões, o atestado de legalidade ao golpe de Estado contra Jango.
Um ano depois de Jango,  legitimaria a invasão de São Domingos por tropas majoritariamente norte-americanas, temperadas com  batalhões de vários exércitos aliados, inclusive 250 soldados da agradecida ditadura brasileira, que a OEA benzeu.

A mesma boa vontade e cooperação o organismo demonstraria com o golpe sangrento contra a democracia chilena, em 1973.

Assim por diante.

Em todos esses casos e nos demais, a engrenagem azeitada não encontraria repto à altura de sua institucionalidade na região.

Não é mais assim.

O modelo emperrado tentou pegar no tranco na reunião da OEA  realizada nos EUA, no último dia 6 de março.

O alvo deste revival  era a Venezuela, de Maduro, sacudida por violenta onda de protestos, liderada pela facção de extrema direita do conservadorismo local.

A conversa da semana passada na OEA   avançou  noite adentro.

Mas não conseguiu aprovar  uma resolução apresentada pelos EUA, Canadá e Panamá –ou seja, uma proposta do Departamento de Estado norte-americano— de envio de uma missão não solicitada pelo governo Maduro ao país.

O apoio ao intervencionismo dissimulado  saiu como entrou: circunscrito a 3 votos, contra  29 vetos.

Não apenas isso.

Chanceleres de 12 Estados integrantes da União das Nações Sul-americanas (a Unasul)  marcaram um encontro no Chile, nesta 4ª feira, para discutir o mesmo tema em ambiente desinfetado da crispação norte-americana contra o bolivarianismo.

O veto  e a redefinição do locus deixam claro:

a) a OEA não fala mais pela América Latina;

b) o colar de governos progressista da região –ancorado no tripé Brasil-Argentina-Venezuela— detém liderança para, ao menos, desestimular o adesismo de forças regionais;

c) essa guinada, repita-se,  em meio a um quadro internacional adverso  no plano econômico, é uma bem-vinda novidade histórica que não deve ser subestimada.
Se além  de barrar o golpismo, a Unasul dispusesse de estrutura para acelerar a construção  da democracia social na América Latina, as diferenças seriam ainda mais  expressivas.

Não é assim, por enquanto.

Nascida oficialmente em 23 de maio de 2008, ela reúne 12 nações, um PIB de quase US$ 8 trilhões (o dos EUA é de US$ 15  tri) e uma população de 387 milhões de pessoas, distribuídas num imenso  território de 18 milhões de km2 que acomoda autossuficiência energética, alimentar, mineral, abundância de água e reservas ambientais as mais expressivas do planeta.

Além da criação de um Parlamento único, uma moeda e um banco central da comunidade, a Unasul incluía, por sugestão brasileira, a instituição de um  Conselho sul-americano de Defesa.

A dimensão militar da integração foi interditada então pelo direitoso presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, mergulhado até o pescoço na aliança com a CIA e as forças militares dos EUA, na guerra contra as Farcs.

 A Unasul, como bem disse Lula na criação da entidade, em Brasília, pretendia retomar a tradição da luta  pela integração econômica regional. E ir além dela.

 Abandonada por governos conservadores,  a agenda que remete a Bolívar, como gostava de lembrar Chávez,  cedeu lugar nos anos 90 à determinados de abrir  integralmente o mercado regional ao livre comércio com o poderio norte-americano, através da ALCA.

A luta contra o subdesenvolvimento  –marcado pela iníqua distribuição de renda e do patrimônio, o baixo desenvolvimento tecnológico e industrial e elevada primarização das exportações--  cedeu lugar assim à panaceia  desregulatória.

O saldo é conhecido e impulsionou a volta da agenda integracionista ao final dos anos 90.

Desdenhada pela lógica neoliberal, ela provou sua pertinência como alavanca de crescimento e cooperação.

Basta ver os sérios problemas que a redução das compras argentinas e venezuelanas tem causado às exportações brasileiros  de manufaturados para dar a essa condicionalidade a sua real abrangência.

A economia regional  já vivenciou práticas avançadas de comércio no âmbito da ALALC ( a Unasul dos anos 60).

Um Convênio de Créditos Recíprocos (CCR) assinado então entre os países da região  permitia a intensificar as trocas comerciais sem o uso de divisas fortes, graças a uma caixa de compensação de créditos quadrimestral.

O mecanismo  funcionou plenamente –sem casos graves de default—até meados dos anos 80.

Foi sufocado  com o avanço da logica neoliberal no interior das administrações nacionais, a partir de então.

‘Estamos deixando para trás uma longa história de indiferença e isolamento recíproco. Nossa América do Sul não será mais um mero conceito geográfico, disse Lula na retomada dessa tradição, na assinatura do tratado da Unasul, há seis anos.

Recebida com previsível menosprezo pelas viúvas da ALCA, a Unasul  vive paradoxalmente seu auge político em meio ao aparente estreitamento de seu  fôlego econômico.

Não por acaso, às dificuldades internacionais, a região assiste à retomada da agenda do livre comércio através da nova menina dos olhos do conservadorismo local, a  Aliança do Pacífico.

A Aliança do Pacífico seduz as classes dominantes por substituir a agenda incomoda da integração política pela confortável promessa de bonança através do livre comércio.

A dimensão política do desenvolvimento é um aspecto do jogo do poder compreensivelmente demonizado pelos interesses dominantes de cada época.

Pelo simples fato de que ela os inclui como parte dos entraves ao avanço de sociedades carentes de decisões  que arejem estruturas concentradoras do excedente econômico.

A necessidade de integrar a economia latino-americana às grandes cadeias de suprimento global, e de incorporação de  tecnologia,  não é incompatível com a determinação de construir a democracia social na região.

As condicionalidades econômicas de uma época não definem, à priori,  quem será beneficiado ou penalizado pela superação de seus gargalos.

A existência da Unasul transcende o papel passivo de um ferrolho  contra o golpismo.

O  simples fato de ela existir  –e funcionar--  amplia a margem de manobra política para a América do Sul ir além de  seus erros e acertos,  dos erros e acertos de outras experiências de integração.

E dar uma resposta positiva à premonição de Perón, que disse um dia:

‘O século XXI nos encontrará integrados --ou destruídos’.