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sábado, 2 de novembro de 2013

Guerra síria vive estagnação no campo de batalha e na diplomacia

Guerra síria vive estagnação no campo de batalha e na diplomacia

Apesar de Assad clamar vitória, nenhuma das partes envolvidas no conflito conseguiu avanços territoriais significativos nos últimos meses. Ao mesmo tempo, crescente divisão entre rebeldes torna saída política improvável.
Desde que, em junho passado, as tropas do regime de Bashar al-Assad tomaram, com ajuda da milícia Hisbolá, a cidade de Al-Kusair, nenhuma das partes envolvidas no conflito clamou uma grande conquista territorial. Os frontes da guerra civil síria são, hoje, amplamente solidificados.
Em Deraa, no sul do país, os rebeldes dominaram o centro histórico, mas não conseguiram expulsar as forças de Assad da cidade. Situação similar vive a província de Deir al-Sor, rica em petróleo. Ali, só os radicais islamistas ampliaram sua zona de influência, ainda que às custas dos rebeldes.
Segundo Joshi Shashank, especialista em síria do Royal United Services Institute (Rusi), chegou-se a um impasse no campo de batalha. Todas as partes, afirma, reforçaram os postos já conquistados. O regime controla agora um corredor de Deraa, passando por algumas áreas de Homs e a oeste em zonas na costa do Mediterrâneo. Ao mesmo tempo, rebeldes estão cada vez mais fortes no noroeste, ao longo do rio Eufrates e da fronteira com o Iraque.
"A diferença no lado rebelde é que não há uma aliança uniforme que controle o território conquistado", diz Shashank. Curdos contra jihadistas ligados à Al-Qaeda são responsáveis, por exemplo, pelas maiores rixas interna entre a oposição.
Ceticismo sobre negociações
Apesar dos mais de dois anos e meio de guerra e das mais de 100 mil mortes, nenhum lado dá sinais de que vai se entregar. O regime de Assad, a propósito, parece se ver numa posição mais forte do que antes.
"O regime conta que os rebeldes vão acabar se cansando", diz Eyal Zisser, especialista em Síria da Universidade de Tel Aviv. "Quando se batalha pela vida, a questão da sobrevivência é um tipo de vitória."
O ditador Bashar al-Assad, que se recusa a deixar o poder
Shashank diz que Assad de fato acredita ter uma posição mais favorável e faz uma comparação do panorama atual com meados de 2012, quando as tropas do regime pareciam estar perdendo terreno. "Fazendo essa comparação, o regime está indo muito bem", afirma o pesquisador do instituto Rusi.
Apesar das poucas mudanças no campo de batalha, o governo sírio pode comemorar avanços no campo diplomático. Ao aceitar a destruição de suas armas químicas, Damasco abriu um novo canal com a comunidade internacional – e afastou o risco de uma intervenção militar americana.
Shashank explica que o Ocidente está cada vez mais hesitante em apoiar uma oposição cada vez mais dividida e influenciada pelo crescimento dos islamistas. Por isso, afirma, Assad deveria considerar participar das negociações de paz marcadas para o próximo dia 23, em Genebra.
Albert Stahel, especialista em estudos estratégicos, ressalta que as conversas na Suíça podem levar a uma pressão para a renúncia de Assad, mas sem implicar uma transição fundamental de poder na Síria. "O regime não pode colapsar. Ninguém quer que isso aconteça", opina.
Um país dividido
Turquia e Arábia Saudita, explica o especialista, gostariam de ver o poder passado aos rebeldes. Todos os demais parecem concordar, apesar dos repetidos apelos para Assad renunciar, que o regime em Damasco deve ser mantido, em prol da estabilidade. E é nesse ponto que os interesses de EUA, Rússia e Irã convergem.
Guerra civil na Síria já deixou mais de cem mil mortos em dois anos e meio
Por sua parte, os rebeldes dizem só parar de lutar após a renúncia de Assad, que rejeita categoricamente a ideia. Uma solução política parece distante – mesmo alas da própria oposição já disseram que não irão a Genebra. A Coalizão Nacional Síria, que agrupa várias facções anti-Assad, ainda não confirmou presença.
Na prática, a Síria é um país dividido – uma colcha de retalhos repartida entre grupos pró-regime, curdos, salafistas, islamistas e outros vários. Se nem a diplomacia, nem o combate podem levar a guerra a um fim, a comunidade internacional pode se ver forçada, eventualmente, a aceitar um país dividido. Albert Stahel, porém, duvida que a situação chegue a tal extremo.
Shashank, por sua vez, diz que há preocupação em alguns países de que a Síria venha a repetir alguns elementos da história recente iraquiana. Em 1991, parecia que Saddam Hussein estava prestes a sair do poder. O Iraque enfrentava, após a Primeira Guerra do Golfo, zonas de exclusão aérea, embargo ao petróleo e revoltas ao então cada vez mais fragilizado ditador. "Parecia que era o fim da linha, mas depois ele acabou aguentando por mais 12 anos", lembra.

DW.DE

Morte de líder do Talebã no Paquistão pode comprometer negociações de paz

Morte de líder do Talebã no Paquistão pode comprometer negociações de paz


Atualizado em  2 de novembro, 2013

A morte de Hakimullah Mehsud, o líder do TTP, o grupo talebã no Paquistão, parece ter comprometido as negociações de paz que o governo paquistanês esperava realizar em breve com os militantes.
O ministro do Interior do Paquistão, Chaudhry Nisar Ali Khan, descreveu o ataque americano com drones como "uma tentativa de sabotar as negociações".
Ele disse que o ataque aconteceu um dia antes de uma delegação de três membros do governo seguirem para o noroeste do país para iniciar as negociações de paz com o grupo de Mehsud.
As autoridades paquistanesas esperavam que os ataques aéreos parassem próximo ao início das negociações.
Porém, isso foi antes de dois ataques acontecerem na quinta e na sexta-feira na região do Waziristão do Norte, principal reduto do Talebã e da Al-Qaeda na região.
Mehsud foi morto junto com outras quatro pessoas, incluindo dois de seus guarda-costas, quando quatro mísseis atingiram seu veículo, um oficial do Talebã disse à BBC.

Sabotagem

Há muito tempo que o paquistaneses reclamam que os americanos usam ataques aéreos na região para sabotar as perspectivas de paz com os militantes.
A morte de Waliur Rehman, o número 2 do TTP, em maio, levou Khan a observar que "sempre que há uma tentativa de quebrar barreiras com o Talebã, algo dá errado."
No entanto, muitos no Paquistão sentem que o golpe que matou Hakimullah Mehsud pode realmente estimular os militantes a concordarem com uma negociação de paz com o governo paquistanês.
Há algumas semanas Mehsud deu uma rara entrevista à BBC, na qual ele descreveu suas condições para um acordo de paz - incluindo a introdução de uma versão dura e controversa da lei islâmica no Paquistão.

Nova liderança

Com Mehsud agora fora de cena, os grupos mais influentes que permanecem no TTP são os que têm favorecido as negociações de paz.
Um deles inclui os partidários do grupo de Waliur Rehman, agora liderado pelo comandante Khan Said Sajna.
Waliur Rehman se candidatou à liderança do TTP quando o líder fundador do grupo, Baitullah Mehsud, foi morto em um ataque com drones em 2009, mas perdeu para Hakimullah Mehsud.
Sajna, que favorece o diálogo com o governo paquistanês, é agora apontado para suceder Hakimullah Mehsud.
Os homens de Sajna têm lutado, e quase ganharam, uma guerra por territórios com os homens de Hakimullah Mehsud em Karachi, a maior cidade do Paquistão, que também é um importante centro de negócios para operações criminosas.
O outro grupo é liderado pelo influente Asmatulah Muawiya, que saudou publicamente a oferta de negociações de paz proposta em agosto pelo primeiro-ministro paquistanês Nawaz Sharif, e foi repreendido pela liderança do TTP por fazê-lo.
Embora o grupo de Muawiya não tenha esperanças em liderar o TTP, que é essencialmente controlado por homens da tribo de Mehsud, eles constituem uma força substancial fornecendo combatentes altamente treinados e ideologicamente motivados.

Talebã

O movimento radical islâmico provou ser uma grande força de combate no Afeganistão e uma forte ameaça para o seu governo.
O Talebã também ameaça desestabilizar o Paquistão, onde controla áreas no noroeste e tem sido responsabilizado por uma onda de atentados suicidas e outros ataques.
O movimento surgiu no início dos anos 1990 no norte do Paquistão após a retirada das tropas soviéticas do Afeganistão.
O Paquistão negou repetidamente ser responsável pela formação do grupo. Mas há pouca dúvida que, inicialmente, muitos afegãos que aderiram ao movimento foram educados em madrassas (escolas religiosas) no país.
Junto com a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos (EAU), o Paquistão foi também um dos únicos três países que reconheceram o Talebã quando este estava no poder no Afeganistão a partir de meados da década de 1990 até 2001. E foi o último país a romper relações diplomáticas com o grupo.
Embora o Paquistão tenha adotado uma linha mais dura contra os militantes talebãs nos últimos anos em seu território, o primeiro-ministro Nawaz Sharif, eleito em maio, disse que negociar com os militantes era uma de suas prioridades.
Nos últimos meses, pelo menos três principais líderes do talebã paquistanês foram mortos em ataques aéreos norte-americanos.

Profissional ou traidor? - Polêmica injusta envolve atleta brasileiro que atua no futebol espanhol, CBF tentou até tirar a cidadania brasileira de Diego Costa, um absurdo sem precedentes!

Profissional ou traidor?



Ao preferir a Espanha, país onde construiu sua carreira, e abrir mão de defender o Brasil na Copa, o artilheiro Diego Costa divide a torcida brasileira



Rodrigo Cardoso
Assista a lances habilidosos e belos gols do atacante Diego Costa, do Atlético de Madri:
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Na terça-feira 29, o brasileiro com cidadania espanhola Diego Costa protocolou em um cartório o desejo de defender a seleção da Espanha. Ao tomar essa decisão, ele recusou, automaticamente, a convocação feita uma semana antes pelo técnico Luiz Felipe Scolari, que o queria em campo nos dois amistosos que o Brasil fará em novembro. E abriu mão de vestir a camisa da Seleção na Copa, no ano que vem. Ser disputado pela atual campeã do mundo e pela recordista de títulos mundiais deveria ser somente motivo de orgulho para esse jogador de 25 anos, que deixou a pequena cidade de Lagarto, no interior do Sergipe, aos 16. Atacante do Atlético de Madrid e atual artilheiro do campeonato espanhol, Diego, porém, frustrou parte da torcida brasileira. E tornou-se protagonista dos debates esportivos no País, embora pouco tenha atuado nos gramados brasileiros.
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NA FÚRIA
Por não ter disputado um torneio oficial pelo Brasil – ele participou de dois amistosos,
em março deste ano (abaixo) –, o atacante brasileiro que defende o Atlético de Madrid
e lidera a artilharia do campeonato espanhol  está apto para defender a seleção da Espanha

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O assunto poderia ter se encerrado com a desconvocação do atacante, após o anúncio de sua decisão. Mas acabou saindo da esfera esportiva. Familiares do atacante, em Lagarto, preferiram manter o silêncio num primeiro momento, acuados com a perseguição patrocinada pelo presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), José Maria Marin. Representada por seu diretor jurídico, Carlos Eugênio Lopes, a entidade veio a público dizer que estuda cassar a cidadania brasileira do atleta. “O presidente me autorizou a instaurar um procedimento no Ministério da Justiça, pedindo a perda da cidadania brasileira, que Diego repudiou”, disse Lopes. Além de questionar a legalidade da opção do sergipano, o cartola tentou manchar a sua reputação. “É óbvio que a razão da escolha foi financeira”, afirmou Lopes.
O Ministério da Justiça, por meio de sua assessoria, apressou-se em dizer que os processos de perda de cidadania só são admitidos com uma declaração da pessoa interessada em deixar de tê-la. Independentemente disso, o estrago já foi feito. “É injusto o que tentam fazer com meu filho”, disse a mãe de Diego, Josileide Silva. “Ele ama o país onde nasceu. Não acredito que irá perder a cidadania.” O irmão, Jair Costa, 27 anos, teme que o jogador brasileiro seja vaiado se jogar pela Espanha no Brasil. “Mas ele foi corajoso, como demonstrou toda a vida”, afirmou Costa, que também já virou a camisa. “Se a Espanha fizer a final da Copa com o Brasil, vou torcer pelo meu irmão.” 
Antes de sair de Lagarto para peregrinar pelos campos do mundo, Diego ajudava o pai, um agricultor, plantando  mandioca e feijão. Já no futebol, jogou no Estado de São Paulo e em Portugal, mas foi na Espanha que começou a construir uma carreira sólida e criar uma nova identidade social. Sua ideia de pertencimento, portanto, está vinculada a esse país. Na cabeça dele, há mais dívidas com a Espanha do que com o Brasil, pelo qual disputou duas partidas não oficiais em março deste ano, o que lhe dá carta branca para servir à equipe espanhola. “Em momento nenhum eu renunciei ao Brasil. Simplesmente me sinto valorizado aqui (Espanha). Tudo o que eu sou devo a esse país”, afirmou. Para o sociólogo Túlio Velho Barreto, vice-coordenador do núcleo de sociologia do futebol da Fundação Joaquim Nabuco e da Universidade Federal de Pernambuco, outro fator importante é que Diego tem mais chances de ser titular no time espanhol.  “Na hora de uma decisão como essa prevalecem mais os interesses imediatos do negócio futebol do que a ligação de Diego ao país onde nasceu”, diz.
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A história do atacante do Atlético de Madrid está longe de ser incomum. O Brasil é tido como o maior exportador dos chamados “pés de obras”, jogadores que deixam o País sem ter feito carreira por aqui. E, no curso das andanças dessa turma, muitos criam interesses e identidade nos locais onde se desenvolvem. E esse processo só tende a crescer se a maneira de administrar o negócio futebol no País não mudar – a começar pela falta de atenção com os praticantes da modalidade em regiões distantes dos grandes centros. “Uma coisa é certa: a turma da patriotada sai ganhando com o episódio Diego Costa, pois o sentimento ufanista fica ainda mais aflorado”, diz Barreto. De fato, o brasileiro encara a Seleção de futebol como um símbolo da nacionalidade – de forma muito mais intensa que os outros países.

Black blocs incendeiam a campanha

Black blocs incendeiam a campanha



Baderna e vandalismo entram no debate político e obrigam autoridades a discutir novas formas de combate à violência



Paulo Moreira Leite e Josie Jeronimo
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CINZAS
Caminhão-cegonha e carros incendiados em protesto, em São Paulo 

A 11 meses da eleição presidencial e para governadores de Estado, os brasileiros estão diante de um problema tão difícil de definir quanto de resolver – a “baderna,”  também chamada de “vandalismo”, praticada pelo grupo que se define como “ Black Blocs.” Os protestos de junho e todas as mobilizações posteriores comprovaram que os métodos tradicionais do Estado brasileiro para garantir a liberdade política dos cidadãos sem comprometer a defesa da ordem e da lei necessitam de uma reforma urgente e ampla. O recurso automático de convocar soldados da Tropa de Choque para assegurar a paz das ruas com base na pura violência revelou-se um fracasso já nos primeiros dias, levando a diversos atos de repúdio por parte da sociedade. A atitude seguinte, de baixar a guarda e aceitar o que parecia um nível tolerável de baderna, só estimulou novos atos de violência civil e desmoralização da polícia. Depois de quebrar vidraças, automóveis e estações de metrô, a agressividade de civis mascarados atingiu o ponto culminante há duas semanas, quando um coronel da PM foi espancado no centro de São Paulo. Na cena seguinte, um estudante da periferia foi executado com um tiro no peito por um soldado da mesma PM. Em reação, integrantes do PCC – por que perderiam a oportunidade? – incendiaram caminhões e ônibus, além de bloquear uma rodovia federal, a Fernão Dias. Vinte e quatro horas depois, mais uma morte e novos bloqueios. Repetindo uma postura que já assumira na primeira semana de protestos, a presidenta Dilma Rousseff elevou o tom na semana passada: “Defendo qualquer manifestação democrática. Agora, acredito que a violência dos mascarados não é democrática, é antidemocrática, é uma barbárie, e tem de ser impedida.” Os black blocs entraram de vez na campanha.
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Por determinação da presidenta, na semana passada, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, encontrou-se com Fernando Grella, secretário de Segurança de São Paulo, e Mariano Beltrame, titular do mesmo posto no Rio de Janeiro. Num reflexo das dificuldades para se travar uma discussão dessa natureza, ainda mais com uma eleição no horizonte – quando ninguém quer se arriscar com medidas capazes de dificultar a busca de votos – no final foram anunciadas medidas razoáveis, previsíveis e triviais. Cardozo disse que a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) tentará rastrear responsáveis pela baderna. Grella pediu um agravamento na pena de prisão de manifestantes violentos. Beltrame lembrou que é preciso oferecer uma resposta equilibrada ao assunto. “Nosso foco é a ordem, sem a ordem não há democracia. Mas esse problema não vai se resumir a um policial fardado, precisa ser enfrentado também por outros atores”, afirmou.
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Para  Carlos Ranulfo, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), “as manifestações violentas não têm legitimidade, porque agridem o Estado de Direito, e os governadores irão se desgastar se não souberem reagir”, afirma o professor, lembrando que, para a maioria dos brasileiros, a violência é um problema de responsabilidade dos governos estaduais e não do governo federal. Em Pernambuco, Estado de Eduardo Campos,  o secretário de Defesa Social Wilson Damázio transformou-se num ídolo local ao fazer a violência recuar. Damázio alterou o protocolo de atuação da polícia para impedir mascarados de protestarem nas ruas e garantiu que, antes de cada manifestação, a tropa de choque revistasse mochilas. “A polícia foi orientada a proteger os transeuntes e manifestantes pacíficos e a deter quem danifica patrimônio público e privado,” afirma Damázio.
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Naturalmente, não se trata da única mudança possível. A violência da PM contra a população civil é uma tragédia conhecida, que alimenta uma roda sem-fim de agressões. O Congresso começou a discutir dois projetos sobre o assunto. No Senado, debate-se uma emenda constitucional para desmilitarizar as PMs, medida que, conforme a imensa maioria dos estudiosos, poderia contribuir para que abandonem as práticas herdadas do regime militar para submeter-se às regras da democracia. Outro projeto, número 4.471/12, exige uma investigação formal e rigorosa diante de toda morte ocorrida em confrontos com a PM, eliminando  os tristemente célebres “autos de resistência seguida de morte” que costumam acobertar execuções sumárias. O eleitor terá a chance de saber quem, em ano eleitoral, irá fazer este debate. 
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sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Entrevista - Magid Shihade: “Israel não tem interesse na criação de Estado palestino”

Entrevista - Magid Shihade: “Israel não tem interesse na criação de Estado palestino”


Em entrevista, professor da Universidade de Birzeit, na Cisjordânia, vê as atuais negociações de paz entre Israel e Palestina com ceticismo. Por Gianni Carta

por Gianni Carta — publicado 01/11/2013
Magid Shihade
Magid Shihade, professor de Relações Internacionais da Universidade de Birzeit
Magid Shihade, professor de Relações Internacionais da Universidade de Birzeit, na Cisjordânia, atualmente a lecionar sobre Oriente Médio e Ásia do Sul na Universidade da Califórnia, em Davis, vê as atuais negociações de paz entre Israel e Palestina com ceticismo. Para o acadêmico, Israel fará o possível para impedir a existência do Estado da Palestina. Para justificar seu pessimismo, Shihade aplica a tese já defendida no seu último livro, Not Just A Soccer Game: Colonialism and Conflict Among Palestinians and Israel (Syracuse University Press, 2011, 175 págs., 23 libras esterlinas). “O Estado israelense é um Estado colonial judeu voltado a afirmar a supremacia racial, visando tornar os judeus grupo dominante por sua própria natureza.” Daí, continua Shihade, “seu interesse e seu raciocínio é marginalizar os não judeus (palestinos), deslocá-los se possível, como fez com milhões de refugiados, e mantê-los como uma subclasse de cidadãos-súditos, sempre inseguros quanto a seu futuro.”
CartaCapital: A paz israelo-palestina ainda é a questão central em um mundo árabe assolado por uma guerra civil na Síria e crises 
no Egito, Líbia e Tunísia, entre outros países?

Magid Shihade: É uma questão central por causa da importância de Israel para o Ocidente e, principalmente, para os Estados Unidos. Ao mesmo tempo, a Palestina é tema de grande importância para o público árabe.
CC: Segundo William Hague, ministro britânico do Exterior, “a janela está se fechando”. Já não está fechada?
MS: Essa declaração foi feita por inúmeras autoridades europeias e norte-americanas. Elas sabem que Israel não está interessado na criação de um Estado palestino. Portanto, continuam a dizer a mesma coisa só para dar uma ilusão de possibilidade, de esperança. Essas autoridades sabem que as políticas israelenses, incluindo a constante erosão dos territórios da Cisjordânia por meio da construção e expansão de assentamentos, é um fato que todos os governos israelenses continuam a colocar em prática.
CC: A questão dos refugiados palestinos é uma das principais sobre a mesa de negociações. Dos 800 mil árabes que fugiram para a Cisjordânia, Estreito de Gaza e mundo afora em 1948, só 60 mil estão vivos. Aparentemente, o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, concordou com os israelenses de que os palestinos nunca retornem para suas casas em Israel.
MS: Os refugiados palestinos fugiram da Palestina em 1948 e muitos deles foram expulsos por sionistas e depois por tropas de Israel. Os israelenses fizeram isso não apenas durante a guerra de 1948, mas também durante a guerra de 1967. Esses sobreviventes são os avós e os pais de milhões de palestinos que vivem hoje no Líbano, Jordânia, Síria e em outros lugares. As resoluções da ONU e a lei internacional lhes dão o direito de retornar se desejarem, ou de receber indenização. Israel ainda hoje não assumiu a responsabilidade por isso. O equilíbrio de poder entre a Organização para a Libertação da Palestina (OLP, uma confederação multipartidária)/Autoridade Palestina e Israel não estabelece condições para que Israel assuma a responsabilidade por ter criado a questão dos refugiados palestinos e para poder agora corrigi-la. Na verdade, duvido que qualquer líder palestino se oponha ao retorno a Israel dos refugiados. No entanto, Israel não permitirá que isso ocorra. As potências ocidentais, especialmente os EUA, concordam com Israel.
CC: O premier Ismail Haniyeh é ingênuo ao pensar que o Hamas pode se aliar ao Fatah, enquanto Benjamin Netanyahu continua a colonizar a Cisjordânia?
MS: O Hamas não aceitará a reconciliação com o Fatah, a menos que o Hamas domine a política da Palestina. Esse também é o caso das negociações do Fatah, a governar a Cisjordânia, em relação ao Hamas. Ambas são legendas que, por sua própria natureza, visam à dominação política. E muitas vezes trabalham para esse fim, mesmo ao custo das metas nacionais da população palestina.

China mira países ricos e reduz investimentos no Brasil

China mira países ricos e reduz investimentos no Brasil


Atualizado em  1 de novembro, 2013
Dólar e yuan. Reuters
Investimentos chineses estão mais diversificados, com maior participação de empresas privadas

O apetite da China por recursos naturais continua grande, mas as investidas do país no exterior já não se limitam a projetos ligados à extração e obtenção de matéria-prima que, num passado recente, chegaram a elevar o Brasil ao topo da lista dos países que mais receberam investimentos diretos dos chineses.
No que alguns economistas definem como uma "nova onda", os investimentos chineses no exterior estão mais diversificados, com maior participação de empresas privadas, revelando uma aposta em setores como imobiliário e de tecnologia e foco em países ricos.
Nesse cenário, os investimentos diretos chineses no Brasil, após atingirem seu ponto máximo em 2010, vem sofrendo queda desde então, segundo o levantamento China Global Investment Tracker, do centro de pesquisas Heritage Foundation, em Washington.
De acordo com o levantamento, que só leva em conta investimentos de mais de US$ 100 milhões e não inclui títulos públicos, em 2010 o Brasil foi o principal destino de investimentos diretos chineses, com US$ 13,7 bilhões.
Em 2011, o montante caiu para US$ 8,63 bilhões. No ano passado foram US$ 3,37 bilhões e neste ano, até agora, menos de US$ 1 bilhão.
"A concentração de investimentos no Brasil fez parte de um ciclo (?)", disse à BBC Brasil o economista Derek Scissors, especialista em China do American Enterprise Institute e um dos responsáveis pelo levantamento da Heritage Foundation.

Destinos

Scissors lembra que, em 2006, a China concentrava seus investimentos na Austrália. Dois anos depois, o foco era a África Subsaariana, destino substituído pelo Brasil a partir de 2010.
Nos últimos dois anos, observa Scissors, a China tem investido pesadamente nos EUA e no Canadá.
"É um movimento normal, é assim que a China costuma agir. Concentra investimentos em uma região e, passado algum tempo, parte para outra", afirma.
Segundo a Heritage, se somado o total acumulado desde 2005 o Brasil é o quarto principal destino de investimentos da China, com US$ 28,2 bilhões.
O ranking é liderado pela Austrália (US$ 58,2 bilhões), seguida por EUA (US$ 57,6 bilhões) e Canadá (US$ 37,6 bilhões).

Mudança

O economista Claudio Frischtak, consultor do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), observa que até 2010 os investimentos chineses no Brasil foram caracterizados pela concentração em matérias-primas, principalmente petróleo e gás.
Empresas chinesas investiram em projetos de produção agrícola, exploração de petróleo, construção de dutos, iniciativas com o objetivo de expandir e dinamizar o complexo exportador brasileiro.
"A grande mudança após 2010 é a tentativa das empresas chinesas, ainda em curso, de diversificação e basicamente de estabelecer uma plataforma de manufaturas no Brasil", disse à BBC Brasil Frischtak, que é coautor de um relatório do CEBC que analisa os investimentos chineses no Brasil entre 2007 e 2012.
"Mas minha percepção é de que já houve mais entusiasmo das empresas chinesas em relação ao Brasil", afirma.
Frischtak cita reclamações de empresas chinesas sobre problemas como a estrutura tributária complexa do Brasil, carga tributária pesada e restrições à entrada de mão de obra estrangeira.
"Hoje, do ponto de vista de atrair investimento chinês para o Brasil, a bola está muito mais com a gente do que com os chineses", diz Frischtak.
"Está muito mais no sentido de melhorar nosso ambiente de negócios, reduzir custos, melhorar nossa infraestrutura, fazer o país mais atraente como um todo", afirma, lembrando que os problemas também afetam os próprios investidores brasileiros.

Tendências

Segundo o analista Thilo Hanemann, especialista em China do Rhodium Group, a diversificação dos investimentos chineses e o crescente interesse nos EUA estão relacionados às mudanças em curso na economia do país asiático.
"Muitas empresas sofrem pressão para aumentar sua competitividade, melhorar sua tecnologia, expandir para mercados globais e diversificar seus negócios. Tudo isso levou ao atual interesse nas economias desenvolvidas", disse Hanemann à BBC Brasil.
"Apesar disso, ainda há um forte interesse em commodities. Petróleo, gás e agricultura vão continuar sendo parte importante dos investimentos chineses no exterior", observa.
Hanemann diz que as empresas chinesas estão investindo em recursos naturais também nos países desenvolvidos, principalmente EUA, Canadá e Austrália, onde encontram "acesso a esses recursos aliado a um ambiente político estável".
Outra tendência é o interesse no setor manufatureiro e de serviços e em setores que proporcionem segurança e possibilidade de lucros altos. Hanemann cita o crescente interesse dos chineses no setor imobiliário de cidades como Nova York.
"Vamos registrar um novo recorde de investimentos diretos chineses nos EUA neste ano. Até o momento, estamos em US$ 12 bilhões. E é uma tendência que deve continuar, está apenas começando", afirma Hanemann.
Para Scissors, porém, a concentração nos EUA deve durar pouco, assim como os ciclos anteriores. Ele aposta na Europa como próximo destaque nos investimentos chineses. E não descarta um retorno com força ao Brasil, no futuro.
"Não acho que vamos ver um aumento de investimentos chineses no Brasil em 2014 ou 2015. Mas o ciclo vai continuar", diz.
"Acredito que antes do fim da década pode haver um novo salto nos investimentos chineses no Brasil."

Os caçadores dos últimos criminosos nazistas

Os caçadores dos últimos criminosos nazistas


Após quase 70 anos do fim da Segunda Guerra, os últimos criminosos nazistas estão muito velhos. Ao persegui-los, as autoridades lutam contra o tempo

por Deutsche Welle — publicado 01/11/2013
Auschwitz
O campo de concentração de Auschwitz, na Polônia
Quando se pergunta a Andreas Brendel se é legítimo levar uma pessoa de 92 anos às barras do tribunal, a resposta é sucinta: "Crime de morte não prescreve", e, na qualidade de promotor, ele é obrigado a investigar acusações de assassinato. A mídia costuma lhe fazer perguntas como essa – afinal, nos últimos dez anos ele tem levado à Justiça um nazista atrás do outro.
Brendel, que é diretor da Central para a Elucidação de Crimes Nazistas, em Dortmund, sempre responde com dois argumentos. Primeiro, do ponto de vista puramente jurídico. Depois vem o adendo: "Temos ainda as vítimas e as famílias das vítimas. Para elas, é muito importante que haja um processo penal na Alemanha e que a culpa dos criminosos seja constatada. Independente de se o veredicto virá a ser executado, mais tarde. É importante que os investigadores alemães levem em consideração o destino dessas pessoas."
Confiança nos investigadores
Já Stefan Willms é chefe de comissariado em Düsseldorf. Ele dirige a equipe de investigação de crimes nazistas no Departamento Estadual de Investigações, único órgão da Alemanha voltado exclusivamente para esse tipo de delito. Assim, Willms é o colega mais próximo de Brendel na luta contra esses crimes praticados, na maioria das vezes, há 70 anos ou mais.
Willms lembra-se de um caso na Itália, o assassinato de 60 homens. Um a um, foram levados para um porão e executados. Seus últimos minutos foram passados diante de uma montanha de corpos. Somente um jovem sobreviveu.
Depois de relatar o curso dos acontecimentos ao comissário-chefe alemão, esse sobrevivente o abraçou e lhe agradeceu. "Ele disse que havia esperado por mim quase 60 anos, e que estava muito grato por eu ter vindo", lembra-se o comissário. "Aí se percebe como isso é importante para as pessoas."
Sentado em seu escritório em Düsseldorf, usando calça jeans e camisa quadriculada, o cabelo castanho encaracolado, Willms tem algo de jovem rebelde, apesar de algumas mechas grisalhas. Atrás dele, vê-se um grande cartaz de exposição: A polícia no Estado nazista.
Ele afirma que o fato de ter nascido muito depois da guerra, em 1959, talvez o ajude nas investigações. As vítimas sabem que ele é jovem demais para que pudesse estar envolvido nas ações cruéis dos nazistas. Mesmo assim, "nota-se que, na condição de alemão, tem-se certa responsabilidade pelo que aconteceu". O fato é que ele nunca se sente à vontade nas investigações nos locais dos crimes.
Justiça atrasada?
De terno escuro, camisa e gravata branca, óculos de tartaruga, Andreas Brendel entra no prédio. O caso Siert Bruins está sendo julgado na sala do júri do Tribunal Regional de Hagen. Hoje com 92 anos, ele é acusado de participar do assassinato de um membro da resistência no porto holandês de Delfzijl, quando atuava no serviço de segurança e de fronteiras, em setembro de 1944.
Não há mais testemunhas vivas do crime. Assim, os participantes de um processo anterior contra Bruins estão sendo ouvidos. Brendel olha concentrado, anota, raramente faz uma pergunta adicional às testemunhas.
Nascido na Holanda, Bruins já esteve perante um tribunal em Dortmund em 1980. Na ocasião, o fuzilamento do combatente da resistência foi considerado homicídio culposo. Segundo ele, hoje em dia a questão da malevolência é muito importante, explicou Brendel. "A vítima sabia que ia morrer?", exemplifica. Segundo o promotor, essa questão é avaliada hoje de forma diferente do que na década de 1980. Por esse motivo, Bruins está novamente diante do tribunal.
A Justiça alemã foi particularmente branda durante décadas com criminosos de guerra nazistas? Brendel prefere não comentar, afirma ser uma questão que ele não se coloca – o que soa antes como uma saída pela tangente. Brendel tem outras coisas a fazer: ele quer que seja feita justiça, em vez de questionar por que isso não aconteceu antes.
Pouco tempo, muito a fazer
Brendel e Willms estão em contato durante todas as etapas. "Não passa uma semana sem nos falarmos ao telefone", diz Willms. "Nós nos encontramos pelo menos uma vez por mês." Eles se ajudam um ao outro, também psicologicamente. Afinal de contas, muitas vezes eles não leem nada além que detalhes de assassinatos terríveis, dias a fio. "Não é algo que você simplesmente esqueça numa gaveta."
E há também cartas iradas de protesto, que Brendel recebe de vez em quando, reclamando do fato de ele perseguir idosos. "Via de regra, eu as arquivo", comenta secamente. Mas uma vez recebeu ameaças graves, sua família foi mencionada. "Aí, para mim, acabou-se a brincadeira."
"Havia colegas aqui no escritório que não conseguiam lidar com isso", conta Willms, "então trocaram de cargo". Para os dois investigadores, porém, isso está fora de cogitação. Eles vão continuar, "provavelmente, até que o último criminoso nazista esteja morto", diz Brendel. "O tempo urge. Quando encontramos um criminoso, damos a maior prioridade".
Recentemente anunciou-se que a Alemanha está investigando 30 ex-guardas do campo de concentração de Auschwitz. Alguns dos dossiês foram enviados para Andreas Brendel e Stefan Willms. Eles ainda têm muito que fazer.
  • Autoria Sarah Judith Hofmann (ca)
  • Edição Augusto Valente