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segunda-feira, 10 de março de 2014

Por que o apoio dos EUA a mudança de regime na Venezuela é um erro

VENEZUELA

Publicado originalmente no Guardian.

POR MARK WEISBROT

Quando é considerado legítimo tentar derrubar um governo democraticamente eleito? Em Washington, a resposta sempre foi simples: quando o governo dos EUA diz que é. Não  por acaso, esta não é a forma como os governos latino-americanos, em geral, encaram a questão.
No domingo, os governos do Mercosul (Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Venezuela) divulgaram um comunicado sobre as manifestações da semana passada na Venezuela. Descreveram “os recentes atos de violência” na Venezuela como “tentativas de desestabilização da ordem democrática”. Eles deixaram bem claro de que lado estavam.
Declararam “seu firme compromisso com a plena vigência das instituições democráticas e, neste contexto, rejeitam as ações criminosas de grupos violentos que querem espalhar a intolerância e o ódio na República Bolivariana da Venezuela como uma ferramenta política”.
Podemos lembrar que quando manifestações muito maiores balançaram o Brasil no ano passado não houve declarações do Mercosul ou de governos vizinhos. Isso não é porque ninguém ama a presidente Dilma Rousseff, mas porque esses protestos não procuravam derrubar o governo democraticamente eleito do Brasil.
A administração Obama foi um pouco mais sutil, mas também deixou claro de que lado estava. Quando o secretário de Estado John Kerry afirma que “estamos particularmente alarmados com relatos de que o governo venezuelano mantém detidos dezenas de manifestantes antigoverno”, ele está tomando uma posição política. Na verdade, houve muitos manifestantes que cometeram crimes: atacaram e feriram policiais com pedaços de concreto e coquetéis molotov, queimaram carros, destruíram e às vezes incendiaram prédios do governo, entre outros atos de violência e vandalismo.
Um porta-voz anônimo do Departamento de Estado foi ainda mais claro na semana passada, quando expressou preocupação com o “enfraquecimento das instituições democráticas na Venezuela” e disse que havia a obrigação das “instituições governamentais responderem eficazmente à necessidades econômicas e sociais legítimas de seus cidadãos”. Ele uniu esforços com a oposição para deslegitimar o governo, uma parte vital de qualquer estratégia de “mudança de regime”.
Claro que todos nós sabemos quem o governo dos EUA apoia na Venezuela. Eles realmente não tentam esconder: há US$ 5 milhões no orçamento federal americano de 2014 para financiar as atividades da oposição dentro do país e isso é quase certamente a ponta do iceberg – somando-se as centenas de milhões de dólares de apoio explícito nos últimos 15 anos.
Mas o que torna importantes essas declarações atuais dos americanos e irrita os governos da região é que eles estão dizendo à oposição venezuelana que Washington está mais uma vez apoiando a mudança de regime. Kerry fez a mesma coisa em abril do ano passado, quando Maduro foi eleito presidente e o candidato da oposição Henrique Capriles afirmou que a eleição foi roubada. Kerry recusou-se a reconhecer os resultados das eleições. A postura antidemocrática agressiva de Kerry causou uma forte reação dos governos sul-americanos e ele foi forçado a mudar de curso e tacitamente reconhecer o governo Maduro. (Para quem não acompanhou esses eventos, não havia nenhuma dúvida sobre o resultado das eleições.)
O reconhecimento de Kerry dos resultados colocou um fim à tentativa da oposição de deslegitimar o governo eleito. Depois que o partido de Maduro venceu as eleições municipais por uma larga margem em dezembro, a oposição estava derrotada. A inflação estava em 56% e houve escassez generalizada de bens de consumo, mas uma sólida maioria ainda tinha votado no governo. Sua escolha não poderia ser atribuída ao carisma pessoal de Hugo Chávez, morto há quase um ano, e nem era irracional. Embora o ano passado tenha sido duro, os últimos 11 anos – desde que o governo passou a ter o controle sobre a indústria do petróleo – têm trazido ganhos nos padrões de vida para a maioria dos venezuelanos que eram previamente marginalizados e excluídos.
Havia muitas reclamações sobre o governo e a economia, mas os ricos e os políticos de direita da oposição não refletem os valores do povo e nem inspiram confiança.
O líder da oposição Leopoldo López tem retratado as manifestações atuais como algo que poderia forçar Maduro a sair do cargo. Era óbvio que não havia, e ainda não há, possibilidade de isso acontecer de forma pacífica. Como o professor da Universidade da Georgia David Smilde argumentou, o governo tem tudo a perder com a violência nas manifestações e a oposição tem algo a ganhar.
No fim de semana passado, Capriles, que estava inicialmente desconfiado de uma estratégia potencialmente violenta para a “mudança de regime”, mudou de ideia. De acordo com a Bloomberg News, ele acusou o governo de “infiltração nos protestos pacíficos para convertê-los em atos de violência e repressão”.
Levou muito tempo para que a oposição aceitasse os resultados das eleições democráticas na Venezuela. Eles tentaram um golpe militar, apoiado pelos EUA em 2002; quando isso fracassou, tentaram derrubar o governo com uma greve do petróleo. Eles perderam uma tentativa de reclamar a presidência em 2004 e protestaram; em seguida, boicotaram as eleições para a Assembleia Nacional, sem motivo, no ano seguinte.
A fracassada tentativa de deslegitimar a eleição presidencial em abril de 2013 foi um retorno a um passado escuro, mas não tão distante. Continua uma incógnita quão longe eles irão para ganhar por outros meios, já que não têm vencido nas urnas, e por quanto tempo terão o apoio de Washington para a mudança de regime na Venezuela.

Manter o publico na ignorância e o nome do jogo para os Estados Unidos


Top_Secret


POR NOAM CHOMSKY

Um princípio orientador da teoria das relações internacionais é o de que a maior prioridade do estado é garantir a segurança. Como estrategista da Guerra Fria, George F. Kennan formulou que o governo é criado “para garantir a ordem e a justiça internas e para prover a defesa comum.”
A proposição parece plausível, quase evidente, até que um olhar mais atento pergunta: Segurança para quem? Para a população em geral? O poder do estado por si só? Para setores domésticos dominantes?
Dependendo do que queremos dizer, a credibilidade da proposta varia de desprezível a muito alta.
A segurança do poder do estado é extremamente alta, como ilustram os esforços que os estados exercem para se proteger do escrutínio de suas próprias populações.
Em uma entrevista na TV alemã, Edward J. Snowden disse que o seu “ponto de ruptura” foi “ver o diretor de Inteligência Nacional, James Clapper, diretamente sob juramento do Congresso”, negando a existência de um programa de espionagem interna conduzida pela Agência de Segurança Nacional.
Snowden afirmou que “o público tinha o direito de saber desses programas. O público tinha o direito de saber o que o governo está fazendo em seu nome, e que o governo está fazendo contra o público”.
O mesmo poderia ser dito por Daniel Ellsberg, Chelsea Manning e outras figuras corajosas que atuaram segundo o mesmo princípio democrático.
A posição do governo é bem diferente: o público não tem o direito de saber porque a segurança é prejudicada severamente, como afirmam.
Existem várias boas razões para ser cético sobre tal resposta. A primeiro é quase totalmente previsível: quando o ato de um governo é exposto, o governo reflexivamente declara motivos de segurança. Por conseguinte, a resposta previsível é pouca informação.
Uma segunda razão para o ceticismo é a natureza das provas apresentadas. O estudioso de relações internacionais John Mearsheimer escreveu que “a administração Obama, previsivelmente, inicialmente alegou que a espionagem da NSA teve um papel fundamental em frustrar 54 planos terroristas contra os estados Unidos, o que implica que violou a Quarta Emenda por uma boa razão”.
Isso era mentira, no entanto. O general Keith Alexander, diretor da NSA, admitiu ao Congresso que poderia reivindicar apenas um sucesso, o que envolveu a captura de um imigrante somali e um grupo que vive em San Diego e que tinha enviado 8 500 dólares a um grupo terrorista na Somália.
A visão básica foi bem expressa pelo cientista político Samuel P. Huntington, de Harvard: “Os arquitetos do poder nos estados Unidos devem criar uma força que pode ser sentida, mas não se vê. A potência permanece forte quando permanece no escuro; exposta à luz do sol, começa a evaporar”.
Nos estados Unidos, como em outros lugares, os arquitetos do poder compreendem isso muito bem. Aqueles que trabalharam com a enorme massa de documentos confidenciais na história oficial das “Relações Exteriores dos estados Unidos, por exemplo, dificilmente podem deixar de notar a freqüência com que a segurança do poder do estado é a principal preocupação, não a segurança nacional em qualquer sentido.
Muitas vezes, a tentativa de manter o sigilo é motivada pela necessidade de garantir a segurança dos poderosos setores domésticos. Um exemplo são os “acordos de livre comércio”, rotulados de forma errada porque não são sobre o comércio como um todo e sim sobre os direitos dos investidores.
Estes instrumentos são regularmente negociados em segredo, como a atual Trans-Pacific Partnership – mas não totalmente em segredo, é claro. Eles não são segredo para as centenas de lobistas corporativos e advogados que estão escrevendo as disposições detalhadas, com um impacto revelado para o público através do WikiLeaks.
Como o economista Joseph E. Stiglitz concluiu, o escritório de Representantes do Comércio dos os EUA “representam os interesses corporativos”, não os do público : “A probabilidade de que o que emergir das próximas negociações servirão aos interesses dos americanos comuns é baixa e as perspectivas para os cidadãos comuns em outros países são ainda mais sombrias.”
Em contraste, há provas substanciais de que a “segurança nacional” doméstica como o termo deve ser entendido não é uma alta prioridade para a política do estado.
Por exemplo, o programa de assassinato mundial através de drones do presidente Obama é, de longe, a maior campanha terrorista do mundo. O general Stanley A. McChrystal, comandante das forças dos EUA e da OTAN no Afeganistão, falou em “matemática insurgente”: para cada pessoa inocente que você matar, você cria 10 novos inimigos.
Esse conceito de “pessoa inocente” diz-nos o quão longe nós estamos da Magna Carta, que estabelece o princípio da presunção de inocência que já foi pensado para ser o fundamento do direito anglo-americano.
Hoje, a palavra “culpado” significa “alvo de assassinato por Obama” e “inocente” significa que “ainda não foi atribuído esse estatuto”.
A Brookings Institution acaba de publicar um estudo antropológico altamente elogiado de sociedades tribais por Akbar Ahmed, com o subtítulo “Como a guerra dos EUA contra o terror se tornou uma guerra global contra o Islã Tribal”.
A guerra, Ahmed adverte, pode lrvar algumas tribos “à extinção”, com custos graves para as próprias sociedades, como se vê agora no Afeganistão, Paquistão, Somália e Iêmen. E, finalmente, para os americanos.
As culturas tribais, Ahmed aponta, baseiam-se em honra e vingança: “Todo ato de violência nessas sociedades tribais provocam um contra-ataque. Quanto mais difíceis os ataques contra os homens da tribo, mais cruéis e sangrentos os contra-ataques”.
O terror pode bater em casa. Na revista britânica Foreign Affairs, David Hastings Dunn descreve como os cada vez mais sofisticados drones são uma arma perfeita para grupos terroristas. Drones são baratos, facilmente adquiridos e “possuem muitas qualidades que, quando combinadas, tornam-se potencialmente o meio ideal para o ataque terrorista no século 21″, explica Dunn.
O senador Adlai Stevenson, referindo-se a seus muitos anos de serviço no Comitê de Inteligência do Senado dos EUA, escreve que “a vigilância cibernética e a coleta de metadados fazem parte da reação contínua ao 11/9. Os EUA são amplamente percebidos como em guerra contra o Islã, contra os xiitas, bem como os sunitas, no chão, com drones, e por procuração na Palestina, desde o Golfo Pérsico até a Ásia Central. Alemanha e Brasil se ressentem de nossas invasões, e o que elas causaram?”
A resposta é que elas causaram uma ameaça crescente e o isolamento internacional.
As campanhas de drones são um dispositivo pelo qual a política do estado põe em risco a segurança com conhecimento de causa. O mesmo é verdadeiro com relação a forças especiais de operações de assassinos. A invasão do Iraque aumentou acentuadamente o terror no Ocidente, confirmando as previsões da inteligência britânica e americana.
Estes atos de agressão foram, mais uma vez, uma questão que pouco interesse despertou em seus planejadores, orientados por diferentes conceitos de segurança. Mesmo a destruição instantânea através de armas nucleares nunca esteve em alta conta para as autoridades.

As multinacionais americanas são mais leais ao lucro que a seu país

As multinacionais americanas são mais leais ao lucro que a seu país


Supercasa de Bill gates: a Microsoft é mestra em evasão de impostos
Supercasa de Bill Gates: a Microsoft é mestra em evasão de impostos
O artigo abaixo foi publicado, originalmente, no site Common Dreams. O autor é o jornalista Robert Scheer, editor do site Truthdig.com e colunista do jornal The San Francisco Chronicle.
Jovem: procure um paraíso fiscal para evitar o pagamento de impostos. Fique inteiramente à vontade em terras estrangeiras, e se você entrar em apuros, o Tio Sam irá correndo para ajudá-lo diplomaticamente, economicamente e militarmente, mesmo que você tenha conseguido evitar o pagamento por esses serviços governamentais. Basta fingir que você é uma corporação multinacional.
Essa é a instrução sincera para o sucesso empresarial fornecida por 60 das maiores empresas americanas que, segundo uma análise do jornal Wall Street Journal, “colocaram um total 166 bilhões de dólares no ano passado em paraísos fiscais”. Mais de 40% de seus lucros escaparam, assim,  dos impostos cobrados nos Estados Unidos. Todos  fazem isso, incluindo Microsoft, GE, o gigante farmacêutico Abbott. Muitos, como a GE, são tão bons nisso que têm evitado totalmente impostos nos anos recentes.
Mas todos eles ainda esperam que o Tio Sam venha em seu auxílio com poder de fogo militar, no caso de os nativos ficarem inquietos e nacionalizar ativos da empresa. Nós ainda temos um bloqueio contra a Cuba de Fidel Castro porque, mais de meio século atrás, os cubanos ousaram nacionalizar uma companhia telefônica de propriedade americana. Neste mesmo período, temos consistentemente intervindo militarmente em outros países para manter o controle das corporações dos EUA sobre os recursos do mund. Países como Iraque e Líbia têm que permanecer seguros para nossas companhias de petróleo.
Corporações multinacionais dos EUA ainda precisam da Marinha para proteger as rotas marítimas e do Departamento de Comércio dos Estados Unidos para proteger os direitos autorais. Também esperam que o Banco Central e o Departamento do Tesouro estejam aptos a fornecer ajuda e dinheiro barato.
Eles querem um governo dos EUA enorme para financiar avanços científicos, educar a força de trabalho futura, sustentar a infraestrutura e fornecer lei e ordem no âmbito doméstico, mas simplesmente não acham que devem ter de pagar por isso. O governo dos EUA existe para fazer principalmente o mundo seguro para as corporações multinacionais, mas  elas não sentem nenhuma obrigação de pagar por essa proteção.
Pense nisso quando você for pagar seus impostos nas próximas semanas, e considere que você tem que cobrir a lacuna deixada por travessuras dos meninos grandes. Além disso, quando você contemplar os cortes dolorosos que estão sendo feitos em projetos sociais, lembre que, como o Wall Street Journal estimaou, aquilo que apenas 19 dessas empresas deixaram de recolher em impostos seria mais do suficiente para cobrir os 85 bilhões de dólares que geraram um impasse em torno do Orçamento no Congresso.
Os mais hábeis neste jogo são as empresas de tecnologia e as de saúde, que, como uma investigação do Senado no ano passado revelou, viraram especialistas em transferir faturamento para países de impostos baixos. No ano passado, a Microsoft elevou em 16 bilhões de dólares a parcela no exterior de seu faturamento global. Com isso, 60, 8 bilhões do faturamento da companhia em 2012 escaparam da tributação americana.
A Oracle aumentou sua participação estrangeira em um terço, Incluindo novas subsidiárias em países de impostos baixos como a Irlanda. A Abbott estima que economizou 1,6 bilhão de dólares em impostos dos EUA através de suas operações em mais de uma dúzia de países. Quase todo o faturamento da Johnson & Johnson — 14,8 de 14,9 bilhões dólares – está declarado no exterior, mas mesmo assim a empresa afirma ser uma empresa dos EUA.
Uma das companhias mais familiares aos americanos, a GE, que em uma época mais inocente contratou Ronald Reagan para fazer propaganda de seus produtos, é uma das campeãs em evasão. Hoje dois terços dos empregados da GE estão no exterior. A empresa evitou impostos nos Estados Unidos nos últimos dois anos e tem 108 bilhões de dólares depositados no exterior.
Reagan como garoto propaganda da GE
Reagan como garoto propaganda da GE
Dois anos atrás, o presidente Obama nomeou o CEO da GE Jeffrey Immelt para comandar seu Conselho de Empregos, apesar do fato de Immelt ter cortado a força de trabalho de sua empresa dos EUA por um quinto. A excelênia da GE não está mais na fabricação de aparelhos, mas na manipulação financeira.
Para todas estas corporações, o amor pelo lucro é maior do que a lealdade para o país.

domingo, 9 de março de 2014

A Ucrânia entre a guerra fria e a guerra quente

A Ucrânia entre a guerra fria e a guerra quente



A disputa da influência sobre o espaço pós-soviético, por parte dos Estados Unido e da UE, foi desde 1989, a continuação da guerra (fria) por outros meios.


José Manuel Pureza (*)
Arquivo

Se for verdade que a guerra é a continuação da política por outros meios, como sentenciou Clausewitz, não é a verdade inteira: também a política pode ser a continuação da guerra por outros meios. Sobretudo neste tempo em que as declarações solenes de fim das guerras não são mais do que momentos de reconfiguração das ditas que continuam por muito mais tempo, ainda que noutras vestes.

A Guerra Fria não terminou, mesmo que tenha sido declarada extinta em 1989 sobre os escombros do Muro de Berlim. E nem foi preciso a guerra de cinco dias na Geórgia para o provar. As revoluções coloridas que foram mudando as cores políticas do espaço pós-soviético já o tinham mostrado à saciedade. Porque, sendo expressões genuínas de protesto, social e politicamente muito heterogêneo, contra regimes autocráticos de perpetuação das novas nomenklaturas, essas revoluções foram invariavelmente financiadas, equipadas e politicamente apoiadas pelos Estados Unidos e pela União Europeia.

A disputa da influência sobre o espaço pós-soviético foi, pois, desde 1989, a continuação da guerra (fria) por outros meios. Nessa disputa, a União Europeia assumiu-se e foi assumida como referência sedutora, promessa de prosperidade econômica e de cumprimento de todas as fantasias consumistas, a que acrescia a chancela internacional de transições democráticas de baixíssima densidade e a garantia de segurança contra qualquer tentação revanchista da Rússia.
 
O redesenho foi-se processando paulatinamente, primeiro a coberto da falência do Estado russo e depois sob o compromisso de manutenção do statu quo do anel de proximidade imediata da Rússia. A quebra desse compromisso teve um primeiro ensaio em 2008 na Geórgia e a isso a Rússia respondeu com cinco dias de metralha e o apoio estratégico à secessão da Abecásia, da Ossétia do Sul e da Transnístria.

Agora disputa-se a Ucrânia. Ou seja, disputa-se um mercado de mais de 40 milhões de pessoas, disputa-se um importante produtor de alimentos e disputa-se um território até agora nevrálgico para a passagem do gás da Rússia para a Europa. É uma disputa entre credores. Por um lado, a Rússia quer aglutinar a Ucrânia no seu projeto de integração regional - a Eurásia - juntando-a à Bielorrússia, ao Cazaquistão e à própria Rússia. E como a um país falido não é preciso prometer mundos e fundos para o cativar, bastou a promessa de um crédito de 15 mil milhões de dólares e a baixa substancial do preço do gás natural para Kiev se inclinar para esse lado. Por outro lado, a União Europeia - leia-se, a Alemanha - quer atrair a Ucrânia como mercado e já anuncia a bem nossa conhecida "inevitabilidade de reformas estruturais".

É esta vampirização da Ucrânia pelas potências que está em jogo por estes dias. Nesse jogo só há uma certeza: os ucranianos sairão sempre a perder, seja qual for o credor que lhes couber em sorte. Haja ou não divisão do país em dois, prevaleça a política como continuação da guerra por outros meios ou prevaleça a guerra como continuação da política por outros meios, aos ucranianos será só dada a mais sórdida das escolhas: entre o sufoco das liberdades às mãos dos tiranetes de turno e o sufoco das vidas às mãos dos tecnocratas das reformas estruturais. A tragédia dos povos da Ucrânia é essa mesmo: a história fez deles peões de um jogo jogado sempre por outros. Que para qualquer desses outros, a guerra ou a política - ou seja, a guerra quente ou a guerra fria - sejam apenas escolhas técnicas para obterem os mesmos resultados só acrescenta tragédia ao horizonte das gentes da Ucrânia.
 
(*) Publicado originalmente no Diário de Notícias, de Portugal.

Créditos da foto: Arquivo



sexta-feira, 7 de março de 2014

Globalização exige mais proteção social e não menos, diz economista

Globalização exige mais proteção social e não menos, diz economista 

 

Proteções sociais adequadamente projetadas não apenas podem aumentar o bem-estar social, mas devem também favorecer maior crescimento. 

 

Roberto Pizarro (*)

Blog do Autor http://pizroberto.blogspot.com.br/2010/11/perfil-de-roberto-pizarro.html

Em seu recente livro “A busca pela segurança”, o economista Joseph Stiglitz nos diz que a globalização incrementou a escala e a velocidade dos perigos econômicos e sociais. Há maior insegurança. Os problemas mundiais atravessam as fronteiras rapidamente. Os países com abertura econômica rápida e radical, como o Chile, recebem os impactos inevitáveis da crise em outras latitudes. O último exemplo foi o fracasso das hipotecas subprime nos Estados Unidos, o que afetou seriamente as finanças e a atividade produtiva em todo o mundo – e que, na América Latina, produziu uma forte queda no crescimento econômico.

Por outro lado, a globalização reduziu a capacidade do Estado no âmbito tributário. Os países emergentes, em vez de entrar em um acordo, acabam competindo na redução de taxas para atrair investimentos. Dessa forma, o capital transita através das fronteiras, evitando os lugares em que considera haver maior pressão impositiva e se dirige àqueles países que lhe outorgam um trato mais favorável.

Isso ainda é favorecido pelos Tratados de Livre Comércio (TLC), que obrigam um trato privilegiado ao capital, além de uma segurança jurídica inédita, garantida pelos bancos privados internacionais – o FMI, o Banco Mundial e a OMC.

Consequentemente, a falta de proteção social não apenas tem impacto direto nas condições de vida das pessoas, mas também um efeito macroeconômico que nem sempre se compreende.

Além disso, essas organizações forçam os países no sentido de abolir qualquer norma que ajude a estabilizar os fluxos de capital através das fronteiras, com efeitos traumáticos para a macroeconomia. O mesmo, no entanto, não acontece com o trabalho: não existe livre mobilidade através das fronteiras. Como consequência, o capital alcança seu maior lucro onde não há regulações; existem melhores taxas de lucros e menos impostos, mas o trabalho não pode se movimentar livremente aos lugares onde existem os melhores salários.

Com baixos níveis de captação tributária, o Estado é minimizado e reduz sua capacidade de cumprir com suas funções de proteção de direitos. A abertura econômica gera incerteza e a falta de proteção social do Estado é acentuada.

A debilidade da proteção social é consequência de um Estado frágil, com captação insuficiente de impostos, mas é também o resultado de políticas deliberadas de privatização dos serviços sociais, agora transformados em negócios: saúde, educação e orçamento.

O Chile é um exemplo significativo de falta de segurnaça social. Os baixos níveis de sindicalização e negociação coletiva debilitaram o trabalho decente. As aponsentadorias são baixíssimas e estão sujeitas às decisões de investimento das AFP (Administradoras de Fondos de Pensiones). A educação é muito cara. A saúde para os pobres e para os setores médios depende de maus hospitais, abarrotados de doentes mal atendidos, enquanto que a saúde para os ricos (das Isapres) é cara e discriminatória contra as doenças preexistentes e as mulheres grávidas.

A debilidade dos sindicatos, em nome da flexibilidade trabalhista, fez melhorar a taxa de lucros do capital, mas impôs elevados custos às pessoas, restando a elas as economias ganhas ao longo de sua vida, e com impacto visível na perda de sua segurança.

O pensamento neoliberal e suas políticas supõem que a livre mobilidade do capital, as baixas taxas, os menores investimentos públicos no bem-estar social, o trabalho flexível e inclusive a redução das proteções ambientais melhoram a competitividade dos países e lhes conferem maior agilidade no marco da economia global. E isso favoreceria o crescimento, a eficiência e o bem-estar social.

Stiglitz ressalta que essa visão é um erro profundo, já que “... a globalização desenfreada levou ao aumento da desigualdade e da falta de segurança. E a falta de segurança solapa a boa disposição dos indivíduos para empreender atividades de grande rentabilidade com altos riscos, fazendo com que o crescimento diminua”.

Consequentemente, a falta de proteção social não apenas tem um impacto direto nas condições de vida das pessoas, mas também um efeito macroeconômico que nem sempre é compreendido. De fato, quando a verba das aposentadorias e dos salários é deteriorada, o consumo e a poupança são reduzidos. Mais ainda, quando a educação é muito cara, grande parte da renda familiar se torna vulnerável e, inclusive, comprometida com futuros e custosos créditos. Por outro lado, a falta de proteção social impede os afetados de assumir riscos. Portanto, um Estado mínimo, que não cumpre com suas funções sociais básicas, desanima os inovadores e a todos aqueles dispostos a assumir riscos.

Em suma, diferentemente do que prega o pensamento neoliberal, a globalização aumentou a necessidade de proteção social. É necessária maior segurança. A globalização nos coloca o desafio de manter a estabilidade econômica, mas também exige um redesenho da segurança das pessoas. Proteções sociais adequadamente projetadas não apenas podem aumentar o bem-estar social, mas devem também favorecer maior produção e crescimento.


(*) Economista da Universidade do Chile, com estudos de pós-graduação na Universidade de Sussex (Reuni Unido). Pesquisador do Grupo Nueva Economia, foi decano da Faculdade de Economia da Universidade do Chile, ministro do Planejamento e reitor da Universidade Academia de Humanismo Cristão (Chile). Artigo publicado no AmericaEconomia.


Tradução: Daniella Cambaúva
Créditos da foto: Blog do Autor http://pizroberto.blogspot.com.br/2010/11/perfil-de-roberto-pizarro.html

quinta-feira, 6 de março de 2014

A crise do euro estende-se ao norte da Europa

A crise do euro estende-se ao norte da Europa



A crise do euro estende-se aos países do norte da Europa. Os problemas financeiros agudizaram-se na Bélgica, Finlândia, Áustria, Noruega e Suécia.


Marco Antonio Moreno
Arquivo
As qualificações de crédito da Bélgica e da Finlândia desceram rapidamente. Enquanto isso, a Áustria enfrenta sérios problemas com o Banco Hypo Alpe Adria que recebeu 5 bilhões de euros do governo e está à beira da falência. A França enfrenta um alto endividamento e um crescimento estagnado. Noruega e Suécia sofreram quedas na produção industrial e no emprego.
 
Para dizer a verdade, Grécia, Chipre e Espanha já não estão na vanguarda da crise ainda que os problemas que estes países têm sejam de longo alcance. A crise começou a deslocar-se para os países do norte da Europa e isto não pode ser visto como uma tempestade num copo de água. Há algumas semanas apontávamos que as provas de stress do Banco Central Europeu dão negativo a grande parte da banca europeia e requerem 770 bilhões de euros de capital fresco.
 
Os bancos que requerem esta soma (mais de um trilhão de dólares) não são precisamente da Grécia, Chipre ou Espanha, mas sim dos grandes países europeus: Alemanha, França e Itália. São de lá os bancos que estão com grandes problemas, e a sua magnitude ameaça provocar sérias consequências nos seus países e nos países vizinhos dado que absorveram bilionários resgates de governos que hoje estão altamente endividados.
 
Dos 770 bilhões de dinheiro fresco que requer a banca, os banqueiros franceses precisam de 285 bilhões de euros, os alemães de 200 bilhões de euros e os italianos de 150 bilhões de euros. Isto é muito mais que o montante total dos resgates da Grécia, Chipre e Espanha, pelo que não deve ser considerado um problema menor.
 
O Banco Central Europeu (BCE), sob o comando de Mario Draghi, ofereceu quantidades ilimitadas de financiamento aos bancos, sem reconhecer que eles representam um sistema parasitário da economia real.
 
A corda bamba dos créditos é uma faca de dois gumes que reverte a atividade pela via da deflação e da estagnação económica. Não consegue dar um empurrão à economia real. As medidas do BCE não puderam dar um impulso à inflação, e esta, em toda a zona euro, mantém-se muito abaixo dos objetivos de política monetária. Por isso existem duas opções para o tratamento destas provas de stress: ou se realizam de maneira objetiva e livres de qualquer pressão política; ou Alemanha, França e Itália exercem toda a pressão política que têm com o fim de manipular os resultados reais das provas. Destas duas opções a segunda é a que passa mais despercebida, mas é também a mais amigável para os banqueiros experientes na manipulação de resultados.

 
Tradução de Carlos Santos para o esquerda.net.


Créditos da foto: Arquivo

Cinco perguntas e respostas sobre a invasão russa da Crimeia

Cinco perguntas e respostas sobre a invasão russa da Crimeia



Andando por aqui, seria impossível pensar que todas as TVs do mundo olham para este lugar como uma zona de guerra. Mas as bases militares estão cercadas.


Alberto Sicília - Principia Marsupia
 Forças russas cercando a base de Perevalnoe, Crimeia. Fotografía de Alberto Sicilia.

1. A Rússia já controla a Crimeia?

Sim. As forças russas controlam todos os pontos estratégicos desta península e mantêm cercos a todos os quartéis do exército ucraniano.

Até agora não ocorreu nenhum confronto armado e é provável que não seja disparado um só tiro: as forças ucranianas sabem que não teriam qualquer possibilidade de vitória se começasse a guerra.

2. E a população tem muito medo dos russos?

Não. Bem pelo contrário. A maioria da população da Crimeia está muito contente com a chegado dos russos.

Há que recordar que a maioria aqui é de origem russa e que eram contra as manifestações na praça de Kiev. Assustaram-se muitíssimo quando caiu o governo de Ianukovich.

Quem agora tem medo na Crimeia são as minorias ucraniana e tártara.

Os tártaros são o povo autóctone da Crimeia. Durante a Segunda Guerra Mundial, alguns colaboraram com o Exército Nazi. Stálin acusou todo o povo tártaro de “colaboracionismo” e deportou-o para o Uzbequistão, a milhares de quilômetros daqui. Em 1947, os tártaros tinham desaparecido da Crimeia. Desde a queda da União Soviética, milhares de tártaros voltaram mas ainda continuam a ser uma minoria.

3. Há tanques pelas ruas?

Não. A vida nas ruas das cidades da Crimeia continua o seu ritmo quotidiano. Todas as lojas continuam abertas, as pessoas continuam a ir trabalhar e as crianças a ir à escola.

Passeando por aqui seria impossível pensar que todas as televisões do mundo olham para este lugar como uma “zona de guerra”.

A situação é muito diferente nas bases, a uma dezena de quilômetros da capital. Lá, os soldados russos cercam os soldados ucranianos.

4. O Kremlin ainda não confirmou que enviou tropas para a Crimeia e os meios de comunicação dizem que as tropas que cercam os quartéis não têm identificação. São, de fato, russos?

Sim, sem nenhuma dúvida. São forças especiais do Exército Russo.

As matrículas de seus veículos são do exército russo, a sofisticação dos equipamentos de comunicação que utilizam, as armas que têm e a disciplina e a organização tática que estão a demonstrar deixam claro que não se trata de um “pequeno grupo de paramilitares pró-russos”.

Apesar de o Kremlin não ter confirmado, aqui no terreno todas as pessoas (tanto a maioria que está a favor da intervenção quanto as minorias que se opõem) têm claro de que se trata de forças russas.

Um ponto mais: que as forças especiais de qualquer exército não levem distintivos em ação é uma prática bastante habitual. Isso proporciona ao seu governo “tempo diplomático” para criar factos sobre o terreno antes de negociar com outros países.

Por exemplo, o destacamento de Navy Seals que os EUA enviaram ao Paquistão para matar Bin Laden também não tinha qualquer distintivo. Se a operação tivesse saído mal, Obama teria negado que essas tropas (que entraram num país soberano sem permissão) fossem suas.

5. O governo de Kiev qualificou de ato de guerra” a intervenção russa e disse que responderá militarmente. Está para começar uma guerra pela Crimeia?

Eu acho que não.

Parece-me que o presidente interino da Ucrânia fez essas declarações virado para a plateia internacional. Quer chamar a atenção sobre a situação do seu país para que a Europa e os EUA o ajudem, sobretudo economicamente. As reservas do Banco Central da Ucrânia são ínfimas atualmente.

O governo de Kiev sabe que já perdeu a Crimeia. E o problema para eles não só são as tropas do Kremlin mas sim que, além disso, a maioria da população aqui apoia os russos e considera ilegítimo o governo de Kiev.

A única coisa que poderia desestabilizar a Crimeia hoje é que as minorias tártara ou ucraniana formassem algum tipo de guerrilha ou comando de autodefesa. Por agora não temos nenhuma notícia a esse respeito.
 
 

NOTA: Continuo na Crimeia e durante todo o dia continuarei a contar minuto a minuto o que vejo.
 
(*) Publicado originalmente no blog Principia Marsupia, de Alberto Sicilia.


Créditos da foto: Forças russas cercando a base de Perevalnoe, Crimeia. Fotografía de Alberto Sicilia.